A Educação Escolar

Mateus Passagem Pinto

A Educação Escolar: Projecto Político-Pedagógico, Currículo Escolar e Práticas Pedagógicas – diálogo para a perspectiva moderna da educação

Mateus Pinto - Hánji Kiami
Mateus Pinto – Hánji Kiami

Resumo

Perante o avanço tecnológico e o desenvolvimento das sociedades contemporâneas, torna-se imprescindível repensar as formas de ensinar e aprender. Neste contexto, emerge a necessidade de promover uma reflexão crítica por parte dos professores e demais agentes da educação formal acerca das abordagens educativas adoptadas pelas escolas, bem como das metodologias utilizadas, de modo a tornar o processo de ensino-aprendizagem mais dinâmico e significativo.

A presente pesquisa assume uma abordagem teórica e tem como objectivo analisar a necessidade da adopção de uma perspectiva moderna da educação, de modo que o processo de ensino-aprendizagem, por meio das práticas pedagógicas, se torne mais eficaz e orientado para a construção de aprendizagens significativas.

Palavras-chave: Educação escolar; Projecto Político-Pedagógico; Currículo escolar; Práticas pedagógicas; Metodologias activas.

INTRODUÇÃO

A educação consiste na transmissão de saberes das gerações adultas às gerações mais novas, configurando-se, em termos gerais, como um processo de libertação do indivíduo, permitindo-lhe desenvolver uma visão crítica e transformadora sobre o mundo que o rodeia.

Como exemplo, Coutinho (2020) explica que, quando uma criança aprende sobre educação ambiental, passa a não lançar lixo nas vias públicas, contribuindo, assim, para a melhoria da comunidade em que está inserida.

A realidade das sociedades demonstra que as instituições de ensino, tal como outras instituições sociais, constituem-se como peças fundamentais para o desenvolvimento da estrutura social. As escolas caracterizam-se por promoverem a educação formal, por meio da formação e capacitação do indivíduo desde os primeiros anos de escolaridade. Esse processo formativo envolve diversas etapas, factores e procedimentos que podem conduzir a resultados positivos ou negativos.

Segundo Freire, conforme referido por Costa et al. (2020), “a educação não poderia mudar o mundo, mas poderia mudar as pessoas, e estas seriam as responsáveis por mudar o mundo” (p. 15). Tal afirmação evidencia a existência de um sujeito activo que, por meio da educação recebida, torna-se capaz de transformar o seu meio social.

Para reforçar esta perspectiva, destacam-se dois documentos internacionais que reflectem sobre o valor da educação para as sociedades:

  1. Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), cujo artigo 26.º estabelece que a educação deve visar o pleno desenvolvimento da pessoa humana, o reforço do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais, promovendo a compreensão, a tolerância e a amizade entre as nações, bem como a paz universal.
  2. Declaração de Nova Delhi (1993), que reconhece que os conteúdos e métodos educativos devem responder às necessidades básicas de aprendizagem dos indivíduos e das sociedades, capacitando-os para enfrentar problemas como a pobreza, a melhoria das condições de vida e a protecção do meio ambiente.

Tais documentos evidenciam a importância da educação enquanto direito fundamental e instrumento de formação integral do indivíduo. Contudo, percebe-se que a preocupação com a acessibilidade e a contextualização da educação permanece actual, sobretudo no que diz respeito à flexibilidade dos conteúdos face às realidades dos alunos.

Perspectivas educacionais

Para compreender como as práticas pedagógicas têm sido efectivadas na contemporaneidade, particularmente no que se refere ao planeamento e à inclusão de metodologias activas, torna-se pertinente analisar as diferentes fases da educação apontadas por Pereira et al. (2019):

  1. Perspectiva educacional clássica ou tradicional, caracterizada pelo domínio absoluto do professor no processo de ensino-aprendizagem, relegando o aluno a uma postura passiva. Masseto (2013) afirma que esta abordagem se baseia essencialmente na transmissão de conteúdos.
  2. Perspectiva educacional humanista, influenciada por autores como Comenius, Rousseau, Pestalozzi e Montessori, surge como reacção à rigidez da escola tradicional, passando a conceber o professor como facilitador e o aluno como centro do processo educativo.
  3. Perspectiva educacional moderna, associada a John Dewey, critica a rigidez curricular da escola clássica e propõe uma educação alinhada com a realidade do aluno, enfatizando o aprender fazendo e a resolução de problemas reais.

Estas perspectivas demonstram uma evolução conceptual, sendo possível observar maior proximidade entre a abordagem humanista e a moderna, ambas centradas no aluno e na aprendizagem activa.

