{"id":65242,"date":"2024-03-22T07:45:00","date_gmt":"2024-03-22T10:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=65242"},"modified":"2024-08-05T15:15:01","modified_gmt":"2024-08-05T18:15:01","slug":"o-animal-cordial-a-duplicidade-homem-e-fera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=65242","title":{"rendered":"O Animal Cordial: a duplicidade homem e fera\u00a0"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F65242&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F65242&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">COLUNA CINEMA E PSICAN\u00c1LISE<\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Marcus Hemerly e Bruna Rosalem: <\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">&#8216;O Animal Cordial: a duplicidade homem e fera&#8217;&nbsp;<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1080\" data-attachment-id=\"65243\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=65243\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/card.jpg\" data-orig-size=\"1920,1080\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"card\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/card.jpg\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/card.jpg\" alt=\"Card da coluna Cinema e Psican\u00e1lise\" class=\"wp-image-65243\" style=\"width:636px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/card.jpg 1920w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/card-1200x675.jpg 1200w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/card-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/card-1536x864.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Card da coluna Cinema e Psican\u00e1lise<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>\u201cConheces esse mist\u00e9rio? O estranho \u00e9 que a beleza \u00e9 uma coisa n\u00e3o somente terr\u00edvel como tamb\u00e9m misteriosa. \u00c9 o diabo em luta com Deus e o campo de batalha \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o dos homens\u201d.&nbsp;<\/strong><br><strong>Irm\u00e3os Karamazov. Dostoi\u00e9vsky. Por Marcus Hemerly e Bruna Rosalem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">O cinema brasileiro \u00e9 bem definido sob o ponto de vista de per\u00edodos e sua intera\u00e7\u00e3o\/comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De um lado, historicamente, quando se contempla as tend\u00eancias na produ\u00e7\u00e3o sob o ponto de vista autoral ou comercial \u2013 ainda que se trata de manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u2013 inolvid\u00e1vel se mostra lembrar do cinema novo, o cinema marginal, e ainda, voltando um pouco mais no tempo, das chanchadas realizadas pela Vera Cruz e Atl\u00e2ntica. Houve um tempo, no qual o brasileiro fazia cinema para o brasileiro, quando os t\u00edtulos mais intelectualizados, ou mesmo apelativos da Boca do Lixo, disputavam p\u00fablico com aos <em>blockbusters<\/em> americanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paralelamente \u00e0s produtoras independentes, as leis de reserva de mercado ou a posterior cria\u00e7\u00e3o da Embrafilme, \u00e9 poss\u00edvel asseverar que mesmo de forma velada, o terror esteve sempre presente nesse panorama evolutivo. No entanto, que terror? Por \u00f3bvio, as diversas facetas do horror se desvelam a partir de nuances indiretas, at\u00e9 mesmo n\u00e3o identific\u00e1veis prontamente como tal; seja por sua inser\u00e7\u00e3o na com\u00e9dia, seja em raz\u00e3o das deriva\u00e7\u00f5es n\u00e3o percept\u00edveis como no cinema importado, de alto investimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De um lado, temos os lobisomens, vampiros e demais criaturas sobrenaturais \u2013 assim como os famosos monstros da Universal Studios \u2013 evidenciando de maneira incontest\u00e1vel a natureza e inten\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. No Brasil, contudo, o horror, at\u00e9 mesmo por escassez de recursos, gravita de forma velada, psicol\u00f3gica, n\u00e3o raro, simb\u00f3lica, a partir de sutilezas que se coadunam com o conflito interior e, n\u00e3o raro, o social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Importante pontuar que esta tend\u00eancia \u00e9 notada em outras nacionalidades, de igual forma despidas de investimento mais significativos, em formata\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica que remete \u00e0 limita\u00e7\u00e3o como elemento criativo inovador. Com a dita retomada da produ\u00e7\u00e3o nacional, entre grandes or\u00e7amentos e realiza\u00e7\u00f5es independentes, dos mais variados g\u00eaneros e matizes, o terror, renove-se, sempre foi objeto de revisita\u00e7\u00e3o, e, n\u00e3o apenas isso, praticamente atua como significativa parcelas dos t\u00edtulos elencados nos \u00faltimos tempos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme adiantado, apesar de irradiar as fei\u00e7\u00f5es do horror das mais vers\u00e1teis formas, cite-se o recorrentemente referido \u201cO Jovem Tatarav\u00f4\u201d, com\u00e9dia fant\u00e1stica de 1936, o primeiro filme autenticamente rotulado como pertencente ao g\u00eanero Terror, inclusive, autotitulado como tal, foi a parte inicial da trilogia Z\u00e9 do Caix\u00e3o, concebida por Jos\u00e9 M\u00f4nica Marins, em \u201c\u00c0 meia-noite levarei sua alma\u201d, lan\u00e7ado em 1964. Novamente, vemos o sobrenatural alinhado \u00e0s crendices populares al\u00e9m de viola\u00e7\u00e3o a concep\u00e7\u00f5es morais e religiosas que, no contexto sociol\u00f3gico da \u00e9poca, amoldam rep\u00fadio e desconforto, assim como se assentariam na contemporaneidade os <em>jump scares<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas d\u00e9cadas subsequentes, ap\u00f3s a crise do Polo Paulista nos anos 90, as realiza\u00e7\u00f5es pontuais no meio carioca, a extin\u00e7\u00e3o da Embrafilme e do Concine, a partir de v\u00e1rios fatores, se desembocaria na redescoberta do cinema nacional. Entre realiza\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias e as produ\u00e7\u00f5es de guerrilha com baix\u00edssimo or\u00e7amento, a arte floresce justamente no nicho naturalmente discriminado ou outrora relegado como impratic\u00e1vel em terras tupiniquins. O terror. Ressaltando, por \u00f3bvio, o estilo pr\u00f3prio que desborda em tra\u00e7os mais humanos, psicol\u00f3gicos e, recorrentemente, retratando problem\u00e1ticas sociol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesses meandros criativos, salta aos olhos dos apreciadores da s\u00e9tima arte o curioso roteiro concebido e dirigido por Gabriela Almeida Amaral, que havia chamado a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica pelo bem esmerado curta-metragem \u201cA M\u00e3o Que Afaga (2012), agora destacando-se no longa O Animal Cordial, (2017). Na fita, Murilo Ben\u00edcio, replicando a \u00f3tima atua\u00e7\u00e3o em O Homem do Ano \u2013 a despeito dos vieses distintos \u2013 vive o dono de restaurante In\u00e1cio. Nos primeiros momentos da sequ\u00eancia de abertura, nos deparamos com a tens\u00e3o entre o patr\u00e3o e os empregados do restaurante, principalmente com o cozinheiro, interpretado por Irandhir Santos. A dedica\u00e7\u00e3o, ainda que artificial, permeada pelo aparente senso de deslocamento, intercalado ainda por uma prov\u00e1vel tens\u00e3o matrimonial sinalizada de forma indireta, \u00e9 interrompida por um assalto nas depend\u00eancias do estabelecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse passo, um libertar gradual de amarras sociais se desenvolve pelo suspense palp\u00e1vel nos di\u00e1logos e a\u00e7\u00f5es surpreendentes, culminando num derradeiro, e gr\u00e1fico, romper com a cordialidade do contrato social e dar de m\u00e3os ao lado animalesco de In\u00e1cio. Aparentemente, o cotidiano do restaurante caminhava de maneira rotineira, aos poucos apresentando seus personagens: o dono, o cozinheiro, a gar\u00e7onete, os clientes. Por\u00e9m, aos quinze minutos finais do encerramento do expediente naquela noite, chega um animado casal que solicita uma refei\u00e7\u00e3o \u00e0 base de coelho acompanhada do melhor vinho da casa. De repente, dois homens armados entram no estabelecimento, anunciam um assalto e rende a todos presentes. Dali para frente, a trama ganha novos contornos que flertam com o suspense, gore, sexo selvagem e cenas violentas regadas a sangue e suor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fotografia chama aten\u00e7\u00e3o ao pintar a tela com cores vermelhas vibrantes, tons marrons, remetendo ao ch\u00e3o de madeira que constantemente era esfregado para limpar o sangue das v\u00edtimas, cores terrosas, fazendo combina\u00e7\u00f5es com alguns ambientes mais escurecidos e claustrof\u00f3bicos, acentuados pelo espa\u00e7o de intera\u00e7\u00e3o dos personagens e seu contorno minimalista, aspecto bem desenvolvida do roteiro.