{"id":71721,"date":"2025-01-28T11:47:50","date_gmt":"2025-01-28T14:47:50","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=71721"},"modified":"2025-01-28T11:49:06","modified_gmt":"2025-01-28T14:49:06","slug":"vida-de-madame","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=71721","title":{"rendered":"Vida de madame"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F71721&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F71721&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Nilza Murakawa: Conto &#8216;Vida de madame&#8217;<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"828\" data-attachment-id=\"71571\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=71571\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n.jpg\" data-orig-size=\"828,828\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Nilza Murakawa&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Nilza Murakawa&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n.jpg\" src=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n.jpg\" alt=\"Nilza Murakawa\" class=\"wp-image-71571\" style=\"width:92px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n.jpg 828w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n-600x600.jpg 600w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nilza Murakawa<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" data-attachment-id=\"71722\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=71722\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Funeral-Sinclair.jpg\" data-orig-size=\"1024,1024\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Funeral Sinclair\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Funeral-Sinclair.jpg\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Funeral-Sinclair.jpg\" alt=\"Imagem criada por IA do Bing - 25 de janeiro de \/2025\n \u00e0s 8:04\" class=\"wp-image-71722\" style=\"width:354px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Funeral-Sinclair.jpg 1024w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Funeral-Sinclair-600x600.jpg 600w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Funeral-Sinclair-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem criada por IA do Bing &#8211; 25 de janeiro de \/2025<br> \u00e0s 8:04<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">As l\u00e1grimas vieram mais tarde. As l\u00e1grimas de Margaret Sinclair, dessas com gosto de sal de liberdade,&nbsp; vieram dois meses depois da cerim\u00f4nia na capela, quando finalmente se deu a ruptura das correntes e peias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dois anos, numa manh\u00e3 de outono mansa, quando o c\u00e9u, um manto azul bem claro, sem m\u00e1cula,\u00a0 suavemente se estendia sobre a Capela Saint-Augustin, enquanto o Sol, um artista dedicado e ing\u00eanuo, lan\u00e7ava\u00a0 pequenas centelhas douradas que penetravam os galhos de bra\u00e7os timidamente erguidos das \u00e1rvores que\u00a0 compunham o paisagismo do local, envolvendo-o em um jogo imparcial de luz e sombra.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A capela, guardi\u00e3 de segredos de 16 s\u00e9culos do santo, sofisticadamente pronta, entre duas kaizukas esguias,&nbsp; aguardava paciente os fi\u00e9is e infi\u00e9is em seu interior sagrado.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Velas nobres Aquiesse\u00ae Mandarin Tea, perfumad\u00edssimas, em casti\u00e7ais pesados de bronze, arranjos florais&nbsp; exuberantes, com aromas de jasmim e s\u00e2ndalo, e a delicadeza das orqu\u00eddeas brancas bem acomodadas, foram&nbsp; dispostos em cada canto. As paredes, com pain\u00e9is mornos de carvalho castanho-escuro em suas metades,&nbsp; apenas foram limpas. No centro, um grande crucifixo de madeira cinzelada, um vigilante silencioso, pendia acima do altar, que, sem degrau elevado, foi coberto por um tecido novo de veludo profundo. Ao longo do&nbsp; corredor central, um tapete comprido e estreito de tramas fechadas, testemunha emudecida que n\u00e3o validaria&nbsp; p\u00e9s nem passos. Os vitrais coloridos, bem lavados, nem alegres nem tristes, refletiam a luz das velas de&nbsp; chamas ainda quietas e comportadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Impecavelmente preparadas, as duas salas integradas \u00e0 parte posterior da capela tamb\u00e9m n\u00e3o apresentavam ind\u00edcios de odores caracter\u00edsticos de formol, de cera queimada ou de flores de caules j\u00e1 amolecidos mergulhados em \u00e1guas turvas, que poderiam trair a suntuosidade. O eventual cheiro de mofo ou de spray de&nbsp; naftalina de ternos pretos guardados e de almas deslavadas n\u00e3o era de sua responsabilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A cerim\u00f4nia foi restrita a convidados selecionados por ela, entre eles alguns enlutados hip\u00f3critas, tr\u00eas rep\u00f3rteres bem vestidos e equipados, \u00e1vidos por registrar dores e desgra\u00e7as alheias, frustrados a posteriori, e&nbsp; outros escolhidos a dedo. Margaret fez quest\u00e3o de dar ao marido um vel\u00f3rio pomposo, mesmo que ele n\u00e3o o&nbsp; merecesse, j\u00e1 que, entre outros dissabores, vinha traindo-a com uma pedante socialite ali presente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Margaret chegou premeditadamente uma hora depois do hor\u00e1rio marcado para o in\u00edcio da cerim\u00f4nia. Ao entrar na capela irradiando luz \u2014 forjada, mas n\u00e3o vis\u00edvel a olhos nus \u2014 com Caron\u00ae Fleur de Rocaille na&nbsp; pele, de salto alto, equilibrada e deslumbrante dentro de um vestido Chanel\u00ae vermelho-Borgonha sem&nbsp; detalhes, apenas um decote nas costas, com um chap\u00e9u discreto cl\u00e1ssico com v\u00e9u curto gracioso da mesma&nbsp; cor, ouviu-se o j\u00e1 esperado murmurinho.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tornar mais amena sua pr\u00f3pria fragilidade e sombra, e conter em pouco tempo sua ira em ebuli\u00e7\u00e3o justificada exigiu uma constru\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, um ensaio improvisado, rodriguiano, diante do espelho que a conhecia bem.&nbsp; Seus movimentos, calculados na medida certa da serenidade e discri\u00e7\u00e3o, foram observados, fotografados e mostravam que ela tinha o dom\u00ednio de si e da situa\u00e7\u00e3o. Embora o instante fosse delicado, ela permanecia&nbsp; composta. Inacreditavelmente composta.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstes s\u00e3o apenas os primeiros acordes do meu grito,\u201d segredou Margaret, com um cauteloso meio sorriso de&nbsp; canto de boca, a um velho amigo que acabara de elogi\u00e1-la baixinho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As coroas de flores, com faixas de mensagens cor de ouro ou de prata dispostas na diagonal, n\u00e3o foram&nbsp; ofertadas por ningu\u00e9m; por isso n\u00e3o havia nenhuma. Nenhuma.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas dos quatro \u00fanicos parentes do finado apresentaram, no dia anterior, pretextos t\u00e3o d\u00e9beis quanto a pr\u00f3pria&nbsp; rela\u00e7\u00e3o com ele para se livrarem e n\u00e3o compareceram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a crema\u00e7\u00e3o em uma das salas exclusivas, descobertas, deslealdade, revela\u00e7\u00f5es e mist\u00e9rio (para aqueles&nbsp; que sabiam ler nas entrelinhas) estavam impl\u00edcitos nos estojos de luxo com tr\u00eas velas Aquiesse\u00ae \u2014 Rose&nbsp; Peach, Vanilla Cinnamon e Jasmine Lavender \u2014 dentro de porta-velas rendados, nos vasos com \u00edris negras e&nbsp; nas minis esculturas de Medeia que foram oferecidos como lembran\u00e7as aos presentes por Margaret. Ela encerrou a cerim\u00f4nia ali, erguendo uma ta\u00e7a de Ch\u00e2teau Latour\u00ae, que envelhece bem e melhora com o tempo,&nbsp; servido em temperatura fresca em ta\u00e7as com bojo amplo, seu vinho preferido, n\u00e3o o do falecido: \u201cBrindemos \u00e0&nbsp; mem\u00f3ria de Alexander! Vida longa a quase todos!