Tudo por conta de uma anágua

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘Tudo por conta de uma anágua’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez
Foto por Irene Oliveira
Imagem criada pela IA do Gemini
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Não foi muito antes de contemplar meus primeiros pelos debaixo do nariz. Talvez, pelo longo espaço temporal, eu esteja cometendo uma pequena falha de meses ou, pode até ser, alguns anos. Na verdade, tais detalhes são irrelevantes. Certamente, não havia chegado aos 20. Ou não.

          Lá estava diante da porta da casa da Matilda, já uma velha naquela época. Hoje, bem sei, ela está há pelo menos 30 anos deitada no São João Batista, endereço eterno de tantos famosos, além de um número infinito de meros mortais. Seja como for, a soberba de alguns parece ter sido em vão, já que todos, no final, se igualaram. 

          Provavelmente, você, que aqui me lê, deve estar agoniado diante de tanta enrolação. Que seja! Vou desembuchar, antes que perca mais um leitor, que, até onde consta, não são muitos. Estava ali por conta de uma encomenda. Digo, uma anágua. 

          Dei dois toques sutis na carcomida porta de madeira, o suficiente para me fazer anunciado. Não demorou, Matilda veio me atender. Fui recebido com um largo sorriso. A idosa, que há pouco havia trocado a dentadura, andava sorridente. Motivo outro, diziam à boca pequena, era por causa de um primo do falecido marido. Como não entendia dessas coisas naqueles idos ou, então, meu olhar estava mais preocupado com as pernas torneadas da Sandrinha, não posso dizer que sim ou que não. 

          A velha me convidou para entrar. Havia duas outras senhoras na ampla sala. A gordinha, eu conhecia. Não me recordo do seu nome. Elaine ou Eliane ou algo assim. Elisa? Pode ser. Não importa. A outra, uma mulher de aparência elegante, nunca havia visto. Bem que poderia ser capa de alguma revista de artistas. Exagero ou realidade, não posso afirmar, mas é como me recordo dos seus traços. 

          — Um instante, Betinho. 

          Matilda foi até um cômodo da casa, enquanto a fiquei aguardando em pé. A gorda e a artista me fitavam de cima a baixo, como se estivessem escolhendo o próximo modelito. Meu rosto começou a pegar fogo, com certeza completamente vermelho, como ainda acontece sempre que fico envergonhado por algo. 

          Não sei quanto tempo depois a velha voltou com um pacote. No entanto, pareceu-me uma eternidade. A minha vontade era sair correndo dali. Mas a bonitona, que continuava me encarando com aqueles olhos enormes, quis saber quem eu era.

          — É o Betinho, filho da Mariana, que mora no final da rua. 

          Se eu disse alguma coisa, não me lembro, mas bem sei que ela não tirava aqueles olhos de mim. O rosto, frio como o de uma loira platinada de Hitchcock, começou a me provocar calafrios. E, antes que eu pudesse fazer algo, eis que alguém deu dois toques na porta, o suficiente para que Matilda fosse ver quem era. 

          Solange, antiga moradora do bairro, entrou toda sorridente. Matilda me entregou o pacote com a anágua da minha mãe, enquanto aproveitei a porta aberta e saí, mas não antes de escutar o seguinte interlúdio, que ainda hoje me corrói de curiosidade.

          — Solange, vou passar um cafezinho. 

          — Não precisa, Matilda. Vim aqui apenas para lhe deixar esse vestido para ajustar.

          — Mas você aceita uma fofoca?

Eduardo Cesario-Martínez

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O velho e os vermes

Eduardo Cesario-Martínez: ‘O velho e os vermes’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez – Foto por Irene Oliveira
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Hoje acordei como sempre. O costumeiro mau-humor, certamente herança de um antepassado calabrês, continua firme nos meus olhos profundos e na minha boca retorcida. Lavei o rosto na água gelada, que levou o último resquício de esperança de retornar para cama e esperar pela Senhora da Foice.

Minha esposa, que casou por imposição dos pais, miseráveis que eram, não suportaria tamanho martírio de se deitar ao meu lado, nem sequer uma vez mais. Por sorte, foi acometida por um câncer, que a tomou por completo. Recebi a notícia por uma enfermeira, que se deu ao trabalho de me ligar àquela hora da madrugada.

