Entrevista com o escritor Kosovar Vilson Culaj

Magna Aspásia Fontenelle

‘Entrevista com o escritor Kosovar Vilson Culaj’

Logo da seção Entrevistas ROLianas
Logo da seção Entrevistas ROLianas
Kosovar Vilson Culaj
Kosovar Vilson Culaj – Arquivo pessoal

Entre memória e esperança, a literatura ergue sua voz como ponte entre povos e tempos. Vilson Culaj, escritor kosovar, constrói sua obra a partir das brasas da experiência humana, tecendo narrativas que dialogam com a história, a identidade do seu povo.

Em “A Fornalha de Nabucodonosor”, o autor transforma o fogo em metáfora do sofrimento, da purificação e da reinvenção, convidando o leitor a uma travessia sensível pelos caminhos da palavra, da resistência e da esperança.

A literatura tornou-se elo entre fronteiras, unindo passado, presente e futuro numa linguagem universal que o escritor kosovar Vilson Culaj se posiciona por meio de seus escritos, evidenciando seu estilo singular entre história, seu país e suas experiências pessoais.Mantendo suas obras atuais e atemporais, respeitando a história inserida na sua vivência pessoal e laboral.

1 – Conte-nos sobre sua trajetória de vida. Família, labor, sonhos.

VC – Eu nasci em 06 agosto de 1973 em uma cidade chamada Klinë, localizada no noroeste do Kosovo. Sou casado com Liza Radi Culaj, a mulher que completa minha vida em todas as dimensões espirituais, intelectuais e meu espaço literário e de socialização. 

Do fruto do nosso amor, temos três filhos Beatrice, Eliente e Nikolla, todos os três concluíram os estudos e trabalham em Pristina em suas respectivas profissões. Beatrice – jornalista de TV, Elienta designer profissional e Nikolla trabalha em uma empresa americana de Ciência da Computação. 

Atualmente trabalho como secretário em uma escola primária com 1.500 alunos e 75 professores, exigindo um trabalho administrativo dedicado e um tato e cortesia sublimes. 

Quanto aos sonhos, tenho apenas um sonho: acordar do sonho e realizar minha vida profissional, literária, familiar, e ser uma luz para as gerações mais jovens graças às capacidades que possuo.

Vilson Culaj – Në Parajsën (PO)etike të Zejnulla Halilit

2 – Como surgiu sua vocação literária e quais influências marcaram sua trajetória?

VC – Certa vez, em um verso meu, expressei risos, a vida é um chamado como um sino. Nesta disputa, quero dizer que as crianças que crescem com um dos pais longe, mas não separados, têm uma sede mística pela causa da vida e dos vazios emocionais (o meu pai permaneceu na Alemanha por razões econômicas durante 35 anos). 

A partir daí iniciei a busca pela minha vida espiritual, indagando o “porque existencial” num mergulho em dimensões espirituais, por vezes místicas.

Quando acrescentamos essas coisas à cultura maratonista da leitura, acredito estar no caminho correto para cumprir minha missão literária na construção e realização de minha história pessoal.

Meu chamado literário não tem a gênese do romantismo, do Eros ou do Thanatos, mas do Biofil, da harmonia, da paz (amor, existência e filantropia), contudo nas travessias das provações para que o homem visionário, conhecedor e valioso possa ser posto em ação como guia e se tornar o guardião das orientações do novo para as nações e para o mundo.

 A vida me ensinou que, o ignorante é o travesseiro do diabo. 

Então vamos pedir um outro tipo de homem no mundo iluminado que não ande nas trevas.

3 – O que o inspirou a escrever A Fornalha de Nabucodonosor?

VC – Na vida, o evento deve acontecer, caso contrário, como poderíamos entender a lei da quebra no mar ‘’ Certa vez refleti em um versículo meu. E como a vida é paz e tempestade, aos 25 anos, vivi a última guerra no Kosovo, tal como os meus antepassados viveram. 

Na vida, o acontecimento precisa ocorrer; caso contrário, como poderíamos compreender a lei da ruptura no mar, refletida outrora em um de meus versos. Observei   que a vida é feita de paz e tempestade, aos 25 anos vivi a última guerra no Kosovo, assim como a viveram meus antepassados diante do mesmo inimigo antigo.

Negar a um povo 2.000 anos de história, existência e direito natural e expulsar o povo de Israel para além das suas fronteiras naturais, tal como fez outrora o Rei Nabucodonosor, não havia outra forma de acontecer nem outra maneira para que eu começasse um romance e colocasse esses dramas coletivos e nacionais no papel.

 É o fogo e o forno que queimam, mas não extinguem o ser descrito neste romance, como Ester de época, aqui se realiza o sacrifício da mulher albanesa, que a partir da tragédia se transformou em uma mensagem histórica da sobrevivência de um povo esquecido pelos mapas antigos.  

Capa do livro Furra e Nakukodonozorit

4 – Por que escolheu Nabucodonosor como símbolo central da obra?

VC – Deve haver um tirano para falar sobre os dramas de uma nação inocente como o povo albanês. Nabucodonosor foi a metáfora literária e o protótipo do líder sérvio Milosevic, que, alimentado pelo ódio nacional e ideológico e pela síndrome do colapso, negou tudo o que era albanês, até atos genocidas, homicídio cultural, religioso, étnico e existência. 

A última mensagem deste romance é a metáfora de que, se um povo não repetir sua trágica história, ele deve primeiro estar ciente de sua origem, da liberdade conquistada, do sacrifício ao longo dos séculos e do sangramento para se integrar aos povos livres do mundo. 

E a mensagem aos tiranos é que na história do mundo eles não o ditam, mas sim, o plano Divino de Deus e o direito natural de existir.  

5 – Conte-nos sobre suas obras literárias, poética.

VC – Como qualquer jovem, comecei com poesia ou com a primeira obra, “Sons Inéditos” que foi extremamente bem recebida pelos leitores. Foi um bom sinal de que eu tinha um sistema organizado de ideias e grandes inspirações para continuar a maratona literária após essa publicação. 

Os acontecimentos recentes da guerra me impulsionaram para novas inspirações e publiquei o romance, “Forno de Nabucodonosor”, para chegar ao livro de poemas, DAHO & VE ‘’ que na quebra simbólica da mensagem expõe o amor horizontal e pessoal. 

Portanto, o amor a Deus e ao homem, onde ambos juntos dão o sinal de salvação e felicidade interpessoal. O quarto livro é uma antologia poética, “Partida Desfeita”, dedicada ao conhecido escritor infantil Rifat Kukaj, que foi extremamente bem recebida pelos leitores. 

O quinto livro é uma curta prosa psicológica, “Tempestade Adormecida”, sobre a qual dezenas de críticas e análises literárias foram escritas. 

Estou convencido de que o romance, “Os Excluídos”’, no qual trabalhei por  14 anos, é meu auge literário porque cerca de 25 críticas literárias foram escritas sobre ele e grandes promoções foram feitas, incluindo Pristina, Shkodra e Tirana, onde este romance ganhou em 2015 o prêmio literário de romance do ano. 

O livro poético, “Duas Vezes” segundo a crítica literária é um hino literário e poético e ainda circulam opiniões e debates sobre os valores artísticos deste livro.

 Depois publiquei o romance, “Amor Intocável”, ganhador de dois prêmios literários, incluindo um prestigioso prêmio, “Dom Ndre Mjeda” em Tirana, compartilhado pela Academia Literária em Mirdita, publiquei o livro poético “O Muro da Memória”, que foi comtemplado com muitas avaliações e críticas literárias. 

Minha maratona literária foi precedida pela antologia e livro de estudos,” No Reino Poético de ´ ZEJNULLAH  HALIL ‘’, livro que conquistou a opinião e a mídia por seus valores literários, seguido por dois livros com críticas literárias: volume 1- A Luz do Conhecimento”, que inclui 63 análises literárias de minha parte para nomes eminentes da literatura albanesa, volume 2: A Luz do conhecimento composto de 50 críticas literárias de outros críticos e da minha literatura pessoal. 

Em 10 de janeiro de 2026 foi publicado o romance histórico, 7 DIAS À MESA COM MONSENHOR. MARK SOPIN ‘’ uma figura clerical emblemática, abordagem humana e diplomática. 

Amigo próximo do presidente Ibrahim Rugova e filantropo sem excelência. Este romance foi promovido no salão cultural Pogdani Polis, localizado no edifício da Catedral de Madre Teresa, em Pristina, na presença de um número extremamente grande de participantes e intelectuais proeminentes do Kosovo e da Albânia.  

Capa do livro Muri I Kujtësës

6 – Como a história e a identidade kosovar atravessam sua narrativa?

VC – Penso, logo, existo, segundo Descartes, mas não pretendo atingir as alturas literárias apenas mediante emoções, experiências pessoais e sociais, racionalismo etc., mas por meio de um espiritismo expresso e de uma intuição sociológica e histórica que me chama de segunda voz no deserto. 

O universal e o local para mim são duas faces da moeda, sem a qual um talento ou valor monetário não pode chegar ao seu mercado, ou missão. O universal torna você livre, enquanto o local às vezes endurece suas visões. 

Entretanto, compartilho da opinião de que a troca de culturas e realidades históricas é a riqueza e a necessidade da humanidade. Você não pode simplesmente terminar de fumar um cigarro e nem morrer, disse uma vez um ganhador do Nobel russo. 

Quanto à minha identidade literária e albanesa nacional, está se tornou uma tradição literária e uma consciência elevada, mas na verdade gosto de ser um “peixe’’ do mar e não do pântano, não de nenhum superego expresso e sinto que a luz quando é chamada assim, não deve interromper a jornada em direção àqueles espaços celestiais. 

O sacrifício pelo gueto às vezes alimenta apenas mitos e sombras de valores, enquanto servir significa reinar em outros espaços espirituais, culturais e literários…

Não estou dizendo que sou um detector de eventos e histórias dentro da minha nação, mas meus escritos se assemelham a uma grande verdade, onde revelam realidades históricas vivenciadas pelos olhos e corações de muitas pessoas e do mundo exterior. Não há glorificações de “melodias enganosas”, mas drama e emoção no início do novo milênio.  