\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela saiu do mesmo jeito que entrou, e sem olhar para tr\u00e1s.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias que se seguiram, as colunas sociais fervilharam com coment\u00e1rios um tanto azedos:&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Rompendo com o convencional, o funeral de Alexander Sinclair foi marcado pela suntuosidade da decora\u00e7\u00e3o em um lugar privilegiado, vinhos, lembran\u00e7as de luxo e o traje Chanel vermelho-Borgonha da&nbsp; vi\u00fava Margaret. Tranquila e intr\u00e9pida, despertou curiosidade, falat\u00f3rios e deslumbre.&nbsp; (Foto: Margaret Sinclair, no funeral) \u2014 Gazeta de Elite\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;O adeus ao engenheiro Alexander Sinclair cercou-se de luxo, mist\u00e9rio e a serenidade intrigante da vi\u00fava&nbsp; Margaret, audazmente trajada de vermelho Chanel, subvertendo as expectativas tradicionais. Fuxicos de&nbsp; l\u00ednguas amoladas foram inevit\u00e1veis.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>(Foto: Vi\u00fava Sinclair de vermelho Chanel) \u2014 Jornal Paparazzi&#8221;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Margaret Sinclair, apesar de sua conhecida impon\u00eancia, chocou a nata da sociedade no ostentoso funeral de&nbsp; seu esposo, Alexander Sinclair. Emo\u00e7\u00f5es bem contidas e envoltas em um ousado vestido Chanel vermelho Borgonha, levantaram sobrancelhas e questionamentos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>(Foto: Margaret Sinclair erguendo a ta\u00e7a) \u2014 Di\u00e1rio Prime\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Prevenida, nenhuma repercuss\u00e3o a assustara. Ave forte, aprumada por onde passava, ela guardou as fofocas&nbsp; dos tabloides e especula\u00e7\u00f5es como trof\u00e9us sob as asas. N\u00e3o era oportuno se mostrar aos morcegos que ainda&nbsp; sobrevoavam por ali ou para os vampiros sedentos que estiveram no vel\u00f3rio, n\u00e3o apenas para se refestelarem&nbsp; com um banquete \u00e0 luz de velas e \u00faltimas homenagens, mas tamb\u00e9m com as feridas \u2014 as que ela n\u00e3o p\u00f4de&nbsp; evitar durante o matrim\u00f4nio, que j\u00e1 cicatrizavam \u2014 caso fossem expostas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cH\u00e1 os que se v\u00e3o em sil\u00eancio e dignos, mas tamb\u00e9m h\u00e1 os algozes que morrem solit\u00e1rios, deixando um rastro&nbsp; de escurid\u00e3o e dem\u00f4nios com dentes \u00e0 mostra, com riso escancarado como derradeira afronta a quem ficou,\u201d&nbsp; Margaret ruminava na semana seguinte ao vel\u00f3rio, no escrit\u00f3rio em casa, enquanto rascunhava qualquer coisa&nbsp; em uma folha p\u00e1lida de papel, buscando palavras certeiras. Amassou duas ou tr\u00eas folhas sem calma, jogou-as&nbsp; com for\u00e7a no lixo e recome\u00e7ou seu escrito, com os olhos bem pregados nele desta vez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Letras m\u00e9dias e leg\u00edveis, angulosas e cursivas, conectadas por tra\u00e7os ascendentes de press\u00e3o m\u00e9dia, com todos&nbsp; os \u201cis\u201d cuidadosamente pingados. Min\u00fasculas \u2014 um acinte \u00e0 margem \u2014 uma frase emprestada e uma&nbsp; assinatura ciente, em azul escuro, sobre um papel perolizado marfim. Ap\u00f3s uma revis\u00e3o atenta, nenhum&nbsp; vest\u00edgio de tremor ou suor na vers\u00e3o final do rascunho passado a limpo foi encontrado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, andou algumas vezes de um lado para outro da casa com as chaves na m\u00e3o, e s\u00f3 quando a \u00faltima onda\u00a0 de inquieta\u00e7\u00e3o serenou \u00e9 que, aos poucos, come\u00e7ou a dar corpo e clareza \u00e0 sua decis\u00e3o sem o peso da escolha:\u00a0 ela n\u00e3o ofereceria, de m\u00e3os unidas e quentes, rezas e mais velas, pois, machucada tantas vezes pelo marido no\u00a0 seu mais \u00edntimo sentimento, n\u00e3o lhe caberia honr\u00e1-lo. Portanto, n\u00e3o houve missa de s\u00e9timo dia. Nesta mesma\u00a0\u00a0semana, ap\u00f3s uma longa conversa com seus empregados, que a compreenderam, apoiando-a, Margaret\u00a0 confiou a Salvatore, seu motorista particular, a incumb\u00eancia de buscar sozinho a urna com as cinzas no\u00a0 cremat\u00f3rio da capela, cinzas que ela sequer quis ver, e, de l\u00e1, ir direto entreg\u00e1-la pessoalmente \u00e0 ex-amante de\u00a0 Alexander, junto com o bilhete perolado escrito \u00e0 m\u00e3o. Devidamente instru\u00eddo, Salvatore cumpriu suas\u00a0 ordens.<\/p>\n\n\n\n<p>Veronica leu o bilhete, estupefata e p\u00e1lida ao ver a urna:&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cveronica,&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2018Quem primeiro deprecia a ad\u00faltera \u00e9 aquele com quem ela cometeu o adult\u00e9rio.\u2019 A. de C\u00f3rdoba. Nem vingan\u00e7a nem justi\u00e7a e nem perd\u00e3o. Eu escolhi o esquecimento. Quanto \u00e0s cinzas, fa\u00e7a hoje voc\u00ea as&nbsp; honras da casa, como reden\u00e7\u00e3o \u00e0 sua neglig\u00eancia e fuga.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Margaret Sinclair\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Reza a lenda que a socialite esnobe, desnudada e encurralada, mudou-se para a Espanha com a fam\u00edlia logo&nbsp; depois e, estranhamente, ningu\u00e9m nunca perguntou que rumo tiveram as cinzas do milion\u00e1rio. Quem se&nbsp; importava?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cerca de dez dias ap\u00f3s o vel\u00f3rio que deu o que falar, de manh\u00e3zinha, quando a brisa fresca do final de outono&nbsp; envolvia a casa, com a mesa posta para o dejejum, os empregados, na cozinha, preparavam-se para mais uma&nbsp; jornada. Tons claros de \u00e2mbar e rosa no c\u00e9u prometiam um dia agrad\u00e1vel, enquanto os raios de sol j\u00e1&nbsp; brincavam nas folhas ca\u00eddas, espalhadas pelo jardim. Embora o falecimento de Alexander tivesse ocorrido muito recentemente, n\u00e3o havia sinais de consterna\u00e7\u00e3o entre os empregados, considerando que ele n\u00e3o era uma&nbsp; presen\u00e7a que evocava afeto. Sabiam dos desafios de Margaret e continuavam a admir\u00e1-la. A conversa teve&nbsp; in\u00edcio de forma prosaica, corriqueira, entre um gole de caf\u00e9 e outro, mas logo se voltou para Margaret.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Frida, a governanta, era o pilar e uma das mais antigas da casa. R\u00edgida, divorciada e meticulosa, ela&nbsp; coordenava as atividades dom\u00e9sticas com precis\u00e3o. N\u00e3o era amarga. Uniforme preto e branco sempre alinhado e cabelos presos em um coque baixo bem-feito davam-lhe uma imagem de autoridade e efici\u00eancia. Era uma&nbsp; figura de disciplina, moldada pelos anos que passou em um orfanato. A governanta, de poucas palavras,&nbsp; encurtou: \u201cAquilo foi um verdadeiro tapa na cara de todos que subestimaram Madame.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Salvatore conferia, na bancada, o cronograma das tarefas que acabara de receber de Frida. Alto e formal, em&nbsp; seu terno cinza respir\u00e1vel e bem cortado, ele era observador e fidedigno, ainda solteiro. Em outra ocasi\u00e3o, ele&nbsp; confessara que a perda dos pais, em um acidente de carro, havia lhe causado um grande trauma, e que usava sabiamente sua fun\u00e7\u00e3o de chauffeur para encarar seus medos e para proteger aqueles com quem convivia,&nbsp; embora ele tivesse uma profiss\u00e3o principal que, atualmente, n\u00e3o exercia. Ajeitando a gravata, disse: \u201cSei que&nbsp; ela guardava dentro de si uma ang\u00fastia que quase ningu\u00e9m via. Vinha lutando bravamente para n\u00e3o permitir&nbsp; mais que o Sr. Sinclair, em vida, afetasse seus sentimentos. Ela mostrou aos quatro cantos, nestas \u00faltimas semanas, que ainda lhe resta muito de amor-pr\u00f3prio e coragem na bagagem e na moldura. Nunca a vi t\u00e3o&nbsp; determinada.