Palavra em território

Mario Antonio Rosa: Palavra em território – O sonho do tempo II e a definição da Poesia Latino-Americana

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa
O sonho do tempo 2. Poesia venezuelana atual (Alberto Martínez-Márquez e Mirih Berbin, editores; Letras Salvajes, Moca, Porto Rico / Valência, Venezuela, 2026)
Capa do livro O sonho do tempo 2. Poesia venezuelana atual (Alberto Martínez-Márquez e Mirih Berbin, editores; Letras Salvajes, Moca, Porto Rico / Valência, Venezuela, 2026)

Mario Antonio Rosa

“Entrei na região estreita.
Tudo o que canta se reúne aos meus pés
como bandeiras que o tempo inclina…”*

Rafael Cadenas

Entrar no território. Buscar-se íntimo ou compartilhado pelas cadências de uma voz dificilmente próxima do tédio. Dizer poesia como clima e como aviso; levar, depois, a nave construída para águas livres, adquirindo, desde logo, uma cidadania na palavra. O poeta, a quem sempre considerei intérprete e tradutor da sempre buscada condição humana, é, talvez, a luz mais urgente entre os numerosos guias que envelhecem ao definir uma humanidade. Essa nave-memória de Nemo, o personagem de Verne, que ali renuncia ao mundo da superfície para singrar os mares em liberdade, fala-nos de um todo que se abraça a uma verdade poética e à sempre relevante atualidade que a poesia expõe, adverte e impõe aos sentidos e, quem sabe, à alma.

A Venezuela nos ocorre, então, belamente próxima. A irmandade nos envolve em sua grandeza de luz. Tudo acontece e, se assim é, a poesia venezuelana é um coração. No entanto, talvez não haja extensão eletrônica neste escrito para falar de um universo revelador e audacioso, de uma poesia investida dos poderes de uma mensagem, de uma invenção fresca na palavra. Agora, ficará muito por dizer; o tinteiro costuma ser profundo, e outras vozes darão continuidade ao acontecimento. É isso que acontece na chave da boa poesia.

O sonho do tempo 2. Poesia venezuelana atual (Alberto Martínez-Márquez e Mirih Berbin, editores; Letras Salvajes, Moca, Porto Rico / Valência, Venezuela, 2026) constitui uma cartografia poética da Venezuela contemporânea. Reúne a obra de 31 vozes poéticas provenientes de diversas regiões do país, oferecendo uma leitura panorâmica das buscas estéticas e discursivas que marcam o presente literário venezuelano. A antologia se articula como um espaço de polifonia, no qual a poética funciona como refúgio, testemunho, linguagem de resistência e reconstrução da memória histórica e afetiva. Em meio aos processos conjunturais do país, a antologia projeta a poesia não como uma perda, mas como uma “casa” simbólica e uma ponte para a permanência… a nave em chamas, em uma rota que se dá a conhecer diante do mundo.

Em seu prólogo, a antologia situa o ponto de partida epistemológico e estético da poesia contemporânea em quatro grandes figuras tutelares do século XX venezuelano: Reynaldo Pérez (1945–2023), em sua voz imediata e contemplativa, círio de orientação para várias gerações de poetas; Víctor “El Chino” Valera Mora (1935–1984), com uma poesia de longo fôlego, entrelaçando tom apaixonado, urgência histórica e linguagem lírico-política; Ana Enriqueta Terán (1918–2017), transeunte intocável desde o soneto clássico até o verso livre, ligada à paisagem andina e à estética do humano; e, naturalmente, Rafael Cadenas (1930), Prêmio Cervantes (2022), poeta da exploração dos estados de consciência e cuja voz nos arrasta para um mundo mágico, abrindo o mirante reflexivo que deve dominar a visão humana, isto é, de outro reino emergente.

