{"id":74544,"date":"2025-07-29T08:15:00","date_gmt":"2025-07-29T11:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=74544"},"modified":"2025-07-29T08:37:08","modified_gmt":"2025-07-29T11:37:08","slug":"o-portugues-que-a-africa-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=74544","title":{"rendered":"O Portugu\u00eas que a \u00c1frica fala"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F74544&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F74544&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Fidel Fernando: Artigo &#8216;O Portugu\u00eas que a \u00c1frica fala&#8217;<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"691\" height=\"671\" data-attachment-id=\"69528\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=69528\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/MG_9598-copiar-1.jpg\" data-orig-size=\"691,671\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;11&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;Canon EOS 1200D&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1726747767&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;50&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;800&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.01&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"_MG_9598 copiar (1)\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Fidel Fernando&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Fidel Fernando&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/MG_9598-copiar-1.jpg\" src=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/MG_9598-copiar-1.jpg\" alt=\"Fidel Fernando\" class=\"wp-image-69528\" style=\"width:141px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fidel Fernando<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" data-attachment-id=\"74545\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=74545\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4f66fd4e-6a40-4050-8bae-b009560b76d7.jpg\" data-orig-size=\"1024,1024\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"4f66fd4e-6a40-4050-8bae-b009560b76d7\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4f66fd4e-6a40-4050-8bae-b009560b76d7.jpg\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4f66fd4e-6a40-4050-8bae-b009560b76d7.jpg\" alt=\"Imagem criada por IA do Bing - 22 de Julho de 2025, \u00e0s 23:33 PM\" class=\"wp-image-74545\" style=\"width:334px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4f66fd4e-6a40-4050-8bae-b009560b76d7.jpg 1024w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4f66fd4e-6a40-4050-8bae-b009560b76d7-600x600.jpg 600w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4f66fd4e-6a40-4050-8bae-b009560b76d7-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Imagem criada por IA do Bing &#8211; <\/em>22 de Julho de 2025,<br> \u00e0s 23:33 PM<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">A l\u00edngua \u00e9 muito mais do que um instrumento de comunica\u00e7\u00e3o: \u00e9 um campo de disputas simb\u00f3licas, culturais e pol\u00edticas. No contexto afro-brasileiro (e, por extens\u00e3o, no angolano), ela revela marcas profundas de uma hist\u00f3ria racializada, feita de resist\u00eancias e ressignifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao analisarmos o portugu\u00eas falado no Brasil e em Angola, torna-se evidente que a heran\u00e7a lingu\u00edstica vai al\u00e9m da simples influ\u00eancia colonial lusitana. A oralidade, os sotaques, as escolhas lexicais e as estruturas gramaticais s\u00e3o testemunhos vivos de um passado de opress\u00e3o e de um presente ainda marcado por desigualdades. Nas ruas, nas igrejas, nas fam\u00edlias e nas salas de aula, o modo de falar continua a ser vigiado, corrigido e, muitas vezes, estigmatizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vigil\u00e2ncia est\u00e1 directamente relacionada ao preconceito lingu\u00edstico, que, na pr\u00e1tica, opera como uma forma velada de racismo. Desde os primeiros contactos entre os africanos escravizados e o portugu\u00eas europeu, houve uma imposi\u00e7\u00e3o violenta da l\u00edngua do colonizador. Contudo, essa assimila\u00e7\u00e3o nunca foi completa. O portugu\u00eas, tal como \u00e9 falado hoje no Brasil e em Angola, carrega tra\u00e7os lingu\u00edsticos de l\u00ednguas africanas, sobretudo das l\u00ednguas bantu, como o kimbundu, o umbundu e o kikongo.