O quarto sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O quarto sinal’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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A fuga da mãe e do miúdo passou despercebida aos olhares impávidos dos filhos da quinta. Os ímpios encontravam-se em festa, apesar da confusão instalada no interior da tenda, que culminara na queda do cálice sobre o altar da hipocrisia.

Após o último gole do vinho que sustentava a celebração, o monge, com gestos incomuns, solicitou o incensário para a bênção final. Foi então que os ímpios se recordaram: o incensário havia sido levado pelo miúdo, logo após a bênção inicial.

O miúdo não estava presente. Nem a mãe.

Um silêncio denso instalou-se. Para quebrá-lo, ergueu-se um assobio, um só, suficiente para convocar todos os cães fardados.

Vieram as filhas da quinta, trémulas. Vieram os cães fardados. Vieram os informantes da bófia, os garimpeiros, os lavradores. Até a guardiã dos avisos ignorados se fez presente.

Menos a mãe e o miúdo.

A ausência despertou inquietação entre os ímpios.
Onde estão?

A resposta foi um silêncio ensurdecedor.

Assim, a festa que começara sob a exibição da luxúria e da comunhão dos ímpios terminou com uma bênção sem incensário. Afinal, o miúdo era a oferenda dos filhos da quinta aos convidados, e o incensário, apenas o pretexto.

Declarou-se, então, a caça.

Uma rusga foi lançada em direção ao resgate do miúdo e da mãe.

A quinta foi reforçada. Novos arames farpados foram erguidos. A altura dos muros aumentou. A eletrificação do portão foi intensificada.

Os filhos da quinta permaneceram sob custódia da nova guardiã dos avisos ignorados, uma figura oferecida pelos ímpios convidados, trazida numa sacola triste.

Aos lavradores foram atribuídas porções maiores de terra, para que o cansaço lhes roubasse o tempo e, com ele, qualquer tentativa de fisgar o coração de uma das filhas da quinta, como sucedera com a mãe refugiada.

Aos garimpeiros impôs-se uma dívida eterna: pagariam pela morte do pai do miúdo, morto por ambição desmedida após encontrar ouro de valor ímpar. A dívida seria saldada na mina do Diabo, nas profundezas da quinta, sob exploração incessante, sem remuneração e vigiados pelos informantes da bófia.

Recrutaram-se novos cães fardados, mais jovens e de faro apurado. Os antigos foram expulsos e condenados a vaguear pelo mundo, à procura da mãe e do miúdo, agora como cães vadios.

Nenhuma punição recaiu sobre os filhos da quinta. Afinal, eram peritos em não sujar as mãos.

A caça estava declarada.

Enquanto isso, longe dali, a mãe, agora prostituta ressuscitada, enfrentava os piores solavancos da sua vida.

Sem teto. Sem alimento. Sem água sequer para a pureza do corpo.

Naquele novo mundo, tudo escasseava, excepto o sexo. O sexo, esse, fora elevado à condição de negócio mais rentável.

Diante disso, decidiu reinventar-se.

Tomou emprestado de uma amiga, também desalojada após a morte do marido, uma calça de pernas apertadas, uma blusa curta que mal lhe cobria o umbigo, um par de sapatos de salto alto, alguns cosméticos e um relógio simples para controlar o tempo.

E seguiu em direção ao prostíbulo.

Pela primeira vez, deixou o miúdo entregue ao destino, o mesmo destino que fora cruel com o pai.

Nos primeiros dias, enfrentou a resistência das outras mulheres. Chamaram-lhe velha. Intrusa. Indesejada.

A tensão só cessou com a intervenção do dono do prostíbulo.

O dono, um dos ímpios que estivera presente na festa da quinta. O mesmo cuja ação precipitada na tenda provocara a queda do cálice e, por consequência, a fuga da mãe e do miúdo.

Agora, ali estava ele.

E não a reconheceu.

Ela, porém, reconheceu-o sem hesitação.

A sua presença ajustou-lhe as intenções.

O destino, caprichoso, quis que o seu primeiro cliente fosse um rosto familiar: o monge.

Já não parecia velho. Já não era cego. Já não era surdo.

Nada do que fingira ser na tenda permanecia.

Atraído pelos seios firmes da recém-chegada, o monge escolheu-a. Naquele espaço, a novidade era sempre um atractivo e ele apreciava medir territórios ainda não explorados.

Ignorava, porém, que diante dele não estava apenas mais um corpo à venda.

Estava a memória viva daquilo que fingira não ver.

Na casa onde tudo obedecia a regras invisíveis, a prostituta ainda não conhecia os seus limites. Quando o monge a procurou, não recusou. Não por desejo, mas por hábito antigo, feito de sobrevivência e resignação.