Essas correntes, cada uma em seu estado de criação, vão nutrindo as vanguardas e os grupos poéticos venezuelanos, como Sardio, El Techo de la Ballena, Tráfico e Guaire, cuja projeção no século XXI se manifesta no panorama antologizado por meio do diálogo entre o lirismo social, o intimismo filosófico, a performance e a poesia de protesto ou resistência urbana.

Cada poeta desta antologia assume o entorno com sua poesia grave, repleta de signos e mensagens. Bastariam essas bússolas, embora confesse que a unidade desses 31 poetas é poderosa, intuitiva, reveladora, presente. Assim, no percurso, encontramos a poeta Lilia Ferrer-Morillo, com sua memória afrodiaspórica, a identidade camponesa e a denúncia contra a marginalização. Sua poesia possui um ritmo de reivindicação e resistência:

Anseiam que eu não seja
essa pessoa de bem que elas encarnam,
interpretam, encenam, representam,

que eu me cartografe periférica, forasteira,
lunfarda, malfeitora, caloteira,
alheia à centralidade
e à moralidade de sua própria casta
malfeitora…

(Gente de bem)

Róger Herrera Rivas, escritor, ator, dramaturgo e artista plástico, brilhando na coordenada sob o signo de Antonin Artaud, com uma poesia pessoal, afiada em uma música interior e em uma consciência do poeta contra o mundo. Artaud defendia um teatro capaz de impactar os sentidos do espectador. Era, sem dúvida, a intensidade que a poesia exige de sua criação e de sua força:

Meu ofício é ser cidadão,
despedir-me sem mágoas
de ilusões e totens,
abrir navalhas, franzir a testa,
sacrificar-te o húmus
para me sentir bem em meu ofício
de homem de esquina, de ruído de lata
ou de poeta;
meu ofício é ser cidadão.

(Ofício)

Juan Lebrun, por sua vez, propõe-nos a investigação metapoética, a contemplação da paisagem e o jogo fônico da linguagem. Sua estética resgata o assombro e a desmontagem dos limites poéticos formais. É frequência para um grande viajante:

Quão pouco sei, Juan,
dos rumores que vêm das ruas
e das folhas caindo em sua sonora paisagem
de rubores cortados pelo vento.
Não saber é andar pelo bom caminho.
Não saber dessa forma é uma depressão revolvendo minha alma,
um estar atento a não saber o quê…
e estar sempre acreditando na surpresa.

(A Sofía Mogollón)

Yurimia Boscán e a forja do tempo, lugar e existência, metal que sustenta, talvez, o que há de mais imóvel no ser, unindo-se às despedidas, à memória familiar e ao espaço doméstico. Seu estilo é de uma sobriedade afetiva, com imagens cotidianas carregadas de melancolia. Mas é precisamente aí que dialoga uma vertente poética inesperada:

Condenada à minha cotidianidade,
Deus é monossílabo.
Sei às vezes leva acento e outras não (é diacrítico), como eu.
Cozinha é uma palavra grave (muito grave).
Coração é uma palavra aguda (talvez por isso doa tanto).
Lençol é uma palavra esdrúxula,
como escape, sacuda-se, dispa-se.

Meu nome é substantivo próprio,
poeta é comum,
angústia é abstrato,
humanidade é coletivo…

E, daí, acende-se um continente feito palavra por palavra. Cada um dos 31 poetas carrega a urgência de um manifesto poético; é uma antologia que vive, que se lê e que se aspira, buscando-nos alguma vez na verdadeira poesia. O sonho do tempo 2 reafirma a vitalidade da poesia venezuelana no contexto hispano-americano contemporâneo.

Ao oferecer um corpus diversificado de vozes que escrevem a partir da vivência territorial e do desenraizamento, a antologia demonstra como o fato poético opera como resistência cultural e reconstrução simbólica. Sua contribuição para a literatura latino-americana está em articular um mapa de polifonias discursivas que dialogam diretamente com as grandes vertentes continentais: do neobarroquismo e da poesia social às escritas do corpo, da afro-feminilidade e do questionamento da linguagem. A compilação confirma que, diante da dispersão ou das crises históricas, a poesia venezuelana continua sendo um espaço fundamental de investigação e permanência estética.

