A árvore centenária
Evani Rocha: Do tronco ressequido ao sopro do primeiro broto, um conto profundo sobre como o amor materno vence a barreira do tempo.


O céu escureceu de repente, bradou, rugiu e desabou em águas torrenciais. Um vendaval arrancou galhos e troncos das maiores árvores da floresta. Uma senhora-árvore centenária não suportou a força do vendaval. Lutou contra o vento, retorceu-se, mas foi vencida! Então, caiu desfalecida sobre os braços da terra-mãe. Deitou-se sobre o solo alagado e chorou, chorou muito…de seus estômagos abertos, as águas brotavam como nascentes, querendo viver…
Quando a tempestade cessou, tudo se acalmou e o burburinho da floresta voltou ao trivial. Exceto aquele espaço ocupado pela árvore, agora, era um triste vazio…
A árvore tentou mover seu grande tronco, muito dolorido. Mas viu suas raízes axiais expostas, dilaceradas, arrancadas…
Dos seus grandes galhos-braços, as folhas caídas estavam espalhadas pelo chão da floresta, à revelia.
Ela olhou em prece para o céu. Viu o azul profundo, abrindo-se num clarão…era o sol! A árvore esfacelada mal podia abrir seus olhos-estômatos das poucas folhas que ainda aderiam a seus galhos esguios. Mas esforçou-se ao máximo. Abriu-os vagarosamente e as lágrimas secaram!
Então, ela esperou…
Esperou pelos dias e pelas noites… Esperou o tempo passar, continuamente. Amanhecia e anoitecia, tudo igual! Mas a senhora-árvore continuava no mesmo lugar…
Perdeu todas as folhas e frutos…Foi secando-se, definhando, despedaçando-se aos poucos, no correr solitário do tempo. Tornou-se esquelética e fria. Tudo o que lhe restara foram os galhos e troncos ressequidos e quebradiços. À sua volta, formigas carregavam seus fragmentos, em fila indiana, incansavelmente.
No final do verão, a árvore soltava seus últimos suspiros, quando alguém cochichou ao seu ouvido: “mamãe…”
Era um bebê verdinho, quase pálido, recém-nascido. Despontava de uma semente sepultada sob ela…
A árvore, sem vida, sentiu algo renascer dentro de si… Era um bebê seu, que nascera de suas sementes jogadas pelo vento. Ali, sob ela, no solo encharcado pela tempestade, a sementinha alimentou-se de seus nutrientes e germinou.
Emocionada, a árvore-mãe pensou: “Minha morte não foi em vão! Ela trouxe vida, continuidade, sentido…”
Agora renascia em outro corpo, de um jeito próprio, fincando suas tenras raízes, ganhando novos pigmentos através do rei-sol…
Assim, de alguma forma, ela vivia novamente, para iniciar um novo e magnífico ciclo!