7- Qual a simbologia da “fornalha” no contexto humano e social?

VC-Esse simbolismo literário tem muitas visões, mas a mensagem principal é o fogo catártico para uma nação desprezada há séculos. É a guerra de Davi com Golias e o espírito, assim como, os altos ideais de uma pequena nação que nunca se rende ao mal.

 O forno é o estado em que o fogo queima e tenta sem poder extinguir o ser e as visões de uma nação e do indivíduo. 

Este forno de martírio babilônico e bíblico, é um sino para os ouvidos dos outros de que as nações não devem ser pisoteadas, mas devem ter uma grande chance de liberdade e integração.

Nenhuma dança mortal serve ao mundo sem a melodia da paz. Se voltarmos ao passado em nossa memória, entenderemos que o mundo inteiro é irmão e irmã no Jardim do Éden. 

Nós, como criaturas, não devemos nos tornar uma fornalha do Holocausto que destrói, mas, um caminho que se abre para a liberdade e a humanidade, como os rios que unem as margens. Quem tem coração pode experimentar ambos…    

Capa do livro Stuhi E Fjetur

8 – Qual é, hoje, o papel da literatura kosovar diante das crises do mundo?

VC – Na minha opinião, a literatura do Kosovo é substancial porque nasce de dramas, eventos dolorosos, grandes inspirações e do desejo de uma vida integrada, bem como da sede de transcender sua cultura ancestral, ou melhor, europeia. 

A literatura albanesa do Kosovo precisa de abertura, de contato com a literatura mundial como uma espécie de catapulta cultural, para projetar novos valores além das fronteiras nacionais.

A guetização da literatura é inimiga dos escritores. Os apelos poéticos e literários não devem ser limitados, assim como o espírito e a liberdade. 

A grande oportunidade de abertura literária e a influência dessa literatura no mundo estão batendo à nossa porta. Traduzir essa literatura para outros idiomas abriria novos caminhos para uma parceria literária.

A barreira linguística deve ser eliminada por outros meios para que se alcancem os prazeres da ascensão, como diria Márquez.

9 – Que impacto espera causar nos leitores?

VC- O bom semeador não reclama nem na terra nem no céu. Seu objetivo é plantar sementes literárias. Quanto ao nível nacional, acredito que criei um nome na literatura, mas ficaria feliz se a literatura brasileira e a de outras nações me acolhessem como um filho perdido no tempo. 

Somente a alma que sente e a luz não pedem permissão para suas viagens. Eles não têm começo nem fim. Tal catapulta me ajudaria a expressar meus valores literários que ficam sentados e esperam sedentos no portão do céu.   

10 – Deixe uma mensagem para os escritores brasileiro.

VC-O Brasil é uma grande nação e possui herança literária ao nível mundial. Seu modelo literário tem em si espiritismo, drama, valor e progresso. Este grande atlas da cultura mundial servir-nos-ia como pequenos povos para nos elevar a dimensões superiores. 

O universal é o meu sangramento cultural, embora o nacional muitas vezes saiba como nos endurecer. 

Desejo que esta minha entrevista seja uma janela para mim e uma ponte literária entre estes dois povos. Um sorriso cheio de graça da alma pode mudar a vida de uma pessoa, disse Madre Teresa certa vez.   

 Muito obrigada pela sua participação!

Abraços poéticos!

Sobre o entrevistado

Kosovar Vilson Culaj – Arquivo pessoal

Vilson Culaj nasceu em 6 de agosto de 1973, em Klinë, Kosovo. Concluiu o ensino fundamental e médio em sua cidade natal e graduou-se em Direito pela Universidade de Pristina, onde também realizou estudos de pós-graduação em Relações Internacionais e Diplomacia.

Iniciou sua trajetória literária ainda no ensino médio, colaborando com diversos jornais e revistas culturais e literárias do Kosovo, do Montenegro e da Albânia. Atua nos gêneros de ensaio, poesia, prosa e crítica literária, destacando-se pela profundidade filosófica e psicológica de seus textos.

Desde a década de 1990, participa ativamente da vida cultural e literária em Kosovo e em outros países, integrando inúmeros encontros, festivais e manifestações literárias, nos quais recebeu importantes prêmios e reconhecimentos, incluindo distinções por prosa e poesia. Entre os principais prêmios, destacam-se: Prozador do Ano (2016), Prêmio de Carreira (2019), 1º Prêmio de Poesia do Albanian Talent Show (2021), 1º lugar no concurso “Ora e Tahir Deskut” (2021) pelo romance Amor Intocado, e o Prêmio NDRE MJEDA (2023), em Tirana, pela melhor prosa.

Profissionalmente, atuou como jornalista no Tribunal Municipal de Klinë, foi professor do ensino fundamental e atualmente exerce a função de secretário escolar. É colaborador ativo da revista literária Mirdita e suas obras constam em antologias e diversas publicações. Seus livros têm sido amplamente estudados e analisados por críticos literários de renome.

Até o momento, ele publicou os seguintes livros:

  1. “Tinguj të padëgjueshëm” (Sons Inaudíveis), poesia, Clube dos Escritores “Vorea Ukjo”, Klinë, 1998.
  2. “Furëza e Nebukadnetsarit” (A Fornalha de Nabucodonosor), romance, Clube dos Escritores “Vorea Ujko”, Klinë, 2001.
  3. “DAHO & VE”, poesia, Editoras “Shpresa” e “Faik Konica”, Pristina, 2003.
  4. Organizador da coletânea antológica “Zhbërja e Ikjes” (Partida Desfeita)), poesias dedicatórias de 101 poetas ao escritor Rifat Kukaj, publicada pela SHKK “Anton Pashku”, Pristina, 2006.
  5. “Sleeping Storm” (Tempestade Adormecida), prosa, SHKK “Anton Pashku”, Pristina, 2009.
  6. “Dy herë” (Duas Vezes), poesia, SHKK “Anton Pashku”, Pristina, 2013.

             É membro da Liga dos Escritores do Kosovo desde 2002.

  1. “Të Dëbuarit” (Os Exilados), romance, 2015 — seu sétimo livro consecutivo, ultrapassando fronteiras nacionais pelo valor artístico, ideológico e pela força de sua mensagem.
  2. “Dashuri e Paprekur” (Amor Intocável), romance, Editora Jakup Ceraja, Pristina, 2021.
  3. “Muri i Kujtesës” (O Muro da Memória), poesia, Editora Jakup Ceraja, Pristina, 2021 — seu nono livro consecutivo.
  4. “Në Parajsë (po) Etika nga Zejnullah Halil” (No Paraíso, a (po)ética, de Zejnullah Halil) — seu décimo primeiro livro consecutivo.
  5. “Në dritën e dijes 1” (À Luz do Saber 1), crítica literária — décimo primeiro livro.
  6. “Në dritën e dijes 2” (À Luz do Saber 2), crítica literária — décimo segundo livro consecutivo.
  7. “Shtatë ditë në tryezë me Imzot Mark Sopi” (Sete Dias à Mesa com Dom Mark Sopi), romance — obra subsequente.

Magna Aspásia Fontenelle

Esta entrevista é parte da parceria entre ALB/ Uberaba- AAP-BRASIL e AAP-Albania

Voltar

Facebook




Entrevista con el poeta errante Ron A. Kalman 

Carlos Javier Jarquín

‘Entrevista con el poeta errante Ron A. Kalman’ 

Logo da seção Entrevistas ROLianas
Logo da seção Entrevistas ROLianas
Ron A.  Kalman, es coautor de CANTO PLANETARIO, Volumen I (H.C. EDITORES, Costa Rica, 2023), donde aparecen dos poemas suyos en versión bilingüe español-inglés, traducidos por la poeta y traductora colombiana María Fernanda Del  Castillo Sucerquia.
Ron A.  Kalman, es coautor de CANTO PLANETARIO, Volumen I (H.C. EDITORES, Costa Rica, 2023), donde aparecen dos poemas suyos en versión bilingüe español-inglés, traducidos por la poeta y traductora colombiana María Fernanda Del  Castillo Sucerquia.

Queridos amigos planetarios:

Hoy les presento a un amigo, poeta y sobre todo humanista, Ron A. Kalman, nacido el 6 de marzo de 1959 en Haifa, Israel. Sus padres, Gabor J. Kalman y Suzana Kalman, emigraron allí tras abandonar Budapest durante el Levantamiento Húngaro de 1956. A los 3 años, la familia se mudó primero a París, luego a Boulder, Colorado, y finalmente, a los 7 años, se estableció en la zona de Boston, Estados Unidos.

Su infancia estuvo acentuada por viajes constantes por distintos países, donde vivió anécdotas complejas para su edad. Su primer idioma fue el húngaro, seguido del francés y luego el inglés. Esas experiencias itinerantes se reflejan en su obra literaria, caracterizada por un sensible tono autobiográfico. No todos los autores logran transmitir la vida personal con tanta autenticidad como él, su estilo único invita a los lectores no solo a leer, sino a analizar y reflexionar desde la vivencia profunda.

En esta entrevista, Ron nos habla del impacto que ese mundo errante tuvo en su poesía. Como él mismo menciona en una respuesta: “aprendí a observar con cuidado y a cuestionar antes de aceptar cualquier cosa”. Kalman es coautor de CANTO PLANETARIO, Volumen I (H.C. EDITORES, Costa Rica, 2023), donde aparecen dos poemas suyos en versión bilingüe español-inglés, traducidos por la poeta y traductora colombiana María Fernanda Del  Castillo Sucerquia. En la charla, explica brevemente el mensaje de ambos.

Comenzó a escribir con mayor libertad después de los 27 años y, tras muchos años, halló su estilo literario único. Su poesía, inspirada en vivencias como la migración, los idiomas y las culturas, lo convierte en un genuino observador de la cotidianidad en sus múltiples dimensiones. A través de la poesía, a lo largo de su vida, ha sabido transcribir esos mensajes silenciosos que, por circunstancias inexplicables, ha vivido. Espero que disfruten mucho esta entrevista y se den la oportunidad de conocer más a este autor estadounidense errante.

