Humberto Napoleón Varela RobalinoImagem criada por IA da Meta – 14 de dezembro de 2025, às 15:02 PM
Hoy llueve como en esos días inviernosos para decir que llueve como nunca.
Los árboles en las avenidas catedrales góticas al filo de los acantilados.
Como almas que lleva el diablo apresurados pasos corremos las frondas paraguas gigantes en esas catedrales sin efigies una pareja de búhos a cuatro manos tocan “EL AVE MARÍA”.
Las enramadas los vitrales ostentosos engullen opacidades.
Sobre la piedras enmohecidas mutan viscosas larvas ángeles sin cielo.
La lluvia arrastra barcos de papel encallan naufragan.
La tos los pasos la última colilla de cigarrillo el color de la orquídea eterna suenan tan graves como nunca. La distancia la soledad el tiempo el silencio se encharcan como nunca.
Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Odisseia pernambucana’
Eduardo Cesario-MartínezImagem criada por IA da Gemini – 13 de dezembro de 2025, às 9:08 PM
Orestes carregava um amontoado de medos. No entanto, não suportava a ideia de morrer em Recife. Não que tivesse medo da morte, bem como não desgostava da capital. Só que queria ser enterrado na sua Sirinhaém, a pouco mais de 70 quilômetros dali.
— O lugar mais lindo do mundo!
— E por acaso você conhece o mundo todo, Orestes?
— E por acaso preciso conhecer todas as mulheres do mundo pra saber que você é a mais linda, Marinalva?
— Hum… Tá galanteador hoje, meu amor.
A despeito desse romantismo todo, o coração do homem não andava bem das pernas. Vez ou outra, a dor no peito vinha sem avisar. Orestes era levado às pressas para o hospital e, após o susto, voltava para casa dois ou três dias depois. Tais episódios se tornaram mais frequentes, até que o sujeito não retornou.
Antes mesmo do corpo do marido ser liberado pelo nosocômio, Marinalva foi assediada por quase cinco funerárias. Quase porque, assim que o funcionário da quinta apareceu, foi enxotado que nem cachorro. Que nem cachorro, não, pois a mulher era deveras zelosa em relação a essas adoráveis criaturas.
— Marinalva, por favor, daqui a pouco você vai dizer que cães são que nem gente.
— Óbvio que não, Orestes! Cães são confiáveis.
Após expulsar o último urubu que sombreava o cadáver do Orestes, a mulher começou a pensar num jeito de transportar o defunto para Sirinhaém. A distância nem era tanta, mas faltava dinheiro para fazer o trajeto, ainda mais porque Marinalva havia raspado o último níquel do cofre na compra do caixão.
O ataúde era muito grande para caber no Fusca. Se bem que, ela pensou, poderia amarrá-lo na capota. Mas espaço não era o único problema, pois o motor do automóvel já não dava no couro há tempos. Era melhor não arriscar ficar pelo meio da estrada, ainda mais com o moribundo começando a feder.
Marinalva pensou em pedir ajuda para o Alexandre, o vizinho. Ele possuía uma Kombi, mas logo se atentou a um detalhe. É que os dois não se bicavam desde que haviam discutido por conta de futebol. Marinalva, torcedora doente do Santa Cruz, não suportou as provocações do vizinho fanático pelo Sport. Foi aquela saraivada de palavrões, enquanto Orestes, que era Náutico sem grandes paixões, preferiu não se meter.
Diante daquela sinuca de bico, eis que a viúva recebeu uma proposta inesperada. Júlio, que morava no final da rua, soube do problema da mulher e, não tardou, foi bater à sua porta.
— Mas isso não é loucura?
— Não sei por que seria, Marinalva.
— É que o Orestes sempre teve medo do mar.
— Se esse é o problema, tenho certeza de que ele não vai morrer afogado.
— Você tem razão.
Júlio, afamado pescador, havia dito que levaria o caixão no seu barco. Como o sujeito não possuía automóvel, pediu ajuda a outro vizinho, o Laurentino. Este possuía uma carroça, que era puxada pela Filó, mula de maus bofes, mas de força descomunal.
Antes da meia-noite, Laurentino estacionou a carroça em frente à residência da Marinalva. Lá estava também o Júlio para ajudar a colocar o caixão sobre a carroça. Os dois homens, cujos músculos eram talhados diariamente nas respectivas profissões, ergueram o pesado féretro e o depositaram cuidadosamente sobre a caçamba.
