O bar-restaurante

Miton Gaspar: Conto ‘O bar-restaurante’

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Estavam na berma da estrada nacional 140, em Malanje, quando já subiam as letras das sete horas da manhã. Esperavam, na calçada, pela abertura e autorização dos contínuos para entrarem no banco Millenium Atlântico mais de cinquenta pessoas. Era uma manhã fria e quente ao mesmo tempo. Pessoas vinham e iam. Ao lado, o asfalto não sabia se gritava de alegria ou de agonia pela fraca, mas constante movimentação dos carros que por ele passavam, aonde iam só os que estavam dentro deles sabiam. 

Mirosman sentia-se aflito enquanto o seu joãozinho sofria asfixiações com a sua mão esquerda.  Fez um sinal com a sua mão direita à mão esquerda da mãe e disse:

– Mãe, preciso de ir tirar o meu irmão que está preso faz muito tempo!

– Mas, Miros, aonde é que a gente vai fazer isso, aqui onde a gente está?

Com muita sofreguidão o rapaz disse:

– Ele já não vai aguentar por mais tempo, mãe! 

Sentados nos separadores de ferro pintados de preto e amarelo, todos os utentes davam de costas com a estrada, mas encaravam os complexos prediais como a um inimigo que lhes resistia a um acordo. Agora, também aflita com a sofreza do menino, Umblina move a cabeça 90 graus para Norte e em seguida 90 graus para o Sul em busca de uma solução. Do seu lado direito, depara-se com o restaurante Telma Fashion, do seu lado direito, o complexo predial que alberga o Banco BIC e a Casa Samir, todos eles ainda fechados para o público. 

– Vamos Miros!

O rapaz obedeceu e, seguindo a mãe, contornaram a Casa Samir, em direção à rua Cândido Reis, caminharam e encontraram uma esquina que dava ao refeitório da loja adjacente e à igreja e escola IERA. Nessa esquina, um bequinho entre o refeitório e a estação de comboio exibia o cheiro de latrina pública.

– Depressa- exclamou a mãe, apontando para o bequinho coberto de capim verde e mal-cheiroso. 

Mirosman, sem olhar para os lados, de pé à entrada do compartimento, tira as trancas que guardavam o seu joãozinho e, em cinco segundo já respirava ar de alívio -, o seu irmão estava livre e ele mesmo se libertara da desonra.

Ao dar meia volta para abandonar o lugar, Mirosman não conseguiu desviar os seus olhares de um jovem bem vestido com uma jeans, t-sheart e tênis Draft pulse, tudo preto. O homem, de mais de vinte anos, lutava com um rádio de porco, degustava-se de todos os pratos que lhe servia o contentor verde e antigo de dias.

O rapaz, apoquentado e boquiaberto, fitou seriamente o homem, que sua mãe, que discretamente sondava a área e o garoto, há uns dez metros de onde ele estava a urinar, gritou suavemente, mas com uma denunciante autoridade:

– Mirosman!

Ao que Mirosman rapidamente completou a meia volta e ia-se embora, mas enquanto caminhava em direção à mãe, olhava intermitentemente para o homem, que, agora, deleitava-se de corpo e alma de tudo o que dispunha o BAR-RESTAURANTE.

Mirosman tentou falar: 

– Mãe…. 

Imediatamente, Umblina olhou para o rapaz e levou o dedo indicador à boca e fez: 

– Tchiuuuuu!

Milton Gaspar Domingos

Milton G. Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

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