{"id":63523,"date":"2023-12-03T07:00:00","date_gmt":"2023-12-03T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalrol.com.br\/?p=63523"},"modified":"2026-03-23T08:50:48","modified_gmt":"2026-03-23T11:50:48","slug":"o-menino-que-brincava-nas-nuvens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=63523","title":{"rendered":"O menino que brincava nas nuvens"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F63523&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F63523&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Sergio Diniz da Costa<br><br> Conto &#8216;O menino que brincava nas nuvens&#8217;<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1194\" height=\"858\" data-attachment-id=\"66950\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=66950\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/20240301_1126302-1.jpg\" data-orig-size=\"1194,858\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;1.8&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;SM-A135M&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1709292390&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;4&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;250&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.016666666666667&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"20240301_112630~2\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Sergio Diniz&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Sergio Diniz&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/20240301_1126302-1.jpg\" src=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/20240301_1126302-1.jpg\" alt=\"Sergio Diniz\" class=\"wp-image-66950\" style=\"aspect-ratio:1.391725235379923;width:212px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/20240301_1126302-1.jpg 1194w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/20240301_1126302-1-768x552.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1194px) 100vw, 1194px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sergio Diniz<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" data-attachment-id=\"63524\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=63524\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/OIG.jpg\" data-orig-size=\"1024,1024\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"OIG\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/OIG.jpg\" src=\"https:\/\/www.jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/OIG.jpg\" alt=\"Menino olhando as nuvens - Imagem criada por IA do Bing\" class=\"wp-image-63524\" style=\"width:324px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Imagem criada por IA do Bing<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Meu compromisso, no centro da cidade, era \u00e0s 17h. Resolvi chegar \u00e0s 16h e sentei-me num dos bancos da pra\u00e7a central de uma das maiores cidades do Interior do Estado de S\u00e3o Paulo, com 361 anos de funda\u00e7\u00e3o e uma popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente 640 mil habitantes, que o tempo, a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica e os empres\u00e1rios e artistas transformaram-na numa bela e progressista cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a maioria de suas ruas asfaltadas, pr\u00e9dios em constru\u00e7\u00e3o pululando por todos os cantos, com\u00e9rcio pujante, com uma mir\u00edade de empresas e pessoas f\u00edsicas prestadoras de servi\u00e7os e uma significativa frota de ve\u00edculos circulando diariamente, reflete bem uma cidade moderna, por\u00e9m com toda sorte de problemas, incluindo a viol\u00eancia, sempre aumentando, como o s\u00e3o os grandes centros urbanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim eu mergulhava em meus pensamentos enquanto, aparentemente ao acaso, abri em uma das p\u00e1ginas do livro de poemas que trouxera, a fim de aguardar o hor\u00e1rio do meu compromisso. No alto da p\u00e1gina, o t\u00edtulo: \u201cEu Sou Aquele Menino\u201d, do poeta brasileiro Paulo Bomfim, membro da Academia Paulista de Letras e conhecido como &#8216;O Pr\u00edncipe dos Poetas Brasileiros&#8217;. Eu j\u00e1 o conhecia e ele se tornara um dos meus preferidos, quando ent\u00e3o estudante do ensino m\u00e9dio, tive a oportunidade de assistir a uma palestra desse grande poeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Grato pelo \u201cacaso\u201d, e j\u00e1 um tanto quanto absorto, comecei a ler os versos, em meia voz:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu sou aquele menino\/ Que o tempo foi devorando,\/ Travessura entardecida,\/ P\u00e9s inquietos silenciando\/ Na rotina dos sapatos,\/ M\u00e3os afagando lembran\u00e7as,\/ Olhos fitos no horizonte\/ \u00c0 espera de outras manh\u00e3s\/\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Ei, mo\u00e7o, t\u00e1 falando sozinho?<\/p>\n\n\n\n<p>Assustado, interrompi a leitura. Um garotinho de camisa branca, short marrom e descal\u00e7o, aparentando cinco anos de idade, me olhava, com uma m\u00e3o segurando os dedos da outra e com uma express\u00e3o interrogativa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Ah, n\u00e3o, eu estava declamando um poema em voz alta. Apenas isso \u2500 respondi, um tanto quanto encabulado e, certamente, corado, uma vez que, em termos de comportamento, sou do tipo sangu\u00edneo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Poema? O que \u00e9 um poema? \u2500 mais uma vez ele me questionou.