Eduardo Cesario-Martínez Foto por Irene OliveiraImagem criada pela IA do Gemini
Não foi muito antes de contemplar meus primeiros pelos debaixo do nariz. Talvez, pelo longo espaço temporal, eu esteja cometendo uma pequena falha de meses ou, pode até ser, alguns anos. Na verdade, tais detalhes são irrelevantes. Certamente, não havia chegado aos 20. Ou não.
Lá estava diante da porta da casa da Matilda, já uma velha naquela época. Hoje, bem sei, ela está há pelo menos 30 anos deitada no São João Batista, endereço eterno de tantos famosos, além de um número infinito de meros mortais. Seja como for, a soberba de alguns parece ter sido em vão, já que todos, no final, se igualaram.
Provavelmente, você, que aqui me lê, deve estar agoniado diante de tanta enrolação. Que seja! Vou desembuchar, antes que perca mais um leitor, que, até onde consta, não são muitos. Estava ali por conta de uma encomenda. Digo, uma anágua.
Dei dois toques sutis na carcomida porta de madeira, o suficiente para me fazer anunciado. Não demorou, Matilda veio me atender. Fui recebido com um largo sorriso. A idosa, que há pouco havia trocado a dentadura, andava sorridente. Motivo outro, diziam à boca pequena, era por causa de um primo do falecido marido. Como não entendia dessas coisas naqueles idos ou, então, meu olhar estava mais preocupado com as pernas torneadas da Sandrinha, não posso dizer que sim ou que não.
A velha me convidou para entrar. Havia duas outras senhoras na ampla sala. A gordinha, eu conhecia. Não me recordo do seu nome. Elaine ou Eliane ou algo assim. Elisa? Pode ser. Não importa. A outra, uma mulher de aparência elegante, nunca havia visto. Bem que poderia ser capa de alguma revista de artistas. Exagero ou realidade, não posso afirmar, mas é como me recordo dos seus traços.
— Um instante, Betinho.
Matilda foi até um cômodo da casa, enquanto a fiquei aguardando em pé. A gorda e a artista me fitavam de cima a baixo, como se estivessem escolhendo o próximo modelito. Meu rosto começou a pegar fogo, com certeza completamente vermelho, como ainda acontece sempre que fico envergonhado por algo.
Não sei quanto tempo depois a velha voltou com um pacote. No entanto, pareceu-me uma eternidade. A minha vontade era sair correndo dali. Mas a bonitona, que continuava me encarando com aqueles olhos enormes, quis saber quem eu era.
— É o Betinho, filho da Mariana, que mora no final da rua.
Se eu disse alguma coisa, não me lembro, mas bem sei que ela não tirava aqueles olhos de mim. O rosto, frio como o de uma loira platinada de Hitchcock, começou a me provocar calafrios. E, antes que eu pudesse fazer algo, eis que alguém deu dois toques na porta, o suficiente para que Matilda fosse ver quem era.
Solange, antiga moradora do bairro, entrou toda sorridente. Matilda me entregou o pacote com a anágua da minha mãe, enquanto aproveitei a porta aberta e saí, mas não antes de escutar o seguinte interlúdio, que ainda hoje me corrói de curiosidade.
— Solange, vou passar um cafezinho.
— Não precisa, Matilda. Vim aqui apenas para lhe deixar esse vestido para ajustar.
Ramos António AmineImagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69ec0679-4970-83e9-86fd-6c282a77a74c
A fuga da mãe e do miúdo passou despercebida aos olhares impávidos dos filhos da quinta. Os ímpios encontravam-se em festa, apesar da confusão instalada no interior da tenda, que culminara na queda do cálice sobre o altar da hipocrisia.
Após o último gole do vinho que sustentava a celebração, o monge, com gestos incomuns, solicitou o incensário para a bênção final. Foi então que os ímpios se recordaram: o incensário havia sido levado pelo miúdo, logo após a bênção inicial.
O miúdo não estava presente. Nem a mãe.
Um silêncio denso instalou-se. Para quebrá-lo, ergueu-se um assobio, um só, suficiente para convocar todos os cães fardados.
Vieram as filhas da quinta, trémulas. Vieram os cães fardados. Vieram os informantes da bófia, os garimpeiros, os lavradores. Até a guardiã dos avisos ignorados se fez presente.
Menos a mãe e o miúdo.
A ausência despertou inquietação entre os ímpios. Onde estão?
A resposta foi um silêncio ensurdecedor.
Assim, a festa que começara sob a exibição da luxúria e da comunhão dos ímpios terminou com uma bênção sem incensário. Afinal, o miúdo era a oferenda dos filhos da quinta aos convidados, e o incensário, apenas o pretexto.
Declarou-se, então, a caça.
Uma rusga foi lançada em direção ao resgate do miúdo e da mãe.
A quinta foi reforçada. Novos arames farpados foram erguidos. A altura dos muros aumentou. A eletrificação do portão foi intensificada.
Os filhos da quinta permaneceram sob custódia da nova guardiã dos avisos ignorados, uma figura oferecida pelos ímpios convidados, trazida numa sacola triste.
Aos lavradores foram atribuídas porções maiores de terra, para que o cansaço lhes roubasse o tempo e, com ele, qualquer tentativa de fisgar o coração de uma das filhas da quinta, como sucedera com a mãe refugiada.
Aos garimpeiros impôs-se uma dívida eterna: pagariam pela morte do pai do miúdo, morto por ambição desmedida após encontrar ouro de valor ímpar. A dívida seria saldada na mina do Diabo, nas profundezas da quinta, sob exploração incessante, sem remuneração e vigiados pelos informantes da bófia.
Recrutaram-se novos cães fardados, mais jovens e de faro apurado. Os antigos foram expulsos e condenados a vaguear pelo mundo, à procura da mãe e do miúdo, agora como cães vadios.
Nenhuma punição recaiu sobre os filhos da quinta. Afinal, eram peritos em não sujar as mãos.
A caça estava declarada.
Enquanto isso, longe dali, a mãe, agora prostituta ressuscitada, enfrentava os piores solavancos da sua vida.
Sem teto. Sem alimento. Sem água sequer para a pureza do corpo.
