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Lançamento da Revista Literocultural VER-ARTE!
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A arte e a literatura ganham um novo espaço de expressão! A produtora cultural Verônica Moreira apresenta a primeira edição da Revista Literocultural VER-ARTE, um projeto dedicado a valorizar escritores, poetas e compositores brasileiros, levando suas vozes a todos os cantos do país.
Mergulhe neste projeto, conheça nossos autores e se envolva com conteúdos que celebram a diversidade e a riqueza da nossa cultura.
Fique atento, pois essa é apenas a primeira edição de muitas!
As lágrimas vieram mais tarde. As lágrimas de Margaret Sinclair, dessas com gosto de sal de liberdade, vieram dois meses depois da cerimônia na capela, quando finalmente se deu a ruptura das correntes e peias.
Há dois anos, numa manhã de outono mansa, quando o céu, um manto azul bem claro, sem mácula, suavemente se estendia sobre a Capela Saint-Augustin, enquanto o Sol, um artista dedicado e ingênuo, lançava pequenas centelhas douradas que penetravam os galhos de braços timidamente erguidos das árvores que compunham o paisagismo do local, envolvendo-o em um jogo imparcial de luz e sombra.
A capela, guardiã de segredos de 16 séculos do santo, sofisticadamente pronta, entre duas kaizukas esguias, aguardava paciente os fiéis e infiéis em seu interior sagrado.
Velas nobres Aquiesse® Mandarin Tea, perfumadíssimas, em castiçais pesados de bronze, arranjos florais exuberantes, com aromas de jasmim e sândalo, e a delicadeza das orquídeas brancas bem acomodadas, foram dispostos em cada canto. As paredes, com painéis mornos de carvalho castanho-escuro em suas metades, apenas foram limpas. No centro, um grande crucifixo de madeira cinzelada, um vigilante silencioso, pendia acima do altar, que, sem degrau elevado, foi coberto por um tecido novo de veludo profundo. Ao longo do corredor central, um tapete comprido e estreito de tramas fechadas, testemunha emudecida que não validaria pés nem passos. Os vitrais coloridos, bem lavados, nem alegres nem tristes, refletiam a luz das velas de chamas ainda quietas e comportadas.
Impecavelmente preparadas, as duas salas integradas à parte posterior da capela também não apresentavam indícios de odores característicos de formol, de cera queimada ou de flores de caules já amolecidos mergulhados em águas turvas, que poderiam trair a suntuosidade. O eventual cheiro de mofo ou de spray de naftalina de ternos pretos guardados e de almas deslavadas não era de sua responsabilidade.
A cerimônia foi restrita a convidados selecionados por ela, entre eles alguns enlutados hipócritas, três repórteres bem vestidos e equipados, ávidos por registrar dores e desgraças alheias, frustrados a posteriori, e outros escolhidos a dedo. Margaret fez questão de dar ao marido um velório pomposo, mesmo que ele não o merecesse, já que, entre outros dissabores, vinha traindo-a com uma pedante socialite ali presente.
Margaret chegou premeditadamente uma hora depois do horário marcado para o início da cerimônia. Ao entrar na capela irradiando luz — forjada, mas não visível a olhos nus — com Caron® Fleur de Rocaille na pele, de salto alto, equilibrada e deslumbrante dentro de um vestido Chanel® vermelho-Borgonha sem detalhes, apenas um decote nas costas, com um chapéu discreto clássico com véu curto gracioso da mesma cor, ouviu-se o já esperado murmurinho.
Tornar mais amena sua própria fragilidade e sombra, e conter em pouco tempo sua ira em ebulição justificada exigiu uma construção prévia, um ensaio improvisado, rodriguiano, diante do espelho que a conhecia bem. Seus movimentos, calculados na medida certa da serenidade e discrição, foram observados, fotografados e mostravam que ela tinha o domínio de si e da situação. Embora o instante fosse delicado, ela permanecia composta. Inacreditavelmente composta.
“Estes são apenas os primeiros acordes do meu grito,” segredou Margaret, com um cauteloso meio sorriso de canto de boca, a um velho amigo que acabara de elogiá-la baixinho.
As coroas de flores, com faixas de mensagens cor de ouro ou de prata dispostas na diagonal, não foram ofertadas por ninguém; por isso não havia nenhuma. Nenhuma.
Três dos quatro únicos parentes do finado apresentaram, no dia anterior, pretextos tão débeis quanto a própria relação com ele para se livrarem e não compareceram.
Após a cremação em uma das salas exclusivas, descobertas, deslealdade, revelações e mistério (para aqueles que sabiam ler nas entrelinhas) estavam implícitos nos estojos de luxo com três velas Aquiesse® — Rose Peach, Vanilla Cinnamon e Jasmine Lavender — dentro de porta-velas rendados, nos vasos com íris negras e nas minis esculturas de Medeia que foram oferecidos como lembranças aos presentes por Margaret. Ela encerrou a cerimônia ali, erguendo uma taça de Château Latour®, que envelhece bem e melhora com o tempo, servido em temperatura fresca em taças com bojo amplo, seu vinho preferido, não o do falecido: “Brindemos à memória de Alexander! Vida longa a quase todos!”
Ela saiu do mesmo jeito que entrou, e sem olhar para trás.
Nos dias que se seguiram, as colunas sociais fervilharam com comentários um tanto azedos:
“Rompendo com o convencional, o funeral de Alexander Sinclair foi marcado pela suntuosidade da decoração em um lugar privilegiado, vinhos, lembranças de luxo e o traje Chanel vermelho-Borgonha da viúva Margaret. Tranquila e intrépida, despertou curiosidade, falatórios e deslumbre. (Foto: Margaret Sinclair, no funeral) — Gazeta de Elite”
“O adeus ao engenheiro Alexander Sinclair cercou-se de luxo, mistério e a serenidade intrigante da viúva Margaret, audazmente trajada de vermelho Chanel, subvertendo as expectativas tradicionais. Fuxicos de línguas amoladas foram inevitáveis.
(Foto: Viúva Sinclair de vermelho Chanel) — Jornal Paparazzi”
“Margaret Sinclair, apesar de sua conhecida imponência, chocou a nata da sociedade no ostentoso funeral de seu esposo, Alexander Sinclair. Emoções bem contidas e envoltas em um ousado vestido Chanel vermelho Borgonha, levantaram sobrancelhas e questionamentos.
(Foto: Margaret Sinclair erguendo a taça) — Diário Prime”
Prevenida, nenhuma repercussão a assustara. Ave forte, aprumada por onde passava, ela guardou as fofocas dos tabloides e especulações como troféus sob as asas. Não era oportuno se mostrar aos morcegos que ainda sobrevoavam por ali ou para os vampiros sedentos que estiveram no velório, não apenas para se refestelarem com um banquete à luz de velas e últimas homenagens, mas também com as feridas — as que ela não pôde evitar durante o matrimônio, que já cicatrizavam — caso fossem expostas.
“Há os que se vão em silêncio e dignos, mas também há os algozes que morrem solitários, deixando um rastro de escuridão e demônios com dentes à mostra, com riso escancarado como derradeira afronta a quem ficou,” Margaret ruminava na semana seguinte ao velório, no escritório em casa, enquanto rascunhava qualquer coisa em uma folha pálida de papel, buscando palavras certeiras. Amassou duas ou três folhas sem calma, jogou-as com força no lixo e recomeçou seu escrito, com os olhos bem pregados nele desta vez.