\u201d&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA vida nos testa de muitas maneiras e n\u00e3o h\u00e1 receitas milagrosas. Ricos ou n\u00e3o, meus queridos, somos feitos&nbsp; das mesmas fraquezas. O Senhor Sinclair tamb\u00e9m tinha suas batalhas internas, mas pouco fazia para venc\u00ea-las&nbsp; com honradez, e Madame Margaret, que sempre manteve a compostura, cansou-se,\u201d comentou Rosa com voz&nbsp; quase maternal, suspirando enquanto despejava nas x\u00edcaras mais caf\u00e9 quente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa, que n\u00e3o havia perdido o sotaque chileno, dispensava os aventais brancos em forma de saia e d\u00f3lm\u00e3s,&nbsp; preferindo aventais floridos que n\u00e3o escondessem seu colo. Forno e fog\u00e3o acesos, as idas ao Mercado&nbsp; Municipal e os tais aventais floridos eram alguns de seus pequenos prazeres. Sempre cantarolava cantigas de&nbsp; sua terra, enquanto preparava seus quitutes. Tinha a m\u00e3o boa para cozinhar e aprendeu o refino da culin\u00e1ria profissional para agradar o casal Sinclair e impressionar um certo vizinho vi\u00favo. Crescida em uma fam\u00edlia&nbsp; numerosa e humilde, onde a comida \u00e0s vezes era escassa, saiu de seu pa\u00eds e valorizava cada gr\u00e3o de arroz&nbsp; daqui e seu espa\u00e7o com tr\u00eas c\u00f4modos confort\u00e1veis na propriedade de alto padr\u00e3o de Margaret. Enviuvou nova&nbsp; tamb\u00e9m e andava dizendo estar aberta a relacionamentos mais s\u00e9rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Virg\u00ednia e Clarice, as irm\u00e3s g\u00eameas e auxiliares dom\u00e9sticas contratadas apenas h\u00e1 tr\u00eas anos, limpavam aqui e\u00a0 ali, arrumando as cadeiras ao redor da mesa antes da refei\u00e7\u00e3o ser servida. Vindas de um ambiente familiar\u00a0 tumultuado, elas buscavam estabilidade, que encontraram em seus atuais empregos. A rotina previs\u00edvel, o\u00a0 hor\u00e1rio fixo, as tarefas claras, o sal\u00e1rio digno, um teto seguro e a camaradagem dos outros empregados\u00a0 proporcionavam a elas prote\u00e7\u00e3o, apesar dos conflitos entre o casal Sinclair. Disseram certa vez que seus\u00a0nomes foram em homenagem \u00e0s escritoras Lispector e Woolf, escolhidos pela m\u00e3e que vivia afundada em\u00a0 livros e novelas para n\u00e3o desabar de vez.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Elas, uma mais espevitada e a outra mais quieta, mas desbocada, nunca gostaram de vestir roupas id\u00eanticas quando eram crian\u00e7as. Seus aventais, embora de estilos diferentes, compartilhavam apenas a cor, conferindo lhes um ar de unidade e individualidade ao mesmo tempo. \u201cMadame Margaret \u00e9 mulher fina, de personalidade&nbsp; marcante, generosa. Um g\u00eanio do c\u00e3o quando pisam em seu calo, mas sabe dar o troco sempre com muita&nbsp; eleg\u00e2ncia. Eu, por mim, enfiaria uns bons gr\u00e3os de milho de pipoca goela abaixo do falecido para que aquela&nbsp; cerim\u00f4nia de crema\u00e7\u00e3o fosse ainda mais festiva! Cala-te, boca!\u201d Clarice conseguiu arrancar risos, at\u00e9 de Frida. Antes de derrubar seu caf\u00e9 na toalha branquinha que Rosa acabara de colocar, Virg\u00ednia encerrou: &#8220;Madame&nbsp; Margaret? Essa mulher parece feita de ferro! Uma inspira\u00e7\u00e3o! Ela tem demonstrado que no final das contas, a&nbsp; gente \u00e9 quem decide como as coisas nos afetam.\u201d Jogou alguns guardanapos de papel em cima da mancha de&nbsp; caf\u00e9 e serviu-se de mais um pouco, com alguns pingos de leite.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Danem-se os protocolos! Ela quebraria mais um. N\u00e3o queria esperar um m\u00eas, como manda a etiqueta, pois&nbsp; tinha pressa em se desvincular do passado com ele, a seu modo. Menos de duas semanas ap\u00f3s o vel\u00f3rio,&nbsp; Margaret enfrentou sozinha a desconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de Alexander Sinclair, cujas mem\u00f3rias permeavam o&nbsp; ambiente como fantasmas que n\u00e3o queriam partir, desfazendo-se de todos os pertences do marido, afrouxando mais as amarras, na tentativa de ficar longe da sombra que seu casamento havia projetado e de se libertar da&nbsp; depend\u00eancia que a aprisionara por alguns anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desancorada dos \u201ce se&#8230;\u201d, \u201cpor que comigo?\u201d, que n\u00e3o serviam para nada, j\u00e1 que n\u00e3o iriam mudar coisa&nbsp; alguma, Margaret deu folga a tr\u00eas empregados e pediu aos que ficaram que n\u00e3o fosse incomodada. N\u00e3o queria&nbsp; ru\u00eddos. Nada que a distra\u00edsse. Queria mergulhar nessa raiva surda e fria, sem explos\u00f5es, aos poucos, e revirar as \u00e1guas, alcan\u00e7ar suas conchas acomodadas no fundo, abri-las, tirar devagar o que tivesse que sair de l\u00e1 de&nbsp; dentro e voltar \u00e0 superf\u00edcie, e respirar.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ansiava seu presente esvaziado daquelas sobras tristes que se acumularam pelos cantos. E quem n\u00e3o desejaria&nbsp; isso? Vivemos carregando pesos invis\u00edveis, esperando o momento certo para solt\u00e1-los. Noites e noites vazias,&nbsp; iguais, em claro, contornando com olhos vagos, perdidos, as linhas das coisas concretas da casa, reparadoras&nbsp; de aus\u00eancias, que ela j\u00e1 conhecia de cor. Foram muitas as vezes em que teve medo de se habituar com o que&nbsp; lhe parecia pouco, medo desse vazio que a podia estar distanciando de si, dos encantos simples, do gosto bom de se pertencer.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sem pausas para nostalgias e sentimentalismos moles, n\u00e3o acariciou camisas, n\u00e3o fechou os olhos nem aspirou fragr\u00e2ncias, n\u00e3o vestiu casacos dele para sentir sua presen\u00e7a nem se perdeu olhando \u00e1lbuns de lugares&nbsp; que nunca esteve. N\u00e3o procurou por ele ali. Rasa, apenas se preocupou para que nada fosse danificado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ternos impecavelmente pendurados foram dobrados com cuidado, mas sem apre\u00e7o. Soberba, sobretudos e&nbsp; outras roupas de grife; rel\u00f3gios, tirania e abotoaduras; cintos, sapatos e mesquinhez; ci\u00fame, pastas e carteiras&nbsp; de couro; itens de higiene pessoal, infidelidade e perfumes; meias, gravatas e meias-palavras; gan\u00e2ncia, v\u00e1rios&nbsp; decorativos de valor talvez sentimental e equipamentos eletr\u00f4nicos; canetas Crown\u00ae \u2014 as preferidas dele \u2014 prepot\u00eancia e livros t\u00e9cnicos; fotografias, cadeados e possess\u00e3o; correntes, cole\u00e7\u00f5es privadas de arte e vinhos&nbsp; raros; grades, pris\u00e3o e peias foram todos removidos da mob\u00edlia. Tudo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As gavetas e o cofre particular trancados foram previamente abertos por um profissional, na aus\u00eancia das&nbsp; chaves e c\u00f3digo. N\u00e3o foi surpresa para Margaret encontrar uma joia escondida no fundo do cofre,&nbsp; acompanhada de uma dedicat\u00f3ria manuscrita que n\u00e3o era para ela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Aston Martin DBS Superleggera\u00ae preto, em breve, tamb\u00e9m seria removido da garagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com a sisudez outonal l\u00e1 fora, desadormecida, a noite ia sem fundo, com espa\u00e7o sobrado para mais tra\u00e7ados sobre outros pap\u00e9is brancos. De modo ainda desordeiro, em alguns espalhados pela mesa, j\u00e1 se viam estudos preliminares e composi\u00e7\u00f5es, croquis, esquemas, inten\u00e7\u00f5es subversivas, com pitadas fartas de desforra\u00a0 em forros de \u00e9bano e carmesins.