<\/p>\n\n\n\n<p>Exemplos dessa influ\u00eancia abundam. Mendon\u00e7a (1933, <em>apud<\/em> Severo, 2019) destaca o impacto da pron\u00fancia de origem africana em formas como \u2018<a href=\"https:\/\/revista.abralin.org\/index.php\/abralin\/article\/view\/483\">foya<\/a>\u2019 por \u2018folha\u2019, ou \u2018cafez\u00e1\u2019 por \u2018cafezal\u2019. Entre os fen\u00f3menos mais relevantes est\u00e1 o rotacismo: a troca do som [l] por [r], como em \u2018frecha\u2019 por \u2018flecha\u2019. Segundo Cambolo (2025), isso ocorre por partilharem o mesmo ponto de articula\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma adapta\u00e7\u00e3o oral leg\u00edtima, mas frequentemente ridicularizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Angola, essas ocorr\u00eancias tamb\u00e9m s\u00e3o comuns. O caso de \u2018sarsicha\u2019 por \u2018salsicha\u2019, \u2018sorta\u2019 em vez de \u2018solta\u2019, \u2018barde\u2019 no lugar de \u2018balde\u2019, \u2018sardo\u2019 por \u2018saldo\u2019 s\u00e3o v\u00e1rios exemplos ilustrativos. No entanto, em vez de serem reconhecidas como heran\u00e7as lingu\u00edsticas, essas varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o, muitas vezes, tratadas como &#8216;erros&#8217;, especialmente no ambiente escolar.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fen\u00f3meno recorrente \u00e9 a <a href=\"https:\/\/conceito.de\/aferese\">af\u00e9rese,<\/a> tal como em \u2018mor\u2019 por \u2018amor\u2019 ou \u2018nhado\u2019 por \u2018cunhado\u2019. Estas formas s\u00e3o naturais em contextos familiares, mas tornam-se alvo de correc\u00e7\u00f5es quando atravessam para espa\u00e7os escolares elitizados. O que se observa aqui \u00e9 a tens\u00e3o entre o portugu\u00eas da viv\u00eancia e o portugu\u00eas do poder, onde quem define o que \u00e9 \u201ccorrecto\u201d define tamb\u00e9m quem pode ser inclu\u00eddo socialmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o do plural tamb\u00e9m exemplifica a influ\u00eancia bantu. Como explica Domingos (2024), constru\u00e7\u00f5es como \u201cas casa grande\u201d derivam da l\u00f3gica gramatical das l\u00ednguas bantu, que usam prefixos e n\u00e3o sufixos para indicar n\u00famero. O que se interpreta como erro de concord\u00e2ncia \u00e9, na verdade, uma estrutura coerente com outra l\u00f3gica lingu\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>O preconceito lingu\u00edstico afecta especialmente as crian\u00e7as negras. Quando s\u00e3o corrigidas com desprezo por falarem como os seus av\u00f3s ou vizinhos, o que est\u00e1 em causa n\u00e3o \u00e9 apenas a l\u00edngua, mas a pr\u00f3pria identidade. A isso soma-se a dimens\u00e3o de g\u00e9nero: as mulheres negras s\u00e3o as mais vigiadas, corrigidas e silenciadas. Gonz\u00e1les (1984) evidencia esta dupla opress\u00e3o ao lembrar o papel social das mulheres negras historicamente subordinadas e a forma como a sua fala \u00e9 tratada.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, a escola desempenha um papel crucial. Pode perpetuar o preconceito ao impor uma norma-padr\u00e3o afastada da realidade dos alunos, ou pode tornar-se espa\u00e7o de valoriza\u00e7\u00e3o das m\u00faltiplas formas de falar portugu\u00eas. A minha experi\u00eancia como professor mostrou-me que, ao respeitar a oralidade dos alunos, \u00e9 poss\u00edvel promover maior envolvimento e sucesso acad\u00e9mico. Ensinar a norma culta n\u00e3o deve significar apagar as outras formas de falar, mas, sim, ampliar o repert\u00f3rio lingu\u00edstico com consci\u00eancia cr\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>O portugu\u00eas que se fala no Brasil \u00e9 fruto de s\u00e9culos de conviv\u00eancia, imposi\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia e criatividade. Como afirma Andrade (2020), os sons, a melodia e o vocabul\u00e1rio foram moldados por vozes africanas. Essa heran\u00e7a est\u00e1 viva, mesmo quando disfar\u00e7ada de \u201cerro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, aceitar a diversidade lingu\u00edstica \u00e9 aceitar a pluralidade do povo que comp\u00f5e o Brasil e Angola. \u00c9 reconhecer que a l\u00edngua do poder foi, sim, transformada pela for\u00e7a e pelo saber dos povos africanos. E \u00e9, sobretudo, recusar a ideia de que h\u00e1 uma \u00fanica forma leg\u00edtima de falar portugu\u00eas. Nesta hora, lembramo-nos do questionamento de <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/42194447\/Racismo_sexismo_GONZALEZ\">Gonz\u00e1les<\/a> (1984), \u201cquem que \u00e9 o ignorante?\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><br>Fidel Fernando<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-electric-grass-gradient-background has-background\"><a href=\"maito:fidelfernando696@gmail.com\" title=\"E-meio\">E-meio<\/a><\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-electric-grass-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/fidel.fernando.10?locale=pt_BR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-electric-grass-gradient-background has-background\"><a href=\"https:www.instagram.com\/fidel1225\" title=\"Instagram\">Instagram<\/a><\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/\" title=\"Voltar\">Voltar<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/JCulturalrol\/\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A l\u00edngua \u00e9 muito mais do que um instrumento de comunica\u00e7\u00e3o: \u00e9 um campo de disputas simb\u00f3licas, culturais e pol\u00edticas. 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