{"id":83561,"date":"2026-08-20T08:30:00","date_gmt":"2026-08-20T11:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=83561"},"modified":"2026-08-19T19:21:28","modified_gmt":"2026-08-19T22:21:28","slug":"autoralidade-clandestina-na-pornochanchada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=83561","title":{"rendered":"Autoralidade clandestina na pornochanchada"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F83561&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F83561&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">CINEMA EM TELA  <br><br>Marcus Hemerly<br><br> &#8216;<strong>Autoralidade clandestina na pornochanchada: a dial\u00e9tica da boca do lixo<\/strong>&#8216;<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" data-attachment-id=\"83562\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=83562\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-19-at-14.26.49.jpeg\" data-orig-size=\"800,600\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"WhatsApp Image 2026-08-19 at 14.26.49\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-19-at-14.26.49.jpeg\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-19-at-14.26.49.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-83562\" style=\"aspect-ratio:1.333342182107778;width:447px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-19-at-14.26.49.jpeg 800w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-19-at-14.26.49-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Card da coluna Coluna<em> Cinema em Tela &#8211;  Autoralidade clandestina na pornochanchada: a dial\u00e9tica da boca do lixo&#8217;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">A historiografia do cinema brasileiro frequentemente esbarra em seus pr\u00f3prios purismos morais e est\u00e9ticos. Para compreender o fen\u00f4meno mercadol\u00f3gico e cultural que dominou as telas nacionais nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, \u00e9 basilar, antes de tudo, tra\u00e7ar a sua genealogia. A produ\u00e7\u00e3o alcunhada de &#8220;pornochanchada&#8221; deriva diretamente das chanchadas cl\u00e1ssicas, as com\u00e9dias de costumes e pastel\u00e3o imortalizadas pela Atl\u00e2ntida Cinematogr\u00e1fica. Esse modelo narrativo passou a incorporar contornos er\u00f3ticos ainda no Rio de Janeiro, espelhando as muta\u00e7\u00f5es comportamentais da \u00e9poca. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, foi ao migrar e se radicar de maneira mais pungente na &#8220;Boca do Lixo&#8221; paulistana \u2014 o efervescente polo cinematogr\u00e1fico no entorno da Rua do Triunfo \u2014 que o formato atingiu seu apogeu produtivo. Nesse reduto, o g\u00eanero se massificou e revelou not\u00e1vel plasticidade, amalgamando-se a diversas outras tipologias cinematogr\u00e1ficas. Se, de um lado, o Rio \u2014 tamb\u00e9m nascedouro cinemanovista \u2014 delineou os contornos origin\u00e1rios da f\u00f3rmula utilizada naqueles filmes, a partir das com\u00e9dias rom\u00e2ntico-er\u00f3ticas italianas, S\u00e3o Paulo a aprimorou, conferindo-lhe uma nova roupagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob o escrut\u00ednio de quem analisa a imagem n\u00e3o apenas como produto, mas como documento hist\u00f3rico, constata-se que a engrenagem da Boca do Lixo transcendia a mera reprodutibilidade industrial. Tratava-se de um complexo mosaico em que a artesania de aut\u00eanticos autores encontrava frestas expressivas no seio de um sistema mercadol\u00f3gico e exibidor extremamente engessado. O olhar hist\u00f3rico-anal\u00edtico prova que, a despeito de concess\u00f5es de fei\u00e7\u00e3o comercial, os filmes lastreavam um fen\u00f4meno que se autossustentava; afinal, a necessidade de vendagem e lucro n\u00e3o mitigou o af\u00e3 criativo de algumas personalidades que se destacavam no nicho autoral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O r\u00f3tulo &#8220;pornochanchada&#8221; encerra em si um paradoxo hist\u00f3rico e sem\u00e2ntico. \u00c9 imperativo frisar que a terminologia foi forjada pela imprensa da \u00e9poca com intuito estritamente difamat\u00f3rio, operando como um mecanismo elitista de rebaixamento daquela cinematografia. A cr\u00edtica jornal\u00edstica, em um ato de imprecis\u00e3o