Foi sepultada num dia de sol, como se libertada da minha insuportável companhia. Lembro-me exatamente da feição de alento em seu rosto no dia de sua partida, dentro daquele caixão, que me custou os olhos da cara. Pálida, é verdade, mas serena. Quanto às maçãs, nada que um pouco de maquiagem não a fizesse mais corada na hora da despedida.

Eis que aqui estou, ainda cumprindo a minha sina, sem coragem de cortar os pulsos ou me atirar da janela. Segundo andar. Na certa, daria com a fuça naquele jardim repleto de rosas. Se pararia de respirar ou não, é mais uma dúvida que me corrói.

Ouço o barulho de crianças gritando lá embaixo naquele maldito parquinho. Aquele lugar deveria ser demolido. Que construam algo mais útil ali. Que seja uma repartição pública, mas que acabem logo com esse martírio. Não suporto gente miúda se esgoelando, como se vivesse uma felicidade que não existe.

Sinto o aroma do lixo apodrecido vindo da cozinha. Isso mesmo! Não o jogo fora há quase duas semanas. Por que faço isso? Hum! Bem, vou matar a sua curiosidade, antes que você me mate de tédio.
Deixo que os vermes, a maioria depositada por moscas, se deliciem com os restos de comida deixada de lado de propósito. Vermes precisam de alguém que lhe dê algo para comer.

Portanto, não me julgue por isso! Se a minha vizinha possui gatos, que mal tem se eu crio vermes? Certamente, você também tem lá as suas manias. Ou vai querer me enganar que a sua vida é recheada de pôneis coloridos?

Não pense você que sou um imundo. Pois não sou! Tomo banhos regulares, mas nada de exageros. Isso, por sinal, me faz lembrar de um momento da minha infância. Quer sabê-lo? Vou lhe contar, mas guarde segredo ou, então, seja mais um a falar mal de mim. Não me importo, assim como nunca liguei para todos os outros que me conheceram nesses meus quase 100 anos. Completo-os depois de amanhã.

Antes de entrar nos pormenores, devo lembrá-lo de que sou de uma enorme família, cheia de irmãos. Sou o segundo, logo abaixo de Judith, de uma prole de quase 15. Quase porque três não tiveram o desgosto de enxergar as trevas deste mundo. Que sejam 12, tanto faz. Uma longa escada de ano em ano, às vezes falhando um ou outro, dependendo do tempo das viagens do meu falecido pai ou, então, por conta de algum natimorto.

Tudo começou quando contava com três ou quatro anos. Não estou certo, talvez tivesse sido pouco antes, pouco depois. Detalhes sem qualquer relevância. Minha mãe, com uma barriga gigantesca, carregava um dos meus irmãos. As pernas inchadas, os pés parecendo patas de elefantes, mamãe se arrastava pelo quintal pendurando trapos, a maior parte encardida, no longo varal. Judith e eu aos seus pés, como dois carrapatos tentando sugar o máximo de sangue daquela força bruta de total ignorância.

— Judith, minha filha, quer ver o seu irmãozinho aqui na barriga da mamãe?

Minha mãe levantava um pouco a blusa e falava para Judith encostar um dos olhos no seu umbigo. Minha irmã obedecia e abria aquele sorriso, como se descobrisse algo que jamais vislumbrei. Em seguida, mamãe me puxava pelo braço e me mandava fazer o mesmo. E, por mais que eu abrisse e fechasse meus olhos, nunca consegui enxergar além da sujeira depositada no umbigo da minha mãe.

Esse costume foi passado para os filhos subsequentes, que foram jogados neste mundo. Meus irmãos, talvez cúmplices de mamãe, sempre responderam com aquele sorriso de felicidade em seus rostos. Fui tomado por sentimentos, ora de incapacidade, ora de inveja, ora de profundo ódio, até que, pouco antes dos 18, deixei-me cair no mundo. Nunca mais os vi.

Dos 18 aos quase 100, eis que estou aqui. Não me arrependo de nada que fiz ou deixei de fazer. No entanto, também não sinto orgulho da minha jornada de vida. Bem sei que, não tarda, serei eu o devorado pelos vermes que cultivo.

