Lina VeiraImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/e0c906cbae5099a4?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
A natureza não existe para a conveniência do homem.
E os “desastres sempre voltam quando os esquecemos”, escreveu Torahiko Terada
No Brasil, os desastres naturais têm sido tratados de forma segmentada entre diversos setores e realidades da região e sociedade. Nas últimas décadas, o número de registros de desastres naturais em várias partes do mundo vem aumentando consideravelmente. E isso se deve principalmente, ao aumento da população e da ocupação desordenada com intenso processo de urbanização e industrialização sem cuidados com os conceitos e ações que envolvem gestão ambiental, saneamento básico e vida útil de obras. Claro que a dinâmica atmosférica e seus sistemas produtores do tempo interferem sempre, e neste ponto eu chamo atenção para a relação entre o homem e a natureza, porque desastres naturais também resultam das tentativas humanas de dominar a natureza sem aplicação de medidas para redução dos efeitos dos desastres, aumentando sua intensidade e prejuízos.
Os desastres são súbitos e inesperados, logo todo monitoramento na previsão em tempo real é importante para diminuir sua vulnerabilidade e ter uma ação mais segura que gere prevenção e mitigação, ou seja, uma redução máxima possível dos danos e prejuízos causados, principalmente de vítimas fatais.
Não temos como controlar e dominar fenômenos naturais pois estão relacionados com a dinâmica interna e externa da terra. Porém, algumas observações precisamos questionar: A área ocupada e seus detalhes sobre eventos extremos, como a população se comporta diante das medidas de alerta, e sua consciência de entender que aspectos socioeconômicos da região contribuem para uma geração de desastres, logo uma politica voltada para o saneamento e gestão ambiental é necessária e urgente hoje. E tudo isso tem a ver com as ações antrópicas do homem, o agente mais agravante dos destrates nas últimas décadas. Fenômenos El niño e La niña que geram mudanças climáticas globais que precisam serem observadas com pontualidade , pois aquecimentos das águas geram chuvas intensas causando inundações catastróficas; e águas frias intensificação de ventos, tempestades.
O futuro climático do Brasil, deixa em foco especial Santa Catarina, por considerar ser uma área em que o modelo prevê maior intensidade de tempestades. Lembrando o primeiro furacão que atingiu do Atlantico Sul , o furacão Catarina nos dias 27 e 28 de março de 2004. Estudos acreditam que o aquecimento global possa favorecer a formação de furacões e a implantação da infraestrutura necessária às atividades humanas devem ser orientadas com o mapa e zoneamento ambiental de risco.
Algumas medidas são importantes para conviver em ambiente com maiores riscos:
– Cobrar a fiscalização e denunciar a áreas de ocupação
– Manter limpo calhas e ralos, bueiros e rios
– Fechar entrada de água
– Verificar onde ficam os abrigos para melhor acesso
– Manter a calma para organizar a casa em caso de inundações e documentos
– Tenha sempre um rádio de pilha em funcionamento na sua rotina de casa e lanternas.
Acredite, o pior desastre natural começa sendo registrado nas escolhas políticas sem gestão ambiental, planejamento urbano, a negligência estrutural e o descaso governamental às adversidades climáticas, que transformam regiões em eventos naturais de tragédias humanitárias. Por melhores gestores e medidas preventivas de melhorias e mais conscientes com ações mitigadoras para reduções de todo agravante dos desastres.
Ella DominiciImagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/s/m_6a3e7f945fdc819197e4df0f9555eae9
O sublime mora em minha mente, confidente desse instante presente. No tédio exalo o que se cala obra viva, luta e fala contra o caos persistente.
Mergulho no abismo, sem alarde, irmão da música em tom grave. Que beleza há no fim que invade, e à dor, rainha tão suave, minha alma inteira arde.
Nas letras, visões tão passageiras, notas lúgubres, flores estrangeiras. Como Flores do Mal, me tomam, nu, com vaidade anarquista à flor do azul, nesta conquista derradeira.
Vozes que não sei dizer, mas que me fazem compreender. Na partitura da lembrança, ecoam cólera e esperança dor vestida de prazer.
Despeço-me, em fim tardio, do que fui — por desafio. Aceito-me, enfim, na contradição do que pulsa em meu coração: silêncio e bravio estio.
