{"id":80162,"date":"2026-04-19T14:40:46","date_gmt":"2026-04-19T17:40:46","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=80162"},"modified":"2026-04-19T15:53:28","modified_gmt":"2026-04-19T18:53:28","slug":"a-arquitetura-da-exaustao-patologia-da-normalidade-subjetividade-e-pressao-conjugal-no-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=80162","title":{"rendered":"A Arquitetura da Exaust\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F80162&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F80162&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">CINEMA EM TELA <br><br>Marcus Hemerly <br><br>&#8216;A Arquitetura da Exaust\u00e3o: Patologia da Normalidade, Subjetividade e Press\u00e3o Conjugal no Cinema&#8217;<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" data-attachment-id=\"80163\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=80163\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ROL.jpg\" data-orig-size=\"800,600\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"ROL\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ROL.jpg\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ROL.jpg\" alt=\"Card da coluna Cinema em Tela \n A Arquitetura da Exaust\u00e3o: Patologia da Normalidade, Subjetividade e Press\u00e3o Conjugal no Cinema\" class=\"wp-image-80163\" style=\"width:686px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ROL.jpg 800w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ROL-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Card da coluna Cinema em Tela <\/em><br><em> A Arquitetura da Exaust\u00e3o: Patologia da Normalidade, Subjetividade e Press\u00e3o Conjugal no Cinema<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Nota-se, a partir de uma an\u00e1lise sobre a resson\u00e2ncia dos movimentos femininos na evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, que a d\u00e9cada de 1970 representa um marco de fratura na representa\u00e7\u00e3o do feminino. Longe do glamour apaziguador da Hollywood cl\u00e1ssica ou do melodrama complacente das d\u00e9cadas anteriores, o cinema dos anos 70 tornou-se um sism\u00f3grafo das ang\u00fastias estruturais de uma sociedade em transi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Neste escopo anal\u00edtico, de forma curiosa, assoma uma relevante dissec\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica e est\u00e9tica de duas obras que, embora geograficamente distantes, dialogam de forma simbi\u00f3tica: o estadunidense \u2018Uma Mulher Sob Influ\u00eancia\u2019 (A Woman Under the Influence, 1974), de John Cassavetes, e o brasileiro \u2018Inquieta\u00e7\u00f5es de uma Mulher Casada\u2019, de 1979, dirigido por Alberto Salv\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambas as produ\u00e7\u00f5es escrutinam as profundas fissuras que emergem quando o indiv\u00edduo feminino \u00e9 coagido a habitar um molde social padronizado e, de diferentes formas, repressivo, expondo o custo ps\u00edquico e emocional da adequa\u00e7\u00e3o aos pap\u00e9is conjugais impostos. Para compreender a densidade dram\u00e1tica das duas protagonistas femininas \u2014 Luiza, na trama brasileira, e Mabel, no filme do mago do cinema autoral independente, o vers\u00e1til Cassavetes \u2014, \u00e9 imperativo tra\u00e7ar um breve panorama sociol\u00f3gico em que est\u00e3o inseridas. <\/p>\n\n\n\n<p>A d\u00e9cada de 1970 foi atravessada pela consolida\u00e7\u00e3o de importantes pautas feministas, mas as estruturas de poder e o microuniverso familiar operavam, predominantemente, sob uma in\u00e9rcia patriarcal opressiva, assentada na mentalidade n\u00e3o apenas masculina, mas de reverbera\u00e7\u00f5es unificadoras do pensamento em ambos os extremos do continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o olhar voltado ao contexto norte-americano, nota-se que a classe trabalhadora e m\u00e9dia lidavam com a ressaca dos movimentos civis dos anos 60. Contudo, o espa\u00e7o dom\u00e9stico permanecia como um monumento do conservadorismo, a despeito das inova\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias vertentes das artes que dissonavam das realidades de pensamento arraigado social. <\/p>\n\n\n\n<p>A mulher deveria ser a \u00e2ncora emocional de um lar est\u00e1vel, uma anfitri\u00e3 impec\u00e1vel e uma m\u00e3e abnegada. Qualquer desvio dessa rota\u00e7\u00e3o era rapidamente problematizado pela sociedade civil e m\u00e9dica, refletindo um vi\u00e9s que elevava a um tom patol\u00f3gico, por assim dizer, epis\u00f3dios de inadequa\u00e7\u00e3o feminina ao estere\u00f3tipo esperado e incutido pela vis\u00e3o mais rasa do \u201cpapel\u201d da mulher no \u00e2mbito dom\u00e9stico, o