Nokhwa

Bruno Marquês Areno: ‘Nokhwa’

Bruno Marques Areno
Bruno Marques Areno
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O que os unia era aquele som proveniente do simples acto de descascar o amendoim. O sopro do ar nem mesmo dava para escutar. Como de costume, as mulheres, vestidas de capulanas e lenços coloridos, estavam sentadas na mesma esteira de palha, enquanto os homens depositavam os seus corpos volumosos sobre os troncos dos coqueiros abatidos há várias luas.

As mãos calosas de cada homem e cada mulher estavam cheias de amendoim por descascar. Quem nada fazia, mesmo, era Preetekete, um idoso de seus 108 anos de idade, cuja visão não suportara ver tanto desgosto, e decidira abandonar os olhos negros e melancólicos do velho, para que este, pouco sofresse e muito sentisse.

Como uma sacola de segredos, sempre colado ao Preetekete, estava Nokhwa, um rapaz que nem mesmo o velho que o adoptara, conhece ao certo, quantos anos tinha. Sempre que este perguntasse a sua idade, o velho chegava até a dizer que o rapaz já feito homem, com o rosto banhado de barba aos 9 anos. Há dias que se atreve até a afirmar que o jovem Nokhwa tinha 50 anos. Decepcionado, este mantinha-se em silêncio, dizendo nadas.

Enquanto os outros descascavam o amendoim, o velho virou-se para o jovem, e disse, num tom provocatório:

― Nokhwa!?
O jovem olhou para o idoso e protestou:

― Quantas vezes tenho que dizer ao vovô que o meu nome agora é Chico. Chico Bernabéu! – Insistiu, enquanto deixava o amendoim na peneira.

― Nokhwa Preetekete – também insistiu o idoso, enquanto içava uma cabaça cheia de farinha de mapira.

― Os espíritos escolheram esse nome para ti. A tua mãe deu aos filhos nomes longínquos e como resultado, os espíritos arrancaram-lhe os filhos. Quando você nasceu, uma mulher disse o seguinte, para sua mãe: “ola nokhwa, ola!”.

― Por que é que a mulher disse à minha mãe que eu era a morte? ― perguntou o rapaz.

― Porque todos os filhos que a sua mãe dera a luz, morriam no terceiro dia. Você foi o único que não morreu— disse o velho, indicando-lhe com a mão onde um dos dedos fora decepados e continuou — porque o nome que lhe foi dado, pelos espíritos, foi aceite. Pousou a cabaça de farinha de mapira na esteira e sentou-se.

― O senhor conheceu a minha mãe? ― Perguntou o rapaz, curioso. O velho olhou com olhos desconfiados, como quem não esperava escutar aquela questão.

― Eu já disse: Apanhei você no lixo. Tudo que sei de si, foi-me contado por gente que conheceu a sua mãe. – A resposta do ancião saiu gaguejada, na pressa da língua.

― Ultimamente já não sei em quem acreditar! – Suspirou, o jovem e continuou, dizendo:

― Os mais antigos do bairro dizem que sou filho de uma feiticeira. Uma mulher diabólica que enganou o filho de um grande feiticeiro com um jovem pescador com quem a minha mãe fugiu para as terras da Ilha de Moçambique. Como castigo, o feiticeiro lançou uma praga sobre ela.

O jovem parou a narração para recobrar o fôlego. Apreciou o silêncio dos presentes, procurando negação ou assentimento nos seus olhares. Depois, continuou.

― Sabe qual foi a maldição, vovô? Que ela se comportasse feito uma gata ou porca, e no terceiro dia depois do parto, a meia-noite, enquanto todos estivessem a dormir, ela devorasse os seus próprios filhos.

– O velho, as mulheres e os outros homens, nada diziam. Somente escutavam, boquiabertos.

