Bibiana e seus quase 120 anos bem-vividos

Eduardo Cesario-Martínez

‘Bibiana e seus quase 120 anos bem-vividos’

Eduardo Cesario-Martínez
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Bibiana Augusta Ferreira da Costa, do alto dos seus quase 120, conforme constava na carcomida certidão de batismo, praticamente nunca ouvia seu nome. Não que fosse surda, pois ouvia muito bem, mas apenas as coisas que queria escutar. A razão é que, desde menina, sempre fora chamada de Bibi, carinhoso apelido que a avó materna, Gumercinda dos Anjos Ferreira, lhe pusera. 

          Aliás, vale aqui um adendo sobre a longevidade de Gumercinda, cujos registros de batismo e civil eram incongruentes. Não a ponto de provocar discórdia tão significativa, ainda mais porque três anos não passavam de sopro diante dos 167 de existência grafados na lápide da velha lá pelos lados de Ouricuri, no nosso amado Pernambuco. Bibi, parece, herdara a capacidade da avó de se manter viva por tanto tempo.

          Outra característica incomum em Bibi era a fertilidade. A mulher, entre vivos, natimortos e mortos de alguma ziquizira qualquer, havia parido 48 vezes, sendo a primeira aos 15 e, a derradeira, aos 74 anos. E, há os que arriscam a dizer, poderia ter tido mais duas ou três crias, caso não fosse pela falta de homens que se abateu na cidade por conta de moléstia até hoje não totalmente desvendada. 

          Esse mistério ocorreu lá pelos idos de 1938 ou 1939. E, dependendo do contador desse causo, pode adiantar ou retroagir um par ou dois de anos. Na verdade, essa discórdia parece não ser importante, pois, até onde me consta, não atrapalha no desenrolar da história. 

          Pois bem, sem mais delongas, durante quatro ou cinco anos, todos os homens em idade fértil escafederam-se da região ou, então, foram dizimados por um mau agouro, que, segundo ainda se fala por lá, os impediu de passar suas desgraças às gerações futuras. Um desses casos, até onde se sabe, o derradeiro, foi do desaparecido até então Antônio Firmino, último a se deitar com Bibi, então no viço dos seus 73.

          Alguns falam em caxumba que desceu para as partes, outros de reza da beata Iranilde Almeida, que não suportava os gemidos de prazer dos amantes, que pululavam naqueles cantos a qualquer hora do dia, da tarde e da noite, sem contar que não davam sossego nem na sagrada madrugada, quando todos os santos estão adormecidos, talvez pelas cantigas, rezas e orações. Isso como se houvesse distinção da primeira para a segunda e cada uma com as demais. Tudo levava ao mesmo fim, ou seja, à pura castidade, que, por mais desacreditada que fosse, era o objeto de desejo dos impuros solitários. 

          Aos 84, Bibi se viu sem regras. Os calores lhe tomaram todo o corpo, mas não aqueles dos tempos em que se deitava com um homem. Eram por conta da secura advinda com a infertilidade, mas que, vez ou outra, ainda trazia rescaldo de outrora. Continuava se deitando, mais por costume do que necessidade. E não fazia distinção de pretendentes, que, apesar de raros, ainda conseguiam arrancar um sorriso daquele rosto, cada vez mais enrugado. 

          Os que ainda se arriscavam sabiam que, quando houvesse um aceno, poderiam chegar sem receio de serem enxotados. Mesmo algum forasteiro sabia que teria o que precisava, inclusive uma cerveja gelada, desde que com paga adiantada. Nada de fiado, pois, até em contrato de amor, não se pode surrupiar o direito da mulher faturar o seu. Bibi, tarimbada que era, até onde me falaram, sempre havia recebido adiantado. Ademais, queixa também nunca se ouviu, mesmo dos mais exigentes.

          Pois lá estava Bibi, perto de completar mais um aniversário, quando foi surpreendida pela visita de Antônio Firmino, duas décadas e meia mais novo do que ela. Não se sabe se foi por causa de reza ou da catuaba, o homem parecia ainda mais revigorado que nos áureos tempos de seus 25. Deitou-se com a velha Bibi, que, quase com o mesmo sorriso de outrora, caso não fosse pela completa falta de dentes, acendeu o cigarrinho de palha e o ofereceu ao amante, que aceitou de bom grado.

          — Deus faz, o vento espaia, mas aí vem o Diabo e ajunta de novo — disse a velha. 