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta me pegou de surpresa. Em primeiro lugar, por ter vindo de uma crian\u00e7a com t\u00e3o pouca idade. Depois, porque, apesar de eu ser um escritor e poeta \u2500 meu compromisso era com um novo amigo que me pedira ajuda para publicar um livro \u2500, senti-me sem did\u00e1tica suficiente para explicar algo que, para mim, era t\u00e3o simples.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Poema \u00e9 um\u2026 \u00e9 um\u2026. Travei! De repente, olhando para dentro de mim mesmo parecia que toda a teoria desse g\u00eanero liter\u00e1rio sumira da minha mem\u00f3ria, apesar de t\u00e3o bem guardada que estava (assim eu pensava) no meu c\u00e9rebro, na gaveta &#8216;Poemas&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE agora, Jos\u00e9?\u201d \u2500 pensei rapidamente com meus bot\u00f5es, lembrando o famoso poema do inesquec\u00edvel poeta mineiro Drummond de Andrade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda imerso em pensamentos confusos, e sem a resposta esperada, quase que respondi a ele, como respondeu Drummond, no mesmo poema: \u201c\u2026 A festa acabou\/ a luz apagou,\/ o povo sumiu,\/ a noite esfriou\u2026\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, em me sentindo o mesmo Jos\u00e9 de Drummond, percebi que aquele garotinho tinha-me colocado contra a parede. E, de repente, n\u00e3o mais que de repente (como diria o &#8216;Poetinha&#8217;, Vinicius de Moraes), essa sensa\u00e7\u00e3o me trouxe certa irrita\u00e7\u00e3o, pois, afinal de contas, aquele filhote de homem colocara em xeque um adulto estudado, um escritor, um intelectual, e a primeira vontade que tive foi de mandar aquele pingo de gente procurar seus pais. \u201cAli\u00e1s, onde estavam os pais dele?\u201d Perguntei a mim mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de responder a ele, perguntei-lhe:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Como \u00e9 o seu nome, meu filho?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Tato! \u2500 ele respondeu com certo orgulho no olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Tato?! \u2500 exclamei, agradavelmente surpreso, pois esse tamb\u00e9m era o meu apelido de inf\u00e2ncia. E, a partir daquele momento, senti um carinho e admira\u00e7\u00e3o especiais por aquele menino questionador.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Quantos anos voc\u00ea tem, meu jovem curioso?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele me apontou uma das m\u00e3os aberta e respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Assim, \u00f3!<\/p>\n\n\n\n<p>Entendi que ele queria dizer 5 anos e somente naquele momento me chamou a aten\u00e7\u00e3o algo em seu rosto: uma cicatriz!<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela constata\u00e7\u00e3o, aliada \u00e0 idade dele, me causou uma estranh\u00edssima sensa\u00e7\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o de d\u00e9j\u00e0 vu, uma vez que eu, na mesma idade dele, fui v\u00edtima de um acidente caseiro que me custou uma cicatriz&nbsp;\u2500 e no mesmo lado do rosto que a dele! \u2500, fato esse que me transformou num menino e adolescente t\u00edmido e complexado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o me trouxe um sentimento de profunda simpatia e solidariedade por aquele garotinho. E l\u00e1grimas abundantes, tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Senti uma vontade irreprim\u00edvel de abra\u00e7\u00e1-lo, de peg\u00e1-lo em meu colo, de fazer milhares de perguntas sobre sua vida\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>E levantei-me, a fim de fazer isso. Todavia, algo ainda mais estranho aconteceu: aquela figura simplesmente desapareceu da minha vis\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Estupefato, deixei-me cair sentado no banco, mergulhado num turbilh\u00e3o de perguntas sem respostas. E, num primeiro momento, senti vontade de sair correndo, correndo daquela pra\u00e7a, sem nenhum destino, \u00e0 espera, talvez, de que o vento no meu rosto decifrasse as d\u00favidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o adulto que me tornei falou mais alto e, respirando calma e profundamente, tentei me recompor e, como se nada tivesse acontecido, meio que automaticamente, continuei a leitura, agora em voz alta, do poema iniciado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2500 Ai palet\u00f3s, ai gravatas,\/ Ai cansadas cerim\u00f4nias,\/ Ai rituais de espera-morte!\/ Quem me devolve o menino\/ Sem estes passos solenes,\/ Sem pensamentos grisalhos,\/ Sem o sorriso cansado! Que varandas me convidam\/ A ser crian\u00e7a de novo,\/ Que mulheres, s\u00f3 meninas,\/ Me tentam cabular\/ As aulas do dia a dia?