Anjos do Asfalto

Marli Freitas: Conto ‘Anjos do Asfalto’

Marli Freitas
Marli Freitas
Imagem gerada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69cbcd5c-c4f8-83e9-a3f9-b72cdff8c502
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Depois de um ano turbulento e embates com as dores do passado, Sarah precisava ver o mar e acalmar o seu coração. Mas tudo parecia estranho e mal planejado, pois dependia da disponibilidade do filho caçula e de sua nora. Num momento em que se sentia fragilizada, não poderia ser diferente.

No final da tarde, na véspera da viagem, o céu fechou repentinamente e um vento tempestuoso anunciava uma chuva torrencial. Mas tudo continuava sendo planejado e a chuva parecia ter se dissipado.

Quando saíram ainda era madrugada e bastou avançar alguns quilômetros, que a chuva não deu trégua. Ficaram ansiosos, mas mantinham a esperança de que seria uma chuva localizada, o que infelizmente não era verdade. Depois de subirem a serra, viria o momento mais tenso da viagem, que era enfrentar o desconhecido, que oscilava entre curvas sinuosas e terreno íngreme temperado com chuva e a cerração do amanhecer.

Não deu tempo de nada. O vidro do carro embaçou e nesse quadro complexo entre aflição e estranhamento, o carro girou em uma curva na descida da serra. Foram alguns segundos intensos, onde se sentiram dentro de um liquidificador. Mas os anjos estavam lá em forma de uma contramão deserta e um barranco úmido que amorteceu o impacto.

Saíram de dentro do carro atordoados pelo ocorrido, mas nenhum fio de cabelo havia sido arrancado e se lembrou que, por alguns dias consecutivos, fazia a oração do Salmo 91, que se inicia afirmando que, ‘quem morar no lugar secreto do Altíssimo, encontrará abrigo’ e mais adiante ele diz, ‘nenhum desastre virá sobre você, pois ele dará aos seus anjos uma ordem referente a você’ e ‘Deus disse: ele me ama, eu o protegerei’.

Atordoados ainda, perceberam uma chuva fina em suas cabeças e a patrulha da Polícia Rodoviária Federal encostou logo em seguida. Por um instante sentiram um certo alívio, pois não estavam sozinhos no meio do caos. Perguntaram se tinha alguém ferido e se o carro tinha seguro, mas como não havia ninguém ferido, imprimiram a ocorrência e se despediram dizendo que, quando tivesse área para seus celulares, entrariam em contato com um reboque, pois o carro havia quebrado o eixo traseiro. Ficaram ali, sem direção. Só o medo misturado com a euforia de estarem vivos, fazia companhia internamente. Mas externamente o perigo continuava rondando. O tempo parecia não passar, não tinham nenhuma noção se o reboque viria, e de que lado seria, pois não conheciam a região. A chuva continuava caindo e a cada automóvel que passava, havia o assombro da possibilidade de um outro acidente. Sarah tentou caminhar alguns metros à procura de alguém que pudesse socorrê-los, mas nem o freteiro quis sair de casa naquelas condições.

Desanimada e sem saber se esperava ou se pegava uma carona para algum lugar, onde pudesse encontrar socorro, mais uma vez o inesperado acontece. Passava na rodovia um veículo usado para rebocar automóveis, e seu condutor percebeu que precisavam de ajuda. Num primeiro instante, pensaram que teria sido enviado pela Polícia Rodoviária Federal, mas não era. Miguel e Paulo, estavam passando ali por uma coincidência, e então, Sarah sentiu mais uma vez as mãos de Deus se materializando bem diante de seus olhos.

Seguiram instantes de ‘graça’ e reinou entre eles as mãos dos ‘Anjos do Asfalto’, palavras que puderam ler em letras douradas nas costas daqueles dois homens, bem no lugar onde deveriam nascer as suas asas. Sim, eram anjos! Subiram o carro e os colocaram dentro, como anjos que abraçam seus protegidos e saem voando para um lugar onde tudo parece fantástico e misterioso. Pararam em um ‘Ferro Velho’, onde não encontraram nenhuma peça necessária para substituir as peças quebradas e mais um anjo se juntou a eles. Era Giuseppe, o dono do ‘Ferro Velho’. Sarah ainda não havia se dado conta do que estava acontecendo. O dono do reboque, o senhor Miguel e Giuseppe, haviam tomado para si o problema que era deles. Não os abandonariam até que estivessem seguros para seguirem viagem.

