Chassi de grilo

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Chassi de grilo’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez – Foto por Irene Oliveira

Imagem criada pela IA do Gemini
Imagem criada pela IA do Gemini

Nasceu Oswaldo Agripino das Chagas, abaixo de dois quilos, parto difícil, peito praticamente sem leite, desacreditado pela parteira, nenhum choro, apenas um quase inaudível silvo, que cismava sair dos pulmões ligeiramente sem vida. Sobreviveu à custa de muitas rezas da benzedeira do povoado. Do nome pomposo, passou toda a infância apenas acompanhado das chagas, que ora quase o desacreditaram, ora o castigavam naquele mais um eterno dia de sofrimento perene. 

Aos 12, parecia que mal chegara aos 6, tamanha a falta de carnes naqueles ossos tão frágeis. Daí surgiu o primeiro apelido, que ficou: Chassi de Grilo. Até a mãe, de tanto ouvir o povo chamar seu rebento assim, acabou por se acostumar e, sem qualquer cerimônia, arrebatava o menino da cama logo cedo para ajudá-la nos afazeres: “Chassi, vem me ajudar a cuidar das galinhas”. Oswaldo caiu no esquecimento, até que chegou a época de se alistar. 

            Lá estava aquele rapaz, mais mirrado que todos, no meio de tantos outros. Um a um eram chamados pelo nome, até que o sargento, prancheta na mão, gritou:

            — Oswaldo Agripino das Chagas!

            Ninguém moveu uma palha, o que fez com que o militar voltasse a gritar, agora mais alto.

            — Oswaldo Agripino das Chagas!!!

            Nada! Até que o Juvenildo, vizinho do Chassi de Grilo, deu uma cutucada nele e falou baixinho.

            — Chassi, o homem tá te chamando.

            Chassi de Grilo, como se acordado de um sono profundo, acabou se lembrando do próprio nome e, finalmente, levantou o braço esquerdo que, de tão fino, parecia mais um galho seco. Ao perceber aquele que era apenas pele e osso, o sargento olhou com desdém e, com a boca retorcida de puro sarcasmo, disse:

            — Você é tão ruim, que não serve nem pra descascar batata!

            Dispensado de servir a pátria, lá foi o Chassi de Grilo voltar para o lar. Cabisbaixo, não sabia se aquilo era bom ou ruim. Todavia, aquelas palavras do homem de farda o incomodaram por um período. Ele repetiu para si próprio, talvez em voz alta, que sabia descascar batata, sim. Sabia até descascar cana, macaxeira, o que viesse. 

            O tempo passou, a vida do Chassi não mudou muito, a não ser pelo fato da sofrida mãe, coração maior que o próprio peito, ter morrido de chagas. Nem teve tempo de chorar, tamanha a secura da roça. Aos 25 foi tentar a vida na cidade. De bico em bico, acabou sobrevivendo dos restos jogados no lixo. 

            Chassi de Grilo teve que aprender a vencer a ligeireza dos ratos para não passar fome. Às vezes chegava a entrar em vias de fato com um mais atrevido ou, em comum acordo, dividia um naco de pão com os companheiros de esgoto. E foi justamente num desses banquetes no beco que aconteceu algo que, definitivamente, transformou a vida daquele homem que mal chegara a um metro e meio. 

            Três homens entraram nos domínios do Chassi de Grilo, que, antes de ser percebido, se embrenhou atrás do enorme container de lixo. O maior deles parecia ser forçado a seguir na frente, enquanto os outros dois, olhando para todos lados, sussurravam algo praticamente inaudível aos ouvidos do assustado Chassi. O grandão foi empurrado de encontro ao enorme muro e, então, o Chassi pode notar um revólver prateado nas mãos de um dos outros homens. 

            — Vai morrer, desgraçado! 

            Sem tempo para raciocinar, Chassi de Grilo, com um pedaço de pau na mão, acertou a cabeça do homem armado. O outro foi dominado pelo grandão, que lhe desferiu um forte murro nas fuças. Tombou já desacordado, a cabeça explodiu no duro asfalto. O sangue escorreu, o corpo já sem vida. 

            O grandão tomou o pedaço de pau das mãos do Chassi e, em seguida, desferiu vários golpes na cabeça dos dois homens. Encarou os olhos enegrecidos da franzina criatura diante de si e teve ânsia de fazer o mesmo com ele. Todavia, talvez por gratidão, puxou-o pelo braço e disse.

            — Vamos sair logo daqui.

            O grandão se chamava Antônio Carneiro, filho de dona Antônia, pai não declarado, mas que todos sabiam ser o pastor Ezequiel, que passou por aquelas bandas há pouco mais de 30 anos. Antônio Carneiro era nome de registro, todos o conheciam por Tamanduá. O motivo? Bem, não se sabe se essa história era verdadeira ou não, mas se falava que era por conta de uma disputa à mão nos tempos de adolescência, quando ele teria esmagado o tórax de um homem feito apenas com a pressão dos braços. Seja verdade ou não, Tamanduá era o cabeça da bandidagem daquela região.

            Chassi de Grilo, de mero protegido, subiu rapidamente na hierarquia. Agora era o braço direito do Tamanduá, que a tudo lhe confiava. Isso, aliás, trouxe autoestima para o mirrado, agora cultivando até um fino bigode debaixo da fuça. Revólver na virilha, mandava e desmandava, já que Tamanduá não queria se preocupar com esses pequenos aborrecimentos. 

