Entre dois rios

Abdulla Issa:
Um canto de memória, guerra e identidade às margens do Eufrates

Abdulla Issa
Abdulla Issa
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Pelos antigos perfumes ainda agarrados às bordas das almofadas,
pela luz que desperta na crista de um galo ancestral, como se alguém tivesse testemunhado uma estrela caída sendo engolida pela luz do dia —
por aquilo que as cidades conquistaram, essas cidades que, tropeçando em direção a si mesmas, encontraram seu amanhã entre dois rios;
pela água nos suspiros das belas mulheres, temerosas de que Sherazade, despercebida, pudesse encontrar a imaginação do Imperador entre os espelhos;
pela memória da tinta nos livros, os exércitos de Hulagu foram lançados ao rio.

Como se pode amar uma cidade mais do que aqueles que a chamam de lar, estrangeiro?

Se por acaso encontrares Zubayda, diz-lhe: hoje, todo o poder está em suas mãos.
E eu vou encontrar Timur.

Não me importam as mulheres dos acampamentos, as escravas, as cativas, nem aquelas cujo fluxo mensal cessou.
Nunca sorri para um estranho sem que ele pudesse me ver.

Digo-lhe: Ó estrangeiro, por que te apressaste em me matar
e me deixaste como um cadáver para apodrecer, entre as treliças da filha de al-Jalabi e os muros da prisão de Abu Ghraib?
E eu quase te dei uma casa e uma escrava ao meu lado.

Esperamos até o meio-dia para tirar nossas fotografias hoje na Rua al-Mutanabbi,
onde o livro retorna do rio para sentar-se conosco nos cafés,
onde ouvimos a voz de al-Ghazali talhando seu sopro nos pulmões do ar e no muro da cidade;
onde os olhos das belas mulheres se transformam em florestas de palmeiras,
e nove reinos se erguem ao longo das duas margens do Eufrates.

E então vi o arauto anunciando:

Não foste tu quem disse: Ó touro deste céu,
e de todo céu — desce ao mais profundo abismo,
até encontrares a terra erguida sobre teus chifres por nossa causa,
e deixa-nos herdar a erva da imortalidade?

Não foste tu quem disse, antes que a escrita existisse, à filha da Senhora do Palácio:
Eu te amo.

Eu sou aquele que te concedeu dois pequenos riachos,
para que pudesses lavar o que quisesses — tuas pernas —
até que o meio-dia tecesse a cor do dia.

Não foste tu quem disse:

O rosto da cidade é água. E esta é a prova do meu suicídio —
retornei como aquele que, hoje,
encontra em ti a cura para a morte.

E, desde que dei minha palavra,
nenhuma alma pode ser salva se não acreditar em meu milagre:

que sou o guardião dos dois rios
e o guardião de tudo o que a natureza me deixou entre eles.

Não desperdiçarei a água de uma nuvem que cairá sobre meu reino onde quer que vague,
nem a areia que perdeu os mandamentos de seus ancestrais dentro daquela antiga imaginação do vento.

E não negocio a mim mesmo por nenhuma alma,
nem negocio aqueles que buscaram refúgio comigo durante a guerra
em troca da captura de povos que,
em nossos mitos, são nossos vizinhos.

Sou aquele que, quando liberto o barro entre os túmulos,
se curva no caminho diante de uma folha de capim
que envelheceu esperando por mim.

Tradução para o inglês: Najwa Juma

Abdulla Issa

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África do Sul

Loide Afonso: Poema ‘África do Sul’

Loid Portugal
Loid Portugal
Fotografia artística de uma mãe africana expressando profunda tristeza e choro. Ao fundo desfocado, silhuetas de jovens em um cenário de conflito sob um céu cinzento de tempestade.
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Estamos em guerra fria, quente, e demente,

o corpo fica dormente quando ouve e sente,

Seus filhos lutam, correm e gritam, saltam, dão a volta,

sem piedade matam- se uns aos outros, o que não era suposto

Mãe, eles deixaram de viver suas vidas porque perderam o gosto,

seus paladares ficaram sem gosto, oh mãe

Nossa querida mãe África, é pra isto que nos pariste?

Loide Portugal

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A guerra

Laskiaf Amortegui: Crônica ‘A guerra’

Laskiaf Amortegui
Laskiaf Amortegui
Broto de planta verde nascendo em solo rachado e destruído pela guerra, com silhuetas sombrias ao fundo e raios de sol dourados rompendo as nuvens escuras.
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​“É um tumor a ser extirpado.”

​A guerra é culpada ou inocente?

Quem provoca a guerra?

​Dizem que a maldade nasce em um ato de amor ou paixão.

Ela nasce, sorri e se amamenta com leite; depois engatinha, aprende a caminhar e, quando cresce, saca o que há de pior em seu coração, psique ou mente.

São os ambiciosos, aqueles que perderam o sentido de humanidade e compaixão.

​Muitos inocentes são treinados para a guerra e, para os seus sedutores, não importa gerar a dor e o choro de suas mães ao nascer e muito menos ao morrer.

Não lhes dói mandar os mais desvalidos a derramar seu sangue, enquanto eles contam o dinheiro em seus cofres.
​A guerra destrói, danifica e contamina.

Às vezes, os desalmados abusam de crianças em nome da guerra, mas são suas baixezas internas escudando-se nela…

​A guerra empobrece a terra, os estados e o universo.

Até quando tomaremos consciência? O que mais devemos esperar!