  • Entrevista

Nació en Haifa (Israel) de padres que acababan de huir de Budapest, y de niño también vivió en París, Boulder (Colorado) y luego en Boston. ¿De qué maneras han impactado estos traslados en tu obra literaria?

Creo que estar arraigado en un lugar y una cultura particulares tiene mucho que ver con cómo escribes. Como mi familia se mudó tantas veces —todo antes de que yo tuviera siete años— nunca desarrollé un sentido fijo de pertenencia a un solo lugar. Esa inestabilidad temprana moldeó cómo me relacionaba con mi entorno. Aprendí a observar con cuidado y a cuestionar antes de aceptar cualquier cosa.

Muy temprano desarrollé un escepticismo saludable hacia cualquier cosa que oliera a lealtad institucional o patriotismo forzado. Ese escepticismo se extendió a la literatura también. Incluso en la poesía hay tradiciones nacionales y estándares estéticos a los que se espera implícitamente que adhieras. Nunca me sentí atado por esas expectativas. Si algo, mudarme entre culturas me hizo ver el lenguaje como algo fluido.

¿Qué anécdota de vivir en diferentes ciudades durante tu infancia te marcó para siempre?

Cuando llegamos a Boulder, yo tenía seis años y me pusieron directamente en primer grado sin saber una palabra de inglés. Había una niña en la clase que hablaba algo de francés, así que me pegué a ella. Durante dos meses la seguí a todas partes —aula, patio— tratándola como mi intérprete personal.

Un día se volvió hacia mí y me dijo que no quería que me sentara más a su lado.

Fue mi primera lección en independencia y moderación romántica. Aprendí que no es prudente seguir a una mujer por demasiado tiempo. Más importante aún, entendí que tarde o temprano tendría que valerme por mí mismo.

Habiendo crecido en un hogar húngaro y migrado entre Israel, Francia y Estados Unidos, ¿cómo han influido estas experiencias en tu visión poética del mundo y la identidad humana?

Mudarme entre países a una edad tan temprana me enseñó a acercarme a las culturas con humildad. Cuando llego a un lugar nuevo, al principio tiendo a observar más que a participar. Lo que me interesa no es la versión postal de un lugar, sino cómo viven realmente las personas —cómo se hablan, qué valoran, qué asumen sin decirlo.

La migración también me hizo receloso del nacionalismo fácil. Hay una línea fina entre sentir orgullo por tu cultura y elevarla al punto de volverte indiferente —o incluso despectivo— hacia las demás. Habiendo vivido entre lenguajes e historias, nunca me he sentido enteramente contenido en una sola identidad.

Ese sentido de estar en el intermedio se filtra en mi poesía. Mis personajes a menudo tienen una cualidad apátrida. Aunque he vivido casi toda mi vida en Estados Unidos, una parte de mí probablemente siempre permanecerá ligeramente fuera del marco —observando, traduciendo, perteneciendo y no perteneciendo al mismo tiempo.

¿A qué edad despertó tu pasión por la poesía?

Llegué a la poesía relativamente tarde —a los veintisiete. Es cierto que de niño ocasionalmente garabateaba un poema, y a los doce un profesor se maravilló con algo que escribí para una tarea. Pero me atraían mucho más las novelas que la poesía, que me parecía distante.

Después de la universidad, cuando empecé a tomarme la escritura en serio, naturalmente me volví hacia la ficción. Pasé varios años luchando con la forma novelística, tratando de hacerla acomodar ideas, personajes y lugares que me importaban. Solo por agotamiento —cuando estaba al borde de abandonar la escritura por completo— tropecé con la poesía.

Lo que llegó como una revelación fue que ideas que habían sido forzadas en forma narrativa se manifestaban en poesía con sorprendente facilidad. Entendí entonces que mi problema no había sido falta de compromiso, sino un desajuste de forma.

¿Qué autores han influido principalmente en tu obra poética?

Cuando aún estaba empeñado en escribir una novela, Henry Miller tuvo un impacto significativo en mí. A menudo se le recuerda por su tratamiento franco, incluso notorio, de la sexualidad, pero lo que me interesó más profundamente fue su lucha artística. Durante años buscó una voz que le pareciera auténtica. Solo después de mudarse a París en los años 30 algo se desbloqueó. La prosa se volvió exuberante, desafiante, sin disculpas, viva. Ese sentido de autodescubrimiento artístico se quedó conmigo.

En poesía, encontré una vitalidad comparable en Frank O’Hara. Después de mudarse a Nueva York en los años 50, se convirtió en una figura central en el mundo del arte del centro de la ciudad, estrechamente asociado con los expresionistas abstractos. Sus llamados poemas “hago esto, hago aquello” capturaban la inmediatez de la experiencia vivida —almuerzos, llamadas telefónicas, paseos por Manhattan— con ingenio y velocidad. Lo que admiraba era la sensación de que la poesía podía desplegarse en tiempo real, que la vida diaria misma podía llevar intensidad lírica.

¿Cuáles son los temas centrales que abordas en tu obra poética?

Me interesa cómo los momentos ordinarios, cuando se examinan de cerca, empiezan a llevar peso estético, y cómo el acto de escribir a su vez altera la percepción de la vida diaria.

Varios críticos han observado que muchos de mis poemas se detienen en la textura de lo cotidiano —conversaciones con amigos, interacciones entre amantes, los rituales silenciosos de leer y escribir. No veo estos temas como modestos o incidentales. Al contrario, creo que dentro de la vida ordinaria yacen las tensiones más grandes de la condición humana.

Si hay un impulso guía en mi poesía, es mostrar cómo el momento aparentemente pequeño puede abrirse a algo más expansivo —cómo el arte no está aparte de la vida, sino que crece directamente de ella.

Les invitamos a conocer de la obra poética del poeta estadounidense Ron A. Kalman. Foto/Cortesía.
Les invitamos a conocer de la obra poética del poeta estadounidense Ron A. Kalman. Foto/Cortesía.

¿Puedes contarnos sobre el mensaje principal de los poemas tuyos que publicamos en CANTO PLANETARIO?

Ambos poemas reflejan mi preocupación por cómo las grandes fuerzas políticas y ambientales entran en la vida ordinaria.

En My Next Car (mi próximo auto), una decisión aparentemente simple —si comprar o no un vehículo eléctrico— se abre a una reflexión sobre el cambio climático, la ideología y la incertidumbre. Una elección privada se vuelve inseparable del tumulto público.

En Cod (Bacalao), la migración forzada hacia el norte del bacalao atlántico se convierte en un espejo de nuestro propio futuro. Si incluso los peces deben reubicarse por el colapso ambiental, ¿qué sugiere eso sobre nosotros? En ambos poemas, el desplazamiento ya no es meramente personal —es ecológico y cada vez más inevitable. 

¿Qué ha significado para ti que parte de tu obra literaria haya sido traducida a diferentes idiomas?

Me siento afortunado de que mi obra haya sido traducida —no solo al español, sino también al húngaro. Dadas las raíces húngaras de mi familia (el húngaro fue mi primer idioma) y mi propio movimiento entre culturas, ver mis poemas entrar en otro idioma tiene una resonancia particular para mí.

La traducción siempre es un riesgo. Un poema depende tanto del ritmo, el tono y el matiz que puede sentirse frágil al cruzarse fronteras lingüísticas. Cuando un poema sobrevive ese viaje —cuando sigue hablando a lectores en otro país— sugiere que algo esencial en él no está atado a un solo idioma.

Afirma mi esperanza de que la poesía anclada en la vida ordinaria y la experiencia personal aún pueda alcanzar algo compartido. Me siento tanto humillado como conmovido al ver que mi obra ha encontrado lectores en otros idiomas.

Portada del libroAppearance of the Sun, (Main Street Rag Publishing, 2021)
Portada del libroAppearance of the Sun, (Main Street Rag Publishing, 2021)

¿Puedes contarnos sobre tu libro Appearance of the Sun, (Main Street Rag Publishing, 2021)?

La mayoría de los poemas de Appearance of the Sun fueron escritos durante la primera década después de que empecé a escribir poesía a los veintisiete. Aunque algunas piezas están ambientadas en lugares tan variados como Grecia, Hungría, Francia y San Francisco, el centro emocional de la colección es Harvard Square, donde vivía en ese entonces. En esa época aún conservaba algo del aura bohemia que había adquirido en los años 60.

Los poemas relatan un período formativo en mi vida cuando las amistades, enredos románticos, ambición artística y la formación de mi voz eran mis preocupaciones primordiales.

Me tomó más de veinte años encontrar un editor para el manuscrito, lo que hace que su recepción eventual sea aún más significativa. Me gratificó que el libro fuera bien recibido, con poemas individuales apareciendo en varios países sudamericanos y en Europa. Un poema fue incluido en una antología internacional publicada en Serbia, y toda la colección fue traducida después al húngaro y serializada en una revista literaria. Su recepción compensó su largo viaje hacia la publicación.

¿Por qué, después de completar tu Máster en Bellas Artes, decidiste trabajar como mensajero en un hospital y luego como chófer de limusina?

Es común en Estados Unidos que los poetas con un MFA persigan una carrera académica. Elegí no tomar ese camino, en parte porque no me atraía enseñar y en parte porque la academia puede fomentar una cierta profesionalización de la voz que no se alineaba con mi estética.

Mi escritura siempre ha estado anclada en la experiencia vivida, y quería que mi vida de escritura y mi vida real permanecieran estrechamente entrelazadas.

Trabajar primero como mensajero en un hospital —transportando especímenes, sangre y médicos entre instalaciones— y luego como chófer de limusina me dio algo invaluable: independencia. Pude pagar mis cuentas sin tener que conformarme artísticamente. También me mantuvo en contacto con una amplia gama de personas y situaciones que ningún taller podría replicar.

Desde tu perspectiva como poeta, ¿qué piensas sobre el rápido avance de la inteligencia artificial (IA)?

Creo que la inteligencia artificial puede ser una herramienta valiosa en muchos campos. Pero en relación con las artes, me acerco a ella con cautela.