<\/p>\n\n\n\n<p>A disson\u00e2ncia perante suas m\u00e1scaras e lado oculto, o aceit\u00e1vel e o reprimido, alongava as horas e apontava\u00a0 mais l\u00e1pis. N\u00e3o era como adequar m\u00e1rmore e madeira para um projeto de constru\u00e7\u00e3o, nem como buscar a\u00a0 combina\u00e7\u00e3o perfeita de sabores entre vinho e prato. Era ela \u2014 Margaret Sinclair \u2014 pondo-se em confronto\u00a0 com aquelas conchas que ela mesma abriu.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Da harmoniza\u00e7\u00e3o de suas duas partes para uma repara\u00e7\u00e3o de danos e sua pr\u00f3pria recupera\u00e7\u00e3o, at\u00e9 chegar \u00e0 completude, ela ainda mergulhar\u00e1 em outras \u00e1guas delicadas entre o ser e o parecer, desprender\u00e1 mais \u00e2ncoras e depois emergir\u00e1 lavada, limpa, embrulhando tubar\u00f5es e piranhas, mortos ou vivos, em folhas frescas de&nbsp; jornal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E para preservar a casa e a si mesma de qualquer nova lembran\u00e7a do falecido, Margaret, fiel ao seu estilo&nbsp; ousado, que supostamente n\u00e3o agredia ningu\u00e9m, e ao desejo de um novo vazio, criou um projeto incomum&nbsp; que consistia em uma instala\u00e7\u00e3o art\u00edstica e uma pintura em uma tela grande, convidando o prestigiado artista&nbsp; pl\u00e1stico Lorenzo Bellini para execut\u00e1-lo e exibir estas obras de maneira in\u00e9dita. Em vez de realizar esta exposi\u00e7\u00e3o nos jardins amplos de sua casa, como cogitara antes, ela optou pela renomada Galeria Renascenza,&nbsp; justamente para evitar associar seu lar a Alexander outra vez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de cinquenta e seis dias de trabalho ininterrupto, a exposi\u00e7\u00e3o, com divulga\u00e7\u00e3o pr\u00e9via bem intensa, sem&nbsp; sombra de d\u00favidas, atraiu amigos e inimigos tamb\u00e9m, imprensa e muitos curiosos, todos impressionados com&nbsp; a express\u00e3o visual arrebatadora idealizada por Margaret, uma arquiteta tra\u00e7ando suas vontades com a mesma&nbsp; precis\u00e3o que desenha seus projetos profissionais. Ela concedeu uma entrevista exclusiva antes da abertura,&nbsp; permitindo assim que os rep\u00f3rteres observassem depois a exposi\u00e7\u00e3o com uma compreens\u00e3o mais aprofundada.&nbsp; Durante a entrevista, compenetrada e resoluta, como se n\u00e3o estivesse no olho do furac\u00e3o, compartilhou&nbsp; detalhes importantes, mas n\u00e3o revelou o real motivo que a impulsionou para esse feito. Que tirassem suas&nbsp; conclus\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segue a ta\u00e7a dourada, outro trof\u00e9u que trouxe impresso a catarse, a recontextualiza\u00e7\u00e3o ainda inacabada das&nbsp; m\u00e1goas e decep\u00e7\u00f5es de Margaret, encerrando mais um ciclo \u2014 a cobertura completa que estampou, no dia&nbsp; seguinte, uma p\u00e1gina inteira, in-tei-ra, do jornal Folha Metropolitana sobre a exposi\u00e7\u00e3o:&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u201cLORENZO BELLINI EMOCIONA COM \u2018\u00c9PILOGUE\u2019 NA GALERIA RENASCENZA&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u2018Fragmentos\u2019 e \u2018Sil\u00eancio Rubro\u2019 refletem dor e transforma\u00e7\u00e3o, com destaque para performance e leil\u00e3o&nbsp; beneficente&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>A Galeria de Arte Renascenza sediou a exposi\u00e7\u00e3o individual <\/em><strong><em>\u2018\u00c9PILOGUE\u2019<\/em><\/strong><em>, criada e coordenada pela&nbsp; arquiteta e vi\u00fava de Alexander Sinclair, Margaret Sinclair, e executada pelo artista pl\u00e1stico Lorenzo Bellini.&nbsp; A mostra, que ocorreu ontem, exibiu duas obras impactantes: a instala\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u2018<\/em><strong><em>Fragmentos\u2019 <\/em><\/strong><em>e a tela&nbsp; monumental <\/em><strong><em>\u2018Sil\u00eancio Rubro\u2019<\/em><\/strong><em>, sucesso de p\u00fablico e cr\u00edtica.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u2018Sil\u00eancio Rubro\u2019<\/em><\/strong><em>, um trabalho bel\u00edssimo de \u00f3leo sobre tela medindo impressionantes 2,78 m por 2,95 m, com&nbsp; seu fundo predominantemente vermelho Borgonha, teve como grande curiosidade a representa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria&nbsp; vi\u00fava ao centro da pintura, de costas em primeiro plano, contemplando um cen\u00e1rio de degrada\u00e7\u00e3o. Alguns&nbsp; peda\u00e7os de cenas perturbadoras, como uma cama desfeita, ta\u00e7as partidas sobre o vinho derramado, um colar&nbsp; de safira azul reluzente com um pequeno cart\u00e3o para dedicat\u00f3ria pendurado e muitos pap\u00e9is rasgados,&nbsp; estavam dispostos ao redor da figura central, criando uma atmosfera de caos. As pinceladas de vermelho&nbsp; profundo intensas, grossas em contraste com partes mais suaves, refletiam ambas uma poss\u00edvel narrativa de&nbsp; conflito, paix\u00e3o, poder e vulnerabilidade, expressando a complexidade humana.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u2018Fragmentos\u2019<\/em><\/strong><em>, uma envolvente instala\u00e7\u00e3o que ocupou todo o espa\u00e7o do sal\u00e3o, consistiu na utiliza\u00e7\u00e3o de pertences novos e seminovos de Alexander Sinclair em uma interessante composi\u00e7\u00e3o, cuja interpreta\u00e7\u00e3o\u00a0 sobre virtudes e fragilidades ficou por conta dos apreciadores mais atentos. Uma inclus\u00e3o surpreendente em\u00a0 <\/em><strong><em>\u2018Fragmentos\u2019 <\/em><\/strong><em>foi o Aston Martin DBS Superleggera, que, com a ajuda de uma equipe especializada em\u00a0 transporte de arte, foi cuidadosamente levado at\u00e9 a galeria. Uma experi\u00eancia imersiva e inesquec\u00edvel aos\u00a0 visitantes.\u00a0<\/em>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><em>Convidados seletos foram recepcionados em uma \u00e1rea reservada com um servi\u00e7o visualmente atraente, onde&nbsp; puderam degustar canap\u00e9s de salm\u00e3o defumado com geleia de pimenta vermelha, mini tartares de atum com&nbsp; rom\u00e3 e vol-au-vent de foie gras com compota de figo vermelho, acompanhados por uma sele\u00e7\u00e3o de vinhos,&nbsp; champanhes de alt\u00edssima qualidade e o cl\u00e1ssico coquetel Alexander, provocando risos curiosos entre os&nbsp; presentes. Para ado\u00e7ar a ocasi\u00e3o, foram servidos macarons de groselha, trufas de chocolate branco com&nbsp; recheio de framboesa e \u00e9clairs de cereja. Al\u00e9m de desfrutar dessas del\u00edcias propositalmente rubras, eles se&nbsp; envolveram em discuss\u00f5es animadas e reflexivas sobre as obras, trocando impress\u00f5es.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Enquanto gar\u00e7ons bem trajados circulavam discretamente com bandejas fartas ao requinte deste card\u00e1pio,&nbsp; Margaret, sarcasticamente vestida de preto da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, enaltecendo a grife Carmen Steffens, brasileir\u00edssima, transitava deliberada e graciosa entre os convidados. Com a sofistica\u00e7\u00e3o e a destreza de&nbsp; quem sabe exatamente onde quer chegar e estar, ela se movia como numa dan\u00e7a silenciosa que s\u00f3 ela podia&nbsp; compreender. Cumprimentou cada um, \u00e0s vezes com um sorriso de Mona Lisa \u2014 sutil, incompreens\u00edvel \u2014 e um olhar amb\u00edguo, de simpatia, de deboche.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Indubitavelmente, Madame Sinclair espetou mais alguns alfinetes com endere\u00e7o certo nesta noite.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ao final da exposi\u00e7\u00e3o <\/em><strong><em>\u2018\u00c9PILOGUE\u2019<\/em><\/strong><em>, a desmontagem de <\/em><strong><em>\u2018Fragmentos\u2019 <\/em><\/strong><em>fez parte de uma performance&nbsp; magistral de Lorenzo Bellini, ao som de \u2018O Fortuna\u2019 de Carl Orff. A galeria foi imersa na melodia dram\u00e1tica,&nbsp; estabelecendo um clima quase ritual\u00edstico. Bellini, com luvas negras e gestos teatrais precisos, desmontou a&nbsp; instala\u00e7\u00e3o pe\u00e7a por pe\u00e7a, culminando em aplausos calorosos e merecidos.