Convite aos sonhos

Sergio Diniz da Costa: Poema ‘Convite aos sonhos’

Sergio Diniz da Costa
Sergio Diniz da Costa
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O sono, traído pela inspiração,
Parte, contrariado,
A cerrar outras pálpebras
Insugestionáveis.

O poeta, atraído pela inspiração
Ressurge, reavivado,
A perder segmentos de sua alma,
Manchando alvos papéis
Com a cor perene
De seus voos de Ícaro!

Sergio Diniz da Costa

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Feiras literárias

Renata Barcellos: ‘Feiras literárias’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
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As feiras literárias surgiram na Europa do século XV. A primeira foi a de Frankfurt (Alemanha) criada há mais de 500 anos. Estão relacionadas à invenção da prensa por Gutenberg. O marco inicial deste modelo tem como foco o comércio de livros e os direitos autorais.

As Feiras literárias são eventos culturais literários que acontecem anualmente em diversas cidades e  estados. O foco principal é incentivar a formação de novos leitores. Assim, contribuindo para o fortalecimento da cultura. Deveriam ser eventos essenciais para a formação cultural de um povo. Geralmente, são organizadas pelos setores públicos e privados, de maneira que o evento também tem finalidade comercial e ajuda no aquecimento do mercado editorial. 

Escritores independentes são importantes figuras nestas atividades. Nelas, os autores reconhecidos ou não optam pela autopublicação e têm a oportunidade de fazerem contato direto com seus leitores, aumentarem o seu público e “turbinarem” as suas suas redes sociais e seus canais de vendas das suas obras. 

Séculos depois, já, no XX, houve a expansão de feiras pela Europa, como Madri (1933) e Bolonha (1964), aproximando o público dos escritores.

Os maiores destaques internacionais incluem a Frankfurter Buchmesse, na Alemanha,; a London Book Fair, na Inglaterra; a Feira do Livro de Bolonha, na Itália, a Feira de Guadalajara, no México.

Função inicial: troca comercial de publicações e negociação de mercado editorial. As

Evolução no Brasil

Anos 1950: surgiram as primeiras feiras populares de São Paulo (1951) e a Feira do Livro de Porto Alegre (1955), pioneira ao ar livre.

Anos 1970–1980: aparecem as grandes bienais comerciais, como a Bienal de São Paulo (1970) e a do Rio de Janeiro (1983).

Anos 2000: formato de feira literária cultural se multiplica pelo país (inspirado pelo sucesso da FLIP, em Paraty), focando em debates, praças públicas e formação de leitores.

Nos últimos anos, tem aumentado significativamente o número de feiras literárias no Brasil. Em todos os estados do país, elas têm ganhado visibilidade e conquistado outros espaços para além dos grandes centros urbanos, como as pequenas cidades. Primeiro, vale destacar que as feiras, bienais e festas se tornaram “fenômenos de marketing”. O objetivo de incentivo à leitura cede lugar à promoção pessoal (redes sociais, contatos) e à comercialização do escritor. Para participar destes eventos, o gasto é alto e o retorno… Do trasporte ao espaço para lançamento – à divulgação da obra. Se não for reconhecido, poucos prestigiarão.

Outro ponto relevante a ser mencionado é a referente ao homenageado. Muitas vezes, são a escritores já falecidos ou a um de outra região. O que deveria ser um momento para valorizar a “prata da casa”, reconhecer os do local, fazê-los serem conhecidos em sua região, convida-se um de outro lugar, além do investimento ser muito maior (hospedagem, alimentação…). E os indígenas? Quantos são escritores? Precisam ter seu espaço garantido! Devem ser lidos, ouvidos… assim como qualquer outro brasileiro.

Uma sugestão para a escolha  do  tema  e  do homenageado  para  as  próximas edições é   ser  feita  com  a  participação da sociedade por meio de votação virtual, já que somos seres  tecnológicos. E, com isso, poderia haver maior adesão e  interação do público até para se definir o local de cada edição. Deveria ser de fácil acesso para ter a participação do público em geral. Enquanto não houver a reformulação (de fato) destes eventos, não se atingirá os reais objetivos: promover a leitura, formar o leitor crítico, identificar e valorizar artistas locais.

Abaixo à comercialização das atividades culturais! Alguns exemplos por parte de diversas instituições são a cobrança de taxa para realização de inscrição de concursos literários ou pleitear vaga de uma cadeira, preços abusivos para participação em antologias, anuidades com valor de quase um salário mínimo…

Enfim, a presença de escritores contribui para o desenvolvimento de suas carreiras (contratos de tradução, direitos de publicação etc.) sobretudo para tirá-los do anonimato. A realização de feiras literárias proporciona um  debate  sobre as ações promovidas para a formação de leitores e a valorização  daqueles pertencentes ao local.  Além  do  incentivo ao universo literário,  propicia o turismo da região. Abaixo à comercialização da cultural!!! Diga sim à valorização do incentivo cultural!!!