No acorde final que me invade, sou dois: saudade e claridade. O outro de mim — tão real — é pétala branda e madrigal nas marés da eternidade.
Clayton A. ZocaratoImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/d6c4e561a80a9dca?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
“Há homens que procuram a salvação como quem procura uma saída. Outros descobrem, tarde demais, que a saída era apenas mais um corredor.” (C. A. Zocarato)
Quando o velho Aristeu completou sessenta e sete anos, decidiu desenhar um quadrado.
Não uma casa.
Não um mapa.
Não um projeto.
Um quadrado.
Passou horas diante da mesa, observando o papel vazio como um sacerdote contempla um altar abandonado. A mão tremia. Os olhos ardiam.
A vida inteira lhe pesava nos ombros como uma biblioteca construída com pedras.
Finalmente traçou quatro linhas.
Perfeitas.
Quatro limites.
Quatro fronteiras.
Quatro prisões.
Sorriu.
E chorou.
Naquele instante compreendeu algo que a maioria dos homens jamais percebe: toda existência humana é uma tentativa desesperada de desenhar formas geométricas sobre o caos.
O casamento.
A carreira.
A religião.
A moral.
A pátria.
A identidade.
Tudo não passava de linhas imaginárias riscadas sobre um universo que jamais pedira organização.
Você, leitor, talvez não goste dessa ideia.
Talvez prefira acreditar que sua vida possui um centro.
Uma finalidade.
Uma direção.
Mas responda sinceramente:
Quantas vezes você mudou de opinião?
Quantas vezes traiu os próprios princípios?
Quantas vezes chamou de verdade aquilo que depois chamou de erro?
O que mudou?
O mundo?
Ou apenas o desenho que você fazia dele?
Aristeu sabia.
Sabia porque carregava cadáveres dentro da memória.
Não cadáveres físicos.
Piores.
Cadáveres morais.
Os amigos abandonados.
Os amores destruídos.
As covardias justificadas.
As oportunidades assassinadas pela preguiça.
Cada erro era um ponto.
Cada culpa era uma linha.
Cada arrependimento acrescentava um novo ângulo à arquitetura secreta da alma.
Foi então que começou a construir sua geometria.
Durante meses, isolou-se.
Os vizinhos acreditavam que estivesse enlouquecendo.
Talvez estivesse.
Mas existe uma diferença entre o louco e o filósofo.
O louco acredita ter encontrado respostas.
O filósofo descobre perguntas.
E Aristeu estava afogado nelas.
Desenhava círculos.
Triângulos.
Espirais.
Poliedros impossíveis.
Cada figura representava um pecado.
Cada vértice representava uma escollha.
Cada linha simbolizava uma consequência.
Com o tempo percebeu algo perturbador.
Nenhuma figura era perfeita.
Todas possuíam falhas.
Pequenas deformações.
Assim como os seres humanos.
Assim como a própria moral.
Afinal, quem inventou o bem?
Quem definiu o mal?
Quem distribuiu certificados de virtude?
Os vencedores?
Os sacerdotes?
Os políticos?
Os mortos?
Você já pensou nisso?
Ou apenas repetiu as respostas que herdou?
A sociedade produz certezas da mesma forma que uma fábrica produz parafusos.
Em série.
Sem reflexão.
Sem profundidade.
Sem alma.
Aristeu percebeu que havia passado décadas vivendo segundo fórmulas que nunca examinara.
Era um homem educado.
Honesto.
Respeitável.
Mas também era um escravo.
Como quase todos.
Escravo de opiniões.
De expectativas.
De medos.
Principalmente de medos.
Numa madrugada de inverno encontrou um velho livro numa estante esquecida.
As páginas estavam amareladas.
Cheiravam a poeira e fracasso.
Leu uma frase que mudou tudo:
“A redenção não é apagar os erros. É compreendê-los.”
Fechou o livro.
Permaneceu imóvel.
Horas.
Dias.
Talvez anos espirituais tenham passado naquele silêncio.
Porque compreendeu uma verdade aterradora.
A humanidade construiu uma religião da absolvição.
Todos querem ser perdoados.
Ninguém quer ser compreendido.
Nem compreender.
Querem lavar as mãos.
Limpar o currículo moral.
Apagar manchas.
Como crianças que escondem sujeira debaixo do tapete.
Mas o universo não esquece.
A consciência não esquece.