Naquele novo mundo, tudo escasseava, excepto o sexo. O sexo, esse, fora elevado à condição de negócio mais rentável.
Diante disso, decidiu reinventar-se.
Tomou emprestado de uma amiga, também desalojada após a morte do marido, uma calça de pernas apertadas, uma blusa curta que mal lhe cobria o umbigo, um par de sapatos de salto alto, alguns cosméticos e um relógio simples para controlar o tempo.
E seguiu em direção ao prostíbulo.
Pela primeira vez, deixou o miúdo entregue ao destino, o mesmo destino que fora cruel com o pai.
Nos primeiros dias, enfrentou a resistência das outras mulheres. Chamaram-lhe velha. Intrusa. Indesejada.
A tensão só cessou com a intervenção do dono do prostíbulo.
O dono, um dos ímpios que estivera presente na festa da quinta. O mesmo cuja ação precipitada na tenda provocara a queda do cálice e, por consequência, a fuga da mãe e do miúdo.
Agora, ali estava ele.
E não a reconheceu.
Ela, porém, reconheceu-o sem hesitação.
A sua presença ajustou-lhe as intenções.
O destino, caprichoso, quis que o seu primeiro cliente fosse um rosto familiar: o monge.
Já não parecia velho. Já não era cego. Já não era surdo.
Nada do que fingira ser na tenda permanecia.
Atraído pelos seios firmes da recém-chegada, o monge escolheu-a. Naquele espaço, a novidade era sempre um atractivo e ele apreciava medir territórios ainda não explorados.
Ignorava, porém, que diante dele não estava apenas mais um corpo à venda.
Estava a memória viva daquilo que fingira não ver.
Na casa onde tudo obedecia a regras invisíveis, a prostituta ainda não conhecia os seus limites. Quando o monge a procurou, não recusou. Não por desejo, mas por hábito antigo, feito de sobrevivência e resignação.
Depois do acto apressado, ele levantou-se com a leveza dos que nunca ficam. Disse que ia buscar cigarros, como se o fumo pudesse justificar a impotência. Saiu. E não voltou.
Ficou o quarto. Ficou o cheiro. Ficou a ausência, essa presença mais pesada do que qualquer corpo.
Ela percebeu, então, que não haveria pagamento pelo serviço prestado. Nem palavra, nem responsabilidade, nem vestígio de moral. O monge, homem de fé na aparência e de corrupção nos gestos, dissolvera-se na noite. E, como rumor ainda mais amargo, sabia-se que mantinha ligações com o dono do prostíbulo, alianças silenciosas entre homens que vestiam virtude como máscara.
Saiu à sua procura. Não por esperança, mas por necessidade de sentido.
As outras mulheres perceberam. Já conheciam aquele tipo de abandono. Ainda assim, riram-se. Não por crueldade consciente, mas por desgaste, como quem já não distingue a dor dos outros da própria indiferença.
Mas nela o riso não encontrou eco. Encontrou forma.
Algo se endureceu por dentro. A humilhação deixou de ser ferida e tornou-se direcção. Já não queria apenas o monge. Queria o colapso de tudo o que o sustentava: a quinta, os homens, a ordem invisível dos ímpios.
Quando regressou, trazia o peso de quem já procurou demais e encontrou apenas vazio. Sentou-se em silêncio. E deixou a pergunta que nasceu inevitável: por quê?
O filho aproximou-se e enxugou-lhe as lágrimas. E nesse gesto simples, quase imperceptível, aprendeu uma verdade sem nome: as lágrimas de uma mãe não são como as de crocodilo.
O filho cresceu sem nome, sem pai, sem escola e sem Deus. Cresceu a observar o mundo de fora. Um dia viu uma carrinha levar crianças da sua idade para a escola. Enquanto uns eram conduzidos ao futuro, outros nem sequer sabiam que ele existia.
Ainda assim, o mundo encontrou forma de chegar até ele. Fragmentos de línguas antigas e estrangeiras: latim, alemão, francês, inglês, tiveram lhe atravessado a vida lá na quinta como restos de uma ordem maior que nunca o incluiu.
Depois veio a rua.
A rua não o rejeitou. Absorveu-o. Tornou-se parte do que sobra. Aprendeu a viver entre restos, a abrir sacos como quem abre destinos. E havia nisso uma ironia cruel: os mesmos lixos que lhe garantiam sobrevivência eram admirados por altruístas performativos como paisagens curiosas da pobreza.
A mãe, por sua vez, afundava-se cada vez mais no prostíbulo, não por escolha, mas por perseguição. Havia nela uma obsessão: encontrar o monge, obrigá-lo a olhar com a lâmpada acesa para aquilo que tinha deixado para trás.
Na rua, o rapaz encontrou os que já não perguntavam “porquê”. Mas dentro dele ainda havia resistência.
Até que encontrou o limite.
Num contentor, entre restos sem nome, viu um recém-nascido morto, apertado num saco de plástico. Não disse nada. Guardou o silêncio, como se tivesse herdado o peso do mundo.
Noutro contentor, encontrou comida ainda boa. E pensou no absurdo: o que uns descartam como excesso, outros disputam como sobrevivência.
Começou então a questionar tudo. A mesma sociedade que ridiculariza os que falam sozinhos na rua celebra aqueles que decidem destinos com uma assinatura.
Um dia, cansado, deitou-se sob uma árvore cujas flores pareciam desistir antes de cair. Da sua sacola, retirou um livro: Cândido. Leu e encontrou Pangloss, com o seu otimismo insistente, quase ofensivo diante da realidade.
Mas ali compreendeu: não bastava aceitar o mundo como o melhor possível. Era preciso enfrentá-lo.
O sol desaparecia quando um padre se aproximou. Chamou-o sem pressa, sem julgamento.
O rapaz abriu os olhos.
Tinha o corpo cansado de restos, mas a consciência inquieta de quem já não cabe no lugar onde está.
Levantou-se.
E seguiu.
No santuário da Nossa Senhora, deram-lhe um novo nome, ou talvez apenas um novo lugar.
E assim, o quarto sinal cumpriu-se: não como resposta, mas como início de uma outra forma de dúvida.