La IA puede generar textos que se asemejan a poemas. Pueden imitar estilo, estructura, incluso tono. Pero para mí, el arte no se define solo por cómo se ve o suena. Emerge de la conciencia —de la experiencia vivida, de la lucha, de la contradicción, de la presión de una vida particular desplegándose en el tiempo.

Para entender plenamente una obra de arte, creo que debe situarse dentro de un parámetro humano. Debemos considerar qué la precedió, qué la siguió y cómo se relaciona con la biografía del artista. Recientemente leí una biografía de Willem de Kooning que arrojó luz sobre sus famosas pinturas de mujeres. Saber algo sobre su historia, relaciones y conflictos profundizó la obra.

¿Alguna vez leeremos una biografía de un algoritmo? ¿Podemos preguntar cómo su infancia moldeó un verso, o cómo sus decepciones alteraron su imaginería?

Para mí, el arte es inseparable de la lucha y la vulnerabilidad. La IA puede simular expresión, pero no arriesga nada en el acto de creación. Y sin riesgo, no estoy seguro de que la palabra “arte” aplique plenamente.

¿Qué nuevas publicaciones literarias puedes compartir con nosotros?

Estoy muy ansioso por la publicación de la antología poética bilingüe español-inglés sobre la PAZ que tú, Carlos Javier, estás preparando y que este año verá la luz. Me siento afortunado de tener dos de mis poemas incluidos en ella, especialmente dada su escala internacional y su amplia lectoría.

Al mismo tiempo, estoy trabajando en un nuevo libro de poesía que aún está en progreso. Prefiero no decir demasiado sobre él, ya que describir un proyecto prematuramente a veces puede disminuir la energía que lo sostiene. Pero espero tenerlo listo para publicación en un futuro cercano.

¿Tienes algún proyecto en curso para publicar una colección de poesía bilingüe español-inglés?

En este momento, no tengo planes para publicar una colección bilingüe español-inglés. Sin embargo, es una idea que me atrae.

Aproximadamente dos tercios de Appearance of the Sun ya han sido traducidos al español, y esos poemas han sido bien recibidos en países de habla hispana. Una edición bilingüe se sentiría como una extensión natural de ese trabajo.

Si la logística —editor, formato, distribución— se puede alinear, ciertamente es un proyecto que acogería con gusto.

Estimado Carlos Javier, finalmente, me gustaría agradecerte por tus preguntas reflexivas y por darme la oportunidad de reflexionar públicamente sobre estos aspectos de mi obra. Ha sido un intercambio significativo.

Querido y admirable poeta Ron A. Kalman, te agradezco enormemente que nos hayas permitido conocer un poco más de tu vida y trayectoria literaria. Ha sido un verdadero placer charlar contigo a través de este formato. Te deseo muchos éxitos en cada uno de tus proyectos.

En el siguiente enlace, leo un poema de la autoría de nuestro poeta entrevistado: https://n9.cl/k2t2iw 

  • Nota: la presente entrevista ha sido traducida del inglés al español mediante Perplexity AI.

Carlos Javier Jarquín

Voltar

Facebook




Zekhalifa Successor

“Escolho o som que traduz o que sinto, mesmo quando nem eu sei explicar. A estética, para mim, também é sobrevivência.” (Zekhalifa Successor)

Logo da seção Entrevistas ROLianas
Logo da seção Entrevistas ROLianas

Zekhalifa Successor é um artista moldado cedo pela vida e pela urgência de dizer. Profissional desde a infância, encontrou na música um espaço de resistência, identidade e verdade. Nesta entrevista com Bruno Areno, ele fala sobre origem, silêncio, ruptura estética e a necessidade de criar sem pedir permissão — não para ser famoso, mas para permanecer inteiro.

Entrevista com Zekhalifa Successor.

Zekhalifa Sucessor - Foto por Mextech
Zekhalifa Sucessor – Foto por Mextech

Bruno Areno: Zekhalifa, você começou cedo demais para o mundo e cedo demais para o sonho. Aos 7 anos já era profissional. Que parte da sua infância você perdeu e qual parte você transformou em música para não enlouquecer?

ZK: Perdi o tempo despreocupado. Aquele tempo em que a infância corre sem saber que corre. Enquanto outros brincavam, eu já aprendia a cair. A escola não me segurou — não por falta de vontade, mas porque a vida me puxava pelo braço. Então entreguei minha confusão à música. Ela virou o lugar onde minha criança ainda respira sem pedir desculpas.

Bruno Areno: Você vem de Nampula, mas sua música não parece pedir permissão a um lugar específico. Quando você canta, você quer representar sua província ou escapar dela?

ZK: Nem sempre canto para representar um chão. Às vezes canto para alargar o chão. Trago sons que não eram esperados, não para negar minha terra, mas para dizer aos meus conterrâneos que o possível é maior do que o hábito. Inovar também é um gesto de amor.

Bruno Areno: Seu pai e sua mãe estiveram fora do mercado de trabalho formal. Isso te ensinou mais sobre fragilidade ou sobre resistência? Onde essa verdade aparece nas suas letras?

ZK: Aprendi resistência. Aprendi que a vida não pede licença. Ter nascido assim me moldou. Se tivesse vindo de um berço confortável, talvez nunca tivesse aprendido a sonhar com fome, nem a investir em mim mesmo. Minhas letras carregam essa verdade: a de quem aprendeu a ficar de pé sem apoio.

Bruno Areno: R&B, trap-melodic, zouk, afrobeat… você mistura gêneros como quem mistura feridas. Essa fusão é escolha estética ou reflexo de uma identidade ainda em construção?

ZK: É escolha. Escolho não caber em um só lugar. Escolho o som que traduz o que sinto, mesmo quando nem eu sei explicar. A estética, para mim, também é sobrevivência.

Bruno Areno: Ser parte do grupo Rich Future foi um abrigo ou uma provocação?

ZK: Foi uma aprovação silenciosa. Como um sinal de que eu podia continuar.

Bruno Areno: Você é mais forte no coletivo ou no silêncio solitário do estúdio?

ZK: No silêncio. É ali que eu me escuto. E quando me escuto, viro música.

Bruno Areno: Você se chama Successor. Sucessor de quem?

ZK: Sou sucessor do rap que não teve medo de dizer. Herdeiro da palavra que insiste.

Bruno Areno: Do que exatamente você sente que precisa continuar, e o que você quer romper definitivamente na música moçambicana?

ZK: Preciso continuar porque isso é o que me escolheu. A música é o lugar onde sou inteiro. Quero ser grande, sim — mas grande pelo diferencial, pela verdade. Romper com a repetição vazia. Permanecer onde há alma.

Bruno Areno: Existe uma dor que você ainda não conseguiu cantar? Algo que fica preso na garganta quando o beat começa?

ZK: As dores nunca acabam. Algumas ainda não sabem virar som. Mas quando encontram espaço, eu deixo que falem. Sempre deixo.

Bruno Areno: A fama é uma promessa perigosa. Você quer ser ouvido ou compreendido? E se o mundo ouvir, mas não entender, isso te basta?

ZK: Quero ser ouvido e compreendido. Mas se o mundo ouvir e não entender, eu continuo. Canto mais. Insisto. Até que sintam — mesmo que não saibam explicar.

Bruno Areno: Se amanhã tudo acabasse: shows, streams, aplausos… quem seria Zekhalifa sem a música? Essa resposta te assusta ou te liberta?

ZK: Me liberta. Porque mesmo sem o palco, a música já mora em mim.

Bruno Marquês Areno

Voltar

Facebook




Nas Entrevistas ROLianas, Jessemusse Cacinda!

“A minha frustração é não conseguir ler todos os livros. Os livros funcionam como um veneno, mas também como antídoto para alma.” (Jessemusse Cacinda)

Logo da seção Entrevistas ROLianas
Logo da seção Entrevistas ROLianas
Jessemusse Cacinda  - Foto enviada pelo entrevistado
Jessemusse Cacinda – Foto enviada pelo entrevistado

Mano Jessemusse, as minhas entrevistas não são um arquivo bibliográfico. Se por acaso jorrar entre os meus lábios uma questão sobre quem tu és, acredita, trata-se de um puro e inocente acidente. Por esta razão, começo este nosso diálogo perguntando:

Bruno Areno — Quem é para ti o grande escritor moçambicano da actualidade?

Jessemusse Cacinda — Esta é uma pergunta muito difícil. A literatura moçambicana da actualidade é marcada pela coabitação entre a chamada geração charrua e as gerações posteriores, por isso tenho dificuldades a identificar um autor que eu chamaria de o grande da actualidade. Acho que o poeta Álvaro Taruma tem assumido um consenso interessante entre a nova geração e eu concordo.

Tenho particularmente muito orgulho pelo que o Mélio Tinga se tornou, estive a ler o seu livro ‘Arder no Gelo’ e conversei com o Professor Francisco Noa a respeito. Mélio Tinga é daqueles autores que se a Ethale tivesse condições de monopolizar o seu passe no mercado, faríamos um contracto para termos os direitos de toda sua obra. Entre os autores, tenho particular admiração pelo Ungulani Baka Khossa.

BA — A humanidade é feita de mentiras. Dizem-nos que a leitura faz bem para a alma, mas tu, Jessemusse, sabes muito bem que após uma leitura vem sempre a indagação, o questionamento, o desassossego. Nenhum académico ou leitor sob a face da Terra vive feliz, alegre, satisfeito. Felizes são os analfabetos, esses seres que desconhecem a hora da sua morte e que, mesmo depois de mortos, cantam como se os vivos continuassem a ouvi-los. Tudo isto apenas para saber o título do livro que te está a roubar a paz nestes dias. O que gostarias de ler e não estás a ler?

Jessemusse Cacinda  - Foto enviada pelo entrevistado
Jessemusse Cacinda – Foto enviada pelo entrevistado

JC— A minha frustração é não conseguir ler todos os livros. Os livros funcionam como um veneno, mas também como antídoto para alma. Gostaria de ler mais livros da África do Norte, o chamado Magreb e da Ásia. Iniciei uma incursão por aquele mundo e estou profundamente surpreendido com a frescura com que os autores olham para a realidade.