Afinal, fica o questionamento para reflexão: na atualidade, existe alguma feira literária de fato? Se conhecer, escreve nos comentários!!! Devemos divulgar!!!!

Renata Barcellos

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O ato comunicativo

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘O ato comunicativo’

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1. Na comunicação e no relacionamento interpessoal, as pessoas e as organizações têm de ser competentes, aqui no conceito prático de obtenção dos melhores resultados, isto é, fazer passar as mensagens verbais e não-verbais, que se vão transmitindo no exercício dos múltiplos papéis que diariamente são desempenhados pelas pessoas e organizações. Exija-se, pois, competência.

2. O relacionamento humano seria impossível sem o ato comunicativo, entendido este como uma interação entre pessoas que desejam a convivencialidade societária, seja em contexto familiar, profissional, social, religioso ou outro. As relações humanas pressupõem diálogo, troca de ideias, transmissão de conhecimentos, divulgação de factos, manifestação de sentimentos e tantas outras intervenções, só possíveis, pela comunicação, verbal e/ou não verbal. 

3. Todas as comunicações humanas apresentam complicações, que os interlocutores procuram, por vezes, resolver e, outras vezes, dificultam: 

a) Um primeiro problema que se coloca é que em todas as comunicações humanas ninguém pensa que há obstáculos: quer se esteja a conversar com uma pessoa, ou com um grupo; 

b) Uma outra dúvida é que os indivíduos, de uma maneira geral, não são muito bons ouvintes, realmente a ouvir, quando alguém fala com eles e, depois, a entender corretamente o que ouvem.

4. O relacionamento interpessoal provoca, necessária e inevitavelmente, determinados comportamentos comunicacionais: uns, eventualmente, premeditados, estudados e treinados; outros, espontaneamente. Apesar de tais limitações, é possível caracterizar os diversos comportamentos comunicacionais, a partir de critérios definidos: «a) Afirmatividade do comunicador (transparência da linguagem); b) Respeito pelo interlocutor (respeito pelo outro. A partir destes dois critérios e como posicionamento prévio, aceitam-se quatro grandes tipos de comportamento comunicacional, a indicar: assertivo; passivo; agressivo e manipulador.

5. Caberá ao sistema educativo, apoiado na sua principal estrutura, a Escola, ensinar a usar, corretamente, uma determinada língua, na circunstância, a língua oficial em vigor no respetivo país. A esta estrutura, por enquanto ativa e insubstituível, para além de transmitir todo um conjunto de técnicas, regras e significações, compete-lhe, também, promover, dinamizar e aferir os resultados do ato comunicacional, incentivando os elementos essenciais: emissor-recetor para o desenvolvimento e aprofundamento do diálogo, com recurso aos métodos que em cada situação se considerem os melhores, de imediato, entre professores e alunos,

6. Diz-se que se está numa situação argumentativa, entre outras, sempre que se é chamado a tomar posição face a algo: seja a uma atitude; a um ato; a um projeto; a uma decisão; a um critério. Argumentar é, também, comunicar e daí a conveniência de se conhecer bem o recetor, para que se verifique uma compreensão cabal do discurso argumentativo

7. A tónica para o desenvolvimento de relações humanas sadias, frutuosas e duradoiras passa pela ação comunicacional, pelo ato comunicativo entre pessoas, entre grupos, entre nações. Não haverá outro caminho mais seguro e pacífico do que aperfeiçoar todas as técnicas, estratégias e metodologias para uma prática de relações humanas que possa estar acima de todo e qualquer interesse ilegítimo. 

A instituição de um paradigma comunicacional impõe-se, hoje, à sociedade universal, sendo urgente implementar todos os recursos possíveis para que o relacionamento humano intercultural, inter-religioso, intergrupal, interplanetário, seja uma regra e não uma exceção.

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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Homenagem ao Dia do Escritor

Augusto Damas: ‘Homenagem ao Dia do Escritor’

Augusto Damas
Augusto Damas
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Neste Dia do Escritor, prestamos nossa mais sincera homenagem àqueles que transformam palavras em conhecimento, sentimentos em poesia e ideias em inspiração.

O escritor é o guardião da memória, o construtor de sonhos e o semeador da cultura. Em cada página escrita, permanece um legado que atravessa gerações, desperta reflexões e fortalece os valores da sociedade.

Escrever é um ato de coragem, sensibilidade e compromisso com a verdade, a imaginação e o saber. Por meio da literatura, da crônica, do artigo, da poesia ou da pesquisa, o escritor amplia horizontes, aproxima pessoas e preserva a riqueza da língua e da história.

Que esta data seja um reconhecimento a todos os autores que dedicam sua vida à arte da escrita, contribuindo para uma sociedade mais consciente, humana e culta.

Parabéns a todos os escritores! Que a inspiração continue iluminando seus caminhos e que suas palavras permaneçam vivas, tocando corações e transformando o mundo.