Letras médias e legíveis, angulosas e cursivas, conectadas por traços ascendentes de pressão média, com todos os “is” cuidadosamente pingados. Minúsculas — um acinte à margem — uma frase emprestada e uma assinatura ciente, em azul escuro, sobre um papel perolizado marfim. Após uma revisão atenta, nenhum vestígio de tremor ou suor na versão final do rascunho passado a limpo foi encontrado.
Depois, andou algumas vezes de um lado para outro da casa com as chaves na mão, e só quando a última onda de inquietação serenou é que, aos poucos, começou a dar corpo e clareza à sua decisão sem o peso da escolha: ela não ofereceria, de mãos unidas e quentes, rezas e mais velas, pois, machucada tantas vezes pelo marido no seu mais íntimo sentimento, não lhe caberia honrá-lo. Portanto, não houve missa de sétimo dia. Nesta mesma semana, após uma longa conversa com seus empregados, que a compreenderam, apoiando-a, Margaret confiou a Salvatore, seu motorista particular, a incumbência de buscar sozinho a urna com as cinzas no crematório da capela, cinzas que ela sequer quis ver, e, de lá, ir direto entregá-la pessoalmente à ex-amante de Alexander, junto com o bilhete perolado escrito à mão. Devidamente instruído, Salvatore cumpriu suas ordens.
Veronica leu o bilhete, estupefata e pálida ao ver a urna:
“veronica,
‘Quem primeiro deprecia a adúltera é aquele com quem ela cometeu o adultério.’ A. de Córdoba. Nem vingança nem justiça e nem perdão. Eu escolhi o esquecimento. Quanto às cinzas, faça hoje você as honras da casa, como redenção à sua negligência e fuga.
Margaret Sinclair”
Reza a lenda que a socialite esnobe, desnudada e encurralada, mudou-se para a Espanha com a família logo depois e, estranhamente, ninguém nunca perguntou que rumo tiveram as cinzas do milionário. Quem se importava?
Cerca de dez dias após o velório que deu o que falar, de manhãzinha, quando a brisa fresca do final de outono envolvia a casa, com a mesa posta para o dejejum, os empregados, na cozinha, preparavam-se para mais uma jornada. Tons claros de âmbar e rosa no céu prometiam um dia agradável, enquanto os raios de sol já brincavam nas folhas caídas, espalhadas pelo jardim. Embora o falecimento de Alexander tivesse ocorrido muito recentemente, não havia sinais de consternação entre os empregados, considerando que ele não era uma presença que evocava afeto. Sabiam dos desafios de Margaret e continuavam a admirá-la. A conversa teve início de forma prosaica, corriqueira, entre um gole de café e outro, mas logo se voltou para Margaret.
Frida, a governanta, era o pilar e uma das mais antigas da casa. Rígida, divorciada e meticulosa, ela coordenava as atividades domésticas com precisão. Não era amarga. Uniforme preto e branco sempre alinhado e cabelos presos em um coque baixo bem-feito davam-lhe uma imagem de autoridade e eficiência. Era uma figura de disciplina, moldada pelos anos que passou em um orfanato. A governanta, de poucas palavras, encurtou: “Aquilo foi um verdadeiro tapa na cara de todos que subestimaram Madame.”
Salvatore conferia, na bancada, o cronograma das tarefas que acabara de receber de Frida. Alto e formal, em seu terno cinza respirável e bem cortado, ele era observador e fidedigno, ainda solteiro. Em outra ocasião, ele confessara que a perda dos pais, em um acidente de carro, havia lhe causado um grande trauma, e que usava sabiamente sua função de chauffeur para encarar seus medos e para proteger aqueles com quem convivia, embora ele tivesse uma profissão principal que, atualmente, não exercia. Ajeitando a gravata, disse: “Sei que ela guardava dentro de si uma angústia que quase ninguém via. Vinha lutando bravamente para não permitir mais que o Sr. Sinclair, em vida, afetasse seus sentimentos. Ela mostrou aos quatro cantos, nestas últimas semanas, que ainda lhe resta muito de amor-próprio e coragem na bagagem e na moldura. Nunca a vi tão determinada.”
“A vida nos testa de muitas maneiras e não há receitas milagrosas. Ricos ou não, meus queridos, somos feitos das mesmas fraquezas. O Senhor Sinclair também tinha suas batalhas internas, mas pouco fazia para vencê-las com honradez, e Madame Margaret, que sempre manteve a compostura, cansou-se,” comentou Rosa com voz quase maternal, suspirando enquanto despejava nas xícaras mais café quente.
Rosa, que não havia perdido o sotaque chileno, dispensava os aventais brancos em forma de saia e dólmãs, preferindo aventais floridos que não escondessem seu colo. Forno e fogão acesos, as idas ao Mercado Municipal e os tais aventais floridos eram alguns de seus pequenos prazeres. Sempre cantarolava cantigas de sua terra, enquanto preparava seus quitutes. Tinha a mão boa para cozinhar e aprendeu o refino da culinária profissional para agradar o casal Sinclair e impressionar um certo vizinho viúvo. Crescida em uma família numerosa e humilde, onde a comida às vezes era escassa, saiu de seu país e valorizava cada grão de arroz daqui e seu espaço com três cômodos confortáveis na propriedade de alto padrão de Margaret. Enviuvou nova também e andava dizendo estar aberta a relacionamentos mais sérios.
Virgínia e Clarice, as irmãs gêmeas e auxiliares domésticas contratadas apenas há três anos, limpavam aqui e ali, arrumando as cadeiras ao redor da mesa antes da refeição ser servida. Vindas de um ambiente familiar tumultuado, elas buscavam estabilidade, que encontraram em seus atuais empregos. A rotina previsível, o horário fixo, as tarefas claras, o salário digno, um teto seguro e a camaradagem dos outros empregados proporcionavam a elas proteção, apesar dos conflitos entre o casal Sinclair. Disseram certa vez que seus nomes foram em homenagem às escritoras Lispector e Woolf, escolhidos pela mãe que vivia afundada em livros e novelas para não desabar de vez.
Elas, uma mais espevitada e a outra mais quieta, mas desbocada, nunca gostaram de vestir roupas idênticas quando eram crianças. Seus aventais, embora de estilos diferentes, compartilhavam apenas a cor, conferindo lhes um ar de unidade e individualidade ao mesmo tempo. “Madame Margaret é mulher fina, de personalidade marcante, generosa. Um gênio do cão quando pisam em seu calo, mas sabe dar o troco sempre com muita elegância. Eu, por mim, enfiaria uns bons grãos de milho de pipoca goela abaixo do falecido para que aquela cerimônia de cremação fosse ainda mais festiva! Cala-te, boca!” Clarice conseguiu arrancar risos, até de Frida. Antes de derrubar seu café na toalha branquinha que Rosa acabara de colocar, Virgínia encerrou: “Madame Margaret? Essa mulher parece feita de ferro! Uma inspiração! Ela tem demonstrado que no final das contas, a gente é quem decide como as coisas nos afetam.” Jogou alguns guardanapos de papel em cima da mancha de café e serviu-se de mais um pouco, com alguns pingos de leite.