que, por fim, acabava por confin\u00e1-la naquele espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, de forma similar, o ano de 1979, data da produ\u00e7\u00e3o de Salv\u00e1 \u2014 que contava com a participa\u00e7\u00e3o de Nuno Leal Maia e Ot\u00e1vio Augusto (no papel do marido) \u2014, marcava o per\u00edodo de abertura supostamente gradual da Ditadura Militar. O pa\u00eds operava sob os reflexos de uma profunda crise econ\u00f4mica, que encerrou as ilus\u00f5es do &#8220;Milagre Econ\u00f4mico&#8221;, e de um moralismo institucionalizado pela censura, pelas tradi\u00e7\u00f5es religiosas e sua resson\u00e2ncia cultural. Vale lembrar que, de forma anacr\u00f4nica, o div\u00f3rcio s\u00f3 havia sido melhor tratado pela legisla\u00e7\u00e3o brasileira em 1977, pela entrada ao universo jur\u00eddico da Lei n\u00ba 6.515\/1977.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa premissa, o n\u00facleo comum entre essas duas realidades aparentemente distantes reside na exig\u00eancia social do que Erving Goffman chamaria de &#8220;representa\u00e7\u00e3o&#8221; ou performance dentro de um grupo. Tanto no sub\u00farbio oper\u00e1rio americano quanto na classe m\u00e9dia urbana brasileira, a mulher estava submetida a uma adequa\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O custo psicol\u00f3gico de manter essa performatividade, ou dita &#8220;normalidade&#8221; exigida pelo casamento e conven\u00e7\u00f5es sociais, resulta, invariavelmente, em ansiedade cr\u00f4nica, desestabiliza\u00e7\u00e3o emocional e em uma aliena\u00e7\u00e3o de si mesma que, nesse contexto e por tais press\u00f5es catalisadas, descortinavam implica\u00e7\u00f5es sobre a sa\u00fade ps\u00edquica. Um mal que era criado e abafado pela dita \u201csociedade tradicional\u201d, que marginalizava, de forma conveniente, qualquer manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o ortodoxa dos reflexos patriarcais que ainda se institucionalizavam.<\/p>\n\n\n\n<p>As personagens Mabel Longhetti (Gena Rowlands) e Luiza (Denise Bandeira) s\u00e3o arqu\u00e9tipos de uma mesma sintomatologia: o colapso diante da coer\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica. Elas vivenciam um conflito dilacerante entre os seus desejos individuais e a opress\u00e3o quase rob\u00f3tica das expectativas sociais. Mabel, de *Uma Mulher Sob Influ\u00eancia*, \u00e9 uma mulher cuja excentricidade, afeto transbordante e vitalidade desajeitada n\u00e3o cabem no <em>roleplay<\/em> de esposa e m\u00e3e da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme de Cassavetes brilhantemente ilustra que a sua &#8220;loucura&#8221; n\u00e3o \u00e9 primariamente uma condi\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica inerente, mas sim uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 press\u00e3o insuport\u00e1vel para agir de forma tida por normal. Seu marido, Nick, interpretado pelo sempre \u00f3timo Peter Falk, a ama, mas \u00e9 incapaz de suportar o peso do julgamento social sobre o comportamento da esposa, materializado pela press\u00e3o velada de seus colegas de trabalho, fam\u00edlia e vizinhos, que criam o sustent\u00e1culo de seu imposto espa\u00e7o de viv\u00eancia. A intera\u00e7\u00e3o no casamento \u00e9 uma tentativa falha de adequa\u00e7\u00e3o m\u00fatua, na qual Mabel tenta, de forma rob\u00f3tica, agradar e executar o papel esperado; e quando falha, seu colapso emocional \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Luiza, por sua vez, aparentemente vive em completa harmonia com o marido truculento e em seu assumido papel de provedor, mas enfrenta uma constante ang\u00fastia inominada. Inserida no conforto burgu\u00eas brasileiro, sua inquieta\u00e7\u00e3o surge do vazio existencial nascido a partir de suas contempla\u00e7\u00f5es individuais, quando paralelizadas ao que, externamente, lhe \u00e9 imposto pelo marido e por sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, que espelham seu comportamento como constantemente inadequado, construindo assim uma estrutura sempre pr\u00f3xima de ruir. <\/p>\n\n\n\n<p>Ela tem o casamento est\u00e1vel e a posi\u00e7\u00e3o social delineada, mas isso a sufoca sob o verniz da respeitabilidade. A maneira como ela lida com essa desestabiliza\u00e7\u00e3o emocional diverge da explos\u00e3o histri\u00f4nica de Mabel. Luiza interioriza o t\u00e9dio e a lacuna de est\u00edmulos, at\u00e9 que ela se transforma em uma transgressora latente, o que, por fim, acaba se corporificando num encontro amoroso extraconjugal. Sua busca por autoafirma\u00e7\u00e3o ocorre contra as limita\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas, explorando sua pr\u00f3pria identidade e sexualidade para al\u00e9m do marido provedor, desafiando a estrutura ditatorial dom\u00e9stica.