É, finalmente, o território, sem fim nem começo… uma liberdade:

Ser livre é compreender nossas correntes
ao sentir seu peso morder nossa pele.
É pupila que escolhe ver o infinito
sem paredes que detenham seu olhar.
A ave não pede permissão ao vento para voar.
Suas asas
são cartas abertas ao azul extenso…
elas escrevem sua própria rota.

(Ernesto Marrero Ramírez,
Asas de liberdade)

Mario Antonio Rosa

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Canción en la franja estéril

Poema de Mario Antonio Rosa

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa
Pintura al óleo de un paisaje desértico y estéril con una pequeña flor silvestre naciendo de una grieta en la tierra seca bajo el sol poniente, que ilustra el poema 'Canción en la franja estéril' de Mario Antonio Rosa.
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“En Palestina, los árboles cuentan una historia de opresión.”
(Paola Caridi – La morera de Jerusalén

Siempre es volver,
escribir callado, rayando en los aguaceros,
el pecho de luto y su vocal de agua,
el hastío, y su mar en llagas.

Siempre es quedar herido
abrir la roca encontrada de gritos
la noche de niño más cerca de las lanzas
el horno destruido sin comida
nadie tiene nada
los colonos trajeron a su dios y vomitaron
echaron espigas regadas con fiebre
se robaron la aurora y celebraron.

La línea de cadáveres,
muerte contra muerte hasta la lejanía
como una vieja casa, crujida en cruces
que en realidad parecen sombras
donde el mundo acaba a cada día y vuelve
con la cara de otra nueva sangre.

Olvidé llorar,
me he quedado recibiendo balas
ropajes agrios, hambres de otros,
Me he quedado con las madres heridas
curtidas de llanto, arcos desmayados
paso cerca de la tumba en el sicomoro
del hombre que no pudo vivir,
porque alguna vez fue palestino ante el sol
y le arrebataron la sombra y el aire
yo diría que hasta la muerte, uno se olvida de llorar,
y se arrodilla en las buenas semillas
que paren las arterias del cielo, y la morera,
al menos un relato de vástagos
la fortaleza de la noche en su sangrado de plata

la suimanga
que riega el sonido de los horizontes
y que ya, es mi eco para conocer la sed.

Siempre se vuelve,
a pisar los escombros escritos por el abuso
a olvidarse de las oraciones

solo tomar la granada
y perderse junto al fuego.

Mario Antonio Rosa

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El enemigo de los nombres

Mario Antonio Rosa: Poema ‘El enemigo de los nombres’

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa
"Fotografía artística y poética que muestra un camino de hierba iluminado por el crepúsculo, una lámpara de aceite encendida en primer plano y la silueta lejana de una ciudad bajo un cielo estrellado y nostálgico."
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Mi comida fue, unas estrellas en la distancia,
lavarme la cara a estragos de rocío, o desde un pozo,
donde los sueños se herían con vigilia.
Nada ocupa mi vuelta en el mundo;
los ojos van aprendiendo a tocarse con el viento.

Aquí, ante una loma radiante
o un camino de hierba que sepulta tierra hospitalaria
camino por mis pasos, me cobija la oscuridad de mi frente
mi seca noche y sus sílabas, mi rasgo de silencio.

A lo lejos, la fuerte solera del infinito:
ciudad arriba a largo trazo de lágrimas.

No quiero que sepas quien soy,
no quiero tu aliento en la nuca, ni el parpadeo,
de las manos que hice propias luego del tiempo.
Basta tu amor, alma, y tu oración cerrada
el disloque de tranvías que ya te echaban a la voz
ciega como el mar y tu corazón cantando.

Piensa en mi beso invisible
donde solo cabe la lámpara desnuda por los dos.

Luz al fin,
sin callar la soledad.

