Lembranças

Laskiaf Amortegui: Poema ‘Lembranças’

Laskiaf Amortegui
Laskiaf Amortegui
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​mente apaixonada…
​Como se anseia, por momentos,
aqueles amores que não se puderam nem tocar.
Quem reparara um coração partido
quando o espelho da realidade o reflete?
​A dúvida é: será uma lembrança própria ou compartilhada?
E se for do meu coração apenas…
como se cura?, como se remenda
um coração que anseia um oásis, talvez da imaginação ou de vazios emocionais?
​Mas, e se for mútuo?
Eis a grande dúvida:
dois corações batendo num passado perdido na história do cosmo.
Beijos dados com a alma sem roçar lábios.
Carícias dadas com amor sem sentir um corpo.
E uma dor, além do compreensível, que nos faz suspirar
e com um lenço descartável secar a pele.
​Onde andarás, amor do meu ontem?
Onde eu só me apaixonei e conto a nossa história.

Laskiaf Amortegui

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Possibilidades

Ella Dominici: Poema ‘Possibilidades’

Ella Dominici
Ella Dominici
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Em fragmentos de mim eu conto
decepções rasgos despedidas
peças de encaixe perdidas desmonto

entremeio de rendas, vazados deixados
tempo as ruiu abrindo frestas
entre realidades e sonhos

desejos em contestações
estrelas apagadas de íntimas
constelações

atenuando a destruição de prazeres
não da carne nem dos pensares
mas do humano ímpeto de vida

com bálsamo para as perdas
jardim de jasmim com pragas
escolho mudar grãos desatentos

as fendas foram oportunidades
ao olhar em fértil amadurecimento
à vislumbrar miragens e paisagens

fé latente que se fortalece
esquece vultos determina vida
transcende mágoas desistências

não desfalece faz-se resiliência
natureza é voz de Deus audível
vista no vicejar das estações

frio se reveza em frutos calores flores
e o improvável crendo é possível
retomar sem angústia ou pressa

com liberdade dos passos descalços
num deleite em paz de pássaros
que abrange o inteiro no voejar
não deixa que a vida pela metade seja

Ella Dominici

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Olhos de poeta

Evani Rocha: Poema ‘Olhos de Poeta’

Evani Rocha
Evani Rocha
"Mesa de madeira com uma rosa amarela, uma carta escrita à mão com caneta e uma taça com vinho, diante de uma janela molhada pela chuva com vista para um jardim."
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A Lua é poesia
Nas mãos do poeta
A noite é boêmia
E a taça é vazia

Na voz de um poeta
A aurora é colorida
A tarde é perfumada
E a estrada infinita

Os olhos deságuam
E as palavras cegam
Nos braços um nada
Nas mãos despedida

E o amor é flor
No verso sinestesia
A saudade é dor
A lida é peregrina

As estrelas cintilam
No céu de um poeta
Tem a noite e o dia
No caminho as pedras

Não há paz nem guerra
Nos olhos de um poeta
A vida é fugaz
E a morte etérea!

Evani Rocha

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Entropia íntima

Ella Dominici: ‘Entropia íntima’

Ella Dominici
Ella Dominici
Fotografia conceitual surrealista e poética em proporção 16:9, ambientada em um quarto vintage escuro com iluminação em chiaroscuro dramático. À esquerda, uma cadeira de madeira e uma cômoda ao fundo parecem se dissolver suavemente em partículas e espirais de luz dourada reluzente. No centro, flutuando no ar, há uma garrafa de vidro transparente que contém uma tempestade cósmica miniatura com uma galáxia em espiral brilhante. À direita, sobre uma mesa de madeira envelhecida, um livro antigo aberto exala poeira estelar cintilante de suas páginas em direção ao centro. A atmosfera é misteriosa, íntima e mágica, com feixes de luz cortando a penumbra.
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Sozinha com os princípios, eu descubro: a palavra não é um abrigo. É um laboratório.

Entropia.

Digo baixo, como quem nomeia um animal que vive no escuro.