Danem-se os protocolos! Ela quebraria mais um. Não queria esperar um mês, como manda a etiqueta, pois tinha pressa em se desvincular do passado com ele, a seu modo. Menos de duas semanas após o velório, Margaret enfrentou sozinha a desconstrução da história de Alexander Sinclair, cujas memórias permeavam o ambiente como fantasmas que não queriam partir, desfazendo-se de todos os pertences do marido, afrouxando mais as amarras, na tentativa de ficar longe da sombra que seu casamento havia projetado e de se libertar da dependência que a aprisionara por alguns anos.
Desancorada dos “e se…”, “por que comigo?”, que não serviam para nada, já que não iriam mudar coisa alguma, Margaret deu folga a três empregados e pediu aos que ficaram que não fosse incomodada. Não queria ruídos. Nada que a distraísse. Queria mergulhar nessa raiva surda e fria, sem explosões, aos poucos, e revirar as águas, alcançar suas conchas acomodadas no fundo, abri-las, tirar devagar o que tivesse que sair de lá de dentro e voltar à superfície, e respirar.
Ansiava seu presente esvaziado daquelas sobras tristes que se acumularam pelos cantos. E quem não desejaria isso? Vivemos carregando pesos invisíveis, esperando o momento certo para soltá-los. Noites e noites vazias, iguais, em claro, contornando com olhos vagos, perdidos, as linhas das coisas concretas da casa, reparadoras de ausências, que ela já conhecia de cor. Foram muitas as vezes em que teve medo de se habituar com o que lhe parecia pouco, medo desse vazio que a podia estar distanciando de si, dos encantos simples, do gosto bom de se pertencer.
Sem pausas para nostalgias e sentimentalismos moles, não acariciou camisas, não fechou os olhos nem aspirou fragrâncias, não vestiu casacos dele para sentir sua presença nem se perdeu olhando álbuns de lugares que nunca esteve. Não procurou por ele ali. Rasa, apenas se preocupou para que nada fosse danificado.
Ternos impecavelmente pendurados foram dobrados com cuidado, mas sem apreço. Soberba, sobretudos e outras roupas de grife; relógios, tirania e abotoaduras; cintos, sapatos e mesquinhez; ciúme, pastas e carteiras de couro; itens de higiene pessoal, infidelidade e perfumes; meias, gravatas e meias-palavras; ganância, vários decorativos de valor talvez sentimental e equipamentos eletrônicos; canetas Crown® — as preferidas dele — prepotência e livros técnicos; fotografias, cadeados e possessão; correntes, coleções privadas de arte e vinhos raros; grades, prisão e peias foram todos removidos da mobília. Tudo.
As gavetas e o cofre particular trancados foram previamente abertos por um profissional, na ausência das chaves e código. Não foi surpresa para Margaret encontrar uma joia escondida no fundo do cofre, acompanhada de uma dedicatória manuscrita que não era para ela.
O Aston Martin DBS Superleggera® preto, em breve, também seria removido da garagem.
Mesmo com a sisudez outonal lá fora, desadormecida, a noite ia sem fundo, com espaço sobrado para mais traçados sobre outros papéis brancos. De modo ainda desordeiro, em alguns espalhados pela mesa, já se viam estudos preliminares e composições, croquis, esquemas, intenções subversivas, com pitadas fartas de desforra em forros de ébano e carmesins.
A dissonância perante suas máscaras e lado oculto, o aceitável e o reprimido, alongava as horas e apontava mais lápis. Não era como adequar mármore e madeira para um projeto de construção, nem como buscar a combinação perfeita de sabores entre vinho e prato. Era ela — Margaret Sinclair — pondo-se em confronto com aquelas conchas que ela mesma abriu.
Da harmonização de suas duas partes para uma reparação de danos e sua própria recuperação, até chegar à completude, ela ainda mergulhará em outras águas delicadas entre o ser e o parecer, desprenderá mais âncoras e depois emergirá lavada, limpa, embrulhando tubarões e piranhas, mortos ou vivos, em folhas frescas de jornal.
E para preservar a casa e a si mesma de qualquer nova lembrança do falecido, Margaret, fiel ao seu estilo ousado, que supostamente não agredia ninguém, e ao desejo de um novo vazio, criou um projeto incomum que consistia em uma instalação artística e uma pintura em uma tela grande, convidando o prestigiado artista plástico Lorenzo Bellini para executá-lo e exibir estas obras de maneira inédita. Em vez de realizar esta exposição nos jardins amplos de sua casa, como cogitara antes, ela optou pela renomada Galeria Renascenza, justamente para evitar associar seu lar a Alexander outra vez.
Depois de cinquenta e seis dias de trabalho ininterrupto, a exposição, com divulgação prévia bem intensa, sem sombra de dúvidas, atraiu amigos e inimigos também, imprensa e muitos curiosos, todos impressionados com a expressão visual arrebatadora idealizada por Margaret, uma arquiteta traçando suas vontades com a mesma precisão que desenha seus projetos profissionais. Ela concedeu uma entrevista exclusiva antes da abertura, permitindo assim que os repórteres observassem depois a exposição com uma compreensão mais aprofundada. Durante a entrevista, compenetrada e resoluta, como se não estivesse no olho do furacão, compartilhou detalhes importantes, mas não revelou o real motivo que a impulsionou para esse feito. Que tirassem suas conclusões.
Segue a taça dourada, outro troféu que trouxe impresso a catarse, a recontextualização ainda inacabada das mágoas e decepções de Margaret, encerrando mais um ciclo — a cobertura completa que estampou, no dia seguinte, uma página inteira, in-tei-ra, do jornal Folha Metropolitana sobre a exposição:
“LORENZO BELLINI EMOCIONA COM ‘ÉPILOGUE’ NA GALERIA RENASCENZA
‘Fragmentos’ e ‘Silêncio Rubro’ refletem dor e transformação, com destaque para performance e leilão beneficente
A Galeria de Arte Renascenza sediou a exposição individual ‘ÉPILOGUE’, criada e coordenada pela arquiteta e viúva de Alexander Sinclair, Margaret Sinclair, e executada pelo artista plástico Lorenzo Bellini. A mostra, que ocorreu ontem, exibiu duas obras impactantes: a instalação artística ‘Fragmentos’ e a tela monumental ‘Silêncio Rubro’, sucesso de público e crítica.
‘Silêncio Rubro’, um trabalho belíssimo de óleo sobre tela medindo impressionantes 2,78 m por 2,95 m, com seu fundo predominantemente vermelho Borgonha, teve como grande curiosidade a representação da própria viúva ao centro da pintura, de costas em primeiro plano, contemplando um cenário de degradação. Alguns pedaços de cenas perturbadoras, como uma cama desfeita, taças partidas sobre o vinho derramado, um colar de safira azul reluzente com um pequeno cartão para dedicatória pendurado e muitos papéis rasgados, estavam dispostos ao redor da figura central, criando uma atmosfera de caos. As pinceladas de vermelho profundo intensas, grossas em contraste com partes mais suaves, refletiam ambas uma possível narrativa de conflito, paixão, poder e vulnerabilidade, expressando a complexidade humana.