BA — Diz-me algo: qual foi o grande autor que descobriste?

JC — Nunca descobri ninguém, apenas conheci grandes autores. Os meus autores favoritos continuam Albert Camus, Jean Paul Sartre e Alain Mabanckou. Este último que faz livros como se fossem álbuns de música congolesa. Voltei a ler Toni Morison, Jazz por conta de um novo projecto que ando a experimentar.

BA — E qual ainda não descobriste?

JC — Quando for a descobrir, terei resposta, por agora, não consigo desvendar o que me parece oculto.

BA — Queres falar da nova antologia poética organizada pelo Eduardo Quive e por ti?

JC — É um projecto que funciona como montra. Iremos apresentar em Portugal (Lisboa, Coimbra e Porto) e em Moçambique (em várias cidades onde temos autores). A ideia é fornecer um quadro da diversidade da literatura que se está a produzir no país.

BA — Numa conversa telefónica que tive com o grande Jordão Domingos, ele questionou: “Por que não houve uma chamada pública? É apenas para ‘escritores grandes?'” Transfiro essa questão a ti.

Capa do livro "Kwashala Blues
Capa do livro “Kwashala Blues

JC — Usamos o critério da acessibilidade, ou seja, juntamos os autores que conhecíamos e que de certa forma tínhamos acesso. Convidamos muitos autores que se mostraram indisponíveis e a antologia é o resultado que tivemos. Sobre chamada pública, a Ethale não tem sido bem-sucedida com isso. fizemos duas chamadas públicas desde a nossa fundação há 9 anos e não tivemos sucesso. Agora iremos celebrar 10 anos e pretendemos voltar a fazer chamadas públicas para a identificação de interessados.

BA — Tu entras em angústia? Para mim, os seres humanos são seres angustiados.

JC — Claro. Acho que viver é aprender a lidar com a angústia.

BA — Existe escrita sem dor?

JC — Provavelmente exista, mas a minha é de dor. No Kwashala Blues há dor nas várias mortes as quais somos condenados por viver em Nampula e a meio disso, procuramos o verso de um poema ou o ritmo de uma boa música. Assim, surgiu a minha proposta estética de um livro de estreia que superou as minhas expetativas.

BA — Do que não te arrependes de não ter feito?

JC — Ter editado livros num país de oralidade e que pouco valor dá a cultura.

BA — Ainda há possibilidade?

JC — Nada. Terei sempre orgulho disso.

BA — E do que fizeste e te arrependes?

JC — Não ter perdoado aos que me magoaram.

BA — Jessemusse fez coisas que jamais revelaria a ninguém?

JC — Claro. Temos sempre segredos que nos ajudam a construir uma mítica do que somos.

BA — Cometeste grandes gafes na vida?

JC — Claramente. E foram muitas.

BA — E imprudências?

JC— Também.

BA — Não queres contar uma?

JC — São várias, mas uma que me marcou foi por eu ter entregue a minha biscicleta a um ladrão em Cuamba.

BA — Sentes uma admiração especial por algum personagem da história?

JC — Várias.

BA — Onde gostarias de ter vivido?

JC — Interessante. Quando eu era miúdo sonhava em ser um peregrino e viver em vários lugares do mundo. Agora, sigo a onda. Vou para onde a vida me leva.

BA — Choras?

JC — Sim.

BA — Quando choras, choras por quê?

JC — Por nada. Geralmente para mim mesmo. Não peço apoios porque tive de aprender a me virar sozinho muito cedo.

BA — O amor é horrível e chato?

JC — Não. O amor é uma das melhores coisas. Entretanto, como toda viagem, há acidentes. No Kwashala Blues, a Amália diz que a vida é uma viagem longa, e eu acrescentaria que é preciso não se arrepender por ter amado.

BA — A morte é terrível?

JC — E inevitável. É uma condição existencial. Por causa da morte, podemos ter limites enquanto humanos.

BA — Como gostarias de morrer?

JC — Ainda não pensei nisso.

BA — Como estás em matéria de amores?

JC — Muito bem resolvido.

BA — Para terminar, mano. Diz-me como está a Saúde mental dos moçambicanos, uma merda?

JC — Acho que um Doutor em Medicina, especialidade de Psiquiatria ou Doutor em Psicologia Clínica poderia melhor dizer isso. Agora, enquanto um entusiasta das discussões filosóficas, concordo com Byang Chun-Han sobre o excesso de narcisismo que provoca depressão. Todos querem ser vencedores e ninguém quer ser perdedor. Mesmo quando perdemos, acusamos os outros para a nossa derrota. E Jean Paul Satre muito disse, o inferno são os outros, e hoje, usamos essa máxima para justificar nossas loucuras.

Bruno Marquê Areno

Voltar

Facebook




Último Tango em Paris

CINEMA EM TELA

Marcus Hemerly: ‘Último Tango em Paris:
Uma jornada de escapismo’

Cinema em Tela - Último Tango em Paris: Uma jornada de escapismo
Cinema em Tela – Último Tango em Paris: Uma jornada de escapismo

Quando Marlon brando faleceu em 2004, muitos cineastas, críticos e profissionais de cinema manifestaram suas lembranças associadas à obra daquele que ainda é considerado o maior ator de todos os tempos. Filmes marcantes como ‘O pecado de todos nós’ e ‘O poderoso chefão’ foram citados, rememorando atuações icônicas e roteiros envolventes. E dentre eles, Arnaldo Jabor de maneira pertinente, lembrou-se da cena de ‘Último tango em Paris (1972), na qual o personagem de Brando traça um diálogo, em verdade, verte uma despedida catártica tom monologal com a esposa morta. A expressão aparentemente insensível, petrificada, tal como o cadáver disposto entre flores e preparado em necromaquiagem.

No entanto, as nuances emotivas pontuadas por extremos são uma sinfonia orquestrada na face de um mestre; sofrendo e odiando-a por ter fenecido. Por certo, o filme não é lembrado apenas por esta passagem, ou pelas cenas de sexo que levaram a boicotes, indiciamentos criminais e censura, ao mesmo tempo em que despontou como sucesso de público e crítica.

Na trama, em uma típica tarde nublada parisiense, os contornos gris unem os caminhos de Paul e Jeanne. Interessados em alugar um apartamento, ele; tentando fugir de sua realidade, ou, de seu despedaçar; ela, de certa forma insegura diante do seu casamento iminente, entrega-se à proposta de paul: encontrarem-se naquele apartamento, que será, a partir de então, seu mundo. Sem nomes, sem acontecimentos de fora, apenas compartilhando momentos ou um silêncio cúmplice.

Naquela cápsula de tijolos, mesmo sem trocar informações sobre o seu passado, se despem emotiva e fisicamente um ao outro. Desde incursões sexuais, até violências psíquicas e físicas, o inesperado casal agregado de forma clandestina pelo destino aos poucos embarca numa viagem sem rumo ou previsão de chegada, de mãos dadas e olhos cerrados pela nau dos insensatos (ou corajosos). 

O filme é notório por várias polêmicas, desde a maneira peculiar de filmar de Bertolucci, consagrado por títulos como ‘1900’ e ‘Cinema Paradiso’, até a famosa cena da manteiga, que por muitos anos supostamente teria sido verdadeira, na qual a personagem de Marlon Brando simula sodomia com Maria Schneider.

De fato, ainda que não tenha havido intercurso efetivo, soube-se que a cena e suas implicações não haviam sido previamente acertadas, de modo que a reação, surpresa e violação quase literal de Schneider, lamentosamente, são reais. Agressividade humana, covardia, impetuosidade e sentimentos conflitantes são explorados de modo intenso a fim de indicar o grau de egoísmo como mecanismo de defesa, normalmente quando contraposto a uma situação de trauma. 

De um lado, o viúvo rude e de sentimentos intransponíveis não entende a razão do suicídio de sua esposa, mola propulsora a seu rompante de autopunição e revolta dirigida a seu derredor, fetichizada em sua nova companhia, Jeanne. De outro giro, a jovem que tenta se agarrar a um resquício de inocência, vê na figura quase paternal, ao menos aparentemente, uma possibilidade de experimentação. Aos poucos, os jogos conscientes e inconscientes causam sentimentos de afago e sevicia quase concomitantes. 

Em 1972, data da première da produção, é possível entender o burburinho causado pelas cenas picantes entre Brando e Schneider. À época, os controversos ‘Calígula’ e ‘Império dos Sentidos’, primeiros filmes não designados ao circuito pornográfico a exibirem cenas explícitas ainda não haviam sido produzidos, e mesmo posteriormente inseridos no circuito de cinema de arte e composição de elenco consagrado, despertariam grande interesse de público.

 O mundo ainda flutuava entre o cinema exploitation de extremos gráficos pontuais e o florescer de comédias, bem como policiais com temática erótica estadunidense, a partir da relativa liberalidade da era pós Código Heys, que regulamentava o conteúdo das atrações americanas. Ainda que a sexualidade na sétima arte remonte, quase que de forma paralela à invenção do cinetoscópio, lembremos as seletas stag parties do início do século 20, a questão ainda era um tabu nos anos 70. E, quem sabe, ainda o é nos dias de hoje.

A famosa crítica de cinema novaiorquina Pauline Kael, chegou a classificar O último tango… como o mais poderoso filme erótico já feito, dentre outros encômios em sua introdução à edição comentada do roteiro, posteriormente novelizado pelo autor Robert Alley. Trata-se de um romance bem escrito e relativamente fiel ao material original, alterando apenas algumas análises quanto às motivações dos personagens e estendendo ou omitindo pequenas sequências. 

Passadas cinco décadas de sua estreia na noite de encerramento do New York Film Festival, em 14 de outubro de 1972, o filme permanece forte, ainda que não tanto pelas polêmicas, que ainda reverberam, mas pela qualidade interpretativa e coragem do roteiro assinado por Bertolucci e Franco Arcalli. Num misto de desvelar voluntário de fantasias, infligir de dor – a si, ou a outrem – como forma de escapada da realidade, as nuances psíquicas cotejam uma moldura sofistica à história. Se o poder de chocar é facilmente levado a efeito, o fascínio decorrente certamente demanda maiores atrativos, e isso é o que vemos a cada revisão da obra.