O Projecto Político-Pedagógico, o Currículo Escolar e as Práticas Pedagógicas

O processo de ensino está intrinsecamente relacionado ao processo de aprendizagem. Ausubel (1978, citado por Pereira et al., 2019) defende que a aprendizagem só se torna efectiva quando é significativa.

a. Projecto Político-Pedagógico

    De acordo com Veiga (1998), o Projecto Político-Pedagógico é o documento que orienta as acções da escola, visando a formação de um cidadão participativo, responsável, crítico e criativo. Trata-se de um instrumento teórico-metodológico que integra os princípios, valores e objectivos da instituição educativa.

    b. Currículo Escolar

    Segundo Silva (2011), o currículo escolar reúne os conhecimentos e saberes a serem ensinados. Costa et al. (2020) classificam-no em currículo formal, real e oculto. Martins (2006) defende a contextualização curricular como um processo de valorização das realidades locais e das vozes historicamente silenciadas, constituindo um importante movimento de descolonização do saber.

    c. Práticas Pedagógicas

    As práticas pedagógicas correspondem às acções desenvolvidas pelo professor no quotidiano escolar. Rêgo e Lima (2010) destacam princípios fundamentais, como a contextualização dos conteúdos, a valorização dos conhecimentos prévios e a criação de situações significativas de aprendizagem.

    Inspirado em Dewey, o ensino baseado na acção o “aprender fazendo” reforça a importância das metodologias activas, que promovem o protagonismo do aluno e uma aprendizagem crítica e reflexiva (Costa et al., 2020).

    A Planificação: reflexo da acção da escola na vida do aluno

    Libâneo (2013) afirma que a planificação constitui um instrumento essencial para orientar a prática docente. Um plano de aula deve conter objectivos, conteúdos, procedimentos metodológicos, recursos, formas de avaliação e referências.

    A avaliação, entendida como processo contínuo, pode assumir carácter diagnóstico, formativo ou sumativo, visando acompanhar o desenvolvimento integral do aluno ao longo do processo educativo.

    METODOLOGIA DE ESTUDO

    A presente investigação adopta uma abordagem qualitativa, de natureza teórica e bibliográfica, cujo objectivo central é analisar a relação existente entre o Projecto Político-Pedagógico, o Currículo Escolar e as Práticas Pedagógicas, à luz da perspectiva moderna da educação.

    Segundo Kauark, Manhães e Medeiros (2010), a pesquisa científica constitui-se como um processo sistemático de construção do conhecimento, baseado em procedimentos metodológicos rigorosos. Neste sentido, recorreu-se ao método bibliográfico, por meio da análise crítica de livros, artigos científicos, documentos oficiais e produções académicas relacionadas com a temática da educação escolar, das teorias pedagógicas e das metodologias activas de ensino-aprendizagem.

    A pesquisa bibliográfica permitiu o levantamento de contributos teóricos clássicos e contemporâneos, com destaque para autores como Comenius, Ausubel, Freire, Dewey, Libâneo, Moran, entre outros, possibilitando a compreensão da evolução das perspectivas educacionais — tradicional, humanista e moderna — e das suas implicações no contexto escolar actual.

    O procedimento metodológico desenvolveu-se em três etapas principais:

    1. Levantamento e selecção das fontes, priorizando materiais científicos reconhecidos e documentos normativos internacionais;
    2. Leitura exploratória e analítica, visando identificar conceitos-chave relacionados ao currículo, às práticas pedagógicas e às metodologias activas;
    3. Análise interpretativa, estabelecendo relações entre os pressupostos teóricos e os desafios contemporâneos da educação formal.

    A escolha deste método justifica-se pelo facto de permitir uma reflexão aprofundada e crítica sobre a função social da escola e sobre a necessidade de inovação pedagógica, sem a pretensão de generalização estatística, mas com foco na compreensão e sistematização do conhecimento existente.

    Dessa forma, a metodologia adoptada oferece suporte científico para discutir a urgência da adopção de práticas pedagógicas modernas, centradas no aluno, contribuindo para o fortalecimento de uma aprendizagem significativa e contextualizada.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    A educação desempenha um papel fundamental na formação integral do indivíduo e na transformação da sociedade. As perspectivas tradicional, humanista e moderna revelam diferentes concepções de ensino, sendo a última a que melhor responde às exigências contemporâneas.