Entre incomodos e reflexões, um mergulho nas contradições humanas
Mediocridade e outros contos reflexivos
Em sua coletânea de contos, Victor de Almeida Daud, ou somente Vc Daud, propõe uma leitura intensa, marcada por um olhar profundo sobre o comportamento e as relações humanas.
Nem toda leitura chega para confortar.
Algumas vêm para provocar, questionar… e até causar um certo desconcerto.
Mediocridade, de Vc Daud, pela Editora Coerência, habita exatamente esse lugar.
Nascido em São Paulo, o autor construiu uma trajetória diversa, passando pela comunicação, pela engenharia civil e pela área financeira, até se dedicar à escrita, às artes e ao ensino.
E talvez seja justamente essa vivência múltipla que dê à sua escrita esse olhar atento, quase inquieto, sobre as pessoas e suas relações.
Vc Daud
Nascido em São Paulo, o autor construiu uma trajetória diversa, passando pela comunicação, pela engenharia civil e pela área financeira, até se dedicar à escrita, às artes e ao ensino.
E talvez seja justamente essa vivência múltipla que dê à sua escrita esse olhar atento, quase inquieto, sobre as pessoas e suas relações.
A construção da obra também chama atenção.
O primeiro conto, mais longo, nasce de experiências do autor em viagens.
Os textos seguintes vêm de uma tentativa de romance que acabou se transformando em histórias independentes.
Já o último conto surge como um experimento, com uma estrutura mais fragmentada e reflexões curtas.
Essa mistura dá ao livro um ritmo próprio, quase como se cada parte revelasse uma faceta diferente do mesmo olhar.
Mais do que contar histórias, Vc Daud parece interessado em olhar para dentro de seus personagens, entender suas motivações, seus medos, suas fragilidades.
Em muitos momentos, o que importa não é o que acontece, mas o que se sente.
E é justamente aí que a leitura pode causar estranhamento.
Porque Mediocridade não suaviza.
Não busca agradar.
E não tem receio de expor aquilo que, muitas vezes, preferimos não encarar.
Mas talvez seja exatamente essa a sua proposta.
Ao fugir do óbvio e abraçar o desconforto, o livro convida o leitor à reflexão, mesmo que isso venha acompanhado de incômodo.
Mediocridade é o tipo de obra que não passa despercebida.
Que provoca reações diferentes em cada leitor.
E que, de alguma forma, permanece.
Uma leitura para quem se permite ir além do conforto, e se abrir para aquilo que provoca, questiona e faz pensar.
Sete histórias, o mesmo narrador: um homem que insiste em enxergar o mundo pelas frestas, misturando desejo e frustração até que cada episódio banal se transforme numa autópsia emocional.
É aí que um supermercado vira palco de pequenos desastres íntimos, uma balconista desperta um entusiasmo tão improvável quanto breve, um cruzeiro revela tudo aquilo que ele fingiu não notar sobre si mesmo e sobre quem escolheu amar…
Com ironia ferina, autoconsciência incômoda e zero paciência para os jogos afetivos da vida adulta, esse narrador-personagem revisita momentos que não deveria ter vivido, mas viveu, assim como sentimentos que tentou ignorar, mas o perseguem.
Ao expor suas contradições com brutal honestidade, ele acaba revelando algo inquietante: talvez seja impossível rir das próprias misérias sem, no fundo, reconhecer o quanto elas nos moldam.
Eduardo Martínez – Foto por Irene Oliveiraimagem gerada por IA do Gemini
Hoje acordei como sempre. O costumeiro mau-humor, certamente herança de um antepassado calabrês, continua firme nos meus olhos profundos e na minha boca retorcida. Lavei o rosto na água gelada, que levou o último resquício de esperança de retornar para cama e esperar pela Senhora da Foice.
Minha esposa, que casou por imposição dos pais, miseráveis que eram, não suportaria tamanho martírio de se deitar ao meu lado, nem sequer uma vez mais. Por sorte, foi acometida por um câncer, que a tomou por completo. Recebi a notícia por uma enfermeira, que se deu ao trabalho de me ligar àquela hora da madrugada.
Foi sepultada num dia de sol, como se libertada da minha insuportável companhia. Lembro-me exatamente da feição de alento em seu rosto no dia de sua partida, dentro daquele caixão, que me custou os olhos da cara. Pálida, é verdade, mas serena. Quanto às maçãs, nada que um pouco de maquiagem não a fizesse mais corada na hora da despedida.
Eis que aqui estou, ainda cumprindo a minha sina, sem coragem de cortar os pulsos ou me atirar da janela. Segundo andar. Na certa, daria com a fuça naquele jardim repleto de rosas. Se pararia de respirar ou não, é mais uma dúvida que me corrói.
Ouço o barulho de crianças gritando lá embaixo naquele maldito parquinho. Aquele lugar deveria ser demolido. Que construam algo mais útil ali. Que seja uma repartição pública, mas que acabem logo com esse martírio. Não suporto gente miúda se esgoelando, como se vivesse uma felicidade que não existe.
Sinto o aroma do lixo apodrecido vindo da cozinha. Isso mesmo! Não o jogo fora há quase duas semanas. Por que faço isso? Hum! Bem, vou matar a sua curiosidade, antes que você me mate de tédio. Deixo que os vermes, a maioria depositada por moscas, se deliciem com os restos de comida deixada de lado de propósito. Vermes precisam de alguém que lhe dê algo para comer.
Portanto, não me julgue por isso! Se a minha vizinha possui gatos, que mal tem se eu crio vermes? Certamente, você também tem lá as suas manias. Ou vai querer me enganar que a sua vida é recheada de pôneis coloridos?
Não pense você que sou um imundo. Pois não sou! Tomo banhos regulares, mas nada de exageros. Isso, por sinal, me faz lembrar de um momento da minha infância. Quer sabê-lo? Vou lhe contar, mas guarde segredo ou, então, seja mais um a falar mal de mim. Não me importo, assim como nunca liguei para todos os outros que me conheceram nesses meus quase 100 anos. Completo-os depois de amanhã.
Antes de entrar nos pormenores, devo lembrá-lo de que sou de uma enorme família, cheia de irmãos. Sou o segundo, logo abaixo de Judith, de uma prole de quase 15. Quase porque três não tiveram o desgosto de enxergar as trevas deste mundo. Que sejam 12, tanto faz. Uma longa escada de ano em ano, às vezes falhando um ou outro, dependendo do tempo das viagens do meu falecido pai ou, então, por conta de algum natimorto.