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ap\u00f3s a performance, os pertences que compunham a obra foram imediatamente leiloados, com a renda&nbsp; destinada aos empregados da casa de Margaret e a um antigo vizinho, em uma atitude simb\u00f3lica de gratid\u00e3o pela lealdade e apoio deles ao longo dos anos, e a duas institui\u00e7\u00f5es de caridade. Uma parte foi reservada&nbsp; para a realiza\u00e7\u00e3o de um sonho seu, ainda inc\u00f3gnito.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Com o t\u00e9rmino do evento, s\u00f3 restaram registros que o testemunharam \u2014 fotografias, v\u00eddeos e os peda\u00e7os de&nbsp; tecido preto que ficaram suspensos em algumas barras de ferro.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2018<\/em><strong><em>Sil\u00eancio Rubro\u2019 <\/em><\/strong><em>e o carro de luxo, disputad\u00edssimos, foram arrematados por um \u00fanico colecionador privado,&nbsp; convidado e presente na mostra.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Enfim, uma noite longa e memor\u00e1vel, de m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es sobre a natureza ef\u00eamera das&nbsp; lembran\u00e7as e a capacidade da arte de transformar pesares em beleza, seja eles quais forem. (Foto: Margaret Sinclair e Lorenzo Bellini na Galeria) \u2014 Folha Metropolitana\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Naquela noite, quando as \u00faltimas luzes da galeria se apagaram, l\u00e1grimas com gosto de sal de liberdade,&nbsp; aquelas que lavam conchas e a alma, finalmente brotaram de Margaret. Era o passado, num esfor\u00e7o quase&nbsp; descomunal, sendo varrido para tr\u00e1s. Pelo retrovisor, Salvatore a olhou discretamente com olhos cheios de&nbsp; compreens\u00e3o e respeito e, em sil\u00eancio, levou-a de volta para casa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos ap\u00f3s o funeral de Alexander se passaram, e n\u00e3o se passaram em branco nem em preto e branco.&nbsp; Al\u00e9m de Margaret ter adotado o sobrenome de solteira Whitmore, sua casa, rec\u00e9m-pintada de azul eclesi\u00e1stico&nbsp; e verde s\u00e1lvia, pronta para uma nova hist\u00f3ria \u2014 a dela \u2014 agora respirava harmonia e vitalidade com suas&nbsp; cores prediletas e decora\u00e7\u00e3o sofisticadamente minimalista, pois ela j\u00e1 n\u00e3o temia mais espa\u00e7os vazios \u2014 aqueles onde seu cora\u00e7\u00e3o bombeava ao ritmo da solid\u00e3o, da monotonia que se instalara naquela rotina de&nbsp; sabores neutros, de compromissos for\u00e7ados, naquela pouquidade, naquela escassez da presen\u00e7a do outro. Nos&nbsp; fundos, a casa de h\u00f3spedes, fora da vista principal, foi ampliada e adaptada para que quatro dos cinco&nbsp; empregados pudessem morar nela com mais conforto.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Generosa e emp\u00e1tica, ela n\u00e3o havia escolhido esses seus empregados, tempos atr\u00e1s, por acaso. Durante as\u00a0 entrevistas de emprego e conversas informais, ela se interessou profundamente pelas hist\u00f3rias de vida de cada\u00a0 um deles e por suas profiss\u00f5es paralelas, como foi o caso de Salvatore, que al\u00e9m de chauffeur, era tamb\u00e9m um\u00a0 restaurador de m\u00f3veis antigos formado, honrando a heran\u00e7a de seus pais italianos. J\u00e1 Frida, desenvolveu\u00a0suas habilidades manuais desde jovem no orfanato, talentosa em bordadoria fina, dizia que seus bordados\u00a0 eram pinturas com agulha. Clarice e Virginia, com hist\u00f3rico de desestrutura\u00e7\u00e3o familiar, incentivadas por\u00a0 Margaret, tornaram-se organizadoras profissionais. Dedicadas, aprenderam que atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de\u00a0 ambientes visualmente organizados, funcionais e eficientes, tamb\u00e9m se reestruturava e se acomodava vidas. Velhos aliados em tempos dif\u00edceis, a eles tamb\u00e9m Margaret confiava segredos, confiss\u00f5es e os considerava\u00a0 seguramente como fam\u00edlia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Margaret sempre teve um faro apurado e, desde cedo, aprendeu a virar a mesa, beber e servir bebidas tanto em cristais quanto em pl\u00e1sticos, e a identificar cordeiros disfar\u00e7ados que cruzavam seu caminho. Se parassem&nbsp; diante dela, ela os tosquiava e arrancava suas peles sempre com luva de pelica, por quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia e&nbsp; sem fazer alarde. Depois de buscar as leis precocemente por necessidade, chutou aqueles tios com quem&nbsp; morava com vigor adolescente. Escondida deles, estendeu as m\u00e3os e encontrou bra\u00e7os amigos em seu socorro. No entanto, seu cora\u00e7\u00e3o de mo\u00e7a se deixou cair, de joelhos, nas armadilhas sedutoras de Alexander Sinclair.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um desses finaizinhos de tarde tranquilos, quando tudo j\u00e1 estava encaminhado na cozinha para o jantar,\u00a0 Rosa, que havia preparado dois bolos de am\u00eandoas com lim\u00e3o siciliano naquele dia, toda gentil \u2014 sabe-se l\u00e1\u00a0 com que inten\u00e7\u00e3o, talvez segundas, segundas sim \u2014 tirou o avental, ajeitou os cabelos, os peitos e caprichou\u00a0 no batom rosado antes de ir at\u00e9 a resid\u00eancia do Dr. Carlos Menezes levar um dos bolos, inteirinho, ainda\u00a0 morno, pois sabia que ele gostava. Com ele, trocou dois dedos de prosa, como diz ela, e muitas lembran\u00e7as ali\u00a0 mesmo na varanda. Dr. Carlos Menezes, um vizinho juiz de 66 anos, grisalho interessante, vi\u00favo. Apesar do\u00a0 cargo elevado e da posi\u00e7\u00e3o de destaque que ocupava, era modesto, bondoso e sempre rodeado pelos dois\u00a0 filhos e netos, conhecia a fam\u00edlia Whitmore h\u00e1 d\u00e9cadas e foi um dos beneficiados com a renda daquele leil\u00e3o no Renascenza, o que refor\u00e7ou ainda mais os la\u00e7os de gratid\u00e3o e amizade entre eles. Mudou-se para a casa onde est\u00e1 vinte e sete anos atr\u00e1s, quando Margaret tinha apenas nove.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A menina Margaret perdeu a m\u00e3e cedo, n\u00e3o teve irm\u00e3os e se agarrou ao pai como quem se segura firmemente a um galho de \u00e1rvore na queda. N\u00e3o demorou muito para que, lamentavelmente, seu pai tamb\u00e9m partisse,&#8221;&nbsp; recordou Dr. Carlos. \u201cEmbora a casa fosse mais discreta, j\u00e1 se destacava entre as outras, mas, infelizmente, teve suas portas fechadas at\u00e9 a emancipa\u00e7\u00e3o de Margaret. Como voc\u00ea sabe, Rosa, foi uma \u00e9poca muito dif\u00edcil.&nbsp; O que restou para a pobre menina rica sen\u00e3o se agarrar ao seu bicho de pel\u00facia, seu globo de neve, mimos que&nbsp; ganhou de seu saudoso pai, e ir morar, a contragosto, com tios insolentes e velhos de alma, que a tratavam&nbsp; com desd\u00e9m por despeito?\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E quando ela p\u00f4de voltar \u00e0 casa, eu estava l\u00e1 para receb\u00ea-la. J\u00e1 me sinto parte da mob\u00edlia, Carlos!\u201c&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cH\u00e1 anos acompanhamos os caminhos que a trouxeram at\u00e9 aqui. Decerto podemos dizer que Margaret Whitmore \u00e9 uma vitoriosa nesta montanha-russa. Ela tem uma maneira muito peculiar de lidar com as&nbsp; adversidades e n\u00f3s, que a conhecemos de perto, vemos que ela construiu uma vida estruturada e bem-sucedida&nbsp; a partir das dificuldades que enfrentou, especialmente se libertando da influ\u00eancia de Alexander. Nem sempre o&nbsp; mundo foi gentil com ela, n\u00e3o \u00e9 mesmo, Rosa? Seus atos recentes, incompreendidos por muitos, tidos como&nbsp; transgressores ou controversos, principalmente pela imprensa, foram formas que ela encontrou para desencarcerar emo\u00e7\u00f5es e resgatar sua pr\u00f3pria autenticidade.