Habitar a rachadura

Clayton Alexandre Zocarato ‘Habitar a rachadura’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Não há começo. Há apenas a pretensão humana de chamar de começo ao instante em que alguma coisa percebe que já estava ruindo. Antes da primeira palavra, a parede já conhecia a fissura. Antes da primeira consciência, o vazio já havia aprendido a pronunciar o nome de ninguém. O mundo não nasceu; abriu-se.

            E desde então permanece nessa abertura, esse desabismamentocontínuo que chamamos existência porque ainda não encontramos uma palavra suficientemente honesta para dizer: acidente.

            Habitar a rachadura não é morar dentro dela. Morar ainda pressupõe abrigo, interioridade, alguma arquitetura capaz de oferecer a ilusão de permanência.

             A rachadura não abriga. Ela expõe. Ela é o lugar onde a matéria perde sua mentira de solidez e a existência perde seu verniz de necessidade. Tudo aquilo que parecia inteiro era apenas uma pausa entre duas ruínas. Tudo aquilo que parecia ser era apenas aquilo que ainda não havia percebido o quanto estava deixando de ser.

            Olhe para a parede.

            Não a parede física, essa vulgaridade mineral que separa quartos e corredores, mas a parede metafísica que você ergue diariamente entre aquilo que pensa ser e aquilo que sabe, secretamente, que não é. Essa parede tem nome? Talvez. Necessidade.      Identidade. Destino. Caráter. Deus. Futuro. Amor. Progresso. Qualquer palavra serve quando utilizada com suficiente convicção para impedir que o abismo responda.

            Mas ele responde.

            Responde sempre.

            A rachadura é a resposta.

            Ela começa quase invisível, como todas as catástrofes realmente importantes.      Uma linha mínima atravessa a superfície do real. Não se sabe quando apareceu.          Não se sabe quem a produziu. Talvez ninguém. Talvez o próprio universo seja uma rachadura tentando convencer-se de que é construção. Talvez a matéria seja apenas o modo como o nada se distrai de sua própria ausência. Talvez aquilo que chamamos realidade seja uma espécie de entretela cósmica, um tecido barato estendido sobre um buraco sem fundo para impedir que o olhar humano enlouqueça.

            Você olha e diz: mundo.

            O abismo olha e responde: intervalo.

            Você insiste.

            Ele não precisa.

            A consciência é essa insistência.

            Pensar talvez seja apenas uma forma sofisticada de não perceber que não há pensamento algum por trás do pensamento. Uma autoconsciência do vazio produzindo pequenas frases para se distrair da própria inexistência. A filosofia nasceu dessa doença: a necessidade de perguntar por que, quando talvez a única resposta possível seja porque não. E ainda assim perguntamos. Perguntamos como quem bate à porta de uma casa abandonada esperando que a ausência tenha desenvolvido hospitalidade.

            A pergunta é o primeiro móvel colocado dentro do quarto vazio.

            Depois vêm os conceitos.

            Depois os sistemas.

            Depois as religiões.

            Depois os Estados.

            Depois as famílias.

            Depois os calendários.

            Depois as fotografias.

            Depois os túmulos.

            E finalmente, quando tudo parece suficientemente organizado para esconder o desmoronamento, inventamos a palavra sentido.

            Que palavra obscena.

            Sentido.

            Como se o universo tivesse escrito uma direção na margem de sua própria existência. Como se o nascimento fosse uma frase iniciada por uma inteligência e a morte, apenas sua pontuação final. Como se houvesse alguma gramática escondida na decomposição.

            E não há.

            Ou talvez haja, o que seria ainda pior.

            Porque se existe uma gramática secreta, então fomos condenados a obedecê-la sem jamais aprendê-la.

            A rachadura não explica. A rachadura acontece.

            E isso deveria bastar para destruir nossa arrogância.

            Mas não basta.

            Você ainda acorda.

            Essa é a primeira violência do dia.

            Acordar.

            Abrir os olhos e aceitar novamente a existência como se nada tivesse acontecido durante a noite. Como se dormir não fosse uma pequena experiência de morte e despertar não fosse um pacto renovado com aquilo que nos destruirá.

            O corpo retorna ao mundo e, por alguns segundos, talvez antes que a linguagem se recomponha, existe uma possibilidade de lucidez: ainda não somos ninguém. Ainda não somos função, documento, profissão, história, memória, fracasso, sucesso, nome, rosto, biografia. Somos apenas uma presença sem legenda.

            Então o pensamento retorna.

            E estraga tudo.

            A primeira palavra reorganiza o cárcere.

            Depois outra.

            Depois outra.

