O cara encostado dormindo no semáforo

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘O cara encostado dormindo no semáforo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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No cruzamento barulhento da cidade, entre buzinas e pressa, havia um homem encostado no poste do semáforo, dormindo como quem tinha desistido de disputar lugar no mundo. 

Os carros aceleravam quando a luz ficava verde, mas ninguém parecia notar aquele corpo cansado ali, dobrado sobre si mesmo. Talvez tivesse sido pedreiro, pai, filho, alguém com histórias que a cidade esqueceu de ouvir.

 O sinal mudava de cor como se a vida tivesse regras claras: parar, seguir, esperar. Para ele, porém, todos os sinais já pareciam vermelhos há muito tempo. E enquanto a cidade corria atrás de seus compromissos, o homem dormia — não por descanso, mas por falta de onde acordar.

A cidade acordava todos os dias com pressa. Buzinas, motores, passos acelerados, vendedores abrindo as portas metálicas das lojas, ônibus lotados cuspindo gente em cada esquina.

 No meio desse turbilhão havia um cruzamento comum, daqueles onde quatro avenidas se encontram e a paciência das pessoas termina.

Ali funcionava um semáforo antigo, daqueles que demoravam demais para mudar de cor. Os motoristas odiavam aquele sinal.

Mas quase ninguém percebia outra coisa naquele lugar.

Encostado no poste do semáforo, havia um homem dormindo.

Ele se sentava sempre no mesmo ponto, com as costas apoiadas no metal frio do poste, as pernas estendidas e a cabeça inclinada para frente. 

Parecia ter aprendido a dormir no meio do barulho — habilidade estranha, mas necessária para quem não possui paredes.

Alguns passavam olhando de relance.

Outros fingiam não ver.

Na cidade, ignorar alguém é uma forma discreta de continuar vivendo sem culpa.

Ninguém ali sabia o nome dele.

Para os motoristas era apenas ‘o cara do semáforo’.

Ele usava uma camisa desbotada, calça gasta e um boné que já havia perdido a cor original. A barba crescia irregular, como mato abandonado.

Às vezes ele acordava quando o sinal ficava vermelho e caminhava entre os carros oferecendo balas ou limpando para-brisas. Mas naquela manhã ele estava dormindo profundamente.

O curioso é que sua expressão não era de sofrimento.

Era uma expressão estranhamente tranquila.

Como se o sono fosse um pequeno refúgio contra o peso da realidade.

Poucos imaginavam que, anos antes, aquele homem tinha uma casa pequena, um emprego numa oficina mecânica e uma filha que gostava de desenhar pássaros.

Mas as cidades têm uma capacidade cruel de apagar histórias.

Uma moça dentro de um carro vermelho olhou para ele por alguns segundos.

Ela estava atrasada para o trabalho e tamborilava os dedos no volante com impaciência.

— Esse sinal demora demais — murmurou.

Olhou novamente para o homem dormindo.

Por um instante breve, pensou em como alguém poderia dormir ali, no meio de tanto barulho.

Mas o sinal ficou verde.

Ela acelerou.

A cidade funciona assim: pequenas curiosidades humanas são rapidamente esmagadas pela urgência do relógio.

O homem continuou dormindo.

O trânsito continuou passando.

A vida dele não havia desmoronado de uma vez.

Quase nunca desmorona.

Primeiro veio a demissão da oficina. O dono fechou as portas depois de uma crise econômica. Depois vieram meses de bicos, trabalhos temporários, pequenas dívidas.

A esposa foi embora.

Não por maldade, mas por cansaço.

Ela levou a filha.

Ele ficou com as paredes vazias da casa.

Depois vieram o aluguel atrasado, a mudança forçada, o quarto alugado, a perda de outros empregos.

Até que um dia percebeu algo estranho: não havia mais lugar para voltar.

A rua não se torna casa de repente.

Ela vai se aproximando devagar.

Naquele cruzamento passavam milhares de pessoas todos os dias.

Executivos apressados, estudantes com mochilas, vendedores, motoboys, turistas.

Todos carregando suas próprias preocupações.

Para eles, o homem no poste era apenas parte da paisagem.

Como uma placa enferrujada.

Ou uma rachadura no asfalto.

A cidade possui essa estranha habilidade de tornar certas pessoas invisíveis.

Não porque elas desapareceram.

Mas porque ninguém quer realmente olhar.

Enquanto dormia encostado no semáforo, o homem sonhava.

No sonho ele estava sentado no quintal de sua antiga casa. A filha corria pelo gramado segurando um desenho.

— Olha, pai! — dizia ela.

Era um pássaro enorme, colorido, voando acima de uma cidade.

Ele ria.

No sonho o céu estava limpo e o mundo parecia simples.

Então uma buzina alta explodiu no cruzamento.

Ele abriu os olhos lentamente.

Por alguns segundos, não sabia onde estava.

O semáforo estava vermelho.

Carros formavam uma fila longa diante dele.

O homem se levantou devagar, ainda meio sonolento, e caminhou entre os veículos.

Alguns motoristas desviaram o olhar.

Outros fingiram mexer no celular.

Uma criança no banco de trás de um carro perguntou à mãe:

— Por que aquele homem mora na rua?

A mãe demorou alguns segundos para responder.

— Às vezes… a vida fica difícil para algumas pessoas.

O sinal ficou verde.

Os carros partiram novamente.

O homem voltou a encostar no poste.

Sentou-se no mesmo lugar de antes.

O semáforo continuava mudando de cor, obediente à lógica da cidade: vermelho, amarelo, verde.

Parar.

Esperar.

Seguir.

Mas para ele o tempo parecia diferente.

Ele apoiou a cabeça no metal e fechou os olhos outra vez.

Talvez estivesse cansado.

Talvez estivesse apenas tentando sonhar novamente com aquele pássaro desenhado pela filha.

E enquanto a cidade corria para todos os lados, o homem encostado no semáforo dormia.

Não porque quisesse fugir da vida.

Mas porque, naquele momento, o sono era o único lugar onde ela ainda fazia sentido.

O vento da tarde cortava como lâmina de navalha. O homem puxou a camisa velha mais para cima, tentando proteger o peito do frio, mas ela não fazia diferença.

