‘Entre máscaras e espelhos: o pecado necessário do Carnaval’
Clayton A. ZocaratoImagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69938cd9-5660-8332-8947-734b4540c25c
O carnaval é uma estação da alma antes de ser uma data no calendário. Ele não começa quando o tambor rufa nem termina quando a quarta-feira amanhece cinza; começa muito antes, na dobra íntima do desejo humano de suspender o peso da própria biografia.
É como se, por alguns dias, a sociedade respirasse por outra narina, inalando excesso e exalando contenção, num movimento alternado que a mantém viva. O carnaval é o intervalo necessário entre aquilo que somos obrigados a ser e aquilo que tememos ser.
É festa, mas é também espelho; é riso, mas é igualmente vertigem.
Sua história se derrama como vinho antigo. Muito antes de ganhar as avenidas tropicais, já pulsava nos rituais de inversão do mundo, quando a ordem era colocada de cabeça para baixo para que pudesse, paradoxalmente, permanecer de pé.
Nas antigas celebrações da fertilidade, nas festas dedicadas a deuses que morriam e renasciam, havia sempre a permissão para a desmedida.
Em certas épocas do império romano, durante as festas de inverno, os papéis sociais eram trocados, os senhores serviam e os servos riam. Séculos depois, sob o calendário cristão, a festa antecedia a quaresma como a gargalhada antecede o silêncio do arrependimento.
A carne era celebrada antes de ser negada. O corpo era exaltado antes de ser disciplinado. A própria palavra carnaval carrega essa tensão entre a despedida da carne e sua consagração derradeira.
Quando atravessou oceanos e se enraizou em terras tropicais, encontrou solo fértil. No Brasil, tornou-se espetáculo de cores, ritmos e multidões. Nasceu nos entrudos coloniais, ganhou forma nos salões do século XIX, tomou as ruas com ranchos e cordões, e explodiu em potência nas escolas de samba do século XX.
Em cidades como Rio de Janeiro, transformou-se em ritual coreografado, onde comunidades inteiras trabalham durante meses para contar histórias que misturam mitologia, crítica social e memória coletiva.
Em Salvador, tornou-se maré elétrica que arrasta milhões atrás de trios amplificados, dissolvendo fronteiras entre palco e plateia.
Em Recife, pulsa no frevo que desafia a gravidade e no maracatu que evoca reis e rainhas ancestrais. Cada cidade inscreve no carnaval sua própria narrativa, mas todas compartilham o mesmo gesto: suspender a normalidade para revelar sua fragilidade.
Filosoficamente, o carnaval é o laboratório do excesso. Ele questiona a rigidez das normas ao permitir que o grotesco desfile de mãos dadas com o sublime.
Máscaras ocultam identidades ao mesmo tempo em que as revelam.
Ao vestir-se de outro, o indivíduo experimenta a estranha liberdade de não ser ele mesmo. O anonimato torna-se licença, e a licença, risco. Há uma verdade paradoxal nessa encenação: ao representar, confessa-se; ao exagerar, desnuda-se. O riso coletivo não é apenas diversão, mas uma crítica disfarçada.
Satiriza-se o poder, caricaturam-se as hierarquias, ironizam-se os costumes.
Durante alguns dias, o rei pode ser ridicularizado, o santo pode dançar, o pobre pode brilhar como nobre. A inversão não destrói a ordem; antes, recorda que ela é construção humana, portanto transitória.
Sociologicamente, o carnaval é válvula e vulcão.
Válvula porque permite que tensões acumuladas encontrem escape simbólico. Vulcão porque, ao liberar essas forças, revela a energia subterrânea que sustenta a convivência social. A multidão que dança uníssona experimenta uma forma rara de comunhão.
Corpos comprimidos em ruas estreitas descobrem um ritmo comum, uma respiração partilhada. Ali, diferenças de classe, cor, profissão e origem parecem dissolver-se sob o suor e o confete.
Contudo, essa dissolução é provisória. Quando o sol da quarta-feira se impõe, as fronteiras retornam, as desigualdades reaparecem, as fantasias são guardadas. O carnaval, então, revela sua face ambígua: ele tanto aproxima quanto evidencia a distância que separa.
E é nesse ponto que surge seu pecado. Não um pecado simples, moralista, reduzido a excessos de bebida ou luxúria. Seu pecado é mais profundo e mais antigo: é o pecado de lembrar ao ser humano que ele deseja mais do que a ordem lhe permite.