Tudo começou quando contava com três ou quatro anos. Não estou certo, talvez tivesse sido pouco antes, pouco depois. Detalhes sem qualquer relevância. Minha mãe, com uma barriga gigantesca, carregava um dos meus irmãos. As pernas inchadas, os pés parecendo patas de elefantes, mamãe se arrastava pelo quintal pendurando trapos, a maior parte encardida, no longo varal. Judith e eu aos seus pés, como dois carrapatos tentando sugar o máximo de sangue daquela força bruta de total ignorância.
— Judith, minha filha, quer ver o seu irmãozinho aqui na barriga da mamãe?
Minha mãe levantava um pouco a blusa e falava para Judith encostar um dos olhos no seu umbigo. Minha irmã obedecia e abria aquele sorriso, como se descobrisse algo que jamais vislumbrei. Em seguida, mamãe me puxava pelo braço e me mandava fazer o mesmo. E, por mais que eu abrisse e fechasse meus olhos, nunca consegui enxergar além da sujeira depositada no umbigo da minha mãe.
Esse costume foi passado para os filhos subsequentes, que foram jogados neste mundo. Meus irmãos, talvez cúmplices de mamãe, sempre responderam com aquele sorriso de felicidade em seus rostos. Fui tomado por sentimentos, ora de incapacidade, ora de inveja, ora de profundo ódio, até que, pouco antes dos 18, deixei-me cair no mundo. Nunca mais os vi.
Dos 18 aos quase 100, eis que estou aqui. Não me arrependo de nada que fiz ou deixei de fazer. No entanto, também não sinto orgulho da minha jornada de vida. Bem sei que, não tarda, serei eu o devorado pelos vermes que cultivo.
(Inspirada na canção Please Forgive Me) Clayton A. ZocaratoImagem gerada pelo ChatGPT
Nem todo amor precisa continuar para permanecer. Alguns atravessam o tempo, mudam de forma… e ainda assim vivem dentro de nós.
Entre memórias, silêncios e reencontros, essa história revela que há sentimentos que não acabam — apenas aprendem a existir de outro jeito.
Havia algo nos anos 1990 que parecia suspenso no ar, como se o tempo respirasse mais devagar, permitindo que cada instante se impregnasse de significado.
As tardes eram longas, atravessadas por rádios chiando, fitas cassete rebobinadas com caneta e promessas que não sabiam ainda o peso que carregariam no futuro. Era uma época em que o mundo começava a se abrir, mas os sentimentos ainda eram guardados com uma espécie de pudor antigo, quase sagrado.
E foi nesse intervalo entre o analógico e o que viria depois que nasceu aquilo que jamais terminou de existir.
Ele lembra do primeiro olhar como quem recorda um sonho recorrente. Não havia nada de extraordinário na cena, exceto o modo como o coração decidiu interromper sua rotina e bater fora de compasso.
Era simples, quase banal, mas carregava uma densidade inexplicável. Talvez porque, naquela década, os encontros ainda não eram mediados por telas, e o acaso tinha mais autoridade do que qualquer algoritmo jamais teria.
Ela tinha um jeito de sorrir que parecia negar o peso do mundo. E ele, ainda imerso em dúvidas juvenis, encontrou naquele sorriso um tipo de abrigo que não sabia nomear.
Conversavam sobre tudo e nada, como se o tempo lhes fosse infinito. Falavam de filmes, de livros que talvez nunca leriam, de músicas que marcariam seus dias — e entre elas, uma em especial, que se infiltrava nas pausas do silêncio e nas lacunas do que não era dito.
“Please forgive me“, tocava baixo, quase como uma confissão que nenhum dos dois tinha coragem de fazer em voz alta.
E ali, entre versos que falavam de erro, arrependimento e amor persistente, eles construíam um território invisível, onde cada gesto ganhava um significado que o mundo exterior não compreendia.
Havia uma espécie de ingenuidade naquele vínculo, mas também uma profundidade que só os encontros verdadeiros carregam.
Porque, no fundo, amar nunca foi sobre saber — sempre foi sobre sentir.
Mas o tempo, esse escultor impiedoso, começou a intervir.
A década avançava, trazendo consigo suas mudanças. A modernidade insinuava-se nas pequenas coisas: novos aparelhos, novas formas de comunicação, novas urgências.
E com ela, vieram também as distâncias — não apenas geográficas, mas existenciais. Cada um seguiu um caminho que parecia inevitável, como se a vida tivesse decidido que aquele encontro pertencia mais à memória do que ao futuro.
Eles não brigaram. Não houve ruptura dramática. Apenas um afastamento lento, quase imperceptível, como o apagar de uma luz ao entardecer.
E talvez tenha sido isso que mais doeu: a ausência de um fim claro.
Porque aquilo que não se encerra continua existindo de alguma forma, insistindo em permanecer nos cantos da consciência.
Os anos passaram.
E com eles, vieram as responsabilidades, os erros, as escolhas que moldam quem nos tornamos. Ele construiu uma vida, como todos fazem. Trabalhou, amou outras vezes, errou outras tantas.
Mas havia sempre uma espécie de eco, uma lembrança persistente que surgia nos momentos mais inesperados. Um cheiro, uma música, um entardecer específico — e lá estava ela, intacta no tempo.
“Please forgive me, I can’t stop loving you…“
A canção surgia como um portal. E não importava quantos anos tivessem passado, bastava ouvi-la para que tudo retornasse com uma nitidez quase cruel.
Não como saudade comum, mas como algo mais profundo — uma consciência de que certas conexões não obedecem às regras do tempo.
Ele começou a se perguntar se aquilo era amor ou apenas memória idealizada. Afinal, o que permanece não é necessariamente o que foi real, mas aquilo que escolhemos preservar.
No entanto, havia algo naquela lembrança que resistia à análise racional. Não era perfeita, não era romantizada demais — era simplesmente viva.
E então, num daqueles acasos que parecem ensaiados pelo próprio destino, eles se reencontraram.