            Até que o vazio se transforme novamente em agenda.

            É assim que a civilização funciona: uma grande operação de tapume contra o abismo. Construímos para não ver. Trabalhamos para não pensar. Amamos para não morrer sozinhos. Reproduzimos para fingir continuidade.

            Acumulamos objetos porque não conseguimos acumular tempo. Inventamos monumentos porque não suportamos a ideia de que tudo aquilo que fazemos desaparecerá sem testemunhas.

            Chamamos isso de progresso.

            Talvez seja apenas uma técnica refinada de adiamento.

            A espécie humana tornou-se especialista em adiar a pergunta essencial: por que continuar?

            Não porque tenha encontrado uma resposta, mas porque descobriu inúmeras maneiras de evitar formulá-la.

            O cotidiano é a grande anestesia metafísica.

            O café, o relógio, a notificação, a reunião, o salário, o compromisso, a conta, o trânsito, o entretenimento, a fotografia, o comentário, a opinião, a próxima semana, o próximo ano. Tudo cuidadosamente disposto para que ninguém tenha tempo de perceber o horror elementar de existir.

            E quando alguém percebe, chamamos de crise.

            Talvez a crise seja apenas a primeira forma de saúde.

            Talvez adoecer seja adaptar-se perfeitamente ao absurdo.

            Talvez o homem verdadeiramente enfermo seja aquele que funciona.

            Que acorda no horário.

            Que responde.

            Que produz.

            Que sorri.

            Que cumpre.

            Que compra.

            Que planeja.

            Que envelhece.

            Que morre.

            Que é enterrado.

            E que ainda assim, até o último instante, continua convencido de que estava vivendo.

            A rachadura aparece justamente quando essa máquina falha.

            Uma palavra perde o significado.

            Um rosto deixa de significar alguma coisa.

            Uma manhã parece repetida de uma maneira intolerável.

            O relógio passa a marcar não horas, mas erosões.

            O futuro deixa de ser promessa e passa a parecer apenas uma forma adiada do mesmo quarto.

            Então alguma coisa se desloca.

            Não no mundo.

            Dentro da percepção.

            É o instante em que a realidade deixa de parecer familiar.

            E talvez nunca tenha sido.

            A familiaridade é uma droga.

            Ela faz o absurdo parecer doméstico.

            Você chama de casa aquilo que deveria chamar de precipício.

            Chama de rotina aquilo que é repetição da morte.

            Chama de identidade aquilo que é apenas uma sequência de hábitos defendidos com orgulho.

            Chama de personalidade aquilo que sobreviveu às expectativas alheias.

            Chama de liberdade aquilo que escolheu dentro de uma lista previamente organizada.

            Chama de escolha aquilo que o medo permitiu.

            Chama de destino aquilo que não teve coragem de recusar.

            Chama de amor aquilo que muitas vezes é apenas o medo de ficar sozinho diante da própria rachadura.

            Não se ofenda.

            A ofensa é outra defesa.

            Tudo aquilo que o atinge talvez esteja apenas tocando uma região que você mantém interditada.

            O leitor deseja uma história.

            Não haverá.

            Deseja acontecimentos.

            Haverá apenas o acontecimento de perceber que está lendo.

            Deseja personagens.

            Não haverá ninguém suficientemente inteiro para ocupar esse lugar.

            Deseja uma voz.

            Talvez esta voz seja apenas o eco de algo que você trouxe consigo.

            E se isso incomoda, melhor.

            A literatura que não incomoda serve apenas para decorar a sala onde a consciência adormece.

            O conto deve ser uma pequena máquina de perturbação.

            Uma espécie de rachadormáquina.

            Uma palavra que não deveria existir, mas existe porque as palavras existentes se tornaram insuficientes.

            Rachadormáquina: mecanismo pelo qual o real produz sua própria ruptura.

            Talvez todo conceito verdadeiro seja um neologismo esperando nascer porque as palavras antigas ficaram pequenas demais para conter a angústia.

            Há coisas que não podem ser ditas sem deformar a língua.

            A morte é uma delas.

            O nada é outra.

            O amor, quando levado suficientemente a sério, também.

            Porque amar é uma espécie de metafísica clandestina: afirmar que alguma presença possui importância em um universo que não demonstra qualquer obrigação de conservar coisa alguma.

            Você ama e, portanto, desafia a indiferença.

            Mas a indiferença não precisa responder.

            Ela simplesmente continua.

            Essa é sua crueldade.

            O universo não odeia.

            Seria reconfortante se odiasse.

            O ódio ainda seria uma forma de atenção.

            O universo não presta atenção.