A memória não esquece.
O passado é um arquiteto paciente.
Constrói silenciosamente os corredores pelos quais caminharemos amanhã.
Aristeu então abandonou a busca pelo perdão.
Passou a buscar entendimento.
E foi aí que começou sua redenção macabra.
Macabra porque exigia encarar os monstros.
Não os monstros externos.
Esses são simples.
Os monstros internos.
Os mais perigosos.
A inveja disfarçada de justiça.
A vaidade fantasiada de humildade.
O egoísmo vestido de amor.
A covardia escondida atrás da prudência.
Você conhece esses monstros?
Claro que conhece.
Talvez esteja alimentando um deles agora.
Talvez ele esteja lendo este texto através dos seus olhos.
Aristeu descobriu que o ser humano possui um talento extraordinário para mentir.
Principalmente para si mesmo.
Nenhum mentiroso é tão eficiente quanto a própria consciência tentando preservar sua autoimagem.
A alma fabrica desculpas como uma máquina produz fumaça.
Sem parar.
Sem descanso.
Sem vergonha.
Por isso a verdade é rara.
Ela exige sacrifício.
Exige mutilação.
Exige coragem.
A verdade não conforta.
A verdade opera.
Sem anestesia.
Os anos passaram.
As paredes da casa estavam cobertas por diagramas.
Milhares deles.
Quem entrasse ali acreditaria ter encontrado um laboratório secreto.
E de fato havia encontrado.
O laboratório da condição humana.
Cada figura representava uma conclusão.
Cada conclusão destruía uma ilusão.
Cada ilusão destruída aproximava Aristeu de algo que ele chamava de centro.
Não o centro geométrico.
O centro existencial.
O núcleo obscuro onde habitam nossas contradições.
Foi então que percebeu a maior descoberta de sua vida.
O ser humano não busca felicidade.
Busca distração.
Felicidade exige presença.
Distração exige apenas movimento.
Observe as multidões.
Correndo.
Comprando.
Consumindo.
Postando.
Acumulando.
Competindo.
Fugindo.
Sempre fugindo.
Mas de quê?
Da pobreza?
Da morte?
Do fracasso?
Não.
Fogem do encontro consigo mesmas.
O silêncio tornou-se o último terror moderno.
Porque no silêncio surgem perguntas.
E perguntas são mais perigosas que armas.
Na noite de seu aniversário de setenta anos, Aristeu terminou a obra.
Era uma figura gigantesca.
Formada por milhares de linhas.
Uma estrutura tão complexa que parecia impossível compreendê-la.
No centro havia apenas um ponto.
Um único ponto.
Nada mais.
Nenhuma explicação.
Nenhuma legenda.
Nenhuma resposta.
Apenas um ponto.
Sorriu novamente.
O mesmo sorriso do primeiro quadrado.
Sentou-se diante da figura.
Permaneceu observando-a até o amanhecer.
Então compreendeu.
Toda sua geometria apontava para aquele centro.
Todos os fracassos.
Todas as vitórias.
Todos os arrependimentos.
Tudo convergia para um único lugar.
A consciência.
O tribunal que jamais fecha.
O juiz que jamais dorme.
A testemunha que jamais desaparece.
A verdadeira redenção não estava fora.
Nunca esteve.
Nenhuma instituição poderia concedê-la.
Nenhuma ideologia.
Nenhuma autoridade.
Nenhum guru.
Nenhum profeta.
A redenção nascia quando o homem abandonava a mentira sobre si mesmo.
Somente isso.
Nada mais.
Nada menos.
Na manhã seguinte, os vizinhos encontraram a casa vazia.
Aristeu havia desaparecido.
Nenhuma carta.
Nenhuma despedida.
Nenhum corpo.
Nenhum vestígio.
Somente a imensa figura geométrica cobrindo as paredes.
Durante décadas, estudiosos tentaram interpretá-la.
Fracassaram.
Matemáticos.
Filósofos.
Psicólogos.
Teólogos.
Todos fracassaram.
Porque procuravam respostas.
E a obra não continha respostas.
Continha espelhos.
Quem a observava enxergava apenas a si mesmo.
Como acontece com toda grande filosofia.
Como acontece com toda grande literatura.
Como acontece com a própria vida.
Agora chegamos ao fim desta história.
Ou talvez ao início.
E resta uma pergunta.