A entropia não consola. Não catequiza. Não faz promessas com voz de altar. Ela apenas registra a tendência: o universo gosta de se desfazer. E eu também.

Num sistema termicamente isolado, a entropia aumenta. E o tempo — esse operário invisível — vai desmontando a mobília do mundo. Até que a ordem se torne uma espécie de saudade.

Chamar isso de decadência é um vício moral.

A ciência não tem pecado: observa.

O que é decadência senão a tradução exata do que é vivo? Tudo o que respira se desorganiza para continuar respirando. Tudo o que ama se desarruma.

E então eu pergunto, com lucidez: qual o grau da desordem do teu nome no meu sistema?

Teu nome não é palavra. Teu nome é física íntima: vibração, colisão, deslocamento. Teu nome é uma partícula que insiste.

No meu quarto há objetos. E eu os olho como quem olha uma teoria. Quantas formas de dispor o mesmo copo? Quantas versões de uma cadeira? Quantas possibilidades de um livro que nunca fecha?

Quanto maior meu íntimo, mais combinações. E quanto mais combinações, mais improvável a paz. É simples. É cruel. É belo.

Os sentimentos não se organizam como biblioteca. Organizam-se como tempestade num copo. Um copo: pequeno. Uma tempestade: infinita.

Se eu te entregasse minhas moléculas, tu não preverias. Não por falta de inteligência, mas por excesso de vida.

Porque o sistema combinado produz o inumerável: átomos, encontros, desvios, acidentes, memórias — o acaso com sua assinatura de Deus.

Sim: Deus. Esse nome que alguns evitam, mas que eu reconheço no improvável.

No fim, a entropia não me entristece. Ela me purifica. Porque na desordem — na efemeridade — eu não tenho tempo de mentir.

Eu amo com urgência.

compreendo com humildade,

 perdoo com grandeza. E cada gesto, por menor que seja, torna-se um milagre em miniatura.

Há dignidade escondida no caos. E talvez seja essa a forma mais alta de liberdade: não um direito proclamado, mas um instante íntimo em que eu me permito ser desordem — sem culpa.

Ella Dominici

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O ébrio

Evani Rocha: Poema ‘O ébrio’

Evani Rocha
Evani Rocha
Fotografia digitalizada mostrando um homem com roupas gastas e sujas sentado no chão de uma rua íngreme de paralelepípedos, em uma vila antiga. Ele está encolhido com a cabeça curvada sobre os braços e joelhos dobrados. Ao seu lado, no chão, há uma garrafa de vidro de bebida alcoólica deitada. Ao fundo, casas históricas de estilo europeu ladeiam a rua e o céu exibe um pôr do sol vibrante em tons intensos de vermelho, laranja e amarelo.
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Amanheceu ali na esquina úmida e lodosa.

Tinha na boca um gosto de zinabre.

A pele encrespada e fria

Pelo sereno da madrugada.

Todos já se foram…

Apenas a penumbra permanecia…

Há pouco ele se arrasta pelos becos da cidade morta.

Ainda tenta beber o último gole,

Mas suas mãos trêmulas não suportam o peso do cálice.

No horizonte, o sol quase desponta 

Em meio a um barrado cor de sangue…

É o anúncio de um novo dia!

Permaneceu ali:

Cabisbaixo e embriagado,

Não só pelo álcool, 

Mas pela angústia que lhe açolava o peito.

Nada a lamentar, nem forças para gritar…

O mundo emudeceu!

Sem jeito de ignorar a resignação…

Então, debruçou-se sobre os joelhos,

Vencido pela solidão,

E deixou o tempo dele se encarregar!