Eduardo Cesario-Martínez

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Veridiana, Horácio e Cassiana

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘Veridiana, Horácio e Cassiana’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
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Imagem gerada pela IA do Gemini
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Era notória, naqueles cantos, a paciência dos urubus, por mais ansiosos que estivessem, em esperar por mais uma criatura faminta ou, então, acometida de alguma moléstia finalmente sucumbisse. Ajoelhada e sem vontade de rezar, Veridiana olhou aquelas aves e teve a certeza de que os sonhos de infância não passaram de devaneios de alguém que não conseguia enxergar a própria sina. 

          Com as palmas das mãos sobre o solo rachado da caatinga, a mulher soltou um arre! e conseguiu erguer o corpo. Nunca fora boa com números, mas sabia que havia um povoado a duas léguas. Que fossem sete ou oito, ela estava decidida a não virar repasto de urubu. Não naquele dia. Que fossem procurar por outra carcaça com menos vontade de prosseguir nessa sobrevida ingrata.

          Aos 38 anos, passara por momentos de penúria e raros confortos. Desde sempre fora explorada, seja pelo pai, seja pelos irmãos, seja pelo homem que se fez seu marido. Seca nas carnes e por dentro, nunca engravidou, apesar das indesejadas investidas do macho que a cobria sem lhe dar sossego. 

          Horácio não se conformava por escolha tão despropositada. Para que servia mulher estragada, se não era capaz de lhe dar os filhos que tanto queria? Pois tratou de arrumar uma mais nova e de procedência garantida. 

        Cassiana, a vizinha, era viúva e sustentava dois meninos graúdos. O homem foi ter um dedo de prosa e a coisa ficou acertada. Divorciou de Veridiana e desposou a outra. Não tardou, constatou que a escolha havia sido acertada, pois a nova esposa logo apresentou os primeiros enjoos. 

         Quanto à Veridiana, foi colocada de lado para os afazeres domésticos. Perdera o posto de esposa, mas Horácio necessitava de alguém para ajudar a nova mulher na lida com a casa. Vez ou outra, dependendo da falta de disposição da Cassiana, deitava-se com a ex-consorte. Rosto virado para o lado ou fixo no teto, Veridiana aguardava o arfar do sujeito se esvair num urro. Coisa de minutos, que pareciam uma eternidade. 

        Enquanto caminhava, Veridiana se recordava da vida miserável que se acostumou a levar. Não tinha raiva de Cassiana, muito menos das crianças e do bebê a caminho. Eram todas vítimas da perversidade do inferno onde nasceram. E nada de indulgências para os desprovidos de sorte. Que cumprissem as próprias agruras. 

        Horácio, todavia, não era visto com qualquer benevolência. Tanto é que Veridiana decidiu pôr um ponto final não apenas nas investidas do gajo, como também fazê-lo pagar por todos os pecados. Ela pensou numa maneira que não levantasse suspeitas.

        Após quase dois meses, eis que Veridiana percebeu que o melhor era envenenar o traste. Que ele gostava de doces, todos sabiam. Que morresse empanturrado de quebra-queixo!

            Tentou antúrio, mas não conseguiu provocar nada além do que diarreia e vômito no homem. Abusou de óleo de mamona, mas tratou de jogar fora todo o tacho porque os meninos e a buchuda reclamaram seu quinhão. 

            — Estragou.

            — E desde quando doce estraga?

            — Pois esse estragou. Faço outro amanhã.

           A desculpa parece que não convenceu Cassiana, mas nada que provocasse intriga entre as duas. Quanto às crianças, foram ludibriadas por generosos nacos de rapadura. 

            Os dias prosseguiram, até que, por algo tão inesperado como picada de cobra, eis que Horácio, ao acordar depois de passar mais uma noite sobre Veridiana, foi calçar a botina. Pelo barulho do chocalho, parece que foi cascavel, que buscara refúgio no calçado do homem. 

                Veridiana nunca sentiu tamanho regozijo ao encarar o desespero de Horácio, que gritava. Não tardou, Cassiana surgiu e ainda pode ver a serpente se esgueirando para debaixo da cama. As duas mulheres, cúmplices nos desejos, viram o homem se esvair em pouco mais de duas horas.

                — Vá buscar ajuda!

                — Vou.

                Cansada pela longa caminhada, Veridiana, finalmente, chegou ao povoado, onde sabia não existir médico. Tratou de comunicar o ocorrido ao padre, que acompanhou a mulher até o sítio da família. Nem deu tempo de fazer a extrema unção. Horácio, tipo comum da região, tinha um filete de sangue ressequido no canto dos lábios. 

