Entre a liberdade e solidão

Lina Veira: ‘Entre a liberdade e solidão’

Lina Veira
Lina Veira
Imagem do Canva, com texto por Lina Veira

Até aqui eu quis ter muitas certezas
Sem exigir nada, eu quis ter muitas certezas.
Até aqui entre as danças e guerras da vida,
Eu queria parar no teu olhar e sorriso,
Na cor de cada dia do céu do teu dia.

Denunciar cada gesto coberto
Desarrumado como as estrelas,
Na insana lucidez de estar.
Até aqui eu quis viver cada
gesto e abraço que nunca tive.
Como um globo girando e acolhendo a todos,
Até parar no teu olhar e sorriso
E seguir meu caminho entre a liberdade e a solidão.

No escuro, guardei as memorias e rascunhos que precisei
E como num jogo de xadrez preservei a rainha e o rei.
Enquanto escrevia em todos esses anos,
desenhei um Universo que sempre quis para gente:
Ele é lindo!
Roubei um pouco do seu tempo
E cheguei com tempo para ganhar um abraço nele
Abracei tão grande que não me contive em esmagar os espaços vazios
Teria sido a escolha mais linda até aqui – teria sido.

Entre muitos labirintos que cruzei,
enfrentei-os ouvindo
sua voz entre a liberdade e a solidão
Depois entendi que não existia mais caminho para voltar
Nem eco, ou som algum.

Eu não pude evitar minha evolução, algumas curas.
Foi necessário.
Confesso que algumas vezes eu quis voltar
talvez para ter alguém na memória no fim da vida
E no mar de tantas fúrias e tormentas, sua voz deixou de ser calmaria e conforto
Para ser gratidão.
O tempo passou.
E nem sempre o melhor que temos é o que podemos dar e ser para alguém.

Lina Veira

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Confidente e fria

Evani Rocha: Poema ‘Confidente e fria’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem gerada por IA do Canva -23 de abril de 2026, às 08h52

Quando a solidão chega e encontra ninho

Ela nunca mais vai embora

Não porque a queremos

Mas porque precisamos

Porque ela preenche um vazio

De não ‘sei o quê’

Porque ela é silenciosa e não questiona

Porque ela é dona

De todos os espaços

Que sobraram em nossa vida

Ela é confidente e fria

Fica com a gente e escuta os lamentos

Ela não bate à porta

Mas senta-se à mesa do café,

Do almoço e jantar…

Não para comer,

Mas para nos ver de perto

Olhar no fundo dos olhos

Sentir o cheiro do café e das rosas,

Abertas no jardim…

Ela fica,

Porque nos acostumamos

À sua companhia,

Ao seu sorriso apagado,

Aos seus afagos…

Nos acostumamos ao seu lado,

À sua imagem disforme e presente…

No terreiro, nas vidraças,

Nas chuvas de janeiro!

Ah, que sentimento é esse,

Que causa desassossego

Mas que ocupa os espaços ociosos,

Da casa, das ruas, das calçadas…

Que pode ser psicólogo,

Dar colo e puxão de orelha…

Mas que, também, não nos deixa sós

Nas horas eternas de um dia de verão!

Evani Rocha

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Deixa-me te decorar

Evani Rocha: Poema ‘Deixa-me te decorar’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem gerada por IA do Gencraft

Deixe-me te decorar
Ler as tuas entrelinhas
Descobrir no teu olhar
As estrelas escondidas

Deixe-me adivinhar
As histórias que viveu
Os caminhos que trilhou
E as vezes que morreu

Deixe-me te percorrer
Verter tuas cachoeiras
Deitar-te sob o luar
Despir-te da solidão

Colorir os teus ladrilhos
Desabrochar tuas flores
Ser a chuva de verão
E os vagões do teu trilho

Deixe-me te pertencer
Vestir em mim tua pele
Brotar as tuas nascentes
Imergir em tuas veias

Levantar o teu castelo
Fazer do pó a areia
O telhado cor de ocre
E a floreira na janela

Deixe-me te germinar
Gestar a tua semente
Enraizar em teu solo
Regar-te suavemente

Deixe-me ser o teu colo
O lirismo da canção
A capa do teu diário
E o verso do refrão

O doce de tua boca
As folhas do calendário
A verdade atrevida
E o amargo fel necessário!

Evani Rocha

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Coreografia em solo cisne

Ella Dominici: Poema ‘Coreografia em solo cisne’

Ella Dominici
Ella Dominici
Um cisne. Imagem criada por IA do Bing
Imagem criada por IA do Bing

Cisne é solitário, em colo claro
deslizando íntimo, sobre si sobram- lhe penas
oleaginosas vertiginosas, apenas elas
escorregadas, noturnas, desamadas

Alma de cisne em transcendência retratando feminina lenda despida
de terra, água, concubina das essências.
Caçada pela dramaturga vida
que envenena a platônica expectativa
anunciando última cena,
na dança dos aplausos ao solo em poesia:
Coreografia do cisne e flor.