Marcus Hemerly

Voltar

Facebook




“Meu sonho nem sempre foi escrever.”

Entrevista com a escritora espanhola María Beatriz Muñoz Ruiz

Logo da seção Entreists
Logo da seção Entrevistas ROLianas

Caros amigos e leitores:

É sempre um prazer poder me comunicar com vocês por meio desta plataforma. Que maravilha saber que estamos conectados, independentemente da distância! Hoje tenho o grande privilégio de apresentar a vocês uma mulher brilhante, uma escritora e poetisa que cativa com sua criatividade; uma amiga, mas acima de tudo, uma mulher com uma alma humanista que admiro muito. Tenho a honra de me comunicar com ela há muitos anos, à distância.

María Beatriz Muñoz Ruiz , também conhecida como Dama Oscura , originária de Granada, Espanha. É autora de mais de 25 livros, entre novelas e poemas. É coautora de CANTO PLANETARIO: HERMANDAD EN LA TIERRA HC Editores, Costa Rica 2023.
Foto: 10 de agosto de 2025. Cortesia.

Ela é María Beatriz Muñoz Ruiz, também conhecida como a Dama Negra, originária da bela cidade de Granada, Espanha. Esta entrevista se concentra mais nas mulheres; embora abordemos o mundo literário, a conversa é breve, mas muito enriquecedora. María Beatriz nos fala sobre sua vida pessoal, suas reflexões sobre amizade e nos conta sobre seu avô, uma pessoa muito querida para ela, que sempre admirou sua escrita. Claro, ela também fala sobre o marido, o primo, a quem considera um irmão, e seus hobbies favoritos. Ela confessa que escrever não foi sua primeira opção de carreira, pois queria estudar algo relacionado à medicina legal ou à saúde.

María Beatriz sempre me surpreende. Tudo o que posso dizer é que a admiro enormemente, pois ela sabe organizar seu tempo para se dedicar à leitura, à família, ao trabalho e até ao TikTok, enquanto cultiva sua paixão pela escrita. Ela escreve poesias, artigos de opinião, crônicas e entrevistas com escritores, poetas e artistas.

Beatriz também é diretora da revista literária e cultural, anteriormente chamada One Stop, que este ano passou por uma mudança significativa, tanto em sua plataforma web quanto em seu nome: agora é One Stop New. Esta revista promove escritores, poetas e artistas de toda a América Latina e além. Ela é responsável pela edição dos artigos e conteúdos recebidos para publicação no site. Convido você a visitar esta revista e mergulhar no fascinante mundo da cultura e da literatura contemporâneas.

María Beatriz também nos conta o que significou para ela fazer parte da antologia de poesia Canto Planetário: Hermandad en la Tierra (Canção Planetária: Irmandade na Terra), HC Editores, Costa Rica, 2023. Ela é autora de mais de 25 livros, entre romances e coletâneas de poesia. Aliás, recomendo a compra de sua coletânea de poesia mais recente, Mariposa de Alas Azules (Borboleta de Asas Azuis), disponível na Amazon em formato impresso e digital (Kindle).

Espero que vocês gostes desta conversa:

Como você se sentiu ao publicar seu primeiro romance?

Meu primeiro romance foi Quando o Destino nos Uniu, e a verdade é que tenho um carinho especial por esse romance porque foi o meu primeiro, porque ousei dar esse passo e porque ele guarda memórias preciosas do processo criativo. Lembro-me de repassar cada capítulo que terminava para meus colegas e da felicidade que sentia no dia seguinte quando os ouvia dizer que precisavam de mais.

Qual a origem do seu pseudônimo Dark Lady?

Quase todos os meus romances são românticos, e digo quase todos porque, quando quero romper com os padrões estabelecidos, me refugio na Dark Lady, meu pseudônimo para ser um tipo diferente de escritora. Todos sabemos que escritores também são rotulados e que mudanças podem não ser agradáveis, e é por isso que criei essa linha de luz e escuridão. Ao longo da minha vida, sempre tive muita consciência dessa moeda de dois lados, a luz e a escuridão que todos carregamos, e é por isso que ela sempre se refletiu em meus romances, poemas e artigos de opinião.

O que você buscou transmitir ou criar por meio de seus romances?

Em relação aos meus romances, eu queria criar um mundo mágico onde o amor sempre triunfa. Espero que, quando o leitor voltar para casa após um dia difícil, leia meu romance e seja transportado para um mundo cheio de aventura, paixão, erotismo e amor.

O que você pode nos contar sobre seu romance ‘Glam Girls Wanted’?

Como já disse, tenho um carinho especial pelo meu primeiro romance, mas, entre todos os meus romances, também tenho um romance de estreia em um gênero que nunca usei antes: comédia. Refiro-me a ‘Wanted: Glam Girls’. Este romance é muito especial para mim porque é inspirado nas minhas colegas de trabalho, aquelas que sempre me fazem sorrir e com quem eu iria a qualquer lugar do mundo.

Na minha opinião, não existem trabalhos fáceis ou difíceis; existem colegas fáceis ou difíceis que fazem você amar seu trabalho ou odiá-lo, e graças às minhas Glam Girls, vou trabalhar todos os dias com um sorriso. Obrigada, Lore, Isa, Encarni, Vane, Vero, Leo, Debo e Nadia, porque escrever este romance foi uma aventura inesquecível da qual vocês participaram sendo vocês mesmas, únicas e incomparáveis.

Que emoções ou sensações você experimenta ao escrever poesia?

Quanto aos meus poemas… devo confessar que são bastante profundos e, na maioria das vezes, carregados de tristeza e melancolia. A razão para isso é que, quando sinto a tristeza apertando meu peito e formando um nó que me sufoca, preciso extravasar essa dor. Logicamente, isso poderia ser considerado uma espécie de terapia, mas sinto como uma tábua de salvação que me permite renascer repetidamente, permitindo-me continuar mantendo minha essência sem me afogar naquele poço profundo e escuro que às vezes me consome. Luz e sombra, sempre mantenho essa luta incessante entre meus dois eus. Minha nova coletânea de poemas, ‘Borboleta de Asas Azuis’, é um exemplo da minha luz e sombra, uma coletânea que dedico a pessoas que têm dias azuis, mas silenciosamente batem as asas e voam alto apesar de tudo.

Como você descreveria seus poemas e artigos de opinião?

Assim como em meus romances, poemas e artigos de opinião, revelo cada um dos meus estados de espírito em um dado momento. Em meus artigos, sou crítico, filosófico e, às vezes, bastante direto. Ao longo dos anos, meus artigos evoluíram e mudaram comigo, porque as pessoas mudam, e o que você pensa sobre um assunto hoje pode ser diferente do que você pensa amanhã. Nunca me contradigo; evoluo, certo ou errado, mas evoluo porque as rugas da alma fazem você aprender e mudar.

Você desprezaria alguma religião? Por quê?

Estudei em uma escola católica e, embora com o passar dos anos e devido a certas circunstâncias da vida, tenha deixado de ser católico, jamais desprezarei uma religião fundada no conceito fundamental do amor. Em um dos meus artigos, eu disse que não mudaria nada no meu passado, já que cada etapa me fez quem eu sou, e não quero ser outra pessoa, então não apagaria nada do meu passado, já que cada caminho me ensinou algo.

Jamais entenderei pessoas que acreditam possuir a verdade e a sabedoria infinita por pertencerem a uma determinada religião. A base de qualquer religião é o respeito, e para quem tem dúvidas, tolerância não é o mesmo que aceitação e respeito. Por que não pode haver um mundo onde todas as crenças sejam respeitadas e possamos viver juntos em paz? Bem, que absurdo eu acabei de dizer depois de ver um mundo em guerra onde a vida humana é tão pouco importante.

Você pode compartilhar alguma anedota ou lembrança especial sobre seu avô?

Meu avô foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Ele compartilhava meu amor pela literatura. Ainda me lembro dele chegando em casa com o último romance de uma nova coleção que estava saindo, que ele sabia que eu devoraria em dois dias. Ele era a alegria em pessoa, uma paciência infinita e a pessoa que sempre estava lá para mim. Meu pai me lembra muito meu avô; paciente, silencioso, mas sempre presente quando preciso dele.

Sempre que penso no meu avô, nos bons momentos e no seu sorriso cativante, uma lembrança dolorosa me vem à mente: nunca consegui me despedir dele porque os médicos me avisaram que, na minha condição, era perigoso ir ao hospital e que eu poderia entrar em trabalho de parto prematuro e perder meus bebês. Por eles, eu dei e daria tudo. Meus gêmeos Guillermo e Paula ainda são e sempre serão minha prioridade, mas aquele pequeno detalhe marcou minha vida. Senti falta de dizer a ele o quanto o amava e de lhe dar um abraço apertado.

Você se considera mais uma pessoa solitária ou voltada para a família?

Não sei se já expressei isso em meus escritos, mas, apesar de ter uma alma solitária, sou extremamente voltada para a família. Eles sempre foram o pilar sobre o qual me sustentei e que me apoiaram, não importa o que eu faça. Às vezes, penso que minha alma está presa neste mundo e nesta vida por causa de todas aquelas pessoas que dizem ‘eu te amo’.

A palavra ‘eu te amo’ é a palavra mais poderosa do mundo e a que mais nos prende à terra.
Quando dei à luz meus gêmeos, sofri de depressão pós-parto grave. Eu não queria continuar vivendo e, naquele momento, meus filhos foram os que me salvaram. É por eles que continuei vivendo e é por eles que me levanto repetidamente e continuo caminhando, apesar das minhas feridas.

