Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

Renata Barcellos: ‘Instituto Histórico e Geográfico brasileiro’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Instituto Histórico e Geográfico do Brasil
Foto por Renata Barcellos

No Brasil, a história dos Institutos Históricos e Geográficos (IHGs) começa com a criação desta instituição em 1838. Esta ocorre por iniciativa de membros da elite intelectual e política, incluindo figuras imperiais, a fim de construir uma identidade nacional, preservar a memória e consolidar a identidade brasileira pós-independência. Teve como modelo uma instituição francesa muito semelhante, criada em 1834. D. Pedro II foi um grande incentivador, cujo resultado foi a formação de uma rede de institutos estaduais e municipais. Hoje, estes atuam na preservação da cultura e história locais. O mais antigo é o fundado no Rio de Janeiro em 21 de outubro de 1838, por iniciativa dos maçons: marechal Raimundo José da Cunha Matos e cônego Januário da Cunha Barbosa. Estes redigiram a proposta de criação desta instituição. A justificativa da criação foi seu caráter pedagógico que beneficiaria a administração pública e traria “esclarecimento” a todos os brasileiros. Destacaram ainda as dificuldades as quais estavam sujeitas as investigações acerca da história da pátria devido à carência desta instituição, a fim de centralizar os documentos que se encontravam espalhados pelas províncias do Império.

  • Objetivo Principal: reunir, organizar e preservar documentos para escrever uma “história nacional”, a fim de pensar o Brasil como nação, consolidar a identidade nacional e fomentar pesquisas históricas e geográficas.

2. O IHGB e a Construção da Nação:

  • Atividades Iniciais: criação de Arquivo, Biblioteca e Museu; financiamento de pesquisas; publicação da Revista do IHGB; correspondência com instituições estrangeiras.
  • Monopólio Histórico: por décadas, o IHGB deteve o monopólio da produção de conhecimento histórico no país. 

3. A Rede de Institutos:

  • Expansão: o IHGB estimulou a criação de entidades congêneres nas províncias (hoje estados), como o Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano (1862) e o de Minas Gerais (1907). 
  • Descentralização: no século XX, universidades e outros centros surgiram, mas os IHGs mantiveram sua importância, focando na memória local e regional. 

4. Legado e Função Atual:

  • São pilares na preservação de bibliotecas, arquivos e museus.
  • Coordenam uma rede nacional (Sistema Nacional de Institutos Históricos) e mantêm intercâmbio com instituições globais.
  • Continuam sendo referências na pesquisa e valorização do patrimônio cultural brasileiro, atualizando sua missão de pensar o Brasil. 

Curiosidades 

  • Instalações do primeiro IHGB: Em 1839, aos cuidados de D. Pedro II, o Convento do Carmo abrigou o IHGB. E a inauguração das novas instalações ocorreu em 15 de dezembro de1849, na rua Teixeira de Freitas, região da Glória, Rio de Janeiro.
  • Influência de Von Martius: o concurso de 1846 para escrever a história do Brasil foi vencido pelo alemão Karl Friedrich Von Martius com a proposta intitulada Como se deve escrever a história do Brasil. Nesta, propôs um modelo focado na harmonia entre as três raças (indígenas, brancos, negros) e o território, influenciando gerações. Escrito em 1843, ele propõe que a história indígena merece atenção, pois integra a história do Brasil. De acordo com ele, uma sugestão seria a elaboração de um dicionário da língua indígena principalmente o Tupi, por parte de linguistas integrantes do Instituto, tratando o idioma enquanto documento a ser conhecido e pesquisado.
  • Conexões Internacionais: mantêm intercâmbio com instituições estrangeiras, como a Academia Portuguesa de História e a Real Academia de la Historia da Espanha.
  • Alguns dos atuais gestores:

Artur Cláudio da Costa Moreira (educação: Artes Cênicas, Expressão Corporal, Técnicas Comerciais, Administração, Economia e Matemática. Formação: Ciências Econômicas, especialização em Recursos Humanos e Matemática. Liderança e Gestão: Direção de entidades culturais e atuação estratégica no IHG São João del-Rei, coordenando projetos editoriais, documentais e de preservação histórica. Artes e Comunicação: Experiência em direção teatral e locução radiofônica, unindo técnica cênica à divulgação doutrinária espírita com foco em impacto social e cultural. Pesquisa e Formação: Especialista dedicado ao resgate histórico e acadêmico, com sólida competência em redação oficial, administrativa e análise crítica de acervos): “O Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei (IHG-SJDR) consolida-se como uma das mais prestigiadas instituições culturais de Minas Gerais. Atuando como o legítimo “guardião da memória” de uma cidade central para o ciclo do ouro e para a identidade mineira, o Instituto é o elo entre o passado colonial e o compromisso com as futuras gerações.

