O julgamento do frango

Karla Dornelas

O julgamento do frango (que pediu tempero)

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Imagem gerada pelo Gemini

Dizem que a história aconteceu numa daquelas noites em que a fome não pede licença.

Ela entra. Senta. E ainda pergunta se tem mais.

A jovem passou a madrugada inteira tentando resolver o problema mais antigo da humanidade: o que comer. Abriu panela vazia, fechou panela vazia, olhou dentro da geladeira como quem espera que apareça um milagre entre a luz e o vento frio.

Nada.

Já estava quase considerando fritar o próprio pensamento quando alguém apareceu trazendo um frango, com aquela generosidade prática de quem resolve a vida sem muita filosofia, .

E que frango!

Dourado, cheiroso, daqueles que parecem ter passado a vida inteira se preparando exatamente para aquele momento.

A jovem, já meio fraca de tanto pensar e pouco mastigar, não fez muitas perguntas. Quando a fome aperta, a curiosidade costuma tirar férias.

Só depois — porque sempre existe um depois — alguém comentou, com aquele ar de quem gosta de estragar prato pronto, que ali estava um ovo disfarçado de galinha. Um futuro poleiro que não chegou a conhecer o próprio quintal.

Mas, a essa altura, o destino já estava decidido.

Existe uma lei antiga que nunca passou pelo Congresso: comida costuma nascer para encontrar a fome.

Claro que há quem pense diferente — e com razão. Tem gente que olha para uma cenoura e vê jantar. Olha para um frango e já imagina até o nome dele.

Tudo bem também.

O curioso é que, quando o assunto é comida, sempre aparecem especialistas em prato alheio. Surge logo um Seu Galo, juiz de panela e galinhada, um fiscal de frigideira e até um perito em panela queimada de brigadeiro.

Todo mundo pronto para dar sentença.

Enquanto isso, no silêncio respeitável do prato, o frango cumpre seu destino sem reclamar — o que, convenhamos, já demonstra mais educação que muita gente.

Porque, no fim das contas, a fome raramente julga.
Quem julga mesmo costuma estar de barriga ‘forrada’.

E, pensando bem, se o frango pudesse dar opinião sobre tudo isso…

Provavelmente pediria menos debate…

E mais tempero.

Karla Dornelas

Karla Dornelas
Karla Dornelas

Karla Dornelas, natural de Caratinga (MG), é escritora e poetisa. Membro da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA e da Academia Brasileira de História e Litgeratura -ABHL, com projetos literários em desenvolvimento, incluindo a reedição de seu primeiro livro de poesias, ‘Simplesmente Você’.

Ao longo de sua trajetória, foi contemplada com menções honrosas por sua dedicação à arte e à literatura.

Sua escrita nasce do olhar sensível sobre o cotidiano, transformando o mundo em experiências poéticas e afetivas.

Com linguagem marcada pela delicadeza, musicalidade e criação de vocabulário próprio, busca dar voz ao invisível e valorizar o que é essencialmente humano, dedicando-se à construção de uma trajetória literária voltada à arte de tocar e transformar o leitor por meio da palavra.

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A batalha

Bruno Marquês Areno: Conto ‘A batalha’

Bruno Marques Areno
Bruno Marques Areno
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Imagem criada por IA do Grok – 23 de janeiro de 2026, `s 15:38 PM – https://grok.com/imagine/post/6bffaf89-3683-4313-bf72-770c9fa4d2c0

O cheiro do lixo misturava-se com o da roupa húmida, do peixe podre e da lenha mal queimada, um caldo de miséria que o ar se recusava a dispersar, talvez por pena, talvez por costume, e o bairro inteiro respirava aquilo como quem já não sabe distinguir o que é fora e o que é dentro, porque há muito o ar das pessoas se parece com o ar das ruas.

As moscas faziam carreira entre os sacos plásticos rasgados, pousavam no tomate esmagado, na xima fria, na pele dos que dormem de barriga vazia, e voltavam a voar, incansáveis, como se também tivessem fome e destino.

O chão, esse, era barro vermelho, cacos, e cada passo nu deixava atrás de si um rasto de lama e sobrevivência, que é o mesmo que dizer: vida teimosa.

Mano Gito, doze anos contados com má vontade do tempo, parecia ter oito, e talvez fosse o tempo, mais do que a fome, quem o roía por dentro. Era só osso e olho, o peito seco de quem já chorou tanto que desaprendeu o gesto, e no estômago, um batuque fundo, que não era fome, era protesto, era grito que não encontrou boca.