Se pudesse trincar o espelho do lago
todas as gotículas seriam minhas
círculos que se formam fora do itinerário
natural quando se vibra e gutural
quando se cria no gosto aveludado,
em som de salmonella e cor vanilla.

Se pudesse pacificada como andorinhas
a dor nadaria sem oriente nem para trás
nem para frente…sumida
Tateando doce de lagos gelados
no fremir sentidos quando se dança
uma valsa leve que balança

Jogue uma flor carmim sobre mim
ela comigo baila como cisne
desmaiados de tantos círculos assim
que deixam as fadigas e cismas
nesses beijos longos vida e consciência
na coreografia sonhadora da existência

Ella Dominici

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O frio que nos une

Clayton Alexandre Zocarato: ‘O frio que nos une’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA do Bing – 15 de agosto de 2025,
às 17:02 PM

Era uma manhã gelada de agosto. Dessas em que o Sol tenta existir, mas só serve pra dourar a paisagem — não pra aquecer. O vento soprava como quem avisa: hoje ninguém vai escapar da solidão.

As ruas estavam vazias, ou quase.

Uma senhora encurvada arrastava um carrinho de feira vazio. Um cachorro tremia embaixo de uma marquise. 

E eu, com as mãos nos bolsos e os ombros encolhidos, descia a rua como quem não sabe bem pra onde vai, mas sente que ficar em casa seria ainda mais gélido.

Há algo no frio que revela o que somos por dentro.

No calor, tudo parece mais fácil: os corpos se encontram, os risos se espalham, as janelas se abrem. Mas no frio… 

No frio a gente se fecha. No frio, até a alma parece querer um cobertor. A verdade é que, quando a temperatura cai, a gente se dá conta de que sente falta do calor humano mais do que casacos: sente falta de abraços suculentos e beijos molhados.

Já reparou como o frio e a solidão caminham juntos? 

Como o vento gelado tem o poder de lembrar a ausência de alguém?

É no frio que mais se pensa em quem já partiu, em quem nunca chegou, em quem poderia estar ao lado dividindo o café, ou  simplesmente no silêncio. 

Talvez por isso tanta gente escreva sobre inverno com tanta melancolia — porque o frio é um convite à introspecção, mas também um espelho da carência.

Lembro-me de uma frase que ouvi certa vez: A solidão é a ausência de um calor específico”. 

Na época, achei poética demais, dessas que se penduram em legendas de fotos tristes. Mas hoje, com o nariz vermelho e a alma encurvada, ela me parece perfeita. Porque solidão não é estar sozinho — é não ter com quem dividir o frio.

É curioso: quanto mais o mundo avança, mais parece esfriar. Temos aquecedores, cobertores térmicos, casacos inteligentes. 

Mas não temos mais aquele calor de estar junto. 

Mandamos mensagens, emojis, áudios com voz de saudade. Mas nem sempre conseguimos estar presentes. 

E a solidão virou um frio que não se cura com tecnologia.

No entanto, há um paradoxo bonito nisso tudo. Porque o frio, quando compartilhado, vira outro bicho. 

O mesmo vento que gela a espinha vira motivo pra se aninhar. O mesmo céu cinza que entristece, vira pretexto pra chamar alguém pra perto. 

O frio, em sua dureza, cria o desejo de encontro.

Pense nas lareiras, nos vinhos, nos filmes vistos a dois debaixo de uma manta. Pense nas mãos dadas nos bolsos dos casacos. 

Pense nas conversas longas só porque lá fora está frio demais pra sair de casa. O frio nos empurra pra dentro — e dentro pode ser um lugar cheio de gente, se a gente deixar.

Solidão, portanto, não é sentença. É estado. E como todo estado, pode mudar. Às vezes, tudo que alguém precisa é de um gesto, uma ligação, um olhar mais demorado. Às vezes, o que falta não é um amor de cinema, mas uma presença de verdade. Um “como você está?”, dito com vontade de ouvir a resposta. Porque a solidão, essa sim, tem pavor de ser escutada.

Hoje cedo, naquele caminho frio e vazio, vi uma cena simples: um casal de velhinhos, de mãos dadas, caminhando devagar.

Ela tremia. 

Ele parou, tirou o cachecol e enrolou no pescoço dela. Depois, seguiram os dois, juntos, em silêncio. Aquilo foi a coisa mais quente que vi o dia todo.

Talvez seja isso. O frio é inevitável. A solidão, em certa medida, também. Mas a vontade de estar perto, essa sim, é que nos salva. 

No fim, somos todos feitos do mesmo sopro gelado, esperando por uma brisa de afeto. E basta um toque, um gesto, uma companhia — mesmo silenciosa — pra fazer da solidão apenas uma pausa, e não um destino.