Fundação e Contexto Histórico

Fundado em 1º de março de 1970, o IHG-SJDR nasceu da mobilização de intelectuais, historiadores e cidadãos são-joanenses. Um dos catalisadores de sua criação foi a tentativa desesperada (embora sem sucesso) de impedir a demolição da Secular Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, à época pretendida pelo Padre Jacinto Lovatto. Apesar da perda do templo, o episódio reforçou a necessidade urgente de um órgão dedicado ao estudo e à salvaguarda sistemática do patrimônio barroco e das tradições centenárias da região.

Natureza Jurídica e Administrativa

Legalmente constituído como pessoa jurídica de direito privado e sem fins lucrativos, o Instituto é uma associação de duração ilimitada, inscrita no CNPJ sob o nº 18.994.319/0001-45. Com sede e foro em São João del-Rei, é regido por estatuto próprio, registrado em cartório, e funciona como uma entidade civil mantida pela dedicação de seus sócios efetivos, correspondentes e honorários.

Natureza Jurídica e Administrativa

Legalmente constituído como pessoa jurídica de direito privado e sem fins lucrativos, o Instituto é uma associação de duração ilimitada, inscrita no CNPJ sob o nº 18.994.319/0001-45. Com sede e foro em São João del-Rei, é regido por estatuto próprio, registrado em cartório, e funciona como uma entidade civil mantida pela dedicação de seus sócios efetivos, correspondentes e honorários”.

Dilercy Aragão Adler (psicóloga, doutora em Ciências Pedagógicas, mestre em Educação e Associada Efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), tendo exercido a Presidência da instituição no quadriênio 2021–2025): “O IHGM, Casa de Antônio Lopes, foi fundado em 20 de novembro de 1925, nos moldes do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Seu diferencial reside no fato de ter sido criado intencionalmente por iniciativa de Antônio Lopes, no ano do centenário de nascimento de Dom Pedro II, grande mecenas da cultura, da ciência e das artes no Brasil.

Treze anos e cinco meses após a fundação do IHGB, Dom Pedro II recebeu oficialmente o patronato da instituição, sendo reconhecido como seu Patrono e Protetor. Em 2025, iniciaram-se as comemorações do Centenário do IHGM e do Bicentenário de nascimento de Dom Pedro II.Em 2007, Dilercy Aragão Adler recebeu o honroso convite da então presidente, Profa. Eneida Vieira da Silva Ostria de Canedo, para ingressar no IHGM, ocupando a Cadeira nº 1, patronada por Claude d’Abbeville. Trata-se de um frade capuchinho autor da obra Histoire de la mission des Pères Capucins en l’Isle de Maragnan et terres circonvoisines (1614), reconhecida como o primeiro livro a descrever detalhadamente a região do Maranhão.

Em 2012, apresentou o projeto “Mil Poemas para Gonçalves Dias”, desenvolvido em São Luís, Caxias e Guimarães, com ampla participação de escritores do Brasil e do exterior. O projeto compreendeu duas antologias, uma de poemas e outra de estudos e pesquisas sobre Gonçalves Dias, além de extensa programação nas três cidades. Na programação de São Luís, teve como marco a fundação da Academia Ludovicense de Letras, a Academia da cidade de São Luís, fato considerado histórico diante do intervalo de 401 anos entre a fundação da cidade e a criação de sua Academia de Letras”.

Paulo Roberto de Sousa Lima (sociólogo, pela FAFICH/UFMG (1968); Professor universitário (Faculdade de Educação – UFMG: 1969 a 1988); Professor/Pesquisador e Consultor em Gestão Pública (FJP – 1981-1985); Professor em Gestão em Saúde Pública (ESMIG/FUNED: 1986/2004); Militante social em gestão comunitária (Instituto Macunaíma – Casa de Cultura/Escola de Cidadania – Belo Horizonte e Biblioteca da Comunidade – Tiradentes-MG: 2004-2015); Historiador, membro do IHG-SJDR (desde 2015, titular da Cadeira Perpétua nº 02, cujo patrono é o emboaba José Mattol); Presidente do IHG-SJDR (2018-2023); Membro da Academia de Ciências e Letras da Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira e da Academia de Letras João Guimarães Rosa, da PM-MG): “Um olhar sobre o estado da arte dos atuais Institutos Históricos e Geográficos brasileiros, com os quais tenho interagido, nos permite reconhecê-los como legítimos herdeiros, desde o século XIX, da tradição europeia de estudos, via pesquisa em campos específicos de conhecimentos, já que antecederam a criação, no início do século XX, de Universidades no Brasil. Isto os torna credores do reconhecimento como entidades cuidadoras e geradoras de conhecimentos históricos, socioeconômicos e ambientais que foram significativos para a cultura nacional”. 