O carnaval encarna a tentação da liberdade absoluta, ainda que por horas contadas. Ele celebra o corpo num mundo que frequentemente o vigia; celebra o prazer num contexto que o regula; celebra a mistura num sistema que classifica. Seu pecado é o de afirmar a vida em sua abundância desobediente.
Mas também há o pecado que nasce do próprio excesso. A liberdade pode converter-se em irresponsabilidade, o anonimato em violência, a alegria em alienação. A festa que promete comunhão pode reproduzir exclusões; o espetáculo que denuncia injustiças pode ser capturado por interesses econômicos; o rito popular pode transformar-se em produto turístico.
O carnaval oscila entre resistência e mercadoria, entre crítica e consumo. Sua dubialidade de pecado reside justamente nessa oscilação: é transgressão que liberta e, ao mesmo tempo, transgressão que pode aprisionar em novos grilhões.
Historicamente, cada período tentou domesticar o carnaval ou dele se apropriar. Governos já o incentivaram como símbolo nacional e também o reprimiram como ameaça à ordem.
Elites já o desprezaram como desordem vulgar e depois o celebraram como patrimônio cultural.
Ele sobreviveu porque se metamorfoseia. É camaleão social: adapta-se, negocia, reinventa-se.
A cada geração, renasce com novas músicas, novas críticas, novos corpos ocupando o espaço público.
É memória viva de um povo que aprende a rir de si mesmo para não sucumbir ao peso da própria história.
No plano íntimo, o carnaval é confronto. Ao permitir que desejos ocultos venham à tona, ele questiona a narrativa que cada um constrói sobre si.
A máscara não apenas esconde; ela autoriza. E, ao autorizar, revela. Quantos impulsos reprimidos encontram ali sua brecha?
Quantas identidades silenciadas experimentam, por alguns dias, a luz? O pecado do carnaval é também o pecado da sinceridade súbita.
Ele escancara o quanto somos feitos de camadas e o quanto a moral cotidiana é um pacto frágil, sustentado por convenções.
No entanto, seria injusto reduzi-lo a um tribunal de culpas. O carnaval é igualmente celebração de criatividade, trabalho coletivo e herança cultural.
Por trás de cada desfile há costureiras anônimas, artesãos pacientes, músicos dedicados, comunidades inteiras que transformam escassez em esplendor.
Há disciplina na aparente desordem, cálculo na espontaneidade ensaiada, organização no caos coreografado. O pecado e a virtude dançam abraçados, indistinguíveis.
Quando a festa termina, resta um silêncio peculiar. Não é apenas cansaço; é reflexão. A cidade parece estranhamente ampla sem os blocos, quase tímida sem as cores. Esse vazio revela que o carnaval não era mero excesso, mas necessidade.
Ele funciona como rito de passagem anual, lembrando que a vida não pode ser apenas trabalho, regra e contenção.
Precisa também de delírio, de música alta, de encontros improváveis.
Precisa da experiência do limite para reconhecer o valor da medida.
Assim, o carnaval permanece como paradoxo encarnado. É pecado porque ousa desafiar; é virtude porque ousa lembrar.
É desordem que preserva a ordem; é crítica que reafirma a tradição; é fuga que devolve ao ponto de partida com novos olhos. Sua dubialidade não é falha, mas essência.
Ele existe na fronteira entre o sagrado e o profano, entre o corpo e o espírito, entre a máscara e o rosto. E talvez seu maior significado seja este: ensinar que o ser humano é, ele próprio, carnaval — mistura de luz e sombra, regra e desejo, contenção e excesso — condenado e abençoado por sua eterna capacidade de celebrar e transgredir ao mesmo tempo.
Assim, o carnaval permanece como paradoxo encarnado. É pecado porque ousa desafiar; é virtude porque ousa lembrar.
É desordem que preserva a ordem; é crítica que reafirma a tradição; é fuga que devolve ao ponto de partida com novos olhos.
Sua dubialidade não é falha, mas essência. Ele existe no cabedal entre o sagrado e o profano, entre o corpo e o espírito, entre a máscara e o rosto.
Mas há ainda algo mais profundo nesse teatro coletivo que se ergue e se desfaz como castelo de areia ao sabor da maré.
O carnaval é também uma pedagogia do efêmero.