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Dona Dolores e as minhas bochechas

Eduardo Cesario-Martínez

‘Dona Dolores e as minhas bochechas’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez – Foto por Irene Oliveira
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As pessoas reunidas naquela sala, poucas próximas ao féretro, a maioria encostada nas paredes, talvez enojadas pela aparência decrépita da finada ou, ainda, pelo odor desagradável que escapava daquelas carnes em processo de decomposição. No meu canto, apenas observava as duas mãos da velha Dolores, agora repousadas sobre o busto, como se detentoras apenas de ações bondosas enquanto quentes. Que nada! Como sofri com beliscões nas bochechas proeminentes desde menino.

Minha mãe, que ali se encontrava entre as mais despojadas do recinto, acabara de depositar uma coroa de margaridas sobre a defunta. Até eu, um completo néscio em jardinagem, bem sei o que são margaridas. No entanto, caso não fosse pelo comentário lisonjeiro que ouvi do grupo ao lado, jamais saberia que tais flores representam as boas lembranças vividas. Minhas bochechas que o digam!

Mendonça, eis o dono do infeliz comentário. Certamente é um dos próximos da fila, haja vista o avançar da idade. É verdade que posso eu ser o seguinte, pois saúde e meus 28 anos não garantem que o próximo carro desgovernado não me encontrará em alguma esquina. Saravá! Oxalá! Aproximei-me da sucumbida e, discretamente, dei três batidas no caixão. Vai quê!

Olhei ao redor para ver se ninguém me flagrou. A princípio, me senti aliviado, até que percebi o olhar risonho da Sônia, a bela e jovem esposa do Armando. Deve ter no máximo 35. E que carnes! Ela continuou me encarando com aqueles olhos amendoados, como se fosse se entregar para mim. Não consigo encará-la e meu olhar foi direto naquelas pernas torneadas.

A mulher deve ter percebido meu desejo, pois se virou. Fiquei na dúvida se ela se sentiu ofendida ou, então, apenas quis me mostrar a retaguarda. Alcei os olhos para observá-la melhor, mas, antes de chegar ao meu intento, fui despertado do devaneio pelas mãos de minha mãe.

— Maciel, vá ajudar a levar o caixão da Dolores.

Contrariado, peguei numa das alças e, com mais cinco homens, levei o ataúde da velha até o destino final. Destino final do corpo, é verdade, pois a alma, se é que aquela desalmada possuía uma, iria direto lá para baixo fazer companhia ao Jurupari. Imagino até a cena de espanto quando o Tinhoso der de cara com aquela bruxa. Na certa que ele não iria gostar. Capaz até de mandar a velha ressuscitar só pra se ver livre. Deus me livre!

O enterro demorou mais do que o esperado. Tudo por culpa do velho Silas, que veio com um discurso maior do que o do padre. Aliás, esse tagarela bem que deve beirar em idade com o Mendonça. Enquanto ele falava, fiquei imaginando que o defunto era ele. Quem sabe em breve não será esse caduco? Que vão ele e o Mendonça juntos de uma vez. Assim, economiza no velório.

Não sei se sorri sonhando acordado. Talvez tenha até feito cara de quem ganhou beijo de mulher de lábios carnudos. Seja como for, quando pensei em me recompor, eis que a minha mãe me puxou para o canto e me cochichou nos ouvidos.

— Maciel, preciso te contar uma coisa!

Fui arrastado pelo braço até mais adiante. Finalmente, minha mãe me disse que a senhora Dolores havia doado, há quase dois anos, todos os seus bens para mim. Isso mesmo! Aquela boa alma, como não possuía parentes, desejou me fazer o seu único herdeiro.

Não fiquei rico, mas agora tenho uma bela casa para morar, além de uma substancial quantia no banco, o que me dará, por baixo, dois ou três anos de pura esbórnia. Que Deus seja misericordioso!

Eduardo Cesario-Martínez

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Almerinda, a empregada doméstica

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘Almerinda, a empregada doméstica’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
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Almerinda foi enxotada da cama pela própria culpa por dormir demais naquele dia. Não que fossem tantas horas de sono, pois mal havia chegado do trabalho na noite anterior, após mais de duas horas tentando manter as pestanas atentas enquanto se equilibrava, em pé, no meio daquele monte de gente chamado povo, que se apertava no ônibus. No entanto, não há espaço para descanso além da conta para quem labuta em troca do mínimo.