― Também foi-me dito que o senhor é tio da minha mãe, e que fugiu comigo, das terras da Ilha de Moçambique até aqui, só para salvar-me da minha própria mãe, e que como consequência da fúria da minha mãe, o senhor ficou cego. Disseram-me que a tua cegueira, vovô, é resultado da maldição que minha mãe lançou sobre ti.

― Isso só são falácias. – Disse o velho, enquanto limpava da sua cara, o suor que aos poucos inundava a sua negritude facial. Acrescentou, dizendo:

― Nokhwa! Eu adoptei você aqui, bem nas proximidades do rio Lúrio. As pessoas que viram a sua mãe o abandonando na margem do rio, disseram que ela vivia em Chiùre. – O idoso, nervoso, voltou a empurrar o suor e deu continuidade a sua justificativa.

― Por que é que eu enganar-lhe-ia? Não seria capaz de proibir o seu direito de conhecer a sua mãe.

― O senhor tem medo de me ver morto. Sabe muito bem que ela irá devorar-me.

― Que medo, que nada! – Perguntou, Preetekete, um tanto eufórico. Disse mais: vi tanta coisa nesse mundo, Nokhwa, que nada mais me assusta. Eu vi coisas que você não imaginou vez alguma.

― Como o quê, vovô? Como uma mulher placenta, que devora os seus filhos no terceiro dia, depois de dar a luz?

― De novo, essa história?

A voz do velho saltou da garganta, ruidosa e irritada. Mas, traído pelas emoções, bem do fundo dos olhos esbranquiçados, gotas de lágrimas surgiram. Com a voz rouca, Preetekete indagou:

― É a verdade, o que tu queres saber? – A pergunta armadilhou ao jovem. Ficou com a boca costurada. Esperou tanto por aquele momento, as mãos decepadas tremiam. Mal conseguia mover os lábios carnudos.

― Responda!

― Sim, vovó. Eu quero saber da verdade— disse o jovem com lábios trémulos. O velho ergueu os olhos, e não se contentou em apenas erguer os olhos, não, apertou-os e disse:

― Está bem. Prepare-se para ouvir.

O vento parou, as folhas nos ramos das mangueiras se calaram, e o tempo fez suspense. A lua guardou alguns raios por trás das nuvens, para preparar o ambiente.

― Eu não sou seu avô— retirou o rapé da boca— E muito menos tio da sua mãe. Sabes quem sou? — O velho lançou os olhos para a escuridão, agora fixava o jovem. Devorava-o com os seus olhos de cego, como se pudesse ver. — Queres saber? Tens coragem para ouvir? Insistiu o velho, num grito rouco de espantar a alma.

Os olhos de Preetekete rasgavam o rosto de Nokhwa. O jovem abanou a cabeça, como forma de dizer que não. Então, o ancião se aproximou do rapaz, e revelou:

― Eu sou o velho Feiticeiro. Aquele que a tua mãe enganou. Fui eu, o primeiro homem da tua mãe. Fui eu quem lançou o feitiço contra ela. Fui eu.

Enquanto o velho falava, gritando, Nokhwa, assustado, procurou amparo nos homens e nas mulheres que descascavam amendoim. Mas eles não faziam outra coisa, senão descascar o amendoim. Pareciam autênticos robôs. Aliás, desde que a conversa começara, o quase homem não ouviu aquela gente soltar uma só palavra. Nem mesmo pestanejar. E foi naquele momento que Nokhwa se lembrou que o avô só permitia que aqueles homens e mulheres descascassem o amendoim, a meia-noite.

Quando o sol nascia, ninguém mais via aquelas pessoas.

― Por que é que olhas para eles? – perguntou, o idoso.

― Como sabes que eu olhei para eles? Você é cego! – Assustado, o rapaz ainda conseguiu ripostar, apesar de sentir o estômago amarrotado.

Preetekete sorriu, e disse:

― A minha cegueira é de morcego. Riu alto, deixando a mercê, os seus dentes escuros como a noite — a tua mãe, deu-me olhos de morcegos; merda!— disse o velho libertando da sua boca saliva de cor da noite, e o jovem sente um arrepio.