Mario Antonio Rosa

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Humano

Mario Antonio Rosa: Poema ‘Humano’

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa
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La piel toca, los labios huyen
en un día ecuatorial de cicatrices solitarias
y una hoguera continua se deslumbra en los ojos
en la gran cosecha de calor y árboles quietos

pienso lento

siento dolor, a veces lejanía, campo largo,
extraño la tierra de la lluvia, las cimas grises
que imitan la escala del espejo, voy sanando dormido
con ese amor que aprieta, ese amor de perfiles
que supura la gran noche de su aliento

alta mar y ganas de llorar

no, cerraste los ojos en mi espalda
huiste, luego volver resucitado, echar el corazón,
remar odios, somnolencia, vértigo y luego felicidad
así las cosas en este desierto que cava el cielo
tantas, tantas cosas con su escama de miedo
pero me volveré a desnudar bajo tu sueño, tu imperio corto,
ese abecedario donde las gentes se cobijan

intento estar recién nacido

de pronto he escrito esto en forma de abanico,
pronto es mediodía, todo desaparece, incluso tus huellas,
livianas como arena joven, en corriente ciega,
invadiendo contra nadie, de estrellas bajas, soledad,

una extraña quietud,
de esas que abraza cuando todo se ha perdido.

Mario Antonio Rosa

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Muerte en Valparaiso

Mario Antonio Rosa: ‘Muerte en Valparaiso’

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa
Mural de Ruiz Belvis

(Epístola a Segundo Ruiz Belvis)

¡Bajad la voz, que está
con su rigor, que es grande, sin saber
qué hacer, y está en su mano
la calavera hablando y habla y habla,
la calavera, aquélla de la trenza;
la calavera, aquélla de la vida!

César Vallejo
España, aparta de mí este cáliz

Estás con tus manos contra el agua
y el rostro te habla con agua contraria, la tarde avisa
con una vocal al oído, la ciudad templada
en su rodilla de salitre, murmurando. naves de frío,
y la habitación cerrándote los ojos.

Siguen pasando años imaginado por tu muerte
con sabor de sombra, en esa soledad escrita por esclavos
donde fuiste libre al vendaval del corazón;
en esa campana que el aire escribe con la luz
y luego en los labios, se va con alas susurrando.
De modo que, en esa soledad de todas las vidas,
los nombres que se rasgan, ya hacen sueño para la patria,
la esclava mayor, de todas nuestras lágrimas.

¿Qué pasó en la vuelta de media luna?
No sé, te perdí los pasos, la frente mojada con el tiempo,
en la calle, las luchas iguales se extinguieron,
recogía esos abrazos contra el silencio y la sangre
los fusiles desvelados que te llamaban en aquel 1873
en un mes de marzo dominado de cerezos, lluvia vieja,
pero la firma gritaba como un surco en el relámpago,
y nuestra primera libertad tenía olor de fiebre

y los niños se bautizaban con saliva de noche estrellada,
la molienda quedaba sorda bajo calaveras, ¡era el grito!

Tu sol, rociando a los mortales.

Yo regreso a la ventana que se quedó abierta
frente al Cerro Concepción, donde dormía tu cuerpo
o quizás cambio mi sombra en los puertos que te apagan
porque la trenza del océano se hace a tu costilla
a tu farol de voces, en esa mesa tendida con Betances.
Yo puedo volver a morir con una estatua única
repetida por tus palabras en cada lucha y estampida
sintiendo el sueño y la pérdida, la raya de las hojas,
por esa manumisión que nos llevó a la vida, por ti,
cantando en tu descanso, volviendo a repetirte
porque seguimos esclavos, duele la ceguera, es tempestad,
los días se devuelen entre vidrios amargos, y no somos Puerto Rico.

Quiero ver esos ojos que se cerraron
esa calma de aquel Valparaíso de las sales
con la tierra roja, y el invierno en los metales
nudos de olas en los flacos puertos ahogados en los siglos

quiero saber, de tu otra vida

de cualquier infinito, sin embargo.