Não foi como nos filmes. Não houve música ao fundo nem câmera lenta. Foi simples, quase comum. Um olhar que reconhece antes mesmo da razão compreender. Um silêncio carregado de tudo o que nunca foi dito. E, no entanto, havia ali uma estranha familiaridade, como se o tempo tivesse dado uma volta completa apenas para colocá-los novamente frente a frente.
Ela ainda sorria daquele mesmo jeito.
Mas havia algo diferente. Não no sorriso em si, mas na forma como ele o recebia. Antes, era descoberta.
Agora, era reconhecimento. E talvez essa seja a diferença fundamental entre o amor jovem e o amor que atravessa o tempo: o primeiro surpreende, o segundo confirma.
Sobre a vida, sobre os caminhos que seguiram, sobre o que perderam e o que encontraram. E em meio a essas palavras, havia uma corrente invisível que os conectava ao passado. Não como um peso, mas como uma base — algo que, de alguma forma, nunca deixou de existir.
Ele percebeu então que o tempo não havia apagado o que sentiram. Apenas havia transformado.
Porque o amor, quando verdadeiro, não precisa permanecer constante para continuar sendo real.
Ele pode mudar de forma, de intensidade, de presença — mas não desaparece completamente. Torna-se parte daquilo que somos, influenciando nossas escolhas, nossos medos, nossas esperanças.
E naquele reencontro, não havia mais a urgência dos anos 90, nem a ingenuidade dos primeiros sentimentos.
Havia algo mais profundo: uma aceitação tranquila do que foram e do que ainda poderiam ser, mesmo que de maneira diferente.
A música, inevitavelmente, voltou a surgir.
“Please forgive me, if I need you like I do…“
Eles riram ao perceber como aquela canção ainda os atravessava. Não como antes, mas com uma nova camada de significado.
Antes, era promessa. Agora, era memória. E, de certa forma, também era reconciliação.
Porque talvez o amor não seja sobre permanecer juntos, mas sobre aquilo que permanece em nós, independentemente das circunstâncias.
Ao se despedirem, não houveram promessas grandiosas. Não houveram tentativas de recuperar o que o tempo já havia transformado.
Houve apenas um entendimento silencioso de que aquele encontro, mesmo interrompido, nunca foi em vão.
Ele seguiu seu caminho com uma leveza diferente.
Não porque tivesse recuperado algo perdido, mas porque finalmente compreendeu que certas histórias não precisam de continuidade para terem significado. Elas existem como fragmentos de eternidade dentro de nós, lembrando-nos de quem fomos e, de alguma forma, de quem ainda somos.
E assim, entre lembranças, músicas e o lento passar dos anos, ele entendeu que o amor — aquele amor dos anos 1990 — não havia terminado.
Apenas havia aprendido a existir de outro jeito.
Mas essa constatação não veio como um alívio imediato. Pelo contrário, trouxe consigo uma densidade nova, quase filosófica, como se o sentimento precisasse agora ser compreendido não mais pela emoção crua da juventude, mas por uma consciência amadurecida, atravessada pelo tempo, pelas perdas e pelas inevitáveis transformações do ser.
Porque há uma diferença profunda entre sentir e compreender o que se sente.
Na juventude, o amor se impõe. Ele não pede licença, não exige justificativa, não se preocupa com coerência.
Ele simplesmente acontece, como um fenômeno natural, quase biológico, que toma o corpo e reorganiza o mundo ao redor.
Já na maturidade, o amor se torna também um problema filosófico.
Ele precisa ser interpretado, revisitado, questionado. E, ainda assim, escapa.
Era isso que o inquietava.
Como algo que aparentemente havia ficado no passado podia ainda pulsar com tanta presença no agora? Seria memória? Seria desejo? Ou haveria, de fato, uma dimensão do amor que transcende o tempo cronológico?
A canção voltava, como sempre.
Não mais apenas como trilha sonora de uma lembrança, mas como um texto, quase um tratado emocional condensado em poucos versos. Ele começou a ouvi-la com outro tipo de atenção, como quem tenta decifrar não apenas a música, mas a si mesmo através dela.
“Please forgive me, I know not what I do…“
Havia algo de profundamente humano nesse pedido. O reconhecimento da própria limitação.
A consciência de que amar, muitas vezes, é agir sem plena compreensão das consequências. É errar, insistir, retornar. É desejar mesmo quando a razão aconselha o contrário.
E então ele pensou: talvez o amor verdadeiro não seja aquele que acerta, mas aquele que persiste apesar do erro.
Essa ideia o atravessou com força.
Durante anos, ele havia tentado organizar sua vida sob a lógica da coerência. Escolhas racionais, caminhos previsíveis, relações que fizessem sentido dentro de um projeto de estabilidade.
Mas aquele amor antigo — ou melhor, aquela presença contínua — desafiava essa estrutura.
Não fazia sentido permanecer, mas permanecia. Não era útil, mas era essencial. Não era atual, mas era vivo.
E isso o levava a outra reflexão: nem tudo que é verdadeiro precisa ser funcional.
Vivemos, pensou ele, numa época que exige utilidade de tudo — até dos sentimentos. Amar deve levar a algo: a uma construção, a uma família, a uma história contínua.
Mas e quando o amor não leva a lugar algum, e ainda assim transforma tudo?
Talvez esse seja o tipo mais raro de amor. Aquele que não se realiza externamente, mas que, por isso mesmo, se aprofunda internamente.
“Please forgive me, I can’t stop loving you…” novamente.
Ele percebeu que essa frase já não era mais um lamento. Era quase uma constatação ontológica.
Como se amar não fosse uma escolha, mas uma condição. Não algo que se inicia ou se encerra, mas algo que simplesmente é o que é em si mesmo.
E então surgiu uma ideia ainda mais inquietante: e se o amor não pertencesse ao tempo?
Se tudo o que vivemos está submetido ao tempo — nascimento, crescimento, declínio — talvez o amor seja uma das poucas experiências que desafiam essa lógica. Não porque ele não mude, mas porque ele não desaparece completamente. Ele se transforma, se dilui, se reconfigura, mas não se anula.
Ele se torna parte da estrutura do ser.
Nesse ponto, a lembrança dela já não era mais apenas pessoal. Era quase simbólica.