― E não adianta olhar para eles, rapaz. Estão mortos. Suas almas estão nestas conchas que eu trago na minha mukhova, aqui na minha cintura. – O velho ergueu a camisa suada e mostrou um cinturão de conchas e missangas multicolores – À eles, faço-lhes meus escravos. Vês aquela mulher de olhos castanhos e de pele clara como tu?

Nokhwa torceu o pescoço para a direita. Olhou para a mulher. Não só descobriu que ela tinha os olhos idênticos aos seus, mas também que os lábios da mulher eram carnudos e escuros como os seus. Gelado, olhou de volta para o velho.

― Ela é a sua mãe. Está morta pelo que fez com os meus olhos, e por me ter abandonado. Sabe: ela queria um jovem que não cheirasse rapé. Abandonou-me porque sou velho ―disse o velho em tom repleto de raiva. Mas como eu a amava, levei você comigo, poderia ter deixado você morrer, mas não, eu tinha que possuir algo que me lembraria essa ingrata, e isso é você Nokhwa— dizia o velho vitorioso, estendendo os braços para o ar.

O jovem levantou-se. Fixou os olhos na antiguidade de pele e ossos, abriu as mãos e agarrou-lhe pelo pescoço com uma força brutal. Preetekete tentou gritar, mas a sua voz quase não dava para escutar. Ele parecia um pato sendo asfixiado. O primeiro galo cantou, os homens e mulheres do amendoim desapareceram da esteira somente permaneceram o velho e o jovem.

O corpo do idoso não mais possuía vida. E quando menos o rapaz esperava, entram no quintal duas mulheres, que habitualmente traziam água quente para o Preetekete se banhar.

Assustadas, deixaram cair as bacias com água, uma queimando a outra, e nem sequer sentiram dor, pois não havia maior dor que aquilo: ver um neto assassinando o seu próprio avó, aquele que o encontrara por aí, abandonado, um bebé condenado à morte.

― Socorro, socorro, socorro! – gritaram as mulheres, eufóricas.

Sem demora, o quintal ficou repleto de gente. O jovem continuava ainda com as mãos no pescoço do velho. Olhou para os lados, mas não viu ninguém descascando amendoim. Nokhwa caiu ao chão, sem história.

Bruno Marquês Areno

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Carta ao ministro

Bruno Marquês Areno: Poema ‘Carta ao ministro’

Bruno Marques Areno
Bruno Marques Areno
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Senhor Ministro,
venho por meio desta não pedir nada.
Nem escola, nem pão, nem teto.
Já pedi antes.
Agora só queria entender
como é que se governa um silêncio
tão cheio de gritos.

E se for possível,
me mande de volta o meu tempo.
Aquele em que eu acreditava
que palavras mudavam o mundo.

Bruno Marquês Areno

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Dorme, meu filho, dorme

Bruno Marquês Areno: ‘Dorme, meu filho, dorme’