Mario Antonio Rosa

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José Ernesto Hernández

Mario Antonio Rosa

‘José Ernesto Hernández: Epístola de asombro por un poeta‘

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa

Un poema es una cosa que será.
Un poema es una cosa que nunca es, pero que debiera ser.
Un poema es una cosa que nunca ha sido, que nunca podrá ser.
Huye del sublime externo, si no quieres morir aplastado por el viento.
Si yo no hiciera al menos una locura por año, me volvería loco.
Tomo mi paracaídas, y del borde de mi estrella en marcha, me lanzo a la
atmósfera del último suspiro.

Vicente Huidobro
Altazor o el viaje en paracaídas

Hay prólogos que no existen. Prólogos que no resisten la poesía. La vida, en su corteza, es un prólogo indefinido, desdoblado, ágil o absorto. Prologar como si hilvanáramos un monólogo a veces puede desnudarnos al vacío.

De modo que, para hablar con la poesía, para decirle a la poesía el monto de sus alas, para señalarla, con todas sus alturas es preciso desvanecernos, olvidar las reglas, ser déspotas con el rigor. Yo diría a esto, un intento de soñar, adormecerse un poco, cambiar, si somos atrevidos, la forma de los ojos.

Ya Miguel Hernández nos dio el nacimiento, tenemos tres heridas: la de la vida, la de la muerte, la del amor. Esta tríada, en un poeta es monumental. La siente más, la conoce demasiado cerca, y hasta aprende a herirla, para brotar palabras.

Y una vez Huidobro, el creacionista, hablaba de un salto mortal atado a un paracaídas desde su estrella íntima capaz de cubrir el cosmos, el miedo, la hendidura. Crear desde el dolor es nacer en dominio sobre el mundo. El lenguaje es lanza, y jinete. Mundo, es un gigante, ya lo confirmó Alonso Quijano, el bueno, con aquellos molinos hastiados de eternidad y de lamer los espíritus del viento. El poeta, hijo enfurecido de la totalidad asume el salto, y se sorprende.

Estamos muy cerca de un poeta. Los prólogos no existen. Pasa que la poesía funde su antorcha rebelde del decir y del hablar, el nombrar, el totalizar la palabra, restándola de la cotidianidad. Vive contrario, respira contrario, amanece inmenso. Y a veces, no sé si un prólogo es suficiente para decir tanto. ¿Con qué palabra lo defino? ¿Qué adjetivo, qué pronombre? La circunstancia es única. Es mayor el paradigma.

Muy cerca de José Ernesto Hernández, ocurre una alquimia exacta y demoledora, alejada de prólogos y nombres; una palabra empieza el acto con un océano montado en ola única, rapaz. Lo demás es ir viendo, desde el paracaídas, el todo de la palabra, lo que su inventiva, biografía en sol naciente y luna nueva, audacia e imaginería estremezcan. Es una manera de decir totalidad.

No, mientras escribo esto el prólogo se difumina con distancia. Se me acercan estos versos de un libro al que el poeta ha llamado Es tristemente bello escribir un poema donde morirse, y el fijar una óptica para un libro como este comienza en una danza dispar, movediza, sin consuelo de acierto.

¡Qué gran vuelta a una de las heridas del poeta, la vida! Diré que el libro es mágicamente denso, porque las fórmulas creadoras asumen ríos a contracorriente, la imaginación regresa a su niño escondido, y juega con su abecedario para la soledad, el vacío, la pérdida, el amor y hasta me atrevo a nombrar monólogo, en un teatro a cámara negra, un perseguidor y una música a lo lejos, esta vez, espejo rendido.

Portada del libro 'Epístola de asombro por un poeta
Portada del libro ‘Epístola de asombro por un poeta

Hugo Mujica, poeta argentino, abre la marea fuerte de este libro, y tras de él, el discurso del poeta, un lenguaje muy interior que se desprende y resplandece. Hay unos versos que lo exponen como un golpe de agua capaz, y sucedáneo:

hay que destruir la  

casa que fuimos 

para edificar sobre  

los escombros  

nuestro otro hogar.