A única que realmente importa.
Se sua vida fosse transformada numa figura geométrica, que forma ela teria?
Um círculo de repetições?
Um triângulo de conflitos?
Uma espiral de desejos?
Um labirinto de desculpas?
Ou uma prisão construída pelas próprias mãos?
Pense com cuidado.
Porque um dia todas as linhas que você traçou se encontrarão.
Todos os ângulos convergirão.
Todas as máscaras cairão.
E quando isso acontecer, não haverá público.
Não haverá aplausos.
Não haverá seguidores.
Não haverá títulos.
Não haverá currículos.
Não haverá narrativas.
Apenas você.
E o ponto central.
O núcleo silencioso daquilo que realmente foi.
A geometria da redenção macabra começa exatamente aí:
No instante em que o homem percebe que passou a vida inteira tentando escapar de si mesmo, e descobre, tarde demais, que era justamente para dentro de si que todos os caminhos apontavam.
Eliana Hoenhe PereiraImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/76840d1a7ff99e7b?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
A literatura de Elisa Mascia reflete a alma da bela Itália, Berço do Renascimento, Berço da História e Cultura, O Coração do Barroco e da Ópera!
Elisa Mascia
Elisa Mascia, natural de Santa Croce di Magliano, e atualmente residindo em San Giuliano di Puglia, Itália, é uma escritora prolífica, palestrante, radialista, oradora, crítica literária, poeta bilíngue (italiano e espanhol), jurada de concursos de poesia, entrevistadora e ativista cultural, e atua também como editora de livros.
Membro da Immortal Academy, coordenadora na Itália e diretora de Comunicação e Eventos da prestigiada Alpap Academy e membro executivo da International Book Capital Foundation.
Membro registrada e cofundadora da Wiki-Boezia e possui uma página oficial na Wikipédia. Seu nome também consta no GroWikipedia.
Desempenha um papel fundamental no Panorama International Literary Festival, que conta com o apoio da UNESCO. Atuou como coordenadora do festival de 2021 a 2024 e como diretora da edição de 2025, recebendo o prêmio de Melhor Curadora Nacional do Mundo.
Elise também é uma figura de destaque na seção de artes e escultura do Panorama International Art Festival e uma das lideranças da Bienal Internacional de 2023.
As contribuições de Elisa vão além dos festivais literários; como editora de uma publicação voltada a escritores e uma distinta embaixadora cultural, ela conquistou inúmeros prêmios.
Elisa Mascia inicia sua jornada ROLiana com o poema O guerreiro do amor, abordando a resiliência após o luto ou o fim de um relacionamento, a superação da dor, a aceitação do silêncio e o amadurecimento emocional em busca do amor verdadeiro.
O guerreiro do amor
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Não bastou para você cair uma, duas ou cem vezes.
Você não valorizou as experiências que depositou na espada cravada na pedra de uma história de fadas e reis.
Havia também o cavaleiro e a imperatriz, agora eles aceitaram a metáfora de se tornarem vento e poeira estelar, pétalas de rosa que escrevem a música do silêncio.
Seu silêncio não é silencioso, é eloquente como o de uma mãe que compreende seu filho mesmo quando ele não fala.
Espalha pétalas de suave dignidade de seus dedos, enche a taça da amargura, há muito jogou fora a suntuosa tigela de açúcar usada para adoçar o café.
Talvez o mel âmbar tenha se dissolvido em rios no mar da tristeza, chegou a hora de separá-lo da água e, com maestria, compreender juntos com discernimento o mistério do cavaleiro que chamou aquele cavalo branco de volta para si na esperança de um novo, desejado encontro com o amor eterno.
Eduardo Cesario-MartínezImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/b57ad3dd8ec693d0?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Todos, ainda me lembro, acertavam os relógios assim que o delicioso cheiro do pão de queijo da dona Adélia tomava a rua. Quatro horas da tarde! E ninguém se atrevia a questionar tamanha precisão. Até o padre Horácio sabia que aquela hora era sagrada. Tanto é que, como de costume, ia ter com a senhora um tanto de minutos antes.
O sacerdote nem chegava a bater à porta da antiga casa da esquina, pois o arrastar daquelas sandálias sob a batina o anunciava. Um sorriso o recebia assim que ele subia o último vão da pequena escada.