Bruno Marques Areno
Bruno Marques Areno
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Dorme, meu filho, dorme, dizia ela, e as palavras tremiam como os braços com que o segurava, braços que já não sabiam se abraçavam a vida ou se enterravam nela. O ventre vazio, seco de leite e de esperança, parecia um poço onde o eco da fome fazia morada. Estendeu no chão o único pano que possuía, relíquia de tempos em que se sonhava lavar roupas em rios e não em lágrimas, e sobre ele deitou o filho, o pequeno resto do seu corpo, o pedaço mais vivo do seu cansaço.
O mundo estava mudo, calado não por respeito, mas por medo. O ar cheirava a pólvora, doce veneno que ensinava até os pássaros a calarem o canto, e os morcegos, esses senhores da noite, desistiram do voo, talvez por vergonha de tanta escuridão.
E quando o silêncio parecia enfim ter vencido, uma voz de criança, frágil e teimosa, rompeu a noite:
— Mãe!
Ela, cansada como quem ouve o próprio nome pela última vez, respondeu:
— Que foi, meu filho, ainda não dormes?
— Por que é que os atletas recebem tanto dinheiro?
A pergunta veio leve, mas caiu pesada, como caem as pedras que alguém atira para medir a profundidade de um poço.
— Porque correm, — disse a mulher, seca, quase muda.
— Como nós corremos, não é, mãe, de Cabo Delgado até aqui?
— Sim. Agora dorme.
Mas o menino não sabia o que era silêncio, e o silêncio não sabia o que era piedade.
— Quando a guerra acabar, mãe, também vamos receber dinheiro por tanto correr?
Ela calou-se, não por não saber responder, mas porque já não acreditava nas respostas. E o menino, sentindo o vazio crescer ao redor, continuou:
— Comprarei pães, mãe, pães que cubram o mundo inteiro, para que ninguém mais durma com a barriga vazia como nós.
A mulher quis sorrir, mas o sorriso morria antes de nascer, afogado em lágrimas que desciam não dos olhos, mas da alma. Chorava como quem se dissolvia aos poucos, e só conseguiu repetir, com voz de pedra e cansaço:
— Dorme, meu filho.
— E os lutadores, mãe, — disse ele de novo, insistente como a própria vida — ganham dinheiro por escaparem das porradas e do sangue? Eu também escapei, não escapei? Escapei das balas no teu colo.
Ela quis calar o menino, mas o menino já não cabia no silêncio.
— E vi sangue, mãe, vi o sangue todo.
A mulher gelou. Gritou-lhe:
— Cala-te! Não viste nada!
E nesse instante percebeu que a pior cegueira é a que chega tarde demais. Achou-se incompetente, palavra dura, mas justa, por não ter sabido esconder da criança o inferno que se chama mundo.
Mas o menino, doce e teimoso, respondeu com a voz de quem narra o impossível:
— Vi, sim, mãe. Vi a cabeça do papá sair do lugar, o corpo dele ficou coberto de sangue, vi tudo pelas frestas dos teus dedos.
E então o silêncio tornou-se pesado como uma lápide. O ar que saía dos dois era quente e doía, como se respirassem o próprio sofrimento. Ela quis gritar, mas o grito ficou preso na garganta, talvez porque o mundo já estivesse surdo de tanto ouvir gritos.
— Eu sei, mãe, que me mandaste fechar os olhos, mas a curiosidade é bicho que não obedece.
A mulher puxou o pano, sacudiu-o três vezes, como quem sacode o destino, cobriu o corpo pequeno e encolheu-se ao lado dele, encostando a cabeça numa árvore sem folhas, árvore que parecia também pedir perdão por estar viva.
— Mãe, — insistiu o menino, — quando Deus chama alguém, ele arranca a cabeça?
Ela não respondeu, só gritou, e o grito era feito de raiva, de desespero, de amor:
— Cala essa boca, merda!
E chorou, chorou até as lágrimas perderem cor, até se tornarem invisíveis, e pensou, entre soluços e fé já gasta, que talvez Deus não chamasse ninguém, que fosse o homem, sempre o homem, a chamar a morte e a baptizá-la de guerra.
O menino dormia agora, ou fingia, porque os olhos, mesmo fechados, pareciam ver o que não devia, como se a infância tivesse sido arrancada dele a dentadas. O vento frio passava por entre os dois, com a ousadia de quem não respeita o luto, e sussurrava coisas antigas, palavras que ela já não lembrava o sentido.
Ela pensou no marido, ou no que restava dele, e imaginou o corpo despido de nome, perdido entre tantos outros corpos que ninguém contará, porque a contagem da guerra é sempre feita em silêncio, e o silêncio não tem números, tem apenas ausências.