(Donde la casa olvida tu nombre)

Este poema es iluminador, y a su vez desolador, es un mapa limpio de sobrevivencia; una casa, tal vez la de todos, se mira con tristeza, una casa que hemos tenido todos que, de momento, no te conoce, te deshabita, tritura tus raíces. Un incendio inofensivo que en su mudez trae capítulos de la memoria y a su vez seduce a una desaparición. Es una forma de dolor, una caricatura contra una vida, locuaz y concluida que, en la mirada total se hace nada. Siempre, en este visto existencialista enfrentaremos la dureza de tener casa sin hogar, pisar los escombros y edificar quién sabe dónde.

Creo que en todo hogar siempre hay una despedida, un despecho, un vacío que dormía entre cimientos de felicidad; alguien marcha, y todo cambia, se van llenando soledades. El poeta lo demuestra en estos versos donde todos habitamos, y donde se aferra a regresar libre de lo perdido:

correr hacia dentro, 

expurgar mis huesos 

hasta encontrar algún hilo rojo, 

que me enseñe el camino de regreso: 

a la falda de la abuela  

a la hermandad cómplice, 

a la ruta de la golondrina, 

a la mansedumbre materna.

(Donde la casa olvida tu nombre)

Esta sección del libro nos narra el camino de un desprendimiento, la nostalgia herida, la ansiedad, el pasado y su línea del presente. El pasado traza un territorio en el frente de las palabras; la imaginación en su día presente las observa, con limpieza y dolor. Hay, elementos en el sendero que pedirían un regreso, un intento de amor, un acto de amor incluso, pero la vida del poeta esta hecha de verdades y presentes migratorios a un estado absoluto de poesía. En este libro como diría Miguel de Unamuno hay un ¡ADENTRO! muy contemplativo; claro está queda el deseo de regresar, el espíritu así lo ordena, porque el espíritu al final abre la brecha al paso del futuro.

Y sigue, la lluvia interior, cubre el cosecho de palabras vivas. José Ernesto nos recuerda el niño que yace en algún lugar de nosotros. La segunda parte de este poema El niño que se hizo sombra encierra una gran verdad, y una revelación: el hombre encierra de silencio su niño hasta ser su sombra. He aquí la marca:

Qué pesadilla esta  

de calaveras de pájaros  

girando sobre mi cuerpo,  

en esta noche que me traga  

y me escupe dentro de un 

baúl de juguetes mustios. 

hay algo de mi pasado  

que no tuve, algo como…  

una mirada, un abrazo o un dulce 

que hoy reclama su espacio; 

pero estoy lleno de cenizas. 

ay de mí, siempre herido, 

taciturno, melancólico.

(El niño que se hizo sombra)

¿Acaso somos un niño de sombra, callado, mustio, sosegado por nuestros actos? Cada poema en esta parte del libro-si decir todo-es destinado al ser, a su travesía, sus facetas solares y lunares, su tiempo, su espacio, su solera de palabras, su silencio. El poeta, en sí mismo, es un soliloquio. Discursa, tambalea, llora, se atreve a reír y sueña.

Dos secciones adicionales conforman el libro: Vulnerable Animal y Bajo el filo de las palabras. Cada uno escrito con la originalidad que lleva el alma y su ambiente de contemplación. El poeta asume el hombre de hojalata y desangra el poderío, de la expresión. Y es que José Ernesto, poeta total, no puede vivir bajo otro orden que el filo de las palabras; el subir, la pendiente, paso a paso, a sol y luna, también noche oscura, y conquistar el término medio-como Aristóteles en su tabla mágica-de la voz y la rendición de los destinatarios. Hablar en poesía conlleva una libertad honrada y magnífica, precisa, Paul Válery oscilaba entre el vuelco al desprendimiento, la dación, el mensaje perfecto. He aquí que José Ernesto en el centro de su escenario rompe incluso con las intermitencias de la vida y de la muerte, porque poesía es eso, provocar que los prólogos desistan de fijar el orden; es leer el poema y hacerse vital desde el poema mismo.