t\u00e9cnica, apropriou-se do prefixo &#8220;porn\u00f4&#8221; e passou a adjetivar indiscriminadamente obras inclu\u00eddas naquele sistema, nascido majoritariamente da estrutura da com\u00e9dia er\u00f3tica urbana. Multiplicaram-se, assim, categoriza\u00e7\u00f5es esdr\u00faxulas como &#8220;porn\u00f4-terror&#8221;, &#8220;porn\u00f4-disco&#8221; e &#8220;porn\u00f4-policial&#8221; \u2014 unificando, sob uma mesma pecha imprecisa e pejorativa, narrativas d\u00edspares que partilhavam apenas o territ\u00f3rio de produ\u00e7\u00e3o e o apelo comercial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No cotidiano da ind\u00fastria, tratava-se de um cinema balizado por uma premissa utilit\u00e1ria ditada pelos financiadores: or\u00e7amentos e cronogramas de filmagem ex\u00edguos, sem busca primeva por esmero t\u00e9cnico, e imperativo apelo popular. O aparato de marketing \u2014 cartazes e t\u00edtulos hiperb\u00f3licos \u2014 prometia uma orgia de sensa\u00e7\u00f5es e licen\u00e7as que, na sala escura, raramente se materializava. O famoso produtor Ant\u00f4nio Polo Galante, por muitos anos \u00e0 frente da maior produtora da Cinel\u00e2ndia paulistana, a Servicine, em muitas entrevistas revelava que o sucesso da fita basicamente repousava no t\u00edtulo incitante, n\u00e3o raro com duplos sentidos, aliado a uma atriz famosa num cartaz apelativo. Inserido, evidentemente, do que se permitia no digladiar hodierno com a censura, numa \u00e9poca em que se tentou criar um <em>star system<\/em>, tal como no mercado norte-americano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 o alvorecer dos anos 1980, os ditames da censura civil-militar e as pr\u00f3prias balizas do fil\u00e3o impunham que o sexo fosse rigorosamente simulado. A nudez resumia-se a fragmentos anat\u00f4micos, e o ato carnal era constru\u00eddo na sala de montagem, valendo-se de decupagens el\u00edpticas e sugest\u00f5es fora de quadro. Para garantir a comunicabilidade com as massas, a estrutura dependia de estere\u00f3tipos calcificados, que funcionavam como arqu\u00e9tipos dram\u00e1ticos e c\u00f4micos: o mach\u00e3o inveterado, o homossexual caricato e a virgem cobi\u00e7ada, objeto fetichizado e inating\u00edvel que impulsionava a narrativa, encarnando a moralidade vigente que o roteiro amea\u00e7ava transgredir. E, n\u00e3o raro, o fazia. Nesse oceano de produ\u00e7\u00f5es estereotipadas \u2014 para a cr\u00edtica, o famoso \u201cn\u00e3o vi e n\u00e3o gostei\u201d \u2014, emergiram cineastas capazes de subverter a f\u00f3rmula em prol de uma identidade est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria do lusitano Jean Garrett, nome art\u00edstico de Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Nunes Gomes da Silva, ilustra perfeitamente essa din\u00e2mica. Distanciando-se da matriz ancorada na com\u00e9dia de costumes de forma mais rasa, Garrett manipulava a obrigatoriedade do apelo er\u00f3tico para incursionar pelo thriller psicol\u00f3gico, pelo policial noir e pelo horror, at\u00e9 mesmo de vi\u00e9s c\u00f3smico e sobrenatural. Suas constru\u00e7\u00f5es dieg\u00e9ticas eram marcadas por atmosferas l\u00fagubres e tem\u00e1ticas que flertavam com o fant\u00e1stico, em frontal ruptura com a sistem\u00e1tica mais rudimentar que caracterizava a m\u00e9dia das produ\u00e7\u00f5es locais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Garrett demonstrou que a puls\u00e3o sexual exigida pelos financiadores era perfeitamente convers\u00edvel em tens\u00e3o dram\u00e1tica. Os contornos sensuais de uma jovem Aldine Muller numa praia paradis\u00edaca eram entremeados por elementos lovecraftianos em A For\u00e7a dos Sentidos; assassinos e sensualidade imprimiram ao policial Amadas e Violentadas tra\u00e7os de um verdadeiro giallo bem conduzido; e poderes sobrenaturais coadjuvados por uma trama familiar deram colorido ao inovador Excita\u00e7\u00e3o, com Kate Hansen. Assim, Garrett oferecia a condicionante comercial prometida nos letreiros, mas a embalava em uma mise-en-sc\u00e8ne de ineg\u00e1vel sofistica\u00e7\u00e3o formal e narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua tese de doutorado, \u201cErotismo no cinema brasileiro: a pornochanchada em perspectiva hist\u00f3rica\u201d (Curitiba: CRV, 2018), Jairo Carvalho do Nascimento aponta a linha de marketing utilizada:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEssas caracter\u00edsticas eram ingredientes do receitu\u00e1rio de produ\u00e7\u00e3o dos realizadores da Boca do Lixo e do Beco da Fome. Uma particularidade marcante da pornochanchada foi o seu processo eficiente de realiza\u00e7\u00e3o, do ponto de vista industrial, pautado na seguinte f\u00f3rmula: &#8216;erotismo, t\u00edtulos chamativos, baixo custo&#8217;, em uma proposta comercial que pregava &#8216;o m\u00ednimo de investimento para o m\u00e1ximo de aproveitamento&#8217;. Era a receita de sucesso seguida pelos produtores de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro. Filmes r\u00e1pidos, realizados em poucas semanas&#8230; (&#8230;) Nesse per\u00edodo (d\u00e9cada de 1970), a pornochanchada era, segundo Randal Johnson, &#8216;The third major force in independent Brazilian commercial cinema&#8217;, ao lado dos filmes de Mazzaropi e de Os Trapalh\u00f5es. A Embrafilme, empresa de economia mista fundada em 1969, criada e controlada pelo Governo Militar para incentivar a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de filmes no pa\u00eds, colaborou com algumas produ\u00e7\u00f5es em meados da d\u00e9cada de 1970, particularmente no Rio de Janeiro, na condi\u00e7\u00e3o de financiadora e distribuidora (&#8230;)\u201d (p. 58-59).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imposi\u00e7\u00e3o do lucro imediato na Boca do Lixo\/Rua do Triunfo \u2014 onde se concentravam as distribuidoras de est\u00fadios e produtoras, dada a proximidade com a Esta\u00e7\u00e3o da Luz \u2014 poderia ter provocado a esteriliza\u00e7\u00e3o absoluta da criatividade. Todavia, o resultado foi diametralmente oposto, o que n\u00e3o se viu de forma t\u00e3o acentuada na correspond\u00eancia carioca, no chamado Beco da Fome. A prem\u00eancia de se filmar com parcos recursos em uma zona degradada de S\u00e3o Paulo atraiu para o polo realizadores dotados de puls\u00e3o autoral. Historicamente, a Boca do Lixo coabitou o mesmo cronotopo \u2014 partilhando t\u00e9cnicos, loca\u00e7\u00f5es, equipamentos e elenco \u2014 do movimento consagrado como Cinema Marginal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, \u00e9 academicamente relevante definir as produ\u00e7\u00f5es da Boca como um \u201cfen\u00f4meno\u201d inserido num espa\u00e7o no qual tamb\u00e9m se verificava, de forma concomitante, o desabrochar do Cinema Marginal, e n\u00e3o como movimentos intrinsecamente dependentes, como comumente se confunde. Em suas incurs\u00f5es est\u00e9ticas, esses realizadores enfrentavam o escrut\u00ednio implac\u00e1vel da censura institucional, que amputava n\u00e3o apenas a lasc\u00edvia, mas, prioritariamente, qualquer contorno de subvers\u00e3o ideol\u00f3gica. Foi em um gesto de resist\u00eancia cifrada que autores genu\u00ednos revestiram seu cinema de uma densa, por\u00e9m impl\u00edcita, carga pol\u00edtica. Eles camuflavam cr\u00edticas estruturais sob o verniz do entretenimento er\u00f3tico, adotando formata\u00e7\u00e3o experimental para driblar a vigil\u00e2ncia dos censores. Para dimensionar a magnitude dessa sobreposi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre a linha de montagem de carga quase industrial e a autoralidade, \u00e9 imprescind\u00edvel citar as metodologias de expoentes que transitaram por esse ecossistema, a exemplo de Carlos Reichenbach e Ozualdo Candeias, assim como o alhures aludido Garrett.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Munido de vasta erudi\u00e7\u00e3o, Reichenbach \u2014 que sempre dizia ter chegado ao cinema a partir da literatura, pois majoritariamente roteirizava seus filmes \u2014 apropriou-se do substrato marginal para articular complexas reflex\u00f5es pol\u00edtico-filos\u00f3ficas. Seus protagonistas \u2014 desajustados po\u00e9ticos em constante atrito com a metr\u00f3pole opressiva \u2014 funcionam como alegorias vivas da aliena\u00e7\u00e3o capitalista e do autoritarismo estatal, embalados por narrativas de vanguarda, como em Lilian M: Relat\u00f3rio Confidencial (1975) e A Ilha dos Prazeres Proibidos (1979). Lembremos do curta-metragem Sangue Cors\u00e1rio e de