\/ Eu sou aquele menino\/ Que cresceu por distra\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mal terminando a leitura, senti que meus olhos j\u00e1 n\u00e3o focavam mais o ambiente em que me encontrava; um estado de devaneio come\u00e7ou a tomar-me o corpo, a mente e o esp\u00edrito. J\u00e1 n\u00e3o conseguia mais sentir o pr\u00f3prio corpo e o som ambiente: uma mistura de buzinas, m\u00fasica de publicidade e vozes, destacando-se a de um evang\u00e9lico que pregava como um Jo\u00e3o Batista no deserto. Tudo come\u00e7ava a diminuir de intensidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ponteiros do rel\u00f3gio giraram no sentido anti-hor\u00e1rio. Os segundos, os minutos, as horas, os dias, os meses, os anos escoaram numa velocidade vertiginosa, como se aquela ampulheta imagin\u00e1ria fosse a M\u00e1quina do Tempo, da fant\u00e1stica hist\u00f3ria de H.G. Wells. E, de repente parando, \u00e0 minha frente uma folhinha pendurada na parede apontou o ano: 1965. Cinquenta anos se passaram, numa volta ao passado!<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos numa tarde de ver\u00e3o de uma Sorocaba de meio s\u00e9culo atr\u00e1s, com uma popula\u00e7\u00e3o cujo censo de 1960 apontava uma popula\u00e7\u00e3o de 138.323 habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 cinquenta anos, a cidade tropeira j\u00e1 se destacava na regi\u00e3o pelo n\u00famero de habitantes, mas, apesar disso, ainda era uma t\u00edpica cidade do Interior, com muitas \u00e1reas verdes (e mato), ruas de paralelep\u00edpedos e de terra onde, nestas, a crian\u00e7ada fazia buracos no ch\u00e3o pra brincar de bolinha de gude ou de cachuleta, ou, ainda, de pega-pega, unha na mula&nbsp; e outras brincadeiras que o Tempo levou consigo para as P\u00e1ginas da Mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma \u00e9poca em que os ponteiros do rel\u00f3gio pareciam caminhar a passos lentos e os dias escoavam como a pr\u00f3pria eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7o a caminhar por uma das ruas, sentindo-me como um espectro, um fantasma semelhante a Ebenezer Scrooge, o velho avarento de \u2018Um Conto de Natal\u2019, c\u00e9lebre hist\u00f3ria do escritor ingl\u00eas Charles Dickens.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela rua me desperta uma emo\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito tempo n\u00e3o sentida. Uma saudade dolorida de um tempo em que, nos bairros, principalmente os mais pobres, os vizinhos mantinham uma rela\u00e7\u00e3o de amizade muito pr\u00f3xima.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouqu\u00edssimas casas tinham televisores \u2500 em preto e branco \u2500, o que levava os vizinhos que os tinham a abrir a casa para os que n\u00e3o desfrutavam desse privil\u00e9gio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas festas mais importantes do ano, como o Natal, todas as portas se mantinham abertas para um interc\u00e2mbio de frutas natalinas e de quitutes, conforme a especialidade de cada vizinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminho absorto, \u00e0 procura de pessoas queridas, por\u00e9m, apenas ouvindo ecos do passado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um final de uma tarde de ver\u00e3o e, no mesmo lugar de sempre, deparo-me com o menino que um dia eu fui. Um menino de 5 anos de idade, com um corte de cabelo tipo \u2018americano\u2019, de camisa branca (j\u00e1 um tanto surrada), de cal\u00e7\u00e3o e descal\u00e7o, sentadinho no degrau de uma casa.<\/p>\n\n\n\n<p>A rua, \u00e0quela hora, j\u00e1 se mostrava praticamente vazia. Ele era a \u00fanica crian\u00e7a fora de casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os vizinhos j\u00e1 conheciam o garoto e sua inclina\u00e7\u00e3o contemplativa e j\u00e1 n\u00e3o mais estranhavam aquela figura mi\u00fada, magrinha que, de vez em quando, mergulhado em pensamentos, saboreava um peda\u00e7o de p\u00e3o seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Um passante mais atento talvez observasse que ele, naquele momento eterno, olhava apenas para cima. E um ou outro at\u00e9 perguntava o que ele estava fazendo. E, para quem perguntasse, a resposta era sempre a mesma: olhando as nuvens!<\/p>\n\n\n\n<p>Para os adultos, em particular as mulheres, olhar as nuvens parecia coisa pr\u00f3pria de quem quer verificar o tempo, para poder secar roupas no varal. Ou de meteorologistas, antes de consultar seus gr\u00e1ficos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para aquele menino, todavia, as nuvens tinham outro significado. Principalmente as do tipo \u2018cumulus\u2019, que s\u00e3o aquelas de contornos n\u00edtidos, com base aplainada e bem definidas, formadas em baixas altitudes e que, sob a \u00f3tica dele lembravam montanhas, castelos e animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para aquele menino sonhador, de um tempo de inf\u00e2ncia interiorana, de horas lentas, ruas de terra ou de paralelep\u00edpedos e de poucos carros, aquelas nuvens representavam um enorme Parque de Divers\u00f5es. E seu desejo era, um dia, alcan\u00e7ar o topo daqueles algod\u00f5es branqu\u00edssimos que, para ele, tinham consist\u00eancia e poderiam, dessa forma, ser escalados.