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sabemos das verdades cruas que a levaram a querer se desvencilhar do Senhor Sinclair (&#8216;que Deus o tenha e&nbsp; que nos deixe em paz&#8217;, disse Rosa, fazendo o sinal da cruz). Minha estima por ela aumentou exatamente&nbsp; quando ela reformou a casa pela primeira vez para honrar seus pais falecidos assim que teve melhores condi\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, todos n\u00f3s que trabalhamos com Madame Margaret somos leais por uma boa raz\u00e3o: somos tratados com uma considera\u00e7\u00e3o e respeito raros em patr\u00f5es. Ela realmente presta aten\u00e7\u00e3o quando&nbsp; falamos e olha nos olhos. \u00c9 por isso que permanecemos aqui h\u00e1 tanto tempo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que n\u00f3s a chamamos de Madame, pois \u00e9 uma dama, merecedora de toda nossa admira\u00e7\u00e3o. Como Madame diz, somos como livros&nbsp; que se apoiam na estante.\u201d&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEla tem l\u00e1 suas manias. \u00c9 bastante exigente, detalhista e gosta das coisas bem-feitas. Fica brava quando o\u00a0 caf\u00e9 chega morno, quando mudam algo na decora\u00e7\u00e3o sem sua permiss\u00e3o, quando se esquecem de anotar\u00a0 recados importantes ou quando se esquecem de cuidar de suas rosas, flores preferidas de seu pai. Muito\u00a0divertida e afetuosa, vive dizendo que Salvatore tem uma paci\u00eancia de santo, pois nunca perde a calma,\u00a0 mesmo quando ela est\u00e1 decidindo o que vestir dois minutos antes de sa\u00edrem. Outro dia, Carlos, Madame disse\u00a0 que Clarice e Virg\u00ednia conversavam entre si como se estivessem em um programa de r\u00e1dio e que \u00e0s vezes se\u00a0 pegava ouvindo atenta suas hist\u00f3rias. Ah! E que ningu\u00e9m ouse tocar em seu urso de pel\u00facia nem no globo de\u00a0 neve que ela mant\u00e9m em uma redoma!\u201d\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dr. Carlos sorriu e emendou o assunto, &#8220;E falando em rosas, Rosa, voc\u00ea j\u00e1 viu o novo jardim da pra\u00e7a central?&nbsp; Ouvi dizer que est\u00e1 mais bonito do que nunca, cheio de flores novas.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Passei por l\u00e1 outro dia e realmente est\u00e1 lind\u00edssimo! Os l\u00edrios amarelos, as estrel\u00edtzias e as lavandas criaram&nbsp; um contraste de cores e perfumes impressionante! A prefeitura fez um \u00f3timo trabalho este ano. E falando em&nbsp; novidades, sabia que o Mercado Municipal agora tem uma banca de queijos artesanais? Uma sinfonia de&nbsp; sabores! Uma obra-prima de texturas! Lembrei-me de voc\u00ea e da Madame, que adoram queijos!\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dr. Carlos n\u00e3o p\u00f4de deixar de rir, apreciando a energia contagiante de Rosa. \u201cVou ter que conferir essa banca&nbsp; na pr\u00f3xima vez, Rosa. E quem sabe, podemos combinar de ir juntos e desfrutar das del\u00edcias locais e do charme&nbsp; do Mercado.&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa se iluminou! Cinquentona bem-apessoada, ela ganhou o dia! Livre, arrastava a asa para quem quisesse.&nbsp; Dr. Carlos tinha uma queda por ela, j\u00e1 percebida por todos, mas era t\u00edmido para coisas do cora\u00e7\u00e3o. Talvez ela&nbsp; o tenha fisgado pelo est\u00f4mago e ainda n\u00e3o tivesse se dado conta de que havia reciprocidade. Ternos e gravatas&nbsp; \u00e0s vezes podem criar falsas barreiras, mas n\u00e3o para Rosa, que era bem resolvida. Ela s\u00f3 precisava de mais&nbsp; sinais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Margaret, a matriarca da casa, ficou \u00f3rf\u00e3 de pai e m\u00e3e aos 11 anos. Aos 16, livrou-se dos tios tacanhos devido \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o obtida pelo Dr. Carlos Menezes, que na \u00e9poca ainda era advogado, e tomou posse da casa&nbsp; herdada dos pais. A casa, que passou por duas importantes modifica\u00e7\u00f5es e amplia\u00e7\u00f5es, transformou-se na&nbsp; imponente casa que \u00e9 hoje.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Arquiteta p\u00f3s-graduada, destacou-se como empres\u00e1ria no setor imobili\u00e1rio, incluindo empreendimentos&nbsp; internacionais. Nesse per\u00edodo, conheceu Alexander, um engenheiro experiente que colaborava frequentemente&nbsp; em seus projetos. Dezessete anos mais velho, ele rapidamente se tornou a \u00e2ncora que ela, inconsciente,&nbsp; procurava ap\u00f3s a perda dos pais. Casaram-se dois anos depois e, entre idas e vindas, permaneceram juntos por&nbsp; quatro arrastados anos. Sem filhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dias e noites mal servidos de riso a dois, de vozes, cumplicidade, de mesmos caminhos. Muitas vezes preterida pelo marido, ressentida pela indiferen\u00e7a e pelos constantes subterf\u00fagios, Margaret j\u00e1 se sentia vi\u00fava&nbsp; da pior viuvez: aquela em que o casamento sucumbe enquanto o c\u00f4njuge ainda vive. Contudo, a esta uni\u00e3o falida, deteriorada, n\u00e3o houve tempo para ela pr\u00f3pria colocar um fim, pois este veio&nbsp; pronto, abrupto, atroz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um sangramento silencioso ap\u00f3s uma queda acidental durante um encontro secreto com a amante, que optou&nbsp; pela fuga, selou ironicamente a hist\u00f3ria de Alexander Sinclair com um desfecho tr\u00e1gico e med\u00edocre. Negligenciada, foi uma morte solit\u00e1ria e denunciadora. Para evitar que detalhes s\u00f3rdidos viessem a p\u00fablico e&nbsp; fossem divulgados pelos jornais, Margaret e seus \u00edntimos abafaram-nos \u00e0s duras penas. (Ah, os vermelhos&#8230; Da trai\u00e7\u00e3o ardente ao sangue g\u00e9lido, do vestido \u00e0 ira, do vinho ao <em>\u201cSil\u00eancio Rubro\u201d, <\/em>os&nbsp; sil\u00eancios&#8230; os vermelhos&#8230; os infernos revestidos de agridoces carmesins&#8230;)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez ela a engolisse com champanhe gelado, tamanha era sua n\u00e1usea, mas enquanto engolia com gosto e a&nbsp; seco a palma e cuspisse o fel acumulado ao longo daqueles outros dias mortos com ele, Margaret examinou a&nbsp; cena de modo velado, com secura nos olhos. Eram uns olhos duros, convictos, sem clem\u00eancia. Um desgosto&nbsp; sard\u00f4nico, inconfess\u00e1vel, porventura repreens\u00edvel, mas quem a condenaria?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ficou parada ali, com as veias pulsando esse refrig\u00e9rio m\u00f3rbido e dolorido, espantada, incr\u00e9dula por caber\u00a0 t\u00e3o bem nesta outra, que crescia impiedosa dentro dela diante de um corpo inerte. Ficou ali, tomada por essa contrariedade ir\u00f4nica, que extrapolava a normalidade, mas era compreens\u00edvel, ao testemunhar como o marido\u00a0 encontrara seu fim. O destino pareceu brincar. Brincou e riu como gente grande, impondo uma forma de\u00a0 justi\u00e7a po\u00e9tica ao homem cujo comportamento imoral o levou a este lament\u00e1vel e jocoso final.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 a cor; foi a dissimula\u00e7\u00e3o, foi o presente. O presente dado pelo marido rec\u00e9m-chegado de viagem,&nbsp; fora de datas, j\u00e1 que ele n\u00e3o tinha o costume de presente\u00e1-la sem motivo, tirado desajeitadamente, contra sua&nbsp; vontade, de uma mala que ela ajudou a abrir, dado apenas porque ela o viu. Talvez nem fosse para ela. Ele&nbsp; nunca a cobrara o uso. N\u00e3o era de seu gosto, pois n\u00e3o havia decotes profundos nas costas, nem tons&nbsp; avermelhados em seu closet. Uma apunhalada em V que s\u00f3 sangrou quando Margaret se debateu e, depois, foi&nbsp; lentamente se levantando, por rebeldia, dignidade, com o sangue estancado, de vermelho Borgonha no funeral.