Depois do acto apressado, ele levantou-se com a leveza dos que nunca ficam. Disse que ia buscar cigarros, como se o fumo pudesse justificar a impotência. Saiu. E não voltou.

Ficou o quarto. Ficou o cheiro. Ficou a ausência, essa presença mais pesada do que qualquer corpo.

Ela percebeu, então, que não haveria pagamento pelo serviço prestado. Nem palavra, nem responsabilidade, nem vestígio de moral. O monge, homem de fé na aparência e de corrupção nos gestos, dissolvera-se na noite. E, como rumor ainda mais amargo, sabia-se que mantinha ligações com o dono do prostíbulo, alianças silenciosas entre homens que vestiam virtude como máscara.

Saiu à sua procura. Não por esperança, mas por necessidade de sentido.

As outras mulheres perceberam. Já conheciam aquele tipo de abandono. Ainda assim, riram-se. Não por crueldade consciente, mas por desgaste, como quem já não distingue a dor dos outros da própria indiferença.

Mas nela o riso não encontrou eco. Encontrou forma.

Algo se endureceu por dentro. A humilhação deixou de ser ferida e tornou-se direcção. Já não queria apenas o monge. Queria o colapso de tudo o que o sustentava: a quinta, os homens, a ordem invisível dos ímpios.

Quando regressou, trazia o peso de quem já procurou demais e encontrou apenas vazio. Sentou-se em silêncio. E deixou a pergunta que nasceu inevitável: por quê?

O filho aproximou-se e enxugou-lhe as lágrimas. E nesse gesto simples, quase imperceptível, aprendeu uma verdade sem nome: as lágrimas de uma mãe não são como as de crocodilo.

O filho cresceu sem nome, sem pai, sem escola e sem Deus. Cresceu a observar o mundo de fora. Um dia viu uma carrinha levar crianças da sua idade para a escola. Enquanto uns eram conduzidos ao futuro, outros nem sequer sabiam que ele existia.

Ainda assim, o mundo encontrou forma de chegar até ele. Fragmentos de línguas antigas e estrangeiras: latim, alemão, francês, inglês, tiveram lhe atravessado a vida lá na quinta como restos de uma ordem maior que nunca o incluiu.

Depois veio a rua.

A rua não o rejeitou. Absorveu-o. Tornou-se parte do que sobra. Aprendeu a viver entre restos, a abrir sacos como quem abre destinos. E havia nisso uma ironia cruel: os mesmos lixos que lhe garantiam sobrevivência eram admirados por altruístas performativos como paisagens curiosas da pobreza.

A mãe, por sua vez, afundava-se cada vez mais no prostíbulo, não por escolha, mas por perseguição. Havia nela uma obsessão: encontrar o monge, obrigá-lo a olhar com a lâmpada acesa para aquilo que tinha deixado para trás.

Na rua, o rapaz encontrou os que já não perguntavam “porquê”. Mas dentro dele ainda havia resistência.

Até que encontrou o limite.

Num contentor, entre restos sem nome, viu um recém-nascido morto, apertado num saco de plástico. Não disse nada. Guardou o silêncio, como se tivesse herdado o peso do mundo.

Noutro contentor, encontrou comida ainda boa. E pensou no absurdo: o que uns descartam como excesso, outros disputam como sobrevivência.

Começou então a questionar tudo. A mesma sociedade que ridiculariza os que falam sozinhos na rua celebra aqueles que decidem destinos com uma assinatura.

Um dia, cansado, deitou-se sob uma árvore cujas flores pareciam desistir antes de cair. Da sua sacola, retirou um livro: Cândido. Leu e encontrou Pangloss, com o seu otimismo insistente, quase ofensivo diante da realidade.

Mas ali compreendeu: não bastava aceitar o mundo como o melhor possível. Era preciso enfrentá-lo.

O sol desaparecia quando um padre se aproximou. Chamou-o sem pressa, sem julgamento.

O rapaz abriu os olhos.

Tinha o corpo cansado de restos, mas a consciência inquieta de quem já não cabe no lugar onde está.

Levantou-se.

E seguiu.

No santuário da Nossa Senhora, deram-lhe um novo nome, ou talvez apenas um novo lugar.

E assim, o quarto sinal cumpriu-se: não como resposta, mas como início de uma outra forma de dúvida.

Ramos António Amine

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O terceiro sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O terceiro sinal’

Ramos António Amine
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Decidida, sem retorno possível, a fuga da quinta, a mãe do miúdo guardou o plano em silêncio, como faz a guardiã dos avisos ignorados quando decide abrigar-se no espaço diário do pé.