25 de julho – Feliz Dia do Escritor!

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O rabanete esfriou

Jacky Yuen Man-leuk

“O Rabanete Esfriou — Lendo ‘Banquete de Poon Choi‘, de Yip Ying-kit“

Jacky Yuen Man-leuk
Jacky Yuen Man-leuk
Imagem conceitual e literária mostrando uma panela de barro com o prato tradicional Poon Choi fumegante sobre uma mesa escura. Do vapor que sobe do alimento, emergem caracteres da caligrafia chinesa e linhas abstratas que sugerem o contorno dos prédios de uma cidade grande. A iluminação é dramática e foca no prato, deixando o fundo sombrio e reflexivo, transmitindo uma atmosfera de melancolia e profundidade artística.
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O poema “Banquete de Poon Choi” [1], de Yip Ying-kit, tem um enorme valor para uma leitura atenta. Ele não é o primeiro poeta a escrever sobre o poon choi; a famosa obra homônima de Leung Ping-kwan (também conhecido como Ya Si) combina história, cultura e gastronomia, usando as camadas do prato como uma metáfora para as mudanças na estrutura social e o fluxo cultural ao longo do rio do tempo. Yip Ying-kit, porém, não teve a intenção de imitá-lo; seu poema nasce muito mais da combinação de percepções pessoais e reflexões vividas em um tempo e lugar específicos. Como foi publicado em uma revista literária para estudantes do ensino médio, não seria exagero — usando o jargão das aulas de literatura chinesa — classificá-lo como um texto narrativo.

​Contudo, isso seria ler o poema de forma rasa demais. A parte narrativa deste poema é tão clara que realmente não precisa de explicação: ele descreve exatamente o que viu e ouviu sentado à mesa redonda, sem nenhum mistério. A história ou a cultura do poon choi não são o foco deste poema, nem o aroma ou o sabor da comida no prato. Afinal, o que ele está tentando abordar?

​A perspectiva onisciente: Este poema foi escrito por Yip Ying-kit quando ele morava em um alojamento provisório após um incêndio, passando o Ano Novo lá, e foi convidado para participar de um banquete de poon choi. Como se pode deduzir de suas notas posteriores, se não fosse por aquele grande incêndio, é difícil dizer se este banquete em si existiria, mas certamente não haveria razão para que ele participasse. Portanto, o próprio banquete é uma forte metáfora da inevitabilidade da vida na sociedade (ren zai jiang hu) [2]: mesmo que o poeta não tenha sido forçado a ir, ele foi por livre e espontânea vontade — ou melhor, por ser a única opção possível. Esse é também o retrato dos habitantes desta cidade: é Ano Novo, há música, dança e celebração, e “há os nossos nomes”.

​Como compreender este poema? Primeiro, leia-o na ordem, fixando-se bem nas últimas linhas:

​“Até que o tempo fica um pouco tarde, e o sorteio / vai começar; só então, finalmente, / olhamos seriamente para o palco, esperando / que alguém aponte / a razão da nossa existência.”

​A partir dessas poucas linhas, volte e leia tudo novamente. Em um banquete, as pessoas à mesa talvez não se conheçam; suas personalidades e histórias são diferentes, mas elas podem compartilhar memórias coletivas semelhantes. Quanto ao palco, trata-se de um universo paralelo onde certas coisas acontecem — como pessoas se apresentando com empenho para ganhar a vida ou por outros motivos. Por serem estranhos entre si, e por este não ser exatamente um ambiente propício para socializar, ninguém tem essa disposição ou intenção, sendo natural apenas “comer em silêncio o que é seu”.

​As linhas seguintes — embora possam não ter sido a intenção exata do autor, uma leitura diversa não é proibida — como: “procurando / o que consegue comer”, “há quem… / não se importe de ficar com os dedos engordurados”, “há quem saiba / que não aguenta ingredientes fartos demais / e se esforce para afastá-los”, “…se deve se integrar / às ondas que eles provocam / ou continuar lidando com…”, parecem sob qualquer ângulo uma descrição das mil facetas da vida humana. E essas facetas, mesmo sendo visões subjetivas de um autor que passou por grandes reveses sobre outras pessoas na mesma situação à mesa (ou apenas uma má interpretação minha), ganham uma nova camada de sentimento quando relemos o poema após passar por “esperando / que alguém aponte / a razão da nossa existência”.

Esse sentimento complexo, difícil de rotular, é algo com que nós, leitores contemporâneos, ressonamos ainda mais facilmente (mesmo que seja uma ilusão compartilhada entre autor e leitor). No entanto, se fosse apenas ilusão, por que o poeta escreveria estes versos? A perplexidade sobre a razão da existência e a consciência do dilema de que ninguém pode respondê-la referem-se tanto ao desamparo do momento — sentado entre estranhos, pegando comida e esperando o sorteio — quanto à metáfora do constrangimento de uma era e de seu povo. E parece que a única coisa de que podemos ter certeza é aquela linha:

​“Sabendo que, na maioria das vezes, / estaremos abaixo do palco, / comendo em silêncio o que é nosso, nos esforçando / para, dentro de um grande recipiente, procurar / o que conseguimos comer.”