Tudo nele é intenso porque tudo nele é breve. A fantasia que exigiu meses de trabalho dura algumas horas sob o brilho das luzes; o samba-enredo que embala multidões ecoa forte e depois se dissolve na memória; o beijo roubado na esquina pode nunca mais se repetir.
A festa ensina, sem discursos, que a vida é feita de instantes que queimam rápido. Seu pecado talvez seja nos lembrar da finitude, mas fazê-lo dançando.
Há uma economia simbólica em curso durante esses dias.
O que é marginal torna-se central; o que é silêncio vira canto; o que é invisível ocupa o palco. Corpos historicamente oprimidos reivindicam beleza, talento e presença. A avenida transforma-se em território de afirmação. Não se trata apenas de espetáculo, mas de reescrita provisória da hierarquia social.
O carnaval redesenha o mapa do poder, ainda que com giz que a chuva pode apagar. E nessa reescrita reside tanto sua força quanto sua fragilidade.
Porque ao mesmo tempo em que ele abre espaço para vozes esquecidas, também pode ser capturado por estruturas que transformam expressão em produto, cultura em mercadoria, identidade em vitrine.
Essa tensão não o enfraquece; ao contrário, constitui sua pulsação. O carnaval vive de contradições como o coração vive de sístole e diástole. Expande-se na liberdade, contrai-se na disciplina.
Exige planejamento rigoroso para que o improviso pareça espontâneo. Cobra patrocínios e investimentos enquanto canta a simplicidade da rua.
Move milhões na indústria do turismo e, ao mesmo tempo, nasce da criatividade de comunidades que aprendem a fazer do pouco um luxo simbólico. Seu pecado é também o de negociar com o mundo que critica.
Há, ainda, o carnaval interior, aquele que não depende de trio elétrico nem de arquibancada. É o instante em que alguém decide ousar ser outro, ainda que discretamente; quando escolhe uma roupa mais colorida do que o habitual; quando permite ao riso escapar em meio à rotina rígida.
O espírito carnavalesco é uma disposição para a metamorfose. Ele questiona identidades fixas e lembra que somos processos, não estátuas.
Ao experimentar papéis, compreendemos melhor o nosso. Ao atravessar o excesso, voltamos ao equilíbrio com mais consciência.
Por isso, o carnaval carrega uma ética implícita. Não a ética da proibição, mas a ética da responsabilidade na liberdade.
A verdadeira transgressão não é destruir, mas criar; não é violentar, mas revelar; não é desumanizar, mas expandir a experiência humana. Quando a festa se desvia para o desrespeito, trai sua própria essência.
Porque sua razão de ser não é o caos pelo caos, mas a catarse que purifica, a ironia que educa, o riso que humaniza. Seu pecado só é fértil quando gera reflexão; caso contrário, torna-se mero ruído.
E quando o calendário avança e a rotina reassume o comando, algo permanece como resíduo luminoso.
Talvez seja a memória de uma música que insiste em tocar na mente; talvez seja a lembrança de ter pertencido a uma multidão sem perder a singularidade; talvez seja a certeza de que a ordem não é absoluta, de que sempre há brechas por onde a imaginação pode escapar.
O carnaval deixa marcas invisíveis, pequenas fissuras na rigidez cotidiana. Por essas fissuras, entra ar.
No fundo, o carnaval é uma pergunta lançada à sociedade todos os anos: quem somos quando as regras afrouxam? O que fazemos com a liberdade que tanto desejamos? Conseguimos transformar a energia da festa em transformação duradoura ou a deixamos evaporar junto com o último acorde? Ele não responde; apenas encena.
E nessa encenação nos entrega um espelho ampliado, onde virtudes e vícios aparecem em cores saturadas.
Talvez seu maior pecado seja este: recusar-se a ser simples. Ele não cabe na definição de festa nem na condenação moral. É rito e mercado, crítica e entretenimento, devoção e irreverência.
É herança histórica e reinvenção anual. É memória ancestral que dança com tecnologia de ponta. É o grito coletivo que desafia o silêncio imposto.
Em sua dubialidade, ensina que o humano não é linha reta, mas espiral.
E assim, ano após ano, ele retorna.
Não como repetição, mas como renascimento. Traz consigo a promessa de que, por alguns dias, será possível experimentar o mundo ao avesso para compreender melhor seu direito.