‘Fragmentos’, uma envolvente instalação que ocupou todo o espaço do salão, consistiu na utilização de pertences novos e seminovos de Alexander Sinclair em uma interessante composição, cuja interpretação sobre virtudes e fragilidades ficou por conta dos apreciadores mais atentos. Uma inclusão surpreendente em ‘Fragmentos’ foi o Aston Martin DBS Superleggera, que, com a ajuda de uma equipe especializada em transporte de arte, foi cuidadosamente levado até a galeria. Uma experiência imersiva e inesquecível aos visitantes.
Convidados seletos foram recepcionados em uma área reservada com um serviço visualmente atraente, onde puderam degustar canapés de salmão defumado com geleia de pimenta vermelha, mini tartares de atum com romã e vol-au-vent de foie gras com compota de figo vermelho, acompanhados por uma seleção de vinhos, champanhes de altíssima qualidade e o clássico coquetel Alexander, provocando risos curiosos entre os presentes. Para adoçar a ocasião, foram servidos macarons de groselha, trufas de chocolate branco com recheio de framboesa e éclairs de cereja. Além de desfrutar dessas delícias propositalmente rubras, eles se envolveram em discussões animadas e reflexivas sobre as obras, trocando impressões.
Enquanto garçons bem trajados circulavam discretamente com bandejas fartas ao requinte deste cardápio, Margaret, sarcasticamente vestida de preto da cabeça aos pés, enaltecendo a grife Carmen Steffens, brasileiríssima, transitava deliberada e graciosa entre os convidados. Com a sofisticação e a destreza de quem sabe exatamente onde quer chegar e estar, ela se movia como numa dança silenciosa que só ela podia compreender. Cumprimentou cada um, às vezes com um sorriso de Mona Lisa — sutil, incompreensível — e um olhar ambíguo, de simpatia, de deboche.
Indubitavelmente, Madame Sinclair espetou mais alguns alfinetes com endereço certo nesta noite.
Ao final da exposição ‘ÉPILOGUE’, a desmontagem de ‘Fragmentos’ fez parte de uma performance magistral de Lorenzo Bellini, ao som de ‘O Fortuna’ de Carl Orff. A galeria foi imersa na melodia dramática, estabelecendo um clima quase ritualístico. Bellini, com luvas negras e gestos teatrais precisos, desmontou a instalação peça por peça, culminando em aplausos calorosos e merecidos.
Após a performance, os pertences que compunham a obra foram imediatamente leiloados, com a renda destinada aos empregados da casa de Margaret e a um antigo vizinho, em uma atitude simbólica de gratidão pela lealdade e apoio deles ao longo dos anos, e a duas instituições de caridade. Uma parte foi reservada para a realização de um sonho seu, ainda incógnito.
Com o término do evento, só restaram registros que o testemunharam — fotografias, vídeos e os pedaços de tecido preto que ficaram suspensos em algumas barras de ferro.
‘Silêncio Rubro’ e o carro de luxo, disputadíssimos, foram arrematados por um único colecionador privado, convidado e presente na mostra.
Enfim, uma noite longa e memorável, de múltiplas interpretações e reflexões sobre a natureza efêmera das lembranças e a capacidade da arte de transformar pesares em beleza, seja eles quais forem. (Foto: Margaret Sinclair e Lorenzo Bellini na Galeria) — Folha Metropolitana”
Naquela noite, quando as últimas luzes da galeria se apagaram, lágrimas com gosto de sal de liberdade, aquelas que lavam conchas e a alma, finalmente brotaram de Margaret. Era o passado, num esforço quase descomunal, sendo varrido para trás. Pelo retrovisor, Salvatore a olhou discretamente com olhos cheios de compreensão e respeito e, em silêncio, levou-a de volta para casa.
Dois anos após o funeral de Alexander se passaram, e não se passaram em branco nem em preto e branco. Além de Margaret ter adotado o sobrenome de solteira Whitmore, sua casa, recém-pintada de azul eclesiástico e verde sálvia, pronta para uma nova história — a dela — agora respirava harmonia e vitalidade com suas cores prediletas e decoração sofisticadamente minimalista, pois ela já não temia mais espaços vazios — aqueles onde seu coração bombeava ao ritmo da solidão, da monotonia que se instalara naquela rotina de sabores neutros, de compromissos forçados, naquela pouquidade, naquela escassez da presença do outro. Nos fundos, a casa de hóspedes, fora da vista principal, foi ampliada e adaptada para que quatro dos cinco empregados pudessem morar nela com mais conforto.
Generosa e empática, ela não havia escolhido esses seus empregados, tempos atrás, por acaso. Durante as entrevistas de emprego e conversas informais, ela se interessou profundamente pelas histórias de vida de cada um deles e por suas profissões paralelas, como foi o caso de Salvatore, que além de chauffeur, era também um restaurador de móveis antigos formado, honrando a herança de seus pais italianos. Já Frida, desenvolveu suas habilidades manuais desde jovem no orfanato, talentosa em bordadoria fina, dizia que seus bordados eram pinturas com agulha. Clarice e Virginia, com histórico de desestruturação familiar, incentivadas por Margaret, tornaram-se organizadoras profissionais. Dedicadas, aprenderam que através da criação de ambientes visualmente organizados, funcionais e eficientes, também se reestruturava e se acomodava vidas. Velhos aliados em tempos difíceis, a eles também Margaret confiava segredos, confissões e os considerava seguramente como família.
Margaret sempre teve um faro apurado e, desde cedo, aprendeu a virar a mesa, beber e servir bebidas tanto em cristais quanto em plásticos, e a identificar cordeiros disfarçados que cruzavam seu caminho. Se parassem diante dela, ela os tosquiava e arrancava suas peles sempre com luva de pelica, por questão de sobrevivência e sem fazer alarde. Depois de buscar as leis precocemente por necessidade, chutou aqueles tios com quem morava com vigor adolescente. Escondida deles, estendeu as mãos e encontrou braços amigos em seu socorro. No entanto, seu coração de moça se deixou cair, de joelhos, nas armadilhas sedutoras de Alexander Sinclair.
Em um desses finaizinhos de tarde tranquilos, quando tudo já estava encaminhado na cozinha para o jantar, Rosa, que havia preparado dois bolos de amêndoas com limão siciliano naquele dia, toda gentil — sabe-se lá com que intenção, talvez segundas, segundas sim — tirou o avental, ajeitou os cabelos, os peitos e caprichou no batom rosado antes de ir até a residência do Dr. Carlos Menezes levar um dos bolos, inteirinho, ainda morno, pois sabia que ele gostava. Com ele, trocou dois dedos de prosa, como diz ela, e muitas lembranças ali mesmo na varanda. Dr. Carlos Menezes, um vizinho juiz de 66 anos, grisalho interessante, viúvo. Apesar do cargo elevado e da posição de destaque que ocupava, era modesto, bondoso e sempre rodeado pelos dois filhos e netos, conhecia a família Whitmore há décadas e foi um dos beneficiados com a renda daquele leilão no Renascenza, o que reforçou ainda mais os laços de gratidão e amizade entre eles. Mudou-se para a casa onde está vinte e sete anos atrás, quando Margaret tinha apenas nove.