Mas, na quinta, o silêncio também é vigiado.

Os filhos da quinta, zeladores da ordem e da aparência, já haviam disposto cães fardados junto da casa. Não vigiavam apenas corpos, vigiavam intenções. Queriam saber se a mãe conhecia o segredo enterrado: a morte do pai do miúdo.

E havia algo mais.

O nome do miúdo começara a circular entre eles. Não como futuro, mas como destino já decidido, uma oferenda para a próxima comunhão dos ímpios. Na quinta, até a inocência tinha função.

O miúdo, porém, crescia alheio ao desenho do seu próprio fim. Nada lhe faltava, excepto a imagem do pai, cuja ausência o consumia em silêncio.

Um dia, perguntou pelo pai.

A mãe não respondeu. Desviou o olhar e saiu. Ainda não era o momento da verdade, porque ali, a verdade podia matar antes da fuga.

Sem compreender, o miúdo voltou ao seu livro de Cândido, como se a quinta ainda pudesse ser explicada pelo otimismo de Pangloss.

Foi então que a mãe entendeu: já não havia tempo a perder.

Começou, cuidadosamente, a observar a quinta, como quem aprende o mapa de uma prisão: os turnos dos guardas, os passos dos informantes, o comportamento dos cães, a eletricidade dos arames.

A quinta, que antes era abrigo, tornara-se ameaça.

Durante dias, nada aconteceu. Mas, por dentro, tudo já tinha começado a ruir.

Até que veio a festa.

Era uma celebração dos filhos da quinta, do luxo construído sobre trabalho invisível. Montou-se uma tenda gigante. Um grande alpendre foi erguido no centro e, ao fundo, um altar com um cálice rachado. Um ritual sem fé, mas cheio de poder.

Vieram ímpios de outras quintas. E, com eles, as suas prostitutas. Não vieram os lavradores, nem os garimpeiros, nem aqueles que sustentavam tudo.

O miúdo foi designado para o incenso.

A mãe, para o portão.

E, nesse instante, ela soube: não era apenas um ritual, era uma preparação. O miúdo já não era apenas uma criança. Era escolha.

Tocou no portão.

O portão respondeu com um choque elétrico. Não era apenas uma barreira, era prisão.

A cerimónia começou sob a direção de um monge cego e mudo. E ninguém pareceu estranhar. Na quinta, já ninguém esperava ver ou ouvir a verdade.

O miúdo saiu da tenda com o incensário.

E então, tudo se desfez.

Um convidado embriagado deixou cair o cálice. Aquele que pousava no fundo do altar. E pior, rachado. O som seco abriu o caos.

Gritos. Empurrões. Acusações.

Os cães fardados foram soltos. Os informantes da bófia dispersaram-se. Por instantes, a ordem na tenda falhou.

A mãe não correu de imediato.

Esperou pelo momento exato da brecha.

Depois chamou o filho com um gesto urgente.

Ele veio sem hesitar, trazendo consigo O Cândido e A Rebelião das Massas nas mãos.

Segurou-o com força.

E fugiram.

Não pelo portão, mas por uma falha, um espaço esquecido pela vigilância.

O alarme soou, mas já era tarde.

Dentro da tenda, a confusão ainda engolia tudo.

E, pela terceira vez, a quinta falhou.

Do lado de fora, não havia liberdade.

Havia poeira, fome e um mundo sustentado por aquilo que a quinta escondia.

A mãe chorou, não por medo, mas por confirmação.

A quinta não era um lugar.

Era um sistema.

E estava em todo lado.

Os primeiros dias foram duros. O miúdo pediu para voltar.

Ela recusou:

– Melhor livre a procura de lixo na rua ao luxo na gaiola de ouro.

E não voltou.

Quando lhe perguntavam o nome, respondia:

– Chamem-me prostituta ressuscitada.

Porque, naquele mundo, sobreviver já era resistência.

E ela já não pretendia apenas sobreviver.

Pretendia voltar, não para viver na quinta,

mas para a fazer cair.

Passou a ocupar um lugar tão insignificante quanto contraditório na ordem social: visível, mas não reconhecida; usada e depois descartada; tolerada no discurso, mas rejeitada na práctica.

Passou a denunciar aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e pune quem neles cai.

Ninguém ousou questionar como ela chegou ali. A pergunta que sempre surge é outra: por que não sai da prostituição?

Como se sair fosse apenas uma questão de vontade, e não de oportunidade. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a injustiça não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram.