 Cada rajada de vento parecia atravessar a alma, lembrando-lhe que a cidade jamais se preocupava com quem não tinha endereço.

Alguns passantes o olhavam de relance, curiosos, mas rapidamente desviavam o olhar. Ele conhecia bem esse ritual silencioso: ninguém quer ser lembrado de que a miséria existe, e ele era apenas um espelho desconfortável de uma verdade que todos fingiam não ver.

A fome apertava. O estômago reclamava, mas ele ainda guardava um pouco de dignidade — aquele pouco que resistia aos dias sem comida, à falta de chão, ao desprezo alheio. 

Dignidade, talvez, fosse a única coisa que a cidade ainda não conseguira roubar.

O homem voltou acordar. Olhou para os dois, tentando sorrir, mas seu rosto marcado pela rua não conseguia disfarçar a dor.

 Por um instante, ele desejou que a menina pudesse entender o que significava perder tudo e ainda ter que existir entre sinais vermelhos e verdes.

Então, como quem toma coragem pela última vez, ele se levantou. Não para pedir esmola. Não para limpar para-brisas. Mas para atravessar o cruzamento e desaparecer nas vielas atrás da avenida.

Enquanto caminhava, lembrava-se de cada porta fechada, cada olhar desviado, cada noite em que precisou dormir ao relento. 

E sentiu, finalmente, uma raiva silenciosa crescer dentro dele — não contra a cidade, nem contra os outros, mas contra si mesmo por aceitar, por tanto tempo, o papel que a vida lhe deu sem lutar por mais.

Algumas horas depois, o semáforo ainda estava lá, firme, indiferente ao mundo. O cruzamento continuava com seu movimento mecânico: parar, esperar, seguir. Mas algo mudara.

Para os motoristas, nada.

Para a cidade, nada. Mas para ele, tudo. Ele sentia que a rua, aquela que antes parecia sufocá-lo, agora era apenas um campo de batalha — o campo onde ele finalmente podia lutar contra suas próprias limitações, contra sua própria vaidade de se fazer invisível.

A noite caiu, e a cidade se iluminou com lâmpadas artificiais. Ele parou em um canto, observando as luzes refletirem nas poças de chuva. Sentiu medo, frio, fome… mas também uma centelha de vida que não havia sentido há anos.

O semáforo, vermelho, continuava lá, mas ele não precisava mais esperar. Ele não era mais apenas o homem encostado dormindo. Ele era alguém que havia decidido  voltar existir apesar de tudo, mesmo sem endereço, sem conforto, sem aplausos.

Na manhã seguinte, alguns passantes notaram um bilhete preso ao poste do semáforo. Escrito com tinta borrada, dizia apenas:

“Acordei. Finalmente. Agora sou meu próprio semáforo: vermelho, amarelo, verde… e sigo quando quiser.”

Ninguém parou para ler. Mas talvez não importasse. Ele havia desaparecido das ruas, sim, mas não da sua própria vida. Pela primeira vez, o homem se recusava a ser apenas parte da paisagem.

E enquanto a cidade continuava sua rotina mecânica, com buzinas e pressa, ele caminhava para longe, com passos lentos, determinados e furiosos, decidido a lutar contra tudo o que o reduziu à invisibilidade.

O semáforo continuava ali, parado, mas ele sabia que ninguém, nem a cidade inteira, poderia mais controlar o ritmo do seu tempo.

Clayton Alexandre Zocarato

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O país em estado de espera

Clayton Alexandre Zocarato: ‘O país em estado de espera’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O país acorda com o mesmo barulho de ontem  com um rangido metálico

como portão de escola pública sem óleo abrindo para ninguém

o sol bate nas fachadas descascadas e  não ilumina e sim

denuncia…

O Brasil não amanhece, ele insiste arrasta o corpo para fora da noite

como trabalhador exausto que já nasce devendo

tempo

vida

pulmão

As ruas são longos corredores de hospital onde não há médicos suficientes

mas há diagnósticos em excesso todos sabem o que dói

ninguém trata,  a dor virou política pública, a ferida virou orçamento

o sangue escorre em parcelas…

O pobre aprende cedo a linguagem do atraso a sintaxe da fila

o verbo esperar conjugado no estômago enquanto o Estado fala em gráficos

como quem descreve o clima, sem sair do gabinete, sem pisar na lama

sem ouvir o choro que não cabe em planilha…

As crianças atravessam o dia, com mochilas vazias, não por falta de livros

mas por falta de futuro, aprendem matemática contando balas perdidas

aprendem geografia mapeando territórios do medo,

aprendem história vendo o mesmo erro repetir, como se fosse tradição…

O país gosta de discursos, mas tem alergia a soluções

prefere a estética da promessa, ao trabalho bruto da mudança

prefere o palanque, ao chão, prefere a palavra desenvolvimento

quando ela não precisa desenvolver nada…

O descaso é uma política silenciosa, não faz barulho

não precisa de decreto, ele se instala como mofo

nas paredes das periferias, nos corredores das escolas

nos postos de saúde, onde o remédio é sempre insuficiente

e a desculpa é sempre a mesma…

Há um Brasil que passa de carro blindado

com os vidros fechados, o ar condicionado ligado

e chama isso de normalidade; há outro que atravessa a cidade a pé

carregando o peso de um sistema…

que só funciona para quem não depende dele

O trabalhador é um número que anda

um CPF que respira, um corpo útil enquanto aguenta…

descartável quando adoece, sua força sustenta prédios

que ele nunca vai habitar, sua voz é sempre ruído

quando tenta atravessar o microfone…

A fome não grita, ela corrói

come devagar, come a dignidade, come a infância

come o amanhã, até restar apenas o silêncio

que o governo chama de estabilidade…

O Brasil gosta de se ver no espelho do passado

para justificar o presente, diz que sempre foi assim

como se a injustiça fosse paisagem, como se a desigualdade fosse fenômeno natural