“A menina Margaret perdeu a mãe cedo, não teve irmãos e se agarrou ao pai como quem se segura firmemente a um galho de árvore na queda. Não demorou muito para que, lamentavelmente, seu pai também partisse,” recordou Dr. Carlos. “Embora a casa fosse mais discreta, já se destacava entre as outras, mas, infelizmente, teve suas portas fechadas até a emancipação de Margaret. Como você sabe, Rosa, foi uma época muito difícil. O que restou para a pobre menina rica senão se agarrar ao seu bicho de pelúcia, seu globo de neve, mimos que ganhou de seu saudoso pai, e ir morar, a contragosto, com tios insolentes e velhos de alma, que a tratavam com desdém por despeito?”
“E quando ela pôde voltar à casa, eu estava lá para recebê-la. Já me sinto parte da mobília, Carlos!“
“Há anos acompanhamos os caminhos que a trouxeram até aqui. Decerto podemos dizer que Margaret Whitmore é uma vitoriosa nesta montanha-russa. Ela tem uma maneira muito peculiar de lidar com as adversidades e nós, que a conhecemos de perto, vemos que ela construiu uma vida estruturada e bem-sucedida a partir das dificuldades que enfrentou, especialmente se libertando da influência de Alexander. Nem sempre o mundo foi gentil com ela, não é mesmo, Rosa? Seus atos recentes, incompreendidos por muitos, tidos como transgressores ou controversos, principalmente pela imprensa, foram formas que ela encontrou para desencarcerar emoções e resgatar sua própria autenticidade.”
“Sabemos das verdades cruas que a levaram a querer se desvencilhar do Senhor Sinclair (‘que Deus o tenha e que nos deixe em paz’, disse Rosa, fazendo o sinal da cruz). Minha estima por ela aumentou exatamente quando ela reformou a casa pela primeira vez para honrar seus pais falecidos assim que teve melhores condições. Além disso, todos nós que trabalhamos com Madame Margaret somos leais por uma boa razão: somos tratados com uma consideração e respeito raros em patrões. Ela realmente presta atenção quando falamos e olha nos olhos. É por isso que permanecemos aqui há tanto tempo. Não é à toa que nós a chamamos de Madame, pois é uma dama, merecedora de toda nossa admiração. Como Madame diz, somos como livros que se apoiam na estante.”
“Ela tem lá suas manias. É bastante exigente, detalhista e gosta das coisas bem-feitas. Fica brava quando o café chega morno, quando mudam algo na decoração sem sua permissão, quando se esquecem de anotar recados importantes ou quando se esquecem de cuidar de suas rosas, flores preferidas de seu pai. Muito divertida e afetuosa, vive dizendo que Salvatore tem uma paciência de santo, pois nunca perde a calma, mesmo quando ela está decidindo o que vestir dois minutos antes de saírem. Outro dia, Carlos, Madame disse que Clarice e Virgínia conversavam entre si como se estivessem em um programa de rádio e que às vezes se pegava ouvindo atenta suas histórias. Ah! E que ninguém ouse tocar em seu urso de pelúcia nem no globo de neve que ela mantém em uma redoma!”
Dr. Carlos sorriu e emendou o assunto, “E falando em rosas, Rosa, você já viu o novo jardim da praça central? Ouvi dizer que está mais bonito do que nunca, cheio de flores novas.”
“Passei por lá outro dia e realmente está lindíssimo! Os lírios amarelos, as estrelítzias e as lavandas criaram um contraste de cores e perfumes impressionante! A prefeitura fez um ótimo trabalho este ano. E falando em novidades, sabia que o Mercado Municipal agora tem uma banca de queijos artesanais? Uma sinfonia de sabores! Uma obra-prima de texturas! Lembrei-me de você e da Madame, que adoram queijos!”
Dr. Carlos não pôde deixar de rir, apreciando a energia contagiante de Rosa. “Vou ter que conferir essa banca na próxima vez, Rosa. E quem sabe, podemos combinar de ir juntos e desfrutar das delícias locais e do charme do Mercado.”
Rosa se iluminou! Cinquentona bem-apessoada, ela ganhou o dia! Livre, arrastava a asa para quem quisesse. Dr. Carlos tinha uma queda por ela, já percebida por todos, mas era tímido para coisas do coração. Talvez ela o tenha fisgado pelo estômago e ainda não tivesse se dado conta de que havia reciprocidade. Ternos e gravatas às vezes podem criar falsas barreiras, mas não para Rosa, que era bem resolvida. Ela só precisava de mais sinais.
Margaret, a matriarca da casa, ficou órfã de pai e mãe aos 11 anos. Aos 16, livrou-se dos tios tacanhos devido à emancipação obtida pelo Dr. Carlos Menezes, que na época ainda era advogado, e tomou posse da casa herdada dos pais. A casa, que passou por duas importantes modificações e ampliações, transformou-se na imponente casa que é hoje.
Arquiteta pós-graduada, destacou-se como empresária no setor imobiliário, incluindo empreendimentos internacionais. Nesse período, conheceu Alexander, um engenheiro experiente que colaborava frequentemente em seus projetos. Dezessete anos mais velho, ele rapidamente se tornou a âncora que ela, inconsciente, procurava após a perda dos pais. Casaram-se dois anos depois e, entre idas e vindas, permaneceram juntos por quatro arrastados anos. Sem filhos.
Dias e noites mal servidos de riso a dois, de vozes, cumplicidade, de mesmos caminhos. Muitas vezes preterida pelo marido, ressentida pela indiferença e pelos constantes subterfúgios, Margaret já se sentia viúva da pior viuvez: aquela em que o casamento sucumbe enquanto o cônjuge ainda vive. Contudo, a esta união falida, deteriorada, não houve tempo para ela própria colocar um fim, pois este veio pronto, abrupto, atroz.
Um sangramento silencioso após uma queda acidental durante um encontro secreto com a amante, que optou pela fuga, selou ironicamente a história de Alexander Sinclair com um desfecho trágico e medíocre. Negligenciada, foi uma morte solitária e denunciadora. Para evitar que detalhes sórdidos viessem a público e fossem divulgados pelos jornais, Margaret e seus íntimos abafaram-nos às duras penas. (Ah, os vermelhos… Da traição ardente ao sangue gélido, do vestido à ira, do vinho ao “Silêncio Rubro”, os silêncios… os vermelhos… os infernos revestidos de agridoces carmesins…)
Talvez ela a engolisse com champanhe gelado, tamanha era sua náusea, mas enquanto engolia com gosto e a seco a palma e cuspisse o fel acumulado ao longo daqueles outros dias mortos com ele, Margaret examinou a cena de modo velado, com secura nos olhos. Eram uns olhos duros, convictos, sem clemência. Um desgosto sardônico, inconfessável, porventura repreensível, mas quem a condenaria?
Ela ficou parada ali, com as veias pulsando esse refrigério mórbido e dolorido, espantada, incrédula por caber tão bem nesta outra, que crescia impiedosa dentro dela diante de um corpo inerte. Ficou ali, tomada por essa contrariedade irônica, que extrapolava a normalidade, mas era compreensível, ao testemunhar como o marido encontrara seu fim. O destino pareceu brincar. Brincou e riu como gente grande, impondo uma forma de justiça poética ao homem cujo comportamento imoral o levou a este lamentável e jocoso final.