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que \u00e0s vezes machucasse um pouco olhar para tr\u00e1s, a dor j\u00e1 n\u00e3o do\u00eda tanto; dilu\u00edda, j\u00e1 quase n\u00e3o do\u00eda&nbsp; mais, e Margaret era boa em respirar fundo. Disposta a trilhar outros caminhos ap\u00f3s a recente reforma de sua&nbsp; casa, ela decidiu desativar os empreendimentos imobili\u00e1rios no exterior e continuar apenas com os nacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma r\u00e1pida viagem \u00e0 Toscana para desfazer neg\u00f3cios, reservou um dia para visitar pequenas vilas, onde&nbsp; artistas locais exibiam seus trabalhos em encantadoras casas, harmoniosamente integrados \u00e0 decora\u00e7\u00e3o. Ali,&nbsp; ela vislumbrou um novo prop\u00f3sito: realizar um velho sonho e ter um espa\u00e7o semelhante, onde a arte pudesse&nbsp; ser experimentada de maneira \u00edntima e acess\u00edvel. Inspirada por essa experi\u00eancia, Margaret decidiu criar uma&nbsp; casa-conceito, onde a decora\u00e7\u00e3o e a mob\u00edlia estariam \u00e0 venda, e a arte se integraria a este ambiente dom\u00e9stico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, Salvatore&#8230; Tinha que ser ele, o \u00edtalo-brasileiro, o mensageiro das boas novas. Em um daqueles momentos&nbsp; inesperados que, por obra de algum deus ou do destino, a vida te presenteia com lim\u00f5es suculentos atrav\u00e9s de&nbsp; m\u00e3os confi\u00e1veis, e voc\u00ea habilmente os transforma em mousses, aproveitando at\u00e9 as cascas para salpicar raspas&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>por cima, Salvatore, em um percurso de carro sozinho para cumprir compromissos, viu por acaso um casar\u00e3o&nbsp; antigo \u00e0 venda. Atencioso aos sonhos de Margaret, ele imediatamente a informou, e ela visitou o local j\u00e1 no&nbsp; dia seguinte.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi amor \u00e0 primeira vista! Parada diante do casar\u00e3o, seus olhos correram contentes por toda a fachada. Eram olhos domingueiros, festivos, fascinados. Ela entrou, caminhou pelos c\u00f4modos, tocando as paredes, sentindo\u00a0 as texturas. Vestida de curiosidade quase infantil, subiu a escadaria, abriu portas, parou em frente \u00e0s janelas,\u00a0 imaginando aquela luz natural iluminando futuras exposi\u00e7\u00f5es e gente. Depois, com olhos profissionais. Sim,\u00a0 foi amor \u00e0 primeira vista, e isso a motivou a enfrentar alguns empecilhos nas negocia\u00e7\u00f5es. Embora o im\u00f3vel\u00a0\u00a0estivesse implicado em uma disputa judicial entre herdeiros, j\u00e1 em vias de finaliza\u00e7\u00e3o, ainda houve um atraso\u00a0 consider\u00e1vel at\u00e9 a entrega das chaves.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Com sua arquitetura hist\u00f3rica bem preservada, n\u00e3o demorou muito para que o espa\u00e7o se transformasse no&nbsp; Casar\u00e3o Whitmore de Arte. Situado em bairro nobre, ele acolhe visitantes de diversas camadas sociais e&nbsp; oferece a oportunidade de encontrar obras variadas incorporadas aos ambientes e acompanhar a produ\u00e7\u00e3o de&nbsp; artistas residentes e convidados em est\u00fadio vidrado. A galeria \u00e9 inclusiva para talentos emergentes ou j\u00e1&nbsp; renomados, permitindo que suas obras dialoguem livremente.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cada canto foi cuidadosamente projetado por Margaret para proporcionar uma viv\u00eancia imersiva e uma&nbsp; sensa\u00e7\u00e3o acolhedora de pertencimento, desde as salas de estar at\u00e9 o caf\u00e9 aconchegante, onde as exposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o constantemente renovadas. Era a vida, mais uma vez, sendo moldada pelas suas m\u00e3os de energia vibrante.&nbsp; Logo, esse local din\u00e2mico se tornou um ponto de encontro para amantes da arte, cr\u00edticos e entusiastas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se admirar que o charmoso Casar\u00e3o Whitmore tenha se tornado o xod\u00f3 de Margaret, refletindo sua&nbsp; paix\u00e3o por arquitetura, arte e mem\u00f3rias, encapsulados at\u00e9 no logotipo que ela mesma criou. Movida pela&nbsp; empolga\u00e7\u00e3o e esp\u00edrito incans\u00e1vel, ela fez um esbo\u00e7o ali mesmo, em um caf\u00e9 perto do casar\u00e3o, em um&nbsp; guardanapo de papel, no in\u00edcio da reforma. Posteriormente, contou com a colabora\u00e7\u00e3o de um amigo designer&nbsp; gr\u00e1fico especializado em identidades visuais para espa\u00e7os culturais. Juntos, reuniram na marca elementos&nbsp; significativos que valem a pena ser lembrados. Dentro de um contorno vazado da figura do casar\u00e3o, h\u00e1 um&nbsp; globo de neve. Dentro do globo, uma rosa, uma nota musical e uma paleta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem almas deslavadas, sem bocas \u00e1cidas sedentas por vinhos ou \u00e9clairs presentes, durante o coquetel de&nbsp; inaugura\u00e7\u00e3o, era not\u00e1vel que se tratava de uma celebra\u00e7\u00e3o bem diferente das de outrora. Cercada de&nbsp; colaboradores, patrocinadores, alguns amigos e sua fam\u00edlia do cora\u00e7\u00e3o \u2014 os cinco empregados de sua casa,&nbsp; ali estava Margaret, sem cascas, aut\u00eantica, com todas as cicatrizes, inteira. Buscava, sim, por reconhecimento,&nbsp; colos amorosos e aprova\u00e7\u00e3o, mas consciente, apostando tamb\u00e9m no encanto da simplicidade. O charme&nbsp; r\u00fastico e rom\u00e2ntico das flores do campo em vasos de barro feitos por um talentoso artes\u00e3o do Casar\u00e3o, a luz&nbsp; natural mesclada \u00e0s pequenas lumin\u00e1rias retr\u00f4s, a mob\u00edlia parcialmente reaproveitada do local, o menu enxuto&nbsp; com deliciosos petiscos caseiros, uma sele\u00e7\u00e3o de jazz suave e melodias cl\u00e1ssicas, al\u00e9m das intera\u00e7\u00f5es&nbsp; genu\u00ednas e espont\u00e2neas dos convidados, permeavam o ambiente com leveza e sinceridade. A algazarra que, vez ou outra, quebrava a mansid\u00e3o do evento, ficou por conta de tr\u00eas crian\u00e7as que brincavam com seus globos&nbsp; de neve, presentes da anfitri\u00e3. Radiante e deliciosamente inquieta, dentro do frescor primaveril de um jeitoso&nbsp; vestido floral mi\u00fado de seda, ela aproveitou o ensejo para anunciar o lan\u00e7amento em breve de seu livro, j\u00e1&nbsp; deixando a todos com grande expectativa. Ela jurou, de m\u00e3o levantada e uma piscadela brejeira, travessa, que&nbsp; n\u00e3o se tratava de uma autobiografia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu anivers\u00e1rio de 36 anos no s\u00e1bado passado, Margaret preferiu a tranquilidade de seu lar juntamente&nbsp; com os empregados e seu vizinho, ao inv\u00e9s de eventos externos comemorativos. Sob a luz do sol nos jardins&nbsp; da casa e longe dos holofotes, ela n\u00e3o se conteve e caiu na gargalhada quando Salvatore e Frida a&nbsp; surpreenderam quase simultaneamente, mimando-a com uma cachorra filhote da ra\u00e7a Lulu da Pomer\u00e2nia e um&nbsp; filhote de gato persa que traziam nas m\u00e3os. Eles haviam mantido a aquisi\u00e7\u00e3o dos filhotes em segredo at\u00e9 o&nbsp; grande dia e, para a surpresa de ambos, perceberam que tiveram a mesma ideia ap\u00f3s ela ter mencionado, em&nbsp; um bate-papo descontra\u00eddo, que queria um animalzinho de estima\u00e7\u00e3o enquanto n\u00e3o tivesse filhos. Margaret pegou os dois filhotes nos bra\u00e7os, cheirou, apertou, beijou, j\u00e1 preocupada em faz\u00ea-los conviver bem um com&nbsp; outro. Uma cachorra e um gato. Com um toque de humor e personalidade, Margaret batizou os novos&nbsp; integrantes da fam\u00edlia de Mafrid e Mattore em homenagem, \u00e9 claro, aos dois que a presentearam.