como se a miséria fosse uma característica cultural

Mas nada disso é natural, é projeto

é escolha, é decisão tomada em salas climatizadas

longe do calor que desidrata o corpo, e da falta que desidrata a alma…

A política virou um teatro de sombras, onde as mesmas figuras se revezam

mudam o figurino, não mudam o roteiro

o povo assiste cansado, sem ingresso

sem direito a sair no intervalo…

A corrupção não está apenas nos desvios

ela está no abandono, na escola sem professor

no hospital sem gaze, na estrada que mata mais que o crime

no salário mínimo que não alcança o fim do mês…

O Brasil administra a desigualdade

como quem administra um estoque

mantém sempre um pouco de miséria ativa

para justificar programas, discursos, eleições

a pobreza virou argumento, nunca urgência

A polícia entra onde o Estado nunca entrou

e entra armada, confundindo ausência com inimigo

o jovem negro aprende cedo, que sua existência é suspeita

que seu corpo é prova, que sua morte será estatística

Enquanto isso, os gabinetes discutem sem pressa

o tempo não dói neles, o atraso não os alcança

o futuro já está garantido, em contas bancárias

em sobrenomes, em muros altos

O Brasil fala muito em pátria

mas trata seu povo como excedente

como sobra, como erro de cálculo

há sempre alguém a mais, sempre alguém que pode ser cortado

do orçamento, da história

da vida…

A cultura resiste, como planta que nasce no asfalto

não porque o solo é bom, mas porque desistir não é opção

a arte vira denúncia, a poesia vira laudo

o rap vira boletim de ocorrência

o teatro vira grito…

Mas até a cultura é empurrada para a margem

quando não serve ao marketing, quando não cabe no edital

quando não é domesticada

o país aplaude a diversidade, desde que ela não questione

desde que não exponha

o esqueleto no armário nacional…

O descaso social não é falha

é método, é o motor invisível

que mantém privilégios funcionando

é a engrenagem que transforma sofrimento

em lucro, em poder, em controle…

O Brasil se construiu sobre o adiamento

adiou a abolição, adiou a reforma

adiou a justiça e agora adia o futuro

como quem empurra um corpo cansado

para amanhã…

Mas amanhã não chega para todos

há quem morra hoje

na fila, na bala, na falta

há quem desapareça sem nome

sem investigação

sem memória…

O país segue, grande, contraditório

com seus monumentos de concreto

erguidos sobre alicerces frágeis

chamando desigualdade de desafio

chamando descaso de complexidade

E o povo segue, porque não há escolha

seguindo apesar de tudo, apesar do peso

apesar do abandono, carregando o país nas costas

enquanto ele insiste em não olhar para trás….

Este é o Brasil em estado de espera

espera por justiça, espera por coragem

espera por um projeto que não trate gente como custo

nem pobreza como detalhe

espera por um dia

em que viver não seja um ato de resistência

mas apenas… viver…

Clayton Alexandre Zocarato

‘O PAÍS EM ESTADO DE ESPERA’ – Poema declamado pelo poeta Sergio Diniz da Costa

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Entre máscaras e espelhos

Clayton Alexandre Zocarato

‘Entre máscaras e espelhos: o pecado necessário do Carnaval’

Clayton Alexandre Zocarato
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O carnaval é uma estação da alma antes de ser uma data no calendário. Ele não começa quando o tambor rufa nem termina quando a quarta-feira amanhece cinza; começa muito antes, na dobra íntima do desejo humano de suspender o peso da própria biografia.

É como se, por alguns dias, a sociedade respirasse por outra narina, inalando excesso e exalando contenção, num movimento alternado que a mantém viva. O carnaval é o intervalo necessário entre aquilo que somos obrigados a ser e aquilo que tememos ser. 

É festa, mas é também espelho; é riso, mas é igualmente vertigem.

Sua história se derrama como vinho antigo. Muito antes de ganhar as avenidas tropicais, já pulsava nos rituais de inversão do mundo, quando a ordem era colocada de cabeça para baixo para que pudesse, paradoxalmente, permanecer de pé.

Nas antigas celebrações da fertilidade, nas festas dedicadas a deuses que morriam e renasciam, havia sempre a permissão para a desmedida. 

Em certas épocas do império romano, durante as festas de inverno, os papéis sociais eram trocados, os senhores serviam e os servos riam. Séculos depois, sob o calendário cristão, a festa antecedia a quaresma como a gargalhada antecede o silêncio do arrependimento. 

A carne era celebrada antes de ser negada. O corpo era exaltado antes de ser disciplinado. A própria palavra carnaval carrega essa tensão entre a despedida da carne e sua consagração derradeira.

Quando atravessou oceanos e se enraizou em terras tropicais, encontrou solo fértil. No Brasil, tornou-se espetáculo de cores, ritmos e multidões. Nasceu nos entrudos coloniais, ganhou forma nos salões do século XIX, tomou as ruas com ranchos e cordões, e explodiu em potência nas escolas de samba do século XX. 

Em cidades como Rio de Janeiro, transformou-se em ritual coreografado, onde comunidades inteiras trabalham durante meses para contar histórias que misturam mitologia, crítica social e memória coletiva.

Em Salvador, tornou-se maré elétrica que arrasta milhões atrás de trios amplificados, dissolvendo fronteiras entre palco e plateia. 

Em Recife, pulsa no frevo que desafia a gravidade e no maracatu que evoca reis e rainhas ancestrais. Cada cidade inscreve no carnaval sua própria narrativa, mas todas compartilham o mesmo gesto: suspender a normalidade para revelar sua fragilidade.

Filosoficamente, o carnaval é o laboratório do excesso. Ele questiona a rigidez das normas ao permitir que o grotesco desfile de mãos dadas com o sublime.

Máscaras ocultam identidades ao mesmo tempo em que as revelam. 

Ao vestir-se de outro, o indivíduo experimenta a estranha liberdade de não ser ele mesmo. O anonimato torna-se licença, e a licença, risco. Há uma verdade paradoxal nessa encenação: ao representar, confessa-se; ao exagerar, desnuda-se. O riso coletivo não é apenas diversão, mas uma crítica disfarçada. 

Satiriza-se o poder, caricaturam-se as hierarquias, ironizam-se os costumes.

Durante alguns dias, o rei pode ser ridicularizado, o santo pode dançar, o pobre pode brilhar como nobre. A inversão não destrói a ordem; antes, recorda que ela é construção humana, portanto transitória.

Sociologicamente, o carnaval é válvula e vulcão. 