Cierra el libro con el título de su nombre, Es tristemente bello escribir un poema donde morirse lo dejo a la imaginación del lector de estas páginas. Solamente, bajo la premisa anterior, les advierto, resume ante el todo del ser una vitalidad que se hará compañera de tus días, ya no habrá muerte, sólo el universo indomable que rompe con su cerco, las palabras:

porque escribir para fallecer  

es un juego cuyas instrucciones  

llevo cicatrizadas en el alma. 

es tristemente bello escribir  

un poema donde morirse, 

como resquebrajar con un verso  

las puertas del miedo 

y volverme a encontrar sin  

fracturas en los ojos del cielo. 

dime, Lady Lazarus,  

si morir es un arte, 

¿cómo transmuto en  

una alondra bajo el  

peso de este poema?

(Es tristemente bello escribir un poema donde morirse)

Es este libro un viaje del siempre, bajo cualquier día, por encima de las horas, bajo la verdadera poesía. Es, el asombro. ¡Enhorabuena POETA!

Mario Antonio Rosa

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Julia M. Toro

Mario Antonio Rosa

Resenha

‘Julia M. Toro: la poesía, como bala de encuentro’

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa

Las primeras armas de fuego aparecieron/  en los campos de batalla europeos mientras/ los caballeros y hombres de armas usaban / armaduras de placas. Contrariamente a lo que / algunos podrían pensar, ambas continuaron / usándose simultáneamente durante siglos. 
(Marioantonio Rosa – Taste of History – 23 de abril 2023)

Portada del libro ‘La bala que escondes en tus manos’ de Julia Magaly Toro

El amor, o el duelo. ¿Alguien lo dijo? ¿Será posible unir estas dos máscaras para esta definición? Perder el amor reúne un duelo involuntario, que llega en mala frescura al corazón humano. Es una condición de quemarse y expiar. Surge ciega, la pureza. Alcanza los poros, y el verbo. De modo  que, la transgresión abre su cielo natural, prístino, válido al manifiesto.

La condición humana abarca las experiencias fundamentales que caracterizan la existencia, incluyendo las dimensiones físicas, mentales y emocionales. Confluyen experiencias universales como el nacimiento, el crecimiento, el dolor y la muerte, así como un amplio espectro de sentimientos como la felicidad, la ambición, la ira y la desesperación.

Filósofos como Platón y Descartes, han explorado estos temas, lo que ha dado lugar a importantes reflexiones sobre la justicia, la identidad y la naturaleza de la existencia.Este rico entramado de indagaciones continúa inspirando debates sobre lo que significa ser humano, reflejando tanto las luchas como las aspiraciones inherentes a la experiencia humana. Eso es la existencia, y eso es el poeta. La existencia en su médula, busca expandirse, brotar, gritar, inmolar y rehacer su cauce. Nadie escapa.

Por eso, siempre, me siento identificado con la premisa de que el poeta es el más cercano espectador de la condición humana y en ese ruedo, se expresa en uno de los muchos polos que absorbe lo sublime. Transgredir es existir. En el poeta, es una fuerza despejada y libre, sin prórroga, profusa. Desde el intento de una imagen a una mala palabra de asfixia, bajo la poesía, la posibilidad es fuerza e impulso. 

Ese enunciado lo encontramos en el libro La bala que escondes en las manos de la poeta puertorriqueña Julia Magaly Toro. Libre origen, verbo exacto. Nada más. Libro construido en una de las muchas génesis del alma e invicto en el equinoccio de la piel. El libro, como una bala escondida, encierra su destello personal al equilibrio de la expresión y del ritual de unas imágenes diestras y con poder. La poeta escoge la bala, hija primogénita de la pólvora, allá en la antigua China —y después—como un único incendio para cambiar en el decir, expresar.