Já nem se lembrava de um dia em que não fosse tamanha correria. Não tinha tempo nem para ela, esmalte nas unhas era luxo. Um desperdício! Vivia a lavar louça, chão, roupa, toda sujeira feita por outros. Desde sempre foi assim, até na aurora da vida, quando era puxada pela mão apressada da mãe até a casa dos patrões. Acabou por tomar o lugar dela, já que, infartada, a velha mal conseguia se levantar da cama ao lado.

Aos 30, continuava solteira, sem filhos, a mãe para cuidar. Alguns namoricos breves, que, por raros minutos, davam ao corpo sofrido um pouco de alegria. Enquanto a água do café esquentava, procurou se lembrar do último. Correu os meses para trás, mas, antes que pudesse recordar do derradeiro beijo, percebeu que a água já havia fervido. Preparou o café, cortou o pão dormido, passou um pouco de margarina. Não fez menção de reclamar do simplório dejejum, só conhecia aquele. 

Passos apertados a levaram para o ponto de ônibus, onde tantos outros idênticos aguardavam o coletivo, que já apontava na esquina, cambaleando entre buracos na rua, como se fosse um capoeirista, que tentava impedir um chute ali, um soco acolá. Como de costume, Almerinda não conseguiu um lugar para se sentar. Foi em pé, a mão firme no ferro, junto a tantas outras. Os passageiros, de tão grudados, pareciam uma massa, que, aos solavancos, era carregada e despejada ao longo do caminho.

Quase duas horas em pé fizeram Almerinda fechar os olhos e cochilar, talvez na tentativa de sonhar. Não havia sonho para sonhar. Não naquela vida! Vida? Foi despertada por um “Dá licença!” Encolheu o corpo sofrido ainda mais, enquanto uma senhora tentava passar. Bocejou ao mesmo tempo em que percebeu que deveria descer dali a dois pontos. Foi se espremendo para chegar o mais próximo da saída.

Não demorou muito, foi despejada na rua, onde caminhou mais alguns passos até chegar ao edifício cheio de grades. O porteiro logo a reconheceu, acionou o botãozinho de salvo conduto, que abriu passagem para a empregada do apartamento 901. Almerinda cumprimentou o funcionário com um sorriso não convincente, ao mesmo tempo em que ele disse: “O elevador de serviço está quebrado”.

Para não enfrentar olhares de desaprovação, ela tomou a decisão de encarar os inúmeros lances de escada. Chegou quase esbaforida. Tocou a campainha, ao mesmo tempo em que tomou ciência das horas: 6h05! Cinco minutos atrasada! A patroa, irritada, abriu a porta e, já de costas para a empregada, disse: “Quem acorda cedo toma água fresca, Almerinda!”

Eduardo Cesario-Martínez

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O velho e o devaneio

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘O velho e o devaneio’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez – Foto por Irene Oliveira
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Acabei de voltar da rua. Fui comprar meio quilo de cebola, um de tomate, além de algumas batatas. Demorei mais do que de costume, mas Arlete, minha esposa, parece que nem percebeu. Mesmo assim, puxei conversa, enquanto ela, sentada no sofá, mexia no jornal da semana anterior, talvez em busca de algo para abstraí-la dessa vida tão tediosa.

          — Vi uns meninos jogando bola no campinho do final da rua.

          Arlete nem se deu ao trabalho de desviar os olhos daquelas páginas usadas. Ainda esperei por mais um instante, até que rumei para a varanda, onde me deitei na rede. Ouvi o ranger do tecido esticar com o meu peso, que, não tem como esconder, fez o ponteiro da balança da farmácia da esquina trabalhar um pouco mais nos últimos meses.

          Meu pensamento voltou para aqueles garotos batendo uma pelada. Isso me remeteu há quase 60 anos, quando era eu que corria atrás da bola. Jogava muito! Era o craque da minha rua! O problema, hoje percebo isso com maior clareza, é que no meu bairro havia um monte de outras ruas, cada uma com o seu craque. Sem contar que a cidade já possuía dezenas de bairros, todos com tantas ou mais ruas do que o meu. 

