O ruído e o vazio entre nós

Clayton Alexandre Zocarato ‘O ruído e o vazio entre nós’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Há algo de profundamente inquietante neste tempo — não apenas o excesso de vozes, mas a rarefação do sentido. Em Filosofia, desde Sócrates, o não saber era o ponto de partida para o diálogo; hoje, parece ser aquilo que mais tememos admitir.

            Entre a ágora de Atenas e os fluxos digitais de um presente fragmentado, algo se perdeu: a coragem de sustentar a dúvida. Diga, leitor — quando foi a última vez que você permaneceu em silêncio não por evasão, mas por escuta verdadeira?

            O tempo, que em Santo Agostinho era uma experiência íntima e elusiva, tornou-se agora uma sucessão de instantes descartáveis. Já não habitamos o tempo; consumimos ferozmente seus vértices.

            E, no espaço — esse que Martin Heidegger via como morada do ser — nos deslocamos sem enraizamento, atravessando lugares sem realmente estar neles. Que tipo de linguagem pode emergir de um mundo onde nem o tempo nem o espaço são vividos, mas apenas atravessados?

            A linguagem, outrora ponte, parece hoje ruína. Em Clarice Lispector, a palavra era abismo e revelação; em Fernando Pessoa, multiplicidade e máscara; já em Heráclito, o logos era fluxo — um rio que jamais se detém.

             E você, leitor, ainda acredita que suas palavras alcançam alguém — ou apenas ecoam em um vazio polido por algoritmos?

            Talvez o que chamamos de comunicação tenha se tornado uma coreografia de superfícies: falamos para não calar, respondemos para não ouvir, opinamos para não pensar. O agir comunicativo — esse ideal de reciprocidade e reconhecimento — exige mais do que presença: exige risco.

             O risco de ser transformado pelo outro. Mas em uma sociedade que evita o desconforto como quem foge de uma ferida aberta, quem ainda aceita esse risco?

            E então resta a pergunta, incômoda e persistente: se não há mais horizonte comum, se o mundo compartilhado se dissolve em versões privadas da realidade, o que exatamente tentamos dizer uns aos outros? Ou já desistimos — silenciosamente — de sermos compreendidos? Talvez o verdadeiro colapso não seja da fala, mas da escuta.

            E, nesse cenário, cada palavra dita carrega uma suspeita: ainda há alguém aí, do outro lado, capaz de ouvir — ou estamos apenas ensaiando, sozinhos, o som da própria ausência?

                        Se a resposta nos escapa, talvez seja porque já não sabemos formular a pergunta.            

            Em Ludwig Wittgenstein, os limites da linguagem eram também os limites do mundo; mas o que acontece quando a linguagem não encontra mais mundo algum para delimitar?

            Quando as palavras já não apontam para experiências partilhadas, mas para simulacros privados, filtrados e editados? Você ainda fala para ser compreendido — ou apenas para não desaparecer?

            Há, no entanto, um vestígio que insiste. Mesmo entre ruínas, algo pulsa.

            Em Hannah Arendt, o espaço público era o lugar onde a ação e a palavra revelavam quem somos. Mas que ‘quem’ pode emergir quando o espaço público se fragmenta em bolhas estanques, onde cada voz é apenas reforço de si mesma?

            Talvez estejamos diante de uma nova forma de solidão: aquela que se experimenta em meio à multidão de discursos.

            E ainda assim — por mais paradoxal que pareça — continuamos falando. Como se, em algum lugar recôndito, persistisse a esperança de que alguém escute.

             Como se a linguagem, mesmo ferida, ainda carregasse em si a promessa de encontro. Não seria essa insistência, quase teimosa, uma forma de resistência? Ou será apenas hábito, automatismo, ruído?

            Em Albert Camus, o absurdo não anulava a ação; ao contrário, exigia uma resposta. Talvez falar — ainda falar — seja nossa forma mais silenciosa de revolta contra o vazio.

            Mas revolta para quem, se já não acreditamos no outro? E então volto a você, leitor: quando suas palavras atravessam o espaço incerto entre si e o outro, elas ainda carregam um destino — ou apenas um impulso?