Válvula porque permite que tensões acumuladas encontrem escape simbólico. Vulcão porque, ao liberar essas forças, revela a energia subterrânea que sustenta a convivência social. A multidão que dança uníssona experimenta uma forma rara de comunhão.

Corpos comprimidos em ruas estreitas descobrem um ritmo comum, uma respiração partilhada. Ali, diferenças de classe, cor, profissão e origem parecem dissolver-se sob o suor e o confete. 

Contudo, essa dissolução é provisória. Quando o sol da quarta-feira se impõe, as fronteiras retornam, as desigualdades reaparecem, as fantasias são guardadas. O carnaval, então, revela sua face ambígua: ele tanto aproxima quanto evidencia a distância que separa.

E é nesse ponto que surge seu pecado. Não um pecado simples, moralista, reduzido a excessos de bebida ou luxúria. Seu pecado é mais profundo e mais antigo: é o pecado de lembrar ao ser humano que ele deseja mais do que a ordem lhe permite. 

O carnaval encarna a tentação da liberdade absoluta, ainda que por horas contadas. Ele celebra o corpo num mundo que frequentemente o vigia; celebra o prazer num contexto que o regula; celebra a mistura num sistema que classifica. Seu pecado é o de afirmar a vida em sua abundância desobediente.

Mas também há o pecado que nasce do próprio excesso. A liberdade pode converter-se em irresponsabilidade, o anonimato em violência, a alegria em alienação. A festa que promete comunhão pode reproduzir exclusões; o espetáculo que denuncia injustiças pode ser capturado por interesses econômicos; o rito popular pode transformar-se em produto turístico. 

O carnaval oscila entre resistência e mercadoria, entre crítica e consumo. Sua dubialidade de pecado reside justamente nessa oscilação: é transgressão que liberta e, ao mesmo tempo, transgressão que pode aprisionar em novos grilhões.

Historicamente, cada período tentou domesticar o carnaval ou dele se apropriar. Governos já o incentivaram como símbolo nacional e também o reprimiram como ameaça à ordem. 

Elites já o desprezaram como desordem vulgar e depois o celebraram como patrimônio cultural. 

Ele sobreviveu porque se metamorfoseia. É camaleão social: adapta-se, negocia, reinventa-se. 

A cada geração, renasce com novas músicas, novas críticas, novos corpos ocupando o espaço público. 

É memória viva de um povo que aprende a rir de si mesmo para não sucumbir ao peso da própria história.

No plano íntimo, o carnaval é confronto. Ao permitir que desejos ocultos venham à tona, ele questiona a narrativa que cada um constrói sobre si. 

A máscara não apenas esconde; ela autoriza. E, ao autorizar, revela. Quantos impulsos reprimidos encontram ali sua brecha? 

Quantas identidades silenciadas experimentam, por alguns dias, a luz? O pecado do carnaval é também o pecado da sinceridade súbita.

Ele escancara o quanto somos feitos de camadas e o quanto a moral cotidiana é um pacto frágil, sustentado por convenções.

No entanto, seria injusto reduzi-lo a um tribunal de culpas. O carnaval é igualmente celebração de criatividade, trabalho coletivo e herança cultural.

Por trás de cada desfile há costureiras anônimas, artesãos pacientes, músicos dedicados, comunidades inteiras que transformam escassez em esplendor. 

Há disciplina na aparente desordem, cálculo na espontaneidade ensaiada, organização no caos coreografado. O pecado e a virtude dançam abraçados, indistinguíveis.

Quando a festa termina, resta um silêncio peculiar. Não é apenas cansaço; é reflexão. A cidade parece estranhamente ampla sem os blocos, quase tímida sem as cores. Esse vazio revela que o carnaval não era mero excesso, mas necessidade.

Ele funciona como rito de passagem anual, lembrando que a vida não pode ser apenas trabalho, regra e contenção. 

Precisa também de delírio, de música alta, de encontros improváveis. 

Precisa da experiência do limite para reconhecer o valor da medida.

Assim, o carnaval permanece como paradoxo encarnado. É pecado porque ousa desafiar; é virtude porque ousa lembrar. 

É desordem que preserva a ordem; é crítica que reafirma a tradição; é fuga que devolve ao ponto de partida com novos olhos. Sua dubialidade não é falha, mas essência. 

Ele existe na fronteira entre o sagrado e o profano, entre o corpo e o espírito, entre a máscara e o rosto. E talvez seu maior significado seja este: ensinar que o ser humano é, ele próprio, carnaval — mistura de luz e sombra, regra e desejo, contenção e excesso — condenado e abençoado por sua eterna capacidade de celebrar e transgredir ao mesmo tempo.

Assim, o carnaval permanece como paradoxo encarnado. É pecado porque ousa desafiar; é virtude porque ousa lembrar. 

É desordem que preserva a ordem; é crítica que reafirma a tradição; é fuga que devolve ao ponto de partida com novos olhos. 

Sua dubialidade não é falha, mas essência. Ele existe no cabedal entre o sagrado e o profano, entre o corpo e o espírito, entre a máscara e o rosto. 

Mas há ainda algo mais profundo nesse teatro coletivo que se ergue e se desfaz como castelo de areia ao sabor da maré. 

O carnaval é também uma pedagogia do efêmero. 

Tudo nele é intenso porque tudo nele é breve. A fantasia que exigiu meses de trabalho dura algumas horas sob o brilho das luzes; o samba-enredo que embala multidões ecoa forte e depois se dissolve na memória; o beijo roubado na esquina pode nunca mais se repetir. 

A festa ensina, sem discursos, que a vida é feita de instantes que queimam rápido. Seu pecado talvez seja nos lembrar da finitude, mas fazê-lo dançando.

Há uma economia simbólica em curso durante esses dias.

O que é marginal torna-se central; o que é silêncio vira canto; o que é invisível ocupa o palco. Corpos historicamente oprimidos reivindicam beleza, talento e presença. A avenida transforma-se em território de afirmação. Não se trata apenas de espetáculo, mas de reescrita provisória da hierarquia social. 

O carnaval redesenha o mapa do poder, ainda que com giz que a chuva pode apagar. E nessa reescrita reside tanto sua força quanto sua fragilidade. 