Tereza Cristina Cerqueira da Graça (doutora em educação, vice-presidente do Instituto e editora-gerente da sua revista): “O Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, fundado em 1912, é a instituição de guarda da memória mais antiga do Estado. Desde então, tem reunido os mais expressivos intelectuais de Sergipe e estimulado a produção de estudos sobre nossa terra. Inclusive publicando trabalhos de pesquisa sobre a história, a geografia e a cultura sergipana na sua revista também centenária, uma vez que teve sua 1a edição em 1913 e até hoje está ainda em circulação. Publicou a última edição agora em dezembro de 2025 e, recentemente,  recebeu a classificação A na avaliação da Capes/Qualis. Também abrigamos um dos maiores acervos de documentos, jornais e livros antigos do Estado, servindo aos pesquisadores e á comunidade em geral”.

Renata Barcellos

Voltar

Facebook




A poesia visual de Jairo Fará

Renata Barcellos: ‘A poesia visual de Jairo Fará’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Jairo Fará e Renata Barcellos – Foto por Renata Barcellos

Minicurrículo: Jairo Faria Mendes (Jairo Fará): escritor, artista visual, jornalista e professor do Curso de Jornalismo da UFSJ. Pós-doutor em Jornalismo pela Universidade de Coimbra (Portugal) e em Comunicação Social pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).  Autor de livros sobre jornalismo como O Ombudsman e o Leitor (O Lutador, 2001), Minas Impressas (Literíssima, 2023) e Barão de Itararé: Riso é Resistência (Literíssima, 2024), além de obras literárias como Cidadezinha Biruta (Literatura infantil, Páginas, 2019), O Ovo do Minerim (poesia, Jararaca Books, 2011), Livro de Bolso (livro-objeto, 2014), Minas são Moitas (microlivro, 2024), Trégua e Paz (microlivro, 2025), Passe pela Catraca (poesia, Literíssima, 2026) de peças teatrais, roteiros e participações em inúmeras coletâneas.

Em 2022, lançou o CD de música e poesia Outras Esquinas (em parceria com Vaninho Vieira). Encontra-se com muitos projetos na gaveta e nos pensamentos, mas prefere viajar no mundo da poesia.

A partir da produção de Jairo Fará e da análise de seus textos, constatamos tratar-se de um artista multifacetado. Ao analisar sua produção, visualizamos como ele reordena as letras e as constituem em outros termos. Ele imprime cor em seus textos, seja no sentido real, seja no figurado. Utiliza o recurso do humor e aborda temáticas artísticas, literárias, sociais… O “olhos de águia” (como o caracterizaremos a partir da análise de sua obra), verificamos como explora as suas inúmeras possibilidades (orais e escritas) e de imagens, de modo que as linguagens verbal e icônica se complementem. Com muita técnica, ele utiliza os mais variados suportes e meios de difusão. Assim, criando suas surpreendentes soluções de apresentação da poesia.

O termo poesia experimental (nome que se dá a toda e qualquer forma de poesia moderna que utiliza recursos fora do texto versificado tradicional, aquele tipo de escrita que se ligava a um mundo em desaparecimento, ou, ao menos, em transformação) se desenvolveu por dois caminhos: da poesia sonora e o da poesia visual. Esta englobou todas as formas de recursos gráficos que a poesia moderna havia incorporado, enquanto a poesia sonora reuniu em seu interior todos os tipos de trabalhos com o som que os movimentos poéticos modernos tinham produzido. (MENEZES, 1998, p.15).

De acordo com E. M. de Melo e Castro (1993), a poesia visual aparece de uma forma consistente quatro vezes na história da arte ocidental: durante o período alexandrino, na renascença carolíngea, no período barroco e no século XX. Datando de 300 anos antes de Cristo e realizadas na Alexandria, as tecnofanias3 de Sírnias de Rodes constituem os primeiros poemas visuais conhecidos. São elas: “O Machado”, “As Asas” e “O Ovo”.

Quem é Jairo Fará? O que é Poesia Visual? Qual a relevância deste poeta? São perguntas que você, leitor, deve estar se fazendo… O que podemos lhe advertir: cuidado, você corre o risco de ter seu olhar extasiado com as múltiplas linguagens exploradas e, por consequência, seus olhos queiram percorrer as várias esferas da Poesia Visual deste poeta. Não hesite!!! Alumbre-se!!!

Uma característica própria da Poesia Visual é o hibridismo entre linguagem verbal e icônica e de gêneros textuais. A partir disso, a polêmica: qual o limite dos gêneros textuais? Entre poesia e artes? Segundo Menezes (1991, p.11), quando se pensa em Poesia Visual, devemos associá-la com o espírito de experimentação, ou seja, o desejo de ousar, de utilizar diferentes recursos para compô-la. E isso o poeta domina; a cada trabalho é capaz de surpreender seu leitor de modo diferenciado, como se fosse a primeira vez.