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Entre vinhos e livros

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Entre vinhos e livros’

Eduardo Cesario-Martínez
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Desde muito antes de se perceber velho, Augusto gostava de ler sentado em um dos bancos protegidos pelas copas das amendoeiras que circundavam o parquinho, onde crianças pareciam se divertir. Os gritos da garotada não incomodavam a leitura, mas a tornavam mais interessante. Eram como fagulhas que despertavam sentimentos esquecidos, que se misturavam sem cerimônia aos parágrafos que eram consumidos como iguarias fossem.

            Casado e descasado por vezes, sentia-se viúvo desde que a derradeira ex-esposa sucumbiu à dor do enfrentamento de câncer de mama. E, apesar das inevitáveis rusgas diante do rompimento, reencontraram o caminho da amizade e, assim, trocaram confidências até o quase último suspiro da acamada. 

            No exato momento em que virava mais uma página, perguntou-se por que ele e Olívia nunca tiveram uma recaída. Quer dizer, ainda trocaram alguns afagos após o desenlace, mas nada além de duas ou três noites depois de esvaziar uma garrafa de Malbec. Ou teria sido Merlot? Não importa, mesmo porque Augusto nunca fora um especialista no assunto, ao contrário da falecida. 

            Olívia era bonita. Sim, bonita. Não obstante, tal beleza não chegava a ofuscar as mazelas do relacionamento, que eram óbvias até mesmo quando os dois ainda viviam a paixão inicial, momento em que os corpos gritam diante da razão. 

            Por que não tiveram filhos? Essa era uma questão que ainda o intrigava. Era notória a relação de Olívia com os pequenos, que sempre corriam para os seus braços. Quanto a ele, talvez fosse deveras egoísta para se ater aos cuidados de outrem. Gostava dos sobrinhos. Quer dizer, suportava-os por alguns instantes, nada além disso. Talvez Olívia, perceptiva, já havia notado essa característica indesejável no companheiro e, então, se abstivera da ideia da concepção. 

            O casamento, entre idas e vindas, durou além da conta. Gênios tão díspares, definitivamente, não se atraem ou, caso o façam, qualquer coisinha é motivo de separação. E deve ter sido mesmo por bobagem qualquer, dessas que, logo após o desfecho, são levadas pela ventania da insignificância. 

            Entre taças de vinho e afastamentos, nunca deixaram de se falar. E, após quase seis meses do velório de Olívia, o velho continuava a ler os livros recomendados por ela.

            — Nada de clássicos, Augusto. Na nossa idade, precisamos olhar para o presente antes que o futuro nos alcance implacavelmente.

            As palavras de Olívia ainda ecoavam nos ouvidos do velho quando um menino, não mais de cinco anos, reclamava aos berros.

            — Não, mamãe! Não quero ir!

            — Meu filho, vamos, que amanhã a gente vem de novo.

            — Não!!!

            — Augusto! Pare com isso! A vida não é um morango!

            Enquanto a mulher puxava a criança pelo braço, que esperneava, Augusto sorriu pela coincidência e voltou os olhos para a capa do livro A verdade nos seres, de Daniel Marchi.

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O velho, o café e o mendigo

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘O velho, o café e o mendigo’

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O velho, cheio de dores, levantou mais cedo do que de costume. Não que não preferisse continuar na cama entregue aos sonhos, já que os pesadelos que o acompanham nos últimos tempos eram demais até mesmo para alguém que já passava dos 80. No entanto, a insistente dor nas costas não o permitia se manter deitado por mais que algumas horas.

            Acordou, olhou para o quarto vazio, o mesmo quarto onde dividira com Beatriz por mais de meio século. Brigas, logicamente, tiveram, mas não que o velho se recordasse exatamente de alguma. Talvez, uma em que a falecida tenha insistido tanto para que os dois fossem ao batizado do primeiro bisneto. Justamente no mesmo dia em que o Vasco decidia uma final de campeonato. 

            Foram e, durante a missa, o velho se mostrou extremamente ansioso para que tudo aquilo acabasse rapidamente para, então, poder voltar para casa. Demorou muito mais que o previsto e, ao retornarem, percebeu vários torcedores com a camisa do Gigante da Colina festejando. Frustração por não ter visto o jogo, mas um alívio pela conquista de mais um título.