Após amarrarem o ataúde, Júlio e Laurentino, acompanhados da Marinalva, subiram na carroça e seguiram para a praia, onde o barco do pescador estava amarrado na areia. O trajeto foi quase silencioso, caso não fosse pelo som provocado pelos cascos da Filó sobre o asfalto duro.
Assim que dobrou a esquina, já era possível avistar a enseada. Mais algumas centenas de metros, Filó sentiu a areia, que abafou o ruído das passadas, agora mais pesadas. Ao comando do Laurentino, a mula estacou ao lado do barco, cujo nome, estampado na sua lateral, era Refrega. Júlio saltou da carroça e, com uma das mãos, ajudou a mulher a descer.
Meia hora após, o barco, já com o caixão no seu interior, foi arrastado até as águas, que estavam calmas. Marinalva e Júlio se despediram do Laurentino, que não aceitou qualquer pagamento. O morto havia sido seu amigo durante décadas.
Sem muitas ondas para serem vencidas, não tardou, o barulhento motor a diesel foi transpondo a distância. Júlio, olhos para frente, vez ou outra observava Marinalva com o rosto voltado para as luzes de Recife, que se afastavam cada vez mais. O pescador calculou que a viagem não duraria mais do que oito ou nove horas, dependendo da vontade da maré. Pobre infeliz, não contou com a chuva, que começou a cair forte quando ainda restavam mais de 40 quilômetros para serem vencidos pelo bravo Refrega.
Júlio, nervos à flor da pele, tentava aparentar calma, enquanto Marinalva, agarrada ao caixão, lamentava a maldita vontade do marido de ser enterrado na terra natal. Quanto transtorno apenas para cumprir o desejo do defunto. Perigava ela e Júlio serem arrestados para a morte. No entanto, foi justamente quando tudo parecia estar perdido, que a natureza resolveu, irônica como ela só, suspender a tormenta.
Abriu-se o céu, que deu passagem para os raios da manhã. Marinalva agora chorava de alívio, enquanto Júlio, apesar de uma furtiva lágrima no canto do olho esquerdo, se mantinha firme no timão. E, pouco mais de uma hora, os aventureiros avistaram as areias da praia de Barra de Sirinhaém.
Marinalva, eufórica, começou a conversar com o marido, mesmo que ele fosse incapaz de respondê-la, enquanto Júlio se sentiu aliviado por ter conseguido se manter firme diante do que ele imaginou ser o fim da linha. Sentiu-se Odisseu e, exausto, sentou-se ao lado da viúva. Por impulso, Marinalva beijou os lábios do herói, que, surpreso, recebeu o prêmio mais do que merecido.
A distância foi vencida e, há menos de duzentos metros da praia, eis que Refrega, ferido mortalmente pela tempestade que enfrentou, começou a afundar. Assustada, Marinalva gritava, enquanto Júlio, mais pragmático, puxou a mulher pela mão e, assim, os dois pularam no mar.
Nadaram e, de vez em quando, olhavam para trás e viam Refrega afundar até que o barco ficou totalmente submerso. Sem ter o que fazer, os dois continuaram nadando e, finalmente, chegaram à praia. Exausto, tombaram na areia e adormeceram.
Marinalva foi a primeira a despertar. Virou-se para o lado e, por um instante, admirou o corpo de Júlio. Sentada, ela depositou o rosto sobre os joelhos e chorou. O pescador logo acordou.
— Não chore, Marinalva. Estamos vivos.
— Como fui tola! Fiz você perder o seu barco.
— Quanto a isso, não se preocupe.
— E como é que não vou me preocupar, homem?
— Já faz tempo que quero largar essa vida de pescador.
— Deixa de bobagem, Júlio. Você sempre foi apaixonado pelo mar.
— É verdade. Mas, ultimamente, ele tem me deixado enjoado.
Os dois se entreolharam e, então, sorriram. Depois, levantaram-se e, mãos dadas, foram procurar um jeito de retornarem para Recife.
Quase uma semana após, o caixão, intacto, encalhou na mesma praia. Orestes foi enterrado como indigente no Cemitério Municipal de Sirinhaém. Mesmo assim, o seu último desejo foi realizado.