De acordo com Lopes (2007), podemos inferir que o poeta dispõe-se da linguagem como forma de buscar novas expressões, utilizando recursos que possibilitam transgredir a forma tradicional da palavra escrita. O poeta não só explora a linguagem comum, mas também a desvia do uso convencional, transformando-a em uma outra linguagem, a da poesia. O desvio e a transgressão da linguagem são a desverbalização da palavra, um modo de transformá-la em palavra imagética.

Podemos dizer ainda que a experimentação deste autor vai além do aspecto visual que adentra a profundidade do signo. Ele mobiliza elementos da contemporaneidade, dentre eles, a metalinguagem (a linguagem usada para descrever e explicar a própria linguagem, nos seus mais diferentes estilos: gramatical, artístico, musical, informacional etc. A sua poesia explora a capacidade poética por meio de diversos recursos.

Trata-se de uma produção intersemiótica (base linguística relacionada às Artes Visuais), a fim de abordar temáticas diversas em termos de sua consciência crítica e de seu posicionamento na sociedade. Conforme Perrone (2003), a criação intersemiótica é definida como “a interação de signos linguísticos variados: a palavra impressa em múltiplas representações tipográficas e espaciais, o verso ilustrado, o projeto gráfico, a fotografia e a mistura disto tudo”.

Assim, o poeta possibilita o trânsito da poesia por novos espaços, com novos leitores e novos olhares. Sua produção é diferenciada dos outros poetas da mesma vertente de poesia pelo fato de ele apropriar-se da linguagem, de recursos e de suportes na forma singular como leva o leitor ao “espanto”. Sobre isso, conforme Smith, a Poesia Visual é “o espanto do falante perante a própria língua, concretizado em evento estético na frágil fronteira entre percepção óptica e linguística” (1983). Isso em quem lê/vê sua obra devido à forma como desbrava a linguagem em suas múltiplas possibilidades de expressão.

Por fim, a produção poética de Jairo Fará configura-se como um espaço de confluências de diferentes linguagens e formas de veiculação (redes sociais – livro digital – videopoema – exposições – publicações impressas …). O leitor comunga com a poesia e penetra no poema tendo a possibilidade de produzir sentidos diversos e a recriar em outros gêneros textuais. E é esse refazer ou reconstruir poético do leitor que revela o homem reflexivo e criativo no universo disponibilizado pela comunicação.

A Poesia Visual é um espelho de nossa cultura contemporânea e o retrato contundente dos caminhos que a literatura pode trilhar na era tecnológica. Que este ensaio tenha despertado o prazer da leitura e instigado a reflexão sobre os temas aqui abordados!

Dicas de eventos: o poeta visual Jairo Fará está com uma exposição na galeria de arte do Museu Regional de São João del Rei (para quem ainda não conhece a cidade, vale a pena conferir), no período de 10 de dezembro de 2025 a 22 de fevereiro de 2026. Nesta, estão poemas clássicos, que já participaram de várias exposições como o “Poomo”, “Poemaço”, “Meia Homenagem a Drummond” e “Cuidado com o Não”. E poemas mais recentes como “Minifúndio”, “O Pregador”, “Poema Não Objeto” e “Papelão Social”. A exposição já recebeu mais de 2 mil visitas, em pouco mais de um mês. Um destaque é o poema-interativo “Poetize Aqui”, um mapa do Brasil em tamanho A2, no qual os visitantes escrevem seus poemas ou suas ideias.

E o lançamento do livro “Passe pela Catraca”. Este ocorrerá dia 7 de fevereiro, na Casa Literíssima, em BH. O livro está sendo produzido pela Editora Literíssima, sem custo nenhum para o autor. Por enquanto, está ocorrendo a pré-venda. E em São João del Rei, será lançado dia 25 de fevereiro, na Taberna do Omar. Nos dois lançamentos, os poetas presentes poderão ler seus poemas. O livro é o resultado dos últimos 15 anos de trabalho do poeta Jairo Fará. São 80 páginas coloridas, com poemas visuais, poemas verbais e textos de prosa poética.

Leia a entrevista e análise de poema visual no ebook gratuito: https://drive.google.com/file/d/132aElYGsRfyhazWQI2E7qpIihaoxUNbX/view?usp=sharing

Renata Barcellos

Voltar

Facebook




Violência contra a mulher

Renata Barcellos

‘Entrevista com Vania Zanelli sobre violência contra a mulher’

Logo da seção 'Entrevistas ROLianas
Logo da seção ‘Entrevistas ROLianas’
Vania Zanelli
Vania Zanelli

Minicurrículo: psicóloga clínica, com atuação voltada à escuta do sofrimento psíquico e das dinâmicas relacionais. Trabalha com mulheres em diferentes fases do ciclo de vida, especialmente nos atravessamentos ligados a vínculos, violência simbólica e violência explícita. É comprometida com a promoção da autonomia psíquica e do empoderamento feminino, considerando o contexto histórico e respeitando a linguagem e a singularidade de cada subjetividade – CRP 06/115038.