            O velho arrastou seu corpo até a cozinha, onde ainda dava para sentir o suave perfume de Beatriz. Respirou aquele aroma e, apesar da lágrima que escorreu pelo canto do olho, pegou o pote de café, ainda da mesma marca que a esposa apreciava. Ele nem sabia se aquela era a melhor, já que quase nunca havia experimentado outra. Na verdade, não se recordava ou, possivelmente, não queria trair a memória da sua mulher. 

            Frustrado, o velho constatou que o café havia praticamente desaparecido do pote. Nem mesmo uma colherzinha, o que o obrigava a caminhar até o mercado da esquina para comprar mais. Com a roupa amarrotada, os cabelos desgrenhados, tratou apenas de calçar o chinelo e pegar o dinheiro sobre a mesinha de canto. 

            Já na rua, o velho praguejava silenciosamente, enquanto inúmeros transeuntes passavam quase esbarrando naquele corpo senil. Entrou e saiu do mercado sem se dar conta nem mesmo do preço, já que isso não importava, pois sempre levava a mesma marca. Pensou até em comprar dois pacotes, mas isso o faria cativo no apartamento pelo dobro do tempo. Levou apenas um, como sempre tinha feito por tantos e tantos anos.

            A sacola de plástico balançava conforme os passos capengas das frágeis pernas. O velho observou um ônibus vindo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pensou em se jogar na frente e acabar com tudo aquilo, mas não teve coragem. Observou um mendigo com a mão esticada e, talvez por impulso, despejou algumas pobres moedas. E, antes que pudesse se livrar daquela situação, ouviu a voz do maltrapilho: “Peço a Deus que estique o tempo do senhor!”

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A minha vizinha da frente

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘A minha vizinha da frente’

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Hoje acordei com vontade de escrever, mas me faltam memórias para tal. Saudade de um tempo em que corria por este bairro de onde saí tão jovem. Tinha lá meus 18 quando, por sorte, passei no concurso do Banco do Brasil. Há tanto tempo, que todos os meus amigos me invejaram, tamanho que era o salário naquela época. O pessoal na rua comentava: “Você viu? Pois é, o Quinzinho, filho da dona Eulália, passou pro Banco do Brasil.”

             Como consequência desse sortilégio, fui tomar posse em uma cidadezinha lá do interior de Minas Gerais, tão distante desta em que agora me encontro. Fui, mas com a promessa de retornar em poucos anos. Tal jura, no entanto, só fui cumprida há pouco mais de dois meses, quando aqui estou com meus quase 70.

             Durante o longo período de bancário, trabalhei com afinco e, aos poucos, fui galgando cargos até que, quase 20 anos após, cheguei ao invejado posto de gerente geral da agência. Todos me conheciam como senhor Oliveira. Todos! Desde o mais graúdo investidor até os que sobreviviam com meros vinténs. 

             De tão afamado me tornei, o próprio presidente do Banco do Brasil veio me pedir para não me aposentar quando completei meu tempo de serviço. Comovido com tamanha honraria, fiquei por mais alguns anos. Na verdade, agora que estou em tal situação, não preciso mais viver sob a fumaça da hipocrisia. Fiquei por conta da sensação de poder, além, é óbvio, pelas inúmeras regalias, sem contar o salário muito maior do que eu poderia gastar. 

            Os anos seguintes foram, talvez, os mais incríveis da minha vida. E, se não foram, são os que ainda pululam minha mente. Jantares regados a iguarias, noites em quartos de hotéis cinco estrelas, sempre muito bem acompanhado por mulheres lindas, mesmo que recompensadas por notas graúdas, que não me fizeram falta. 

            Aos 66, conheci Sandra, que tinha lá seus 38. Linda, linda, linda! Não sei o que ela viu em mim, já que era de uma família mais abastada do que todo o dinheiro que eu poderia ganhar trabalhando no mais alto posto do Banco do Brasil por mais de um século. Seja como for, nos envolvemos e, de tão apaixonados, resolvemos comemorar nosso primeiro ano juntos. 

          Viajamos para Paris, onde ficamos hospedados no Ritz. Passeamos pela famosa cidade, fomos a museus e todos os passeios possíveis durante oito dias, até que Sandra pôs na cabeça que queria realizar um antigo sonho: sobrevoar Paris num balão. Apesar do flagrante pavor, pois não nasci com asas, decidi acompanhar a minha amada.  

