{"id":85705,"date":"2026-11-05T22:32:15","date_gmt":"2026-11-06T01:32:15","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=85705"},"modified":"2026-11-05T23:10:09","modified_gmt":"2026-11-06T02:10:09","slug":"entre-a-bandeira-e-o-abraco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=85705","title":{"rendered":"Entre a bandeira e o abra\u00e7o"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F85705&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F85705&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">A pol\u00edtica partid\u00e1ria, a solid\u00e3o ideol\u00f3gica e a necessidade de reencontrar a humanidade<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"966\" height=\"1288\" data-attachment-id=\"66477\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=66477\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b.jpg\" data-orig-size=\"966,1288\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Clayton A. Zocarato&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Clayton A. Zocarato&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b.jpg\" src=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b.jpg\" alt=\"Clayton Alexandre Zocarato\" class=\"wp-image-66477\" style=\"width:174px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b.jpg 966w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b-900x1200.jpg 900w, https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b-768x1024.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 966px) 100vw, 966px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Clayton A. Zocarato<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"572\" data-attachment-id=\"85708\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=85708\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/WhatsApp-Image-2026-11-05-at-22.19.20.jpeg\" data-orig-size=\"1024,572\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"WhatsApp Image 2026-11-05 at 22.19.20\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Em primeiro plano e ao centro, um homem com camisa vermelha est\u00e1 de costas e abra\u00e7a outro com camisa azul, no p\u00e1tio do Congresso Nacional. O homem de vermelho segura a bandeira do Brasil na m\u00e3o. No fundo, outras pessoas observam os dois, e algumas delas seguram cartazes brancos e em branco. Ao fundo, est\u00e1 o pr\u00e9dio do Congresso Nacional de Bras\u00edlia. \u00c9 fim de tarde, o c\u00e9u tem tons de amarelo perto do horizonte e de azul no topo.&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;https:\/\/gemini.google.com\/share\/7f91a68c0cd4?social_preview=false&amp;#038;skid=4703ea03-b15d-47bc-9782-b90807612c53&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/WhatsApp-Image-2026-11-05-at-22.19.20.jpeg\" src=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/WhatsApp-Image-2026-11-05-at-22.19.20.jpeg\" alt=\"Em primeiro plano e ao centro, um homem com camisa vermelha est\u00e1 de costas e abra\u00e7a outro com camisa azul, no p\u00e1tio do Congresso Nacional. O homem de vermelho segura a bandeira do Brasil na m\u00e3o. No fundo, outras pessoas observam os dois, e algumas delas seguram cartazes brancos e em branco. 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A pol\u00edtica, quando deixa de ser uma possibilidade de di\u00e1logo e passa a funcionar como uma esp\u00e9cie de religi\u00e3o partid\u00e1ria, abandona sua finalidade p\u00fablica e invade perigosamente os territ\u00f3rios mais \u00edntimos da exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O problema n\u00e3o est\u00e1 necessariamente em possuir uma posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, defender determinado projeto de sociedade ou acreditar em uma lideran\u00e7a pol\u00edtica, mas em transformar essas convic\u00e7\u00f5es em instrumentos de classifica\u00e7\u00e3o moral, como se a dignidade humana pudesse ser medida pela quantidade de afinidade que algu\u00e9m demonstra em rela\u00e7\u00e3o a determinado partido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A democracia deveria ser compreendida como uma constru\u00e7\u00e3o permanente de diverg\u00eancias, e n\u00e3o como uma competi\u00e7\u00e3o pela elimina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica daqueles que pensam diferentemente. Entretanto, observa-se que parte da sociedade brasileira passou a experimentar a pol\u00edtica como uma esp\u00e9cie de extens\u00e3o das rivalidades esportivas, nas quais a vit\u00f3ria de um lado representa a humilha\u00e7\u00e3o do outro. As cores, os n\u00fameros, os discursos e os s\u00edmbolos partid\u00e1rios assumem dimens\u00f5es quase afetivas, chegando a ocupar espa\u00e7os que anteriormente pertenciam \u00e0 amizade, \u00e0 solidariedade e \u00e0 conviv\u00eancia familiar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>O indiv\u00edduo deixa de conversar com outro indiv\u00edduo e passa a conversar com uma representa\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de seu advers\u00e1rio.