&nbsp; A cozinha, sempre muito clara, contrasta perfeitamente com as l\u00e2minas sujas e os cortes das carnes frescas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assistimos gradativamente a uma ruptura daquele ritmo vagaroso de um restaurante prestes a findar suas atividades daquele dia, para um ca\u00f3tico e fren\u00e9tico evento que revelaria o lado mais selvagem e brutal n\u00e3o s\u00f3 de In\u00e1cio, como tamb\u00e9m da gar\u00e7onete Sara. Exaltados, ambos parecem ansiar por dom\u00ednio, poder e destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No livro \u201cO Animal Social\u201d, do psic\u00f3logo e professor em\u00e9rito da Universidade da Calif\u00f3rnia, Elliot Aronson, h\u00e1 uma interessante investiga\u00e7\u00e3o sobre o comportamento humano. Perguntas que ecoam do tipo: o que leva um cidad\u00e3o honesto a tomar uma atitude imoral? Como surge a agressividade? Por que pessoas que n\u00e3o s\u00e3o loucas fazem loucuras? Entre outros questionamentos sob a \u00f3tica da psicologia social. Nesta obra, o autor cita v\u00e1rios experimentos que visam \u201ctestar\u201d atitudes humanas frente a determinadas situa\u00e7\u00f5es. Muitas vezes, o resultado apontava, por exemplo, que certas caracter\u00edsticas do ambiente e do contexto em si levavam a comportamentos diferentes diante das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 numa \u00f3tica psicanal\u00edtica, temos a ideia de um sujeito estrutural pulsional que manifesta, sob determinados limites da civiliza\u00e7\u00e3o e da cultura, \u00edmpetos, puls\u00f5es que s\u00e3o inesgot\u00e1veis: sexualidade, agressividade e puls\u00e3o de morte. S\u00e3o for\u00e7as constantes que precisam ser, de alguma maneira, apaziguadas para conseguirmos viver em sociedade e criar la\u00e7os comunit\u00e1rios. Aquela velha hist\u00f3ria do homem culto e civilizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em dois textos ic\u00f4nicos escrito por S. Freud em 1930, \u201cO Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d e o \u201cMal-estar na cultura\u201d, o pensador do psiquismo mais famoso da Hist\u00f3ria nos coloca que a repress\u00e3o das puls\u00f5es se mantem a servi\u00e7o da socializa\u00e7\u00e3o, uma vez que para criar la\u00e7os sociais, sustent\u00e1-los e interagir com o semelhante sem destru\u00ed-lo, h\u00e1 que se renunciar nossos mais pulsantes \u00edmpetos, sejam eles sexuais ou agressivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo assim, ainda que tenhamos que fazer isso enquanto sujeitos que precisam lutar contra a puls\u00e3o de morte, n\u00e3o nos impede em certa medida de orquestrarmos guerras, massacres, ataques ao semelhante, a destrui\u00e7\u00e3o dos outros seres que habitam o mundo e a natureza que nos cerca. \u00c0 \u00e9poca (1932), questionado, Freud recebe uma carta do famoso cientista Albert Einstein, indagando justamente sobre as motiva\u00e7\u00f5es que levam os seres humanos a travar grandes e violentos embates, resultando em milhares de mortes. Ser\u00e1 que realmente h\u00e1 vencedores numa guerra? Naquele momento e espa\u00e7o, a partir da ruptura \u2013 intencional ? \u2013 com a realidade e <em>modus vivendi<\/em> dito apropriado, traceja-se a verdade batalha, interior ou coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente o premiado filme alem\u00e3o \u201cNada de novo no front\u201d retrata da maneira mais visceral, cruel e fria poss\u00edvel, os horrores da Primeira Guerra Mundial, nos inserindo ao longo da trama bel\u00edssima em fotografia e trilha sonora original, algo extremamente terr\u00edvel: pessoas matando pessoas sem nem mesmo saber o porqu\u00ea daquilo. Jovens vendo seus amigos definharem, deixando fam\u00edlias e sonhos para sempre. Neste cen\u00e1rio real e, porque n\u00e3o, subjetivo, o c\u00e9lebre mandamento b\u00edblico \u201cAmai o pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d, torna-se praticamente imposs\u00edvel, pois n\u00e3o somente destru\u00edmos o outro, antes, somos capazes de tamb\u00e9m destruir a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos caminhos das puls\u00f5es para atingir outras metas mais aceit\u00e1veis socialmente, diria Freud, \u00e9 o da sublima\u00e7\u00e3o. Desviar, por exemplo, a agressividade para a