​Portanto, o que este poema descreve não é uma mistura de dor e indignação, mas um sentimento estranhamente complexo: perda, vazio, estranhamento e deslocamento. Escondidos sob a camada de indignação, frequentemente encobertos e ignorados, estão uma dor cega e um amargor que se prolongam por muito tempo. Seria este o “estranho em nós mesmos” de Julia Kristeva? Por exemplo, seria o banquete de poon choi um ritual coletivo que tenta reintegrar indivíduos desordenados e alienados de volta a uma estrutura dominante e harmoniosa, alcançando uma reconciliação superficial? Reconhecendo não ter capacidade suficiente para aprofundar este tema, resta-me apenas deixar minhas emoções e pensamentos flutuarem dentro deste recipiente devorado e desorganizado, momento em que o rabanete no molho já esfriou.

​Se há algo neste poema a se ponderar, talvez seja a nota adicional que o autor fez posteriormente no Facebook: ela deveria ser colocada lado a lado com o poema? Se ficasse apenas o poema, como na versão impressa atual, ele seria mais universal ou faltaria uma parte importante? Se essa informação de fundo fosse incorporada ao poema, ele se tornaria mais completo ou seria apenas um excesso desnecessário? Resta admitir que não há como ter o melhor dos dois mundos e, sendo este um direito exclusivo do poeta, creio que é melhor deixar a decisão com ele.

​Ao longo destes anos, Yip Ying-kit tem mantido seu método de escrita poética, e sua dimensão de reflexão sobre as relações humanas e o mundo tem sido bastante consistente. Afinal, foram os tempos que moldaram a poesia: sob uma pressão de escrita e um espaço-tempo tão singulares, a rotina pós-catástrofe encontrou em sua pena o veículo perfeito. No entanto, como ele próprio disse que preferiria não ter a necessidade de escrever estes poemas, provavelmente também não é adequado apenas “curtir” ou elogiar estas obras.

​Neste banquete eterno, provavelmente nada é adequado. O rabanete já esfriou, mas, apesar de tudo, ainda dá para comer. No palco, o programa mudou novamente; é hora do sorteio — de quem será o nome chamado?

​Banquete de Poon Choi

​Poema por: Yip Ying-kit (葉英傑) | Nº do Poema: 1412

​Fazemos fila para entrar no salão do banquete de poon choi

Em uma das mesas redondas está o nosso nome.

Há um palco à espera

Para apresentações ou sorteios. Por um instante

Imaginamos que, no palco,

Haveria um lugar para nós;

Sabendo que, na maioria das vezes,

Estaremos abaixo do palco,

Comendo em silêncio o que é nosso, nos esforçando

Para, dentro de um grande recipiente, procurar

O que conseguimos comer. Há quem esteja disposto a descascar camarões

Sem se importar em ficar com os dedos engordurados

Há quem saiba

Que não aguenta ingredientes fartos demais

E se esforce para afastá-los;

No palco, alguém começa a cantar; se deve se integrar

Às ondas que eles provocam

Ou continuar lidando com

Aquele rabanete que você pegou

E que já começou a esfriar

Até que o tempo fica um pouco tarde, e o sorteio

Vai começar; só então, finalmente,

Olhamos seriamente para o palco, esperando

Que alguém aponte

A razão da nossa existência.

​7 a 8 de fevereiro de 2026

​Poon Choi

​Poema por: Ya Si (也斯)

​Deveria haver pato assado e camarão frito nos lugares de honra

As posições de classe claramente divididas em camadas

Mas os hashis que revolvem a comida aos poucos subvertem tudo

O frango aos cinco aromas da aldeia e a vulgar pele de porco

O desolado general da dinastia Song, derrotado, fugiu para cá

Em uma grande bacia de madeira, comeu as provisões guardadas pelos pescadores

Sentados em círculo na praia para comer, sem a suntuosidade dos banquetes de outrora

Longe do esplendor da capital imperial, provando a comida rústica dos aldeões

Impossível se sustentar falsamente no alto, só resta afundar com o passar do tempo

Querendo ou não, é difícil não se tingir com as cores da camada do fundo

Comendo por muito tempo, você não consegue isolar a troca entre o cogumelo do norte e a lula

As relações se invertem, contagiando-se mutuamente, afetando a obsessão por pureza dos que estão no topo

Ninguém pode conter o rumo natural do suco da carne que escorre para baixo

O rabanete lá no fundo, com sua doçura suave, absorve todo o aroma denso

​2002

​Notas Explicativas de Tradução

​[1] Poon Choi (盆菜): Um prato comunitário emblemático da cultura de Hong Kong e dos aldeões dos Walled Villages (圍村) nos Novos Territórios. Traduzido literalmente como “comida de bacia”, trata-se de um grande recipiente preenchido com camadas de variados ingredientes cozidos separadamente (frango, pato, frutos do mar, cogumelos, pele de porco e rabanete no fundo). É servido tradicionalmente em grandes banquetes festivos ao redor de mesas redondas.