<\/p>\n\n\n\n<p>Curioso perceber que, em ambas as pel\u00edculas, o argumento central repousa na ideia de que a &#8220;normalidade&#8221; n\u00e3o \u00e9 um estado natural, mas um trabalho for\u00e7ado. A ansiedade \u00e9 o sintoma da discrep\u00e2ncia entre quem elas s\u00e3o e quem elas devem aparentar ser, o que, de forma inarred\u00e1vel, causa o rompimento com seu <em>modus vivendi.<\/em> Esse olhar mais intimista \u00e9 um t\u00f3pico f\u00e9rtil ao cinema independente de Cassavetes. A an\u00e1lise sociol\u00f3gica desses conflitos seria incompleta sem observar como a linguagem cinematogr\u00e1fica articula esse mal-estar. <\/p>\n\n\n\n<p>John Cassavetes, frequentemente considerado o patriarca do cinema independente norte-americano, desenvolveu uma metodologia de dire\u00e7\u00e3o que \u00e9 estruturalmente avessa \u00e0 artificialidade de Hollywood, quando comparada \u00e0s produ\u00e7\u00f5es mais comerciais. O que, no contexto brasileiro, seria aproximado ora a deriva\u00e7\u00f5es do cinema marginal, no \u00e2mbito tem\u00e1tico, ora do cinema novo, no plano est\u00e9tico \u2014 ainda que, erroneamente, tais movimentos sejam considerados d\u00edspares.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse passo, o estilo de cinema implementado por Cassavetes caracteriza-se pelo uso intenso de c\u00e2mera na m\u00e3o e primeiros planos fechados, gerando uma atmosfera claustrof\u00f3bica que mimetiza o confinamento psicol\u00f3gico da protagonista, o que se mostra intenso no filme \u2018A Morte de um Bookmaker Chin\u00eas\u2019 (1976). O recurso intensifica, por \u00f3bvio, a verossimilhan\u00e7a emotiva da diegese c\u00eanica, contribuindo para a concatena\u00e7\u00e3o de atua\u00e7\u00f5es viscerais, repletas de improvisa\u00e7\u00e3o e sobreposi\u00e7\u00f5es de di\u00e1logos. A aus\u00eancia de marcas de atua\u00e7\u00e3o r\u00edgida permite capturar a crueza e o embara\u00e7o da inadequa\u00e7\u00e3o social em tempo real, o que afasta a cena proposta de qualquer apar\u00eancia de artificialidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro recurso mais centrado no cinema por ele proposto \u00e9 traduzido pelo tempo dram\u00e1tico estendido, como em cenas longas que induzem o espectador a vivenciar o desconforto das intera\u00e7\u00f5es, retirando a v\u00e1lvula de escape da montagem cl\u00e1ssica a partir de hiatos emotivos. Novamente, \u00e9 interessante notar como a pertin\u00eancia das reflex\u00f5es levantadas por Cassavetes e espelhadas na narrativa de \u2018Inquieta\u00e7\u00f5es de uma Mulher Casada\u2019, filmes aparentemente distintos numa primeira mirada, descortinam um entrela\u00e7ar tem\u00e1tico convergente: a aud\u00e1cia de despir o \u201cente feminino\u201d das idealiza\u00e7\u00f5es f\u00edlmicas. <\/p>\n\n\n\n<p>A lente de Cassavetes recusa-se a fetichizar a loucura ou a domestica\u00e7\u00e3o de Mabel. Ao rev\u00e9s, ele documenta com uma compaix\u00e3o cl\u00ednica o que \u00e9 infligido \u00e0 personagem, pois, diferentemente de Luiza \u2014 que mesmo oprimida consegue se impor ao que lhe \u00e9 impingido, ainda que gradualmente \u2014, Mabel cede frente confrontada por suas pr\u00f3prias inquieta\u00e7\u00f5es e influ\u00eancias, sem reduto de escapat\u00f3ria. Em tom de complemento, em seu brilhante trabalho, Rodrigo Desider Fischer, define a linguagem de Cassavetes como:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c(\u2026) determinada n\u00e3o s\u00f3 pelo enredo ou pelo roteiro, mas tamb\u00e9m pelas atitudes dos atores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas personagens. A atua\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um fator determinante do discurso da obra, concretizando outros caminhos para uma leitura visual, sonora, sinest\u00e9sica, imag\u00e9tica e cognitiva. Ao assistir a um filme de Cassavetes \u00e9 poss\u00edvel fazer in\u00fameras leituras n\u00e3o somente por se tratar de uma obra complexa, de uma linguagem ousada ou de um roteiro bem elaborado, mas, sobretudo, por privilegiar o trabalho dos atores. <\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, os atores potencializam a obra e possibilitam que ela alcance mais complexidade, ambiguidade e profundidade de percep\u00e7\u00e3o, desencadeando tamb\u00e9m novos rumos dramat\u00fargicos\u201d (O corpo no cinema de John Cassavetes e sua import\u00e2ncia para o trabalho do ator