Se dirigiram para um outro ‘Ferro Velho’, que também tinha um depósito de peças novas, mas Miguel não os deixaria a mercê de pessoas que pudessem explorar a fragilidade deles. Assumiu o conserto da parte mecânica do Fiat Uno, juntamente com seu ajudante e envolveu uma grande equipe na tentativa de encontrar peças velhas e novas para substituir as peças quebradas, e até realizar reparos em peças não encontradas naquele local. Sarah olhava aqueles movimentos frenéticos com ar de espanto. Como podia Deus ser tão bom com eles? Como conseguiu enviar aquele reboque naquele momento, sem que ninguém tivesse chamado? Como havia conseguido reunir aquelas pessoas?

Giuseppe, que não teria nenhum lucro com aquela situação, também estava ali. Ela não entendia quem era ele naquele contexto, até que percebeu que contava histórias para distraí-los, pois sabia que estavam em estado de choque. Num primeiro momento, ela apenas notou que era um homem forte, calvo, que mancava de uma perna e tinha várias cicatrizes. Ele lembrava muito o Quasímodo, personagem central do livro ‘Notre-Dame’, de autoria de Victor Hugo, publicado em 1831. Um corcunda de nascença, Quasímodo habita o campanário da Catedral de Notre-Dame de Paris, afastado da sociedade e temido pelos habitantes locais. Foi assim que ele lhe chamou a atenção inicialmente, mas era muito mais do que isto. Ela tinha dúvidas se ele era real, pois agia de modo tão incomum e contava coisas tão bizarras que nada parecia real. Começou contando que era italiano, e que foi combatente em frentes de guerra, o que justificava as deformações e cicatrizes em seu corpo. Depois, que era casado com sua própria irmã, devido ao confinamento em que havia vivido, e com quem tinha vários filhos, e que para eles este fato não causava nenhuma estranheza. Vieram para o Brasil tentar a sorte, sonhando em conquistar um pedaço de terra e reconstruir a vida.

Enquanto ouvia as histórias de Giuseppe, fazia um paralelo entre dois mundos: um que estava ali dentro do visível e outro que era invisível. Ela não conseguia ver de outra forma. No lugar das letras nas costas daqueles dois homens que trabalhavam no reboque, ela via asas, Giuseppe parecia ter saído de dentro de um livro, de tão exótico e exuberante que era. Sarah queria gravar todos os detalhes daquele milagre, então de vez em quando precisava fazer a leitura do ambiente, embora estivesse fascinada com suas histórias.

As outras pessoas envolvidas pareciam em outra dimensão. Era como se fossem os espectadores de um grande acontecimento. Mas era mesmo um grande espetáculo que se desenvolvia entre seres espirituais criados para servir a Deus, que naquele instante se aglomeravam em torno deles. Sarah não se conteve, pois precisava expressar àquelas pessoas a quão grata seria. E Giuseppe prosseguiu e contou-lhes mais histórias, mas desta vez se arriscou também a narrar algo sobrenatural ocorrido com seu filho, enquanto estava em um hospital entre a vida e a morte. Contou que, depois de um acidente, seu filho provavelmente perderia um braço e durante os dias mais traumáticos foram assistidos por alguém especial, que entenderam ser um médico.

Depois de ter findado os dias mais angustiantes de suas vidas e seu filho, além de não ter perdido o braço, também gozava de saúde estável; ao ter alta do hospital, procuraram pelo médico que descreveram com bastante detalhes, mas ninguém o conhecia.

Assim, mergulhada no encantamento, os acontecimentos se desenvolviam num ritmo acelerado. O anjo mestre, o dono do reboque, não cobrou pelo transporte do Fiat Uno, pois entendeu que não estariam preparados. Cobrou apenas um valor simbólico pelo seu trabalho. Ele parecia tão bem por fazer o que fez, que Sarah se conteve e deixou que ele se sentisse como anjo que era. Pagou pelas peças usadas no conserto do carro e partiram com uma sensação de querer ficar mais tempo ali conhecendo aquelas pessoas. Ela tem certeza que as poucas palavras usadas para descrever o evento jamais seriam suficientes para narrar todos os detalhes e sentimentos envolvidos.

Naquele estado de graça, que mais parecia um delírio, não duvidou, apenas acreditou e se entregou à magia daqueles anjos. Despediram-se com palavras afetuosas e partiram rumo ao mar. Sarah entendeu naquela viagem que nem as dores e nem as delícias tinham mais tanta importância.

Marli Freitas

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Mulher moderna

Evani Rocha: Poema ‘Mulher moderna’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada por IA do Bing - 6 de março de 2026, às 11h45
Imagem criada por IA do Bing – 6 de março de 2026, às 11h45

Ela passa perceptível
Exala perfume, espalha sorriso
Ela é mais que um rosto bonito
É força, coragem e equilíbrio

Ela passa pela avenida
A passos rápidos
De salto alto
Ela é mais que um belo sorriso
Ela é semente, ela é abrigo!