E ao final, quando as máscaras são guardadas, talvez descubramos que elas nunca estiveram apenas sobre o rosto — estavam também nas certezas. O carnaval as desloca, as embaralha, as expõe.
E, nesse gesto ambíguo de pecado e revelação, cumpre sua missão mais antiga: recordar que viver é, inevitavelmente, dançar entre limites e abismos, entre culpa e graça, entre o que se deve e o que se deseja.
‘Carnaval e violência contra a mulher: entrevista com Dra. Mery Janes Corbiceiro Fonseca’
Renata Barcellos
Provavelmente, o carnaval tem sua origem em festas pagãs, como os realizados em honra de Baco (deus do vinho), as saturnais romanas e as Lupercalia, ou aqueles que tiveram lugar em homenagem ao touro Ápis, no Egito. Dessa forma, estudos estimam que o primeiro culto que mais tarde seria conhecido como o Carnaval foi feito anos antes de Cristo, quando os agricultores se reuniram no verão, com os rostos mascarados e corpos pintados inteiramente em torno de uma fogueira para celebrar a fertilidade e produtividade do solo, bem como afastar os maus espíritos da colheita.
Já, segundo alguns historiadores, as origens das festividades do carnaval remontam à antiga Suméria e Egito há mais de 5.000 anos, com celebrações similares no Império Romano, onde o costume se espalhou por toda a Europa. E foi trazido para a América pelos navegantes espanhóis e portugueses a partir do século XV. A primeira concentração carnavalesca está localizada no Egito. A festa era nada mais do que dança, canto, e os participantes usavam máscaras e fantasias como um símbolo de ausência de classes sociais. Seguindo a tradição chegou à Grécia. No século VI a.C., era costume de andar de barco com rodas (navalis carrus) onde as pessoas dançavam todos os tipos de dança.
Em Roma, foi dedicado à deusa egípcia Ísis, espalhando o culto dos celtas e os alemães.
As cerimônias foram um ponto comum. Foram associados com os fenômenos espirituais, astronomia e ciclos naturais, e manifestados através de expressões tais como a dança, música, sátira, máscaras e desordem. Em uma sociedade com muitas diferenças sociais, as partes apresentaram-se para a necessidade de liberdade para todos. Ricos e pobres se misturam durante o carnaval não reconhecido. Em seguida, surge o de Veneza e, depois, os de outros lugares do mundo. E com suas características (máscaras, fantasias, carros alegóricos, desfiles, bailes etc.) adaptadas aos costumes de cada país.
Entretanto, infelizmente, neste período que deveria ser de alegria, é marcado por tristeza para muitas mulheres que sofrem algum tipo de violência. De acordo com estatísticas, metade das brasileiras (50%) já sofreu assédio sexual durante o Carnaval. Sete em cada dez mulheres têm medo de sofrer assédio na festa. E 73% têm receio de passar por essa situação pela primeira vez ou novamente. Entre mulheres negras, os índices são ainda mais altos. Devido ao aumento a cada ano, desde dezembro de 2023, o Brasil criou a Lei nº 14.786, que institui o protocolo “Não é Não – Mulheres Seguras” em todo o território nacional. A legislação estabelece medidas obrigatórias para casas noturnas, boates, espetáculos musicais realizados em locais fechados ou shows com venda de bebida alcoólica. A lei define como constrangimento qualquer insistência física ou verbal após a mulher manifestar discordância. E reconhece como violência o uso de força que resulte em lesão, dano ou morte, conforme o Código Penal.
Entre os direitos garantidos às vítimas estão a proteção imediata pela equipe do local, o afastamento do agressor e o acompanhamento por pessoa de sua escolha. Os estabelecimentos devem manter ao menos um funcionário capacitado para aplicar o protocolo, afixar informações visíveis sobre como acioná-lo e divulgar os contatos da Polícia Militar e do Ligue 180.
A Secretaria de Estado da Mulher do Rio de Janeiro preparou seis passos fundamentais que podem salvar vidas:
1. Peça ajuda a quem estiver por perto e acione a polícia pelo 190 ou pelo botão de emergência do App Rede Mulher: não se cale!
2. Se presenciar um caso de importunação, ofereça ajuda: finja conhecer a vítima e tente retirá-la daquela situação.
3. Se houver perigo, ou se a mulher estiver desacordada, ferida ou com o agressor em ação, ligue para o 190 ou acesse o botão de emergência do app Rede Mulher.