No fundo, ela não pede absolvição aos ímpios. Reclama a humanidade que há de fazer cair a quinta.

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O segundo sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O segundo sinal’

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Aquele que nascera da mistura proibida entre uma das filhas da quinta e um lavrador de mãos encaladas conheceu, desde o primeiro sopro, o peso da rejeição. Para os filhos legítimos da quinta, não passava de um erro, um desvio na ordem preservada, um corpo estranho num lugar onde a pureza era lei.

Mas a mãe, contra todas as vozes e silêncios, acolheu-o. E jurou, com a firmeza de quem desafia o destino de Édipo, protegê-lo da comunhão dos ímpios e oferecer-lhe aquilo que a própria quinta tinha de mais paradoxal: um luxo nascido do lixo, uma dignidade construída sobre restos.

O miúdo cresceu, assim, como uma promessa cuidadosamente lascada. Educado segundo os mais elevados valores da Era das Luzes, inalava o mundo com uma sede que não era apenas de saber, mas de fuga. Para além das primeiras letras, mergulhou nas línguas antigas, grego, latim, e nas estruturas rígidas do alemão. A mãe acreditava, com uma fé quase ingénua, que o domínio das línguas para lá dos muros da quinta lhe daria asas suficientes para os ultrapassar.

Aos cinco anos, já lia clássicos vindos de terras distantes, como se cada palavra fosse um ensaio de liberdade.

Enquanto isso, o pai era arrancado da lavra e lançado ao garimpo, não por necessidade do tripalium, mas por vingança. Os irmãos da mãe não perdoavam o gesto que manchara o nome da quinta. E, pior ainda, não perdoavam o fruto desse gesto: um filho que desafiava a própria lógica da sua existência.

No garimpo, o homem encontrou um mundo ainda mais cruel do que aquele que deixara. Ali, descobriu que muitos dos considerados desaparecidos no outro lado da quinta não o estavam: haviam sido engolidos pela terra e pelo silêncio, mantidos como reféns de uma mina que alimentava, ironicamente, os próprios filhos da quinta, cultores da pureza e da ordem, à custa de silêncios cúmplices.

No primeiro dia, foi espancado. Chamaram-lhe intruso, ameaça, substituto. Cada golpe agravava-lhe a respiração curta, já marcada pela asma. Ainda assim, sobreviveu. E, como tantos outros no garimpo, aprendeu a sobreviver não pela força, mas pelo cansaço. Foi-se moldando à brutalidade, até que esta deixou de ser exceção e passou a ser regra.

Dias depois, encontrou ouro ensanguentado. Não um ouro qualquer, mas aquele que poderia reescrever destinos. Um brilho raro, quase impossível, como se a própria terra, por um instante, tivesse decidido recompensá-lo.

Mas a fortuna, para os condenados da terra, é sempre breve.

Um olhar trémulo seu gerou um gesto mal interpretado pelos outros. E vieram os golpes, desta vez mais pesados, mais decididos. Não resistiu. Caiu ali mesmo, entre a poeira e o silêncio cúmplice dos demais. O ouro mudou de mãos. O corpo, esse, foi descartado, lançado numa cova rasa, coberto à pressa, como se nunca tivesse acolhido algo valioso: uma alma.

Na quinta, o tempo seguia o seu curso, indiferente. O miúdo crescia. Os filhos da quinta arrastavam-se pelos corredores das decisões, alheios, ou fingindo sê-lo, ao que se passava no garimpo.

E, mesmo que soubessem, o silêncio seria sempre a sua primeira decisão.

Mas há verdades que recusam permanecer enterradas.

Um cão, guiado talvez pelo instinto, ou pela justiça que falta aos homens, desenterrou o que restava do corpo. E assim, o segredo começou a apodrecer à superfície. Espalhou-se em zum-zum, depois em olhares desviados, até alcançar os ouvidos daqueles que mais temiam a sua revelação.

Tentaram contê-lo. Falharam.

Porque há sempre quem escute onde não deve, quem veja o que lhe é interdito: a guardiã dos avisos ignorados. E assim, a notícia chegou até ela.

A mãe.

Recebeu-a como quem recebe uma sentença. Não chorou de imediato. Primeiro veio o niilismo: um esvaziamento moral, e depois um silêncio pesado, absoluto, como a pedra de Sísifo. Mais tarde, a certeza: ele estava morto. Espancado por ter encontrado, por um instante, aquilo que lhes poderia ter mudado a vida.

O medo instalou-se. Não o medo da morte dela ou do miúdo, mas o da permanência na quinta. Criar o filho ali, sozinha, dentro daqueles muros inumanos, isso, sim, parecia-lhe insuportável, e ao mesmo tempo uma contradição aos valores de igualdade, solidariedade e fraternidade sobre os quais fora educada.