            Talvez seja preciso reaprender. Reaprender o tempo da escuta, o peso de uma pausa, o desconforto fecundo da dúvida. Reaprender a linguagem não como ferramenta, mas como encontro.

            Pois, se tudo se perdeu — horizontes, sentidos, referências — resta ainda a possibilidade de reconstrução. Mas ela começa, inevitavelmente, com um gesto simples e radical: permitir-se não saber, e ainda assim permanecer.

            E então, antes da próxima palavra, antes da próxima resposta apressada, detenha-se.

            Pergunte-se — não ao mundo, mas a si mesmo: há ainda algo que mereça ser dito? E mais grave, mais decisivo: há ainda alguém, em você, disposto a ouvir?

            E mais grave, mais decisivo: há ainda alguém, em você, disposto a ouvir?

            Talvez a questão não seja apenas se o outro nos ouve, mas se ainda habitamos a linguagem como morada — ou se apenas a utilizamos como instrumento.

            Voltando a Heidegger, a linguagem não era um meio neutro, mas ‘a casa do ser’. Ora, o que acontece quando essa casa se torna inabitável?

            Quando cada palavra é suspeita, cada frase já nasce atravessada por ironia, defesa ou cálculo? Não será que, antes de perdermos o outro, perdemos o chão onde o encontro poderia acontecer?

            Você percebe como, mesmo agora, enquanto lê, algo em você oscila entre atenção e dispersão? Entre o desejo de permanecer e a urgência de partir? Esse movimento não é trivial — ele diz algo sobre o nosso tempo.

             Em Zygmunt Bauman, vivemos uma modernidade líquida, onde vínculos se desfazem antes mesmo de se consolidarem. Mas o que é uma conversa senão um vínculo temporário que exige permanência? Sem permanência, o diálogo se torna impossível — e o que resta é apenas a troca de sinais.

            E, no entanto, continuamos a nos expressar. Escrevemos, comentamos, reagimos. Como se estivéssemos constantemente à beira de dizer algo essencial — mas nunca chegássemos lá.

            Em Roland Barthes, a linguagem carrega sempre um excesso, algo que escapa à intenção. Mas e se, hoje, o que escapa não for mais o excesso, e sim a própria intenção?        

            Quando tudo é dito sem risco, sem implicação, sem consequência, o que ainda pode ser verdadeiramente dito?

            Talvez o problema não seja o barulho, mas a anestesia. Já não nos ferimos com palavras — e isso, à primeira vista, parece um progresso. Mas não era justamente essa capacidade de ferir — e de ser ferido — que tornava possível a transformação?

            Em Friedrich Nietzsche, o pensamento não deveria ser confortável, mas perturbador. Diga, então: quando foi a última vez que uma conversa deslocou você de si mesmo?

            Há uma economia do afeto em jogo. Falamos apenas o necessário, ouvimos apenas o conveniente, respondemos apenas o esperado. Tudo é medido, filtrado, ajustado. Mas o que acontece com aquilo que não cabe nesse cálculo?

            Onde vão as palavras excessivas, desajeitadas, incertas — aquelas que, justamente por não se encaixarem, poderiam abrir algo novo? Não será que estamos perdendo não apenas o sentido, mas a possibilidade mesma de criá-lo?

            Em Walter Benjamin, a narrativa tradicional carregava uma experiência compartilhada, algo que passava de geração em geração. Hoje, no entanto, acumulamos informações, mas raramente experiências. E sem experiência, a linguagem se esvazia.    

            Você sente isso? A diferença entre saber algo e ter algo a dizer sobre isso? Entre repetir e realmente comunicar?

            Talvez o silêncio que tememos não seja o do outro, mas o nosso próprio.

             Um silêncio que nos confronta com a ausência de conteúdo, de direção, de sentido. Por isso falamos tanto: para não o escutar. Mas e se, em vez de evitá-lo, o atravessássemos?

            Em Rainer Maria Rilke, era preciso amar as perguntas, viver dentro delas. Mas quem ainda tem paciência para uma pergunta que não se resolve?