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu sonho, no entanto, tinha um obst\u00e1culo intranspon\u00edvel: como chegar at\u00e9 elas? E os dias passavam, as tardes se faziam noite e, nos outros dias, pelo ver\u00e3o afora, l\u00e1 estava aquele pequeno \u2018fil\u00f3sofo da natureza\u2019, \u00e0 espera de um foguete imagin\u00e1rio ou mesmo um Pegasus que o levaria, literalmente, &#8216;\u00e0s nuvens&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os vizinhos em geral j\u00e1 n\u00e3o estranhavam aquele devaneio di\u00e1rio, um ou outro o interpelava, zombando dele ou apenas a t\u00edtulo de curiosidade:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Tato, mas por que tanto voc\u00ea olha paras as nuvens?<\/p>\n\n\n\n<p>E a mesma resposta j\u00e1 estava na ponta da l\u00edngua:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Por que eu gosto, u\u00e9!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 E por que voc\u00ea gosta tanto assim de ver as nuvens?<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela pergunta parecia exercer um efeito m\u00e1gico no esp\u00edrito do menino e ele, feito um adulto, um cientista ou, mais precisamente, um poeta, respondia, entusiasmado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 T\u00e1 vendo aquela ali? \u2500 E, apontando para uma n\u00e3o muito arredondada, a definia:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 Aquela parece um cachorro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2500 E aquela outra, bem grande, no meio do c\u00e9u? Aquela \u00e9 a que eu mais gosto. Ela parece assim como se fosse um monte de travesseiros, um em cima do outro, formando uma montanha. Eu morro de vontade de subir e de brincar nela!<\/p>\n\n\n\n<p>Os adultos sorriam diante daquelas palavras, para eles t\u00e3o destitu\u00eddas de realidade. E, despedindo-se do menino, certamente pensavam: \u201cCrian\u00e7a tem tanta imagina\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E o menino ali continuava, qual uma sentinela. E, naqueles poucos e fugidios momentos, como num filme projetado em alta velocidade, o vi crescendo; crescendo e continuando a querer brincar nas nuvens.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, assim como as nuvens se desmancham, sopradas pelo vento, aquele menino foi se desfazendo \u00e0 minha frente e, com ele, as casas, a rua toda\u2026 e a minha inf\u00e2ncia, tamb\u00e9m!<\/p>\n\n\n\n<p>Uma sirene ecoou estridentemente no ar e meu cora\u00e7\u00e3o disparou. Abri meus olhos e, assustado e decepcionado, percebi que estivera sonhando. Estava na mesma pra\u00e7a onde ouvia as mesmas buzinas, a mesma m\u00fasica de publicidade e as mesmas vozes, num ru\u00eddo que parecia ensurdecedor.<\/p>\n\n\n\n<p>Consultei o meu rel\u00f3gio: marcava 16h15. Praticamente o mesmo hor\u00e1rio em que conversava com o menino.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um sentimento de tristeza a apertar meu peito, n\u00e3o senti vontade de continuar a leitura dos poemas. E, menos ainda, de me levantar do banco.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, logo mais teria que cumprir o compromisso assumido.<\/p>\n\n\n\n<p>Num esfor\u00e7o redobrado, reuni for\u00e7as e levantei-me, ainda visivelmente contrariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento um homem passou por mim carregando um espelho grande. Olhei para ele e me vi refletido. E me vi ainda mais velho e abatido, como se o espelho fosse o famoso retrato de Dorian Gray.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma brisa, por\u00e9m, pareceu ro\u00e7ar meu rosto. Apesar da tarde quente e sem vento, podia jurar que em todas as \u00e1rvores ao redor as folhas se agitavam, suavemente.<\/p>\n\n\n\n<p>Um passarinho multicolorido voou de uma das \u00e1rvores em minha dire\u00e7\u00e3o e, passando por mim, ganhou altura.<\/p>\n\n\n\n<p>Segui seu voo com meus olhos e, somente naquele momento, percebi uma gigantesca nuvem cumulus bem no centro da minha vis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E, no topo dela, alguma coisa me chamou a aten\u00e7\u00e3o: era um menino!<\/p>\n\n\n\n<p>Um menino que brincava nas nuvens!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><br><strong>Sergio Diniz da Costa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><br>Contatos com o autor<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-pale-ocean-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.recantodasletras.com.br\/autor_textos.php?id=173342\" title=\"Recanto das Letras\">Recanto das Letras<\/a><\/h4>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-pale-ocean-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.pensador.com\/autor\/sergio_diniz_da_costa\/\" title=\"Pensador\">Pensador<\/a><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><br>Voltar: <a href=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\" title=\"\">http:\/\/www.jornalrol.com.br<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Facebook: <a href=\"https:\/\/facebook.com\/JCulturalRol\/\" title=\"\">https:\/\/facebook.com\/JCulturalRol\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu compromisso, no centro da cidade, era \u00e0s 17h. 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