Bruno Marquês Areno

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Zekhalifa Successor

“Escolho o som que traduz o que sinto, mesmo quando nem eu sei explicar. A estética, para mim, também é sobrevivência.” (Zekhalifa Successor)

Logo da seção Entrevistas ROLianas
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Zekhalifa Successor é um artista moldado cedo pela vida e pela urgência de dizer. Profissional desde a infância, encontrou na música um espaço de resistência, identidade e verdade. Nesta entrevista com Bruno Areno, ele fala sobre origem, silêncio, ruptura estética e a necessidade de criar sem pedir permissão — não para ser famoso, mas para permanecer inteiro.

Entrevista com Zekhalifa Successor.

Zekhalifa Sucessor - Foto por Mextech
Zekhalifa Sucessor – Foto por Mextech

Bruno Areno: Zekhalifa, você começou cedo demais para o mundo e cedo demais para o sonho. Aos 7 anos já era profissional. Que parte da sua infância você perdeu e qual parte você transformou em música para não enlouquecer?

ZK: Perdi o tempo despreocupado. Aquele tempo em que a infância corre sem saber que corre. Enquanto outros brincavam, eu já aprendia a cair. A escola não me segurou — não por falta de vontade, mas porque a vida me puxava pelo braço. Então entreguei minha confusão à música. Ela virou o lugar onde minha criança ainda respira sem pedir desculpas.

Bruno Areno: Você vem de Nampula, mas sua música não parece pedir permissão a um lugar específico. Quando você canta, você quer representar sua província ou escapar dela?

ZK: Nem sempre canto para representar um chão. Às vezes canto para alargar o chão. Trago sons que não eram esperados, não para negar minha terra, mas para dizer aos meus conterrâneos que o possível é maior do que o hábito. Inovar também é um gesto de amor.

Bruno Areno: Seu pai e sua mãe estiveram fora do mercado de trabalho formal. Isso te ensinou mais sobre fragilidade ou sobre resistência? Onde essa verdade aparece nas suas letras?

ZK: Aprendi resistência. Aprendi que a vida não pede licença. Ter nascido assim me moldou. Se tivesse vindo de um berço confortável, talvez nunca tivesse aprendido a sonhar com fome, nem a investir em mim mesmo. Minhas letras carregam essa verdade: a de quem aprendeu a ficar de pé sem apoio.

Bruno Areno: R&B, trap-melodic, zouk, afrobeat… você mistura gêneros como quem mistura feridas. Essa fusão é escolha estética ou reflexo de uma identidade ainda em construção?

ZK: É escolha. Escolho não caber em um só lugar. Escolho o som que traduz o que sinto, mesmo quando nem eu sei explicar. A estética, para mim, também é sobrevivência.

Bruno Areno: Ser parte do grupo Rich Future foi um abrigo ou uma provocação?

ZK: Foi uma aprovação silenciosa. Como um sinal de que eu podia continuar.

Bruno Areno: Você é mais forte no coletivo ou no silêncio solitário do estúdio?

ZK: No silêncio. É ali que eu me escuto. E quando me escuto, viro música.

Bruno Areno: Você se chama Successor. Sucessor de quem?

ZK: Sou sucessor do rap que não teve medo de dizer. Herdeiro da palavra que insiste.

Bruno Areno: Do que exatamente você sente que precisa continuar, e o que você quer romper definitivamente na música moçambicana?

ZK: Preciso continuar porque isso é o que me escolheu. A música é o lugar onde sou inteiro. Quero ser grande, sim — mas grande pelo diferencial, pela verdade. Romper com a repetição vazia. Permanecer onde há alma.

Bruno Areno: Existe uma dor que você ainda não conseguiu cantar? Algo que fica preso na garganta quando o beat começa?

ZK: As dores nunca acabam. Algumas ainda não sabem virar som. Mas quando encontram espaço, eu deixo que falem. Sempre deixo.

