Onde o coração se aquieta

Marli F. Freitas: Poema ‘Onde o coração se aquieta’

Marli Freitas
Marli Freitas
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Lá onde as garças sobem o rio,
Enfeitando a alma e a paisagem,
Tudo debaixo do céu desperta
A imaginação a favor da poesia.

Lá onde as corujas guardam
A cidade, a brisa é suave, o coração
Se aquieta, o olhar serena
E o monte sugere uma prece.

Lá onde o tempo é medido em
Canto de passarinho e o aroma
É doce, dormem as dores e
Acordam floridas as alegrias.

Lá onde o campo é lindo,
O gado é manso, as lembranças
São ternas, a minha menina
Brinca e sorri a cada cortesia.

Lá onde Deus desenhou as vias
Do epílogo, o dia transcorre
Perspicaz aos encantos e assombros,
Manifestando a beleza da vida.

Marli F. Freitas

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Palácio dos inocentes

Marli F. Freitas: Poema ‘Palácio dos inocentes’

Marli Freitas
Marli Freitas

Tico-tico, quero-quero
Esperançar a paz das garças, onde o
Monte beija festivo o céu das alegrias.
Palácio dos inocentes, sou seu
Espelho de simplicidades e excentricidades.
Rio que corre, às vezes suave, outras em
Águas de tempestades.
Nuances que me
Cobrem de surpresas e fazem refletir
Amor da menina dos olhos meus, a…

Fé guardiã das montanhas da minha terra. Tenho
Orgulho de pertencer a este céu de brancas nuvens.
Recebo o seu abraço, ó brisa que me acarinha!
Telúricas são as tardes em que
Acalento sonhos e guardo
Lembranças da minha infância!

Efêmeros, porém, eternos na memória são os instantes em que de olhar
Zeloso balbucio as minhas preces
Agradeço o dom da vida e me despeço serena,
com um sentir de derramar em ti a essência do meu bem-querer.

Marli F. Freitas

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Céu de passarinho

Marli Freitas: Poema ‘Céu de passarinho’

Marli Freitas
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Entre o nascer o e o pôr

Bem-te-vi, pintassilgo e beija-flor.

Tem andorinha no fio,

Rouxinol no arrebol

E o canto do inhambu-chororó.

Entre a poeira e o caminho

Tico-tico, papa-capim e trinca-ferro.

Tem pica-pau na mangueira,

Pardal na goiabeira

E sabiá na laranjeira.

Entre a brisa e o gado

Quero-quero, garça-vaqueira e anu do campo.

Melhor companheiro é o suiriri-cavaleiro,

Melhor família é a da coruja-buraqueira

E a melhor zoeira faz a curicaca campeira.

Entre o céu e o riacho

Biguá, gaivotas e martim-pescador.

Vezeiro é o revoar das garças,

Elegante gorjeia o caboclinho

E eletrizante é o acasalamento do tangará.

Entre a planície e o monte

Salve o canto da seriema!

Salve a fidelidade do galo-de-campina!

Salve o tiziu, o jacu e o curió!

Salve a beleza do cerrado!

Marli Freitas

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Eterno carmesim

Marli Freitas: Poema ‘Eterno Carmesim’

Marli Freitas
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Estive procurando por ti, meu desejo,
Por um tempo em que o fado
Resiste além do céu, além do mar,
Num vai e vem de poesia sem fim…

Onde teus são os olhos meus
Que atravessam dimensões e galáxias,
Brincam entre corpos celestes,
Até que adormeçam inocentes, enfim.

Aguardo enamorada, meu bem-amado,
Enquanto enfrento mil dragões que
Teimam em colocar obstáculos ao curso
Natural de um amor nunca, antes, visto assim…

Onde teu é o meu coração que,
Numa fração de olhar, foi arrebatado
Claridade do nascer ao pôr, despertando
Nossas almas num eterno carmesim.

Marli Freitas

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Entre o olhar e o beijo

Marli Freitas: Poema ‘Entre o olhar e o beijo’

Marli Freitas
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Entre os ramos e o voo dos pássaros,
Há uma liberdade que clareia
O discorrer do milagre que traz poesia.

Entre o sonho e a realidade, posso sentir
Que tudo está como deveria – em
Movimento de renovação e expansão.

Entre as imponentes serras da minha
Terra e o céu, posso ver a beleza
Do mundo desenhando o infinito.

Entre o aqui e o agora, dançam
As mais ecléticas memórias que
Saúdam o instante – natureza notória.

Entre o ser ou não ser, a jornada
Acontece à sombra do pensamento, a
Gosto da vida, às respostas do tempo.

Entre a nudez e a flor, uma pausa
Faz refletir (tudo passa). Depois do medo
Vem a coragem; depois da dor, a alegria.

Entre o olhar e o beijo – vai-se o dia,
Vem a saudade – enquanto o sol
Deita-se em cálice sobre os arbustos.

Marli Freitas

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Entre flores e círios de prata

Marli Freitas: ‘Entre flores e círios de prata’

Marli Freitas
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Quando Machado de Assis disse que
“A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal”,
Meu mundo parou… bebi o mel do seu intelecto
E me entreguei ao êxtase de conhecer um gigante
Que nasceu humildemente humano, neto de escravos alforriados
Que trilhou suavemente o caminho do saber.