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de talento de Margaret para algumas coisas corriqueiras a tornava mais humana e acess\u00edvel; de tempos&nbsp; em tempos, surpreendia e causava divers\u00e3o e simpatia nas pessoas. Na cozinha, um ovo frito certamente&nbsp; virava uma obra de arte esquisita, abstrata em suas m\u00e3os. Ela tinha um &#8220;dedo marrom&#8221; na jardinagem, at\u00e9&nbsp; mesmo para os pequenos e pobres cactos, que nem careciam de muito. Desajeitada para a dan\u00e7a com seus&nbsp; \u201cdois p\u00e9s esquerdos\u201d e para o canto, \u201cfazia os bem-te-vis ficarem em sil\u00eancio ao redor, em choque, quando cismava em improvisar alguma opereta no jardim\u201d, como disse Frida uma vez. Quem a acompanha sabe que o m\u00e1ximo que conseguia antes, no desenho de carne e osso, era uma casinha, uma \u00e1rvore, algumas flores,&nbsp; figurinhas de gente no gramado e uma cerca, mas ela se esfor\u00e7ava. Teimosa por virtude, teve que se desdobrar&nbsp; para aprimorar-se nesta arte devido \u00e0 profiss\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cArrancam-lhe a p\u00e9rola, mas a concha&#8230;\u201d <\/em>Margaret iniciou o rascunho para a pen\u00faltima p\u00e1gina de seu livro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sem pressa para o lan\u00e7amento, ela implementou uma ousada e longa campanha publicit\u00e1ria, com exibi\u00e7\u00f5es&nbsp; di\u00e1rias de imagens e cita\u00e7\u00f5es bastante controversas, todas exclusivas da obra, que, por si s\u00f3, j\u00e1 causou furor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o devemos acreditar em tudo que nossos olhos veem \u00e9 a mais pura verdade, como pode&nbsp; ser verificada atrav\u00e9s de &#8220;VIDA DE MADAME&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre as cr\u00f4nicas bastante comentadas, cinco foram duramente questionadas: <em>\u201cOs porcos tamb\u00e9m gostam de&nbsp; p\u00e9rolas\u201d, \u201cQuando a vingan\u00e7a \u00e9 a \u00fanica justi\u00e7a que sobra, quem precisa de leis?\u201d, \u201cAs l\u00e1grimas de ouro da&nbsp; riqueza n\u00e3o caem sobre feij\u00f5es\u201d, \u201cSempre carregue uma faca na bolsa. No caso de uma torta ou algo assim\u201d&nbsp; <\/em>e <em>\u201cGourmet ou migalhas? Sirvam-se!\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Duas das cr\u00f4nicas, <em>\u201cResponda com classe e transforme a raiva em arte\u201d, \u201cAs brechas bobas que as bestas&nbsp; deixam\u201d<\/em>, viraram bord\u00f5es, enquanto outras quatro, <em>\u201cNo jogo do poder, a amante \u00e9 a pe\u00e7a que ningu\u00e9m&nbsp; admite mover\u201d, \u201cLiberdade: asas cortadas, fritas em \u00f3leo quente\u201d, \u201cSuspiros salgados, ovos crus e ninhos de&nbsp; serpentes\u201d <\/em>e <em>\u201cOs pal\u00e1cios, os palha\u00e7os e os p\u00e9s-descal\u00e7os sobre o fio da navalha\u201c <\/em>levantaram pol\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p>Com uma cr\u00edtica social incisiva atrav\u00e9s de dezesseis cr\u00f4nicas ilustradas, ora em primeira, ora em terceira&nbsp; pessoa, repletas de met\u00e1foras, algumas ironias e sarcasmos, escritas por Margaret, e fotografias amb\u00edguas com&nbsp; sobreposi\u00e7\u00f5es, perspectivas inusitadas e desfoques, criadas por Murilo Ventura, conhecido como o paparazzo&nbsp; que mais seguiu os passos de Margaret, e o pref\u00e1cio do Dr. Carlos Menezes, aquele amigo juiz, o livro gerou&nbsp; controv\u00e9rsias. O tom cru e emocional e os assuntos que ela cutucou finalmente ca\u00edram na boca das pessoas,&nbsp; por bem ou por mal, garantindo que \u201cVIDA DE MADAME\u201d tivesse as vendas rapidamente esgotadas. Na&nbsp; certa, uma segunda edi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m esvaziaria as prateleiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas afinal, de que mat\u00e9ria essa mulher era feita? Muitos se perguntavam. Como uma mulher, figura&nbsp; aparentemente fr\u00e1gil, nem magra nem gorda, com 1,58 m de altura e algumas sardas no rosto, conseguia&nbsp; dominar t\u00e3o completamente qualquer ambiente em que pisasse? Quem sabe fosse seu cora\u00e7\u00e3o solid\u00e1rio,&nbsp; indivis\u00edvel por classes sociais. Ou talvez fossem seus cabelos em ondas, com cor e movimento de fogo brando, ou seus olhos doces, azuis, que aprenderam a enxergar al\u00e9m-mar. Talvez fossem suas garras afiadas,&nbsp; em m\u00e3os pequenas, pintadas de rosa, ou sua habilidade distinta em manipular situa\u00e7\u00f5es de forma estrat\u00e9gica&nbsp; no mundo do faz-de-conta e outros mundos. Ou ainda, talvez, fossem seus voos rasantes de ave aqu\u00e1tica e&nbsp; pousos for\u00e7ados de rapina em covas de le\u00f5es.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Era essa combina\u00e7\u00e3o de for\u00e7a e delicadeza em Margaret que provocava perturba\u00e7\u00e3o, admira\u00e7\u00e3o e inveja. Foi&nbsp; essa coexist\u00eancia harmoniosa, essa resist\u00eancia trabalhada de flor, cujas p\u00e9talas delicadas permaneciam inteiras&nbsp; ap\u00f3s temporais, ou de p\u00e1ssaro, cujas penas leves enfrentam ventos fortes sem perder o rumo, que fez com que&nbsp; Alexander Sinclair, o engenheiro que constru\u00eda castelos movedi\u00e7os sobre esgotos sem claraboias, se sentisse&nbsp; desafiado e diminu\u00eddo, recolhendo-se \u00e0 sua pr\u00f3pria fraqueza, ao seu ego inseguro, sem fundamenta\u00e7\u00f5es, rendido, e salivasse sua ira em outras bocas. N\u00e3o podia competir, pois perderia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a vida de Margaret n\u00e3o se resumia \u00e0 correria e ao sucesso no trabalho, seja ele arquitet\u00f4nico,&nbsp; art\u00edstico ou liter\u00e1rio. Ela encontrava significado nos pequenos momentos triviais do dia a dia, na conviv\u00eancia&nbsp; com seus empregados e animais de estima\u00e7\u00e3o, e nas aventuras cotidianas que sempre rendiam novas hist\u00f3rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do ver\u00e3o, enquanto aprendia a cozinhar, em uma tentativa de fazer ovos Benedict, Margaret quase&nbsp; incendiou a cozinha de Rosa. Mafrid, a Lulu da Pomer\u00e2nia, surpreendentemente, deu \u00e0 luz tr\u00eas filhotes vira latas, e Mattore, o gato desavisado, passava o dia lambendo-os como se fossem dele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Margaret e Salvatore t\u00eam trocado olhares que n\u00e3o disfar\u00e7am mais o romance florescente entre os dois \u2014 para&nbsp; o del\u00edrio de Clarice e Virg\u00ednia, as auxiliares dom\u00e9sticas, que est\u00e3o vibrando com esta possibilidade, e para os&nbsp; paparazzi de plant\u00e3o. Rumores j\u00e1 est\u00e3o pegando fogo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dar \u00e0 luz, trazer aos holofotes as feridas; mostr\u00e1-las, exp\u00f4-las e se livrar delas, deix\u00e1-las irem embora para n\u00e3o&nbsp; viver o resto da vida assombrada por elas. Liberdade, para Margaret, significava simplesmente ser. Ser,&nbsp; apenas. Talvez ela tivesse nascido mesmo com o dom da pol\u00eamica, para poder ser e permitir que outros&nbsp; tamb\u00e9m fossem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO passado n\u00e3o te define, te refina\u201d, <\/em>escreveu Margaret Whitmore no final de seu livro.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje pela manh\u00e3, ela chorou feito crian\u00e7a ao ver as rosas brancas, as preferidas de seu pai, devoradas por&nbsp; lagartas durante a noite em seu jardim da frente. Distra\u00edda, Margaret se esqueceu das borboletas. Das&nbsp; borboletas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><br><strong>Nilza Murakawa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-luminous-vivid-amber-to-luminous-vivid-orange-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/nilza.murakawa?locale=pt_BR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"FACEBOOK\">FACEBOOK<\/a><\/h4>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-luminous-vivid-amber-to-luminous-vivid-orange-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/nilza_mura\/\" title=\"INSTAGRAM\">INSTAGRAM<\/a><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/\" title=\"Voltar\">Voltar<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/JCulturalRol\/\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As l\u00e1grimas vieram mais tarde. 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