sua obra-prima, Filme Dem\u00eancia, uma nova releitura da lenda de Fausto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda nesse trilhar sobre as figuras enigm\u00e1ticas da Boca do Cinema (como tamb\u00e9m era conhecida), um dos art\u00edfices da observa\u00e7\u00e3o neorrealista brasileira seria o mestre do cinema de deambula\u00e7\u00e3o, Ozualdo Candeias. O realizador rejeitou a dramaturgia engessada do com\u00e9rcio em favor de um profundo caminhar simbolista. Por meio da secura dial\u00f3gica, do sil\u00eancio opressivo e do flanar de personagens perif\u00e9ricos, orquestrou um cinema sensorial e visceralmente pol\u00edtico sobre a verdadeira margem do tecido social e as mazelas brasileiras. Pobreza, \u00eaxodo desordenado, disputas rurais, ignor\u00e2ncia, aus\u00eancia de perspectiva e, acima de tudo, o drama humano a partir da mais crua e sens\u00edvel brasilidade, como se observa de modo po\u00e9tico em A Margem (1967) e A Op\u00e7\u00e3o (1981).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A permeabilidade da Boca do Lixo tamb\u00e9m abrigou brilhantes transcodifica\u00e7\u00f5es da alta literatura, demonstrando que o polo era capaz de transcender a explora\u00e7\u00e3o dita mais vulgar. Alfredo Sternheim, j\u00e1 experiente jornalista e cr\u00edtico, notabilizou-se ao conferir requinte est\u00e9tico e desdobramento tr\u00e1gico \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de Luc\u00edola, o Anjo Pecador (1975), uma eficaz adapta\u00e7\u00e3o da obra rom\u00e2ntica de Jos\u00e9 de Alencar para a sintaxe audiovisual do per\u00edodo, sem destoar dos exigidos contornos er\u00f3ticos, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo. Sternheim j\u00e1 havia enfrentado sua via crucis com o departamento de censura quando estreou seu belo filme Anjo Loiro (1973), com Vera Fischer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme adiantado, as produ\u00e7\u00f5es da Rua do Triunfo n\u00e3o se estagnaram nas com\u00e9dias de costumes ou dramas er\u00f3ticos, traduzindo, em verdade, uma multitude caleidosc\u00f3pica de g\u00eaneros, lan\u00e7ando faroestes, musicais, filmes de canga\u00e7o e, por obviedade, o g\u00eanero imortal por excel\u00eancia: o terror. A mente por tr\u00e1s de Z\u00e9 do Caix\u00e3o transcendeu os c\u00f3digos cl\u00e1ssicos do horror rumo ao del\u00edrio surrealista. Jos\u00e9 Mojica Marins promoveu uma antropofagia visual, fundindo o erotismo \u00e0 escatologia e o misticismo folcl\u00f3rico ao macabro, subvertendo as linhas das conven\u00e7\u00f5es burguesas e do cinema bem-comportado. Al\u00e9m do c\u00e9lebre e pioneiro \u00c0 Meia-Noite Levarei Sua Alma, seus t\u00edtulos O Despertar da Besta (1970) e Exorcismo Negro (1974) assomam como fortes exemplos de cria\u00e7\u00e3o autoral em sua ess\u00eancia, cotejando qualidade est\u00e9tica e apelo popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesses meandros da margin\u00e1lia f\u00edlmica do per\u00edodo, Rog\u00e9rio Sganzerla ainda faria de seu O Bandido da Luz Vermelha (1968) um baluarte de desmoronamento dos pilares do cinema narrativo cl\u00e1ssico, em inventivo storytelling. Em tom epilogal, como tamb\u00e9m se viu gradativamente no fil\u00e3o da pornochanchada, houve o derradeiro e inelut\u00e1vel crep\u00fasculo hardcore e o fim da Boca no in\u00edcio dos anos 90, marcando o hiato produtivo at\u00e9 a era da Retomada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O esgotamento deste ciclo prol\u00edfico delineou-se no limiar dos anos 1980. Concomitantemente \u00e0 populariza\u00e7\u00e3o do videocassete e ao relaxamento dos vetos da censura como natural permissividade da evolu\u00e7\u00e3o e modifica\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, o mercado exibidor sofreu uma inunda\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00f5es de sexo expl\u00edcito. O espectador \u2014 antes condicionado a pagar ingresso pela encena\u00e7\u00e3o fetichista e pela ludicidade do desejo reprimido \u2014 passou a demandar a exposi\u00e7\u00e3o e closes genitais sem subterf\u00fagios ou pudores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O colapso econ\u00f4mico do circuito tradicional impeliu parte significativa desses artes\u00e3os \u00e0 