<\/strong> N\u00e3o se escuta mais o argumento, procura-se descobrir a qual campo pertence aquele que fala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A palavra perde sua capacidade de aproximar e transforma-se em muni\u00e7\u00e3o; a conversa deixa de ser encontro e converte-se em julgamento. Nesse cen\u00e1rio, a pol\u00edtica j\u00e1 n\u00e3o se encontra apenas nos parlamentos, nas elei\u00e7\u00f5es ou nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, mas senta-se \u00e0 mesa do almo\u00e7o de domingo, atravessa os corredores das empresas, interfere nas rela\u00e7\u00f5es amorosas e, muitas vezes, determina quem merece ou n\u00e3o receber considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>Arist\u00f3teles, ao compreender o ser humano como um animal pol\u00edtico, demonstrava que a vida coletiva n\u00e3o constitui um elemento secund\u00e1rio da exist\u00eancia, mas uma dimens\u00e3o fundamental da pr\u00f3pria humanidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pol\u00edtica, nesse sentido, deveria representar a possibilidade de construir uma comunidade na qual as diferen\u00e7as fossem administradas pela raz\u00e3o e pela busca do bem comum. Contudo, existe uma dist\u00e2ncia consider\u00e1vel entre a concep\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica de comunidade e determinadas pr\u00e1ticas contempor\u00e2neas de milit\u00e2ncia partid\u00e1ria, especialmente quando a fidelidade a uma legenda se sobrep\u00f5e \u00e0 responsabilidade de reconhecer o outro como sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O cidad\u00e3o passa a defender menos uma ideia e mais uma identidade coletiva, mesmo quando essa identidade contradiz os princ\u00edpios que anteriormente dizia defender. \u00c9 como se a consci\u00eancia individual fosse substitu\u00edda por uma esp\u00e9cie de consci\u00eancia terceirizada, na qual pensar se torna menos importante do que repetir, questionar menos conveniente do que obedecer e reconhecer um equ\u00edvoco mais doloroso do que admitir que o advers\u00e1rio possa estar parcialmente correto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Thomas Hobbes, ao refletir sobre o conflito e a necessidade de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade, oferece elementos para compreender como o medo e a desconfian\u00e7a podem comprometer a conviv\u00eancia humana. Entretanto, na sociedade contempor\u00e2nea, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que exista uma guerra efetiva para que as pessoas experimentem rela\u00e7\u00f5es de hostilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;Basta que se estabele\u00e7a uma atmosfera permanente de suspeita, na qual qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de pensamento seja interpretada como provoca\u00e7\u00e3o. O vizinho passa a ser observado como advers\u00e1rio em potencial, o colega de trabalho transforma-se em representante de uma ideologia considerada perigosa e at\u00e9 mesmo os v\u00ednculos familiares s\u00e3o submetidos a uma esp\u00e9cie de fiscaliza\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O sujeito j\u00e1 n\u00e3o pergunta como o outro est\u00e1, mas em quem ele votou. E talvez resida nessa invers\u00e3o uma das manifesta\u00e7\u00f5es mais preocupantes da pobreza pol\u00edtica contempor\u00e2nea: a incapacidade de reconhecer a humanidade antes de reconhecer a ideologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O bipartidarismo, quando compreendido como uma estrutura de polariza\u00e7\u00e3o permanente entre dois grandes campos pol\u00edticos, pode contribuir para a redu\u00e7\u00e3o da complexidade social a uma oposi\u00e7\u00e3o simplificada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o significa que a exist\u00eancia de dois partidos ou dois grandes agrupamentos seja, por si mesma, incompat\u00edvel com a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O problema surge quando a sociedade passa a acreditar que somente existem duas possibilidades leg\u00edtimas de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade, como se todo pensamento precisasse obrigatoriamente escolher um dos lados de uma trincheira. A diversidade de experi\u00eancias, necessidades, interesses e concep\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas acaba comprimida em uma esp\u00e9cie de corredor estreito, no qual a liberdade de pensar \u00e9 substitu\u00edda pela obriga\u00e7\u00e3o de escolher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;O mundo, que \u00e9 composto por in\u00fameras contradi\u00e7\u00f5es, passa a ser apresentado como uma disputa entre duas verdades absolutas. &nbsp;&nbsp; A pol\u00edtica transforma-se, ent\u00e3o, em uma matem\u00e1tica emocional de vencedores e derrotados, na qual a possibilidade de construir consensos parece representar uma esp\u00e9cie de trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>Hannah Arendt, ao refletir sobre a pluralidade humana e a import\u00e2ncia do espa\u00e7o p\u00fablico, permite compreender que a pol\u00edtica somente encontra sentido quando diferentes pessoas podem aparecer, falar e agir diante das outras.<\/strong> A pluralidade n\u00e3o representa um obst\u00e1culo \u00e0 pol\u00edtica; representa sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma sociedade na qual todos pensassem exatamente da mesma maneira talvez fosse silenciosa, mas dificilmente seria verdadeiramente democr\u00e1tica. O perigo come\u00e7a quando a diferen\u00e7a deixa de ser reconhecida como parte da experi\u00eancia coletiva e passa a ser interpretada como uma amea\u00e7a \u00e0 exist\u00eancia do grupo. Nesse momento, o advers\u00e1rio pol\u00edtico deixa de ser algu\u00e9m com quem se disputa um projeto de sociedade e passa a ser algu\u00e9m cuja presen\u00e7a se deseja eliminar do horizonte das rela\u00e7\u00f5es humanas. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A democracia n\u00e3o pode sobreviver indefinidamente alimentada pelo ressentimento, porque uma comunidade n\u00e3o se constr\u00f3i apenas pela vit\u00f3ria eleitoral de seus representantes, mas pela capacidade cotidiana de seus cidad\u00e3os continuarem convivendo depois que as urnas s\u00e3o fechadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A m\u00fasica brasileira oferece algumas das mais profundas manifesta\u00e7\u00f5es dessa inquieta\u00e7\u00e3o. Durante a ditadura militar, artistas utilizaram a composi\u00e7\u00e3o musical como instrumento de resist\u00eancia, den\u00fancia e preserva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia coletiva. <strong>Em Apesar de Voc\u00ea<\/strong>, Chico Buarque construiu uma cr\u00edtica contundente ao autoritarismo por meio de uma linguagem aparentemente cotidiana, na qual a esperan\u00e7a se apresenta como uma for\u00e7a capaz de sobreviver \u00e0 opress\u00e3o. Em <strong>C\u00e1lice,<\/strong> parceria de Chico Buarque e Gilberto Gil, a met\u00e1fora da palavra impedida de circular transforma-se em den\u00fancia de uma sociedade na qual o sil\u00eancio era imposto como condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia. A can\u00e7\u00e3o n\u00e3o era simplesmente uma manifesta\u00e7\u00e3o contra determinado governo, mas uma defesa do direito de falar, existir e questionar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Existe uma diferen\u00e7a fundamental entre utilizar a m\u00fasica para despertar consci\u00eancias e utiliz\u00e1-la para reafirmar hostilidades partid\u00e1rias: no primeiro caso, a arte amplia o horizonte humano; no segundo, corre o risco de se transformar em mais um instrumento de segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tamb\u00e9m em <strong>Pra N\u00e3o Dizer que N\u00e3o Falei das Flores<\/strong>, de Geraldo Vandr\u00e9, encontramos uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica que ultrapassa a circunst\u00e2ncia pol\u00edtica de sua cria\u00e7\u00e3o. A can\u00e7\u00e3o tornou-se um s\u00edmbolo de mobiliza\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia, sobretudo porque sua mensagem n\u00e3o se limitava \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de um inimigo, mas convocava as pessoas a reconhecerem sua capacidade de participa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A caminhada coletiva evocada pela composi\u00e7\u00e3o possui uma dimens\u00e3o filos\u00f3fica que permanece atual: ningu\u00e9m transforma verdadeiramente a realidade permanecendo indiferente ao sofrimento alheio. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entretanto, seria contradit\u00f3rio utilizar uma can\u00e7\u00e3o que representa a mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva como justificativa para a destrui\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos entre pessoas que discordam politicamente. A resist\u00eancia contra a opress\u00e3o n\u00e3o deveria produzir novas formas de opress\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es cotidianas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em <strong>Que Pa\u00eds \u00c9 Este<\/strong>, da Legi\u00e3o Urbana, Renato Russo apresenta uma inquieta\u00e7\u00e3o que permanece associada \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais brasileiras. A cr\u00edtica presente na composi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se esgota em uma legenda partid\u00e1ria, pois alcan\u00e7a estruturas hist\u00f3ricas de corrup\u00e7\u00e3o, desigualdade e descren\u00e7a institucional. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Da mesma maneira, <strong>Brasil<\/strong>, interpretada por Cazuza, revela uma sociedade atravessada por frustra\u00e7\u00f5es, promessas e contradi\u00e7\u00f5es, na qual o sentimento de pertencimento nacional convive com a indigna\u00e7\u00e3o diante das injusti\u00e7as. Essas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas demonstram que a cr\u00edtica pol\u00edtica mais significativa n\u00e3o precisa necessariamente funcionar como propaganda de determinado agrupamento. Ela pode questionar o pr\u00f3prio funcionamento do poder, independentemente de quem esteja temporariamente ocupando seus espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 importante recordar tamb\u00e9m <strong>Comportamento Geral<\/strong>, de Gonzaguinha, cuja ironia exp\u00f5e a domestica\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo diante das estruturas de poder. A m\u00fasica brasileira, em diferentes momentos hist\u00f3ricos, demonstrou que o conformismo pode ser t\u00e3o prejudicial quanto a pr\u00f3pria viol\u00eancia institucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em <strong>O B\u00eabado e a Equilibrista<\/strong>, de Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc, imortalizada na interpreta\u00e7\u00e3o de Elis Regina, a esperan\u00e7a assume uma dimens\u00e3o coletiva, aproximando mem\u00f3ria, sofrimento e desejo de liberdade. A composi\u00e7\u00e3o n\u00e3o transforma a dor humana em propriedade de um grupo pol\u00edtico. Pelo contr\u00e1rio, apresenta a necessidade de reconstruir uma sociedade capaz de acolher aqueles que foram afastados, silenciados ou impedidos de participar de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Talvez seja justamente nessa capacidade de transcender a identifica\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria que resida a grandeza da m\u00fasica pol\u00edtica brasileira. A arte n\u00e3o deveria perguntar previamente em quem o ouvinte votou para decidir se merece ser compreendida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma can\u00e7\u00e3o pode ser apreciada por algu\u00e9m que possui convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas completamente diferentes das do compositor, porque a experi\u00eancia est\u00e9tica possui uma capacidade de atravessar fronteiras ideol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;A m\u00fasica permite que duas pessoas, mesmo discordando profundamente sobre os caminhos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, compartilhem uma mesma melodia, uma lembran\u00e7a, uma tristeza ou uma esperan\u00e7a. Quando isso acontece, a arte realiza algo que a pol\u00edtica partid\u00e1ria frequentemente esquece: demonstra que a conviv\u00eancia humana n\u00e3o depende da uniformidade das opini\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jean-Jacques Rousseau, <strong>ao desenvolver suas reflex\u00f5es sobre a vontade geral,<\/strong> procurou compreender os fundamentos de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica orientada para o interesse coletivo. Sua contribui\u00e7\u00e3o permite questionar uma sociedade na qual os interesses particulares dos grupos acabam se sobrepondo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma vontade p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando a pol\u00edtica \u00e9 reduzida \u00e0 defesa incondicional de organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, o cidad\u00e3o corre o risco de esquecer que o Estado n\u00e3o pertence aos partidos, assim como a democracia n\u00e3o pertence exclusivamente aos vencedores de uma elei\u00e7\u00e3o. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os governos passam, as lideran\u00e7as desaparecem, as legendas se reorganizam, mas as consequ\u00eancias das decis\u00f5es pol\u00edticas permanecem na vida daqueles que precisam trabalhar, estudar, alimentar suas fam\u00edlias e enfrentar diariamente as dificuldades de uma realidade social desigual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Karl Marx, por sua vez, oferece instrumentos importantes para compreender como <strong>as condi\u00e7\u00f5es materiais<\/strong> interferem nas rela\u00e7\u00f5es sociais e na forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel discutir a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica brasileira sem considerar as desigualdades econ\u00f4micas, a concentra\u00e7\u00e3o de oportunidades, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e as diferentes experi\u00eancias de acesso aos direitos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;Entretanto, seria igualmente superficial acreditar que todas as diverg\u00eancias pol\u00edticas possam ser explicadas exclusivamente pela condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos indiv\u00edduos. A subjetividade humana \u00e9 mais complexa do que qualquer classifica\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica simplificada. Pessoas que compartilham dificuldades materiais podem apresentar interpreta\u00e7\u00f5es diferentes sobre a sociedade, assim como indiv\u00edduos pertencentes a grupos economicamente privilegiados podem desenvolver posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas distintas. A democracia exige justamente que essa complexidade seja reconhecida, em vez de transformada em uma disputa permanente de identidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>Michel Foucault ajuda a compreender que o poder n\u00e3o se encontra somente nas grandes institui\u00e7\u00f5es, nos gabinetes ou nos discursos oficiais. Ele tamb\u00e9m circula nas rela\u00e7\u00f5es cotidianas, nas pr\u00e1ticas de vigil\u00e2ncia, nas classifica\u00e7\u00f5es e nos mecanismos pelos quais determinados comportamentos s\u00e3o considerados aceit\u00e1veis ou inaceit\u00e1veis.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pol\u00edtica partid\u00e1ria, quando invade as rela\u00e7\u00f5es pessoais de maneira autorit\u00e1ria, pode reproduzir pequenos mecanismos de controle, nos quais o indiv\u00edduo sente a necessidade de vigiar suas palavras para n\u00e3o ser rejeitado por determinado grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A liberdade de express\u00e3o, nesse contexto, torna-se paradoxal: todos afirmam defend\u00ea-la, mas nem todos est\u00e3o dispostos a suportar a exist\u00eancia de uma opini\u00e3o diferente da sua. A toler\u00e2ncia parece funcionar apenas enquanto o outro concorda conosco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o entre convic\u00e7\u00e3o e fanatismo. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ter uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica significa assumir responsabilidades diante da sociedade; transformar essa posi\u00e7\u00e3o em uma verdade incontest\u00e1vel significa abdicar da possibilidade de aprender. O indiv\u00edduo politicamente consciente n\u00e3o \u00e9 aquele que permanece fiel a uma lideran\u00e7a independentemente de seus erros, mas aquele que conserva a capacidade de questionar inclusive os representantes que ajudou a eleger. A consci\u00eancia democr\u00e1tica exige uma esp\u00e9cie de coragem intelectual: a coragem de reconhecer que o advers\u00e1rio pode apresentar uma cr\u00edtica pertinente, que o pr\u00f3prio grupo pode cometer injusti\u00e7as e que nenhuma organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria possui o monop\u00f3lio da honestidade, da intelig\u00eancia ou da sensibilidade social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, o pensamento de Immanuel Kant permanece especialmente provocativo. Ao defender <strong>a autonomia da raz\u00e3o<\/strong>, Kant estabelece a import\u00e2ncia de n\u00e3o submeter o pr\u00f3prio julgamento \u00e0 tutela permanente de outra pessoa. Pensar por si mesmo significa assumir a responsabilidade pelas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, sem transformar a obedi\u00eancia em virtude intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pol\u00edtica contempor\u00e2nea necessita dessa autonomia, sobretudo em uma \u00e9poca na qual discursos simplificados circulam com velocidade e frequentemente encontram terreno f\u00e9rtil nas emo\u00e7\u00f5es coletivas. A opini\u00e3o n\u00e3o deveria ser apenas uma repeti\u00e7\u00e3o do que determinado l\u00edder afirma, assim como a indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria ser uma rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica aos est\u00edmulos produzidos pelas disputas partid\u00e1rias. Uma sociedade democr\u00e1tica precisa de cidad\u00e3os capazes de desconfiar inclusive das pr\u00f3prias certezas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; H\u00e1, contudo, uma dimens\u00e3o particularmente triste nessa polariza\u00e7\u00e3o: o empobrecimento dos afetos. Pessoas que compartilharam d\u00e9cadas de amizade passam a evitar determinados assuntos; fam\u00edlias deixam de conversar sobre acontecimentos