             Foi numa quarta-feira quando tudo aconteceu. Contratamos um baloeiro, que nos orientou sobre o voo. Tudo parecia maravilhoso, até para mim. Comecei a me soltar quando, de repente, aquela enorme bola cheia de gás começou a rodopiar pelo céu da capital francesa e, desesperados com as labaredas cada vez mais próximas, pulamos quando estávamos há pouco mais de 20, 30 metros do chão. 

            O baloeiro, que até hoje não sei o nome, e minha Sandra tiveram morte instantânea. Eu, por sorte ou azar, sobrevivi, apesar de múltiplas fraturas, incluindo três vértebras cervicais, que me deixaram paralisado do pescoço para baixo. 

             Depois de quase dois anos de fisioterapia, retornei para esta antiga casa, herança da minha falecida mãe, dona Eulália. Passo o dia inteiro deitado numa cama cheia de controles, que consigo acionar com um canudo preso à minha boca. Meu maior divertimento, o único na verdade, é observar a minha linda vizinha, que costuma sair de casa e se sentar numa dessas cadeiras de praia na calçada.

             Minha vizinha, de vez em quando, cumprimenta alguém que passa, com um sorriso, que me chega aos olhos como o mais lindo que conheci. Mas ela parece preferir se entreter com seu aparelho celular. Não sei se ela já me viu ou se sabe da minha existência. Todavia, ainda me resta uma última esperança, provavelmente a única que me faz querer viver: descobrir o seu nome.

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O mundo lá fora

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘O mundo lá fora’

Eduardo Cesario-Martínez
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Foto por Irene Araújo
Foto por Irene Araújo
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A filha e o pai, apesar de morarem no mesmo apartamento, já não se viam há dias. Não que eles tivessem brigado, mas simplesmente os horários não eram compatíveis com encontros rotineiros. Ela, sempre ocupada com as coisas do trabalho, tentava resolver tudo pelo aparelho celular ou, no máximo, pelo computador, que parecia sempre ligado. O pai, no entanto, apesar de acordar bem cedo, demorava mais de hora na cama, talvez pensando nas coisas que não teve coragem de fazer até então.  

            Naquele domingo, entretanto, os dois se esbarraram na cozinha. O pai, com aquela mesma xícara de café na mão, olhou para os grandes olhos da filha. Aqueles cílios negros pareciam espantados com a fisionomia desgastada à sua frente. Ela levou um tempo para perceber que era aquele mesmo homem que, há poucas décadas, a levava nos ombros para a praia, logo ali. Trocaram um quase sorriso. 

            — Quer? – o pai ofereceu a xícara.

             Os dois sentaram à mesa. Tomaram o café num silêncio quase soturno, se não fossem os raros tilintares das xícaras com os pires. Nenhuma palavra, enquanto o pai observava a ânsia da filha em digitar cada vez mais rápido no minúsculo teclado do aparelho celular. Ele chegou a pensar como é que ela conseguia fazer aquilo com tanta habilidade. Todavia, um estrondo, vindo lá debaixo da rua, os tirou do aparente transe. 

            Já na janela, pai e filha observavam o formigueiro de gente curiosa. Um acidente de carro, aparentemente sem vítimas. Vozes, vozes, vozes! Nada que pudesse ser realmente distinguível para os dois no parapeito lá em cima do edifício. Trocaram olhares, como há muito não faziam. Não precisaram balbuciar palavras. Abriram a porta do apartamento, pegaram o elevador e desceram. Passaram pela multidão, como se ela não existisse. De mãos dadas, rumaram para a praia, aquela mesma praia, que continuava ali perto, talvez saudosa daqueles dois. 

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Valfredo, o gigolô

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Valfredo, o gigolô’

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Valfredo José Gouveia da Mata e Silva, apesar de toda pompa do seu nome, herdara apenas um pequeno apartamento no subúrbio, que ficava bem em cima da antiga padaria da família. Poderia ter seguido os passos do pai e, literalmente, metido a mão na massa. No entanto, desde muito cedo percebeu que, do ofício do seu velho, gostava apenas de comer aquele pão bem quentinho com algumas fatias finas da mortadela especial. À moda da casa, conforme o enorme cartaz atrás do balcão. 

            Sem muito tutano pros estudos, mal terminou o ensino fundamental. Valfredo não conseguia entender o motivo pelo qual alguém pudesse passar a vida inteira entretido com raízes quadradas, esses e mais aqueles afluentes da margem esquerda do rio Amazonas, tantas orações subordinadas. Insubordinado que era, ele é que não iria perder seu precioso tempo com tantas informações inúteis. 