            Depois de quase dez anos, Tamanduá viu a organização crescer de maneira vertiginosa. Até o juiz do local sabia quem mandava e desmandava, a polícia não se atrevia a enfrentar o chefe mor do crime. Todos o tinham na mais alta conta, seja por respeito, seja por puro medo. Por isso, não era raro alguém ir lhe pedir um favor. E foi justamente num desses dias que aconteceu algo que encheu o coração do Chassi de Grilo de regozijo. 

            Aquele mesmo sargento, que havia humilhado o braço direito do Tamanduá, foi até o escritório do crime pedir um favor. Agora reformado, o homem foi reclamar que sua filha adolescente havia sido molestada por um vizinho. Tamanduá não quis saber dessa conversa e logo falou para o Chassi de Grilo resolver aquela pendenga. E, assim que viu aquele homem suplicando por ajuda, Chassi o observou minuciosamente. 

            — Pode ficar tranquilo, vou dar um jeito nesse homem que fez mal pra sua filha.

            — Muito obrigado, senhor! Não sei nem como agradecer o senhor.

            — Pois eu sei como.

            O homem arregalou os olhos e, passivamente, apenas aguardou que o Chassi de Grilo lhe falasse o que ele deveria fazer. O braço direito do Tamanduá, por sua vez, dedilhou suavemente a ponta do fino bigode e, com um sorriso de vingança, disse.

            — Tá vendo aquelas batatas ali no canto? Quero elas bem descascadinhas. Hoje tô com vontade de comer umas fritas.

Eduardo Cesario-Martínez

    Voltar    

Facebook   




Zé Dadá, o invencível

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Zé Dadá, o invencível’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez –
Foto por Irene Oliveira
Imagem gerada pela IA do Gemini - 08 de março de 2026, às 11:26
Imagem gerada pela IA do Gemini 08 de março de 2026, às 11:26

O homem, da sacada da casa de dois andares, ali no Menino Deus, observava o neto, não mais de 10 anos, entretido com joguinhos no aparelho celular. Do nada, quase sem querer, começou a resmungar com seus botões, até que o moleque desviou os olhos da telinha e os manteve firmes aos do avô. Apesar de menino, sabia que daquela boca saíam histórias interessantes. Na verdade, quase sempre. Por isso, tratou logo de aprumar as orelhas para não perder uma palavra que fosse. 

     Zé Dadá era afamado em briga. Não perdia uma. Era murro daqui, chute dali, cabeçada acolá, sobrava rabo de arraia pra todo lado. Pobre adversário, se fosse esperto, caía logo para não apanhar mais. Um olho roxo, um dente quebrado, uma costela partida, tudo era troféu de guerra, mesmo que perdida. Afinal, com Zé Dadá, ninguém podia.

    De boca em boca, os feitos do brigão logo chegaram aos ouvidos de toda a Caxias, terra de Gonçalves Dias. Não demorou, até a polícia evitava cruzar o caminho do Zé Dadá. Isso porque o povo não respeita policial que toma tapa na cara.

      A despeito de tamanho temor, havia um rapazola franzino chamado Raimundo, que dizia não tremer que nem vara verde como tantos ali. Ele levantou o braço e, com a voz mais apagada do que a própria covardia, disse: “Se ninguém tem coragem de enfrentar o Zé Dadá, eu enfrento!” Pra quê? Isso foi cair justamente nos ouvidos do Zé Dadá, que logo quis saber quem era o tal atrevido.  

    A notícia correu toda a cidade, especialmente entre os alunos do Colégio Caxiense, onde o Raimundo penava para passar em matemática. Diante de tantas contas complicadas, chegou a desejar que a luta contra o brigão se desse o mais rápido possível. Antes a cabeça rachada que quebrar a cuca com tantos números. 

    A luta foi marcada. Dali a três dias, lá no Largo de Santa Luzia, que ficava atrás do Caxiense. Em vez de futebol, o lugar seria palco da batalha mais esperada desde que Lampião passou pelo município, fato este que jamais aconteceu. Entre lendas e verdades, o tempo voou, especialmente para o pequeno Raimundo, que já pensava em se escafeder pelo mato, tamanho seu arrependimento por sua irracional impulsividade. Por que diacho ele havia erguido o braço, quando ninguém mais esperava por nada além de um ato de contida covardia?

    O local estava abarrotado, saindo gente pelo ladrão. Até o padre, dizem, teria feito sua fezinha. Obviamente que apostara toda a oferenda do mês no Zé Dadá. Afinal, não dá para brincar com o dinheiro divino sem ter certeza do resultado. 

    De um lado, surgiu o grande Zé Dadá. Perto de 1,80 m, quase 80 kg de puro músculo. Já sem camisa, desfilou no círculo de entusiasmada plateia. Ficou ali por quase cinco minutos à espera do desafiante, que ainda pensava em fugir. No entanto, acabou sendo empurrado para o meio da arena. 

    Raimundo suava frio, apesar dos quase 40 graus. As mãos tremiam, enquanto os dedos tentavam desabotoar a camisa branquinha. Ele não queria sujá-la. Se chegasse em casa com a roupa encardida, teria que enfrentar a fúria de sua mãe. Tomou coragem, apanharia do Zé Dadá, mas manteria o couro livre do açoite certeiro da genitora.