contempor\u00e2neo, dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistas.usp.br\/pesquisator\/pt_BR\/article\/view\/36117\/38838\" title=\"https:\/\/revistas.usp.br\/pesquisator\/pt_BR\/article\/view\/36117\/38838\">https:\/\/revistas.usp.br\/pesquisator\/pt_BR\/article\/view\/36117\/38838<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>De outro lado, em 1979, Alberto Salv\u00e1 filma um drama intimista centrado numa dona de casa de classe m\u00e9dia, casada com um advogado de sucesso (Ot\u00e1vio Augusto) e atrapalhada por uma crise nervosa que desencadeia desacordos conjugais e a tentativa de uma viagem de reconcilia\u00e7\u00e3o que logo se desvia pelo desejo. O filme n\u00e3o se insere em nenhum dos grandes movimentos est\u00e9ticos enf\u00e1ticos daquele momento, seja a consolida\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Cinema Novo, ou das pornochanchadas, mas um drama psicol\u00f3gico urbano que olha para a intimidade burguesa com um realismo discreto, bem como a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 subjetividade feminina e \u00e0 crise de identidade da mulher casada em meio \u00e0s press\u00f5es de um casamento de classe m\u00e9dia, ressaltando a j\u00e1 mencionada tens\u00e3o entre conformidade social e o desejo de ruptura. V\u00e1lvula motora tamb\u00e9m correlata \u00e0 exaust\u00e3o de colapso da personagem de<\/p>\n\n\n\n<p>A despeito de tal proposi\u00e7\u00e3o, o t\u00edtulo menos falado e conhecido, dialoga na evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com o hiato da produ\u00e7\u00e3o nacional intensificado no governo Collor (extin\u00e7\u00e3o da Embrafilme e Concine), e a a dita retomada do cinema brasileiro, quando o Estado volta a financiar cinema e a produ\u00e7\u00e3o recupera um m\u00ednimo de continuidade institucional<\/p>\n\n\n\n<p>Percebe-se que essas obras permanecem como documentos vitais na hist\u00f3ria da arte, expondo de maneira, de um lado, mais t\u00e9cnica e sens\u00edvel, e de outro, mais escancarada e sem afagos, que a &#8220;adequa\u00e7\u00e3o&#8221;, quando imposta como imperativo categ\u00f3rico para a manuten\u00e7\u00e3o das engrenagens sociais e conjugais, opera como uma viol\u00eancia institucional silenciosa. <\/p>\n\n\n\n<p>E no sil\u00eancio e aparente seguran\u00e7a dom\u00e9stica, muitas das piores sev\u00edcias j\u00e1 foram engendradas, inclusive, n\u00e3o raro, de forma sistem\u00e1tica. Os corpos e mentes de Mabel e Luiza funcionam como campos de batalha, lembrando ao espectador que a performance da normalidade e adequa\u00e7\u00e3o imposta cobra um pre\u00e7o alt\u00edssimo daquelas que ousam transcender a fronteira de suas pr\u00f3prias vontades. E, por que n\u00e3o dizer, identidades.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><br>Marcus Hemerly<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-electric-grass-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/marcus_hemerly\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"Instagram\">Instagram<\/a><\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-electric-grass-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcus.hemerly\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/\" title=\"Voltar\">Voltar<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/JCulturalrol\/\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota-se, a partir de uma an\u00e1lise sobre a resson\u00e2ncia dos movimentos femininos na evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, que a d\u00e9cada de 1970 representa um marco de fratura na&#8230; <\/p>\n","protected":false},"author":22,"featured_media":80163,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[9398,9285],"tags":[16713,1983,16714,16715,16185],"class_list":["post-80162","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-literatura","tag-arquitetura-da-exaustao","tag-cinema-em-tela","tag-patologia-da-normalidade","tag-pressao-conjugal-no-cinema","tag-subjetividade"],"aioseo_notices":[],"views":114,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ROL.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":60785,"url":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=60785","url_meta":{"origin":80162,"position":0},"title":"Mulher \u00e9&#8230; Pintura de afectos, por C\u00e9sar Salgado","author":"Carla Pimenta","date":"6 de setembro de 2023","format":false,"excerpt":"A 8 de Julho de 2023, o Sal\u00e3o Nobre INCLUIR + da Associa\u00e7\u00e3o Incluir + em Torres Vedras abriu as portas \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o de pintura \u2018Mulher \u00e9\u2026\u2019, de C\u00e9sar Salgado.","rel":"","context":"Em &quot;Arte&quot;","block_context":{"text":"Arte","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?cat=9286"},"img":{"alt_text":"Mulher \u00e9... 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