Bruno Areno: A fama é uma promessa perigosa. Você quer ser ouvido ou compreendido? E se o mundo ouvir, mas não entender, isso te basta?

ZK: Quero ser ouvido e compreendido. Mas se o mundo ouvir e não entender, eu continuo. Canto mais. Insisto. Até que sintam — mesmo que não saibam explicar.

Bruno Areno: Se amanhã tudo acabasse: shows, streams, aplausos… quem seria Zekhalifa sem a música? Essa resposta te assusta ou te liberta?

ZK: Me liberta. Porque mesmo sem o palco, a música já mora em mim.

Bruno Marquês Areno

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A batalha

Bruno Marquês Areno: Conto ‘A batalha’

Bruno Marques Areno
Bruno Marques Areno
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O cheiro do lixo misturava-se com o da roupa húmida, do peixe podre e da lenha mal queimada, um caldo de miséria que o ar se recusava a dispersar, talvez por pena, talvez por costume, e o bairro inteiro respirava aquilo como quem já não sabe distinguir o que é fora e o que é dentro, porque há muito o ar das pessoas se parece com o ar das ruas.

As moscas faziam carreira entre os sacos plásticos rasgados, pousavam no tomate esmagado, na xima fria, na pele dos que dormem de barriga vazia, e voltavam a voar, incansáveis, como se também tivessem fome e destino.

O chão, esse, era barro vermelho, cacos, e cada passo nu deixava atrás de si um rasto de lama e sobrevivência, que é o mesmo que dizer: vida teimosa.

Mano Gito, doze anos contados com má vontade do tempo, parecia ter oito, e talvez fosse o tempo, mais do que a fome, quem o roía por dentro. Era só osso e olho, o peito seco de quem já chorou tanto que desaprendeu o gesto, e no estômago, um batuque fundo, que não era fome, era protesto, era grito que não encontrou boca.

Na mão levava um naco de pão duro, herança da generosidade involuntária da padaria do tio Balta, onde os miúdos aprendem cedo que a esperança é paciente, mas não eterna.

Levou o pão à boca com olhos de quem rouba o próprio destino, rápido, quase pedindo desculpa, como se o mundo o observasse e esperasse o momento certo para lhe tirar o pouco que tem, e tirou.

Um cão saltou das sombras, e o que dizer dele, senão que era um cão como tantos, sem nome, sem dono, com mais cicatriz do que pelo, com olhos fundos, secos, dois caroços de manga deixados ao sol, e o focinho coberto de terra e baba. Agarrou o pão com a fúria de quem já não acredita em justiça, e o Gito, primeiro espanto, depois raiva, depois lágrimas, gritou o que gritam os que não têm mais nada, um simples não, palavra pequena demais para conter tanta miséria.

Atirou-se ao cão. Rolaram na lama, o cão rosnava, o rapaz empurrava, arranhava, tentava abrir com as mãos pequenas a boca que o destino fechara. O cão lutava, mas não mordeu, e talvez soubesse, nas profundezas da sua fome, que aquele miúdo era mais bicho do que ele.

Então o Gito fez o que ninguém, nem Deus, esperava: mordeu o cão. Sim, cravou os dentes no pescoço do animal, como quem decide ser fera para não morrer homem. Sentiu o pelo, o sangue, o sal e o amargo, e por um instante quis cuspir, mas não cuspiu, porque o que é que se cospe quando o mundo inteiro está dentro da boca? O cão uivou, não apenas de dor, mas de espanto, porque até os animais têm o seu código, e naquele código estava escrito que só os homens mordem com vergonha.

O pão caiu, ficou entre os dois, sujo de lama, a tremer como se tivesse medo de ser escolhido.

O cão recuou, lambeu a ferida e desapareceu, sem ódio, sem ruído, talvez com respeito, talvez com cansaço, e o silêncio que ficou pesava mais do que qualquer fome.