Paulo SiuvesImagem criada por IA do Gemini – 12 de dezembro de 2025, às 13:41 PM
Acordar costumava ser um ato silencioso. Aquele suspiro longo, talvez o canto de um pássaro, depois o tilintar da colher no pires lembrando que o dia existe… Hoje? Hoje, é uma avalanche de notificações. O celular começa o dia antes da gente — um maestro apressado que sacode a batuta e já nos empurra pra dentro da vida com vibrações, alertas e luzes piscando. Mal abrimos os olhos e já estamos em movimento — não físico, mas mental — navegando num mar de demandas que não deu nem tempo de pensar se queremos atender.
O café, coitado, perdeu o protagonismo, tornando-se mero coadjuvante. Ele esfria na xícara enquanto os dedos deslizam pela tela. A música da manhã — que antes era de respiração tranquila, o borbulhar da água, o chiado da chaleira, o silêncio entre os goles — agora é substituída por uma mixtape remixada por algoritmos. Cada notificação é uma flauta desafinada. Cada mensagem, um tropeço no compasso.
Vivemos uma sinfonia interrompida.
A pausa, esse intervalo precioso entre um pensamento e outro, foi sequestrada sem direito a resgate. E com ela, a possibilidade de escuta ativa. Escutar o mundo, escutar o outro, escutar a si mesmo. O tempo do café, que deveria ser o tempo da contemplação, virou tempo de consumo. A gente consome tudo, notícias, imagens, ideias prontas. E, como sempre acontece quando se engole rápido demais, o sabor se perde.
A música, metáfora que me acompanha em crônicas e poemas, também sofre. Porque a música precisa de silêncio para existir; música sem silêncio é só barulho. Sem pausa, não há ritmo. Sem escuta, não há harmonia. E o que temos hoje é uma overdose de ruído, uma apresentação solo de ansiedade em tempo real.
O celular virou mais que ferramenta: virou maestro, palco e plateia ao mesmo tempo. Ele dita o ritmo do dia, ocupa cada brecha e exige presença constante. Ele nos desperta e nos embala para dormir. E nesse ciclo, o pensamento se torna refém. A primeira atividade cerebral do dia é desbloquear a tela. Último gesto antes de dormir, é verificar as notificações – talvez zerá-las – conferir se o mundo não explodiu enquanto a gente piscava.
A vida virou trilha sonora de aplicativo. E o café, que nunca esfria porque nunca é bebido com atenção, transformou-se em símbolo dessa pressa que nos rouba a melodia.
Talvez o café quente seja uma forma de resistência. Um manifesto silencioso contra a aceleração. Tomar o café com atenção é como ouvir um álbum inteiro sem pular faixas. É como ler um poema sem procurar o resumo no Google. É como viver um instante sem querer registrá-lo. É existir por um minuto sem querer provar nada pra ninguém.
A Filosofia, que me acompanha na pós-graduação e na vida, ensina que pensar exige tempo. E tempo exige silêncio. E silêncio, ah… silêncio exige coragem. Coragem de não responder imediatamente. Coragem de deixar o celular vibrar sem atender. Coragem de ouvir o próprio compasso.
No fim, talvez a pergunta seja simples: quantas melodias deixamos de ouvir por causa da pressa? Quantos cafés foram bebidos sem serem saboreados? Quantos pensamentos foram interrompidos por uma tela acesa?
A resposta não está no celular.
Ela mora na pausa.
No gole de café quente.
Está na música que ainda podemos compor, se tivermos coragem de calar um pouco o mundo para finalmente nos ouvir.
Jakob Kapingala: Poema ‘Peguei um punhado de amor’
Logo da seção O Leitor ParticipaImagem criada por IA da Meta – 14 de dezembro de 2025, às 9:14 PA
Peguei em cada gota das lágrimas que abraçavam meu rosto, E pintei-as com as cores do arco-íris com muito gosto. Transformei a ansiedade que cobria meu peito, Numa paciência bonita e coberta de muito respeito.
Persegui sem tréguas o coração que me tinha abandonado, Tocando levemente o pouco da alma que me tinha sobrado. Corri atrás dos sorrisos que há muito se perderam, Abraçando o vento melancólico dos tempos que já se foram.
Parei num tempo sem tempo observando a lua, Com o coração ansioso em trilhar suavemente a rua, Que dava passagem a um mundo só de alegria, Enquanto fugia do meu ser mergulhado na fantasia.
Peguei um punhado de amor que encontrei por aí, Coloquei-o na mochila da positividade e saí, Correndo livremente igual a um pássaro, Que traz nos lábios um sorriso raro.