Entrevista

1. Como surgiu seu interesse pela temática da violência contra a mulher?

Vania Zanelli: Na infância, havia uma casa vizinha a minha de onde, por vezes, vinham barulhos que me intrigavam e me inquietavam. Eu me perguntava quem morava ali. Até que descobri que era uma família e que havia uma menina da minha idade. Na época, eu tinha cerca de seis anos e morava em Campinas, interior de São Paulo. A curiosidade infantil me levou a pedir para brincar com aquela menina e minha mãe articulou a possibilidade de nosso primeiro encontro, com a mãe dela.

A menina vinha brincar comigo, pulando o muro, no horário que o pai estava trabalhando, para que ele não soubesse. Isso sempre me intrigou profundamente. Sobretudo, os gritos quando ela apanhava do pai, o silêncio quase absoluto enquanto brincávamos, poucas palavras, os aparentes hematomas, nenhum sorriso e um olhar triste e distante. A mãe da menina, sempre com medo, permitia que a filha fosse brincar comigo, mas a buscava antes do horário do marido voltar do trabalho, agradecendo a minha mãe, mas deixando sempre transparente seu receio do marido descobrir, como se ela estivesse fazendo algo proibido ou errado.

Essa lembrança me acompanha até hoje, embora seja apenas uma entre tantas outras cenas de violência contra o feminino que presenciei ao longo da vida. No olhar de criança, a elaboração dos fatos não acontece como no olhar de um adulto, contudo, supõe-se que haverá o impacto psíquico dessas lembranças acumuladas, se inscrevendo. Mesmo sem compreender plenamente na época, essa experiência marcou de forma silenciosa meu interesse pelo tema da violência e pelo sofrimento psíquico que se instala quando o medo passa a organizar a vida das mulheres.

2. Em um mundo tão tecnológico, com acesso a tantas informações, como os casos só aumentam e são cada vez mais cruéis?

Vania Zanelli: Muitas vezes me pergunto se os casos estão apenas aumentando ou se estão ganhando mais visibilidade. A violência contra a mulher, tanto simbólica quanto física, não é um fenômeno do tempo atual. Trata-se de uma construção histórica que atravessa gerações e que, por muito tempo, foi naturalizada e silenciada.

Constata-se que a tecnologia vem possibilitando progressivamente a ampliação ao acesso à informação e à denúncia, mas não transforma, por si só, as bases culturais que sustentam a violência. Vivemos em uma sociedade que historicamente objetificou o feminino, reduzindo-o a algo frágil e controlável, como existisse para servir ao masculino. Nesse contexto, a informação circula, mas a elaboração psíquica e a transformação das relações de poder avançam de forma muito mais lenta.

3. A que fatores pode-se atribuir a violência contra a mulher?

Vania Zanelli:  A violência contra a mulher não pode ser explicada por um único fator, pois ela é multifatorial. Ela é o resultado de uma combinação de fatores sociais, culturais e emocionais que se repetem e perpetuam, ao longo da história. Por muito tempo, o feminino foi ensinado a ocupar um lugar de submissão, enquanto o masculino foi associado ao poder e ao controle. Essa lógica ainda atravessa muitas relações contemporâneas.

Um dos pontos centrais nesse processo é a forma como o feminino foi historicamente objetivado. Objetivar o feminino significa deixar de enxergar a mulher como um ser humano, com pensamento, afeto e autonomia, passando a tratá-la como algo que existe para atender as expectativas do masculino. Quando uma pessoa é vista como objeto, sua existência é desconsiderada, sua dor é minimizada e sua voz é desacreditada.

Na clínica, é comum ouvir relatos de mulheres que foram desqualificadas, chamadas de exageradas ou loucas, entre outras palavras violentas, até que conseguissem comprovar que aquilo que percebiam no seu dia a dia estava, de fato, no campo da realidade, como em situações de traição ou manipulação emocional por parte do companheiro. Muitas vezes, a violência começa de forma silenciosa, por meio de humilhações, controle emocional e desqualificações constantes, antes de se tornar física. Em alguns casos, essa escalada chega a desfechos extremos. Os dados sobre feminicídio no Brasil revelam uma realidade alarmante e confrontam nossa própria condição humana de existir perante tais absurdos.

4. De qual forma isto pode ser combatido?

Vania Zanelli: O enfrentamento da violência contra a mulher exige ações em diferentes níveis. Políticas públicas eficazes, redes de proteção fortalecidas e responsabilização legal dos feminicídios são fundamentais. Ainda assim, é indispensável cuidar das mulheres que sofrem violência e, ao mesmo tempo, questionar os modelos de masculinidade que sustentam comportamentos violentos.