​[2] Pessoas no Jianghu (人在江湖): Referência ao provérbio chinês 人在江湖,身不由己, que significa estar tão imerso nas engrenagens e convenções sociais que a própria vontade passa a ser secundária frente às circunstâncias do mundo.

Jacky Yuen Man-leuk

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Avaliação educativa: um processo…

José Ngola Carlos

‘Avaliação educativa: um processo circular-contínuo‘

Kamuenho Ngululia
Kamuenho Ngululia
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A palavra avaliação, como qualquer outra palavra em Língua Portuguesa, é uma que se permite à atribuição de muitos significados, a depender do contexto em que estiver a ser utilizada. Na educação, área na qual nos propomos a discutir, avaliar pressupõe verificar tendo em vista um fim específico.

Como talvez se perceba, a noção de avaliação requer, para a sua eficiência e efetiva realização, que haja:

  1. Um agente avaliador;
  2. Recursos para a avaliação;
  3. Agentes a serem avaliados e

Embora muitas vezes negligenciado, é imperativo a existência de um

4. Propósito de avaliação.

Pelo que, quem avalia, sempre avalia alguém, em algo, com um fim determinado. A ausência de um dos quatro (4) elementos, citados acima, compromete significativamente o processo avaliativo, levando-a a inviabilidades, como a sua não realização ou a sua má realização.

Do exposto acima, é possível perceber que o ato de avaliar não é, ou não pode ser, um fim em si mesmo. Ela não começa e termina nela mesma. Antes, quando realizada, ela se presta a concretização de metas específicas, previamente pensadas.

Pensar em avaliação, não é pensar num processo horizonte-linear como em uma linha reta, não! A avaliação é um processo circular-contínuo que começa com um planejamento, aplicação, leitura ou análise dos resultados, assim como a elaboração e aplicação de um plano de respostas aos resultados descobertos, e neste ponto, o ciclo se repete.

José Ngola Carlos, Msc.

Malanje, 26 de julho de 2026

Como citar este artigo:  Carlos, J. N. (2026:7). Avaliação Educativa: Um Processo Circular-Contínuo. Brasil: Jornal Cultural ROL.

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O corredor que se reescreve

Clayton Alexandre Zocarato

‘O corredor que se reescreve’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Corredor surrealista e espiralado em tons escuros e enevoados. Suas paredes de pedra parecem se dissolver como fumaça. Ao longo do corredor, portas de madeira estão abertas, revelando paisagens impossíveis: céus tempestuosos sem estrelas e mares calmos sob um horizonte sem fim. Ao fundo, uma figura solitária caminha em direção ao centro da espiral.
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No lugar onde o fim começava a se desfazer, o corredor encontrou uma nova forma de permanecer. Já não era uma construção entre limites, mas um pensamento abandonado pela própria mente que o imaginara. Suas paredes perderam a certeza de serem paredes e passaram a oscilar entre matéria e lembrança, como se a existência fosse apenas um sonho tentando convencer o sono de que é real.

            A cada nova inscrição invisível, o corredor apagava aquilo que acabara de registrar. A escrita surgia no mesmo instante em que desaparecia, criando uma história sem passado e sem futuro, uma narrativa condenada ao presente absoluto de sua própria contradição. Nada permanecia, exceto o movimento silencioso de deixar de permanecer.

            As portas, antes imóveis guardiãs do desconhecido, começaram a se abrir para lugares que não aceitavam ser encontrados. Atrás delas havia paisagens sem horizonte, céus que recusavam estrelas e mares que não conheciam profundidade. Tudo parecia existir apenas para provar que a existência não precisava de explicação para continuar sendo inexplicável.

            O corredor avançava para dentro de si mesmo, como uma espiral sem centro procurando uma origem que talvez nunca tivesse existido. Cada curva revelava outra curva, cada resposta criava uma pergunta mais antiga, e cada tentativa de compreender transformava o entendimento em uma nova forma de ignorância.

            A solidão tornou-se o único objeto presente naquele espaço sem objetos. Não era uma solidão de abandono, mas uma condição fundamental, uma espécie de espelho onde o vazio contemplava sua própria imagem. Ali, existir significava estar diante de algo que jamais poderia ser completamente alcançado.

            As paredes começaram a murmurar através de pequenas deformações na pedra, como se o próprio silêncio tivesse aprendido a criar ruídos. Não eram palavras, nem mensagens, mas restos de significados perdidos no caminho entre o pensamento e a realidade. Eram vestígios de uma linguagem anterior aos nomes.