    Apesar de franco favorito, Zé Dadá não estava acostumado a enfrentar um adversário tão atrevido. Como é que aquele magricela teve coragem de desafiá-lo? Seria ele um lutador experiente? Saberia dar golpes ainda desconhecidos pelo campeão dos campeões de Caxias? Ou seria apenas mais um pobre coitado morto de fome? Olha essas costelas finas que nem gravetos secos. Seja como for, tais dúvidas pairavam pela mente ligeira de Zé Dadá.

    O público gritava. Todos queriam ver o sangue jorrar longe. Os oponentes se estudavam, a cautela tomava cada atitude daqueles dois, até que, num gesto ligeiro como bote de louva-deus, Zé Dadá acertou em cheio a fuça do pobre Raimundo. Caiu de bunda! Pensou em revidar, mas a prudência falou mais alto. Zé Dadá partiu para cima com o intuito de dar cabo do adversário, mas logo surgiu a turma do deixa-disso, que apartou a contenda. Foi a deixa para que Raimundo abrisse uma brecha no meio da multidão e se evadisse do local. 

    O derrotado ficou três dias com o nariz inchado. Temendo que sua mãe descobrisse a surra que havia levado, o rapaz passou todo esse tempo evitando encará-la. Não queria apanhar outra vez. Conseguiu, não se sabe como. Talvez a mãe já soubesse de tudo e, piedosa como ela só, não quis causar mais sofrimento ao filho. Nenhuma palavra sobre o acontecido. 

    Após quase uma semana da surra em praça pública, Raimundo desejou ser amigo do seu algoz. Encontrou o grandalhão, que repousava debaixo de uma mangueira. Trocaram poucas palavras, o suficiente para que as coisas se acertassem. Satisfeito com a audácia do adversário, o campeão aceitou quase que de pronto tal proposta. Tornaram-se amigos ou, ao menos, mantiveram uma diplomática relação de respeito mútuo pelos anos seguintes. 

    O avô, assim que terminou a história, percebeu que o neto, totalmente encantado, o encarava. Os dois sorriram, enquanto o aparelho celular parecia ter sido esquecido no canto. 

    — Vô, que coincidência!

    — O quê?   

— O Raimundo tem o mesmo nome do senhor.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




O professor de Matemática

Eduardo Cesario-Martínez: ‘O professor de Matemática’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez – Foto por Irene Oliveira
Imagem criada por Gemini - a IA do Google - 1ºde março de2026, às 05:37
Imagem criada por Gemini – a IA do Google – 1ºde março de2026, às 05:37

Não vou conseguir precisar o dia em que aquele rapaz atravessou o portão da propriedade, sorriu confiante, apesar da vestimenta surrada, e foi direto cumprimentar meus pais, que já o aguardavam sentados a uma das mesas ao redor da piscina. Soube naquele momento que aquele jovem, apesar da aparência mais velha, contava apenas 18 anos, enquanto eu, no mês seguinte, completaria 20.

           Meu pai não tardou e se levantou. Foi em direção ao velho José, que já o aguardava, junto a um de nossos automóveis, com a porta de trás aberta. Minha mãe acompanhou com o olhar o marido. Os dois se despediram com beijos soltos no ar. Nessa época, creio que ainda guardavam um resquício do amor, que talvez tiveram algum dia.

            Assim que o Opala partiu, minha mãe pegou a mão do rapaz e veio até mim. Não muito alta, ela carregava o costumeiro du Maurier acoplado à piteira dourada. Por conta de tal hábito, um câncer a tomaria por completo duas décadas após.

            — Augusto, meu querido, quero lhe apresentar o Olegário. Ele o ajudará nas tarefas de matemática. 

            Olegário me estendeu a mão. Olhei para ele com ar de arrogância, que, na verdade, não passava de pura inveja. Como é que aquele maltrapilho poderia me ensinar algo? Mero bandalho! Devo ter feito cara de poucos amigos, pois a minha mãe lançou-me aquele olhar fulminante. Não tive escolha e aceitei o cumprimento.

           A partir da semana seguinte, comecei a ter aulas com o meu novo professor. Um prodígio em trigonometria e geometria, devo admitir. Relutante a princípio, acabei me encantando por aquela situação. Não pelos números, diga-se de passagem, pois até hoje não encontrei razão para decorar nem mesmo a tabuada. Se me interessei, foi por aquela voz rouca do Olegário, que, ainda por cima, era dono do sorriso mais lindo que, até recentemente, não tive o prazer de ver igual.

           Durante nossas tardes no meu quarto, ele tentava a todo custo me ensinar atalhos para que eu não tomasse bomba no final do ano. Por debaixo da mesa, ele cutucava a minha perna com a sua, com o intuito de me fazer prestar atenção. Isso me causava calafrios por todo o corpo, mas, covarde que ainda sou, mirava o piso para não ser descoberto.

          As provas finais vieram e, não sei como, consegui concluir meus estudos. Na certa, devo ter me esforçado além do esperado, pois não queria decepcionar o meu mestre. Não sei se ele ficou feliz com a minha aprovação, pois nunca mais o vi. Minha mãe, hoje consigo ter maior clareza sobre isso, o dispensou assim que possível para evitar que algo pudesse causar certo constrangimento na família. 