            As estrelas explodem sem intenção moral. Os planetas continuam suas órbitas sem considerar nossas tragédias.

            A matéria não possui compaixão. O tempo não reconhece injustiça. A morte não distingue inocência de culpa.

            E, mesmo assim, insistimos em procurar justiça no mecanismo.

            Por quê?

            Porque precisamos que o sofrimento signifique alguma coisa.

            É difícil aceitar que uma dor possa ser absolutamente inútil.

            Talvez seja por isso que inventamos explicações.

            A dor precisa ter causa.

            A morte precisa ter propósito.

            A perda precisa ensinar.

            O fracasso precisa transformar.

            O sofrimento precisa produzir alguém melhor.

            Mas e se não produzir?

            E se houver sofrimentos que não ensinam nada?

            E se algumas perdas forem apenas perdas?

            E se determinados mortos não deixarem nenhuma lição?

            E se o universo não estiver interessado em transformar sua tragédia em parábola?

            Talvez a maior violência contra o sofrimento seja obrigá-lo a ter significado.

            Há uma crueldade pedagógica em tudo isso.

            Morreu? Aprenda.

            Perdeu? Cresça.

            Foi abandonado? Fortaleça-se.

            Fracassou? Recomece.

            Que maquinaria miserável.

            Às vezes o fracasso não é preparação para o sucesso.

            Às vezes é apenas fracasso.

            Às vezes o abandono não prepara um encontro melhor.

            É apenas abandono.

            Às vezes a vida não está preparando ninguém para nada.

            Ela está acontecendo.

            E isso deveria ser suficientemente aterrador.

            A rachadura cresce.

            Não porque alguém a aumente.

            Ela cresce porque tudo cresce para a decomposição.

            O concreto cede.

            O ferro enferruja.

            A madeira apodrece.

            A pele enruga.

            A memória falha.

            A linguagem perde palavras.

            As cidades envelhecem.

            Os nomes desaparecem.

            Os documentos se desfazem.

            As fotografias amarelecem.

            Os arquivos são apagados.

            Os servidores queimam.

            Os edifícios são demolidos.

            Os cemitérios são esquecidos.

            E, em algum momento, ninguém mais sabe onde determinada pessoa foi enterrada.

            Talvez esse seja o verdadeiro significado da morte: não deixar de existir, mas perder gradualmente os lugares onde se era lembrado.

            Primeiro morre o corpo.

            Depois morre a voz.

            Depois o rosto.

            Depois a história.

            Depois o nome.

            Depois a memória do nome.

            Depois até a possibilidade de alguém perguntar quem fomos.

            A morte absoluta não é desaparecer.

            É tornar-se uma pergunta que ninguém mais formula.

            Você ainda acredita na eternidade?

            Pergunte novamente.

            Mais devagar.

            Eternidade.

            Que palavra magnífica para esconder o pânico diante da finitude.

            Talvez a eternidade não seja duração infinita.

            Talvez seja apenas ausência de acontecimento.

            Um tempo sem mudança.

            Um instante que jamais termina.

            Se for assim, talvez a eternidade seja mais próxima do inferno do que do paraíso.

            Porque aquilo que torna a existência suportável é justamente sua impermanência.

            A dor termina.

            O prazer termina.

            A infância termina.

            O amor muda.

            O medo passa.

            As pessoas vão embora.

            As cidades se transformam.

            Tudo se move.

            A existência é suportável porque não permanece.

            O absurdo nasce quando desejamos permanência em um mundo construído pela transformação.

            Queremos que alguém fique.

            Queremos que determinada época não termine.

            Queremos que um corpo permaneça jovem.

            Queremos que uma lembrança não se deteriore.

            Queremos que o amor conserve sua primeira temperatura.

            Queremos que a casa continue sendo casa.

            Mas a casa racha.

            Sempre.

            E talvez habitar a rachadura seja justamente abandonar a esperança de que ela desapareça.

            Não repará-la.

            Não escondê-la.

            Não pintá-la.

            Não preenchê-la com cimento psicológico.

            Habitar.

            Fazer do defeito uma morada.

            Fazer do fracasso uma arquitetura.

            Fazer do vazio uma janela.

            Isso parece belo.

            E talvez seja justamente aí que a armadilha se esconda.

            Porque até o pessimismo pode virar estética.

            Até o desespero pode ser transformado em ornamento.

            Até o absurdo pode virar pose.

            Há uma vaidade profunda em parecer desencantado.

            O sujeito que declara que nada faz sentido pode estar apenas procurando uma maneira sofisticada de sentir-se superior aos que ainda acreditam.