Los poemas de este libro son un ejercicio honesto y noble de escribir la poesía como un escape, en anatema contra los discursos y estilos. Julia, poeta, es su propio estilo, su soledad, su acrobacia de soñar, su desvelo, Es lo que escribe, conquiatada por la imagen, lo respirado y vivido:

Dame un poco de tu cromo

haz de este acero uno inoxidable

no perfecto como oro y platino

quiero poder reaccionar a tu oxígeno

a lo que alimenta tu conocimiento

tus recuerdos, tus vivencias, tus días

construye en mí una espada de doble filo

que penetre en la piel con simetría

y haga una cicatriz alineada y perfecta…

(Armadura)

La fusión de amor de amor origina la densidad del acero y el ritmo de la siempre apertura de la espada. Ondea un acto de piel y luz que derrota los requisitos del oro y el platino. La poeta funde su más allá con el amado donde también se puede conjugar el espíritu. Y digo eso, porque en todo el libro camina secreta una transparencia que solo cae en el fin y asombro del espíritu. Amar, quizá, más allá de los huesos. Esa misma simbiosis crea por fin una armadura impenetrable, una ronda de altura y fuego. 

El libro en su contenido está dividido en los diversos manifiestos del fuego abierto del revólver. Persisten las escalas, los temas, tipos de bala, tiro al blanco, chaleco antibalas, calibres, balas de salva—¿realmente existen?— y municiones. Todo el ser y su caído entorno deambula en esta creación apartada de las modas y rompiendo cauces. La poeta conoce su rumbo visual por la vida, ama su oficio, teme a  las grandezas de la revelación y es rebelde en el discurso. Todo nos lleva al preclaro conjuro de una poeta que camina, sin adivinanzas. Pero no termina ahí. Hay un poema donde la existencia participa como un dardo contra lo impasible. Es un poema colectivo. Lo escribimos todos y Julia, lo plasma en el tiempo:

Su mano derecha sostiene

una lata de salsa de tomates

que pone de nuevo en el estante

que vuelve a agarrar

es un constante análisis matemático

de qué puede comprar con lo que queda

cuánta hambre puede quitar esa lata

sino tengo cómo pagar las habichuelas

si al pan puedo darle un beso

y tomarlo con agua del grifo

en una cárcel está el pueblo

y los políticos en su guiso

¡ay, gobierno cabrón!

que insistes en poner impuesto a todo

ni siquiera los barquitos de papel están exentos…

(Sicarios)

La poeta señala la mentira social. La apariencia de un país tupidamente capitalista y próspero donde el hambre riega con silencio sus provisiones y abandona almas. Pero ¿que tipo de abundancia nos pisa el ruedo? País irresoluto, con una economía de cartón y en crisis y una deuda externa explotada en discusiones virales y posturas políticas. Y dos partidos echándose a la llenura de sus mochilas. En este poema se repasa la realidad de un Puerto Rico que alguna vez fue de ensueño, un clamor de patria, una denuncia. Parte de la existencia: el entorno y su llamarada. La paz, es parte de esa mentira social; la guerra un motivo, sin resurrección.

De modo que, nuestras letras nacionales tienen en Julia M. Toro una poeta dueña de un verbo innovador, De una prestancia esencial en el modo de la buena poesía. Desde el cuerpo, el dolor, la piel, el alma, el chaleco antibalas que nos presta en su palabra nos cubre en un buen comienzo, y sobre todo fin. Es poeta de este tiempo, escrita con futuro:

…comernos la luz roja en los caminos

guardar el miedo en la mochila

masticarlos con o sin hambre

aceptar que todo se aprende en la vida

la ternura de tus manos hacerla un nudo

para amordazar cada uno de los fracasos

empezar libres cada madrugada

aunque de la esperanza solo queden

algunos pedazos…

(Besar la fatiga de tus pies descalzos)

Mario Antonio Rosa

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