    Conclui-se que a articulação entre o Projecto Político-Pedagógico, o Currículo Escolar e as Práticas Pedagógicas é essencial para a efectivação de uma educação moderna, centrada no aluno e promotora de aprendizagens significativas.

    REFERÊNCIAS

    Ausubel, D. P. (1978). Educational psychology: A cognitive view. Holt, Rinehart and Winston.

    Costa, G. M. C. (Org.). (2020). Metodologias ativas: métodos e práticas para o século XXI.

    Coutinho, C. P. (2020). Educação ambiental e cidadania. Edições Pedago.

    Cunha, G. I. C. da, Cunha, J. I. C. da, Monte, W. S., & Jesus, S. M. S. (2017). Metodologias Ativas no Processo de Ensino Aprendizagem: Proposta Metodológica para Disciplina Gestão de Pessoas. In A. R. L. Silva, P. Bieging, & R. I. Busarello (Orgs.), Metodologia ativa na educação. Pimenta Cultural.

    Declaração de Nova Delhi. (1993). Educação para todos: satisfazendo as necessidades básicas de aprendizagem. UNESCO.

    Declaração Universal dos Direitos Humanos. (1948). Organização das Nações Unidas.

    Dewey, J. (1959). Democracia e educação. Companhia Editora Nacional. (Obra original publicada em 1916).

    Freire, P. (2009). Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido (16. ed.). Paz e Terra.

    Gil, A. C. (2007). Didáctica do ensino superior. Atlas.

    Kauark, F. S., Manhães, F. C., & Medeiros, C. H. (2010). Metodologia da pesquisa: um guia prático. Via Litterarum.

    Libâneo, J. C. (2013). Didáctica. Cortez.

    Martins, J. da S. (2006). Anotações em torno do conceito de educação para convivência com o semi-árido. In RESAB (Org.), Educação para convivência com o semiárido: reflexões teórico-práticas (pp. [pags. não especificadas]). Selo editorial RESAB.

    Moran, J. (2018). Metodologias ativas para uma aprendizagem mais profunda. In L. Bacich & J. Moran (Orgs.), Penso.

    Pereira, A. S., Shitsuka, D. M., Parreira, F. J., & Shitsuka, R. (2019). Metodologia da pesquisa científica. UFSM.

    Rêgo, T. C., & Lima, E. S. (2010). Aprendizagem significativa e prática pedagógica. Vozes.

    Silva, A. R. L., Bieging, P., & Busarello, R. I. (Orgs.). (2017). Metodologia ativa na educação. Pimenta Cultural.

    Silva, T. T. da. (2011). Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Autêntica.

    Veiga, I. P. A. (1998). Projecto político-pedagógico da escola: uma construção possível. Papirus.

    Mateus Passagem Pinto

    Estudante – Finalista em Ensino da Língua Portuguesa pelo Instituto Superior de Ciências de Educação do Sumbe – Cuanza Sul, Angola, 2020/2021-2024/2025.

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    O poder das escolhas

    Mateus Pinto

    ‘O poder das escolhas em A Flor Sob o Sol Ardente,
    de Bereznick Rafael’

    Mateus Pinto - Hánji Kiami
    Mateus Pinto – Hánji Kiami

    A Flor Sob o Sol Ardente é um romance angolano, cuanzasulenho, da escritora Bereznick Rafael, publicada em agosto de 2023, pela Academia de Escrita.

    A mesma história é contada em 24 capítulos, com momentos únicos, e levam ao leitor não residente no Cuanza Sul a conhecer uma parte deste território nacional, propriamente o município do Sumbe, em uma leitura demorada, mas imparável onde se fragmenta a história emocionante e trágica de Luena, uma dócil jovem que se vê obrigada a ajustar a bainha da vida às medidas de quem amava sem aflições.

    Além das lutas internas de Luena pelo relacionamento com Henda, trazendo aqui um olhar atento às ações nefastas dos homens contra as mulheres, a autora também ressalta questões como um relacionamento ‘saudável’ no seio das famílias, é notável no relacionamento de Luena com seus irmãos e sua madrasta Makini que a amava incondicionalmente, e que, independentemente de haver ou não motivos para sorrir, dava um ombro amigo para a filha. Outros mais, desencadeiam-se nas questões da desigualdade social, o poder das escolhas ‘certas’ e com grande destaque a afirmação das mulheres.

    Luena sentencia-se prisioneira do amor após ter negociado seu sonho, uma bolsa de estudos na Universidade de Coimbra, para poder render-se aos desejos de seu namorado Henda. Talvez a palavra prisioneira demostraria uma falta de empatia por nossa parte, sendo assim, vamos olhar com os olhos de Vincent van Gogh ao afirmar: “Penso que não há nada mais artístico do que amar verdadeiramente as pessoas”.