Jakob Kapingala
Jakob Kapingala
Jacob Kapingala, 28, é natural da província de Huambo (Angola) e reside em Luanda. Estudou Pedagogia na Escola Missionária do Verbo Divino (Santa Madalena) e atualmente exerce a função de professor do ensino primário.
É escritor e poeta, com participação em algumas antologias e revistas literárias do Brasil e de Portugal.
Teve o desejo de colocar em um papel aquilo que pensava somente em 2018, ano em que escreveu seus primeiros poemas. Porém, foi somente em 2019 que passou a se dedicar de corpo e alma à poesia.
É académico da CILA – Confraria Internacional de Literatura e Arte, da ABMLP – Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía e da Academia Virtual dos Poetas da Língua Portuguesa.
Lina VeiraFoto tirada pela autora com a própria câmara
Saint-Exupéry, escreveu: “A verdadeira vida é intermitente”. Logo, nossas emoções e relacionamentos também são. Sim, pois quando amamos uma pessoa, não amamos o tempo todo, do mesmo modo desde o início, da mesma forma interrupta. Isso é impossível. E é exatamente neste movimento intermitente da vida, dos fluxos e refluxos de nossa existência, dos sentimentos e sensações que relações estão se perdendo e afundando na beira do mar. Tudo na vida tem fluxo e refluxo, um voltar a atrás, “um por que não?”
Jesus perdoou a tantos para recomeçarem.
Como a maré a vida tem cheias e vazantes. Nada é constante o tempo todo.
Tem coisa mais linda que as ondas do mar quebrando na areia da praia tentando alcançar algo? Retornando confiante com a mesma força, num vai e volta contínuo.
Confiamos tão pouco no fluxo e refluxo de tudo em nossa vida, seja no sentimento de um amor, de uma amizade, de nós mesmos. Quantas vezes foi preciso retornar, responder, ficar um pouco mais?
Quantas vezes tivemos medo de voltar?
Assim como o mar, vivemos ciclos: temos medo da vazante, da expectativa do silêncio, do vazio deixado entre uma onda e outra, das pausas, do barulho, do devolver e recomeçar. Decidimos nos apoderar do outro reassumindo sinônimos de posse, exigências e enganos, na busca do conforto que desejamos. Mas só existe conforto e segurança no movimento do fluxo e refluxo da vida, se você enfrentar seu mar, suas ondas…Se você avançar e retornar quando for preciso, se você entender e respeitar suas vazantes e cheias, seus limites e ondas intermitentes, cristalinas e secretas, se você ouvir e responder, acolher e devolver como um presente do mar…
Que 2026 nos traga muitas possibilidades!
Você pode reviver sim!
Retornar.
Viver o start de uma nova história, o começo de tudo.
Continuar..
Você pode reviver sim!
Retornar.
Viver o start de uma nova história, o começo de tudo.
Documentário ‘Raízes 2 – Religiosidade’ estreia no YouTube e valoriza música sacra e patrimônio histórico de Caratinga
Documentário ‘Raízes 2 – Religiosidade’, de Nathan Vieira
Nesta segunda-feira (15), às 20h, o YouTube recebe a estreia do documentário ‘Raízes 2 – Religiosidade‘, idealizado e dirigido pelo músico e jornalista Nathan Vieira. A produção apresenta o registro exclusivo da gravação ao vivo do projeto homônimo, realizado na Igrejinha Histórica de São João Batista, um dos espaços mais simbólicos do patrimônio cultural de Caratinga (MG).
O documentário conduz o público por uma experiência sensível e intimista, onde música sacra, espiritualidade e memória se entrelaçam. A noite registrada marcou um encontro singular entre arte e fé, valorizando compositores caratinguenses em um cenário carregado de significado histórico e afetivo para o município.
Além das performances musicais, a obra reúne entrevistas enriquecedoras que contextualizam a importância histórica, religiosa e cultural do templo, destacando seu papel na formação da identidade local e na preservação da memória coletiva.
Viabilizado com recursos da Lei Aldir Blanc, o projeto reafirma o compromisso com a valorização da cultura, da música autoral e dos espaços históricos, fortalecendo o diálogo entre tradição e contemporaneidade.
O documentário estará disponível gratuitamente no YouTube. O público é convidado a se inscrever no canal e ativar as notificações para acompanhar mais conteúdos culturais como este.