          Tudo bem que o meu senso crítico, ao longo dos anos, se tornou cada vez mais presente. Todavia, hoje não estou a fim de qualquer olhar de descrédito em relação aos meus dribles inimagináveis. Fui o maioral da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, do país inteiro e, obviamente, do mundo todo, incluindo a Austrália, que, para aquele grupo de terraplanista, não existe. Que assim seja, pois necessito de tal momento de mentira. Aliás, mentira é uma palavra muito pesada. Ilusão. Sim, ilusão!

          Pois lá estava eu, aos 10, driblando todos os marcadores implacáveis. Certamente, tiveram pesadelos na noite anterior, pois sabiam que iriam tentar o impossível, ou seja, marcar o imarcável. Sim! Eis que, velho que hoje sou, me imagino Garrincha nos meus tempos de menino. Que seja! Meus pensamentos são meus e pronto e acabou! Ademais, estou sozinho neste momento, até o som da rede se esticando já se foi. Silêncio lá fora, gritaria aqui dentro da minha cachola. Miragem sem fim.

          Uma abelha! Uma mísera abelha me transporta de volta à realidade. Não sou alérgico à picada desse inseto. Entretanto, minha sensibilidade à dor me faz um dos seres mais covardes da face da Terra. Por que fui deixar a janela aberta, se hoje está frio?

          A danada sobrevoa em círculos minha cabeça, até que decide pousar bem na minha testa. Fico paralisado, tamanho o medo que me domina. Meus olhos, de tão arregalados, quase são catapultados, talvez por não quererem ver o que vai acontecer. Plaft!!!

          — Dorival, o almoço está pronto – Arlete, que acabara de matar a abelha, me intima, enquanto sacode a arma do crime: o jornal.

Eduardo Cesario-Martínez

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Caio Fernando Abreu e o Van Gogh da minha mulher

Eduardo Cesario-Martínez

‘Caio Fernando Abreu e o Van Gogh da minha mulher’

Eduardo Cesarino-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez
Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesarino-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez – Foto Irene Araújo

Eis que estava aqui no aconchego da sala admirando a réplica quase original de ‘Os Lírios’, famoso quadro de Van Gogh, quando a minha esposa, a Dona Irene, me despertou do transe:

– Amor, você acredita que o Caio Fernando Abreu morou aqui no nosso apartamento?

Levo alguns míseros segundos para concatenar as ideias aqui na cachola, que ainda estava presa a 1889, ano em que aquele Vincent, em momento de profunda inspiração, saiu do amarelo e atiçou a tela com verde e azul.

            — Sério?

            — Sério!

            — Não acredito!

            — Pois acredite!

            Antes de prosseguirmos nessa discussão, que já bem sei quem vai vencer, haja vista todas as anteriores e, certamente, as futuras, minha mulher me esfrega na cara a certidão vintenária. 

            — Tá vendo?

            — O quê?

            — Aqui, ó, seu bocó!

            Como não encontro o nome do Caio Fernando, a Dona Irene me explica que ele havia comprado o apartamento no nome dos pais. Aliás, até quem vendeu a propriedade para o famoso escritor foi o Leozinho, que ainda mora aqui no prédio. Mesmo assim, ainda era difícil acreditar nessa história, por mais que eu desejasse. Isto é, até que a minha esposa, em um gran finale, me mostra uma fotografia do Caio Fernando aqui na nossa sala, posando próximo à janela. Touché! Não é que ela estava certa?

            Volto a olhar o Van Gogh preso à parede, mas a minha mente viaja até a crônica “A Morte dos Girassóis”, do Caio Fernando. Apesar de não ser um grande conhecedor de sua obra, já li e reli esse belo texto algumas vezes ao longo dos anos. Meu devaneio me transporta para uma suposta relação entre a crônica e o quadro. Nada a ver ou, ao menos, não consigo vislumbrar qualquer paralelo entre os dois. Insisto, mas logo deixo de lado tal tese.

            Algo me perturba. Lembro que o Caio Fernando e eu ocupamos o mesmo espaço, mesmo que em épocas distintas. Será que ele escreveu algum conto ou crônica ou sei lá o quê cá onde estou? Bah! Aqui estou eu, carioca, me fazendo de gaúcho, tamanha a perplexidade que me domina. 

            Inquieto, preciso tomar um ar. Convido minha amada para beber um café na esquina. Já na portaria, olho a Getúlio. Em frente, o movimento no Bar do Vavá anuncia que hoje tem Colorado. 

Eduardo Cesario-Martínez

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