Representava não apenas um encontro específico, mas a possibilidade de um tipo de conexão que ultrapassa circunstâncias. Ela se tornava, em sua memória, menos uma pessoa concreta e mais uma ideia viva — a ideia de que é possível tocar o outro de maneira irreversível.
E isso o levou a uma pergunta inevitável: quantas pessoas carregamos dentro de nós sem percebermos?
Talvez sejamos feitos não apenas do que vivemos, mas de todos os encontros que nos atravessaram profundamente.
Pessoas que, mesmo ausentes, continuam operando silenciosamente em nossas escolhas, em nossos medos, em nossas formas de amar.
Nesse sentido, ninguém vai embora completamente.
E talvez seja por isso que a saudade dói de um jeito tão específico. Não é apenas a falta do outro — é o confronto com uma parte de nós mesmos que só existia na presença daquele outro.
A música, mais uma vez:
“Please forgive me, if I need you like I do…“
Agora, essa necessidade não era mais literal. Não se tratava de querer a presença física, o reencontro constante, a reconstrução de algo perdido.
Era uma necessidade mais sutil e, ao mesmo tempo, mais profunda: a necessidade de reconhecer que aquilo existiu e que continua existindo de alguma forma.
Porque negar seria empobrecer a própria experiência de vida.
Ele começou então a perceber que o reencontro não tinha sido sobre retomar, mas sobre legitimar. Como se ambos, ao se verem novamente, tivessem autorizado a memória a deixar de ser apenas nostalgia e se tornar compreensão.
E há algo de profundamente libertador nisso.
Quando deixamos de lutar contra o passado e passamos a integrá-lo, ele perde seu peso e ganha sentido. Não como algo que nos prende, mas como algo que nos compõe.
Ainda assim, havia uma melancolia inevitável.
Não a melancolia desesperada da perda, mas uma melancolia lúcida, quase serena. A consciência de que algumas coisas são belas justamente porque não permanecem da forma como começaram.
Porque, se permanecessem, talvez se tornassem comuns, previsíveis, desgastadas.
O tempo, nesse caso, não destruiu — refinou.
Transformou o amor vivido em algo mais amplo: uma espécie de sensibilidade, uma abertura para o mundo, uma capacidade maior de sentir.
E isso o levou a uma última reflexão, talvez a mais difícil de aceitar: nem todo amor é feito para ser vivido plenamente no plano concreto.
Alguns existem como experiência formadora, como acontecimento interno, como marca. Não são histórias para serem continuadas, mas para serem compreendidas.
E, paradoxalmente, são essas que mais permanecem.
“Please forgive me…“
Dessa vez, ele não ouviu a frase como um pedido dirigido a ela. Mas a si mesmo.
Perdoar-se por não ter entendido tudo na época. Por não ter sabido nomear o que sentia. Por ter deixado escapar algo que só mais tarde compreenderia em sua profundidade.
Mas também por ter vivido.
Porque, no fim, não há erro em sentir intensamente. O erro, talvez, esteja em tentar reduzir o amor a algo que ele não é: simples, linear, controlável.
O amor é excesso. É transbordamento. É aquilo que escapa.
E naquele instante — já distante dos anos 1990, mas ainda atravessado por eles — ele finalmente aceitou que algumas histórias não precisam de conclusão.
Elas continuam.
Não no mundo visível, não nas rotinas compartilhadas, não nas promessas cumpridas.
Mas no pensamento, na memória, na forma como vemos o mundo depois delas.
E isso, de alguma forma, é uma forma de eternidade.
A canção terminou.
Mas, como sempre, deixou algo no ar.
Não um vazio — mas uma presença silenciosa.
Como o próprio amor.
E foi nesse silêncio, mais eloquente do que qualquer palavra, que algo novo começou a se insinuar dentro dele.
Não era a repetição da saudade, nem o retorno de uma dor antiga. Era diferente. Mais suave, mais luminoso, quase como se o sentimento, depois de atravessar tantos anos e tantas formas, estivesse finalmente encontrando um modo de existir sem ferir.
Porque há um momento — raro, mas possível — em que o amor deixa de ser ausência e se torna possibilidade.
Ele não soube identificar exatamente quando essa mudança começou. Talvez tenha sido no instante em que deixou de perguntar “e se tivesse sido diferente?” E passou a se perguntar “e se ainda puder ser, de outro modo?”.
Essa pequena inflexão no pensamento abriu um espaço inesperado, como uma janela em uma casa antiga que, por muito tempo, permaneceu fechada.
E pela primeira vez em muitos anos, a lembrança dela não veio acompanhada de peso, mas de leveza.
Ele voltou a pensar naquele reencontro.
No modo como os olhares se sustentaram sem pressa. Na forma como o tempo, por alguns instantes, pareceu suspenso — não como nos anos 1990, quando tudo era intensidade e descoberta, mas agora como um reconhecimento tranquilo, quase sereno, de algo que havia resistido.
E se aquilo não fosse apenas passado?
Essa pergunta, que antes pareceria ingênua, agora se apresentava com uma dignidade inesperada. Não como ilusão, mas como hipótese. Não como fuga da realidade, mas como abertura para ela.
Porque, afinal, o que define o tempo de um sentimento?
A cronologia ou a verdade que ele carrega?
Ele começou a perceber que talvez tivesse sido rígido demais ao interpretar a própria história.
Como se o amor só pudesse ser válido dentro de certos formatos: início, meio, continuidade. Como se tudo aquilo que escapasse desse modelo estivesse condenado à categoria de “inacabado”.
Mas e se o inacabado não for ausência de sentido — e sim excesso?
E se algumas histórias permanecem abertas não porque falharam, mas porque não cabem em um único ciclo?
A ideia o inquietou, mas também o aqueceu.
Porque, ao pensá-la, ele não sentia mais apenas nostalgia. Havia algo de vivo, algo que apontava não para trás, mas para frente. Como se o passado, em vez de encerrar possibilidades, estivesse, na verdade, alimentando novas formas de existência.
A música voltou, quase como se acompanhasse essa transformação interna.
“Please forgive me, if I need you like I do…“
Mas agora, havia um detalhe diferente: ele não ouvia mais essa frase como um apego ao que foi.