4. Se for vítima de alguma violência, guarde informações sobre o fato: anote dia, horário, nome e contato de testemunhas e, se possível, registre foto ou vídeo do agressor.
5. Faça o Registro de Ocorrência na Delegacia da Mulher ou na delegacia mais próxima.
6. Procure um dos 53 centros especializados de atendimento à mulher no estado, disponíveis no app Rede Mulher ou no site www.secmulherrj.rj.gov.br.
Outras medidas importantes para quem vai curtir o Carnaval:
– Mantenha sua bebida coberta, até um guardanapo pode evitar que joguem alguma droga no seu copo.
– Compartilhe sua localização durante deslocamentos, faça contato com um familiar ou amigo durante o percurso. Não é Não! Respeite a Decisão.
A seguir, entrevista com Dra. Mery Janes Corbiceiro sobre violência contra a mulher.
Minibiografia de Dra. Mery Janes Corbiceiro: psicanalista Clínica, Coach, Consteladora Familiar, Pedagoga, Pós graduada em Terapia de família. Casada há 34 anos, mãe de dois filhos e avó de uma neta. Apaixonada pelos animais e por Jesus.
1.Quando surgiu seu interesse por Terapia Familiar?
Dra. Mery Janes Corbiceiro: Meu interesse pela Terapia Familiar surgiu ao longo da minha carreira como professora, que me levou à compreensão de que o sofrimento humano raramente é isolado. Ao longo desse processo, percebi que muitos conflitos emocionais, comportamentais e relacionais estão profundamente ligados às dinâmicas familiares, aos vínculos afetivos e às histórias que atravessam gerações. A Terapia Familiar possibilita olhar o indivíduo dentro de um contexto maior, promovendo compreensão, diálogo e caminhos mais saudáveis para todos os envolvidos.
2. A partir de seus atendimentos, quais fatores motivam a violência contra a mulher?
Dra. Mery Janes Corbiceiro: A violência contra a mulher é um fenômeno complexo e multifatorial. Entre os fatores mais recorrentes estão padrões culturais machistas, desigualdade de poder nas relações, histórico familiar de violência, dificuldades emocionais não elaboradas, uso abusivo de álcool ou drogas, ciúmes patológicos e a dificuldade do agressor em lidar com frustrações. Muitas vezes, a violência é sustentada pelo silêncio, pela dependência emocional ou financeira e pela naturalização do abuso ao longo da história.
Pormuito tempo a educação utilizou a punição física como método de ensino , levando a criança apreender que quem ama , também bate e se ela apanhou é culpa sua, fez algo errado. Hoje não é mais o pai e nem a mãe é o parceiro que se tona o agressor.
3. Qual a diferença entre psicóloga, psicanalista e Consteladora familiar?
Dra. Mery Janes Corbiceiro: A psicóloga é uma profissional formada em Psicologia, com registro no Conselho Regional, habilitada para avaliação psicológica, diagnóstico e atendimento clínico, utilizando diferentes abordagens científicas.
A psicanalista atua a partir da teoria psicanalítica, focando nos processos inconscientes, na história de vida e nos conflitos internos, podendo ter formação em Psicologia ou áreas afins, com especialização em Psicanálise.
A consteladora familiar trabalha com a abordagem das Constelações Familiares, que busca identificar padrões sistêmicos e emaranhamentos familiares que impactam a vida da pessoa. Cada atuação tem objetivos e métodos diferentes, podendo inclusive ser complementares, desde que respeitados os limites éticos e profissionais.
4- Mensagem a quem está sofrendo violência doméstica:
Dra. Mery Janes Corbiceiro: Você não está sozinha, e a violência nunca é culpa sua. O medo, a vergonha e a confusão fazem parte desse processo, mas é possível romper o ciclo. Buscar ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza. Existem profissionais, serviços e redes de apoio preparados para acolher, orientar e proteger você. Sua vida tem valor, sua dor é legítima e você merece viver com respeito, dignidade e segurança. Quem ama não machuca, cuida. Indico a série MAID e o filme: É assim que acaba.