            O pessimismo também pode ser uma forma de narcisismo.

            Olhe como sofro.

            Olhe como compreendo o vazio.

            Olhe como sou profundo porque não acredito.

            Não.

            A rachadura não concede superioridade.

            Ela retira.

            Retira o chão.

            Retira a desculpa.

            Retira a possibilidade de posar diante do abismo.

            O absurdo não transforma ninguém em sábio.

            Apenas remove alguns móveis do quarto.

            Depois você precisa continuar lá.

            Sem decoração.

            Sem personagens.

            Sem biografia.

            Sem narrativa redentora.

            Somente você e aquilo que não responde.

            E talvez nem isso.

            Porque o “você” também é uma construção provisória.

            Quem exatamente habita?

            A pergunta deveria destruir a casa.

            Existe um corpo.

            Existe memória.

            Existem hábitos.

            Existem cicatrizes.

            Existe linguagem.

            Mas onde está o proprietário?

            Onde está aquele que diz “eu”?

            Procure.

            Abra gavetas.

            Examine fotografias.

            Leia documentos.

            Consulte lembranças.

            Nada.

            O eu não está lá.

            Há apenas rastros.

            O eu talvez seja a rachadura tentando acreditar que possui uma casa.

            Somos menos indivíduos do que processos.

            Menos identidades do que continuidades imaginárias.

            Menos histórias do que versões sucessivas de um acontecimento corporal que ainda não terminou.

            E se o eu é provisório, o medo de perdê-lo torna-se uma espécie de comédia metafísica.

            Tememos desaparecer antes mesmo de termos conseguido provar que estivemos aqui.

            É possível que a consciência seja o universo cometendo o erro de olhar para si mesmo e acreditar que encontrou alguém.

            Essa frase parece filosófica.

            Talvez seja apenas uma frase.

            Cuidado.

            A linguagem também sabe fingir profundidade.

            Uma palavra difícil pode esconder uma ideia vazia com mais elegância do que uma palavra simples.

            Hermetizar não é necessariamente aprofundar.

            Às vezes é apenas fechar a porta.

            Por isso a rachadura precisa permanecer aberta.

            Ela não é uma resposta.

            Ela é uma interrupção.

            Uma falha no sistema explicativo.

            Um defeito na narrativa.

            Um pequeno rasgo pelo qual entra aquilo que não conseguimos domesticar.

            A metafísica começa quando o mundo deixa de ser suficiente.

            O absurdo começa quando descobrimos que a metafísica também não é suficiente.

            Primeiro perguntamos o que existe.

            Depois perguntamos por que existe.

            Depois perguntamos por que perguntamos.

            Depois percebemos que nenhuma pergunta garante resposta.

            E então surge o silêncio.

            Não o silêncio poético.

            Não o silêncio contemplativo.

            O silêncio bruto.

            Aquele que não pretende ensinar.

            Aquele que não cura.

            Aquele que simplesmente permanece quando todas as palavras terminam.

            Talvez seja nele que a rachadura realmente habite.

            Não na parede.

            Não no corpo.

            Não na história.

            Mas entre a pergunta e aquilo que não responde.

            Esse intervalo é insuportável.

            Por isso construímos religiões.

            Por isso construímos filosofias.

            Por isso construímos sistemas políticos.

            Por isso construímos famílias.

            Por isso construímos bibliotecas.

            Não necessariamente porque amamos construir.

            Talvez porque temos medo de ouvir o silêncio entre duas coisas.

            E o mais estranho é que nossas construções também envelhecem.

            A biblioteca vira arquivo.

            O arquivo vira depósito.

            O depósito vira ruína.

            A ruína vira patrimônio.

            O patrimônio vira fotografia.

            A fotografia vira lembrança.

            A lembrança vira ausência.

            A ausência vira silêncio.

            E então alguém escreve sobre tudo isso.

            Como se escrever pudesse impedir.

            Não impede.

            Escrever é uma forma elegante de perder.

            Cada frase escrita é uma coisa que já começou a envelhecer.

            A tinta é um relógio.

            O papel é uma pele.

            O livro é um corpo tentando sobreviver à própria decomposição.

            E você lê.

            Essa é a parte mais estranha.

            Você empresta seu tempo às palavras.

            Por alguns minutos, alguma coisa que não existe materialmente dentro deste espaço começa a existir em sua consciência.

            Isso é quase uma assombração.

            A literatura é a arte de colocar mortos dentro da cabeça dos vivos sem exigir licença.

            E talvez por isso ela seja perigosa.

            Porque toda narrativa reorganiza o leitor.