— Que bom que o senhor chegou a tempo de provar o pão de queijo que acabei de retirar do forno.
Se era verdade ou não, sei lá, mas corria à boca pequena que aqueles dois possuíam algo além do apreço pelo pão de queijo. Não que fosse algo falado logo ali na pequena praça defronte à igreja. Era mais uma coisa de olhares e sorrisos maliciosos do povo, que não tinha coisa melhor para fazer ou, então, fruto da natureza tão própria dos humanos.
Padre Horácio, assim que a porta lhe era aberta, estendia o braço para dona Adélia, que lhe pousava os lábios sobre aquela mão quase tão alva como farinha de trigo. Isso acontecia tanto ao entrar como ao se despedir. E, quando estava de volta à calçada, o religioso pegava um pente de chifre de boi e o deslizava sobre os cabelos quase negros, se não fosse por duas mechas brancas próximas às orelhas. Aquilo, aliás, era mais um mote para o falatório maldoso.
Enquanto menino, não atentava para tais conversas. Pensava apenas naquele pão de queijo, cujo cheiro inebriava minhas narinas infantis. Na verdade, apenas quando me tornei homem feito é que tive o prazer de degustar um ou dois. Confesso que não o achei nem melhor nem pior do que os demais que já havia comido. Seja como for, é uma parte da minha infância que gosto de lembrar, ainda mais porque era justamente quando a meninada começava a sair para se divertir na rua.
Adorava brincar de queimada, principalmente quando não ficava no time da Fernanda, uma garota bem magrinha, cujos olhos me causavam arrepios. E, todas as vezes que ela arremessava a bola, eu me deixava ser queimado apenas para olhá-la soltando aquela gargalhada tão gostosa.
— Te queimei de novo, Carlinhos!
E lá ia eu para o outro lado. Fingia-me emburrado, enquanto sentia meu coração palpitar dentro do peito. Coisas de menino, cuja voz começava a engrossar. Todavia, jamais consegui fazer com que a Fernanda me fitasse de maneira especial. Isso, aliás, ela fazia, ainda que discretamente, para o Toninho, que morava justamente na casa ao lado da minha.
Cheguei a ter ódio daquele garoto. Um intrometido, que impediu que eu desfrutasse o primeiro amor da minha vida. Por ironia, viramos melhores amigos dois anos após. E, confesso, fui eu que me aproximei por ciúme e despeito, pois ele e Fernanda se tornaram namorados. Tal comportamento doentio ou, ao menos, contraditório, também fez com que a menina dos meus sonhos se tornasse minha grande confidente.
— Você gosta de alguém, Carlinhos?
— Sim.
— E eu posso saber quem é?
— É segredo.
— Hum. Você está me deixando curiosa. Eu conheço essa sortuda?
Eu não sabia onde enfiar a minha cara, ainda mais diante daqueles olhos tão inquisidores, daqueles lábios maravilhosamente delineados. Menti descaradamente.
— Não conhece. É uma menina que conheci numa festa. A gente ficou, mas ela preferiu terminar.
— Por quê?
— Ah, ela me disse que estava gostando de outro cara.
— Qual o nome dela?
— Por que quer saber?
— Porque sou curiosa e também sou sua melhor amiga.
— Mara.
— Mara? Eu conheço uma Mara. Como ela é?
— Magra, um pouco alta.
— Da minha altura?
— Por aí.
— Qual a cor dos cabelos dela?
— Ruiva.
— Ruiva? Não é possível!
— Por quê?
— Não é possível que existam duas Maras, magras, altas e ruivas. Eu conheço essa sua namorada!
Fiquei estático. Não sabia o que falar. Tentei convencê-la de que era óbvio que existiam duas Maras, magras, altas e ruivas. Falei até que era bem provável que existissem dezenas de garotas assim. Que nada! Como fui burro em inventar que namorava uma Mara, magra, alta e ruiva.
Lembro-me de que, na noite daquele dia, levei muito tempo para pegar no sono. Morria de medo de ser pego naquela mentira tão deslavada. E, pior, justamente pela Fernanda, a garota mais linda da minha rua. E se aquela história se espalhasse? Os supostos comentários me perseguiram por dias: “Você viu o Carlinhos? Pois é, tá inventando que ficou com a Mara, aquela ruiva amiga da Nanda!”, “Ah, o Carlinhos nunca nem beijou uma garota!”, “O Carlinhos mente que nem sente!”