          Passei os anos seguintes envolto em códigos civis, penais e trabalhistas. Formei-me com louvor e, a partir de então, comecei a exercer a advocacia no escritório do meu pai. Foi justamente nessa época em que conheci Glória, brilhante advogada, com quem muito aprendi do ofício.

            Protegida do meu velho, ela passou a frequentar a nossa casa. Entretidos que estávamos com o volume de trabalho, não tínhamos tempo para o amor. Foi como um acordo que nos casamos no ano seguinte, logo após ganharmos uma causa de milhões. Minha mãe pareceu aliviada com o matrimônio.

            Como prêmio, viajamos para Europa por uma semana. A agora minha esposa, com um francês muito melhor do que o meu, pareceu adorar aquelas explicações intermináveis nas idas aos museus. Como bom marido, mantive-me sempre ao seu lado, mas com a cabeça na pilha de processos que me esperava no escritório.

            Assim que o avião pousou no Galeão, senti um grande alívio. Nada mais de passeios infrutíferos por Paris, onde sentamos em todos os cafés possíveis. A companhia era ótima, é verdade, tanto é que na segunda semana de volta ao Brasil, Glória se sentiu indisposta e correu para o banheiro a fim de evitar devolver, sobre a mesa, o salmão com nozes ingerido há pouco.

            No verão seguinte, eis que estávamos na sala de parto. Minha mulher segurava minhas mãos tão fortemente, que imaginei que iria arrancar todos os meus dedos. Devo confessar que aquela era uma situação nova para mim também, porém, muito mais cômoda. Afinal, todas as dores do parto se encontravam com Glória. 

            Às 12h43 do dia 15 de fevereiro de 1989, ouvimos pela primeira vez o choro de Rubens. Minha esposa e eu, talvez não querendo deixar nosso filho chorando sozinho, o acompanhamos. Esse momento mostrou a nós dois que, apesar de ter surgido de um acordo, aquele casamento havia conseguido gerar um fruto do nosso amor. 

            Depois de alguns meses de correria, a nossa vida acabou entrando nos eixos. É verdade que agora tínhamos um filho para criar e, hoje posso afirmar, o tempo é sábio e toma conta de tudo. Ou, caso não cuide tão bem assim, o dinheiro ajuda a superar as dificuldades.

            Nosso menino cresceu cercado de todos os mimos e regalias, é verdade. No entanto, até entre os abastados há certos percalços. Seja como for, lá estávamos para lhe dar o suporte necessário. E foi assim que fizemos, quando, antes de completar 10 anos, ele cismou em ser tenista.

            Compramos os melhores materiais esportivos, contratamos o mais afamado treinador. Até mandamos construir uma quadra de tênis na nossa ampla propriedade. Entretanto, essa febre passou e a raquete, comprada a peso de ouro, foi parar em algum canto.

            Aos 13, Rubens cismou que queria ser músico. Como dinheiro não era problema, compramos vários instrumentos, mas, no final, o nosso rapazinho desistiu de todos. Ainda carregou a gaita no bolso por alguns meses, mas nunca o vi soprando-a nem uma vez sequer.

            Rubens, prestes a concluir o ensino médio, parece ter herdado a minha aversão por números. Por isso, a minha mãe, ainda que adoentada, contratou um professor de matemática para o único neto. Na hora nem me dei conta da situação, até que, sentados a uma das mesas ao redor da piscina, vi passar pelo portão um jovem de lá seus 25. Na verdade, soube logo em seguida, ainda contava 18. Ele parou diante de mim e sorriu um sorriso, que há muito guardo na lembrança, e, então, naturalmente, acabei por me encantar por aquela rouquidão: “- Prazer, sou o Olegário!”

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




O destino de Perfídia

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘O destino de Perfídia’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez
Imagemcriada pela Gemini IA- 22 de fevereiro, às 01:26

Não sei se o que me aguarda é o Céu ou o Inferno, mas, confesso, continuo dormindo tranquilamente, apesar de malfalada há décadas. E tudo por conta de um ciúme tolo, quase infantil, do meu então marido, o senhor Bento Santiago, vulgo Bentinho. Talvez você ainda não esteja ligando o nome à pessoa. Pois bem, fui honestamente batizada de Capitolina, mas foi como Capitu que caí na boca do povo. Seja como for, posso lhe garantir que não fui a única. Duvida? Então, preste atenção na história que irei lhe contar.

     Perfídia ganhou esse nome pela sonoridade que tanto agradou sua mãe, fã de Altemar Dutra. Cresceu sem entender as risadinhas de alguns quando descobriam como a garota se chamava. A mãe, por sua vez, nunca se deu conta de que havia traçado o destino da filha assim que a registrou no cartório. 

      A menina cresceu mais formosa do que a maioria naquela cidade. Tão bela se tornou, que logo atraiu os olhares mais sortidos. Obviamente que os olhos que a fitavam não eram apenas os de desejos, mas também os de inveja. Alguns até ambíguos, onde esses sentimentos se misturavam.

     A jovem, bem cedo, causou discórdias inconciliáveis. Tanto é que até o padre foi chamado para resolver tais pendengas, já que os pastores não se entendiam, pois todos pareciam desejar aquele pitéu para si. Diante de tamanha hipocrisia, juntou-se uma pequena quantia, que foi entregue à mãe de Perfídia, com a condição de irem embora daquela cidade. 