    Luena não experimenta bons momentos desde a ideia de ficar mais perto de Henda como namorado e depois do casamento, conseguimos ver e sentir uma sucessão de más escolhas que, embora a personagem viva tais consequências em um dado momento, acaba caindo em uma outras más escolhas que acreditamos serem ao seu ver bons terremos para se viver, mas o contrário é percebido mais tarde.

    Em conclusão, é importante nos desfazermos de algumas coisas quando temos uma vida de casal, porém é importante medir com atenção o que deixar e que males enfrentar ou oportunidades perder ao nos desfazermos para agradar o outro.

    Em A flor sob o sol ardente, Luena insistiu tanto em um amor obsessivo que fora capaz de querer que nada existisse se não fosse com ele no controle das coisas.

    Hánji Kiami

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    Mão na massa e no saber

    Mateus Pinto: ‘Mão na massa e no saber’

    Mateus Pinto - Hánji Kiami
    Mateus Pinto – Hánji Kiami
    Card do II Simpósio Nacional de Crítica Literária
    Card do II Simpósio Nacional de Crítica Literária

    Em uma época preferencialmente denominada Reencontro do saber literário angolano para alguns críticos, muitas são as ações para se ter a bainha bem costurada e as alças das mangas a exibirem literatura em vez de lixeratura.

    É assim que Associações literárias, Grupos organizados inbuidos do espírito literário e pessoas individuais enganam o tempo para vê-lo passar sem ser notado e deixar uma marca registada sobre a mão, a massa e o saber.

    Mateus Pinto

    Por ocasião do II Simpósio Nacional de Crítica Literária, a ser realizada na União dos Escritores Angolanos no dia 31 de Agosto de 2024

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    À vossa atenção!

    Mateus Pinto: Crônica ‘À vossa atenção!’

    Mateus Pinto - Hánji Kiami
    Hánji Kiami
    OndJaki
    Ondjaki
    Capa do livro 'Os da minha rua'

    – O que estás para aí a dizer? – vociferou o Editor-Chefe, interrompendo-me a palavra. Foram duas as vezes que perguntou ao telefone com quem lidavam. Andava às voltas com uma das mãos ao rosto, enquanto adiava o meu discurso com questões.

    Dava para perceber que, de paciência, o homem não chegava nem aos pés do próprio escritor.

    Os retratos afixados na vitrine do gabinete, entre elas fotos de José Paciência, Victor Evaristo, Haires Fernando e outros nomes da nova geração, possíveis pistas espalhadas sobre a  mesa e um ar irritado era um pouco de tudo que se exibia, enquanto aguardava até mesmo o silêncio calar ao sinal do cigarro murcho entre os dedos.

    O certeiro seria o caso estar nas mãos do Círculo de Estudos Literários encabeçado pelo atual Presidente Hélder Simbad ou órgão similar, cogitava, mas por ser uma situação sensível, decidiu-se tratar à portas fechadas. Ninguém, além do Editor-Chefe sabia sobre o ocorrido até por um pequeno deslize meu, ter sido achado no dia da venda do livro de José Paciência, porém sem o que lhes mordia o ser: possíveis provas de que em (Des)contos Em Poesias há uma provocação a uma possível parte dois de Os da minha Rua de Ondjaki.

    Como aos leitores esse era um assunto que não monologava, e-mails  após e-mails eram enfilados no correio do escritor que há muito não se apresentava aos sedentos, nem mesmo para saudar.

    Por consequência do ocorrido, decidiu revisar tal obra ao som dos que tinham voz também, para ver de perto o que lhe tinha escapado na memória quando as sentenciou, mas nada achava, pelo contrário um punhado de riso ao reler O voo do Jika e outros mais. Sendo assim, remeteu uma mensagem ao Editor-Chefe sem omitir um detalhe sequer, e esse, por sua vez, com medo de que tivesse sido o sujeito dessa acção, começou a caçada sem mesmo perceber o que realmente lhe escreveu Ondjaki.

    E como resultado da falta de paciência do homem, aí estava eu, Hánji Kiami, nas tentativas falhadas, a justificar a razão de levar os leitores a pedirem uma segunda edição de Os da minha Rua ou qualquer coisa de Ondjaki para, ao menos, no seio dos leitores ter paz de espírito literário.

    À propósito, já leu OS DA MINHA RUA?

    Hánji Kiami

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