Nomear a violência, reconhecê-la, responsabilizar e romper com o silêncio são movimentos essenciais. Percebe-se impacto positivo no uso consciente das redes sociais, onde grupos de mulheres têm se organizado para manifestarem o que antes era silenciado, fortalecendo-se coletivamente e ampliando repertórios para enfim se desvencilharem do cativeiro emocional imposto por muitos agressores.

Conscientizar o masculino para romper com padrões cruéis, aprendidos ao longo do tempo, também é central. A educação das crianças ocupa um lugar decisivo nesse processo. Criar meninas com direito à fala, ao amor-próprio e ao respeito e meninos com espaço para reconhecer seus sentimentos e respeitar a existência do feminino, é um caminho em construção, que exige tempo, cuidado e compromisso. Sou defensora do diálogo como instrumento fundamental de conscientização, educação e transformação.

5. Mensagem às mulheres

Vania Zanelli: Nenhuma forma de violência é pequena ou justificável. Reconhecer isso é romper com o que foi naturalizado, é retirar o véu do que foi ensinado como certo, durante longos anos de nossa história. Aquilo que machuca, diminui, confunde ou silencia não é cuidado, não é amor, não é vínculo. É agressão.

Toda mulher tem o direito de existir sem medo, de sustentar sua voz, de construir relações que não adoeçam e de ocupar seu lugar no mundo com dignidade, inteireza e liberdade.

Renata Barcellos

Voltar

Facebook




Fraternar é preciso

Renata Barcellos: ‘Fraternar é preciso’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Imagem criada por IA da Mea – 9 de dezembro de 2025,
às 9:03 PM

Neste primeiro fim de semana de dezembro, houve o encerramento do ano maçônico de 2025. No GOB (Grande Oriente do Brasil), em Brasília, reuniões para os cunhados e atividades para as cunhadas / fraternas. Sexta-feira (5-12), eu e meu esposo Campos Filho assistimos à premiação das FRAFEMs (Fraternidade Feminina Cruzeiro do Sul). Trata-se de uma Associação Civil Paramaçônica Feminina não iniciática, sem fins lucrativos, vinculada ao GOB e criada pela Constituição do GOB de 1967. Esta é constituída por esposas de Maçons, assim consideradas aquelas com eles civilmente casadas, ou que com eles mantenham união estável.

Também serão admitidas como fraternas, mães, viúvas, irmãs, filhas, e outras familiares de Maçons do GOB, tais como: enteadas, cunhadas, sogras, sobrinhas, tias, primas, avós e netas, todas maiores de 18 anos de idade, além de antigas integrantes da Ação Paramaçônica Juvenil (APJ), Filhas de Jó Internacional, Meninas Arco Iris que destas tenham se desligado em função da idade. A presença da mulher na Loja Maçônica fortalece a Fraternidade e conscientiza os Maçons do seu papel na educação, na união e na ambiência cristã.   

Antes da divulgação do resultado das FRAFEMs, foram apresentados os belos trabalhos realizados. Um mais encantador que o outro. Uma fonte de inspiração e de solidariedade. Pudemos ratificar como é possível (apesar de todas as mazelas), ser realizado um trabalho sério. Fraternar é preciso!!! Que venha 2026!!!

O resultado foi 1° Projeto de apoio a crianças em ambiente hospitalar (Paraná)                     

2° Projeto musical para crianças carentes do município de Mafra (Santa Catarina).

3°: Caminhos da Inclusão ( Bahia)

Minas Gerais ficou com o prêmio de Expansão, por fundar e reativar FRAFEMs.

E o prêmio de maior nota técnica dada pela comissão julgadora ficou com o Paraná também com o projeto: Humanizando e acolhendo. Todos os projetos estão disponíveis no site do GOB: https://www.gob.org.br/fraternidades-que-inspiram-2025/.

No sábado (6-12), foi programado um roteiro para nós cunhadas e fraternas. Podíamos optar por CITY TOUR (Memorial JK → Catedral → Congresso Nacional → Praça dos Três Poderes → Pontão), Feira dos Importados ou ida ao Centro de Convivência do Idoso (CCI) localizado no Varjão-DF para Ação Social. Como contribui para compra das cadeiras, fui à instituição. O local é longe do GOB.  Fica localizado na Quadra 5 / Conjunto A Lote 18*. Até chegarmos lá, ainda conhecemos outras regiões.

A ação social no CENTRO DE CONVIVÊNCIA DO IDOSO (CCI) foi realizada pelas cunhadas e/ou fraternas (cuja presidente nacional é a cunhada Virgínia Montagnana) e a cunhada Fátima Carvalho, (do Estado do Piauí – coordenadora das esposas dos Parlamentares, dos deputados federais da SAFL: Soberana Assembleia Federal Legislativa), com apoio do GOB. Segundo a coordenadora, a semente da ação social em Brasília, no CCI, foi lançada “por mim Maria de Fátima Silva Carvalho, da Fraternidade Feminina Cruzeiro do Sul “Corrente da Fraternidade”, filiada a ARLS Cruzeiro do Sul V, Oriente de Teresina/Piauí, no grupo das esposas dos deputados federais, em julho deste ano.

