O rabanete esfriou

Jacky Yuen Man-leuk

O Rabanete Esfriou — Lendo ‘Banquete de Poon Choi‘, de Yip Ying-kit

Jacky Yuen Man-leuk
Jacky Yuen Man-leuk
Imagem conceitual e literária mostrando uma panela de barro com o prato tradicional Poon Choi fumegante sobre uma mesa escura. Do vapor que sobe do alimento, emergem caracteres da caligrafia chinesa e linhas abstratas que sugerem o contorno dos prédios de uma cidade grande. A iluminação é dramática e foca no prato, deixando o fundo sombrio e reflexivo, transmitindo uma atmosfera de melancolia e profundidade artística.
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O poema “Banquete de Poon Choi” [1], de Yip Ying-kit, tem um enorme valor para uma leitura atenta. Ele não é o primeiro poeta a escrever sobre o poon choi; a famosa obra homônima de Leung Ping-kwan (também conhecido como Ya Si) combina história, cultura e gastronomia, usando as camadas do prato como uma metáfora para as mudanças na estrutura social e o fluxo cultural ao longo do rio do tempo. Yip Ying-kit, porém, não teve a intenção de imitá-lo; seu poema nasce muito mais da combinação de percepções pessoais e reflexões vividas em um tempo e lugar específicos. Como foi publicado em uma revista literária para estudantes do ensino médio, não seria exagero — usando o jargão das aulas de literatura chinesa — classificá-lo como um texto narrativo.

​Contudo, isso seria ler o poema de forma rasa demais. A parte narrativa deste poema é tão clara que realmente não precisa de explicação: ele descreve exatamente o que viu e ouviu sentado à mesa redonda, sem nenhum mistério. A história ou a cultura do poon choi não são o foco deste poema, nem o aroma ou o sabor da comida no prato. Afinal, o que ele está tentando abordar?

A perspectiva onisciente: Este poema foi escrito por Yip Ying-kit quando ele morava em um alojamento provisório após um incêndio, passando o Ano Novo lá, e foi convidado para participar de um banquete de poon choi. Como se pode deduzir de suas notas posteriores, se não fosse por aquele grande incêndio, é difícil dizer se este banquete em si existiria, mas certamente não haveria razão para que ele participasse. Portanto, o próprio banquete é uma forte metáfora da inevitabilidade da vida na sociedade (ren zai jiang hu) [2]: mesmo que o poeta não tenha sido forçado a ir, ele foi por livre e espontânea vontade — ou melhor, por ser a única opção possível. Esse é também o retrato dos habitantes desta cidade: é Ano Novo, há música, dança e celebração, e “há os nossos nomes”.

​Como compreender este poema? Primeiro, leia-o na ordem, fixando-se bem nas últimas linhas:

​“Até que o tempo fica um pouco tarde, e o sorteio / vai começar; só então, finalmente, / olhamos seriamente para o palco, esperando / que alguém aponte / a razão da nossa existência.”

​A partir dessas poucas linhas, volte e leia tudo novamente. Em um banquete, as pessoas à mesa talvez não se conheçam; suas personalidades e histórias são diferentes, mas elas podem compartilhar memórias coletivas semelhantes. Quanto ao palco, trata-se de um universo paralelo onde certas coisas acontecem — como pessoas se apresentando com empenho para ganhar a vida ou por outros motivos. Por serem estranhos entre si, e por este não ser exatamente um ambiente propício para socializar, ninguém tem essa disposição ou intenção, sendo natural apenas “comer em silêncio o que é seu”.

​As linhas seguintes — embora possam não ter sido a intenção exata do autor, uma leitura diversa não é proibida — como: “procurando / o que consegue comer”, “há quem… / não se importe de ficar com os dedos engordurados”, “há quem saiba / que não aguenta ingredientes fartos demais / e se esforce para afastá-los”, “…se deve se integrar / às ondas que eles provocam / ou continuar lidando com…”, parecem sob qualquer ângulo uma descrição das mil facetas da vida humana. E essas facetas, mesmo sendo visões subjetivas de um autor que passou por grandes reveses sobre outras pessoas na mesma situação à mesa (ou apenas uma má interpretação minha), ganham uma nova camada de sentimento quando relemos o poema após passar por “esperando / que alguém aponte / a razão da nossa existência”.