            Você não lê impunemente.

            Alguma coisa entra.

            Alguma coisa desloca.

            Alguma coisa racha.

            Se nada aconteceu enquanto você lia, talvez o texto tenha fracassado.

            Ou talvez você tenha se protegido.

            Também é possível.

            A mente possui mecanismos sofisticados de defesa.

            Transforma o horror em conceito.

            A angústia em teoria.

            A morte em tema.

            O vazio em estética.

            O sofrimento em linguagem.

            Você pode estar lendo sobre a rachadura sem jamais olhar para a sua.

            Essa é a maior possibilidade de fracasso.

            Porque habitar a rachadura não significa falar sobre ela.

            Significa permanecer diante dela sem imediatamente fechá-la com uma explicação.

            É possível?

            Talvez não.

            Mas tentar talvez seja o máximo de honestidade que resta.

            Não há heroísmo nisso.

            Não há redenção.

            Não há recompensa.

            Não haverá uma luz no fim.

            Se houver, provavelmente será outro mecanismo de iluminação.

            Outro cenário.

            Outra promessa.

            Outro modo de fugir.

            O absurdo não promete saída.

            Ele exige presença.

            Uma presença sem garantia.

            Uma existência sem certificado metafísico.

            Viver sem saber por quê.

            Continuar sem receber autorização do universo.

            Respirar sem interpretar a respiração como mensagem.

            Amar sabendo que o amor não suspende a morte.

            Pensar sabendo que o pensamento não produz fundamento.

            Criar sabendo que toda criação carrega sua própria ruína.

            Talvez isso seja liberdade.

            Ou talvez seja apenas uma forma mais sofisticada de condenação.

            Não importa.

            A pergunta retorna.

            Por que continuar?

            E a resposta mais honesta talvez seja: porque ainda está acontecendo.

            Nada mais.

            Nenhuma missão secreta.

            Nenhum destino.

            Nenhuma promessa.

            O coração continua batendo não porque tenha recebido uma ordem metafísica, mas porque ainda não parou.

            Essa ausência de fundamento deveria ser aterradora.

            E é.

            Mas também pode ser libertadora.

            Se nada está garantido, nada precisa ser venerado como inevitável.

            Se nenhuma essência está escrita, talvez possamos abandonar algumas máscaras.

            Se não existe roteiro, talvez a responsabilidade comece justamente aí.

            Não há destino para culpar.

            Não há universo para responsabilizar.

            Não há sentido pré-fabricado para obedecer.

            Há apenas o espaço rachado entre aquilo que acontece e aquilo que fazemos com o acontecimento.

            Talvez seja pouco.

            Talvez seja tudo.

            A rachadura continua.

            Você olha novamente para a parede.

            Agora percebe que ela não está apenas diante de você.

            Está em você.

            Não como metáfora.

            Como estrutura.

            Há fissuras no modo como lembra.

            No modo como deseja.

            No modo como ama.

            No modo como odeia.

            No modo como espera.

            No modo como teme.

            Há rachaduras naquilo que chama de certeza.

            Você não é inteiro.

            Nunca foi.

            A ideia de integridade talvez seja uma invenção posterior à fratura.

            Primeiro quebramos.

            Depois inventamos uma narrativa sobre como éramos inteiros.

            Essa é talvez a maior mentira da memória.

            Ela organiza ruínas em sequência e chama isso de vida.

            Mas a vida talvez seja apenas uma coleção de fragmentos que aprenderam a permanecer próximos o suficiente para produzir a ilusão de continuidade.

            O que você chama de passado é aquilo que a memória decidiu não destruir.

            O que chama de presente é aquilo que ainda não foi convertido em lembrança.

            O que chama de futuro é uma fantasia construída para suportar o presente.

            E o presente?

            O presente é quase nada.

            Um ponto impossível.

            Um instante sem duração.

            Quando você percebe que está nele, ele já passou.

            Você habita o intervalo entre dois desaparecimentos.

            E ainda chama isso de agora.

            Talvez seja belo.

            Talvez seja horrível.

            Talvez beleza e horror sejam apenas nomes diferentes para o mesmo espanto.

            A rachadura não escolhe.

            Ela atravessa.

            Atravessa a parede.

            Atravessa a consciência.

            Atravessa a história.

            Atravessa a linguagem.

            Atravessa a esperança.

            E, finalmente, atravessa este texto.

            Você chegou até aqui procurando talvez uma conclusão.

            Não haverá.

            Conclusões são fechaduras.

            A rachadura não fecha.

            Se este conto terminasse dizendo que tudo possui um sentido, seria uma mentira.