            E então voltamos ao início — não como repetição, mas como espiral. Há uma nostalgia no ar, sim, mas talvez ela não seja de um tempo real, e sim de uma possibilidade perdida: a de que a linguagem pudesse, de fato, nos aproximar.

             Mas essa possibilidade não desapareceu completamente. Ela se retraiu, tornou-se rara, exigente. Não basta mais falar — é preciso sustentar o que se diz. Não basta ouvir — é preciso deixar-se afetar.

            Você está disposto a isso?

            Porque, no fundo, é disso que se trata: de uma escolha. Continuar na superfície, onde tudo é rápido, leve, descartável — ou arriscar a profundidade, onde cada palavra pesa, cada silêncio significa, cada encontro transforma.

            Não há garantia de sucesso. Não há promessa de entendimento. Há apenas a possibilidade.

            E talvez seja justamente isso que ainda nos resta: a possibilidade de que, em meio ao ruído, alguém — em algum lugar — ainda esteja tentando dizer algo verdadeiro. E que, por um instante raro, duas consciências se encontrem não apesar da linguagem, mas por causa dela.

            Mas esse encontro não acontece por acaso. Ele exige tempo — aquele mesmo tempo que evitamos.

             Exige presença — aquela mesma que fragmentamos. Exige coragem — aquela que disfarçamos de indiferença. Em Simone Weil, a atenção era a forma mais pura de generosidade. Talvez ouvir — verdadeiramente ouvir — seja hoje o gesto mais radical que ainda podemos oferecer.

            E então, mais uma vez, a pergunta retorna, não como provocação, mas como necessidade: quando você fala, ainda acredita que alguém pode realmente lhe ouvir?

            Ou, mais fundo ainda — você acredita que ainda há algo em você que valha a pena ser ouvido?

            Se a resposta vacila, não a descarte. Permaneça nela. Pois talvez seja justamente nessa hesitação, nesse intervalo entre o dizer e o não dizer, que algo começa a se formar. Algo que ainda não tem nome, mas que insiste.

            E é dessa insistência — frágil, incerta, quase imperceptível — que talvez possa nascer, novamente, o sentido.

            E é dessa insistência — frágil, incerta, quase imperceptível — que talvez possa nascer, novamente, o sentido.

            Mas o sentido, convém admitir, nunca foi dado: ele sempre exigiu trabalho.         Hannah Arendt refletiu, pensar era uma atividade solitária, mas não isolada — exigia o diálogo silencioso consigo mesmo.

             O que acontece, então, quando já não suportamos sequer a própria companhia? Quando o fluxo constante de estímulos substitui esse diálogo interior?

            Talvez estejamos perdendo não apenas a capacidade de conversar com o outro, mas a de sustentar uma conversa consigo. E sem esse primeiro interlocutor — você mesmo — o que resta a dizer ao mundo?

            Há um esvaziamento que não é ruidoso, mas gradual. Ele se infiltra nas pequenas concessões: na resposta automática, na opinião herdada, na escuta interrompida.

            Você já percebeu quantas vezes responde antes mesmo de compreender? Quantas vezes fala não para dizer algo, mas para manter-se presente, visível, existente?

            Em Jean-Paul Sartre, a existência precede a essência — somos aquilo que fazemos. Mas, se o que fazemos é apenas repetir, reagir, reproduzir, que tipo de existência estamos construindo?

            E talvez aqui se revele uma dimensão ainda mais inquietante: não é apenas o outro que deixou de nos ouvir — nós também deixamos de escutar aquilo que dizemos.      As palavras se tornaram leves demais para nos comprometer.

             Elas já não nos vinculam, não nos obrigam, não nos transformam. Mas uma linguagem sem compromisso não é linguagem — é ruído organizado.

            Você sente o peso dessa afirmação?

            Ou ela já escorrega, como tantas outras, sem deixar marcas?

            Em George Steiner, havia a preocupação com a “retirada da palavra” — o momento em que a linguagem perde sua autoridade ética. Não porque deixamos de falar, mas porque deixamos de acreditar no que dizemos.