De mente brilhante, viu no Padre Silveira Sarmento,
Seu mentor de latim e melhor amigo.
Absorveu em detalhes os estímulos da Chácara do Livramento
E depois da morte prematura de sua mãe, já em São Cristóvão,
Apoiado pela madrasta, doceira em uma escola para meninas,
Não teve dúvidas de que acumularia nobres aprendizados.

Espírito aventureiro, estudou Língua Francesa com o padeiro,
No ‘Periódico dos Pobres’ publicou seu primeiro soneto
‘Senhora D. P. J. A.’,
Frequentou a livraria de Francisco de Paula Brito,
Que vendia remédios, chás e fumo,
Mas também servia de encontro para uma boa conversa.

Em tenra mocidade passou a tipógrafo na ‘Imprensa Nacional’
E Manuel de Almeida, ao contemplar o seu potencial, o incentivou
A seguir carreira literária, nesse contexto, passou a colaborar
Com o ‘Correio Mercantil’, ao chegar à maioridade,
Já era conhecido entre os intelectuais passando a repórter
E jornalista no ‘Diário do Rio de Janeiro’.

Dedicou ‘Crisálidas’ aos seus pais e estreitou contatos com os poetas.
Contribuiu com o hino ‘Cantada da Arcádia’ – Fluminense,
Escrevia crítica teatral, aprendeu grego para conhecer Sócrates e Platão.
Machado não era um homem bonito, mas era culto e elegante.
Entusiasmava a esposa portuguesa Carola com cartas românticas e dizia,
“Tu pertences ao pequeno grupo de mulheres que sabem amar, sentir e pensar”.

Primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras,
E criou a ‘Panelinha’ para festivos ágapes.
Ao perder sua amada revela, “Foi-se a melhor parte da minha vida
E aqui estou só no mundo”, e assim o poeta deixou este mundo
Com as palavras de Tavares Lira, “… cercava-se de flores, círios de prata
E lágrimas discretas”.

Marli Freitas

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Não há nada além do amor

Marli Freitas: ‘Não há nada além do amor’

Marli Freitas
Marli Freitas
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Ele, uma metade perdida
Sem nenhuma suspeita.
Aflitivo, em devaneios,
Cultiva nos livros o melhor abrigo.

Então, o universo indica o caminho,
E ela surge com a beleza de vários sóis.
Ele se enamorou por uma fábula
Disfarçada no mundo real.

Era notável fazer parte da construção,
De cada linha, de uma história
Que sempre vinha embalada de sonhos,
Permeada de simplicidade e espontaneidade.

Ela exalava um cheiro de flor
E olhava a vida com poesia.
Via na dor um mundo de possibilidades,
E na alegria muita magia.

Aos poucos, ele se aventurou no logro,
Arriscou a linguagem das flores,
Algumas palavras sussurradas,
Enfim, chegando a lindos versos.

Um dia, era Fernando Pessoa
Que chamava o tom
E ela respondia encantada,
Pois, palavras eram a sua perdição.

No outro, era Drummond
Que dava graça ao cotidiano
Na simplicidade de viver e levavam
A vida com amor e bom humor.

Assim, foram se tornando
Prisioneiros dos pensamentos,
Prisioneiros das palavras,
Prisioneiros do amor.

Pensaram em desistir algumas vezes,
Mas sempre retornavam.
Enquanto isto, o sangue circulava
Cada dia mais desordenado e aflito.

Quando viram, já haviam se embrenhado
Nos versos de Caio Fernando de Abreu
E revelado o que escondia
As suas necessidades existenciais.

E o relógio enlouqueceu,
Enlouquecendo as horas, os minutos,
Os segundos e transcendeu
O tempo sem nenhum pudor.

E vieram frases soltas
Provocando atos falhos,
Denunciando um amor infinito,
Às vezes eufórico, às vezes doído…

Vieram versos, como:
É sua vida, a minha própria vida,
Trago em mim sua alma adormecida.
E tudo que se via era puro amor!

Nada era real, apenas virtual.
Às vezes, vinham suspiros sofridos
De suas almas, que procuravam
Abrigo na ternura do ser amado.

Mas só encontravam alento na poesia,
Que era capaz de transmutar a dor
E levá-los de volta às suas essências,
Onde as palavras bailavam enlouquecidas.

Ele tinha várias suspeitas sobre ela:
Será um anjo e não sabe disto?
Será uma acendedora de estrelas
Ou a própria lua perdida no céu?

Ela delira em versos:
E com a respiração ofegante,
Vai de encontro ao seu amado e o toca,
Lentamente, na tentativa de parar o tempo.

E diz, vem anjo, vem meu encanto,
Que noite bela!
Entre os suspiros do vento,
Procura o frescor dos seus lábios.

Ele sonha com sorrisos sem porquês,
E eu o amo inesperado.
Ela acolhe sua alma
Com doçuras e juras de amor.

Ele, você causa sentimentos
Até então desconhecidos.
Um dia acordei e vi seu rosto
Refletido no espelho e isto é perturbador.

Ela, eu o amo, meu amor eterno!
Nenhuma ausência irá nos separar!
Ele, pense ou não pense,
Vivo à sua espera, morro à sua espera.

Marli Freitas

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