     Sem maiores perspectivas, as duas compraram passagens pro próximo ônibus e, antes que a primavera terminasse, rumaram para a capital. Mal chegaram, a velha morreu de disenteria, coisa comum naqueles tempos. Sozinha, Perfídia, apesar da tristeza de ter que enterrar sua própria mãe, se sentiu livre pela primeira vez na vida. 

    A mulher usou preto por alguns dias, mas logo percebeu que havia nascido para as cores vivas. E foi assim que resolveu procurar pelo primeiro emprego, já que o dinheiro andava ainda mais curto do que a sua saia. E lá foi a moça de pernas torneadas em direção à padaria da esquina, onde não havia cartaz de procura-se funcionário. E daí? Isso não foi empecilho para Perfídia.

    O velho Joaquim, que nem era tão velho assim, foi chamado pela balconista, a Doroteia. Uma mulher estava à procura de emprego. Joaquim resmungou algum palavrão e se levantou enfurecido, certo de que aquele dia havia começado pelo avesso. No entanto, assim que bateu os olhos naquela formosura, mudou de ideia e a contratou antes que ela fosse embora. 

    Viúvo há poucos meses, o dono da padaria se viu apaixonado por Perfídia. Então, assim que as coisas se ajeitaram, ele tomou coragem de propor casamento para a jovem mulher, que mal entrara na casa dos 20. Ela, que estava passando pano sobre o balcão, gostou da proposta e, já no mês seguinte, com toda papelada em mãos, o casório foi realizado. 

    Perfídia gostou de acrescentar o sobrenome do marido ao seu, já que ela carregava, desde sempre, apenas o da sua falecida mãe. Perfídia da Silva Almeida. Soava respeitoso. A mulher gostou tanto, que fez questão de emoldurar a certidão de casamento e pendurá-la na ampla sala do apartamento, que ficava justamente em cima da padaria. 

    Agora ela era a patroa e, por isso, não precisava mais se preocupar com a faxina do comércio. Gastava seu tempo entre o salão e algumas compras. Joaquim, mesmo sendo mão de vaca, não se atrevia a contrariar a esposa, pois era muito bem recompensado durante as noites de alcova. O ciúme, todavia, estava sempre presente, pois todos os fregueses da padaria corriam os olhos pelo corpo de Perfídia. Tanto é que ele insistia para que ela não ficasse muito tempo por ali.

    Obediente como uma boa esposa que era, Perfídia mal pisava no comércio do esposo. Gastava seu tempo lendo as revistas de fofocas ou, então, batendo perna pelo bairro. Pra quê? Acabou se encantando por Augusto, um belo gajo recém-casado. Apesar dos compromissos firmados, os dois se entregaram às tardes num quarto de motel do outro lado da cidade. Afinal, era necessário manter a seriedade.

    Não se sabe se a esposa de Augusto descobriu o entrevero, já que era moça de família e, portanto, sabia que homens dignos também precisavam se divertir. Quanto ao Joaquim, parece que ele andava preocupado com os sumiços da mulher. Tanto é que pensou em dizer para ela passar mais tempo na padaria, mas logo se lembrou dos fregueses atrevidos. Para encurtar a história, eis que era uma quarta-feira, por volta das 14h, quando Joaquim tombou direto no chão da padaria. Clientes e funcionários tentaram acudi-lo, mas já era tarde. O coração do velho havia parado antes mesmo do rosto se esborrachar na cerâmica fria e gasta. Enquanto isso, lá do outro lado da cidade, a agora viúva se divertia com o amado entre os felpudos lençóis da traição. Perfídia!!! 

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Joaquim e as cartas

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Joaquim e as cartas’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada por IA do Gemini - 15 de fevereiro de 2026, às 01:27 AM
Imagem criada por IA do Gemini – 15 de fevereiro de 2026,
às 01:27 AM

Joaquim das Couves adorava cartas. Aliás, antes que alguém possa pensar que seu nome era mesmo esse, já lhe digo que não. Chamava-se Joaquim Manoel de Almeida. No entanto, como era dono de uma banca de frutas e legumes na feira, acabou ganhando essa alcunha, que carregava por todos os cantos. Vendia ovos caipiras também. Mas, como já havia o Zé do Ovo bem ali na outra barraca, ficou das Couves mesmo.

           A despeito de couves, cenouras, tomates, alfaces e ovos caipiras, Joaquim gastava seu tempo livre com algo fora de moda. Apaixonado desde sempre por cartas, pegava uma boa quantidade de folhas e danava a derramar um monte de palavras sobre elas. Caprichosamente delineadas, pois não queria causar dúvida ao destinatário quanto aos dizeres. Jota era jota, gê era gê, todos os emes com três perninhas. Quanto aos enes, cabiam-lhes apenas duas. 

           É verdade que quase não mais recebia missivas, mas isso não o desanimava. Final de tarde, o homem se sentava à mesa da sala e, rodeado dos apetrechos necessários, tratava logo de escrever, escrever, escrever. E, caso as ideias lhe faltassem, bebericava o café ao lado, cuidadosamente preparado no antigo coador de pano. Não se sabe se era por hábito ou milagre, mas os pensamentos lhe corriam que nem os caudalosos rios em direção ao mar. 