            Se terminasse dizendo que nada possui sentido, seria outra.

            Porque até o nada pode virar dogma.

            A única certeza possível talvez seja a impossibilidade da certeza.

            E isso não é uma resposta.

            É uma ferida epistemológica.

            Um epistemorragia.

            Mais uma palavra inventada porque o pensamento sangra quando tenta conhecer aquilo que não pode conhecer.

            Você pode rir.

            Ria.

            O riso também é uma rachadura.

            Você pode fechar este texto.

            Feche.

            O mundo continuará aqui.

            Ou talvez não.

            A diferença entre essas duas possibilidades não será decidida por você.

            Essa é a humilhação final.

            Você não controla a realidade.

            Você apenas participa dela durante um intervalo.

            Depois será removido.

            Sem cerimônia metafísica.

            Sem aplausos cósmicos.

            Sem créditos finais.

            O universo não exibirá seu nome.

            A matéria não fará minuto de silêncio.

            O tempo não diminuirá sua velocidade.

            E, ainda assim, enquanto durar, alguma coisa terá acontecido.

            Não necessariamente algo grandioso.

            Talvez apenas uma consciência diante de uma página.

            Talvez apenas um pensamento interrompendo outro.

            Talvez apenas a percepção súbita de que aquilo que parecia sólido possuía uma fissura.

            E então, pela primeira vez, em vez de preenchê-la, você permanece.

            Não para vencê-la.

            Não para compreendê-la.

            Não para transformá-la em lição.

            Apenas para habitá-la.

            Você é que descobre que nunca esteve fora dela.

            E talvez seja esse o único final possível para uma existência que jamais começou de verdade: perceber que o abrigo era a fissura, que a certeza era o intervalo, que o sentido era uma hipótese desesperada e que aquilo que chamávamos de mundo era apenas o nome dado ao lugar onde o nada ainda não terminou de acontecer.

            Então não procure a saída.

            Não existe.

            Procure a abertura.

            Ela está aí.

            Sempre esteve.

            E se você olhar suficientemente fundo, talvez descubra algo ainda pior: a rachadura não está no mundo.

            É o mundo. E você é apenas o lugar provisório onde ela aprendeu a se perceber.

Clayton Alexandre Zocarato

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Amore

Elisa Mascia: Poesia ‘Amore’

Elisa Mascia
Elisa Mascia
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Nutrimento essenziale quotidiano bevanda scorre nelle vene.
Distanza anelante dal fondersi di cristalli gocce di rosso prelibato.
Il trionfo di labbra distaccate s’incontrano nell’ aria intrisa di segreti
amati da amanti che non si cercano.

Hanno scelto l’eterno amore di coloro che si toccheranno con le
punte delle dita calde,
allungate per annientare la linea di confine senza orizzonte.

Non conta il tempo del campanile,
il cuore non celebra compleanni,
spezza le linee che conducono sui palmi delle mani.
Hanno interrotto il percorso del passato e coincide con il qui ed ora.

Emozioni interminabili non temono i racconti della storia,
seguono le farfalle che danzano con il ventre rivolto a Occidente
dove il sole non tramonta mai.

Sì elevano in volo sui giardini che hanno disperso il profumo
hanno venduto i sogni in cambio della magia di un pugno di gocce
rosse per scrivere l’ultima parola di ogni amante: “Amore”.

Elisa Mascia

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The mellowing

Surendra Nagaraju: Poem ‘The mellowing’

Surendra Nagaraju - Elanaaga
Surendra Nagaraju – Elanaaga
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He raved like an enraged bull 

in the streets of the town.

On reaching home, 

kids greeted him warmly.

At once, his stony heart 

melted like ice!

Elanaaga

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A Dama de Negro do Chiado

Mônica Henriques encanta com a escrita acolhedora de “A Dama de Negro do Chiado e Outros Contos”

Capa do livro "A dama de negro do Chiado e outros contos" de Mônica Henriques. A imagem ilustra uma cena de rua noturna em Lisboa, com a silhueta de uma mulher em um longo vestido preto e uma criança à frente, caminhando em direção a uma igreja histórica.
Capa do livro A dama de negro do Chiado. de Mônica Henriques

Sabe aqueles livros que parecem nos convidar para sentar com uma boa xícara de café e passar horas a fio ouvindo histórias fascinantes de um amigo?

É exatamente esta a deliciosa sensação ao folhear as páginas de “A dama de negro do Chiado e outros contos”, o mais recente lançamento da talentosa escritora e advogada carioca Mônica Henriques, publicado pela Editora Patuá.