A ideia foi recebida com grande entusiasmo por 88 Poderosas do grupo.  Até o dia 22/11, recebemos a contribuição destas 88 Poderosas, no valor de 40,00 reais, totalizando 3.420,00 reais. Vale ressaltar que tivemos ajuda da fraterna Elaine Albuquerque, que não é esposa de deputado federal, e sim Diretora Social da Frafem Nacional. Mas com muito carinho e atenção nos auxiliou, pesquisando o local para entrega da doação de 10 cadeiras de rodas, sendo 6 cadeiras de rodas, para pessoas com 100 e 80k, e 4 de banho, e a compra. Elaine, conseguiu com o Grão-Mestre Geral, Soberano Ademir Cândido, os 2 ônibus que nos transportou até o Abrigo, e junto a nós, outras fraternas que estavam no GOB para outros eventos, nos acompanharam, totalizando 112 fraternas. Além do transporte, o GOB ofereceu um café da manhã para todos os internos, como também as fraternas.

Aproveito esse momento, para ressaltar minha gratidão a todos e todas, que permitiram que esse sonho se transformasse em realidade. E a luta continua, faremos mais ações, nos meses de junho e dezembro”. Vale dizer que apoiamos esta iniciativa e a sua continuidade em 2026.                                                        

Lá, fomos recebidas pela presidente do CCI, Eunice, juntamente com os idosos atendidos diariamente (entre 60 e 80 idosos em situação de vulnerabilidade) pela instituição, mantida se exclusivamente por meio de doações. Lá, foi oferecido café da manhã para a confraternização e entrega das cadeiras. Foram doadas seis cadeiras de rodas e quatro cadeiras de banho. De acordo com a fraterna Andreia Costa Tostes (esposa do Deputado Federal: José Carlos Zanelli, da Loja Plenitude, em Florianópolis – SC – “fundadora” da *Fraternidade Feminina Cruzeiro do Sul Plenitude*.

Atualmente, faz parte da Fraternidade de nossa Loja, ajudando no que me é possível nas ações beneficentes. Coordenadora de Gestão de nossa Empresa, Instituto Zanelli – Treinamento, Desenvolvimento e Educação nas Organizações e no Trabalho LTDA.), “Compartilho com vocês que essa ação beneficente foi por demais rica para mim, ao conversar, com a D. Lindaura, uma idosa de 93 anos, doce e batalhadora que em breve conversa pude perceber sua força e vitalidade. Mãe de treze filhos e que mesmo com sua idade avançada ainda carpina, planta batata doce e milho, limpa toda a sua casa e também está cuidando de um “porquinho” de um vizinho para, segundo ela, “assa-lo” na virada do ano … por fim, pedi a ela uma oração, como uma benção a mim e ela prontamente me respondeu: você já está em minhas orações, minha filha.

Contudo, emocionada mesma fiquei quando ela me disse que o lencinho que enrolava seu pescoço foi doado por um rapaz de Florianópolis que a havia conhecido ali (Instituição de Longa Permanência). Detalhe, em nenhum momento comentei com ela de onde eu era. E, de súbito, lhe disse que eu também era de Florianópolis, pedi seu endereço e lhe prometi também enviar-lhe um presente. E, ela se abriu em um sorriso que guardarei para sempre em meu coração. D. Lindaura nem imagina que o maior presente fui eu que ganhei ao conhecê-la. Afetuosos abraços”.                                                                                                              

E, para encerrar 2025 de diversas ações sociais, houve o clássico Baile de Gala, no sábado, à noite. Neste, participam os maçons, as cunhadas, as fraternas, os amigos… Vale dizer que a maçonaria é composta essencialmente por idosos. Por mais que tenham maçons, cunhadas e fraternas mais novos, é preciso respeitar a idade predominante e a instituição. Por exemplo, as músicas escolhidas pela banda, a vestimenta das esposas, convidadas… A postura em geral. Ninguém deve se sentir constrangido diante de uma situação seja pelo conteúdo do que se ouve seja pela vestimenta.                                                  

Urge os mais jovens conhecerem a maçonaria. Se interessarem em fazer parte, a fim de contribuírem para um mundo mais solidário. E, por consequência, as esposas participarem e ou criarem de uma fraternidade e, assim, tornarem-se uma fraterna.   

Se você que está lendo esta matéria, se não conhece o trabalho da maçonaria, a importância na história do Brasil da atuação desta instituição e a FRAFEM, acesse o site https://www.gob.org.br,  assista ao vídeo Como posso me tornar maçom? https://www.youtube.com/watch?v=bev67MPk920&t=6s, inscreva-se no TV GOB: https://www.youtube.com/@TVGOB. Venha lutar por um mundo mais humano, solidário e justo!!!