Que neste inverno — literal ou metafórico — a gente seja o calor um do outro.

Clayton Alexandre Zocarato

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O meu caminho

Ismaél Wandalika: Poema ‘O meu caminho’

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika
Imagem criada por IA do Bing - 13 de maio de 2025, às 08:34 PM
Imagem criada por IA do Bing – 13 de maio de 2025,
às 08:34 PM

Oh! O meu caminho
É marcado por solidão que invadem a vulva de fémures penetrantes
Perdas que se eternizam na fauna dos gritos abundantes
Nessa estrada pinto meus ritos com lágrimas cinzentas decorrentes

Ohhhhh!
Abrigo dos meus negros pensamentos
Dor que os sorrisos homenagearam nos olhos
Verdade que ultrapassa a compreensão dos magistrados
Dias tensos na garganta do poeta que come seus versos à mesa com os filhos…

Oh! No meu caminho
Uns entram outros saem
Fecho a porta para esvaziar a passagem
Noites longas iludem o guerreiro na carruagem.
Oh o meu caminho contém os vinhos que acolhem a vertigem.
Um embrião parido no matagal da miragem.

Caminho trilhado
Amor no prato
Vidas na lembrança dos atos
Um caminho vestindo o ninho escondido no peito
Há palavra nos passos de fortalecimento
Neste caminho vi a morte no colo
Chorei meus prantos no ápice do desespero
Amei amor dos prazeres à deriva
Nas esquinas desta vida fui poeta de meus ditos textos pretos

No horizonte me achei
Meus intentos benigno embriaguei
Meu coração em constantes passos perversos entreguei.
Perdi a essência da vida que sonhei
Desprendi tudo aquilo que um dia prezei
Caminho escuro como a noite na rua da lama
No meu caminho vivo à margem do tempo
Contemplo o peito do meu povo com telescópio
Sou um viajante do tempo no triciclo deste caminho!
Oh! Ora quente, ora crente
Ora fresco, ora gelo
Amor nos dias de fome, observo o enredo
O caminho cresce em instantes
Elevo-me na dimensão de meus ancestrais
Oh!
O meu caminho

Soldado Wandalika

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Solidão

Roberto Ferrari: Crônica ‘Solidão’

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Imagem do saite Pixabay.com
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Imaginei a figura de um banco vazio em meio as árvores de um parque e senti que precisava escrever sobre este sentimento que pode destruir as pessoas: a solidão.

A solidão invade a alma das pessoas quando estas perderam o ente amado, se separaram da pessoa que era sua companheira ou mesmo quando sentimos no coração um vazio imenso.

Digo que, na vida, antes de amarmos alguém primeiro é preciso se amar e assim não estaremos livres da solidão, mas com certeza superaremos estes momentos mais facilmente.

O estar sozinho pode nos levar a cometer atos impensados ou mesmo nos fazer procurar o amor, ou alguma companhia e o erro se encontra nesta busca. Digo isso, pois é da natureza humana se aproveitar de situações em que vê a outra pessoa aflita querendo um parceiro. Julgo que esta opção é a pior, pois um amor falso ou mesmo temporário pode piorar o estado de solidão. Portanto, é necessário que fiquemos sozinhos após passarmos por algum momento de dificuldade emocional. O fato de ficarmos sozinho irá reestruturar nosso interior, nos preparando para um relacionamento mais estável e se optarmos por evitar a solidão muitas vezes poderemos atravessar um relacionamento turbulento.

O amor surge em nossos corações quando menos esperamos, para tanto só precisamos estar abertos a ele. Podemos achar que, por estarmos magoados ou machucados, por uma perda ou separação, não conseguiremos amar; ledo engano, se estivermos com o coração receptivo, com certeza o amor chegará.

O banco perdido em meios as árvores do parque não significa só solidão, mas também força, resistência às intempéries do tempo e só apresenta os desgastes naturais devido à longa existência.

Nós também devemos ser assim, fortes para suportar a solidão e as intempéries da vida.

O autor

Roberto Ferrari
Roberto Ferrari

Roberto Ferrari nasceu em São Paulo no ano de 1957, e aos 54 anos, resolveu seguir sua real vocação: escrever.  Iniciou a carreira literária em 2011 e já publicou os livros: Sublime Amor, Ventos da Paixão, Identidade Assassina, Fundamental como o Amor, Refúgio da Alma, Negócios de Sangue, Intenso como a Vida, Mansão Molnár, Juras Apaixonadas, O Ceifador de Almas e Suplício de Amor, entre outros.

Roberto pertence a várias Academias de Letras e é Presidente da ACLASP- Academia de Ciências, Letras e Artes de São Paulo.

No transcorrer de sua carreira, Roberto Ferrari já participou de mais de 350 Antologias Poéticas.

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