E então decidiu.

Fugir.

Mas fugir implicava atravessar o impossível: muros altos, arames farpados, cães treinados para impedir a liberdade. Ainda assim, havia algo mais forte do que tudo isso, uma vontade crua, quase selvagem, de não pertencer mais àquele lugar.

Antes que o filho fosse estendido no altar da hipocrisia, como oferenda imolada pelos ímpios no seu próximo ritual, preferia a incerteza da liberdade à segurança contaminada. Preferia cair fora da quinta como uma prostituta ressuscitada a apodrecer dentro dela.

E foi assim, no silêncio de uma decisão sem retorno, que se anunciou o segundo sinal da queda da quinta.

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Os filhos da quinta

Ramos António Amine: Conto ‘Os filhos da quinta’

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Durante muito tempo, fingiu-se que a quinta era apenas um lugar, um espaço cercado por arames farpados, guardado por cães fardados e saturado pelo cheiro da cumplicidade entre homens armados. Um território onde se reuniam os devotos da hipocrisia, os bebedores do mesmo cálice rachado da conveniência, os guardiões disciplinados do silêncio.

Mas essa foi sempre a mentira mais confortável.

A quinta nunca foi apenas um lugar. A quinta é uma escola.

Uma escola de fabricar obediência, de polir consciências até que deixem de se rebelar, de ensinar homens e mulheres a trair a verdade com elegância. Ali não se educa, condiciona-se. Não se forma, molda-se. Aprende-se a distorcer a realidade até que ela obedeça, a chamar prudência à cobardia, inteligência à omissão e maturidade à rendição. E, acima de tudo, aprende-se isto: o poder não precisa de ser legítimo, basta parecer legal.

Foi assim que nasceram os filhos da quinta.

Uns nasceram dentro dos muros, domesticados desde o berço. Cresceram a repetir palavras que nunca pensaram, a respeitar limites que nunca compreenderam, a defender uma ordem que nunca os questionou, porque nunca lhes permitiu questionar. Alimentaram-se de histórias sobre ordem, estabilidade e tradição, como quem engole um sedativo, não para entender o mundo, mas para não o perturbar.

Outros chegaram depois, atraídos pela promessa suja do pertencimento. A quinta acolheu-os como sempre faz, oferecendo abrigo em troca de silêncio, influência em troca de submissão, reconhecimento em troca de consciência. E eles aceitaram. Quase todos aceitam. Os poucos que hesitaram aprenderam depressa que a fome dobra mais convicções do que qualquer argumento.

Com o tempo, os filhos da quinta tornaram-se muitos e tornaram-se pesados. Não apenas no corpo, mas naquilo que evitam carregar: responsabilidade. Arrastaram-se pelos corredores do poder como sombras bem alimentadas, ocuparam cadeiras que nunca lhes exigem coragem, pronunciaram palavras que nunca comprometem nada.

Falam muito. Dizem pouco.

Prometem tudo. Não entregam nada.

Reconhecem-se à distância, não por símbolos, mas por reflexo. A mesma linguagem vazia, a mesma habilidade em fugir sem parecer fugir, a mesma obsessão em manter tudo exatamente como está. E assim a quinta sobrevive, não pela força, mas pela repetição, não pela verdade, mas pelo hábito.

Mas há algo que os filhos da quinta nunca aprenderam e nunca quiseram aprender: escutar. Porque escutar é perigoso. Escutar implica dúvida. E a dúvida é o primeiro golpe contra qualquer muralha.

Do outro lado da quinta, o mundo não esperou. As vozes que foram ignoradas cresceram sem permissão. Tornaram-se mais duras, mais claras, mais impossíveis de calar. As perguntas que foram evitadas fora da quinta começaram a ser feitas dentro dela por aqueles que a quinta tolera, mas nunca aceita: os lavradores.

Homens admitidos apenas para lavrar a quinta. Presentes nas manhãs e nas tardes, mas nunca pertencentes. Vigiados por cães vadios, mas indispensáveis à vitalidade da própria quinta.

Foram eles, e não os filhos da quinta, que continuaram a dizer o que precisava ser dito.

As verdades silenciadas não desapareceram. Acumularam-se. E, como tudo o que é comprimido por demasiado tempo, começaram a procurar saída, não pela porta, mas pela fissura, pelo canto, pelo eco, pela falha.

Até que a falha apareceu.

As filhas da quinta, educadas em ideais que a própria quinta trai, igualdade, fraternidade, solidariedade, começaram a sentir o peso da mentira em que foram criadas. E, quando a realidade entra em conflito com a educação, algo cede.