Esse sentimento complexo, difícil de rotular, é algo com que nós, leitores contemporâneos, ressonamos ainda mais facilmente (mesmo que seja uma ilusão compartilhada entre autor e leitor). No entanto, se fosse apenas ilusão, por que o poeta escreveria estes versos? A perplexidade sobre a razão da existência e a consciência do dilema de que ninguém pode respondê-la referem-se tanto ao desamparo do momento — sentado entre estranhos, pegando comida e esperando o sorteio — quanto à metáfora do constrangimento de uma era e de seu povo. E parece que a única coisa de que podemos ter certeza é aquela linha:

​“Sabendo que, na maioria das vezes, / estaremos abaixo do palco, / comendo em silêncio o que é nosso, nos esforçando / para, dentro de um grande recipiente, procurar / o que conseguimos comer.”

​Portanto, o que este poema descreve não é uma mistura de dor e indignação, mas um sentimento estranhamente complexo: perda, vazio, estranhamento e deslocamento. Escondidos sob a camada de indignação, frequentemente encobertos e ignorados, estão uma dor cega e um amargor que se prolongam por muito tempo. Seria este o “estranho em nós mesmos” de Julia Kristeva? Por exemplo, seria o banquete de poon choi um ritual coletivo que tenta reintegrar indivíduos desordenados e alienados de volta a uma estrutura dominante e harmoniosa, alcançando uma reconciliação superficial? Reconhecendo não ter capacidade suficiente para aprofundar este tema, resta-me apenas deixar minhas emoções e pensamentos flutuarem dentro deste recipiente devorado e desorganizado, momento em que o rabanete no molho já esfriou.

​Se há algo neste poema a se ponderar, talvez seja a nota adicional que o autor fez posteriormente no Facebook: ela deveria ser colocada lado a lado com o poema? Se ficasse apenas o poema, como na versão impressa atual, ele seria mais universal ou faltaria uma parte importante? Se essa informação de fundo fosse incorporada ao poema, ele se tornaria mais completo ou seria apenas um excesso desnecessário? Resta admitir que não há como ter o melhor dos dois mundos e, sendo este um direito exclusivo do poeta, creio que é melhor deixar a decisão com ele.

​Ao longo destes anos, Yip Ying-kit tem mantido seu método de escrita poética, e sua dimensão de reflexão sobre as relações humanas e o mundo tem sido bastante consistente. Afinal, foram os tempos que moldaram a poesia: sob uma pressão de escrita e um espaço-tempo tão singulares, a rotina pós-catástrofe encontrou em sua pena o veículo perfeito. No entanto, como ele próprio disse que preferiria não ter a necessidade de escrever estes poemas, provavelmente também não é adequado apenas “curtir” ou elogiar estas obras.

​Neste banquete eterno, provavelmente nada é adequado. O rabanete já esfriou, mas, apesar de tudo, ainda dá para comer. No palco, o programa mudou novamente; é hora do sorteio — de quem será o nome chamado?

​Banquete de Poon Choi

Poema por: Yip Ying-kit (葉英傑) | Nº do Poema: 1412

​Fazemos fila para entrar no salão do banquete de poon choi

Em uma das mesas redondas está o nosso nome.

Há um palco à espera

Para apresentações ou sorteios. Por um instante

Imaginamos que, no palco,

Haveria um lugar para nós;

Sabendo que, na maioria das vezes,

Estaremos abaixo do palco,

Comendo em silêncio o que é nosso, nos esforçando

Para, dentro de um grande recipiente, procurar

O que conseguimos comer. Há quem esteja disposto a descascar camarões

Sem se importar em ficar com os dedos engordurados

Há quem saiba

Que não aguenta ingredientes fartos demais

E se esforce para afastá-los;

No palco, alguém começa a cantar; se deve se integrar

Às ondas que eles provocam

Ou continuar lidando com

Aquele rabanete que você pegou

E que já começou a esfriar

Até que o tempo fica um pouco tarde, e o sorteio

Vai começar; só então, finalmente,

Olhamos seriamente para o palco, esperando

Que alguém aponte

A razão da nossa existência.