Gito ficou parado, trémulo, os lábios vermelhos, as mãos suspensas, e o pão ali, tão perto e tão distante, porque há coisas que, depois de feitas, já não se tocam. Não sabia se o pão estava sujo demais ou sagrado demais, e talvez fosse as duas coisas, porque naquele instante aprendeu o que ninguém lhe ensinara, que há fomes que nem Deus se atreve a contrariar, e que, às vezes, sobreviver é o pecado mais puro que um homem pode cometer.

Bruno Marquês Areno

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Nas Entrevistas ROLianas, Jessemusse Cacinda!

“A minha frustração é não conseguir ler todos os livros. Os livros funcionam como um veneno, mas também como antídoto para alma.” (Jessemusse Cacinda)

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Jessemusse Cacinda  - Foto enviada pelo entrevistado
Jessemusse Cacinda – Foto enviada pelo entrevistado

Mano Jessemusse, as minhas entrevistas não são um arquivo bibliográfico. Se por acaso jorrar entre os meus lábios uma questão sobre quem tu és, acredita, trata-se de um puro e inocente acidente. Por esta razão, começo este nosso diálogo perguntando:

Bruno Areno — Quem é para ti o grande escritor moçambicano da actualidade?

Jessemusse Cacinda — Esta é uma pergunta muito difícil. A literatura moçambicana da actualidade é marcada pela coabitação entre a chamada geração charrua e as gerações posteriores, por isso tenho dificuldades a identificar um autor que eu chamaria de o grande da actualidade. Acho que o poeta Álvaro Taruma tem assumido um consenso interessante entre a nova geração e eu concordo.

Tenho particularmente muito orgulho pelo que o Mélio Tinga se tornou, estive a ler o seu livro ‘Arder no Gelo’ e conversei com o Professor Francisco Noa a respeito. Mélio Tinga é daqueles autores que se a Ethale tivesse condições de monopolizar o seu passe no mercado, faríamos um contracto para termos os direitos de toda sua obra. Entre os autores, tenho particular admiração pelo Ungulani Baka Khossa.

BA — A humanidade é feita de mentiras. Dizem-nos que a leitura faz bem para a alma, mas tu, Jessemusse, sabes muito bem que após uma leitura vem sempre a indagação, o questionamento, o desassossego. Nenhum académico ou leitor sob a face da Terra vive feliz, alegre, satisfeito. Felizes são os analfabetos, esses seres que desconhecem a hora da sua morte e que, mesmo depois de mortos, cantam como se os vivos continuassem a ouvi-los. Tudo isto apenas para saber o título do livro que te está a roubar a paz nestes dias. O que gostarias de ler e não estás a ler?

Jessemusse Cacinda  - Foto enviada pelo entrevistado
Jessemusse Cacinda – Foto enviada pelo entrevistado

JC— A minha frustração é não conseguir ler todos os livros. Os livros funcionam como um veneno, mas também como antídoto para alma. Gostaria de ler mais livros da África do Norte, o chamado Magreb e da Ásia. Iniciei uma incursão por aquele mundo e estou profundamente surpreendido com a frescura com que os autores olham para a realidade.

BA — Diz-me algo: qual foi o grande autor que descobriste?

JC — Nunca descobri ninguém, apenas conheci grandes autores. Os meus autores favoritos continuam Albert Camus, Jean Paul Sartre e Alain Mabanckou. Este último que faz livros como se fossem álbuns de música congolesa. Voltei a ler Toni Morison, Jazz por conta de um novo projecto que ando a experimentar.

BA — E qual ainda não descobriste?

JC — Quando for a descobrir, terei resposta, por agora, não consigo desvendar o que me parece oculto.

BA — Queres falar da nova antologia poética organizada pelo Eduardo Quive e por ti?

JC — É um projecto que funciona como montra. Iremos apresentar em Portugal (Lisboa, Coimbra e Porto) e em Moçambique (em várias cidades onde temos autores). A ideia é fornecer um quadro da diversidade da literatura que se está a produzir no país.