            O corredor percebeu que sua maior prisão era também sua única possibilidade de continuar. Se alcançasse um destino, deixaria de ser corredor. Se encontrasse uma resposta definitiva, perderia a razão de permanecer aberto. Sua essência estava justamente na ausência de conclusão.

            Então a ideia de fim tornou-se uma lembrança distante, uma invenção criada pelo medo diante do infinito. O término não era uma porta fechada, mas uma porta que continuava abrindo outras portas até que a própria abertura se tornasse o único lugar possível para existir.

            E assim o corredor prosseguiu através do próprio desaparecimento, reescrevendo-se em camadas de esquecimento e criação. Cada fragmento perdido retornava transformado, cada silêncio gerava outro silêncio, e no coração desse movimento impossível permanecia a pergunta sem rosto: se tudo pode ser reescrito, quem escreve aquilo que permanece apagado?

            A pergunta permaneceu suspensa no interior do corredor, não como uma busca por resposta, mas como uma presença invisível que ocupava todos os espaços deixados pelo silêncio. O próprio ato de perguntar tornou-se mais antigo que qualquer tentativa de compreender, como se a dúvida fosse a primeira forma de existência e todas as certezas fossem apenas suas sombras passageiras.

            As paredes, cansadas de sustentar aquilo que não podia ser sustentado, começaram a perder a distinção entre o dentro e o fora. O corredor deixou de possuir fronteiras e passou a se espalhar como uma ideia sem dono, uma extensão do indizível atravessando regiões onde a lógica chegava apenas para descobrir que já havia chegado tarde demais.

            O chão, antes destinado aos passos, transformou-se em uma superfície de memórias inexistentes. Sobre ele estavam gravadas marcas de movimentos que nunca aconteceram, rastros de percursos abandonados antes de serem iniciados. Cada marca carregava a ausência de uma passagem, como se até o vazio precisasse deixar vestígios de sua própria falta.

            O tempo, agora sem relógios para obedecer, tornou-se uma matéria estranha que escorria pelas paredes. Havia minutos que duravam séculos e séculos que desapareciam em um instante. A duração deixou de medir a existência e passou a ser medida por ela, invertendo a ordem das coisas até que o próprio universo parecesse um pensamento atrasado.

            No centro que nunca existiu, o corredor encontrou aquilo que sempre evitara: a possibilidade de ser apenas uma pergunta prolongada. Não havia propósito escondido em suas curvas, nenhuma mensagem esperando ser descoberta, nenhum segredo guardado além do próprio mistério. Sua razão de existir era permanecer incompleto.

            As portas começaram a desaparecer uma a uma, não porque fossem fechadas, mas porque já não havia diferença entre atravessá-las ou permanecer diante delas. O movimento perdeu seu significado, e a escolha tornou-se uma ilusão criada por uma consciência que precisava acreditar que caminhava para algum lugar.

            A ausência ocupou o último espaço ainda não ocupado pela ausência. E nesse paradoxo silencioso, o corredor descobriu uma espécie de liberdade: nada precisava ser encontrado, pois toda procura já era uma forma de encontro com aquilo que nunca poderia possuir forma.

            A cada nova reescrita, o corredor se aproximava menos de uma identidade e mais de uma transformação contínua. Tornava-se aquilo que deixava de ser, uma existência feita de perdas sucessivas, uma construção erguida com os próprios fragmentos que desmoronavam.

            No entanto, mesmo diante da dissolução completa, algo insistia em permanecer. Não era uma resposta, nem uma esperança, nem uma verdade escondida. Era apenas o movimento inexplicável de continuar. E talvez fosse essa continuidade sem razão aparente a única prova de que alguma coisa, em algum lugar impossível, ainda escrevia.

            Depois da inscrição que não fora escrita por nenhuma mão, o corredor permaneceu diante de sua própria impossibilidade. A frase desapareceu antes de ser compreendida, mas deixou no espaço uma marca semelhante à lembrança de algo que nunca aconteceu. O nada, por um breve instante, pareceu carregar uma cicatriz.

            A arquitetura começou a perder sua antiga rigidez. As paredes tornaram-se pensamentos endurecidos, os pensamentos tornaram-se poeira e a poeira tornou-se novamente aquilo que jamais havia deixado de ser: matéria sem explicação. Tudo retornava ao ponto anterior sem jamais alcançá-lo, como uma volta que percorre o caminho inteiro apenas para descobrir que o início também era uma invenção.

            O corredor percebeu que sua existência dependia daquilo que o negava.   Precisava do vazio para possuir forma, precisava do silêncio para produzir ecos, precisava do desaparecimento para continuar sendo reconhecido como presença. Era uma contradição sustentando outra contradição, um abismo construído sobre a ausência de chão.

            Em suas extensões infinitas, surgiram corredores menores que não levavam a lugar algum, mas guardavam a memória de todos os lugares possíveis. Eram caminhos feitos de escolhas não realizadas, destinos abandonados antes do nascimento, futuros que envelheceram antes de existir.