Ela não se desvanece
Pois é rocha e terra fértil
Mas floresce na aridez
Se for preciso, no deserto!

Ela é apenas uma mulher
Que assumiu seu valor
Que aceitou seus ‘defeitos’
Não tem medo da idade
Muito menos, do espelho!

Evani Rocha

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Depois que chegaram da Lua

Suziene Cavalcante: Poema ‘Depois que chegaram da Lua’

Suziene Cavalcante
Suziene Cavalcante
Imagem criada por IA do ChatGPT

Eles foram até a Lua
Com bandeiras, fé e razão. Queriam medir o espaço. E entender a humana razão.

Levaram números e máquinas. Planos, mapas e ambição.
Mas trouxeram algo invisível, que não cabe em explicação.

Só quem vê o Infinito, liberta-se dos ciclos, e ganha um livre coração.

Viraram o olhar pra Terra tão azul, tão só no escuro. E ali sentiram no peito que o amor é o foguete mais seguro.

Depois que chegaram da Lua, nada mais foi como antes. O dinheiro ficou pequeno. O poder ficou distante.

Eles viram que a vida é breve.E o agora é o que importa. Que o universo é nossa casa. E o coração é a porta.

Viram o silêncio falando. Viram luz sem precisar ver.
Entenderam que a grandeza é aprender a ser.

Voltaram com olhos novos. E o ego ficou pra trás. Quem vê o infinito de perto não é igual nunca mais.

Somos poeira de estrelas. Mas também luz a brilhar. Tão pequenos na imensidão. Tão imensos ao amar.

Só quem vê o Infinito e depois à Terra desce, descobre seu próprio espírito e nunca mais se envaidece.

Depois que chegaram da Lua, aprenderam a soltar o que pesa, o que divide, o que não deixa voar. A lua tem face humana. Ela também pisou na Terra c’a sua chama, ensinando a brilhar.

Se todo mundo pudesse ver a Terra lá do céu. Talvez cuidasse mais dela. Talvez rasgasse o véu! Talvez entendesse que estamos viajando.
E o Porto, a chegada, é o Infinito nos tocando.

Depois que chegaram da Lua, trouxeram algo maior. Não foi pedra, nem conquista. Foi consciência de que na vida não estamos sós. Que na vida tudo passa, mas o Universo é a nossa casa. Todos nós em um só pó.

Quem consegue deixar os sentimentos baixos, consegue subir ao espaço. E lá ver o espírito do infinito e seu abraço.

Quem se tornou leve conseguiu ir lá. E quando retornou, a alma quis mudar. Nunca mais quis competir, pois o Infinito em tudo está.
Quem já esteve a sós com Deus nunca mais quis odiar.

Com os pés sobre a Lua, viram o mundo azul. E nesse vislumbre fiel, viram que a Terra pode ser o céu, já tem a cor do céu, e o céu és tú!

E o Céu és tú!

E o Céu és tú!

Suziene Cavalcante

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A alegria da família

Denise Canova: Poema ‘A alegria da família’

Denise Canova
Denise Canova
Imagem criada por IA da Meta – 9 de dezembro de 2025,
às 13:08 PM

A alegria da família

É a alegria da esposa e da mãe

Criar a sua família na base da fé

Do amor de Maria, exemplo para as mulheres.

Dama da Poesia

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Ainda dá tempo

Ivete Rosa de Souza: Crônica ‘Ainda dá tempo’

Ivete Rosa de Souza
Ivete Rosa de Souza
Imagem criada por IA da Meta. 24 de julho de 2025, às 11h31
Imagem criada por IA da Meta. 24 de julho de 2025, às 11h31

Estamos vivendo tão apressados, que mal dá tempo de realmente viver. Prestar atenção aos detalhes do dia, da noite, das semanas, meses e anos. Esse tempo que emprestamos do universo, passamos por ele muitas vezes de olhos bem fechados.

Precisamos de quê? Antes de tudo, precisamos ter fé. Não só fé em um ser Divino, superior, dono de grande benevolência e misericórdia. Precisamos ter também fé em nós mesmos. Acreditando que podemos vencer os desafios, que podemos fazer o bem, distribuir amor, dividir esperanças. 

Precisamos acreditar que somos capazes de conquistar e realizar nossos sonhos, que somos capazes de criar caminhos, e nos orgulhar por sermos humanos, com empatia, com respeito aos nossos semelhantes.

Um dia de cada vez, vivendo e entendendo que a vida é uma viagem. Cabe a nós escolher o destino, chegar à estação de nossos desejos realizados, abraçando nossas vitórias, compreendendo nossos erros, refazendo os pontos da costura da vida, que por vezes se desgasta. 