7 a 8 de fevereiro de 2026

Poon Choi

Poema por: Ya Si (也斯)

​Deveria haver pato assado e camarão frito nos lugares de honra

As posições de classe claramente divididas em camadas

Mas os hashis que revolvem a comida aos poucos subvertem tudo

O frango aos cinco aromas da aldeia e a vulgar pele de porco

O desolado general da dinastia Song, derrotado, fugiu para cá

Em uma grande bacia de madeira, comeu as provisões guardadas pelos pescadores

Sentados em círculo na praia para comer, sem a suntuosidade dos banquetes de outrora

Longe do esplendor da capital imperial, provando a comida rústica dos aldeões

Impossível se sustentar falsamente no alto, só resta afundar com o passar do tempo

Querendo ou não, é difícil não se tingir com as cores da camada do fundo

Comendo por muito tempo, você não consegue isolar a troca entre o cogumelo do norte e a lula

As relações se invertem, contagiando-se mutuamente, afetando a obsessão por pureza dos que estão no topo

Ninguém pode conter o rumo natural do suco da carne que escorre para baixo

O rabanete lá no fundo, com sua doçura suave, absorve todo o aroma denso

2002

​Notas Explicativas de Tradução

[1] Poon Choi (盆菜): Um prato comunitário emblemático da cultura de Hong Kong e dos aldeões dos Walled Villages (圍村) nos Novos Territórios. Traduzido literalmente como “comida de bacia”, trata-se de um grande recipiente preenchido com camadas de variados ingredientes cozidos separadamente (frango, pato, frutos do mar, cogumelos, pele de porco e rabanete no fundo). É servido tradicionalmente em grandes banquetes festivos ao redor de mesas redondas.

[2] Pessoas no Jianghu (人在江湖): Referência ao provérbio chinês 人在江湖,身不由己, que significa estar tão imerso nas engrenagens e convenções sociais que a própria vontade passa a ser secundária frente às circunstâncias do mundo.

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Não dito

Jacky Yuen Man-leuk: Poema ‘Não dito’

Jacky Yuen Man-leuk
Jacky Yuen Man-leuk
Imagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6994babc-68e4-832c-b3e5-e669e12f474a

1. 

Neste mundo, muita dor a gente mesmo procura,
mas muita outra simplesmente chega,
sem convite. 

Pombas brancas descem voando. 

2. 

Não sei como vocês definem este dia. 
Violino, véspera do fim do mundo, Bach. 

Eu entrei por este caminho 
não porque estava escrito nas estrelas. 

3. 

Andando por uma estrada errada, 
rezando para enxergar, enfim, 
uma paisagem que também esteja errada. 

4. 

A única desgraça dela foi correr atrás do que é certo. 

O que é errado não dura, 
mas ela era o erro, 
e o erro é que tem beleza. 

5. 

O livro ainda está lá? 

Noite de chuva é boa pra correr atrás e pra fugir. A onça
no Jardim Zoológico de Paris, depois de saciada, serve
pra rir do amor. 

6. 

A única coisa capaz de atravessar o lugar onde a morte mora
é uma gargalhada.

7. 

Às vezes desconfio 

que a gente não entra e sai da mesma estação de metrô.
Ou então, quem entra e sai da mesma estação 

não somos nós. 

8. 

Um poeta, na vida inteira, escreve mais mortes
do que as que ele mesmo viveu. 

Escreve menos amores 
do que os que ele de fato viveu. 

9. 

Até hoje não entendi nenhuma canção 

que um corvo cantou. 

10. 

Por que tem que ser Bach 
nas trincheiras dos dois lados da guerra? 

Dante voltou, 
e o paraíso não tinha música. 

11. 

É por isso que o metrô faz a gente pensar em
um caminho pro inferno. 
Atravessando o leito do rio Estige. 

A água do Estige 
vem do Sena sob o céu estrelado. 

12. 

Então quer dizer 
que o inferno a gente já visitou.
Livraria aberta no meio do inferno, 
poeira se polindo na luz que entra pela janela. 

Aquele livro que ensina a vomitar 
ainda está lá? 

13. 

Judas Simão Iscariotes 
pode ser traduzido como 

o grande amor da vida inteira. 

Jacky Yuen Man-leuk

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