Quando sinto que o mundo não me entende, ou que sou eu quem não entende o mundo, eu amo a solidão. Eu gostaria de me trancar na torre mais alta e que ninguém me incomodasse. Eu gostaria de desaparecer, de ser invisível e que o mundo me esquecesse. Então, para responder à sua pergunta: eu sou as duas pessoas: a solitária e a voltada para a família. Sou sempre dois lados da mesma moeda, mas sempre mostro um lado para não preocupar os outros nem dar explicações. Eu sempre escalo a montanha com minha mochila cheia de pedras e, em algum momento do caminho, consigo deixar algumas cair e recuperar o fôlego para continuar.

Como seu marido influenciou sua vida?

Meu marido também teve uma grande influência na minha vida. Ele sempre foi quem me deu aquele empurrãozinho de que eu precisava quando minha insegurança me impedia. Nós nos conhecemos em 15 de agosto em um casamento. Eu estava sentada, meio forçada, em uma mesa onde estava o público mais jovem. Eu odeio quando as pessoas fazem coisas assim, mas graças a isso, conheci a pessoa com quem compartilho minha vida hoje. De um canto da mesa, ele me observou soprar o gaspacho frio que eu pensava ser consomê. Olhei ao redor e pensei que ninguém tinha me visto. Respirei aliviada, mas houve alguém que não deixou de notar aquele gesto. Meu marido se apaixonou por mim naquele momento constrangedor, como se fosse eu, e estamos juntos desde então. Quem nos conhece sabe que somos opostos, mas isso nos complementa e nos mantém caminhando juntos neste caminho, que às vezes foi repleto de dificuldades que superamos.

Como você se descreveria e quão seletiva você é com seus amigos?

Sempre fui uma garota alegre e extrovertida, mas, acima de tudo, sempre fui seletiva. Se não gosto de alguém, me afasto. Nesse aspecto, continuo a mesma: não gosto de confrontos e, com o tempo, percebi que preciso me manter longe de qualquer coisa que afete minha paz de espírito. Por isso, atualmente me cerco de pessoas que realmente contribuem para mim. Não gosto de grupos grandes de amigos; Prefiro um grupo pequeno com quem eu possa ter uma conversa interessante.

Em dado momento, você menciona um primo que foi como um irmão para você. Qual foi o momento mais especial que você e seu primo compartilharam durante a infância?

Sou filho único, mas, como mencionei antes, pertenço a uma família muito unida, então, para mim, meu primo Jesús, filho da minha tia materna, foi como um irmão. Passávamos o dia juntos e, mesmo em certas ocasiões, quando nossos pais nos deixavam com os avós, morávamos juntos. Meu primo e eu discutimos como irmãos, compartilhamos risadas, segredos e uma vida inteira juntos. Para os filhos dele, sou tia María, e para os meus, ele é tio Fandi.

Não sei se se pode dizer que foi o momento mais especial, mas é o que me lembro com carinho. Então, se eu tivesse que escolher um momento, seria o dia do meu casamento. Ele estava sempre ao meu lado e fazia parte da cerimônia, carregando as alianças. Mas me lembro especialmente de quando saímos da igreja e ele me abraçou. Aquele abraço marcou um antes e um depois. Foi como dizer adeus à vida que tínhamos conhecido até então. E embora minha vida permanecesse quase a mesma, tudo mudou. Foi um adeus àquela infância compartilhada.

Por que você se chama María para sua família e Bea para todos os outros?

Sim, eu me referia a mim mesma como María, mas, na realidade, apenas minha família me chama de María. Para todos os outros, eu sou Bea. E tudo isso graças à ideia da minha mãe de colocar M. Beatriz no meu babador da escola. Imagine a cara da minha mãe quando lhe disseram que, se a filha dela fosse surda, ela não responderia pelo nome quando a chamassem. Então, desde pequena, descobri que para minha família eu sempre seria María, e para todos os outros, Beatriz.

Apesar do seu grande interesse pela mente humana e pela área da saúde, o que a levou a descobrir que medicina não era a carreira certa para você?

Escrever nem sempre foi meu sonho. Quando eu estava decidindo sobre um curso universitário, eu queria cursar medicina forense. Graças a Deus não consegui a nota necessária, porque acho que não teria gostado. A verdade é que sempre amei Medicina, então queria superar esse problema me formando em Auxiliar de Enfermagem e Auxiliar Psiquiátrico. Devo dizer que sou apaixonada pela mente humana. Parece um mundo incrível e imprevisível para mim. Mas recentemente descobri que não seria capaz, pois tenho muita empatia pelas pessoas e tenho dificuldade em ver alguém sofrer. Então, depois de estudar várias coisas na área da saúde, descobri que simplesmente adoro aprender, mas não tenho vocação para isso.

No meu trabalho atual, certa manhã, uma idosa caiu na escada rolante, acho que devido a um derrame. Corri do outro lado, e uma cliente, que era enfermeira, e tentei mantê-la viva até a ambulância chegar. Talvez minhas palavras de conforto tenham sido as últimas que ela ouviu, pois soube que ela havia morrido no hospital. Não é que eu seja inapta para o trabalho; É que, no fim das contas, a tristeza dos doentes não me deixava ser feliz. Não suporto perder pessoas e sei que também não conseguiria fugir daquele momento. Eu seria do tipo que seguraria a mão delas e não soltaria, mas isso acabaria comigo.
Também adquiri bastante formação em educação infantil e psicologia infantil, mas não sei se algum dia terei coragem de descobrir se teria paciência para fazer esse trabalho.

Quais aspectos do trabalho como Técnico de Consumo você achou mais gratificantes e quais desafios encontrou ao trabalhar como Gerente de Comunidade em gerenciamento de mídias sociais?

O que eu gostava de estudar e praticar era Técnico de Consumo. Adoro lidar com pessoas, sou bom em atendimento ao cliente e gostei desde o início, mas infelizmente não há muito trabalho nessa área.
Fiz meu curso de Gerente de Comunidade em uma instituição particular e, apesar de gostar e ter formação em marketing digital, reconheço que as mídias sociais são extremamente desgastantes e podem ser um trabalho complicado nesse sentido. Eu adoro marketing digital; é um pouco como psicologia, uma forma de dar visibilidade ao seu conteúdo e fazê-lo aparecer nos mecanismos de busca do Google. É um desafio constante e uma vitória se alcançado.

Atualmente, estou cursando aperfeiçoamento em marketing digital pela Universidade de Vitoria-Gasteiz e aplicando meu conhecimento à minha revista cultural, One Stop New, anteriormente chamada One Stop.
O One Stop foi o início de um projeto lindo que cresceu, como tudo na minha vida, daquela frase que costumo dizer: “Se os outros podem, eu também posso”. Foi um projeto que comecei com o apoio das minhas amigas Carmen Mari e Carol, e ao longo do caminho conheci uma das pessoas que mais me ajudaram na minha jornada literária. É você, querido Carlos Javier, que se tornou um ícone cultural e me guiou nesta jornada incansável.

José Luis Ortiz também faz parte desse grupo de amigos que aparecem e oferecem apoio incondicional. Paloma Albarracín também estava lá no início do One Stop, e sempre serei grata por seu apoio.
Sempre serei grata a todos que me incentivaram no começo e acreditaram em mim. Sinto-me afortunada por sempre ter estado cercada de pessoas boas.

Quais aspectos do trabalho como Técnico de Consumo você achou mais gratificantes e quais desafios encontrou ao trabalhar como Gerente de Comunidade em gerenciamento de mídias sociais?

O que eu gostava de estudar e praticar era Técnico de Consumo. Adoro lidar com pessoas, sou boa em atendimento ao cliente e gostei desde o início, mas infelizmente não há muito trabalho nessa área.

Eu me formei em Gerente de Comunidade em uma instituição particular e, apesar de gostar e ter formação em marketing digital, reconheço que as mídias sociais são extremamente desgastantes e podem ser um trabalho complicado nesse sentido.

Eu adoro marketing digital. É um pouco como psicologia: uma forma de dar visibilidade ao seu conteúdo e fazê-lo aparecer nos mecanismos de busca do Google. É um desafio constante e uma vitória se conquistada.

Atualmente, estou cursando especialização em marketing digital na Universidade de Vitoria-Gasteiz e aplicando meu conhecimento à minha revista cultural, One Stop New, anteriormente chamada One Stop.

One Stop foi o início de um projeto lindo que cresceu, como tudo na minha vida, daquela frase que costumo dizer: “Se os outros podem, eu também posso”. Foi um projeto que comecei com o apoio das minhas amigas Carmen Mari e Carol, e ao longo do caminho encontrei uma das pessoas que mais me ajudaram na minha jornada literária. É você, querido Carlos Javier, que se tornou um ícone cultural e me guiou nesta jornada incansável.

José Luis Ortiz também faz parte desse grupo de amigos que aparecem e oferecem seu apoio incondicional. Paloma Albarracín também estava presente no início de One Stop, e sempre serei grato por seu apoio.

Sempre serei grato a todos que me incentivaram no início e acreditaram em mim. Sinto-me afortunado por sempre ter estado cercado de pessoas boas.

O que você acha da amizade?

Sempre acreditei que as pessoas aparecem na sua vida no momento certo e desaparecem para reaparecer na vida de outras que podem precisar mais delas. É por isso que me lembro com carinho daqueles amigos que, por obra do destino, seguiram outros caminhos. Tive muitos bons amigos na vida, e ainda os tenho hoje, mas sempre houve uma amiga que esteve sempre ao meu lado quando precisei. Essa é a Soraya. Uma daquelas amizades que, não importa quanto tempo passe, quando nos encontramos, parece que nos vimos no dia anterior. Somos Sininho e Periwinkle, amigas de bebidas, lágrimas, risos e segredos.

Conte-nos sobre seus hobbies favoritos.

Quando me perguntam sobre meus hobbies, sempre tive dificuldade em responder brevemente. Sempre quis fazer tudo, mesmo que não fosse bom nisso, mas também me canso rapidamente e costumo experimentar outras coisas. Adoro andar de skate, mas desisti quando soube que nunca aprenderia, então lá estão meus patins inline no armário, lindos e brilhantes. Também tentei andar de skate, mas tive o mesmo problema, então troquei para um patinete com guidão, e eu era bom nisso, mas aí surgiram os elétricos, e não vou mais andar neles.