Não foi só a cor; foi a dissimulação, foi o presente. O presente dado pelo marido recém-chegado de viagem, fora de datas, já que ele não tinha o costume de presenteá-la sem motivo, tirado desajeitadamente, contra sua vontade, de uma mala que ela ajudou a abrir, dado apenas porque ela o viu. Talvez nem fosse para ela. Ele nunca a cobrara o uso. Não era de seu gosto, pois não havia decotes profundos nas costas, nem tons avermelhados em seu closet. Uma apunhalada em V que só sangrou quando Margaret se debateu e, depois, foi lentamente se levantando, por rebeldia, dignidade, com o sangue estancado, de vermelho Borgonha no funeral.
Ainda que às vezes machucasse um pouco olhar para trás, a dor já não doía tanto; diluída, já quase não doía mais, e Margaret era boa em respirar fundo. Disposta a trilhar outros caminhos após a recente reforma de sua casa, ela decidiu desativar os empreendimentos imobiliários no exterior e continuar apenas com os nacionais.
Em uma rápida viagem à Toscana para desfazer negócios, reservou um dia para visitar pequenas vilas, onde artistas locais exibiam seus trabalhos em encantadoras casas, harmoniosamente integrados à decoração. Ali, ela vislumbrou um novo propósito: realizar um velho sonho e ter um espaço semelhante, onde a arte pudesse ser experimentada de maneira íntima e acessível. Inspirada por essa experiência, Margaret decidiu criar uma casa-conceito, onde a decoração e a mobília estariam à venda, e a arte se integraria a este ambiente doméstico.
Ah, Salvatore… Tinha que ser ele, o ítalo-brasileiro, o mensageiro das boas novas. Em um daqueles momentos inesperados que, por obra de algum deus ou do destino, a vida te presenteia com limões suculentos através de mãos confiáveis, e você habilmente os transforma em mousses, aproveitando até as cascas para salpicar raspas
por cima, Salvatore, em um percurso de carro sozinho para cumprir compromissos, viu por acaso um casarão antigo à venda. Atencioso aos sonhos de Margaret, ele imediatamente a informou, e ela visitou o local já no dia seguinte.
Foi amor à primeira vista! Parada diante do casarão, seus olhos correram contentes por toda a fachada. Eram olhos domingueiros, festivos, fascinados. Ela entrou, caminhou pelos cômodos, tocando as paredes, sentindo as texturas. Vestida de curiosidade quase infantil, subiu a escadaria, abriu portas, parou em frente às janelas, imaginando aquela luz natural iluminando futuras exposições e gente. Depois, com olhos profissionais. Sim, foi amor à primeira vista, e isso a motivou a enfrentar alguns empecilhos nas negociações. Embora o imóvel estivesse implicado em uma disputa judicial entre herdeiros, já em vias de finalização, ainda houve um atraso considerável até a entrega das chaves.
Com sua arquitetura histórica bem preservada, não demorou muito para que o espaço se transformasse no Casarão Whitmore de Arte. Situado em bairro nobre, ele acolhe visitantes de diversas camadas sociais e oferece a oportunidade de encontrar obras variadas incorporadas aos ambientes e acompanhar a produção de artistas residentes e convidados em estúdio vidrado. A galeria é inclusiva para talentos emergentes ou já renomados, permitindo que suas obras dialoguem livremente.
Cada canto foi cuidadosamente projetado por Margaret para proporcionar uma vivência imersiva e uma sensação acolhedora de pertencimento, desde as salas de estar até o café aconchegante, onde as exposições são constantemente renovadas. Era a vida, mais uma vez, sendo moldada pelas suas mãos de energia vibrante. Logo, esse local dinâmico se tornou um ponto de encontro para amantes da arte, críticos e entusiastas.
Não é de se admirar que o charmoso Casarão Whitmore tenha se tornado o xodó de Margaret, refletindo sua paixão por arquitetura, arte e memórias, encapsulados até no logotipo que ela mesma criou. Movida pela empolgação e espírito incansável, ela fez um esboço ali mesmo, em um café perto do casarão, em um guardanapo de papel, no início da reforma. Posteriormente, contou com a colaboração de um amigo designer gráfico especializado em identidades visuais para espaços culturais. Juntos, reuniram na marca elementos significativos que valem a pena ser lembrados. Dentro de um contorno vazado da figura do casarão, há um globo de neve. Dentro do globo, uma rosa, uma nota musical e uma paleta.
Sem almas deslavadas, sem bocas ácidas sedentas por vinhos ou éclairs presentes, durante o coquetel de inauguração, era notável que se tratava de uma celebração bem diferente das de outrora. Cercada de colaboradores, patrocinadores, alguns amigos e sua família do coração — os cinco empregados de sua casa, ali estava Margaret, sem cascas, autêntica, com todas as cicatrizes, inteira. Buscava, sim, por reconhecimento, colos amorosos e aprovação, mas consciente, apostando também no encanto da simplicidade. O charme rústico e romântico das flores do campo em vasos de barro feitos por um talentoso artesão do Casarão, a luz natural mesclada às pequenas luminárias retrôs, a mobília parcialmente reaproveitada do local, o menu enxuto com deliciosos petiscos caseiros, uma seleção de jazz suave e melodias clássicas, além das interações genuínas e espontâneas dos convidados, permeavam o ambiente com leveza e sinceridade. A algazarra que, vez ou outra, quebrava a mansidão do evento, ficou por conta de três crianças que brincavam com seus globos de neve, presentes da anfitriã. Radiante e deliciosamente inquieta, dentro do frescor primaveril de um jeitoso vestido floral miúdo de seda, ela aproveitou o ensejo para anunciar o lançamento em breve de seu livro, já deixando a todos com grande expectativa. Ela jurou, de mão levantada e uma piscadela brejeira, travessa, que não se tratava de uma autobiografia.
Em seu aniversário de 36 anos no sábado passado, Margaret preferiu a tranquilidade de seu lar juntamente com os empregados e seu vizinho, ao invés de eventos externos comemorativos. Sob a luz do sol nos jardins da casa e longe dos holofotes, ela não se conteve e caiu na gargalhada quando Salvatore e Frida a surpreenderam quase simultaneamente, mimando-a com uma cachorra filhote da raça Lulu da Pomerânia e um filhote de gato persa que traziam nas mãos. Eles haviam mantido a aquisição dos filhotes em segredo até o grande dia e, para a surpresa de ambos, perceberam que tiveram a mesma ideia após ela ter mencionado, em um bate-papo descontraído, que queria um animalzinho de estimação enquanto não tivesse filhos. Margaret pegou os dois filhotes nos braços, cheirou, apertou, beijou, já preocupada em fazê-los conviver bem um com outro. Uma cachorra e um gato. Com um toque de humor e personalidade, Margaret batizou os novos integrantes da família de Mafrid e Mattore em homenagem, é claro, aos dois que a presentearam.
A falta de talento de Margaret para algumas coisas corriqueiras a tornava mais humana e acessível; de tempos em tempos, surpreendia e causava diversão e simpatia nas pessoas. Na cozinha, um ovo frito certamente virava uma obra de arte esquisita, abstrata em suas mãos. Ela tinha um “dedo marrom” na jardinagem, até mesmo para os pequenos e pobres cactos, que nem careciam de muito. Desajeitada para a dança com seus “dois pés esquerdos” e para o canto, “fazia os bem-te-vis ficarem em silêncio ao redor, em choque, quando cismava em improvisar alguma opereta no jardim”, como disse Frida uma vez. Quem a acompanha sabe que o máximo que conseguia antes, no desenho de carne e osso, era uma casinha, uma árvore, algumas flores, figurinhas de gente no gramado e uma cerca, mas ela se esforçava. Teimosa por virtude, teve que se desdobrar para aprimorar-se nesta arte devido à profissão.