pr\u00e1tica de um esporte, ou ainda, para diversas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Contraditoriamente, at\u00e9 mesmo a guerra pode ser um ato sublimat\u00f3rio, pois sob o apote\u00f3tico discurso de defesa e honra da na\u00e7\u00e3o, haja luz, faz-se a guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltando \u00e0 pel\u00edcula, no caso de In\u00e1cio, a presen\u00e7a voraz dos assaltantes e a ousadia reveladora de sua gar\u00e7onete sedenta por a\u00e7\u00e3o, quase que por virar o jogo, antes obediente, agora dita as regras da situa\u00e7\u00e3o, podem ter despertado a \u201cfera\u201d adormecida quando viu ali uma oportunidade de para al\u00e9m de defender seu territ\u00f3rio, exercer for\u00e7a, dom\u00ednio, viol\u00eancia, subjugar o pr\u00f3ximo, acu\u00e1-lo, como um felino que brinca com sua presa antes de mat\u00e1-la e devor\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes do assalto, In\u00e1cio expressa caras e bocas diante de um espelho, na tentativa de sustentar um semblante de homem fino, exigente, controlador (inclusive, h\u00e1 uma passagem ao telefone em que ele demonstra tal comportamento ao dialogar com sua esposa). Ele faz ensaios, forja sua m\u00e1scara social enquanto artif\u00edcio para transitar nos mais diversos ambientes que exigem cordialidade, gentileza, compostura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser\u00e1 que ser dono do restaurante, aos olhos da sociedade, um empres\u00e1rio bem-sucedido, seria o caminho encontrado por In\u00e1cio para conter seus mais bestiais desejos? Afinal, quando os assaltantes adentraram em seu estabelecimento, em momento algum quis chamar a pol\u00edcia, ou seja, uma ajuda externa. Ele mesmo reuniu toda sua ira para afrontar aquelas pessoas e defender sua propriedade. Ali, sob o pretexto de ser roubado, permitiu revelar sua selvageria e brutalidade. O horror irrompeu naquela figura humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o filme queira nos dizer que qualquer pessoa pode se tornar um assassino em potencial, um lado obscuro habita em todos n\u00f3s. Para longe de qualquer hipocrisia. No entanto, como \u00e9 imposs\u00edvel tal comportamento para vivermos em comunidade, talvez s\u00f3 nos restaria a morte. O desfecho da pel\u00edcula parece apontar isso. In\u00e1cio, a fera, \u00e9 morto. Para a gar\u00e7onete, ter dominado aquele cen\u00e1rio grotesco ocorrido no restaurante j\u00e1 n\u00e3o bastava, era preciso incorporar In\u00e1cio para si, num movimento que mescla o prazer de preparar um suculento prato, com a morbidez de tornar aquele corpo, meros retalhos. Sara, a deusa Ammit, devoradora de almas, encerra seu ato de maneira memor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><br><strong>Bruna Rosalem e Marcus Hemerly<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><br>Contatos com os autores<\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Bruna Rosalem<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-blush-light-purple-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/@psicanalistabrunarosalem\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"Instagram\">Instagram<\/a><\/h4>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-blush-light-purple-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/psicanaliseecotidiano.com.br\" title=\"Saite\">Saite<\/a><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Marcus Hemerly<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-pale-ocean-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcus.hemerly?locale=pt_BR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/h4>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-pale-ocean-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/marcus_hemerly\/\" title=\"Instagram\">Instagram<\/a><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltar: <a href=\"https:\/\/www.jornalrol.com.br\/\" title=\"\">https:\/\/www.jornalrol.com.br\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Facebook: <a href=\"https:\/\/facebook.com\/JCulturalRol\/\" title=\"\">https:\/\/facebook.com\/JCulturalRol\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema brasileiro \u00e9 bem definido sob o ponto de vista de per\u00edodos e sua intera\u00e7\u00e3o\/comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico. 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