Evani Rocha

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Humano

Mario Antonio Rosa: Poema ‘Humano’

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa
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La piel toca, los labios huyen
en un día ecuatorial de cicatrices solitarias
y una hoguera continua se deslumbra en los ojos
en la gran cosecha de calor y árboles quietos

pienso lento

siento dolor, a veces lejanía, campo largo,
extraño la tierra de la lluvia, las cimas grises
que imitan la escala del espejo, voy sanando dormido
con ese amor que aprieta, ese amor de perfiles
que supura la gran noche de su aliento

alta mar y ganas de llorar

no, cerraste los ojos en mi espalda
huiste, luego volver resucitado, echar el corazón,
remar odios, somnolencia, vértigo y luego felicidad
así las cosas en este desierto que cava el cielo
tantas, tantas cosas con su escama de miedo
pero me volveré a desnudar bajo tu sueño, tu imperio corto,
ese abecedario donde las gentes se cobijan

intento estar recién nacido

de pronto he escrito esto en forma de abanico,
pronto es mediodía, todo desaparece, incluso tus huellas,
livianas como arena joven, en corriente ciega,
invadiendo contra nadie, de estrellas bajas, soledad,

una extraña quietud,
de esas que abraza cuando todo se ha perdido.

Mario Antonio Rosa

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Não há nada além do amor

Marli Freitas: ‘Não há nada além do amor’

Marli Freitas
Marli Freitas
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/s/m_6a43ec9c522481919414e778f6af0d3e

Ele, uma metade perdida
Sem nenhuma suspeita.
Aflitivo, em devaneios,
Cultiva nos livros o melhor abrigo.

Então, o universo indica o caminho,
E ela surge com a beleza de vários sóis.
Ele se enamorou por uma fábula
Disfarçada no mundo real.

Era notável fazer parte da construção,
De cada linha, de uma história
Que sempre vinha embalada de sonhos,
Permeada de simplicidade e espontaneidade.

Ela exalava um cheiro de flor
E olhava a vida com poesia.
Via na dor um mundo de possibilidades,
E na alegria muita magia.

Aos poucos, ele se aventurou no logro,
Arriscou a linguagem das flores,
Algumas palavras sussurradas,
Enfim, chegando a lindos versos.

Um dia, era Fernando Pessoa
Que chamava o tom
E ela respondia encantada,
Pois, palavras eram a sua perdição.

No outro, era Drummond
Que dava graça ao cotidiano
Na simplicidade de viver e levavam
A vida com amor e bom humor.

Assim, foram se tornando
Prisioneiros dos pensamentos,
Prisioneiros das palavras,
Prisioneiros do amor.

Pensaram em desistir algumas vezes,
Mas sempre retornavam.
Enquanto isto, o sangue circulava
Cada dia mais desordenado e aflito.

Quando viram, já haviam se embrenhado
Nos versos de Caio Fernando de Abreu
E revelado o que escondia
As suas necessidades existenciais.

E o relógio enlouqueceu,
Enlouquecendo as horas, os minutos,
Os segundos e transcendeu
O tempo sem nenhum pudor.

E vieram frases soltas
Provocando atos falhos,
Denunciando um amor infinito,
Às vezes eufórico, às vezes doído…

Vieram versos, como:
É sua vida, a minha própria vida,
Trago em mim sua alma adormecida.
E tudo que se via era puro amor!

Nada era real, apenas virtual.
Às vezes, vinham suspiros sofridos
De suas almas, que procuravam
Abrigo na ternura do ser amado.

Mas só encontravam alento na poesia,
Que era capaz de transmutar a dor
E levá-los de volta às suas essências,
Onde as palavras bailavam enlouquecidas.

Ele tinha várias suspeitas sobre ela:
Será um anjo e não sabe disto?
Será uma acendedora de estrelas
Ou a própria lua perdida no céu?

Ela delira em versos:
E com a respiração ofegante,
Vai de encontro ao seu amado e o toca,
Lentamente, na tentativa de parar o tempo.

E diz, vem anjo, vem meu encanto,
Que noite bela!
Entre os suspiros do vento,
Procura o frescor dos seus lábios.

Ele sonha com sorrisos sem porquês,
E eu o amo inesperado.
Ela acolhe sua alma
Com doçuras e juras de amor.

Ele, você causa sentimentos
Até então desconhecidos.
Um dia acordei e vi seu rosto
Refletido no espelho e isto é perturbador.

Ela, eu o amo, meu amor eterno!
Nenhuma ausência irá nos separar!
Ele, pense ou não pense,
Vivo à sua espera, morro à sua espera.

Marli Freitas

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