Consigo jogar tênis e sinto vontade de me espremer um pouco de vez em quando, mas não gosto de correr muito, então, se não for em duplas, me caso depois de vinte minutos. O padel me estressa, e não consigo bater na bola com aquela raquete pequena; prefiro uma raquete de tênis.
Claro, adoro dançar qualquer coisa e sou boa nisso, então, seja qual for o tipo de música dançante ou não, meu corpo se move e se adapta a qualquer ritmo.

Adoro desenhar. Aliás, não me matriculei em Belas Artes na universidade porque havia pouquíssimas oportunidades de emprego, mas sempre me arrependerei, pois poderia ter sido muito boa nisso. Até pintei alguns quadros no estilo mangá para meus amigos.

Adoro plantas e ler sobre suas propriedades curativas e mágicas. O curioso é que costumo gostar de plantas simples, aquelas sem flores chamativas, aquelas que passam despercebidas por serem simplesmente maravilhosas do jeito que são.

Meu maior hobby, como você pode imaginar, é ler. Desde pequena, devoro livros. Certa vez, perdi a noção do tempo na biblioteca da escola. Trancaram as portas e eu não consegui sair, então meus pais quase chamaram a polícia.

O que você acha da velocidade com que seu cérebro conecta milhões de ideias e como essa capacidade afeta sua percepção do mundo e sua concentração?

Não sei se isso pode ser considerado um defeito ou uma virtude, mas meu cérebro muitas vezes age de forma diferente dos outros. Em milissegundos, consigo conectar milhões de ideias rapidamente, apenas para, de repente, ser absorvido por algo, e o mundo deixa de existir para mim. Acho que é por isso que consigo me concentrar em meio ao caos e criar o caos dentro do silêncio.

O que você acha da velocidade com que seu cérebro conecta milhões de ideias e como essa capacidade afeta sua percepção do mundo e sua concentração?

Não sei se isso pode ser considerado uma falha ou uma virtude, mas meu cérebro frequentemente age de forma diferente dos outros. Em milissegundos, consigo conectar milhões de ideias rapidamente e, de repente, me absorvo em algo, e o mundo deixa de existir para mim. Acho que é por isso que consigo me concentrar em meio ao caos e criar o caos dentro do silêncio.

O que significou para você fazer parte da antologia CANTO PLANETARIO?

Obrigada, querido Carlos Jarquín, por me convidar para esta experiência incrível de fazer parte do Canto Planetario, que é uma maravilhosa coletânea literária com autores dos cinco continentes que se unem em um grito de socorro pelo nosso planeta. Foi maravilhoso fazer parte de algo tão grandioso e belo, um projeto que exigiu muito trabalho e resultou em uma referência literária. Dizem que o destino coloca pessoas no seu caminho que te acompanham e te ajudam ao longo do caminho. Uma dessas pessoas é ele, pois pude conhecer pessoas maravilhosas e crescer na minha carreira graças à sua ajuda.
Sobre o nosso planeta, devo dizer que amo os animais. Suas almas são melhores que as dos humanos. Eles não esgotariam os recursos do planeta como nós. Até os animais mais selvagens caçam para sobreviver. No entanto, os humanos são predadores, tanto de si mesmos quanto do planeta, simplesmente por ego.

No link a seguir, María Beatriz Muñoz apresenta seu livro mais recente, intitulado ‘Mariposa de alas azules‘ (Borboleta de asas azuis), disponível na Amazon:

Carlos Javier Jarquín

Voltar

Facebook




A poesia de Brenda Beauvoir

Marta Oliveri

A poesia de Brenda Beauvoir – Uma poética além da palavra

Logo da seção Entrevistas ROLianas
Logo da seção Entrevistas ROLianas
Brenda Beauvoir - Arquivo pessoal
Brenda Beauvoir – Arquivo pessoal

Como uma epopeia íntima e existencial, é a obra de Brenda Beauvoir notável estatura poética que surge em um universo desbordante, atravessando territórios de imensa beleza. A autora entelaça mitos e imagens oníricas em uma saga pessoal. Seu mundo percorre as metáforas de Prometeu, os grandes mitos de todos os tempos, os ausentes, as dores dos tempos presentes e os passos de fluir com a oscilação do rio de Heráclito. Utopias que afloram e se eclipsam, sonhos, sombras, fantasmas que nascem e se prefiguram como parte de uma história que trascende à poeta.

Brenda Beauvoir escreve em seu poema ‘Portas do labirinto’: “Não permitas que o esquecimento construa na humanidade uma nave de perenes ocasos e sombras nos infinitos crepúsculos sombrios, onde as horas morrem numa letargia.” Aqui a autora expressa a dor do esquecimento que assola a humanidade e determina de alguma maneira o estado de coisas que nos emergem no apocalipse que atravessamos nestes tempos escuros.

Outra figura notavelmente significativa em sua poética é a de Prometeo. Aqui estão as citações neste texto particularmente paradigmático em sua obra: “Prometeu se aproxima sem ladainhas, e nesses silêncios de partir o coração não consigo ver o destino ou a luz sagrada que os antigos celtas proclamaram”. O mundo se acumula nos pés de uma humanidade de sangue. E vazio de sombras e um presságio que não se dissipa e que não deixa ver a luz, me envolve como uma serpente que destruiu o universo da humanidade das tempestades fulminantes em que o próprio ser humano destruiu alevosamente seus sonhos.

Em síntese, Brenda Beauvoir se manifesta com dolorosa beleza em um registro épico e melancólico. A expressão clara de seu compromisso com a realidade que o acecha e nós aceitamos a todos, uma realidade que travemos ao poeta de maneira profunda e dolorosa. Sua expressão é a clara determinação de uma rebeldia, sua potência de verbo que se eleva por cima de todas as contingências na eternidade da palavra.

Trajetória de Brenda Beauvoir

Brenda Beauvoir - Arquivo pessoal
Brenda Beauvoir – Arquivo pessoal

Brenda Beauvoir é uma escritora argentina reconhecida em Buenos Aires. Foi criada como professora de língua e literatura em ensino secundário. Publicou uma ampla variedade de obras literárias, entre as quais se destacam títulos como ‘Cecilia. O rosto das sombras’, ‘As cartas’, ‘Assassinatos na noite’, ‘Nahla’, ‘Voz da Ausência’ e ‘Exegese do Esquecimento’, prologado pela candidata argentina ao Prêmio Nobel de Literatura Martha Oliveri. Sua obra foi reconhecida com vários prêmios e distinções, como a Menção de Honra da Sociedade Argentina de Escritores e o Prêmio Atrezo, entre outros.

Conversa com Brenda Beauvoir

MO: Como você descobriu sua paixão pela poesia e por que você se dedicou a ela?

BB: Desde a menina descobriu que a poesia é parte de minha misma e como decía Jorge Luis Borges à medida que um va transitando o labirinto da vida em qualquer surgimento de dores, instantes felizes, alegrias e todas as misérias que vemos neste remetente que transitamos sem argila para moldar a obra literária.

MO: Qual foi o momento ou experiência que a inspirou a começar a escrever poesia?

BB: Talvez o próprio labirinto. Talvez a felicidade e as sombras…

MO: Como você descreve seu processo criativo e como trouxe as ideias e temas que tratam em seus poemas?

BB: Eu descreveria isso como uma evolução constante do ser, sempre apoiada por filósofos, como foi o caso da minha última coletânea de poemas, “Exegese do Esquecimento”, mas uma única palavra basta para que um poema surja.

MO: Que influências literárias ou pessoais tiveram um impacto significativo em sua obra poética?

BB: Ter estudado literatura como professora me conectou com muitos autores; a princípio, parecia apropriado brincar com metáforas e recursos estilísticos. No entanto, como filha de imigrantes, acredito que a dor e o deslocamento podem ser ferramentas tão valiosas quanto o conhecimento.

MO: Como você vê o papel da poesia na sociedade atual?

BB: A poesia é um reflexo da sociedade, um espelho que mostra a realidade e a complexidade da condição humana.

MO: Como você vê seu lugar no mundo da literatura e o que a motiva a continuar criando?

BB: Eu vejo como um lugar abstrato em todos os sons e melodias fluentes que se elevam até o infinito no qual a obscuridade se converte em luz e em todo o mágico que pode dar ao universo da poesia e da palavra.

MO: Que influências literárias ou pessoais tiveram um impacto significativo em sua obra poética?.

BB: Ter estudado como professora de Literatura me conectou com muitos autores. No início, certamente parecia brincar com metáforas e recursos estilísticos, porém, e sendo filha de imigrantes, acredito que através do desenraizamento podemos ser uma ferramenta valiosa como o conhecimento que nos elevará, sempre foi usado para nos reconstruir e dar uma mensagem de resiliência e esperança à humanidade que

M.O.: Qual o papel que você acha que a poesia desempenha na sociedade atual e como ela pode influenciar a consciência coletiva?

B.B.: Não acho que ela desempenhe um papel tão preponderante quanto no século passado, mas desempenha. E é nossa tarefa, como trabalhadores culturais, reacender a chama eterna da poesia neste mundo tão desumanizado e carente de valores espirituais.

MO: Algum projeto ou tema específico que você está trabalhando para compartilhar com seus leitores?.

BB: Claro. Me angustiei profundamente as guerras no mundo inteiro e revivei o horror do holocausto na Segunda Guerra Mundial… Meu trabalho como fazedor da cultura é sempre pedir pela paz e pela união dos povos e que ninguém seja humano na parte da terra, cause sofrimento a outro mar da razão que fuere.

Meu último trabalho é uma novela titulada PALESTINA. Ruínas de um espanto anunciado e espero que através de todos eles tomemos consciência porque a este passo o ser humano será destruído por completo.

Epílogo

As palavras estão aqui

Queda da sombra de uma pergunta… É possível que a poética possa resgatar a obscuridade destes tempos, a esperança de uma nova humanidade? Se fizer à noite um raio de luz irradiar sua metáfora através da janela

A aurora é agora uma ideia que a alma do poeta abriga na luz do verbo Próximo.

Marta Oliveri

Voltar

Facebook