            E quando a palavra perde sua credibilidade, o que a substitui? O gesto? A imagem? O silêncio? Ou apenas mais palavras, cada vez mais vazias?

            Talvez estejamos vivendo uma inflação do dizer: quanto mais se fala, menos cada palavra vale.

            E, como em toda inflação, há um empobrecimento — não material, mas simbólico.

             As palavras já não compram sentido, já não constroem pontes, já não sustentam mundos. E então nos vemos cercados por discursos que nada dizem, por frases que nada pedem, por vozes que nada arriscam.

            Mas — e aqui a provocação se torna inevitável — será que isso é apenas “o mundo”?  Ou há, em cada um de nós, uma participação silenciosa nesse esvaziamento?

            Quando você escolhe não aprofundar, não questionar, não sustentar uma conversa difícil — o que exatamente está sendo preservado?

             Conforto? Imagem? Controle? E o que está sendo perdido?

            Em Clarice Lispector, escrever era uma forma de tocar o indizível — aquilo que escapa, que resiste, que não se deixa capturar facilmente.

            Talvez falar — verdadeiramente falar — devesse ter algo dessa mesma qualidade: não a clareza imediata, mas a honestidade do risco. Não a certeza, mas a abertura.

            E isso nos leva a um ponto delicado: talvez o problema não seja a ausência de sentido, mas a nossa impaciência com ele.

            Queremos respostas rápidas, compreensões imediatas, conexões sem fricção.       Mas o sentido — quando existe — é lento, exige elaboração, pede tempo. Está você disposto a esse tempo?

            Porque, sem ele, tudo se torna superfície. E na superfície, nada se fixa.

             As palavras passam, os encontros passam, até mesmo as perguntas passam. E, no fim, o que resta não é o silêncio fértil de quem pensa, mas o vazio de quem já não espera encontrar nada.

            Ainda assim, há algo que resiste.

            Talvez seja mínimo: um instante de atenção não interrompida, uma conversa que se prolonga além do necessário, uma palavra dita sem cálculo. Pequenos gestos que, isoladamente, parecem insignificantes — mas que, juntos, podem reconfigurar o espaço do possível.

            Você já experimentou isso? Um momento em que, contra todas as expectativas, alguém realmente ouviu você — não para responder, não para corrigir, mas para compreender?

            Esse momento, raro como é, não revela algo essencial? Não aponta para uma possibilidade ainda viva?

            Em Emmanuel Levinas, o outro não é um objeto a ser compreendido, mas uma alteridade que nos convoca, que nos exige uma resposta ética.

             Ouvir, nesse sentido, não é passivo — é um ato de responsabilidade. Mas como sustentar essa responsabilidade em um mundo que constantemente nos dispersa?

            Talvez a resposta não esteja em grandes mudanças, mas em deslocamentos mínimos: em escolher permanecer quando seria mais fácil sair; em escutar quando seria mais confortável falar; em perguntar quando seria mais seguro afirmar.

            E então, mais uma vez, tudo retorna a você — não como acusação, mas como possibilidade.

            O que você fará com a próxima palavra que disser?

            Ela será apenas mais uma entre tantas — ou carregará, ainda que discretamente, a intenção de alcançar alguém?

            E, se alcançar — você estará preparado para o que isso implica?

            Porque ser ouvido, no fundo, é também ser exposto. É permitir que o outro nos afete, nos desloque, nos transforme.

             E isso, convenhamos, exige uma coragem que nem sempre estamos dispostos a mobilizar.

            Mas talvez seja justamente aí — nesse ponto de risco, de abertura, de incerteza — que a linguagem reencontre sua força.

            Não como garantia de entendimento, mas como tentativa. Não como domínio, mas como encontro.

            E, quem sabe, ainda seja possível — mesmo agora, mesmo aqui — que uma palavra, dita com cuidado, escutada com atenção, sustentada com presença, atravesse o ruído e encontre, do outro lado, não um eco vazio, mas uma consciência desperta.

            Se isso ainda for possível, então talvez nem tudo esteja perdido.

            Mas essa possibilidade — não se engane — depende, em alguma medida, de você.

Clayton Alexandre Zocarato

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