Verônica MoreiraNo centro, Conceição Imaculada da Silva Moreira, mãe da autora
Era o período do Carnaval em Caratinga. Eu sempre gostei dessa festa popular, mas tinha certa aversão a me fantasiar. Talvez porque nunca pudesse escolher minha própria fantasia. E, infelizmente, meus pais eram fãs de maquiagem, algo que eu não suportava! Às vezes, até apreciava as fantasias que escolhiam para mim, porém detestava essa ideia de usar a tal maquiagem. Todo Carnaval era uma verdadeira peça de teatro: lá íamos nós, agradando a todos, mas não a nós mesmos. Eu, apenas uma menininha, de cabelos compridos e pernas finas, desfilando por horas na Avenida Catarina Cimini, onde aconteciam os desfiles.
Minha mãe adorava desfilar, e eu achava incríveis os vestidos que ela usava, cada ano com um modelo diferente, porém todos luxuosos, com lantejoulas e pedras. Alguns eram enfeitados apenas com penas de ganso, e como eram maravilhosos!
Acredito que, no último desfile da Mangueira em Caratinga, minha mãe vestiu uma fantasia e saiu como destaque na ala das baianas, e eu ficava encantada com o entusiasmo dos meus pais. No entanto, esse desfile teve um significado especial para nós, irmãos, e vou explicar o motivo…
Naquela época, a população de Caratinga era muito animada, e tínhamos um vizinho que era mestre da escola de samba, localizado na conhecida Rua dos Cavacos. Por algum motivo que ainda gostaria de descobrir, a rua recebeu esse apelido. Sinto-me mais curiosa do que nunca. Talvez, somente agora, ao escrever sobre os carnavais da minha cidade, perceba a importância de conhecer a história de cada rua, cada cidade e praça da nossa região.
Mas, continuando, esse vizinho era conhecido como Manga e era responsável pela direção das escolas de samba em Caratinga. Não sei se esse nome era um apelido ou seu verdadeiro nome, mas ele fazia um trabalho incrível e homenageava personalidades da nossa cidade.
Conceição Imaculada da Silva Moreira
Ele era um talentoso sambista, cantor e compositor responsável por interpretar as músicas entoadas em nossos carnavais. Durante um momento do samba, apresentado com entusiasmo pela bateria da escola e brilhantemente vocalizado por nosso amado Manga, uma bela homenagem foi feita a Ziraldo Alves Pinto e João Caetano do Nascimento. Deixo aqui registrado um trecho dessa maravilhosa composição:
“João Caetano do Nascimento Revive seu tempo de glória, Partiu para a eternidade, E o seu nome aqui ficou oh, oh, oh, oh… Em nossa escola de samba, este é o tema que o poeta inspirou.” Oh, oh, oh, oh, oh, oh…
“Ah, Ziraldo Alves Pinto, um personagem que enaltece o Carnaval.”
Esses trechos de músicas encantadoras e inspiradas eram tocados com maestria pelas escolas de samba naquela época.
É sempre gratificante relembrar nossa cultura, e é por isso que destaco esse fragmento de canção, pois, naquele tempo, o Carnaval não era, ao menos em minha opinião, essa confusão que presenciamos hoje em dia nas grandes cidades.
Uma coisa que não me trazia alegria alguma era o fato de sermos obrigados a usar maquiagem. Meu pai, um tanto exagerado, insistia em pintar os sete filhos e, por ser bem branca, eu me sentia uma bruxa, com bochechas vermelhas e uma boca maior do que a do personagem Nazareno, da Escolinha do Professor Raimundo. Não era fácil, sinceramente.
A fantasia até era agradável; no último Carnaval, me vestiram como bailarina, com minha irmã mais nova. Éramos muito empolgadas na avenida, mas, assim que meus pais se afastavam, eu rapidamente removia toda aquela maquiagem, sempre fiz assim: deixava que fizessem, mas, assim que viravam as costas, eu tirava tudo. Pelo menos eu podia fazer isso. Não me esqueço do tanto que aguentávamos ficar sambando até o final da avenida e quando chegávamos no final, a sensação era de exaustão, misturado com satisfação, os pés até calejados e a bexiga em tempo de estourar.
O pior era com meus irmãos mais velhos, que, além de terem que usar maquiagem para representar personagens, também precisavam sambar sobre os carros alegóricos. Todos observavam e admiravam as magníficas fantasias, mas, nos rostos dos meus irmãos, a decepção era evidente. Não pelas fantasias, mas por terem o rosto coberto por uma maquiagem que os fazia se parecerem muito com os personagens que representavam: Adão e Eva, e São Jorge, o guerreiro.
