Somos a ponte e a multidão
Evani Rocha: Poema ‘Somos a ponte e a multidão’


Somos a ponte sobre o rio
E a multidão a passar
A estibordo do navio
E o porão a naufragar
Somos calor de verão
Folhas secas no outono
Somos cada estação
Na insanidade dos sonhos
Somos o pó da estrada
E a ventania a soprar
As pegadas na areia
A maré a marejar
Somos feito andarilhos
Pelos caminhos da vida
Ora largo, ora estreito
Nos vales e na subida
Somos as pedras e as flores
A depender das emoções
As páginas escritas do livro
As vírgulas e os travessões
Somos sol ou somos chuva
A semente a germinar
Às vezes a erva daninha
A outras ervas, sufocar
Lua minguante ou cheia
Nós também podemos ser
Cada um tem o seu jeito
De brilhar ou de esconder-se
Somos os homens que lutam
Sob o reinado insolente
A mesa posta e a fartura
A fome do inocente
Somos pais e somos filhos
O abraço e a ausência
Um sorriso escancarado
Ou o pranto incontido
Somos parede e telhado
Por vezes, somos o piso
Somos trem descarrilhado
A estação e os trilhos
Somos aves, somos bichos
A terra e a serrapilheira
O lugar de cada nicho
A serpente e a sereia
Somos águia a voar
Por sobre montes e vales
A procura de um tudo
Ou tão somente, um nada
Somos presa e predador
O caos e a sobriedade
O ataque e a defesa
A fome e a saciedade
Somos céu e arco-íris
Das cores, a aquarela
O pincel e a pintura
O ramalhete na janela
Somos o mar e a maresia
A areia branca e o véu
As ondas na maré cheia
O mel da boca e o fel
Somos água turbulenta
Por vezes, somos serenas
Somos fossas abissais
Morando dentro da gente
Somos a mala e o conteúdo
A poltrona e a passagem
O túnel no viaduto
E as sombras da viagem
Somos chegada e partida
Quem vai embora ou quem fica
As medalhas da vitória
E as flores da despedida
Somos nossa própria história
O epitáfio na lápide fria
A desculpa na retórica
E a pálida fotografia
Somos a ponte sobre o rio
E a multidão a passar
Os olhos no infinito
E as mãos em prece a rogar!