Com uma trajetória literária já consolidada, que inclui um thriller sobrenatural “O Julgamento” (Caravana, 2022) e diversas premiações em contos e crônicas, Mônica nos presenteia agora com uma coletânea vibrante, fruto de gestação afetiva e muita observação do cotidiano.

Escrever estes contos, segundo a própria autora, foi um refúgio, um remédio e uma opção de sanidade durante dias incertos da pandemia, além do resultado de suas imersões em cursos de escrita e inspirações que surgiram no piscar de olhos do dia a dia.

Uma jornada eclética por mundos, tempos e emoções

O grande charme de Mônica Henriques está na sua capacidade de brincar com o tempo.

Em “A dama de negro do Chiado”, passado, presente e futuro se entrelaçam com maestria em dez contos que transitam com elegância pela ficção científica, pelo suspense, pelo realismo mágico, pela fantasia e pela ficção histórica.

A inspiração da autora nasce dos detalhes mais poéticos da vida real: a ideia para o conto “O Senhor do Tempo”, por exemplo, surgiu quando seu marido lhe mostrou uma fotografia com o número do fotógrafo carimbado no verso.

Em um estalo criativo, a autora transformou o achado doméstico em literatura pura, antes que a ideia se evaporasse e se juntasse às nuvens no céu.

O ecletismo do livro reflete a alma da própria autora, que ama ler e escrever sobre de tudo um pouco.

Misterioso e instigante: Em “Assassinato no sarau” (finalista do V Prêmio ABERST), viajamos a 1914 para desvendar um crime, enquanto o conto que dá título ao livro nos envolve numa atmosfera enigmática e inesquecível.

Humano e reflexivo: Contos como “O manuscrito”, “O legislador” e “Rebeca – A nova geração” abordam questões humanísticas profundas e atuais, incluindo discussões sobre inteligência artificial.

Imersivo e lírico: Em “A Livraria Mágica da Rua do Ouvidor”, somos transportados para outras culturas, enquanto “O morcego da biblioteca de Coimbra” nos apresenta um morcego erudito em busca de seu descanso eterno.

Rico em pesquisa histórica: O denso e emocionante “Últimos dias de Tomás no Brasil”, nos leva ao cárcere da Ilha das Cobras em 1789. Para construir uma narrativa verossímil sobre a Inconfidência Mineira, a autora mergulhou na leitura do Autos da devassa e documentos de época.

Um convite irrecusável à arte e à imaginação

Como leitora, foi impossível não me apaixonar pela escrita envolvente, fluida e profundamente acolhedora de Mônica.

Suas histórias nos levam como em um redemoinho em espiral, provocando nostalgia, inquietação e encanto a cada virada de página.

Mais do que uma simples coletânea de contos, a obra é um lembrete poético de que, ao abrirmos a mente e o coração para o imponderável e permitirmos a arte em nossas vidas, conseguimos resistir como humanos através do tempo.

Um livro plural, fascinante, feito com carinho que transborda em cada linha. Super recomendo!

Venha você também se encantar com o universo único de Mônica Henriques.

Redes sociais da autora

A DAMA DE NEGRO DO CHIADO

RESENHA

Esse livro irá nos levar, como em um redemoinho em espiral infinita e reversa, através dos tempos, em contos que vão da fantasia à ficção científica, passando pela ficção histórica e o realismo mágico.

Nos deixará inquietos ao tratar questões humanísticas em “O manuscrito”, “O legislador” e “Rebeca – a nova geração”.

Nos envolverá em nostalgia em “O Senhor do Tempo” e “O Orbe Encantado”.

Seremos convidados a uma experiência imersiva em outros mundos e culturas ao adentrarmos “A livraria mágica da Rua do Ouvidor”.

Nos levará a desvendar um crime cometido em 1914, em “Assassinato no sarau”, e nos deixará intrigados com o mistério que move “A dama de negro do Chiado”.

Conheceremos um morcego erudito que anseia pelo descanso eterno no conto “O morcego da biblioteca de Coimbra”.

Depois, espiaremos um cárcere na Ilha das Cobras, em 1789, onde versos parnasianos foram escritos em suas paredes, e sofreremos junto ao condenado no decorrer de “Os últimos dias de Tomás no Brasil”. 

 A autora, nessa dinâmica que instiga passado, presente e futuro, nos convida a abrir a mente e o coração para o imponderável, fazendo-nos perceber que, ao permitirmos a arte em nossas vidas, resistiremos como humanos através do tempo.

Assista a resenha do canal @o.que.li no YouTube.