            Aos dezoito, caiu nas graças de uma jovem senhora. Não tão jovem assim, diga-se de passagem, ainda mais para um rapaz que mal havia trocado as fraldas pelo jeans libertador. Seja como for, o sacrifício valia a pena. Nada de acordar bem cedinho, nada de suar o suor dos paupérrimos trabalhadores. Tudo bem que Valfredo teria que cumprir suas obrigações de alcova quase diariamente, mas a flor da idade e os hormônios nas alturas lhe garantiriam muito fôlego para satisfazer todas as luxúrias daquelas carnes quase sem viço. Aliás, a velha tinha nome e sobrenome: Dolores Gonçalves de Magalhães, uma herdeira de verdade.

            O tempo, no entanto, provou que até os casais arranjados possuem lá as suas agruras. De noites quase contínuas de amores febris, Dolores cada vez menos buscava os braços do seu quase gigolô. Ela ainda sentia arrepios toda vez que Valfredo a pegava por detrás e lhe tacava um ardente beijo no pescoço. Todavia, por recomendação do geriatra, a osteoporose estava muito avançada. Então, nada de movimentos bruscos.

            Como existe um ditado ou algo que o valha que diz que, quando algo não está sendo preenchido, alguém irá se apoderar dessa lacuna, não tardou e Dolores se apaixonou novamente. Sim, isso mesmo! A velha ficou encantada quando uma amiga de longa data, a Rosa, lhe presenteou não com uma, mas com duas buldogues. Valfredo, que nunca tivera alergia a cachorro, passou a se coçar como se tivesse dormido com urtiga. No entanto, para não perder suas regalias, sempre demonstrava ter o maior afeto por Gigi e Lalá. Tanto é que sempre fazia questão de levá-las para passear pelos imensos jardins da mansão. 

            É verdade que, por duas ou três vezes, Valfredo tenha tentado dar fim naquelas cachorras. Mas logo percebeu que não havia nascido para atos de violência. Mesmo assim, a cada dia aumentava seu ódio pela Gigi e, especialmente, pela Lalá, que cismava em lhe lamber a cara todas as manhãs. Pois é, as duas dormiam na mesma cama que o casal. Se isso não bastasse, a cachorra ainda tinha o péssimo hábito de roncar e soltar flatos sem qualquer cerimônia.

            Ainda bem que não há mal que dure para sempre. E isso aconteceu logo numa manhã chuvosa de domingo. Depois de quase 15 anos dormindo na mesma cama, Valfredo se arrepiou todo ao sentir o gélido corpo ao seu lado. Era Dolores. A velha foi embora sem nem mesmo dizer um tchauzinho. Ele ficou até triste, pois percebeu que já havia se acostumado com o cheiro de naftalina da quase amada. 

            O enterro foi no dia seguinte, com direito até à marcha fúnebre, como Dolores havia pedido. Quanto ao testamento, este foi lido quase um mês depois, quando todos os parentes, finalmente, puderam se reunir. Obviamente que Valfredo estava presente. Aliás, na primeira fila de cadeiras diante do advogado da família da defunta. Todos os herdeiros estavam ansiosos, todos desejosos do devido quinhão. Algumas poucas joias ficaram para a pequena Laís, sobrinha-neta favorita de Dolores; o faqueiro de prata foi herdado pela única irmã. E a mansão? E a mansão? E a mansão? Dolores estava atolada em dívidas, a mansão foi direto para as garras do banco.

            Valfredo parecia o mais devastado pela falência da velha. Enquanto todos se levantavam para ir embora, eis que o advogado se vira para o agora viúvo e diz que ainda faltava revelar o último desejo da defunta. Ela queria que as buldogues ficassem com Valfredo, já que ele era a única pessoa na qual ela depositava plena confiança, haja vista o amor que ele sempre demonstrou possuir pelas duas. Sem forças nem coragem para declinar de tal desejo da falecida, Valfredo sorriu aquele sorriso amarelo e pegou as cachorras no colo.

            Uma semana mais, Valfredo e as cachorras foram despejados da mansão. Sem lugar para onde ir, ele voltou para o pequeno apartamento que herdara. É óbvio que levou as buldogues. Não por compaixão, muito menos por amor. O ódio àquelas cachorras o consumia dia a dia, até que, certa manhã, ele acordou bem cedo e, decidido, resolver dar cabo das duas.  