Acaso devemos aguardar que os deuses venham e acabem conosco?

Será que nos é grande demais, como espécie, respeitar e viver em paz?

Laskiaf Amortegui

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Fasting hearths

Reema Hamza: Poem ‘Fasting hearths’

Reema Hamza
Reema Hamza
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/e6e3346064c6f579?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

O Truth—
why have you wed yourself
to waiting?
Shall I reclaim my face
from the charred mirrors?
or from the dying crescents that scattered behind their ruins ?
How many treacherous stars
hide in your veil?
Only after groans and dust,
as I chased your sleeping shadow
through mazes softened by surrender,
did I know—
you arrived last,
from a dusk steeped in blood.
The survivors of war whispered:
You are the soot of days,
stuck to the ends of our severed fingers.
How many cities
lulled their bells
into the thirst of silence,
birthing in secrecy
within eyes emptied by loss—
as night slumbers
on hands wrapped in the mute of tomorrow?
How many cities,
carrying firewood in the virility of flame,
are born aloud
in stories already devoured,
And our names—
lost footsteps
treading the cunning path of fear.
The soil in our dreams.
Above them, the light flickered and died.
The eyes of our children sprouted blame—
their voices pale
at the feast of elegy.
And even the dawn
came brief.
When will I gather my trembling self
from the arteries of time—
a body of fire and kindling,
of what famine years have ravaged?
When will the wheat awaken,
so I may inscribe my birth?
My name is your heart—
and your heart,
the most spacious of names.

Reema Hamza

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Exploração

Loide Afonso: Poema ‘Exploração’

Loid Portugal
Loid Portugal
Imagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69d3c4c4-e608-83e9-8477-1fbb3b8a011d

Vulcão tremendo
Como pingos de chuva

Carros e pessoas
Andando
Cheios de tremuras
Mas tu queres que eu vá?

A beleza da luz
Apaga a fome
Aparente da luz

Tudo parece torto em África
Mas não é
Não acredites em tudo
Não
Nem tudo é como ouves

Tem guerra
Mas a paz reina
Não se compara
Com os outros

É mulher que dá tudo
Pra ver seu Homem
Bem, e no final
Se arrepende

Alimenta os outros e fica com resto
Oh! África
Até quando?

Quando vais te revoltar?
Chorar?

Loid Portugal

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The dance of the naked

Abdulla Issa: Poem ‘The dance of the naked’

Abdulla Issa
Abdulla Issa
Imagem gerada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69b46e8e-c52c-83e9-9f4e-2c5e71b01568

Naked , he wears a necktie
To hide his nakedness with the skins of the victims,
Preparing his speech
For the rites of his own funeral.
Afflicted with ruins and despair,
Beneath David’s sling,
I never began a war
So that it might end.

For two centuries
I have shored up a land
Promised to me alone
With a ram’s twin horns.
Brought to me as a ransom by the heaven’s folks
I shall no longer be a god to any soldier,
To see myself wandering the corridors of a miracle
That never comes.
No prophet will find peace
Planting myrtle in the shade of my grave;

No victor, fattened on my hatred-
Not even by a fingertip-
Will dare to stare into the eyes of the wretched,
the maimed,
Or those stripped of hope,
Of any hope at all, in life
Nor those useless who hate me.
Who guide my people to the brink of disaster.
Nothing resembles me but my kingdom
A woman with her dog
Fled twenty years ago from Crimea,
And settled in Hebron, cried it out-
Bring back to me the body of my son,
Tormented in the war of Ukraine,
And the life of my grandson,
Held hostage in the depths of Gaza’s tunnels!
You- who have driven my people
With the whips of sins.
Someone casts his voice into the space between them-
There is no place where we can feel safe
For our tomorrow except through our journeys,
No refuge sufficient to bury us in,
No riddles that could, after your death,
Be turned into miracles
Of your dwelling among the lives of the ancients.
And a child, who saw what he saw
In the corridors of Al- Shifa Hospital,
Cries out:
Look at him!
He is the one-
Naked,
Driven by the deeds of his hands
Those who stoned the prophets, naked.

Abdulla Issa

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Clamor deste povo na guerra

Nilton da Rocha: Poema ‘Clamor deste povo na guerra’

Nilton da Rocha
Nilton da Rocha
Imagem criada por Ia do Bing - 18 de junho de 2025, às 17:49 PM
Imagem criada por Ia do Bing – 18 de junho de 2025,
às 17:49 PM

Eu clamo ao Sol que não quer nascer,
Procuro a chuva, o mar, a flor,
Promessas feitas que vi morrer,
Resta ao mundo só dor e clamor,
Em silêncio se esvai o amor.

Vejo a Terra que sangra e chora,
Campos vazios, mares sem cor,
Toda a esperança que se foi embora,
O homem esquece o que tem valor,
E o céu se esconde do sonhador.

Cadê a paz que nos prometeram?
Cadê os frutos, o lar, o bem?
Só vejo os campos que se perderam,
E a dignidade que já não vem,
Tudo se apaga e não resta ninguém.

Quero os meninos nos rios, nas matas,
Vendo as estrelas, sentindo o ar,
Brincando livres nas madrugadas,
Sem medo algum de se apaixonar,
Vivendo o mundo a se renovar.

Chega de guerra, morte e mentira,
Que a voz da Terra se faça ouvir,
Que o homem aprenda, que nunca fira,
Que ao diabo não possa resistir,
E a paz renasça a nos redimir.

Nilton da Rocha
(18/06/25)

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