“Arrancam-lhe a pérola, mas a concha…” Margaret iniciou o rascunho para a penúltima página de seu livro.
Sem pressa para o lançamento, ela implementou uma ousada e longa campanha publicitária, com exibições diárias de imagens e citações bastante controversas, todas exclusivas da obra, que, por si só, já causou furor.
A afirmação de que não devemos acreditar em tudo que nossos olhos veem é a mais pura verdade, como pode ser verificada através de “VIDA DE MADAME”.
Dentre as crônicas bastante comentadas, cinco foram duramente questionadas: “Os porcos também gostam de pérolas”, “Quando a vingança é a única justiça que sobra, quem precisa de leis?”, “As lágrimas de ouro da riqueza não caem sobre feijões”, “Sempre carregue uma faca na bolsa. No caso de uma torta ou algo assim” e “Gourmet ou migalhas? Sirvam-se!”.
Duas das crônicas, “Responda com classe e transforme a raiva em arte”, “As brechas bobas que as bestas deixam”, viraram bordões, enquanto outras quatro, “No jogo do poder, a amante é a peça que ninguém admite mover”, “Liberdade: asas cortadas, fritas em óleo quente”, “Suspiros salgados, ovos crus e ninhos de serpentes” e “Os palácios, os palhaços e os pés-descalços sobre o fio da navalha“ levantaram polêmica.
Com uma crítica social incisiva através de dezesseis crônicas ilustradas, ora em primeira, ora em terceira pessoa, repletas de metáforas, algumas ironias e sarcasmos, escritas por Margaret, e fotografias ambíguas com sobreposições, perspectivas inusitadas e desfoques, criadas por Murilo Ventura, conhecido como o paparazzo que mais seguiu os passos de Margaret, e o prefácio do Dr. Carlos Menezes, aquele amigo juiz, o livro gerou controvérsias. O tom cru e emocional e os assuntos que ela cutucou finalmente caíram na boca das pessoas, por bem ou por mal, garantindo que “VIDA DE MADAME” tivesse as vendas rapidamente esgotadas. Na certa, uma segunda edição também esvaziaria as prateleiras.
Mas afinal, de que matéria essa mulher era feita? Muitos se perguntavam. Como uma mulher, figura aparentemente frágil, nem magra nem gorda, com 1,58 m de altura e algumas sardas no rosto, conseguia dominar tão completamente qualquer ambiente em que pisasse? Quem sabe fosse seu coração solidário, indivisível por classes sociais. Ou talvez fossem seus cabelos em ondas, com cor e movimento de fogo brando, ou seus olhos doces, azuis, que aprenderam a enxergar além-mar. Talvez fossem suas garras afiadas, em mãos pequenas, pintadas de rosa, ou sua habilidade distinta em manipular situações de forma estratégica no mundo do faz-de-conta e outros mundos. Ou ainda, talvez, fossem seus voos rasantes de ave aquática e pousos forçados de rapina em covas de leões.
Era essa combinação de força e delicadeza em Margaret que provocava perturbação, admiração e inveja. Foi essa coexistência harmoniosa, essa resistência trabalhada de flor, cujas pétalas delicadas permaneciam inteiras após temporais, ou de pássaro, cujas penas leves enfrentam ventos fortes sem perder o rumo, que fez com que Alexander Sinclair, o engenheiro que construía castelos movediços sobre esgotos sem claraboias, se sentisse desafiado e diminuído, recolhendo-se à sua própria fraqueza, ao seu ego inseguro, sem fundamentações, rendido, e salivasse sua ira em outras bocas. Não podia competir, pois perderia.
No entanto, a vida de Margaret não se resumia à correria e ao sucesso no trabalho, seja ele arquitetônico, artístico ou literário. Ela encontrava significado nos pequenos momentos triviais do dia a dia, na convivência com seus empregados e animais de estimação, e nas aventuras cotidianas que sempre rendiam novas histórias.
No início do verão, enquanto aprendia a cozinhar, em uma tentativa de fazer ovos Benedict, Margaret quase incendiou a cozinha de Rosa. Mafrid, a Lulu da Pomerânia, surpreendentemente, deu à luz três filhotes vira latas, e Mattore, o gato desavisado, passava o dia lambendo-os como se fossem dele.
Margaret e Salvatore têm trocado olhares que não disfarçam mais o romance florescente entre os dois — para o delírio de Clarice e Virgínia, as auxiliares domésticas, que estão vibrando com esta possibilidade, e para os paparazzi de plantão. Rumores já estão pegando fogo.
Dar à luz, trazer aos holofotes as feridas; mostrá-las, expô-las e se livrar delas, deixá-las irem embora para não viver o resto da vida assombrada por elas. Liberdade, para Margaret, significava simplesmente ser. Ser, apenas. Talvez ela tivesse nascido mesmo com o dom da polêmica, para poder ser e permitir que outros também fossem.
“O passado não te define, te refina”, escreveu Margaret Whitmore no final de seu livro.
Hoje pela manhã, ela chorou feito criança ao ver as rosas brancas, as preferidas de seu pai, devoradas por lagartas durante a noite em seu jardim da frente. Distraída, Margaret se esqueceu das borboletas. Das borboletas…
Ella Dominici: ‘O espírito criador de Mendelssohn’
Ele ergueu suas mãos ao céu invisível, onde a música repousa antes de ser som. Mendelssohn, o servo inspirado, ouviu os acordes que dançavam na luz da fé.
Sua pena não escrevia apenas notas, mas preces silenciosas que ecoavam na eternidade. Cada melodia era uma ponte entre mundos, um cântico que unia a Terra ao divino.
Na vastidão do mistério, ele sentiu a voz do Senhor, um sopro de amor que preenchia sua alma. E ali, sob a graça do Criador, compôs para o Cristo vivo, o Cordeiro e o Rei.
Era mais que música; era um ato de rendição, um louvor moldado em harmonia e devoção. Os coros erguiam-se como asas celestes, e as vozes humanas refletiam a divina.
Na profundidade de sua fé, ele traduziu o amor eterno em sons imperecíveis, um lembrete de que o Espírito Santo habita mesmo na fragilidade do mundo.
E agora, quando sua música ressoa, em catedrais ou na solidão do coração, é a mesma luz que brilha, o mesmo chamado: “Venham, todos os povos, glorifiquem o Senhor.”
Que minha voz humana, frágil e pequena, seja o eco da obra que ele ofereceu. Pois Mendelssohn não apenas compôs, ele respondeu ao Verbo com sua vida.
Entre as etapas do meu drama Você habitou muito tempo meu coração, Parecia tecido forte nossa trama, Mas era pintura colorida De ilusão.
Em que mundo você vive? Diga: onde é que você mora? Andando sempre nesse declive, Do lado de dentro do labirinto, Ou fora?
Achei que tudo deu certo nessa ilha Enganada com lembranças de outrora, Afundou-se a cada passo, nossa trilha. Lamentavelmente, é chegada a hora De ir embora.