Havia nela um pedido que também era convite. Como se o amor, mesmo transformado, ainda encontrasse caminhos para se manifestar.
E então ele pensou nela — não como lembrança fixa, mas como presença possível no presente.
Onde estaria agora? O que sentiria? Será que também carregava aquele mesmo eco? Ou teria seguido de forma mais leve, deixando tudo no passado?
Essas perguntas já não doíam.
Elas tinham, curiosamente, um tom de esperança.
Porque, pela primeira vez, ele não precisava que as respostas confirmassem nada.
Bastava saber que o vínculo existiu — e que, de alguma forma, ainda vibrava.
E talvez fosse isso que o amor amadurecido oferece: não a necessidade de possuir, mas a capacidade de reconhecer.
Reconhecer que houve verdade. Que houve encontro. Que houve transformação.
E que isso, por si só, já é extraordinário.
Ainda assim, algo dentro dele ousava ir além.
Não como insistência, mas como delicadeza.
E se o reencontro não tivesse sido apenas um fechamento, mas um recomeço silencioso?
Ele se lembrou do último olhar que trocaram ao se despedirem. Havia ali uma pausa — breve, quase imperceptível — mas carregada de algo que não se disse. Não era arrependimento. Não era urgência. Era… possibilidade.
Uma possibilidade tímida, quase envergonhada de existir.
Mas real.
E foi nesse ponto que ele compreendeu algo essencial: a esperança não precisa ser grandiosa para ser verdadeira.
Às vezes, ela se apresenta em gestos mínimos. Em pensamentos que persistem. Em uma música que insiste em voltar. Em um nome que, mesmo não sendo dito, continua habitando o silêncio.
Ele não sabia se voltariam a se encontrar.
Não sabia se o tempo, novamente, cruzaria seus caminhos de forma concreta. Mas isso já não era o mais importante.
Porque, de alguma forma, eles já haviam se reencontrado em um nível mais profundo — aquele onde o passado deixa de ser distância e se torna presença integrada.
E, ainda assim, havia espaço para o futuro.
Um futuro que não precisava repetir o que foi, nem corrigir o que não aconteceu. Um futuro que poderia simplesmente acolher aquilo que permanece.
“Please forgive me, I can’t stop loving you…“
Dessa vez, ele sorriu ao ouvir.
Não havia mais conflito nessa frase.
Amar não era mais um problema a ser resolvido, nem uma memória a ser superada. Era uma condição tranquila, quase serena, como quem aceita a própria história sem resistência.
E, curiosamente, foi essa aceitação que abriu espaço para algo novo.
Porque quando deixamos de nos prender ao que deveria ter sido, começamos a perceber o que ainda pode ser.
Ele passou a caminhar com outra disposição.
Os dias, antes atravessados por uma nostalgia difusa, começaram a ganhar uma tonalidade diferente.
Não era euforia, nem expectativa exagerada. Era uma espécie de abertura — uma sensibilidade renovada para o encontro, para o acaso, para aquilo que a vida ainda poderia oferecer.
E isso incluía, inevitavelmente, a possibilidade de revê-la.
Mas, se isso acontecesse, não seria mais como antes.
Não haveria a urgência da juventude, nem o medo de perder. Haveria algo mais raro: a escolha consciente de estar.
Porque o amor que atravessa o tempo aprende uma coisa fundamental — ele deixa de ser necessidade e se torna presença.
E presença não se impõe. Ela se oferece.
Talvez, pensou ele, o verdadeiro reencontro ainda não tenha acontecido.
Talvez tudo até agora tenha sido apenas preparação.
Não no sentido de destino inevitável, mas de maturidade suficiente para que, se um novo encontro acontecer, ele seja vivido de forma inteira — sem as interrupções do medo, da imaturidade ou da falta de compreensão.
E, se não acontecer, ainda assim estará tudo bem.
Porque o amor já cumpriu seu papel mais profundo: transformá-lo.
Ainda assim, ele não negava — havia um desejo suave, quase silencioso, de que a vida lhes desse mais uma chance. Não para repetir o passado, mas para reinventá-lo.
Para olhar novamente, mas com outros olhos.
Para tocar, mas com outra consciência.
Para amar, não apesar do tempo, mas através dele.
A noite caiu devagar, como nos anos 1990.
E, por um instante, ele teve a sensação de que o tempo não era uma linha, mas um círculo — onde certos encontros não se perdem, apenas aguardam o momento certo de se revelar novamente.
A música, como sempre, encontrou seu caminho de volta.
Mas dessa vez, não trouxe apenas memória.
Trouxe futuro.
E, no silêncio que se seguiu, ele percebeu que o amor — aquele amor — já não era apenas saudade.
Eduardo Cesario-Martínez Foto por Irene OliveiraImagem gerada pela IA do Gemini
Era notória, naqueles cantos, a paciência dos urubus, por mais ansiosos que estivessem, em esperar por mais uma criatura faminta ou, então, acometida de alguma moléstia finalmente sucumbisse. Ajoelhada e sem vontade de rezar, Veridiana olhou aquelas aves e teve a certeza de que os sonhos de infância não passaram de devaneios de alguém que não conseguia enxergar a própria sina.
Com as palmas das mãos sobre o solo rachado da caatinga, a mulher soltou um arre! e conseguiu erguer o corpo. Nunca fora boa com números, mas sabia que havia um povoado a duas léguas. Que fossem sete ou oito, ela estava decidida a não virar repasto de urubu. Não naquele dia. Que fossem procurar por outra carcaça com menos vontade de prosseguir nessa sobrevida ingrata.
Aos 38 anos, passara por momentos de penúria e raros confortos. Desde sempre fora explorada, seja pelo pai, seja pelos irmãos, seja pelo homem que se fez seu marido. Seca nas carnes e por dentro, nunca engravidou, apesar das indesejadas investidas do macho que a cobria sem lhe dar sossego.
Horácio não se conformava por escolha tão despropositada. Para que servia mulher estragada, se não era capaz de lhe dar os filhos que tanto queria? Pois tratou de arrumar uma mais nova e de procedência garantida.