indig\u00eancia produtiva ou \u00e0 migra\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria para a emergente ind\u00fastria da pornografia hardcore, como mera estrat\u00e9gia de subsist\u00eancia. Em um comovente esfor\u00e7o de resist\u00eancia estil\u00edstica, diretores buscaram injetar estofo dram\u00e1tico e arrojo formal em narrativas que, finalisticamente, funcionavam apenas como pretextos e desaguavam fatalmente no coito mec\u00e2nico. Esse projeto ut\u00f3pico de um &#8220;porn\u00f4 autoral&#8221; foi inexoravelmente abatido pelo fracasso mercadol\u00f3gico, culminando no doloroso ostracismo de not\u00e1veis cineastas, que viram suas rubricas perdendo o colorido com a redu\u00e7\u00e3o ainda maior da exig\u00eancia do p\u00fablico, ap\u00f3s a libera\u00e7\u00e3o via mandado de seguran\u00e7a da primeira fita expl\u00edcita brasileira, Coisas Er\u00f3ticas, de 1982. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 mesmo Garrett e Sternheim \u2014 este, que usaria seu pr\u00f3prio nomes nas fitas de sexo, ao rev\u00e9s dos colegas que se valeram de pseud\u00f4nimos \u2014 tentaram imprimir inventividade art\u00edstica ao nicho, sem \u00eaxito, entretanto. O cineasta Cl\u00e1udio Cunha, festejado por t\u00edtulos diferenciados como O Clube das Infi\u00e9is (1974), <em>Snuff<\/em>, V\u00edtimas do Prazer (1977) e Profiss\u00e3o Mulher (1982), teve sua catarse na fase expl\u00edcita em tom de chegada e partida simult\u00e2neos, produzindo o lend\u00e1rio Oh! Rebuceteio (1984), que, curiosamente, recebeu elogios da cr\u00edtica, afastando-se do cinema na sequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o obstante, ao postular-se uma an\u00e1lise retrospectiva e acad\u00eamica, \u00e9 imperativo asseverar que, do seu auge at\u00e9 sua l\u00fagubre derrocada, a Boca do Lixo foi um dos pilares de sustenta\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria audiovisual brasileira, levando o p\u00fablico a consumir cinema nacional quando o ingresso custava o mesmo que uma passagem de \u00f4nibus ou metr\u00f4. O reduto foi respons\u00e1vel por absorver uma vasta m\u00e3o de obra t\u00e9cnica e art\u00edstica, garantindo a democratiza\u00e7\u00e3o do cinema nacional junto aos estratos populares, e pela produ\u00e7\u00e3o do maior percentual de filmes lan\u00e7ados no pa\u00eds por v\u00e1rios anos. Hodiernamente, purgada dos moralismos que ofuscaram sua recep\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, essa filmografia figura no centro de rigorosas investiga\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas at\u00e9 mesmo internacionais. Trata-se de um patrim\u00f4nio imag\u00e9tico que, com ineg\u00e1vel justi\u00e7a, alcan\u00e7ou, ainda que tardiamente, a rever\u00eancia e o status cult imprescind\u00edveis para a compreens\u00e3o da hist\u00f3ria da arte visual brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Marcus Hemerly<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-electric-grass-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/marcus_hemerly\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"Facebook\">Instagram<\/a><\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-electric-grass-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcus.hemerly\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"httss:\/\/jornalrol.com.br\/\" title=\"Voltar\">Voltar<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com.br\/\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcus Hemerly analisa a pornochanchada na coluna Cinema em Tela, revelando como cineastas subverteram as regras comerciais da Boca do Lixo.<\/p>\n","protected":false},"author":22,"featured_media":83562,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[9286,11488],"tags":[18242,1420,1975,1983,18241,18240,4849,5388,18239],"class_list":["post-83561","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte","category-cinema","tag-antonio-polo-galante","tag-boca-do-lixo","tag-cinema-brasileiro","tag-cinema-em-tela","tag-historia-do-cinema","tag-jean-garrett","tag-jornal-cultural-rol","tag-marcus-hemerly","tag-pornochanchada"],"aioseo_notices":[],"aioseo_head":"\n\t\t<!-- All in One SEO 5.0.0.1 - 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