           De vez em quando, Joaquim consultava aquele calhamaço, que havia ganho de presente de um antigo funcionário dos Correios, em busca de um CEP. Colocava os óculos e os empurrava até a ponta do nariz. Virava as folhas fininhas, enquanto o indicador fazia uma busca até a almejada linha. Pronto! Anotava cuidadosamente no verso do envelope: 90150-002. 

           Às segundas-feiras, dia de folga no trabalho, juntava aquelas dezenas de envelopes e caminhava até a agência dos Correios. Como se tratava de hábito, bem que poderia comprar um monte de selos, colá-los e despachar as cartas numa caixa mais próxima. Não! Fazia questão de esperar na fila e ser atendido por qualquer um dos funcionários. Não importava qual, pois todos o conheciam de longa data.

           — Como vai, seu Joaquim?

           — Oi, Marcos. Tudo bem. E com você?

           — Tudo bem também. Vejo que hoje temos 34 cartas. Parece que o senhor vai ter muita coisa para ler quando receber as respostas.

           Joaquim sorria por hábito. Na verdade, há mais de dois anos não recebia uma carta sequer. De vez em quando, sejamos justos, recebia o telefonema de algum destinatário ou mensagem via algum aplicativo eletrônico. Nada além disso.

           O feirante voltou para casa pelo caminho de costume. Passou no mercadinho da esquina e comprou um pacote de pó de café. Do melhor, praticamente a única extravagância de uma vida tão simplória. 

           Assim que abriu a porta da residência, notou um envelope diferente junto a tantas contas para pagar. Olhos arregalados, pensou que aquilo era um sonho. Não era possível! Uma carta! 

           O homem não reconheceu o nome da remetente. Mas o sobrenome era conhecido. Fabiana Moretti. O endereço era o mesmo do seu amigo de juventude, Bruno, na longínqua cidade natal. Fabiana, certamente, era uma parenta. 

           Joaquim, de tão emocionado, depositou cuidadosamente a missiva sobre a mesa. Foi até a cozinha, colocou água na chaleira. Passou uma boa quantidade de café. Voltou à sala, sentou-se à mesa, despejou o líquido fumegante até a metade da xícara de louça florida. Deu um gole, mordeu o bigode com os lábios trêmulos, respirou profundamente.

           Pegou seus óculos e os colocou como de costume. Com a carta em mãos, abriu cuidadosamente o envelope. Desdobrou as três folhas, como se desembrulhasse um presente há tanto esperado. 

           Já nas primeiras linhas, percebeu que Fabiana era uma das filhas de Bruno. Este, infelizmente, havia falecido há pouco mais de seis meses, após quase dois de ter entrado em coma. Joaquim se sentiu tocado pela partida do amigo, que jamais havia lhe respondido, a não ser por um ou dois telefonemas ao longo dos últimos cinco anos. Algumas lágrimas escorreram pelo rosto enrugado ao ler um trecho da carta.           Sei que o senhor foi muito amigo do meu pai. Como sei disso? Bem, todas as vezes que lia alguma das suas cartas em voz alta, meu pai, mesmo em coma, sorria com lágrimas nos olhos.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Tertuliano e as bergamotas

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Tertuliano e as bergamotas’

Eduardo Cesar-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada por IA da Gemini07 de fevereiro de 2026, `s 1:38 AM

Tertuliano tinha compulsão por tangerina, que conhecia por bergamota, mas preferia chamar de berga. De tantas que devorava, a mãe profetizou: “Daqui a pouco, vai nascer um pé de bergamota dentro da sua barriga!” Nascer como, se o guri tomava cuidado para não engolir as sementes? 

          O menino se fazia de desentendido e, sempre que era época da fruta, tratava logo de correr para o quintal e se encostar no tronco da tangerineira. Esquecia-se das brincadeiras, esquecia-se dos deveres de casa, esquecia-se de almoçar, esquecia-se da vida, não se lembrava de nada. Empanturrava-se de tanta berga e só entrava quando a mãe, aos berros, o mandava entrar: “Tertuliano, vá tomar banho, pois já tá mais que na hora de guri ir dormir!”

          A contragosto, o moleque fazia aquela careta, mas, para evitar chineladas, que certamente viriam, tratava logo de se levantar e apressar o passo. Vez ou outra, ainda estava com um gomo na boca. Pois foi justamente numa dessas ocasiões que aconteceu aquilo que o guloso mais temia. Sim, isso mesmo! O menino engoliu uma semente logo após a mãe lhe aplicar um beliscão na orelha, tudo por conta daquela gulodice. 

          Pobre Tertuliano, com as duas mãozinhas encardidas em volta do pescoço, ainda tentou impedir que aquela semente descesse para o estômago. Em vão, pois a danadinha desceu toda faceira. Pra quê? O garoto arregalou os olhos e, choroso, foi tomar banho antes de se deitar. 

          Lá estava o guri no seu quarto. Sozinho no escuro, não conseguia pregar os olhos e, quando tentava fazê-lo, logo surgia a profecia da mãe: “Daqui a pouco, vai nascer um pé de bergamota dentro da sua barriga!” E agora? Como é que o guri iria fazer para se livrar daquele problema? De tanto pensar, acabou adormecendo sem se dar conta.

          Tertuliano se viu despertado pela mãe na manhã seguinte. A mulher, com cara de mãe enraivecida, tratou logo de puxar a cria pela orelha. Ela tomou um baita susto, pois percebeu que dali saíam folhas presas a um galho. Olhou a outra e, então, constatou que também apresentava um outro galho repleto de folhas. Mãe e filho se encararam.