Neste caso, cedeu o muro.

Uma delas atravessou-o.

Envolveu-se com um lavrador, o mais jovem entre eles, e, no silêncio que a quinta exige, fizeram o que a quinta proíbe: reconheceram-se como iguais, despidos de hierarquia e de fingimento.

Do primeiro encontro, perderam a inocência.

Dos seguintes, cometeram o erro irreversível.

Trouxeram ao mundo a prova viva da fraude da quinta.

Um filho.

Um corpo que a quinta não consegue classificar sem se contradizer. Um sangue que mistura aquilo que ela passou gerações a separar. Um facto que destrói o discurso.

E, pela primeira vez, os filhos da quinta ficaram sem linguagem. Porque não há retórica que apague o que existe.

E então surgiu o dilema, não teórico, mas inevitável: continuar a defender os muros, mesmo depois de atravessados, ou admitir, finalmente, que esses muros nunca serviram para proteger, mas apenas para separar, excluir e mentir.

E essa é a escolha que os filhos da quinta sempre evitaram. Porque admitir isso exige mais do que coragem. Exige verdade. E verdade é tudo aquilo que a quinta ensinou a temer.

Acima desse dilema, sobrevoa uma última questão: cuidar do filho, herdeiro involuntário dos muros, ou impedir que ele exista como ruptura.

É assim que nasce, dentro da quinta, o primeiro sinal da tragédia.

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Depois da quinta

Ramos António Amine: Crônica ‘Depois da quinta’

Ramos António Amine
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Depois da quinta, as desculpas tornam-se inúteis. A culpa deixa de ser abstrata: tem culpados, e a responsabilidade pesa, inteira, sobre os ímpios. Descobre-se então que a vergonha que nos cobre os rostos não nasceu de nós, mas foi cuidadosamente construída por aqueles que, ao longo do tempo, sobreviveram do silêncio cúmplice. O silêncio, afinal, sempre falou mais alto do que a voz dos ímpios.

Os neutros, que se diziam isentos, sem perceber que todos sabiam que sempre estiveram ao lado das forças invisíveis,  farejam agora o mesmo odor da injustiça que durante anos defenderam ou toleraram.

Os indiferentes apressarão por dizer que sempre souberam que a quinta iria ruir. São esses os verdadeiros hipócritas: não os que erraram, mas os que assistiram em silêncio e deixaram que outros errassem. Durante anos acomodaram-se na confortável ilusão da neutralidade, como se a distância moral os absolvesse daquilo que viam acontecer diante dos seus olhos.

Diferentes foram aqueles que sentiram o chão tremer quando ainda havia muros, os que ousaram questionar o calor infernal do poder instalado na quinta. A esses cabe agora uma tarefa mais difícil: desfazer-se da chave que manteve a porta da quinta fechada. Porque, depois da quinta, existe sempre o risco de se construir outra: com novos nomes e os mesmos gestos.

Depois da quinta, o silêncio já não é ausência de voz, mas o peso da verdade que resta quando tudo o mais cai. Não há muros a derrubar nem portas a arrombar, porque a quinta nunca foi apenas um lugar. Sempre existiu dentro de cada gesto cúmplice, de cada escolha de não ver, de cada conveniência moral que sustentou o sistema sem precisar de ordens explícitas. 

Quem ousou confrontá-la cedo percebeu que a sua queda não seria fácil, nem física. Não se tratava de destruir paredes, mas de romper consciências. A verdadeira derrubada começaria na recusa de dirigir-se de joelhos ao altar da hipocrisia; na coragem de acolher aquilo que o sistema julga em voz alta enquanto, em surdina, contempla os seus seios; na vigilância ética de quem permaneceu desperto quando era mais compensador dormir. Cada ato de honestidade tornou-se uma renúncia silenciosa à comunhão dos ímpios. Cada silêncio recusado abriu uma racha no cálice que sustentava a prostituta.

Depois da quinta, os muros desabam  e com eles desaparecem as línguas ensalivadas dos bajuladores. A miséria deixa de pagar IVA. Resta apenas o espaço nu da consciência: esse território sem máculas onde cada um é obrigado a decidir se reconstruirá a quinta com outros materiais ou se permitirá que a ética cresça livre sem altar, sem cálice e sem ídolos de teatro.

Depois da quinta não nasce o sagrado. Nasce o peso da escolha. Nasce a intimidade incômoda de olhar para si mesmo sem disfarces, sem rótulos, sem a proteção do corvo que se alimentava dos pintainhos das galinhas dos sem-teto. É aí  e apenas aí que a verdadeira derrubada acontece.

