O delírio é o último luxo

Ella Dominici

‘O delírio é o último luxo:
Emma Bovary e Dom Quixote contra o mundo’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada por Ia do ChatGPT – 13 de fevereiro de 2026, às 17h24 – https://chatgpt.com/c/698f878a-ce40-832f-b3e8-b3de789075b3

Tribunal do Delírio e do Real

Olho:

A sociedade perdoa o cinismo, mas não perdoa a imaginação. Por isso os sonhadores acabam sempre no tribunal do real.

Emma Bovary reconhece Dom Quixote sem precisar de apresentação. Ambos pertencem à mesma espécie rara: a dos que leram demais o mundo e, por isso, não conseguiram aceitá-lo como ele é.

Ele partiu a cavalo; ela permaneceu numa casa.

Mas os dois viajaram.

Dom Quixote enfrentou moinhos como se fossem gigantes. Emma enfrentou o cotidiano — esse monstro sem rosto que devora lentamente. Ele escolheu a loucura como honra. Ela escolheu o amor como saída. E ambos pagaram com a queda.

O que chamam de delírio, nos dois, talvez seja apenas recusa: recusa de viver dentro do possível, recusa de aceitar a moral pequena da época como destino. — uma tentativa de transformar a existência em romance, porque a realidade lhe parecia sem música.

Dom Quixote também foi ridicularizado. Também lhe disseram: “devia ter sido sensato”. Mas há uma pergunta que a sensatez não responde, e é a mesma que atravessa Emma até o fim:

vale a pena viver sem delírio?

Talvez o delírio seja, em certas almas, uma forma provisória de lucidez: uma janela quando o mundo fecha as portas. Por isso Emma escreve a Dom Quixote como quem pede aliança. Não busca consolo. Busca reconhecimento.

Ambos fracassaram na vida — mas triunfaram na literatura.

E é isso que os torna eternos:

não o erro, nem o escândalo, nem a morte,

mas a coragem de sonhar além do consentido.

Soneto de fechamento — Tribunal do Real

Chamaram de erro o excesso de horizonte,
e de virtude a resignação sem chama;
o mundo, que se diz tão vigilante,
condena o sonho quando o sonho inflama.

Dom Quixote ergueu-se ao riso dos caminhos,
Emma comprou auroras nas vitrines;
um viu gigantes onde havia moinhos,
outra viu céu no chão dos dias finos.

Mas toda época tem sua lei secreta:
perdoa o cínico, a máscara discreta,
e pune o coração que não se doma.

E assim tombaram — não por fraqueza ou sorte —
mas por quererem vida até na morte:
Sonhar é luxo… e o mundo não perdoa.

Ella Dominici

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Inconsciente em flamas

Ella Dominici: Poema ‘Inconsciente em flamas’

Ella Dominici
Ella Dominici
"Inconsciente em chamas*
“Inconsciente em chamas
Microsoft Bing. Imagem criada pelo Designer

A coerência é o porte da placidez
na face, no íntimo do pensamento
esta sabedoria refletida fluidez
é fleuma nos olhos, em lábios unguentos

o ser discorda se inflama, insensatez
no estremecer das orlas em fomento
nudez da foz – consciência triz de lucidez
Fereza nas reações doridas é alimento

às rédeas do desejo enrustido bem guiadas
por homem que guia cavalos- carruagem
e insiste em cavalgar ardências espraiadas

amor musicaliza sensores de linguagem
paixão que dribla, deixas insaciáveis
da imponente consciência em chantagem

Ella Dominici

Contatos com a autora

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Sônyah Moreira: 'Maluco beleza'

Quando se é jovem, somos como conchas fechadas, uma   carapaça  blindada, e  levamos a vida aos trancos e barrancos, passamos por cima de tudo como um rolo compressor. A famigerada ousadia da juventude!”

 

Com esta crônica, alguns vão ter a certeza de que realmente  falta-me um parafuso, e somente  os loucos irão entender a profundidade.

“A minha maluquez misturada a minha lucidez”,  como dizia nosso saudoso Raul Seixas (1945 – 1989).

“Os caminhos  que eu mesmo escolhi, é tão fácil seguir, por não ter aonde ir”. É, foi mais ou menos assim!

Quando se é jovem, somos como conchas fechadas, uma   carapaça  blindada, e  levamos a vida aos trancos e barrancos, passamos por cima de tudo como um rolo compressor. A famigerada ousadia da juventude!

À medida que os anos passam, controlamos nossa maluquez, porém, viramos maluco beleza. A saudade vai fazendo a gente refletir,  e chegando a chamada lucidez.

A lucidez faz com que seu olhar perceba coisas e detalhes  que você  nunca havia  enxergado   e  isso,  são os  pontos de convergência na vida.

Andando pela cidade, percebemos o quão maravilhoso é o ser humano. Percepção  que, somente sendo amalucado podemos ter, no geral da história, achamos que tudo é um devaneio, porém, o olhar do infinito, que somente se abre já no controle da lucidez sobre a maluquez, e isso, nos faz sentir-se  rei em terra de cegos.

Seja um  maluco beleza, olhe no olhar dos outros, explore as muitas faces da humanidade; o andar apressado, as tragédias, o olhar sorrateiro disfarçado de bondade, você sempre irá se surpreender, e ficar com certeza Maluco beleza!

“Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal, eu do meu lado aprendendo a ser louco”. “Um maluco total, na loucura geral”!

 

Sônyah Moreira – sonyah.moreira@gmail.com