          — Tertuliano, por acaso você engoliu alguma semente?

          — Foi só umazinha.

          — Mas eu te falei pra não engolir!

          — Foi sem querer, mamãe.

          Diante daquela situação, a mulher não teve escolha. Foi logo chamar o marido e lhe contou o ocorrido. Não havia o que fazer, a não ser tomar as devidas providências. 

          O homem pegou a enxada e cavou um buracão, o suficiente para que o filho ficasse em pé, somente com a cabeça para fora. Cobriu-o de terra. A mãe, então, pegou um balde cheio d’água e despejou sobre a cabeça do filho. Tertuliano ainda reclamou que a água estava fria, mas acabou aceitando a própria sina de bom grado, pois sentiu que seus braços e pernas já estavam se transformando em raízes. 

          Como a estação de bergamota ainda vigorava, logo nasceram vários frutos, que caíram próximos à boca de Tertuliano. Ele, então, gritava para a mãe, que corria para bem perto do filho. A mulher descascava uma a uma aquelas bergas e, cuidadosamente, colocava os gomos nos lábios do menino. Entretanto, precavida que era, alertava o filho: “Tertuliano, por favor, não vá engolir mais nenhuma semente!”

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




A carta e a urna

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘A carta e a urna’

Eduardo Cesar-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario- Martínez
Imagem criada por IA do Gemini – 1º de fevereiro de 2026, às 08:01 PM

Berenice não entendia por que havia sido chamada para aquela leitura de testamento. Não conhecia o falecido, um tal de Aldo Schmidt, ou qualquer dos parentes e amigos que ansiavam por um quinhão. Mesmo assim, fez questão de chegar a tempo e se sentar antes mesmo de todos, tamanha a curiosidade. Na certa, haviam-na confundida com uma homônima. Berenice Ananias Louzada de Alcântara? Não! Não era possível que houvesse outra. Meu Deus, só poderia ser ela!

            Apesar de nunca ter visto aquelas pessoas, ninguém pareceu estranhar a presença de Berenice. Todos estavam mais interessados na voz do advogado, que lia as últimas vontades do seu ex-cliente, que morrera de alguma doença de velho há exatos 36 dias. Foi cremado, e suas cinzas cuidadosamente depositadas em uma urna, que estava sobre a estante de madeira de lei. Pela tonalidade avermelhada, obviamente que era mogno.

             Depois de pouco mais de 10 ou 15 minutos de leitura, eis que começou o falatório daqueles que não haviam sido beneficiados por nem um vintém sequer. Quase todos, na verdade, a não ser a afilhada, filha única da empregada. Solteirão convicto que fora, não deixou herdeiros em linha direta, mas apenas primos e sobrinhos. Mas por que o finado havia insistido para que a parentada estivesse presente? Era óbvia a intenção de caçoar daquele bando de parasitas pela última vez. Com certeza, Aldo estava gargalhando do além, enquanto os vivos, do lado de cá, o amaldiçoavam.

            E a balbúrdia prosseguia. Berenice se esforçava para manter a face rija, como querendo esconder expressões que pudessem gerar conflito. Rosto virado para o chão, sabia que os olhos a denunciariam, caso alguém os visse. Quieta. Absolutamente estática. No final de alguns minutos, que pareceram horas, a pequena plateia foi se dispersando, até que a mulher se viu sozinha na companhia do advogado. Um silêncio sepulcral tomou conta do local, até que, em seguida, foi interrompido pela mulher.

            — Senhor, por que fui chamada, já que nunca nem ouvi falar desse Smith?

            — Schmidt.

            — Que seja! Não faço a menor ideia de quem era esse homem.

            Mudo, o advogado se levantou e foi em direção à estante. Tomou a urna e um envelope ao lado. Virou-se com a intenção de dá-los àquela mulher, que nada entendia.

            — Por que o senhor está me entregando essas coisas?

            — Senhora Berenice, sou apenas o advogado. Nada sei sobre esse envelope. Mas o senhor Schmidt me orientou a entregá-lo à senhora. Ele me disse que a senhora entenderia tudo assim que lesse a carta que, suponho, esteja dentro desse envelope.

            — Carta?

            — Sim, há uma carta dentro do envelope.

            Apesar do estranhamento, a mulher esticou o braço e quase tomou o envelope das mãos do advogado. Ela olhou o objeto com cuidado, enquanto o homem, ainda em pé segurando a urna, apenas a observava. Berenice rasgou o envelope na lateral, de onde retirou uma carta, escrita com letra trêmula, mas legível.

            “Não lhe deixo algo valioso, pois bem sei que é uma senhora de posses. Como sei? Eu a fiz assim. E, antes que rasgue ou amasse essa missiva, deixe-me explicar.

            Como já bem sabe, meus pais me deram o nome de Aldo Schmidt. Nasci no dia 12/12/1912, uma data, no mínimo, curiosa. Mas nada que tenha a ver com o caso em questão, a não ser que a senhora acredite em astrologia. Creio que não, tamanho o período do seu luto, que acompanhei de perto, como fetiche de uma mente doentia.