Porque ao mesmo tempo em que ele abre espaço para vozes esquecidas, também pode ser capturado por estruturas que transformam expressão em produto, cultura em mercadoria, identidade em vitrine.

Essa tensão não o enfraquece; ao contrário, constitui sua pulsação. O carnaval vive de contradições como o coração vive de sístole e diástole. Expande-se na liberdade, contrai-se na disciplina. 

Exige planejamento rigoroso para que o improviso pareça espontâneo. Cobra patrocínios e investimentos enquanto canta a simplicidade da rua. 

Move milhões na indústria do turismo e, ao mesmo tempo, nasce da criatividade de comunidades que aprendem a fazer do pouco um luxo simbólico. Seu pecado é também o de negociar com o mundo que critica.

Há, ainda, o carnaval interior, aquele que não depende de trio elétrico nem de arquibancada. É o instante em que alguém decide ousar ser outro, ainda que discretamente; quando escolhe uma roupa mais colorida do que o habitual; quando permite ao riso escapar em meio à rotina rígida. 

O espírito carnavalesco é uma disposição para a metamorfose. Ele questiona identidades fixas e lembra que somos processos, não estátuas. 

Ao experimentar papéis, compreendemos melhor o nosso. Ao atravessar o excesso, voltamos ao equilíbrio com mais consciência.

Por isso, o carnaval carrega uma ética implícita. Não a ética da proibição, mas a ética da responsabilidade na liberdade.

A verdadeira transgressão não é destruir, mas criar; não é violentar, mas revelar; não é desumanizar, mas expandir a experiência humana. Quando a festa se desvia para o desrespeito, trai sua própria essência. 

Porque sua razão de ser não é o caos pelo caos, mas a catarse que purifica, a ironia que educa, o riso que humaniza. Seu pecado só é fértil quando gera reflexão; caso contrário, torna-se mero ruído.

E quando o calendário avança e a rotina reassume o comando, algo permanece como resíduo luminoso. 

Talvez seja a memória de uma música que insiste em tocar na mente; talvez seja a lembrança de ter pertencido a uma multidão sem perder a singularidade; talvez seja a certeza de que a ordem não é absoluta, de que sempre há brechas por onde a imaginação pode escapar. 

O carnaval deixa marcas invisíveis, pequenas fissuras na rigidez cotidiana. Por essas fissuras, entra ar.

No fundo, o carnaval é uma pergunta lançada à sociedade todos os anos: quem somos quando as regras afrouxam? O que fazemos com a liberdade que tanto desejamos? Conseguimos transformar a energia da festa em transformação duradoura ou a deixamos evaporar junto com o último acorde? Ele não responde; apenas encena. 

E nessa encenação nos entrega um espelho ampliado, onde virtudes e vícios aparecem em cores saturadas.

Talvez seu maior pecado seja este: recusar-se a ser simples. Ele não cabe na definição de festa nem na condenação moral. É rito e mercado, crítica e entretenimento, devoção e irreverência. 

É herança histórica e reinvenção anual. É memória ancestral que dança com tecnologia de ponta. É o grito coletivo que desafia o silêncio imposto. 

Em sua dubialidade, ensina que o humano não é linha reta, mas espiral.

E assim, ano após ano, ele retorna. 

Não como repetição, mas como renascimento. Traz consigo a promessa de que, por alguns dias, será possível experimentar o mundo ao avesso para compreender melhor seu direito. 

E ao final, quando as máscaras são guardadas, talvez descubramos que elas nunca estiveram apenas sobre o rosto — estavam também nas certezas. O carnaval as desloca, as embaralha, as expõe. 

E, nesse gesto ambíguo de pecado e revelação, cumpre sua missão mais antiga: recordar que viver é, inevitavelmente, dançar entre limites e abismos, entre culpa e graça, entre o que se deve e o que se deseja.

Clayton Alexandre Zocarato

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Entre lençóis, calçadas e carnavais

Clayton Alexandre Zocarato

Entre lençóis, calçadas e carnavais: Uma crônica crítica sobre o desejo brasileiro

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O brasileiro aprendeu cedo que o corpo é um território público. Antes mesmo de saber ler, já sabe dançar; antes de saber conjugar verbos, já aprendeu a rebolar. O corpo fala, grita, provoca. 

Ele se esfrega nos ônibus lotados, se exibe nas praias, se vende nos comerciais de cerveja, se absolve no Carnaval e se confessa no domingo à missa. O sexo, aqui, nunca foi apenas sexo: é linguagem, é moeda simbólica, é resistência e, muitas vezes, é fuga.

Há algo de paradoxal neste país que se diz moralista, conservador e de ‘família tradicional brasileira, mas que pulsa erotismo em cada esquina. O Brasil vive uma sexualidade que é ao mesmo tempo desenfreada e reprimida, celebrada e punida, explorada e negada. 

Somos um povo que goza e culpa, que deseja e se envergonha, que consome sexo como entretenimento, mas condena quem ousa vivê-lo fora do roteiro social aceitável.

Essa relação ambígua não nasce do nada. Ela é herança. O Brasil foi gestado no estupro colonial, no contato violento entre europeus, indígenas e africanos escravizados. O corpo, desde o início, foi instrumento de dominação. 

A mulher indígena erotizada nos relatos dos colonizadores, o corpo negro hipersexualizado e desumanizado, o senhor branco exercendo poder também entre lençóis. O sexo aqui nunca foi neutro; sempre foi político.

Enquanto a Igreja tentava impor culpa e pecado, a realidade tropical insistia em suar. O clima, a miscigenação, a vida nas ruas, tudo conspirava contra a moral importada da Europa.

Criou-se, então, um teatro: em público, recato; na prática, permissividade. Esse teatro atravessou séculos e ainda hoje estrutura nossa hipocrisia coletiva.

O brasileiro não odeia o sexo — odeia ser confrontado com a verdade de que o deseja.

A modernidade não resolveu isso; apenas sofisticou. A indústria cultural transformou o desejo em mercadoria. 

Corpos esculturais vendem carros, perfumes, planos de internet. O funk, o sertanejo universitário, a publicidade e as redes sociais erotizam o cotidiano até a exaustão. O sexo virou performance, espetáculo, ranking. Quem transa mais, quem atrai mais, quem exibe melhor. A intimidade virou vitrine.