Todos nós precisamos crer em algo, seja o Deus Pai eterno, que nos deu seu filho em redenção por nossos pecados. Crer no infinito, em tantas outras divindades e crenças que a humanidade tem desde o início de sua existência. Ter fé, acreditar no futuro, acreditar que a vida é benção, um presente valioso que deve ser cuidado com carinho. 

A vida nos leva a amar, compartilhar, encontrar almas afins, desejar o bem ao outro, lutar para salvar o nosso mundo.

Precisamos de paz, de respeito aos nossos semelhantes e às criaturas que coabitam o nosso planeta. Respeitar os animais, a natureza é respeitar a nós mesmos e ao Criador, pois somos seres que dependem uns dos outros; vivemos num mundo de muitos idiomas, crenças, políticas, costumes e diversidades. Mas dentro de cada um de nós, batem corações e órgãos totalmente iguais, constituídos de células, sangue, ossos, músculos e tecidos. Todos somos iguais por dentro, em alma e espírito, mesmo que por fora a etnia diga que somos diferentes.

Ainda dá tempo de sermos irmãos de fé, de espírito, de vontade de fazer desse mundo um lugar, onde todas as criaturas vivem em comunhão pelo bem de todos.

Ainda dá tempo de  ser feliz. De sonhar, de viver. Apesar dos anos acumulados

Passando sobre o corpo, ainda dá tempo de vencer a inércia, e VIVER.

Ivete Rosa de Souza

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No tribunal das sombras

Clayton Alexandre Zocarato: ‘No tribunal das sombras’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA do Meta. 16 de julho de 2025, às 10:11 PM
Imagem criada por IA do Meta. 16 de julho de 2025,
às 10:11 PM

Na penumbra da sala onde a fé julga a razão, o homem se ergue — não com armas, mas com ideias.

Giordano Bruno, filho do cosmos e amante da eternidade, caminha entre inquisidores como quem pisa sobre brasas e estrelas.

A toga negra que o observa não vê um corpo, mas uma ameaça, a centelha que ousa incendiar a noite da ignorância.

Ali, entre cruzes e códigos, ele fala. Fala com a ousadia dos que não negociam o infinito.

Seu verbo é vasto, como os mundos que imagina — mundos sem fim, dançando na mente de Deus.

E cada palavra sua é uma afronta, cada visão uma heresia, pois o universo que abriga todos os deuses não cabe numa cela de dogmas.

Recuas?, perguntam os juízes, com as chamas já acesas nos olhos.

E Bruno responde com silêncio — não o da submissão, mas o da eternidade que já o reclama.

Condenaram  à fogueira, como se o fogo pudesse consumir a luz.

Mas naquele 17 de fevereiro, em Campo de Fiori, não foi um homem que queimou — foi o medo, tentando silenciar o pensamento.

E quando a carne se fez cinza, o espírito se fez constelação.

Vida e morte, naquele instante, se confundiram como irmãos gêmeos: uma entregando o corpo à outra, a outra libertando a alma para sempre.


Clayton Alexandre Zocarato

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Dibuabua salva Luanda

Ismaél Wandalika: Poema “‘Dibuabua salva Luanda'”

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika
Imagem criada por IA do Bing – 30 de maio de 2025, às 17:56 PM

O som dos talheres reluzia os corações em casa
Todos andavam com fé, comiam o que tinham da vida
Nos tempos idos em Luanda a ‘Dibuabua’ a todos salvava

Pão mesmo que fosse burro sem descriminação
Tirava o povo do poço e trazia a salvação
Em Luanda 90, naqueles anos brancos e pretos
Mas a rotina dos dias tinha bastantes cores
Colhia-se o amor nos olhares

As tardes eram eufóricas nas ruas
Adolescentes jogavam a bola de saco
Kotas eram referência no bairro
A ‘Dibuabua’ comida de todas as manhãs
Salvação de todos os lares.

Luanda a preto e branco
Ruas lisas, sorrisos esbranquiçados
Crianças descalças correndo ingenuamente na calçada
Cúbicos semelhantes imbuídos num sentimento profundo
Ar respirando em cada canto
Gatinhos dançando suas rimas no telhado
Tudo era pleno e belo
Parecia uma felicidade infinita
Dibuabua salvou a Luanda!

Dibuabua: termo usado nos anos noventa em Luanda para designar comida como: arroz branco com café e pão, (pequeno almoço).
Cubico: gíria angolana para designar casa, residência, habitação.
Matabicho: pequeno almoço, na linguagem popular angolana.

Soldado Wandalika

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