BA — Numa conversa telefónica que tive com o grande Jordão Domingos, ele questionou: “Por que não houve uma chamada pública? É apenas para ‘escritores grandes?'” Transfiro essa questão a ti.

Capa do livro "Kwashala Blues
Capa do livro “Kwashala Blues

JC — Usamos o critério da acessibilidade, ou seja, juntamos os autores que conhecíamos e que de certa forma tínhamos acesso. Convidamos muitos autores que se mostraram indisponíveis e a antologia é o resultado que tivemos. Sobre chamada pública, a Ethale não tem sido bem-sucedida com isso. fizemos duas chamadas públicas desde a nossa fundação há 9 anos e não tivemos sucesso. Agora iremos celebrar 10 anos e pretendemos voltar a fazer chamadas públicas para a identificação de interessados.

BA — Tu entras em angústia? Para mim, os seres humanos são seres angustiados.

JC — Claro. Acho que viver é aprender a lidar com a angústia.

BA — Existe escrita sem dor?

JC — Provavelmente exista, mas a minha é de dor. No Kwashala Blues há dor nas várias mortes as quais somos condenados por viver em Nampula e a meio disso, procuramos o verso de um poema ou o ritmo de uma boa música. Assim, surgiu a minha proposta estética de um livro de estreia que superou as minhas expetativas.

BA — Do que não te arrependes de não ter feito?

JC — Ter editado livros num país de oralidade e que pouco valor dá a cultura.

BA — Ainda há possibilidade?

JC — Nada. Terei sempre orgulho disso.

BA — E do que fizeste e te arrependes?

JC — Não ter perdoado aos que me magoaram.

BA — Jessemusse fez coisas que jamais revelaria a ninguém?

JC — Claro. Temos sempre segredos que nos ajudam a construir uma mítica do que somos.

BA — Cometeste grandes gafes na vida?

JC — Claramente. E foram muitas.

BA — E imprudências?

JC— Também.

BA — Não queres contar uma?

JC — São várias, mas uma que me marcou foi por eu ter entregue a minha biscicleta a um ladrão em Cuamba.

BA — Sentes uma admiração especial por algum personagem da história?

JC — Várias.

BA — Onde gostarias de ter vivido?

JC — Interessante. Quando eu era miúdo sonhava em ser um peregrino e viver em vários lugares do mundo. Agora, sigo a onda. Vou para onde a vida me leva.

BA — Choras?

JC — Sim.

BA — Quando choras, choras por quê?

JC — Por nada. Geralmente para mim mesmo. Não peço apoios porque tive de aprender a me virar sozinho muito cedo.

BA — O amor é horrível e chato?

JC — Não. O amor é uma das melhores coisas. Entretanto, como toda viagem, há acidentes. No Kwashala Blues, a Amália diz que a vida é uma viagem longa, e eu acrescentaria que é preciso não se arrepender por ter amado.

BA — A morte é terrível?

JC — E inevitável. É uma condição existencial. Por causa da morte, podemos ter limites enquanto humanos.

BA — Como gostarias de morrer?

JC — Ainda não pensei nisso.

BA — Como estás em matéria de amores?

JC — Muito bem resolvido.

BA — Para terminar, mano. Diz-me como está a Saúde mental dos moçambicanos, uma merda?

JC — Acho que um Doutor em Medicina, especialidade de Psiquiatria ou Doutor em Psicologia Clínica poderia melhor dizer isso. Agora, enquanto um entusiasta das discussões filosóficas, concordo com Byang Chun-Han sobre o excesso de narcisismo que provoca depressão. Todos querem ser vencedores e ninguém quer ser perdedor. Mesmo quando perdemos, acusamos os outros para a nossa derrota. E Jean Paul Satre muito disse, o inferno são os outros, e hoje, usamos essa máxima para justificar nossas loucuras.

Bruno Marquê Areno

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