Os carnavais em Caratinga, sem dúvida, eram os melhores. Eles me despertam uma mistura de saudade e decepção, devido às detestáveis maquiagens que éramos obrigados a usar. Mas era uma celebração que verdadeiramente representava a cultura da nossa região e do Brasil.
Hoje em dia, com as distorcidas formas de comemorar os eventos populares, nossa cultura, que sempre foi tão rica, não deveria estar ameaçada como vemos agora. Festas tão belas, celebradas com alegria e prazer, tornaram-se uma ocasião de desordem, imoralidade e desvalorização das nossas raízes. Que pena!
Carlos Carvalho Cavalheiro: 'Saudade do boizinho de Carnaval'
Carlos Carvalho Cavalheiro
Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Saudade do boizinho de Carnaval’
Boi Fervor, de Porto Feliz
Porto Feliz ainda guarda na memória a tradição dos boizinhos de carnaval. Até pelo menos a década de 1980, talvez até início dos anos 90, os boizinhos ainda eram vistos pela cidade animando as brincadeiras de carnaval.
Nem todas as cidades da região guardam lembranças dessa manifestação. Havia, pelo que se sabe, o boizinho em Itu e Tatuí, além de Porto Feliz. A tradição dos boizinhos de carnaval é antiga e se espalhou por todo o Brasil (os mais famosos são os bumba-meu-boi e boi-bumbá, mas há o boi mamão no sul do país, os bois de reis, etc.). Aparentemente, trata-se de um amálgama de tradições muito antigas que pelo imperativo da constituição diversificada de nosso país, aqui se encontraram esses usos e costumes ganhando roupagens novas.
Há influência africana nessa tradição e também remonta ao simbolismo muito antigo dos bovinos (as religiões antigas sempre apresentam o touro ou o boi como algo sagrado ou relacionado ao divino. Ver, por exemplo, o culto a Dioniso, na Grécia; o Boi Ápis no Egito e o culto ao deus Mitra em Roma). Na Índia, para citar outro exemplo, os bovinos são considerados sagrados até hoje.
Em nossa região do Médio Tietê essa tradição também é antiga e existia, por exemplo, em Itu, onde Francisco Nardy Filho relata como uma tradição ligada aos negros da cidade. Diz o historiador que nas festas de São Benedito e também no carnaval o boizinho tinha a sua participação. Em Porto Feliz, havia um maestro negro, no século XIX, chamado Benedito Pais Arruda (se não me engano) e que levou essa tradição a Tatuí, de onde se originou depois o Cordão dos Bichos, famoso até hoje. Parte disso está relatada no meu livro “O negro em Porto Feliz”.
Em Campinas existe a tradição do “Boi falô”, que ocorre durante a sexta-feira Santa no bairro de Barão Geraldo. De acordo com a lenda local, um escravo da Fazenda Santa Genebra, pertencente ao Barão Geraldo de Rezende, foi instado a colocar a canga num boi para carregar a cana cortada. Quando o escravo, que se chamava Toninho, tentou colocar a canga, diz-se que o boi mugiu e teria dito: “Hoje é dia santo, não se pode trabalhar”.
A Festa do Boi Falô possui um significado religioso, relacionado à ressurreição de Jesus Cristo. Coincidentemente, ou não, as outras tradições do boi também remetem ao ressurgimento, à morte e ressurreição. Com esse sentido o boi era cultuado nos mistérios de Dioniso (ou Dionísio). No bumba-meu-boi, o negro Pai Francisco mata um boi de um fazendeiro para satisfazer o desejo de sua esposa que está grávida e quer comer língua de boi.
O fazendeiro percebe a falta do boi e manda prender o Pai Chico, mas este consegue ressuscitar o boi por meio da intervenção de um benzedor (ou de outro artifício, dependendo da região em que a manifestação ocorra). Assim, ele se livra da punição. O simbolismo da ressurreição é aproveitado com o sentido cristão da ressurreição.
Com menor dramaticidade, o boizinho ituano descrito por Francisco Nardy Filho “pulava, dançava, investia, adoecia, deitava-se; vinha o doutor, curava-o e punha-se ele de novo a pular, a dançar e a investir; e tudo isso acompanhado de cantigas ao som das violas, pandeiros, caixas e zabumbas” (NARDY FILHO, F. A cidade de Itu. Itu:Ottoni, 2000, p. 207).
Em meados da década de 1960, de acordo com Ivan Sampaio, o boizinho do Tedéu. Em 1976 surgiu o Boi do Fervor, de memória mais recente. Em 2004, a Sociedade Recreativa Monções reapresentou o Boi do Fervor.
Os boizinhos de carnaval são uma tradição de Porto Feliz e seria importante que pudessem ressurgir. Como nas lendas ligadas ao boi e ao touro, depois de experimentar a morte temporária, os bois de Porto Feliz poderiam voltar à vida, porque carregam em si muito da mistura de tradições imemoriais, muitas vezes escondidas pela poeira dos tempos. Também porque fazem com que Porto Feliz se destaque em termos de produção cultural tradicional. Possui apelo para a visitação turística, para a difusão do nome da cidade, para a manutenção de uma brincadeira sustentada por conhecimentos que atravessam os séculos.
É o momento de aproveitar os laços que ainda não se romperam: ainda existem pessoas que conhecem a técnica de montagem da armação do boi, assim como estão vivas muitas pessoas que conheceram essa tradição que deixou de existir há poucas décadas. Cabe a nós, portanto, revalorizarmos a manifestação cultural do boizinho.
Carlos Carvalho Cavalheiro – carlosccavalheiro@gmail.com
06.03.2019
Claudio Bloch: 'O Dia Internacional das Mulheres'
Claudio Bloch
O DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES
A luta das mulheres contra o fim da violência
Nunca recebi e postei tantas mensagens de apoio e celebração pelo Dia Internacional da Mulher, comemorado ontem, dia 8 de março. Mas há ainda muita luta pela frente para que seja apenas motivo de comemoração. Números mostram que a violência contra a mulher está longe de ser superada. De acordo com a Coordenadoria Municipal de Políticas e Direitos das Mulheres (Codim) de Niterói, nos dois primeiros meses deste ano, 209 vítimas buscaram apoio no centro de atendimento às mulheres (Ceam).
No domingo passado mais uma mulher niteroiense foi vítima de agressão pelo simples fato de ser mulher. Após uma cantada agressiva, rechaçada, de um homem em um bloco de carnaval, a mulher foi atacada com chutes e empurrões. Do chão ainda ouviu xingamentos homofóbicos do agressor por estar acompanhada de sua namorada. Com medo, a vítima foi para casa cuidar dos ferimentos e hematomas.
“Eu estava de mãos dadas com minha companheira, quando um homem me puxou pelo braço querendo me forçar a ficar com ele. Ele começou a gritar com intimidação, que era homem. O amigo que estava com ele, em vez de puxá-lo, dizia pra eu ir embora.O mais assustador é que pessoas que estavam ao redor nada fizeram para me ajudar, mesmo vendo que eu estava ferida. Alguns momentos antes já me haviam chamado de sapatão.”Ela contou que nunca havia passado por situação parecida enquanto namorava homens.
Além do machismo, foi um claro caso de homofobia, disse a vítima, funcionária pública, que devido a dor e por medo de sofrer ainda mais preconceito, desistiu de ir à delegacia prestar queixa.
E uma boa notícia de onde imaginamos que de bom nada vai sair.
O governador Witzel sancionou, no final de fevereiro, um projeto de autoria de deputados do PSB e do PCdoB proibindo que pessoas condenadas pela Lei Maria da Penha sejam nomeadas para cargos comissionados no governo estadual.
Esse é um bom exemplo que pode ser disseminado entre os governos estaduais e municipais do país.
Por Claudio Bloch, correspondente do ROL em Niterói
Cerquilho encerra comemoração do Carnaval com solidariedade
3º Arrastando o Bigode fecha as comemorações de Carnaval com solidariedade
No dia 09 de março, Cerquilho se despede de vez do Carnaval 2019 com a 3º Edição do Arrastando o Bigode, no Centro de Eventos Cidade das Rosas.
O evento começa às 18h e contará com a presença do Trio Atomix e grande show com a Banda Balakubaka, que trará os melhores kits do Carnaval para a gente matar a saudade.
Importante lembrar que a entrada do evento é solidária: doação de um quilo de alimento, que juntamente com os itens arrecadados no 2º Carnaval Solidário, irá ajudar famílias necessitadas, através do Fundo Social de Cerquilho.
Não será permitida a entrada com coolers/isopor de bebidas.