Mas, paradoxalmente, quanto mais se fala de sexo, menos se fala de afeto. O brasileiro aprendeu a desejar sem necessariamente se responsabilizar. Ama-se o corpo, não a pessoa. 

Consome-se a experiência, descarta-se o vínculo. A sexualidade desenfreada muitas vezes não é liberdade, mas sintoma: uma tentativa desesperada de preencher vazios emocionais, desigualdades sociais, frustrações históricas.

Do ponto de vista sociológico, o sexo no Brasil funciona como válvula de escape. Em um país marcado por violência, pobreza e falta de perspectivas, o prazer imediato oferece um alívio momentâneo. 

Não é coincidência que o Carnaval — essa explosão coletiva de corpos, álcool e permissividade — anteceda a Quaresma, tempo de contenção e culpa. O gozo vem antes do castigo. Sempre veio.

Há também a dimensão filosófica do problema. O brasileiro raramente foi educado para pensar o desejo. Vive-o de forma impulsiva, quase instintiva, sem reflexão ética profunda. 

Falta-nos uma cultura do eros como construção consciente. Oscilamos entre o hedonismo raso e o moralismo punitivo, sem conseguir sustentar um meio-termo maduro. Ou tudo pode, ou nada deve. O resultado é confusão.

Essa confusão aparece nas estatísticas de violência sexual, nos relacionamentos abusivos naturalizados, na dificuldade de diálogo sobre consentimento, prazer e limites. Aparece também na solidão disfarçada de liberdade sexual. Nunca se transou tanto e nunca se esteve tão só. O toque virou banal; a escuta, rara.

É preciso dizer: a sexualidade brasileira não é problemática por ser intensa, mas por ser mal elaborada. 

Falta educação sexual que vá além da biologia e do medo da gravidez. Falta discutir desejo, poder, gênero, respeito. 

Falta entender que sexo não é apenas descarga, mas encontro — e todo encontro exige responsabilidade.

O naturalismo cru da nossa realidade mostra corpos em movimento constante, mas mentes pouco preparadas para lidar com as consequências. 

Mostra homens ensinados a provar masculinidade pela quantidade de conquistas, mulheres pressionadas a serem ao mesmo tempo desejáveis e recatadas, e dissidências sexuais empurradas para a margem ou fetichizadas.

No fim, o brasileiro ama o sexo porque ama a vida, mas aprendeu a viver essa vida de forma fragmentada. 

Talvez o desafio não seja frear o desejo, mas alfabetizá-lo. Transformar a pulsão em escolha, o impulso em consciência.

Enquanto isso não acontece, seguimos entre lençóis e calçadas, gozando e julgando, desejando e negando — um país inteiro tentando se satisfazer sem nunca, de fato, se compreender.

Há ainda um elemento incômodo que raramente se assume com honestidade: o prazer, no Brasil, também é hierarquia. Nem todos gozam do mesmo modo, nem com a mesma legitimidade. 

O sexo ‘desenfreado é celebrado quando vem do corpo jovem, padrão, branco ou próximo disso, heterossexual e midiaticamente aceitável. Fora desse recorte, o desejo vira escândalo, doença, pecado ou piada.

A velhice erotizada causa nojo, o corpo gordo desejante causa riso, o corpo trans causa medo. O brasileiro diz amar o sexo, mas só aceita certos corpos desejando.

Esse filtro moral disfarçado de gosto pessoal revela o quanto nossa sexualidade continua atravessada por estruturas de poder. Michel Foucault já alertava: não é a repressão que silencia o sexo, mas a forma como ele é administrado.

No Brasil, administra-se o desejo com uma mão que estimula e outra que pune. Incentiva-se a excitação, mas controla-se quem pode exercê-la plenamente. O prazer, aqui, não é democrático.

Nas periferias, o sexo é sobrevivência, afirmação, fuga. Nos bairros ricos, é performance, terapia, capital simbólico. Em ambos os casos, raramente é silêncio compartilhado, cuidado mútuo ou construção lenta.

A pressa também é social. O país do jeitinho não aprendeu a esperar, e isso inclui o corpo do outro. Quer-se tudo rápido: o flerte, o toque, o orgasmo, o descarte. O sexo vira consumo rápido em um mercado saturado de estímulos.

A pornografia, amplamente acessível e pouco debatida, educa mais do que qualquer escola. Ela ensina gestos, expectativas irreais, violências normalizadas. Ensina que o outro é objeto, que o prazer é desempenho, que consentimento é detalhe.

O brasileiro aprende a transar antes de aprender a conversar. Aprende a invadir antes de aprender a perguntar. Depois, se espanta com os números de abuso, assédio e violência doméstica, como se fossem desvios individuais, e não sintomas coletivos.

Do ponto de vista histórico, isso também dialoga com nossa dificuldade de elaborar limites. Um país que nunca resolveu bem sua relação com autoridade, lei e cidadania tampouco resolveria bem sua relação com o corpo. 

Oscilamos entre permissividade caótica e repressão violenta. Quando o sexo é livre demais, vira terra de ninguém; quando é proibido demais, vira obsessão. Não construímos uma ética do desejo — improvisamos.

Filosoficamente, talvez o maior drama seja nossa incapacidade de sustentar o vazio. O sexo, muitas vezes, entra como anestesia existencial. Transa-se para não pensar, para não sentir, para não encarar o silêncio. 

A cama vira esconderijo. Mas o prazer que não nasce do encontro com o outro dificilmente gera sentido. 

Ele alivia, mas não transforma. E o brasileiro, cansado de promessas não cumpridas — políticas, sociais, afetivas — aceita o alívio como se fosse libertação.

No fundo, essa sexualidade intensa revela um povo faminto: de toque, de reconhecimento, de pertencimento. 

Um povo que aprendeu a usar o corpo como grito porque nunca foi realmente ouvido. O problema não está no desejo em si, mas na ausência de escuta, de elaboração, de consciência histórica sobre o próprio prazer.

Talvez o verdadeiro escândalo não seja o quanto o brasileiro transa, mas o quanto ele evita pensar sobre isso.