Não sei se a Fernanda se esqueceu da nossa conversa ou, então, preferiu não tocar mais no assunto. Por conta disso, meu medo foi se esvaindo, até que, por fim, nem eu me lembrava. Isso até a semana passada, quando, após quase 20 anos, esbarrei com o amor da minha infância na entrada do cinema. A princípio, não me dei conta da sua presença, até que ela tocou meu ombro.
— Carlinhos! Não é possível! Há quanto tempo!
— Nanda!
A minha antiga confidente me deu um abraço apertado e nos beijamos no rosto. Naquele instante, muitas coisas passaram pela minha mente. O que ela fazia da vida? Morava perto? Será que ela estava solteira? Tais pensamentos, todavia, viraram fumaça assim que ela chamou uma amiga, que carregava um enorme saco de pipoca e dois copos de refrigerante.
— Lembra da Mara?
Apenas sorri. Finalmente, depois de tantos anos, fui conhecer o meu antigo caso que nunca existiu. Mara, magra, alta e ruiva. Aliás, como era linda!
Apesar do cinema praticamente lotado, conseguimos sentar juntos. Não por sorte, mas porque a Nanda convenceu um rapaz a trocar de lugar comigo. Fiquei entre aquelas duas mulheres maravilhosas por quase três horas de filme. Depois, convidei as duas para irmos a uma cafeteria ali perto. Por sorte, elas aceitaram.
Sentamos à mesa mais ao canto e fizemos nossos pedidos, praticamente idênticos, caso não fosse pelo cappuccino da Fernanda. Para acompanhar, pedimos pão de queijo.
— Carlinhos, você se lembra da dona Adélia e do padre Horácio?
— Aqueles pães de queijo fizeram história.
Entre lembranças e risadas, aqueles momentos foram os melhores da minha vida, que, na verdade, havia se tornado muito chata. É que me tornei gerente de um banco, mal saía com mulheres. Não por culpa delas, é que eu me transformara num homem desinteressante. Isto é, até que, após oferecer carona a Fernanda e Mara, agarrei-me à minha derradeira esperança. Como a Fernanda morava mais perto, a deixei primeiro em casa. Em seguida, quando voltei ao carro, ganhei um beijo inesperado.
— Carlinhos, ouço falar de você há tanto tempo, que é como se já nos conhecêssemos.
Rita Odeh: Poema ‘Para que a terra descanse um pouco’
Rita OdehImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/39aa0f5510bb2cf1?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Ó Deus do Universo, Tu prometeste que a injustiça deve inevitavelmente desaparecer… Então, até quando todos estes tormentos, todo este sofrimento? Até quando os pássaros morrerão, abatidos, sobre os muros da esperança? Até quando o nosso céu permanecerá apetrechado com aviões de guerra, e as brasas do ódio… sobre a terra… permanecerão acesas…? Até quando…!? Até quando permaneceremos como borboletas em teias de aranha… presos…? Até quando as crianças chorarão… famintas… nuas… as suas famílias, cadáveres espalhados pelas estradas…?! Que os vermes devoram…? Até quando…!? Até quando as hienas violarão… o sangue dos inocentes… para que eles partam, estrela… por estrela… cintilando no céu? Até quando…!? Ó Deus da Justiça… Tu prometeste: é preciso que um dia o sol dos trabalhadores… dos esmagados… dos oprimidos… dos deslocados… dos miseráveis… se levante. E que seja cortada… a mão daquele que é viciado na destruição… que arruinou e devastou… e devorou a honra… e manchou o sangue. Ó Deus da Paz, Ó Senhor dos Grandes Céus, Ó meu Deus… Ó Misericordioso… Ó Amparo dos fracos… Tu que… dizes a uma coisa… Sê… e ela é, aos mortos, levantai-vos… e eles levantam-se… Diz à ocupação… basta de obscenidades. Diz à ocupação… basta de soberba. Diz às consciências: “Acordai da vergonha do vosso sono. No rio sagrado… lavai-vos.” Ó Deus do Universo, Diz ao vento… para se acalmar um pouco… um pouco… Ó Deus da paz… Ó Deus da verdade… Ó Deus da justiça… Diz… a esta terra… para descansar um pouco… um pouco… antes que……… o julgamento chegue.