            Nossas histórias se cruzaram há quase 60 anos, quando eu, ainda um jovem de 23, andava desgostoso da vida. Certamente, não por falta de opções, pois as possuía aos montes. Dinheiro não me faltava, pois nasci com o destino dos predestinados a uma vida de luxo. No entanto, o mundo aos pés não me parecia suficiente para tanta angústia.

            Após os festejos da chegada de 1936, lá me encontrava afundado, em todos sentidos, no amplo sofá na varanda da casa dos meus pais. Entediado de tantas bebidas, peguei um cigarro sobre a mesa de centro. Mal o acendi, percebi a chegada de Rita, uma das empregadas, que carregava uma lixeira e começou a catar os restos da noite anterior. Olhei-a com desprezo e imaginei-me esmagando aquele ser sem qualquer valor aos meus olhos de então.

            Ergui meu corpo e fui passear na ampla propriedade. O cigarro deu lugar a outro e mais quatro ou cinco. Lembro que parei diante da piscina, cujo fundo depositava uma enormidade de insetos. Havia um besouro, ainda com vida, na superfície, tentando se livrar do destino de se juntar aos seus semelhantes. Observei-o por, talvez, meia hora, até que o infeliz perdeu as forças e, vencido, afundou lentamente. Um prazer, até então incompreensível, tomou meu corpo.

            Não tardou, lá estava eu fora dos muros das posses que, não tardaria, seriam minhas, já que meus pais morreram, após quase dois anos, por conta de um fortuito acidente de carro. Digo fortuito, pois foi o terceiro prazer que senti, levando-se em conta o trágico fim daquele besouro. Todavia, nem o primeiro e, muito menos, o terceiro interessam à senhora. Apenas o segundo, que foi justamente aquele que enlaçou nossos destinos.

            Como havia dito, lá estava eu caminhando cada vez mais distante dos muros, quando decidi ir até o lago que, bem a senhora sabe, encontra-se a aproximadamente uma hora, dependendo dos ânimos dos passantes. Sentei-me numa enorme clareira em frente à placidez daquelas águas. Fiquei por ali por não sei quanto tempo, até que ouvi vozes. Virei o rosto e percebi que eram dois homens pouco mais velhos, mas que não haviam chegado aos 30, como soube alguns dias depois.

            Um era pouca coisa mais alto, encorpado, cabelos praticamente negros. O outro era esguio, quase loiro, olhos de um castanho bem claro. Não vou descrevê-lo com mais detalhes, mesmo porque, tenho certeza, a senhora poderia fazê-lo muito melhor. Afinal, era seu finado esposo.

            Aqueles dois foram ali para pescar. Colocaram as tralhas debaixo de uma árvore, conversaram algo que não consegui captar, apesar dos ouvidos atentos. Seja como for, seu marido pegou uma lata e uma pequena pá. Ele deu alguns passos em direção a uma terra mais fofa, onde começou a cavoucar em busca de minhocas. O amigo retirou sapatos e meias e foi em direção à beira, onde colocou os pés e pegou um pouco de água com as mãos para jogá-la no rosto.

            Não sei exatamente por que fiz, mas sei que o fiz. Peguei um robusto pedaço de pau ao lado e, decidido, caminhei em direção ao seu marido. Aproximei-me como um felino e, sem pensar, lhe desferi um golpe certeiro na nuca. Nenhum gemido. Ele caiu que nem jaca madura. Apenas o som abafado daquela face na terra úmida.

            Saí apressado do local, antes que o outro homem percebesse minha presença. Não me lembro de ter olhado para trás, até que voltei para casa, onde fui em direção à piscina. O besouro continuava lá, imóvel, junto aos seus. Creio que fui bem-sucedido, já que, até onde soube desde então, o amigo do seu marido jamais mencionou que tivesse visto alguém naquele dia.

            Sem suspeitos mais convenientes, a polícia acabou prendendo o amigo do seu marido. Torturam-no até que, finalmente, o homem sucumbiu e confessou que havia assassinado o amigo. O motivo, segundo as investigações, seria mais óbvio se o morto fosse ele, já que, como bem a senhora sabe, era seu amante. Tal detalhe, entretanto, foi suprimido dos autos. Não que a polícia quisesse protegê-la de tamanho escândalo. Tudo não passou de um pedido meu, generosamente regado à paga.

            Com esse gesto, que pode lhe parecer de bondade, fiz-lhe o favor de manter a sua reputação ilibada de dama da sociedade. Caso eu não tivesse tido esse ímpeto, certamente a senhora não herdaria a fortuna do finado, que, bem sabemos, era de fazer inveja até mesmo àquela que herdei.

            Quanto ao assassino confesso, que agora revelo que foi apenas um bode expiatório diante da incapacidade da polícia, foi condenado a 28 anos de prisão. Não cumpriu dois, pois, sabemos, enforcou-se na cela. Pobre alma. Católico que era, parece-me que se deixou sucumbir ao pecado do suicídio. Que Deus tenha piedade daquela pobre alma!

            Para finalizar, entrego minhas cinzas à senhora. Faça o que desejar. Que seja o melhor ou o pior. Não me importo. Sei que cumpri minha sina e espero que, também, a senhora cumpra a sua.

            Atenciosamente,

            Aldo Schmidt”

            Berenice virou a folha. Nenhuma palavra mais. Ergueu o corpo, guardou a carta na bolsa. Encarou o advogado, tomou-lhe a urna e foi embora.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook