Taxa extra: conto de Eduardo Cesario-Martínez

Uma taxa extra leva o orçamento e a sanidade de um condomínio ao limite, transformando um pensamento sombrio em uma macabra coincidência real

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma fotografia autêntica, tirada na altura dos olhos, de um homem mais velho com cabelos grisalhos e um suéter azul, sentado em uma mesa de fórmica de meados do século e olhando para a câmera com uma expressão calorosa e sorridente. Ele está em uma cozinha compacta e acolhedora, com armários brancos simples e utensílios de cozinha. Na mesa à sua frente há uma caneca de café de cerâmica em suas mãos, uma tigela, uma caixa de leite azul e branca e um guardanapo amassado ao lado de um pano dobrado. A luz natural suave entra por uma janela ao fundo, e uma estante cheia de livros está parcialmente visível à direita. A atmosfera é confortável e natural.
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Taxa extra. Reunião de condomínio é ringue sem regras no escuro. Que até a mais elevada das almas perde as estribeiras, ninguém duvida.

    — Ninguém aguenta, Eleonora!

    — É o jeito, José. Você bem sabe que sou a última a querer taxa extra.

    — Última? Eleonora, me poupe!

    — Não precisa apelar pra ironia, Márcia. Fale na cara!

    — Hum! É a verdade!

    — A sua verdade, você quer dizer, né, Márcia?

    Ernesto, ao fundo da sala, tentou controlar a língua para não arrumar imbróglios particulares. Já bastavam os coletivos. Taxa extra. Ele pensou no que poderia cortar nas despesas. De cara, trocaria o café, uma marca popular. E nada de almoçar fora. Levaria marmita para o trabalho.

    — Então, meus amigos, o valor vai ser de duzentos e cinquenta e três reais.

    — Dividido em quantas prestações?

    — São dez parcelas de duzentos e cinquenta e três reais, Jorge.

    — Não vai dar.

    — O que não vai dar, Jorge?

    — Você sabe que vivo da aposentadoria, Eleonora?

    — Sorte a sua.

    — O quê? Tá zombando da minha cara?

    — E eu, Jorge, que nunca vou me aposentar? Como é que fico?

    Não teve conversa. A taxa extra foi imposta. 

    Ernesto foi um dos últimos a deixar o recinto. Muito burburinho para nada. Leite. Sim, o homem cortaria também o leite. Há muito não usava fraldas. Leite pra quê? Não era bebê.

    No elevador, Ernesto ouviu a indignação de Márcia e Lindaura. Vez ou outra, as moradoras encaravam o sujeito, talvez na esperança de incentivo. Nada! Nem mesmo uma mísera vogal.

    A porta do elevador se abriu. As mulheres saíram sem se despedir. E, antes que a caixa de transporte prosseguisse a viagem, Ernesto ouviu parte da conversa, que parecia se desenrolar pelo corredor.

    — A minha vontade era matar a Eleonora.

    — Márcia!

    — E não é?

    — Pois estou nessa contigo, amiga.

    O quê? Aquilo era sério? Ernesto pareceu estupefato. Que Eleonora era uma crápula, ele não carregava dúvidas. Que a síndica estava roubando o condomínio, bem, ele não tinha provas. Se bem que a falta de provas não o incentivava a colocar a mão no fogo por Eleonora. Mas assassinato? Aí, já era algo que extrapolava qualquer bom senso. 

    Abriu a porta do apartamento ainda atordoado pelo diálogo daquelas mulheres. Loucura. Ah, certamente palavras cuspidas da boca para fora. Será? Absurdo! Ou não?

    Ernesto pegou o resto de leite da geladeira. Mal deu para uma xícara. Esquentou e fez o derradeiro pingado até que a furtiva sorte lhe desse as caras novamente.  

    O homem puxou uma das cadeiras da mesa da cozinha e acomodou o fatigado corpo. Duzentos e cinquenta e três reais. Que afronta! De onde iria tirar tamanha quantia do seu já minguado orçamento? Voltar a trabalhar era impossível. Com tantas dores instaladas em cada junta do corpo, acabaria internado. E os remédios? De onde tiraria dinheiro para pagar os remédios? 

    Quando sorveu o primeiro gole, tudo lhe pareceu tão óbvio. E por que não? Sim! Ele se juntaria a Márcia e Lindaura. Um plano. Eles só precisariam de um plano. Pensou, pensou, pensou até que a voz lhe saiu mais alta do que o planejado: 

    — O elevador!

    Ernesto tapou os lábios, arregalou os olhos e sorriu. O maldito elevador vivia dando problemas mesmo. Uma fenda entre o elevador e o piso, algo tão corriqueiro. E lá iria a pobre Eleonora beijar o fundo do poço. Gargalhou.

    Levantou-se, foi até a sala, pegou um livro de poesias na estante, A verdade nos seres, de Daniel Marchi. Esparramou-se no sofá e, entre gargalhadas abafadas, leu páginas espaçadas. Adormeceu.

    No dia seguinte, Ernesto despertou com o burburinho nos corredores. Vozes nervosas persistiam. Ele tentou ignorá-las até que a curiosidade o levou a abrir a porta. Lá estavam José, Ruth e Soraia ruminando palavras. Ernesto colocou metade do corpo para fora.

    — Ei, José, o que aconteceu? Por que estão tagarelando tão cedo?

    — A Eleonora, Ernesto.

    — E o que tem ela? 

    — Não soube?

    — Não soube o quê, José?

    — Ela foi encontrada no fosso do elevador. Pobre mulher, não resistiu.

    Ernesto foi tomado por um misto de culpa e dúvida. Será? Não, ele não teve qualquer coisa com aquilo. Mas e a Márcia e a Lindaura? Teriam aquelas duas roubado o seu pensamento? Não, não, não. Essas coisas não acontecem. Não mesmo! Será?

    Naquele mesmo dia, Ernesto encontrou as duas mulheres. Seus olhares se cruzaram. Nada foi dito, porém, os três sentiram que havia um acordo implícito. E o silêncio foi o caminho escolhido por todos. 

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Os nossos, os outros: ‘O vergalho’

Elaine dos Santos: “Os nossos, os outros: ‘O vergalho’”

Elaine dos Santos
Elaine dos Santos
Imagem criada por IA do Bing - 04 de julho de 2025, às 10:04 PM
Imagem criada por IA do Bing – 04 de julho de 2025,
às 10:04 PM

Não ousaria tecer digressões sobre a obra literária produzida por Machado de Assis na exiguidade de um breve ensaio, mas os seus textos são fonte constante de inspiração para refletir sobre o ser humano e a nossa sociedade.

Recentemente, na região central do Rio Grande do Sul, houve um crime (creio que é a palavra mais adequada), em que um agricultor, lenhador, teria investido contra a polícia ambiental e foi morto com três tiros – as imagens foram captadas por câmeras de segurança interna da propriedade, mas nem todas as ações ficam claramente evidenciadas.

A primeira impressão que emergiu (parafraseando Chapolin Colorado: “Quem poderá nos salvar” se a polícia mata? Teria havido uma denúncia feita por vizinhos de desmatamento ilegal, teria sido mera coincidência a presença da polícia ambiental na propriedade. O agricultor teria se agitado, investido contra os dois policiais com um machado.

A segunda questão, que me foi posta pela esposa de um ex-aluno, foi: por que nos choca tanto a morte de um igual se, no Brasil, pessoas são mortas diariamente pelas forças de segurança, quer seja por tiros dirigidos diretamente a elas ou por balas perdidas em tiroteios?

De imediato, o capítulo “O vergalho”, do romance ‘Memórias póstumas de Brás Cubas‘, considerado a primeira obra realista de Machado de Assis, veio à memória.

O narrador seguia pela rua e ouviu os impropérios ditos por um homem ao seu escravo. Achegou-se e encontrou o seu ex-escravo Prudêncio, já alforriado, a bater sem medida em um escravo que adquirira. Solicitou que Prudêncio perdoasse o escravo, o que ele fez sem demora, demonstrando resquícios da submissão absolutamente servil.

Brás Cubas seguiu o seu caminho e passou a tecer reflexões sobre a cena que assistira, sobre a (re) duplicação da violência e ponderando que Prudêncio, que fora seu escravo, cobrava com juros a violência que sofrera.

O Brasil é um país forjado na força, na violência. Os portugueses quando aqui chegaram, quando começou o efetivo povoamento, por volta de 1530, principiaram uma verdadeira chacina do povo indígena que não se resignava à escravidão. Por outro lado, inúmeras mulheres indígenas foram sexualmente violentadas, nasceram mestiços sem pai.

Aliás, esse modo de agir acabou encontrando eco exatamente entre os senhores de engenho, que emprenhavam as suas melhores escravas para, com os filhos mestiços delas, aumentarem a mão de obra nas fazendas. Há registros que se pode buscar na própria História oficial, que escravos homens eram escolhidos para engravidar escravas mulheres para que nascessem crianças mais saudáveis para o trabalho.

Mentalmente, revisito a História do Rio Grande do Sul, que foi feita sob o lombo de cavalos, o estado mais meridional do Brasil, um dos últimos a ser ocupado, região em que vivo na atualidade.

Primeiro, vieram bandeirantes que expulsaram jesuítas portugueses. Quando os jesuítas espanhóis estabeleceram os Sete Povos das Missões, era o tempo dos tropeiros paulistas que vinham em busca do gado para produzir charque e das mulas para o transporte nas Minas Gerais. Nesse caso, valiam-se das mulheres indígenas como empregadas, como amantes, abandonando-as quando partiam, muitas delas encontrando-se grávidas.

A violência entre nós, como ao escravo Prudêncio, que pertencera a Brás Cubas, faz parte do imaginário social. Nos últimos anos, parece ter sido banalizada, bem como a morte – mas a morte do outro: do negro, do homossexual, da mulher. Que estranha sociedade formamos que somente a morte ‘do nosso’, do branco, do agricultor, do reconhecido como trabalhador, consegue nos assustar, comover?

Hoje, como nos tempos de doutorado, quando analisamos o romance ‘O matador‘, de Patrícia Melo, eu tenho medo dessa sociedade. Enquanto comentávamos a obra de Patrícia Melo, uma colega disse: “Mas eles (os pobres, os nascidos na periferia) não têm apego à vida!” Outra colega replicou: “Como tu consegues afirmar isso? Eles, os outros, também tiveram uma mãe que os amou, sonhos que se frustraram, desejos não realizados.” Somos, enfim, todos humanos. Por que essa relação sempre tão violenta e tão ‘comum’?

Elaine dos Santos

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