Os ímpios, incapazes de aceitar o que ocorreu, procurarão consolo em salmos 151, inventando escrituras tardias para justificar o que jamais foi justificável. Os seus bens serão repartidos entre os pobres empobrecidos pelos ricos, ricos que não passam de simples endinheirados e os seus descendentes carregarão a vergonha dos nomes que herdaram.

Depois da antiga quinta, a árvore frondosa ao redor da quinta ousará finalmente florir. As suas raízes alargar-se-ão de tanta felicidade contida. O ar, antes poluído, fará falta àqueles que o contaminaram. Os arames farpados que mantiveram intacto o perímetro da exclusão servirão agora para fabricar carros de arame para as crianças de pés descalços.

Os cães fardados reconhecerão os ímpios, mas não lhes obedecerão. Declararão caça não aos executores menores, mas aos emissores das ordens superiores. Os contratos assinados sob a lógica da exploração eterna dos recursos naturais serão desfeitos. Os seus assinantes serão obrigados a engoli-los, tal como foram engolidos os sapos sob o pretexto da paz. Haverá quem queira vê-los incinerados, como foram incinerados, em outros tempos, os críticos que ousaram falar quando ainda havia muros.

Depois da quinta, também aqueles que ruíram a velha quinta serão vigiados, para que não se convertam nos ímpios de amanhã. Porque aquele que diz “eu vos libertei” é mais perigoso do que aquele que explorou. Mesmo mortos, os seus corpos serão vitrificados para que, ao reanimarem, não possam revelar o caminho por onde foi enterrada a chave da velha quinta.

Depois da quinta, nada garante justiça plena. Mas já não há inocência possível. Cada um será obrigado a sujar as mãos para que o jardim prometido em Candide, de Voltaire, seja finalmente cultivado com vida para que cada um se torne digno das flores desse jardim.

Depois da quinta, ninguém pode assegurar que não surgirão novos traidores. Mas estes serão vigiados e, quando descobertos, serão vilipendiados na praça pública. As estátuas erguidas no interior da quinta serão vaiadas, laçadas pelo pescoço e arrastadas para vitalização nas redes sociais. As que resistirem à humilhação serão queimadas, enquanto os ímpios, já impotentes, assistirão à cena sem poder fazer nada. Pedirão que se paute pelo respeito à vida, à liberdade e à propriedade, mas se esquecerão de que jamais permitiram que os catadores de rua tivessem vida, liberdade ou propriedade.

Nesse tempo, este texto não terá circulação clandestina. A sua leitura será obrigatória nas escolas, nos comboios, nos transportes semicoletivos e nas igrejas, e o seu autor já não pensará em continuar o seu livro sobre ‘O País de Questões Silenciadas’. Tudo isso para lhes recordar que estão sozinhos neste buraco chamado mundo. Por isso, nada de desculpas.

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A quinta dos ímpios

Ramos António Amine: Poema ‘A quinta dos ímpios’

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Na Quinta dos Ímpios, respira-se apenas porque o ar ainda não foi cooptado.
Ainda assim, é poluído, não absoluto, mas condicionado.

O sol aquece os sem-solo, sem jamais revelar o que se esconde.
As árvores são tão frondosas que suas raízes murcham numa terra de promessas vazias.

A quinta está entre reservas naturais;
sua riqueza, cercada por arames farpados,
seus guardas, escoltados por cães fardados.

Os donos exibem sorrisos que não naufragam,
mas esquecem que uma fenda diminuta foi suficiente para afundar o Titanic.

Farejam entre sorrisos e contratos.
Quando decidem tocar o solo, fazem-no como quem encena uma peça de teatro,
com cuidado, como se lidassem com extraterrestres.

São sempre atentos a não sujar as mãos;
para isso, têm os seus leais,
sempre vigilantes em manter o silêncio dos outros; por isso, têm seus executores.

Ali, proclama-se a paz
enquanto os frutos colhidos nascem da miséria de um povo empobrecido.

Na Quinta, normalizam-se as dificuldades
e vendem-se facilidades.
O acesso a elas é escasso,
embora não faltem, ao redor, animais que devoram os próprios donos.

As janelas da Quinta são espelhos:
refletem rostos limpos,
mas por trás de cada reflexo há olhos que já esqueceram o que é compaixão.

Os que passam por fora, indiferentes e sem esperança,
acreditam que não há vento capaz de derrubar as muralhas da Quinta.
Não percebem que quanto mais indiferentes se tornam, mais neutros são
e a neutralidade sempre esteve ao lado das correntes invisíveis.