OBRAS DA AUTORA

O julgamento
O julgamento

A dama de negro do Chiado
A dama de negro do Chiado

ONDE ENCONTRAR


Página Inicial

Resenhas da colunista Lee Oliveira




África do Sul

Loide Afonso: Poema ‘África do Sul’

Loid Portugal
Loid Portugal
Fotografia artística de uma mãe africana expressando profunda tristeza e choro. Ao fundo desfocado, silhuetas de jovens em um cenário de conflito sob um céu cinzento de tempestade.
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Estamos em guerra fria, quente, e demente,

o corpo fica dormente quando ouve e sente,

Seus filhos lutam, correm e gritam, saltam, dão a volta,

sem piedade matam- se uns aos outros, o que não era suposto

Mãe, eles deixaram de viver suas vidas porque perderam o gosto,

seus paladares ficaram sem gosto, oh mãe

Nossa querida mãe África, é pra isto que nos pariste?

Loide Portugal

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Verdades que parecem mentiras

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Verdades que parecem mentiras’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Getúlio andava com a pulga atrás da orelha, desconfiado de Laís, a noiva de feições faceiras e curvas de parar o trânsito. Talvez fosse apenas impressão ou, ao menos, era isso que dona Felícia, a quase sogra, tentava incutir na mente do sujeito. 

           — Mas, dona Felícia, a senhora tem certeza?

          — Getúlio, meu rapaz, você acha que uma filha consegue esconder alguma coisa da mãe?

           — Bem… Ela mentiu pra mim, e não foi só uma vez.

          Dona Felícia se espichou que nem girafa, lançou sobre o jovem aquele olhar de coruja ressabiada, rodeou-o por duas, três vezes, enquanto Getúlio começou a esperar por um ataque pelas costas. Do nada, a mulher saiu da sala, foi até a cozinha. O homem não entendeu tal atitude, talvez ele tivesse dito coisa que não devia.

          Os minutos seguintes duraram uma eternidade, embora, na conta do relógio na parede, não tivessem chegado a meia hora. De repente, lá estava a anfitriã, café e bolinhos de chuva em uma bandeja de plástico simples, porém honesta. Ela ajeitou o lanche da tarde sobre a mesa e, logo em seguida, ordenou.

          — Venha se sentar.

          Getúlio nem titubeou. Era homem de enfrentar qualquer um, até cachorro bravo se fosse necessário. Todavia, a coragem se acanhava diante daquela mulher.

          — O café tá do seu agrado?

          — Tá sim, senhora.

          — E os bolinhos?

          — Os melhores que já provei.

          Dona Felícia pareceu satisfeita, apesar de não acreditar por completo nas respostas. Seja como for, regozijou-se por dentro sem deixar transparecer os sentimentos para o futuro genro. De súbito, a dona da casa, dedo em riste, ergueu a voz.

          — Pois vou lhe dizer uma coisa muito séria!

          Getúlio, olhos do tamanho de jabuticaba madura, ficou diante da mulher aguardando a grande explicação, que acabou por deixá-lo ainda mais confuso.

          — A Laís não mentiu porque simplesmente nunca aprendeu a mentir. Ela é moça direita, que você precisa confiar. A minha filha só sabe dizer verdades, mesmo aquelas que ainda não chegaram a acontecer.

Eduardo Cesario-Martínez




Conjuring me

Jane Nash: Personal narrative ‘Conjuring me’

Jane Nash
Jane Nash

“Pete, Pete”. It looked like I was daydreaming I’m sure, but I wasn’t even there at all.

He texted me what he was visualizing. A moment of telepathy or was it cosmic integration? Dreaming? Imagining? Fuck it. I wasn’t there and yet he watched me in the coffee shop a little way down the streets from the Law Courts. So strange to see me behind glass mottled with raindrops. Me, who lives ten thousand miles away.

Hence the texting. Was it to remind me of something or was I reminding him? No birthdays, anniversaries, celebrations, deaths or memorials but there I appeared in his line of vision.

I hate it when that happens. When someone conjures me into their reality. I have never given permission. I think it’s rather rude, to encourage the building of false memories, the extension of delusions.

I thought living ten thousand miles away would prevent this loss of privacy, in other words, the consequences of cosmic peccadillos. I’m wondering whether he’s wondering whether he sees me as some optical echo from a shared history. Like glances at the same glasses, colour of lipstick, hair tumbling over the back of a winter coat from a knitted turquoise hat, the odd doppelgänger and the laughter of a cousin.

Wind ruffles my hair. Waves push out, suck in and carry illusions created by the Moon. I’m convinced we are still Hera’s playthings and delusions skip from our eyes to make tides turn and loved ones miss each other.

Jane Nash

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