cotidianos porque qualquer coment\u00e1rio pode desencadear uma discuss\u00e3o ideol\u00f3gica; encontros festivos transformam-se em pequenos tribunais de convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;O anivers\u00e1rio de algu\u00e9m deixa de ser uma celebra\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia para se converter em um espa\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o de posicionamentos. A amizade, que deveria permitir a conviv\u00eancia entre imperfei\u00e7\u00f5es, passa a exigir uma esp\u00e9cie de certificado ideol\u00f3gico. E o mais contradit\u00f3rio \u00e9 que, muitas vezes, aqueles que defendem discursos de liberdade acabam reproduzindo comportamentos de intoler\u00e2ncia nas rela\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o se trata de defender uma falsa neutralidade diante das injusti\u00e7as. Existem situa\u00e7\u00f5es nas quais o sil\u00eancio representa cumplicidade, e existem diferen\u00e7as pol\u00edticas que envolvem diretamente a defesa ou a nega\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;N\u00e3o se pode exigir que algu\u00e9m abandone seus princ\u00edpios para preservar uma rela\u00e7\u00e3o pessoal, tampouco confundir respeito com submiss\u00e3o diante de discursos discriminat\u00f3rios, autorit\u00e1rios ou violentos. A comunh\u00e3o humana n\u00e3o significa concord\u00e2ncia absoluta, mas reconhecimento de limites \u00e9ticos que devem proteger a dignidade de todos. O verdadeiro desafio est\u00e1 em distinguir a cr\u00edtica necess\u00e1ria de uma pessoa da condena\u00e7\u00e3o integral de sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 poss\u00edvel combater uma ideia, denunciar uma injusti\u00e7a e rejeitar uma pr\u00e1tica sem transformar automaticamente toda diverg\u00eancia em uma guerra pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Talvez o Brasil precise recuperar uma dimens\u00e3o mais humana de sua experi\u00eancia pol\u00edtica. Precisamos compreender que o trabalhador que vota de maneira diferente continua enfrentando dificuldades semelhantes; que a m\u00e3e que discorda de seus filhos continua desejando que eles tenham oportunidades; que o vizinho cuja opini\u00e3o nos incomoda continua compartilhando as mesmas ruas, os mesmos servi\u00e7os p\u00fablicos e as mesmas preocupa\u00e7\u00f5es com a realidade nacional. A vida cotidiana \u00e9 muito maior do que o calend\u00e1rio eleitoral. A fome n\u00e3o pergunta em qual partido algu\u00e9m votou, a doen\u00e7a n\u00e3o solicita uma declara\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e a necessidade de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o distingue a posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos estudantes. A realidade possui uma materialidade que frequentemente desmente os discursos inflamados daqueles que imaginam viver em permanente estado de guerra partid\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>Albert Camus, ao refletir sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, a revolta e a solidariedade, oferece uma possibilidade de resist\u00eancia contra os mecanismos que transformam os indiv\u00edduos em instrumentos de grandes abstra\u00e7\u00f5es. A humanidade n\u00e3o pode ser sacrificada indefinidamente em nome de um futuro prometido por qualquer ideologia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma sociedade que pretende alcan\u00e7ar justi\u00e7a n\u00e3o pode destruir, no presente, os pr\u00f3prios fundamentos da conviv\u00eancia. O pensamento de Camus nos conduz a uma quest\u00e3o essencial: de que adianta conquistar uma suposta vit\u00f3ria pol\u00edtica se, no caminho, perdemos a capacidade de reconhecer a dor, a fragilidade e a dignidade daqueles que caminham ao nosso lado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pol\u00edtica deveria ser uma ponte entre as necessidades humanas e as possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o um muro constru\u00eddo para separar pessoas que poderiam aprender umas com as outras. Os partidos s\u00e3o instrumentos da democracia, n\u00e3o propriet\u00e1rios da consci\u00eancia coletiva. Seus representantes precisam ser avaliados por suas a\u00e7\u00f5es, suas responsabilidades e seus compromissos p\u00fablicos, e n\u00e3o tratados como figuras intoc\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A fidelidade mais importante de um cidad\u00e3o deveria ser aquela direcionada \u00e0 dignidade humana, \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 liberdade, \u00e0 igualdade de direitos e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para uma vida coletiva minimamente decente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No