O casamento é uma das mais antigas e universais cerimônias da humanidade, representando a união de duas pessoas que decidem trilhar um caminho de vida juntas. Desde tempos remotos, essa união transcende culturas, religiões e épocas, simbolizando a fundação de um núcleo familiar e a continuidade de gerações.
A história do casamento remonta às primeiras civilizações. Na antiguidade, ele era muitas vezes um contrato social, econômico ou político, unindo famílias e fortalecendo alianças. Entre os romanos, o casamento já possuía um caráter de compromisso público, enquanto, na cultura judaica, a cerimônia envolvia profundas tradições religiosas, celebrando a aliança diante de Deus.
Com o passar dos séculos, o casamento ganhou dimensões espirituais e emocionais, sendo associado ao amor e à cumplicidade. No cristianismo, ele foi elevado à posição de sacramento, considerado uma representação do relacionamento entre Cristo e a Igreja.
O casamento é a união de duas partes que se complementam. Tradicionalmente, o homem era visto como o provedor, aquele que protege e lidera a família, enquanto a mulher assumia o papel de cuidadora, zelando pelo lar e pelos filhos. Entretanto, essas definições têm evoluído, e hoje falamos de uma parceria em que ambos compartilham responsabilidades, sonhos e desafios.
O verdadeiro papel de cada um não está em funções predefinidas, mas na capacidade de ambos em se apoiar mutuamente, com respeito e amor, construindo uma relação equilibrada e saudável.
O casamento exige mais do que apenas paixão inicial. Ele é sustentado pelo amor verdadeiro, que se manifesta em atitudes diárias de respeito, paciência, perdão e compreensão.
“Quem ama é paciente e bondoso; não é ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso; não é grosseiro nem egoísta; não fica irritado, nem guarda mágoas. Não fica alegre quando alguém faz alguma coisa errada, mas se alegra quando alguém faz o que é certo. Nunca desiste, porém, suporta tudo com fé, esperança e paciência.”
Esse texto nos lembra que o amor não é apenas um sentimento, mas uma decisão constante de priorizar o outro, de construir uma vida baseada na cumplicidade e no sacrifício mútuo.
Casamento é uma escola onde aprendemos a amar na prática, a lidar com diferenças, a crescer como indivíduos e como casal. É um desafio, mas também uma das maiores alegrias da vida. A base de um relacionamento duradouro está na capacidade de cultivar uma comunicação aberta, priorizar o tempo juntos e manter o foco no que realmente importa: a construção de um lar onde o amor é o alicerce.
No fim, o casamento não é sobre perfeição, mas sobre duas pessoas imperfeitas que escolhem, todos os dias, amar uma à outra. É a base de uma família e, muitas vezes, o reflexo de um compromisso maior, que ecoa valores como o respeito, a empatia e a união. O amor é o elo que tudo une, e é por meio dele que construímos relações que perduram por toda a vida.
Dona Dolíria morreu na faixa de pedestre. Ela queria apenas atravessar a rua com sua cestinha de legumes. Mas tinha alguém mais apressado que Dona Dolíria, e, quis passar na faixa enquanto ela atravessava. Não deu outra. Atropelou a pobre senhora. Os legumes e verduras ficaram espalhadas na pista. Mas Dona Dolíria caiu mortinha, exatamente na faixa. Nenhum carro podia passar. O trânsito ficou congestionado. O apressado que a atropelou, sequer parou para prestar socorro, o que seria em vão, a batida foi muito violenta, ela iria morrer mesmo antes de chegar o socorro, como de fato morreu. As pessoas curiosas desciam de seus carros parados na pista para espiar a morta. Ela estava perfeitinha. Nada sangrava, nada de fratura exposta, porém os legumes e verduras estavam amassados, ou em picadinhos. Os tomates e beterrabas esmagados deixavam dois riscos vermelhos arroxeados no asfalto, marcando o rastro das rodas do veículo. Muitos tapavam a boca, de súbito, crendo que a mulher tinha esgotado todo sangue do seu corpo. Mas logo percebiam no rosto da vítima um semblante sereno, plácido e até corado. Suas pernas estendidas, juntinhas, exibiam o solado das sandálias novas de couro, recém compradas. Os braços envoltos pela alça da cesta, em um dos lados do corpo. Dedos cruzados deixavam à mostra um anel de ouro 18 quilates com uma grande pedra de brilhante. Os cabelos, muito grisalhos e arrumados num coque, presos com uma presilha ‘bico de pato’, decorado com um laço branco de tafetá. Nenhum fiozinho sequer de cabelo escapava daquele coque.
Todos estavam atônitos. Olhavam-se, indagando se a mulher estava realmente morta.
— Não se aproximem! Por favor! — recomendava e gesticulava muito um guarda de trânsito que, coincidentemente, estava próximo ao local.
— Alguém já chamou o SAMU? Minha nossa senhora! – disse uma mulher descabelada, que descera de uma motocicleta.
— Sim, sim! Já solicitamos o SAMU, mas pelo que foi averiguado, não há mais nada a fazer. Ela já passou dessa pra melhor… — falava com um ar zombeteiro, o homem de um carro parado ao lado.
As pessoas se engalfinhavam, tentando ultrapassar o cerco para fotografar ou filmar o corpo de Dona Dolíria. Pisavam em repolho, pepino e tomates esmagados, chutavam cebolas, que ainda rolavam no asfalto.
O povo, aglomerado ao redor do corpo, parecia menos impactado e penoso com a situação e mais preocupado em fazer uma foto ou um vídeo da vítima, para lançar, de imediato, nas redes sociais. O Sol da manhã ardia sobre o asfalto, o suor pingava da testa dos guardas que faziam o cerco ao redor da morta. Eram muitos clics de todos os lados. Uma ou outra pessoa soltava uma exclamação:
— Oh! Ela nem parece estar morta! Está tão coradinha!
— Pois é… como pode, que tipo de pessoa maldosa é capaz de atropelar uma pobre velhinha, assim, na faixa de pedestre!?
Acrescentou outra:
— Nem sequer parou para dar assistência! Isso é uma crueldade com o próximo!
Nesse momento, chegou um homem de meia-idade, moreno claro e magro, vestido de jaleco branco e gravata de bolinha. Usava uma boina preta caída sobre um dos olhos. Parecia desesperado, falava alto e pedia para se aproximar da vítima:
— Saiam! Saiam da frente! Sou filho da vítima!
A roda foi abrindo-se para dar passagem ao homem, o qual parou ao lado do corpo da mulher, pôs as mãos na cintura e disse, impaciente:
— Chega mamãe! Já chega, pode levantar daí! Você já ficou famosa! Está passando em todos os telejornais! Prejuízo foi meu de ter que lavar a lambuzeira de legumes no meu carro!
A velha fincou os calcanhares no chão e levantou-se de uma só vez! Batia as mãos na roupa, para limpar o pó do asfalto.
— Você é um filho ingrato! Paguei-lhe muito bem para isso! Não estava combinado vir aqui atrapalhar minha imagem!
As pessoas em volta filmavam e fotografavam tudo. Houve quem colocou como título de uma postagem: “A anciã atropelada na faixa de pedestre ressuscitou milagrosamente”.