Mas haverá os que sentirão o chão tremer sob os pés,
que verão a sombra do poder em cada folha da árvore frondosa,
que reconhecerão o cheiro da injustiça nos jardins bem cuidados por mãos sem compaixão.

Para eles, a Quinta não é quintal:
é prisão.
E um dia, hão de questionar.

Quando esse dia chegar,
as desculpas serão dispensadas
a culpa não aceitará morrer solteira
e a responsabilidade triunfará.

A voz do silêncio ecoará mais alto que a dos ímpios.
Os neutros farejarão, tardiamente, o mesmo odor da injustiça.
Os indiferentes dirão que sempre souberam – os hipócritas.

E aqueles que sentiram o chão tremer,
que tiveram a coragem de questionar
o calor infernal do poder
dos ímpios da Quinta?

Ramos António Amine

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A solidariedade performativa

Ramos António Amine

‘A solidariedade performativa: quando a ajuda exige testemunhas’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69928f07-03e8-832e-8bbc-e377675d2880

Num mundo que tende a expor tudo, torna-se urgente questionar a base moral que orienta a edificação dos alicerces da nossa convivência. A publicação, a partilha e a visualização converteram-se na linguagem convencionada de uma sociedade cada vez mais efémera. É neste contexto que a exposição deixou de ser exceção para se tornar regra.

O dever pelo dever cedeu lugar ao dever viral. A boa ação é captada e, em seguida, publicada com vista a visualizações e as visualizações tendem à monetização. É nesta lógica que se sustenta a solidariedade performativa: uma solidariedade que só se reconhece quando é filmada, fotografada ou exibida.

Movido pela honra mediática, o solidário performativo abandona o seu conforto e desloca-se em direção à vítima, seja ela das inundações, das cheias, das secas ou dos acidentes sociais, para dela se compadecer. Contudo, raramente vai só. Faz-se acompanhar de um quarto poder, ou de uma quinta coluna, no bolso, às costas, ou ainda às costas daqueles que o acompanham. Há, inclusive, quem se faça acompanhar por seguranças, como se a vítima transmitisse ameaça. É aqui que se consuma o aproveitamento mediático e, não raras vezes, político, por parte de indivíduos que se apresentam como detentores de elevada estatura moral.

O lema implícito do nosso tempo parece ser: “ajudo-te, sim, mas que tiremos uma fotografia”. O foco já não é a vítima, mas o mundo. O mundo deve saber quem ajudou quem, e quem foi ajudado por quem. Tudo isso impulsionado pela proliferação do ecrã digital, que seduz e reorganiza os critérios de reconhecimento social. As imagens bastam. A dor da vítima torna-se secundária.

Estou ciente de que não falta quem tente dissuadir-me, argumentando que não há problema algum em filmar uma boa ação e que, se os nossos antepassados não o faziam, era apenas porque viviam na idade da pedra. Tal argumento é facilmente refutável, na medida em que, mesmo neste tempo de exposição do absurdo, continuam a existir pessoas que realizam atos moralmente bons sem necessidade de os filmar para obtenção de gostos ou validação pública.

Reconheço também que a proliferação do ecrã digital contribuiu para a exposição de injustiças, desigualdades, pobreza e exclusão social. Nesse ponto, nada há a objetar. A denúncia pública pode ser um instrumento legítimo da consciência transformadora.

Entretanto, a solidariedade deveria seguir o mesmo fôlego da generosidade: dar antes de ser solicitado e oferecer sem exigir visibilidade. A ação filmada, quando se torna paradigma, tende menos à transformação do mundo e mais à exposição da nossa mediocridade moral. Ri-se do filmado, em vez de se combater o sistema que cria fossos e pune aqueles que neles caem.

É um fato que, o princípio mais profundo da natureza humana é o desejo ardente de ser estimado. Contudo, este princípio deveria conduzir-nos a ações boas em si mesmas. Uma ação boa em si é aquela que é realizada tendo em vista a intenção do sujeito. Aqui, nem o sujeito da ação, nem a consequência da ação assumem primazia. A intenção que precede o ato basta. Infelizmente, hoje, a boa ação clama por testemunhas.

A ajuda que sobrevive da exposição não cura; humilha. Não é oportuna; é oportunista. A solidariedade performativa é interesseira: mantém de pé o sistema que cria vítimas, enquanto simula combatê-lo. A ‘mão que dá’, que outrora era considerada mais nobre do que a que recebe, tornou-se hoje uma mão que exige testemunhas. Já não basta ajudar; é preciso provar que se ajudou.

Ramos António Amine

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