fundo, talvez a grande trag\u00e9dia da polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja a exist\u00eancia de pessoas que pensam diferentemente, mas a incapacidade de algumas delas compreenderem que a diferen\u00e7a n\u00e3o precisa significar afastamento. Uma sociedade verdadeiramente democr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 aquela na qual, &nbsp;todos repetem as mesmas palavras, mas aquela na qual as pessoas conseguem discordar sem desejar a destrui\u00e7\u00e3o umas das outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 preciso recuperar o significado de uma conversa sem transformar cada frase em uma declara\u00e7\u00e3o de guerra. \u00c9 preciso reaprender a escutar, inclusive quando a palavra pronunciada n\u00e3o corresponde \u00e0quilo que gostar\u00edamos de ouvir. \u00c9 preciso compreender que a amizade n\u00e3o \u00e9 um parlamento, que a fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 um diret\u00f3rio partid\u00e1rio e que a exist\u00eancia humana n\u00e3o pode ser permanentemente submetida \u00e0 l\u00f3gica dos palanques.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Talvez, depois de tantas bandeiras levantadas, seja necess\u00e1rio perguntar quantas m\u00e3os foram abandonadas pelo caminho. Depois de tantos discursos sobre liberdade, quantas pessoas perderam a liberdade de conversar sem medo de serem julgadas? &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois de tantas manifesta\u00e7\u00f5es em nome da democracia, quantas rela\u00e7\u00f5es foram destru\u00eddas pela incapacidade de conviver com a diverg\u00eancia? A pol\u00edtica brasileira possui seus grandes problemas institucionais, econ\u00f4micos e sociais, mas tamb\u00e9m enfrenta uma quest\u00e3o profundamente subjetiva: a necessidade de recuperar a humanidade dentro das pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E talvez seja por isso que uma can\u00e7\u00e3o como <strong>Apesar de Voc\u00ea<\/strong> continue encontrando resson\u00e2ncia muito al\u00e9m de seu contexto hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Porque, no fundo, a esperan\u00e7a n\u00e3o pertence a um partido, assim como a saudade n\u00e3o possui ideologia e a solidariedade n\u00e3o deveria exigir filia\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica permanece quando os discursos envelhecem, atravessa gera\u00e7\u00f5es quando as lideran\u00e7as desaparecem e encontra caminhos onde as palavras pol\u00edticas frequentemente constroem muros. Entre uma bandeira e um abra\u00e7o, existe uma escolha que n\u00e3o deveria ser t\u00e3o dif\u00edcil: defender nossas convic\u00e7\u00f5es sem perder a capacidade de reconhecer o outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;Afinal, nenhuma vit\u00f3ria eleitoral ser\u00e1 suficientemente grandiosa se, ao final da disputa, j\u00e1 n\u00e3o soubermos sentar \u00e0 mesma mesa, compartilhar o p\u00e3o, recordar nossas hist\u00f3rias e compreender que, antes de sermos advers\u00e1rios de qualquer projeto pol\u00edtico, somos seres humanos dividindo uma mesma exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Clayton Alexandre Zocarato<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-light-green-cyan-to-vivid-green-cyan-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100092188444999&amp;locale=pt_BR\">Facebook<\/a><\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-light-green-cyan-to-vivid-green-cyan-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DeRR2wXxbYZ\/\">Instagram<\/a><\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/\">Voltar<\/a><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/JCulturalRol\/\">Facebook<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma reflex\u00e3o filos\u00f3fica e musical sobre como a polariza\u00e7\u00e3o transformou vis\u00f5es pol\u00edticas em dogmas, fragmentando os afetos e silenciando o di\u00e1logo no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"author":58,"featured_media":85708,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_hide_featured_image":false,"_jetpack_featured_image_duplicate_dismissed":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[17738,17737],"tags":[1872,2915,4168,4182,12192,4653,19080,19082],"class_list":["post-85705","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo-de-opiniao-artigos-2","category-artigos-2","tag-chico-buarque","tag-ditadura-militar","tag-geraldo-vandre","tag-gilberto-gil","tag-hannah-arendt","tag-intolerancia","tag-polarizacao","tag-sociedade-brasileira"],"aioseo_notices":[],"aioseo_head":"\n\t\t<!-- All in One SEO 5.0.5 - 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