            Nenhuma porta permanecia fechada porque nenhuma porta permanecia aberta. O próprio conceito de passagem havia perdido sentido. Entrar e sair eram apenas palavras diferentes tentando descrever o mesmo movimento de permanecer preso ao fluxo interminável da transformação.

            O corredor começou a compreender que sua reescrita não era uma tentativa de corrigir a si mesmo, mas uma maneira de aceitar a própria incompletude. Cada erro era uma forma de criação, cada falha era uma nova arquitetura, cada ruína era o início secreto de uma construção desconhecida.

            A solidão, antes vista como um espaço vazio, revelou-se,  como a única companhia possível naquele lugar sem habitantes. Ela não caminhava ao lado do corredor; ela era o próprio corredor caminhando dentro de si. Não havia separação entre aquele que procura e aquilo que é procurado.

            O tempo, já sem direção, ajoelhou-se diante do instante e abandonou sua antiga promessa de continuidade. O passado deixou de ser uma lembrança, o futuro deixou de ser uma esperança, e o presente tornou-se um território absoluto onde tudo nascia e desaparecia ao mesmo tempo.

            No limite onde todas as fronteiras se desfaziam, o corredor encontrou sua última ilusão: a crença de que havia algo para encontrar. E ao perder essa crença, não encontrou vazio algum, mas uma liberdade estranha, sem nome e sem destino.

            Assim, continuou existindo não como resposta, mas como pergunta. Não como caminho para algum lugar, mas como o próprio movimento da procura. O corredor que se reescreve permaneceu escrevendo, porque talvez a única forma de vencer o fim fosse nunca permitir que ele tivesse a última palavra.

            No lugar onde a última palavra deveria existir, o corredor encontrou apenas o espaço vazio deixado pela sua ausência. Não havia conclusão esperando pelo momento certo de surgir, nem uma revelação escondida atrás das últimas paredes. O fim, cansado de ser esperado, tornou-se apenas mais uma passagem dentro da interminável arquitetura do impossível.

            As paredes começaram a esquecer que um dia foram paredes. Algumas transformaram-se em fragmentos de luz apagada, outras em sombras sem origem, outras simplesmente desapareceram sem deixar sequer a memória de terem desaparecido. O corredor não perdeu sua forma; apenas deixou de depender dela para continuar sendo.

            A existência tornou-se um movimento sem direção, semelhante a uma pergunta lançada ao universo que retorna antes de encontrar distância suficiente para se perder.         Tudo retornava modificado, tudo permanecia diferente, tudo carregava em si a marca de uma transformação que não podia ser interrompida.

            No centro inexistente do corredor surgiu uma ausência maior que todas as anteriores. Não era um buraco, nem um espaço vazio, mas uma espécie de presença silenciosa que observava sem olhos e aguardava sem tempo. Ali repousava aquilo que nenhuma linguagem conseguia alcançar.

            O corredor aproximou-se sem caminhar. Quanto mais perto chegava, menos havia para alcançar. A distância se dissolveu, e junto dela desapareceu a diferença entre aquele que procura e aquilo que é procurado. Pela primeira vez, o corredor percebeu que sempre esteve diante de si mesmo, mas nunca possuíra um rosto para reconhecer.

            As marcas deixadas pelas antigas reescritas começaram a retornar. Cada apagamento trouxe de volta uma possibilidade esquecida, cada perda revelou uma forma diferente de permanência. O que parecia destruído apenas aguardava outra maneira de existir.

            O absurdo deixou de ser um obstáculo e tornou-se a própria linguagem daquele lugar. A falta de sentido não representava o fracasso da existência, mas sua condição mais profunda. O corredor não precisava justificar sua presença; bastava continuar sendo aquilo que continuamente deixava de ser.

            O silêncio final aproximou-se lentamente, não como ameaça, mas como uma espécie de descanso impossível. Porém, antes que pudesse cobrir tudo, uma nova linha surgiu na superfície invisível do espaço: “Nenhum fim encerra aquilo que nunca terminou de começar.”

            A frase permaneceu por um instante que poderia ter durado uma eternidade ou apenas a fração de um pensamento. Depois, também desapareceu. Mas o desaparecimento não significou perda. Significou transformação.

            E assim o corredor permaneceu além de sua própria ausência, reescrevendo aquilo que não podia ser escrito, atravessando aquilo que não podia ser atravessado, existindo no intervalo infinito entre o ser e o nada.

            Além do intervalo entre o ser e o nada, o corredor encontrou uma região onde até o impossível parecia ter envelhecido.

            Ali não havia ausência nem presença, apenas uma espécie de espera sem objeto, um silêncio que aguardava algo que nunca havia sido prometido. O tempo permanecia imóvel, não por ter parado, mas por ter esquecido qual direção deveria seguir.

            As antigas paredes, reduzidas a vestígios de uma arquitetura sem matéria, começaram a formar novas imagens que não pertenciam ao passado nem ao futuro.      Eram lembranças de acontecimentos que não aconteceram, memórias de instantes recusados pela realidade antes mesmo de nascerem.