Pensar dá trabalho, exige revisão, quebra mitos confortáveis. É mais fácil rir, julgar ou fingir naturalidade. Enquanto isso, seguimos repetindo padrões antigos com roupas modernas, chamando de liberdade aquilo que muitas vezes é só repetição inconsciente.

A sexualidade brasileira, portanto, não pede censura nem exaltação cega. Pede maturidade. Pede coragem para olhar o próprio desejo sem folclore, sem glamour, sem culpa automática.

Pede que o prazer deixe de ser espetáculo e volte a ser experiência humana. Até lá, continuaremos nus em público e vazios em privado, dançando entre a excitação e a frustração, como quem goza, mas nunca descansa.

Clayton Alexandre Zocarato

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Encontrando um ex-aluno bagunceiro

Clayton Alexandre Zocarato

‘Encontrando um ex-aluno bagunceiro, que foi criando responsabilidade’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagemcriada  por IA do Grok - 27 de janeiro de 2026, às 09h27 
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O tempo é um professor silencioso. Não grita, não aplica advertências, não escreve bilhetes na agenda.

Ele apenas passa — e, ao passar, ensina. Eu aprendi isso numa manhã comum, dessas que não prometem revelações, mas acabam entregando epifanias embrulhadas em simplicidade.

Estava na fila de uma padaria, observando o vapor do café subir como pensamentos indecisos, quando ouvi meu nome ser chamado com uma familiaridade quase insolente:

— Professor?

Virei-me devagar, como quem abre um livro antigo esperando encontrar rabiscos conhecidos. E encontrei. Ali estava ele: Lucas.

Ou melhor, o que restava do menino que um dia ocupou as últimas carteiras da sala, como se aquele espaço fosse um território sem lei.

Lucas, o bagunceiro.

O mesmo que transformava lápis em projéteis, risadas em epidemias e silêncio em desafio. O menino que parecia travar uma guerra pessoal contra regras, horários e qualquer tentativa de ordem. 

Naquela época, ele era como um vento inquieto: impossível de conter, difícil de compreender.

Mas o homem à minha frente não carregava mais o vendaval nos olhos.

— Sou eu, professor… o Lucas.

O nome caiu no chão entre nós como uma chave antiga, abrindo portas enferrujadas da memória. Vi, por um instante, a sala de aula reaparecer: o quadro manchado de giz, o relógio lento na parede, os colegas rindo enquanto eu tentava ensinar que palavras também tinham peso e direção.

— Eu reconheci o senhor na hora — ele continuou. — O jeito de observar as coisas… o senhor sempre olhava como se estivesse escutando o mundo.

Sorri. Nunca pensei que alguém notasse isso.

Lucas agora vestia uma camisa simples, mas bem passada. Havia algo novo em sua postura: os ombros firmes, o olhar atento, o corpo presente no próprio lugar.

A bagunça havia saído dele — ou talvez tivesse aprendido a se organizar por dentro.

Sentamo-nos. O café chegou. O silêncio entre nós não era constrangido; era reflexivo, como um intervalo entre dois parágrafos importantes.

— Eu era difícil, né? — ele disse, mexendo o açúcar com cuidado excessivo, como quem não quer derramar nada.

Difícil não. Inacabado, pensei. Mas respondi apenas:

— Você estava em construção.

Lucas riu. Um riso mais curto, mais contido. Um riso adulto.

— Eu não entendia isso naquela época. Achava que responsabilidade era uma prisão. Hoje vejo que era uma estrada.

Aquela frase ficou suspensa no ar, como poeira iluminada pelo sol.

Estrada. Sim. Alguns aprendem cedo que viver é escolher caminhos; outros precisam tropeçar bastante até entender que não escolher também é uma escolha.

Ele contou que trabalha agora como encarregado em uma pequena empresa. Tem horários, pessoas que dependem dele, decisões que não podem ser adiadas. Disse isso sem orgulho exagerado, mas com um respeito silencioso pelo próprio esforço.

— Teve um dia — continuou — que percebi que ninguém viria me salvar do caos que eu mesmo criava. A bagunça cansa. A desordem cobra juros altos.

Enquanto ele falava, lembrei-me de quantas vezes tentei corrigi-lo com palavras que agora soavam pequenas diante da grande professora que é a experiência. Talvez o erro dos educadores seja achar que ensinam tudo, quando, na verdade, apenas plantam dúvidas.

Lucas não virou responsável de um dia para o outro. Ele foi se tornando. Como quem aprende a carregar água sem derramar, como quem descobre que liberdade não é ausência de limites, mas consciência deles.

— O senhor sabe — disse ele, olhando-me nos olhos —, eu só entendi o valor da responsabilidade quando percebi que ela era uma forma de cuidado. Com os outros… e comigo.

Ali, naquele instante, senti algo raro: a sensação de missão cumprida sem ter percebido o trabalho sendo feito. Talvez eu nunca tenha conseguido domar o vento que ele era. Mas, de algum modo, ajudei a ensiná-lo a navegar.

Pagamos a conta. Levantamo-nos. Antes de ir, Lucas apertou minha mão com firmeza.

— Obrigado por não desistir de mim — disse.

Observei-o sair, misturando-se à cidade como alguém que finalmente encontrou seu ritmo. Fiquei ali mais um pouco, pensando que a educação é isso: um encontro que só faz sentido anos depois.

O tempo, afinal, não reprova ninguém. Ele apenas dá novas provas.

E algumas pessoas, como Lucas, finalmente aprendem a respondê-las.

Clayton Alexandre Zocarato

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Meu Universo em Dúvida

Clayton Alexandre Zocarato ‘Meu Universo em Dúvida’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA do Grok - Meu universo em dúvida 12 de janeiro de 2026, às 8:04 PM
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Baseado na canção Meu Universo É Você – Roupa Nova – Álbum Luz – 1988

Amar, na pós-modernidade, tornou-se um gesto quase subversivo, porque exige permanência num tempo que venera o provisório, e é desse paradoxo que nasce esta crônica, escrita não para explicar o amor, mas para sobreviver a ele quando a depressão o cerca como uma névoa espessa e silenciosa. 

Há dias em que acordar é um ato filosófico: levantar da cama significa aceitar, ainda que sem convicção, que o mundo continua mesmo quando o sentido falha, e que existir é um verbo que se conjuga apesar de….