Na mão levava um naco de pão duro, herança da generosidade involuntária da padaria do tio Balta, onde os miúdos aprendem cedo que a esperança é paciente, mas não eterna.

Levou o pão à boca com olhos de quem rouba o próprio destino, rápido, quase pedindo desculpa, como se o mundo o observasse e esperasse o momento certo para lhe tirar o pouco que tem, e tirou.

Um cão saltou das sombras, e o que dizer dele, senão que era um cão como tantos, sem nome, sem dono, com mais cicatriz do que pelo, com olhos fundos, secos, dois caroços de manga deixados ao sol, e o focinho coberto de terra e baba. Agarrou o pão com a fúria de quem já não acredita em justiça, e o Gito, primeiro espanto, depois raiva, depois lágrimas, gritou o que gritam os que não têm mais nada, um simples não, palavra pequena demais para conter tanta miséria.

Atirou-se ao cão. Rolaram na lama, o cão rosnava, o rapaz empurrava, arranhava, tentava abrir com as mãos pequenas a boca que o destino fechara. O cão lutava, mas não mordeu, e talvez soubesse, nas profundezas da sua fome, que aquele miúdo era mais bicho do que ele.

Então o Gito fez o que ninguém, nem Deus, esperava: mordeu o cão. Sim, cravou os dentes no pescoço do animal, como quem decide ser fera para não morrer homem. Sentiu o pelo, o sangue, o sal e o amargo, e por um instante quis cuspir, mas não cuspiu, porque o que é que se cospe quando o mundo inteiro está dentro da boca? O cão uivou, não apenas de dor, mas de espanto, porque até os animais têm o seu código, e naquele código estava escrito que só os homens mordem com vergonha.

O pão caiu, ficou entre os dois, sujo de lama, a tremer como se tivesse medo de ser escolhido.

O cão recuou, lambeu a ferida e desapareceu, sem ódio, sem ruído, talvez com respeito, talvez com cansaço, e o silêncio que ficou pesava mais do que qualquer fome.

Gito ficou parado, trémulo, os lábios vermelhos, as mãos suspensas, e o pão ali, tão perto e tão distante, porque há coisas que, depois de feitas, já não se tocam. Não sabia se o pão estava sujo demais ou sagrado demais, e talvez fosse as duas coisas, porque naquele instante aprendeu o que ninguém lhe ensinara, que há fomes que nem Deus se atreve a contrariar, e que, às vezes, sobreviver é o pecado mais puro que um homem pode cometer.

Bruno Marquês Areno

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Minguar de víveres: A luta de uma mulher

Osvaldo Manuel Alberto:

‘Minguar de víveres: A luta de uma mulher’

Osvaldo Manuel Alberto
Osvaldo Manuel Alberto
Imagem gerada por IA do Bing - 18 de novembro de 2024 
às 3:05 PM
Imagem gerada por IA do Bing – 18 de novembro de 2024
às 3:05 PM

De tanta fome confundimos o prato com o parto. Até o mais velho que sempre diz: parto os cornos, fica sem forças para demonstrar a sua arte.

Não se trata apenas da alteração de algumas letras, é o mais profundo que um ser humano pode sentir.

Tenho tanta fome que a esta hora preferiria dar tantos partos simultâneos, a faltar ou ver flutuar um prato.

Nem que fosse um prato de arroz com cheiro de nada.
Está difícil ter um prato à mesa.

Dê-me um pão, por favor!
Ainda que não queiras colocar no prato, ponha-o no chão.

Na ausência de pão, permitam-me partilhar o osso com o vosso cão.

Já vi partir para eternidade filhos meus, pela ausência de comida.
Já não me interessa o valor nutricional, pouco me importo se me alimento, desde que consiga comer.

Não tenho culpa de ser tão fértil.
Aos meus filhos apelidam de cassua, quando na verdade é má nutrição.

Em nossa cubata não há conta que bata certo.
Os meus filhos não usam bata, nem comem batata. Não é por desgosto, mas pela ausência.

Não posso rir, prefiro parir a ver meu filho partir. A dor de perder alguém por fome é maior do que parir 10 vezes no mesmo dia.

Aos prantos eu te peço:
Permita-me lavar todos os pratos de sua casa, até aqueles que servem de esconderijos dos ratos.

Os ratos, há muito que fugiram do meu casebre, pois não há pão para repartir.
É desta forma que vejo os meus sonhos partirem para lugar incerto, tal como os ratos que nos abandonam mesmo sem insecticida.

O brilho das panelas incomodam, parece bate chapa em bairros novos.

Ouvi falar em branqueamento e repatriamento de capitais, podem aldrabar-nos mais,
Mas não falte o pão, porque o nzala yeya.

Não sou mulher do Mingo, mas a cada dia que passa eu mínguo de víveres.

Osvaldo Manuel Alberto
18.11.2024

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25 de Abril

José Louro: Poema ’25 de Abril’

José Louro
José Louro
“25 de Abril” José Manuel Monteiro Louro 📸 Eduardo Gageiro
“25 de Abril” José Manuel Monteiro Louro 📸 Eduardo Gageiro. Imagem : Freepik

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Tenho fome

Ivete Rosa de Souza: Poema ‘Tenho fome’

Ivete Rosa de Souza
Ivete Rosa de Souza
Tenho fome de amar a quem me ama; que me chama, pelo meu nome..."
Tenho fome de amar a quem me ama; que me chama, pelo meu nome…”
Micro0soft Bing. Imagem criada pelo Designer

De viver plenamente sem receios

Sem medo, sem entremeios

Tenho fome

De amar a quem me ama

Que me chama, pelo meu nome

Nos passos da caminhada

Tenho fome

De encontrar motivos para rir

Deixar ruir, destruir a maldade

Encontrar a felicidade sem temer o que vier

Tenho fome

De consumir a verdade

Com saudade, do amanhã

Sem esquecer o que de bom eu vivi

Tenho fome 

De conquistar meus sonhos

Aqueles que componho

Por mim

Deixar que a vida me compreenda

Me surpreenda

Com a vontade perene do existir

Tenho fome de estar aqui

Ivete Rosa de Souza

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Natal

Francisco Evandro Farick: Poema ‘Natal’

Francisco Evandro Farick
Francisco Evandro Farick
Natal da Era de Aquário
Natal na Era de Aquário
Microsoft Bing – Imagem criada pelo Designer

Natal

E como está o mundo?

Estamos na Era de Aquários!

Todos esperavam muita paz, harmonia e amor entre os povos.

Mas, é Natal! E não há amor, tampouco paz entre as Nações.

A fome, a miséria e a violência vivenciam o cotidiano.

É natal! Assim mesmo sempre Jesus está conosco.

Ainda existe amor naqueles que têm Jesus no coração.

É natal!

As esperanças se renovam…Em sonhos…

Vi o brilho de alegria nos olhos do povo.

Como seria bom renascer as boas ideias.

Percebi a violência ser amainada e eliminada

Reinava a paz!

Nos lares, os alimentos estavam à mesa,

Não havia fome!

É natal! Não existia miséria nos países africanos.

A prostituição infantojuvenil deixara de existir.

É natal! Os crimes hediondos há muito que amainaram.

É natal! As crianças brincavam alegres…

O trabalho infantil não se fazia presente.

É natal! É apenas um sonho, mas como seria bom

Viver assim em todos os natais.

Francisco Evandro Farick

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Natal. A esperança dos excluídos?

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo:
Artigo
‘Natal. A esperança dos excluídos?’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
"Natal. A esperança dos excluídos?
“Natal. A esperança dos excluídos?”
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Eis-nos na festa da família: o Natal

Os corações comovem-se de alegria

Familiares e amigos, com alegria total

Vive-se a confraternização, com euforia

Por uns dias, a vida torna-se majestosa

Mas as dificuldades, continuam presentes

Agora é tempo para a comidinha gostosa

Que para os portugueses é a prevalente

Saudades e comida são muito importantes

Contudo, outros sentimentos nos perturbam

A situação em que vivem muitos imigrantes

Não pode ser ignorada, porque nos derrubam

É tempo de mostrarmos mais solidariedade

Discursos bonitos, de ocasião, nada resolvem

A exclusão, tem de ser banida da sociedade

Afinal, com esta situação, poucos se comovem

Há recursos para extravagâncias, que ofendem

Gente de várias áreas, exibe-se com ostentação

Os pobres, passam fome, e ninguém os defende

Alguns notáveis, preocupam-se com a reputação

Nesta sociedade, dos populismos interesseiros

A solidariedade, não acontece todos os dias

Alguns estrategas, não passam de embusteiros

E, após o Natal, avançam as abjetas cobardias

Venade/Caminha – Portugal, 2023

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente Vitalício (Não Executivo) do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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