Cassiana, a vizinha, era viúva e sustentava dois meninos graúdos. O homem foi ter um dedo de prosa e a coisa ficou acertada. Divorciou de Veridiana e desposou a outra. Não tardou, constatou que a escolha havia sido acertada, pois a nova esposa logo apresentou os primeiros enjoos.
Quanto à Veridiana, foi colocada de lado para os afazeres domésticos. Perdera o posto de esposa, mas Horácio necessitava de alguém para ajudar a nova mulher na lida com a casa. Vez ou outra, dependendo da falta de disposição da Cassiana, deitava-se com a ex-consorte. Rosto virado para o lado ou fixo no teto, Veridiana aguardava o arfar do sujeito se esvair num urro. Coisa de minutos, que pareciam uma eternidade.
Enquanto caminhava, Veridiana se recordava da vida miserável que se acostumou a levar. Não tinha raiva de Cassiana, muito menos das crianças e do bebê a caminho. Eram todas vítimas da perversidade do inferno onde nasceram. E nada de indulgências para os desprovidos de sorte. Que cumprissem as próprias agruras.
Horácio, todavia, não era visto com qualquer benevolência. Tanto é que Veridiana decidiu pôr um ponto final não apenas nas investidas do gajo, como também fazê-lo pagar por todos os pecados. Ela pensou numa maneira que não levantasse suspeitas.
Após quase dois meses, eis que Veridiana percebeu que o melhor era envenenar o traste. Que ele gostava de doces, todos sabiam. Que morresse empanturrado de quebra-queixo!
Tentou antúrio, mas não conseguiu provocar nada além do que diarreia e vômito no homem. Abusou de óleo de mamona, mas tratou de jogar fora todo o tacho porque os meninos e a buchuda reclamaram seu quinhão.
— Estragou.
— E desde quando doce estraga?
— Pois esse estragou. Faço outro amanhã.
A desculpa parece que não convenceu Cassiana, mas nada que provocasse intriga entre as duas. Quanto às crianças, foram ludibriadas por generosos nacos de rapadura.
Os dias prosseguiram, até que, por algo tão inesperado como picada de cobra, eis que Horácio, ao acordar depois de passar mais uma noite sobre Veridiana, foi calçar a botina. Pelo barulho do chocalho, parece que foi cascavel, que buscara refúgio no calçado do homem.
Veridiana nunca sentiu tamanho regozijo ao encarar o desespero de Horácio, que gritava. Não tardou, Cassiana surgiu e ainda pode ver a serpente se esgueirando para debaixo da cama. As duas mulheres, cúmplices nos desejos, viram o homem se esvair em pouco mais de duas horas.
— Vá buscar ajuda!
— Vou.
Cansada pela longa caminhada, Veridiana, finalmente, chegou ao povoado, onde sabia não existir médico. Tratou de comunicar o ocorrido ao padre, que acompanhou a mulher até o sítio da família. Nem deu tempo de fazer a extrema unção. Horácio, tipo comum da região, tinha um filete de sangue ressequido no canto dos lábios.
Estavam na berma da estrada nacional 140, em Malanje, quando já subiam as letras das sete horas da manhã. Esperavam, na calçada, pela abertura e autorização dos contínuos para entrarem no banco Millenium Atlântico mais de cinquenta pessoas. Era uma manhã fria e quente ao mesmo tempo. Pessoas vinham e iam. Ao lado, o asfalto não sabia se gritava de alegria ou de agonia pela fraca, mas constante movimentação dos carros que por ele passavam, aonde iam só os que estavam dentro deles sabiam.
Mirosman sentia-se aflito enquanto o seu joãozinho sofria asfixiações com a sua mão esquerda. Fez um sinal com a sua mão direita à mão esquerda da mãe e disse:
– Mãe, preciso de ir tirar o meu irmão que está preso faz muito tempo!
– Mas, Miros, aonde é que a gente vai fazer isso, aqui onde a gente está?
Com muita sofreguidão o rapaz disse:
– Ele já não vai aguentar por mais tempo, mãe!
Sentados nos separadores de ferro pintados de preto e amarelo, todos os utentes davam de costas com a estrada, mas encaravam os complexos prediais como a um inimigo que lhes resistia a um acordo. Agora, também aflita com a sofreza do menino, Umblina move a cabeça 90 graus para Norte e em seguida 90 graus para o Sul em busca de uma solução. Do seu lado direito, depara-se com o restaurante Telma Fashion, do seu lado direito, o complexo predial que alberga o Banco BIC e a Casa Samir, todos eles ainda fechados para o público.
– Vamos Miros!
O rapaz obedeceu e, seguindo a mãe, contornaram a Casa Samir, em direção à rua Cândido Reis, caminharam e encontraram uma esquina que dava ao refeitório da loja adjacente e à igreja e escola IERA. Nessa esquina, um bequinho entre o refeitório e a estação de comboio exibia o cheiro de latrina pública.
– Depressa- exclamou a mãe, apontando para o bequinho coberto de capim verde e mal-cheiroso.
Mirosman, sem olhar para os lados, de pé à entrada do compartimento, tira as trancas que guardavam o seu joãozinho e, em cinco segundo já respirava ar de alívio -, o seu irmão estava livre e ele mesmo se libertara da desonra.
Ao dar meia volta para abandonar o lugar, Mirosman não conseguiu desviar os seus olhares de um jovem bem vestido com uma jeans, t-sheart e tênis Draft pulse, tudo preto. O homem, de mais de vinte anos, lutava com um rádio de porco, degustava-se de todos os pratos que lhe servia o contentor verde e antigo de dias.
O rapaz, apoquentado e boquiaberto, fitou seriamente o homem, que sua mãe, que discretamente sondava a área e o garoto, há uns dez metros de onde ele estava a urinar, gritou suavemente, mas com uma denunciante autoridade:
– Mirosman!
Ao que Mirosman rapidamente completou a meia volta e ia-se embora, mas enquanto caminhava em direção à mãe, olhava intermitentemente para o homem, que, agora, deleitava-se de corpo e alma de tudo o que dispunha o BAR-RESTAURANTE.
Mirosman tentou falar:
– Mãe….
Imediatamente, Umblina olhou para o rapaz e levou o dedo indicador à boca e fez:
– Tchiuuuuu!
Milton Gaspar Domingos
Milton G. Domingos
Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.
Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).
Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.