O amor, nesse cenário, não aparece como salvação romântica, mas como eixo frágil em torno do qual tudo gira, um centro instável que sustenta o caos interior, como se o outro fosse o último ponto fixo num universo que se expande sem pedir permissão. Amar alguém passa a ser a tentativa de organizar o vazio, de dar nome ao silêncio que cresce dentro do peito quando as certezas morrem uma a uma, vítimas de uma modernidade tardia que prometeu liberdade e entregou cansaço, prometeu escolha e entregou ansiedade. 

A depressão não grita; ela sussurra perguntas ontológicas enquanto o mundo exige produtividade, felicidade performática e respostas rápidas, e nesse conflito o sujeito se fragmenta, dividido entre o desejo de desaparecer e a necessidade quase infantil de ser visto, reconhecido, amado.

O amor, então, não é euforia, é resistência: é acordar todos os dias e decidir ficar, mesmo quando tudo em volta diz que partir é mais fácil, mesmo quando a própria identidade parece líquida demais para sustentar compromissos duradouros.

Na crise existencial, o eu se pergunta qual é o seu lugar num mundo onde tudo é relativo, onde valores se dissolvem como açúcar em café quente, e onde até os sentimentos são medidos por algoritmos e curtidas; ainda assim, amar alguém é afirmar que nem tudo pode ser reduzido a dados, que existe algo irredutível, quase sagrado, na presença do outro. 

O amor vira abrigo contra o niilismo cotidiano, uma pequena metafísica doméstica construída de gestos simples, de silêncios compartilhados, de uma confiança que não se explica, apenas se vive. 

Mas esse mesmo amor também dói, porque expõe a fragilidade do ser, escancara medos antigos, reabre feridas que a razão acreditava cicatrizadas; amar é permitir que o outro veja o que nem nós suportamos encarar sozinhos. 

A depressão, nesse contexto, não é apenas doença, é sintoma de uma época que perdeu seus grandes sentidos e deixou o indivíduo sozinho com perguntas grandes demais, e o amor surge como tentativa desesperada de resposta, não definitiva, mas suficiente para atravessar o dia.

Há uma melancolia própria de quem ama num tempo cínico, porque amar exige esperança, e esperar, hoje, parece ingenuidade; ainda assim, é nessa ingenuidade que reside a última forma de coragem.

O sujeito pós-moderno ama sabendo que tudo pode acabar, que nada é garantido, que o futuro é uma promessa instável, mas ama mesmo assim, como quem acende uma vela em meio ao vendaval, consciente de que a chama pode se apagar, mas incapaz de aceitar a escuridão total.

E quando a crise existencial aperta, quando o sentido da vida parece uma pergunta mal formulada, é o amor que reorganiza o caos interno, não oferecendo respostas filosóficas elaboradas, mas uma presença concreta, um “estou aqui” que vale mais do que qualquer sistema de pensamento. 

Amar, nesse nível, é aceitar a incompletude como condição humana, é reconhecer que não somos universos autossuficientes, mas constelações que só fazem sentido em relação ao outro. 

Talvez por isso, em meio à depressão e à dúvida, o amor seja vivido como centro gravitacional: não porque resolve tudo, mas porque impede que tudo se desfaça.

Na pós-modernidade cansada, amar é um ato (a)gnóstico, um posicionamento diante do nada, uma forma de dizer que, apesar de todas as incertezas, apesar do medo, apesar do vazio, ainda vale a pena existir — nem que seja apenas porque, para alguém, somos o universo possível.

Clayton alexandre Zocarato

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O sabor suculento da traição e o ego faminto

Clayton Alexandre Zocarato

‘O sabor suculento da traição e o ego faminto’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA da Meta. 11 de dezembro de 2025,
às 18:05 PM

A traição tem um gosto curioso. Não é doce, não é amargo — é um tempero proibido que só interessa a quem está espiritualmente subnutrido. Quem trai, muitas vezes, mastiga o mundo como se estivesse saboreando um prêmio, um troféu de vitória pessoal. Mas essa sensação suculenta dura pouco: é como fruta madura demais, que explode na boca e, segundos depois, deixa apenas o cheiro da própria imaturidade.

Pessoas mal resolvidas consigo mesmas encontram na traição um espelho torto. Em vez de enxergarem suas próprias fissuras, veem, por alguns instantes, uma imagem melhorada de si. Lao-tsé alertava que quem conquista os outros é forte, mas quem conquista a si mesmo é poderoso”. O traidor faz justamente o contrário: tenta conquistar o mundo para não perceber que não conquistou nada dentro de si. Ele se infla, mas continua oco.

Há, na traição, um tipo de euforia infantil. É como se o ego dissesse: vejam, ainda posso ser desejado!, enquanto varre para baixo do tapete a própria incapacidade de lidar consigo. O escritor indiano Rabindranath Tagore dizia que não há óculos capazes de corrigir a visão de quem se recusa a enxergar”. A traição, portanto, é uma tentativa desesperada de ajustar a própria miopia emocional usando lentes emprestadas de outra pessoa.

A música também não perdoa esse tema. Da crueza de ‘Back Stabbers’ do The O’Jays às confissões afiadas de Pitty em ‘Me Adora’, a cultura popular vive repetindo a mesma melodia: quem trai não está falando sobre o outro — está, na verdade, tentando berrar alguma verdade sobre si. A traição é o refrão desafinado de quem não aprendeu a se ouvir.

Na literatura, Machado de Assis já sabia disso quando desenhou personagens que se alimentam das próprias contradições. Ele mostrava que o traidor é muitas vezes um autor frustrado escrevendo sua narrativa de poder, tentando compensar a pequena autoridade que tem sobre a própria vida. Não é sobre amor. É sobre vaidade.

O pensamento oriental costuma tratar o ego como um animal inquieto que, quando não treinado, morde a própria cauda achando que captura algo valioso. Buda ensinava que o desejo é a raiz do sofrimento”. Assim, a traição se revela como um desejo desgovernado que não leva ao prazer duradouro, mas à eterna sensação de vazio — o tipo de vazio que só cresce quanto mais se tenta preenchê-lo com aventuras rápidas e promessas quebradas.

Clayton Alexandre Zocarato

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