            O corredor compreendeu que sua história não era feita de acontecimentos, mas de interrupções. Cada ruptura criava uma nova possibilidade, cada perda abria uma passagem invisível. O vazio que antes parecia destruir agora revelava ser a força secreta que mantinha tudo em movimento.

            Nenhuma certeza conseguiu permanecer naquele lugar. As verdades que surgiam transformavam-se imediatamente em perguntas, e as perguntas, ao envelhecerem, tornavam-se novamente silêncio. Era um ciclo sem início e sem término, uma dança imóvel entre aquilo que tenta existir e aquilo que insiste em desaparecer.

            O corredor começou a perder até mesmo a memória de sua própria forma. Já não sabia se era caminho, labirinto ou apenas uma ideia atravessando uma consciência desconhecida. Talvez nunca tivesse sido construído; talvez tivesse surgido no instante em que alguém, em algum lugar impossível, imaginou a existência de uma passagem.

            Mas essa possibilidade também se desfez. Pois se não havia criador, também não havia criatura. Se não havia escrita, também não havia palavra. Se não havia origem, então toda busca por uma origem era apenas outra curva do mesmo corredor infinito.

            No silêncio profundo dessa descoberta, uma estranha tranquilidade surgiu. Não era felicidade, nem esperança, nem aceitação. Era algo mais próximo de uma compreensão sem pensamento: a percepção de que a existência não precisava ser decifrada para continuar sendo misteriosa.

            O corredor então deixou de lutar contra suas próprias contradições. Aceitou suas portas sem destino, suas paredes sem certeza, seus caminhos sem chegada. Tornou-se inteiro justamente porque nunca poderia estar completo.

            A última sombra de uma antiga pergunta atravessou seus espaços vazios. Ela não procurava resposta, apenas continuava existindo como testemunha de uma busca interminável. E essa sombra, ao desaparecer, deixou atrás de si uma nova inscrição: “Tudo aquilo que permanece é aquilo que aprende a desaparecer.”

            O corredor leu a frase com sua ausência, guardou-a sem memória e seguiu adiante sem avançar. Porque naquele lugar onde todas as coisas terminavam antes de começar, continuar era a única forma possível de existir.

            E no último espaço onde ainda parecia existir alguma coisa semelhante a uma fronteira, o corredor encontrou aquilo que durante toda a sua existência havia evitado: a completa ausência de si mesmo. Não havia mais paredes para sustentar a dúvida, nem portas para representar escolhas, nem caminhos para alimentar a ilusão de movimento.             Restava apenas o silêncio observando o próprio silêncio.

            Por um instante impossível, o corredor deixou de se reescrever. Não porque tivesse alcançado uma forma definitiva, mas porque percebeu que toda forma já era uma passagem para outra transformação. A permanência absoluta era apenas outra maneira de desaparecer lentamente.

            O que antes parecia uma prisão revelou-se uma liberdade sem nome. Não havia destino para cumprir, nem sentido escondido esperando ser revelado. A existência não era uma mensagem cifrada, mas o próprio ato de permanecer diante do mistério sem exigir que ele se explicasse.

            As antigas marcas espalhadas pelas paredes retornaram como ecos de uma escrita esquecida. Cada palavra apagada, cada curva perdida, cada porta inexistente reapareceu não como lembrança, mas como possibilidade. Tudo aquilo que havia sido perdido continuava presente na forma de uma ausência criadora.

            O corredor finalmente compreendeu que nunca havia caminhado por um lugar.   Havia sido o próprio caminhar. Nunca havia procurado uma saída. Havia sido a própria procura. Nunca havia esperado uma resposta. Havia sido a pergunta prolongando-se através do infinito.

            Então o fim aproximou-se sem ruído. Não veio como destruição, mas como uma última transformação.

            O fim deixou de ser uma chegada e tornou-se apenas mais uma palavra escrita pelo corredor para depois ser apagada.

            E quando a última parede desapareceu, não surgiu o vazio esperado. Surgiu outro corredor, mais antigo e mais desconhecido, recomeçando onde tudo deveria terminar. Não era repetição, mas uma nova versão do mesmo enigma, uma continuidade sem origem.

            A escrita invisível voltou a surgir no espaço sem forma:     “Todo fim é apenas uma porta que esqueceu seu nome.”

            Depois disso, nada permaneceu como antes, porque nunca houve um antes verdadeiro. O corredor continuou existindo naquilo que não podia ser encontrado, sendo reconstruído pela própria impossibilidade de desaparecer completamente.

            E assim, entre o silêncio e a palavra, entre o nada e a existência, o corredor permaneceu reescrevendo-se eternamente. Não para alcançar alguma verdade, mas para manter viva a única certeza que jamais conseguiu ser destruída: a de que o mistério continua sendo o último lugar onde tudo começa.

Clayton Alexandre Zocarato

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