            Já na rua, o homem desceu a ladeira puxando as cachorras pela guia. Sua mente maquiavélica pensava em vários planos para, finalmente, se ver livre daquelas pulguentas. Ora pensava em jogá-las no lixão, ora no rio que passava logo ali desfilando todo o esgoto do bairro. Foi em direção ao rio. O sorriso cínico nos lábios, pura satisfação ante algo tão desejado. Eis que, de repente, ele ouve uma voz desconhecida. Era a de uma jovem senhora em um luxuoso conversível. Não tão jovem assim, diga-se de passagem. Mas nada que um Valfredo, desesperado que estava, pudesse deixar escapar.

            — Que mocinhas lindas! São suas?

            — Ah, sim! São os amores da minha vida. Esta aqui é a Gigi. Já esta fofura aqui é a Lalá.

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Tudo por conta de uma anágua

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘Tudo por conta de uma anágua’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez
Foto por Irene Oliveira
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Não foi muito antes de contemplar meus primeiros pelos debaixo do nariz. Talvez, pelo longo espaço temporal, eu esteja cometendo uma pequena falha de meses ou, pode até ser, alguns anos. Na verdade, tais detalhes são irrelevantes. Certamente, não havia chegado aos 20. Ou não.

          Lá estava diante da porta da casa da Matilda, já uma velha naquela época. Hoje, bem sei, ela está há pelo menos 30 anos deitada no São João Batista, endereço eterno de tantos famosos, além de um número infinito de meros mortais. Seja como for, a soberba de alguns parece ter sido em vão, já que todos, no final, se igualaram. 

          Provavelmente, você, que aqui me lê, deve estar agoniado diante de tanta enrolação. Que seja! Vou desembuchar, antes que perca mais um leitor, que, até onde consta, não são muitos. Estava ali por conta de uma encomenda. Digo, uma anágua. 

          Dei dois toques sutis na carcomida porta de madeira, o suficiente para me fazer anunciado. Não demorou, Matilda veio me atender. Fui recebido com um largo sorriso. A idosa, que há pouco havia trocado a dentadura, andava sorridente. Motivo outro, diziam à boca pequena, era por causa de um primo do falecido marido. Como não entendia dessas coisas naqueles idos ou, então, meu olhar estava mais preocupado com as pernas torneadas da Sandrinha, não posso dizer que sim ou que não. 

          A velha me convidou para entrar. Havia duas outras senhoras na ampla sala. A gordinha, eu conhecia. Não me recordo do seu nome. Elaine ou Eliane ou algo assim. Elisa? Pode ser. Não importa. A outra, uma mulher de aparência elegante, nunca havia visto. Bem que poderia ser capa de alguma revista de artistas. Exagero ou realidade, não posso afirmar, mas é como me recordo dos seus traços. 

          — Um instante, Betinho. 

          Matilda foi até um cômodo da casa, enquanto a fiquei aguardando em pé. A gorda e a artista me fitavam de cima a baixo, como se estivessem escolhendo o próximo modelito. Meu rosto começou a pegar fogo, com certeza completamente vermelho, como ainda acontece sempre que fico envergonhado por algo. 

          Não sei quanto tempo depois a velha voltou com um pacote. No entanto, pareceu-me uma eternidade. A minha vontade era sair correndo dali. Mas a bonitona, que continuava me encarando com aqueles olhos enormes, quis saber quem eu era.

          — É o Betinho, filho da Mariana, que mora no final da rua. 

          Se eu disse alguma coisa, não me lembro, mas bem sei que ela não tirava aqueles olhos de mim. O rosto, frio como o de uma loira platinada de Hitchcock, começou a me provocar calafrios. E, antes que eu pudesse fazer algo, eis que alguém deu dois toques na porta, o suficiente para que Matilda fosse ver quem era. 

          Solange, antiga moradora do bairro, entrou toda sorridente. Matilda me entregou o pacote com a anágua da minha mãe, enquanto aproveitei a porta aberta e saí, mas não antes de escutar o seguinte interlúdio, que ainda hoje me corrói de curiosidade.

          — Solange, vou passar um cafezinho. 

          — Não precisa, Matilda. Vim aqui apenas para lhe deixar esse vestido para ajustar.

          — Mas você aceita uma fofoca?

Eduardo Cesario-Martínez

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