Renata Barcellos

Voltar

Facebook




Educação fim de linha

Renata Barcellos: Artigo ‘Educação fim de linha’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Imagem criada por IA da Meta
Imagem criada por IA da Meta

Findo o ano de 2025 aposentada na matrícula mais antiga da Rede Estadual do Rio de Janeiro. Formei-me em 1996 em Português/Francês. São quase trinta anos de ensino de língua materna e estrangeira. Quando iniciei a docência, ministrava aulas em cursos de línguas no município do RJ e, na baixada, especificamente, no Sargento Roncalli. De lá, tenho ótimas recordações de alunos e fiz amigos. Nesse período, dediquei-me a pesquisas. Fui do curso de extensão ao doutorado. Minha prática pedagógica foi sendo aprimorada à medida que eu ia desenvolvendo pesquisas.                                                                            

     Como a palavra “educação” tem origem no latim e se conecta a duas raízes: educare (“criar”, “nutrir”, “alimentar”) e educere (“conduzir para fora”), a etimologia sugere a ideia de guiar o indivíduo para fora de si mesmo, desenvolvendo seu potencial e preparando-o para o mundo. Essa concepção norteou minha prática pedagógica até hoje. 

     Entretanto, chegar à aposentadoria e ao fim deste ano letivo e constatar o desmonte da EDUCAÇÃO é lamentável. Anos de dedicação, estudo, de práticas inovadoras, matérias, artigos, livros e ebooks publicados para me encontrar em um CAOS: professores doentes, alunos desinteressados, carga horária excessiva, má formação e infraestrutura, assédio moral…                                                                          

     Especialistas alertam que a romantização da docência e a ausência de legislação federal específica criam um cenário de “violência invisível” e impunidade. Isso acarreta o padecimento em massa nas escolas (de todos os envolvidos: do aluno à direção). Na sala de aula, professor se depara com falta de material, desrespeito, muitas vezes, Bullying, a desordem impera. E todos adoecem. Há relato de que o professor passou mal em sala no fim do turno e levou falta por ter saído umas horas antes de findar o horário. Muitas denúncias de assédio moral. A prática vem atingindo “níveis alarmantes”, onde o ambiente escolar TÓXICO está se transformando em um local de adoecimento físico e/ou psíquico.                                                                                                                                          

       A sala de aula se tornou um ringue. Vence quem é o mais astuto. Nós, professores, entramos em um campo de batalha, minado. Por mais que organizemos as atividades, jamais poderemos imaginar o que nos acontecerá. Os nervos vivem à flor da pele. Qualquer barulho abala nosso sistema nervoso. Constantemente, estamos “no limite”.                                                                                             

      Vale ressaltar que o professor não é um missionário. Somos profissionais! Porém, muitas vezes, ainda a sociedade nos vê como “segunda família”. Impera uma visão romantizada da docência. Isso acarreta um mecanismo de silenciamento. Porque somos “SUPER HERÓIS”. Há uma cultura de que a culpa da violência institucional é nossa. Por quê? A que ouvimos e lemos constantemente: não somos competentes, não temos domínio de turma, não organizamos uma aula motivadora, não construímos o conhecimento, não temos capacitação para lidar com as múltiplas deficiências… Triste realidade! Estamos exaustos! Desmotivados! Abalados!                                                           

       O Brasil lidera rankings internacionais de violência contra professores (OCDE). O resultado prático é o esvaziamento das licenciaturas (ainda mais com a reforma da previdência) e o aumento exponencial da Síndrome de Burnout. A escola é uma instituição de construção de conhecimento. Não triturador de sonhos. Este local precisa ser frutífero: disseminador de conhecimentos, realização de descobertas…. Um local de satisfação, contemplação… Jamais de destruição de corpo e alma.                                                                                                                                                 

       Para quem veste a camisa da Educação, diariamente, é desolador, aterrorizante ler notícias de ataques (seja lá qual for a natureza da violência) nas escolas.  Passei minha vida em sala de aula (ora como aluna ora como professora) e jamais poderia imaginar que viveria uma total desordem neste ambiente de construção de conhecimento. Como professora de literaturas, na atualidade, raramente, um aluno lê o texto sugerido. Aliás, até mesmo professor pouco lê muitas vezes. Estamos na Era do Imediatismo, de consulta à IA… Quem “gasta” seu “HD” refletindo…?                                                                                          

      Devemos entender que a vida é um grande palco, interpretamos a todo momento. Mas no palco da sala de aula, ninguém quer ser o “palhaço”. O aluno precisa ser orientado de que estudar é um ato solitário. Precisamos de silêncio para refletir, estabelecer relações. A vida não é uma grande festa 24 horas.                                                                                        

      E, no “apagar das luzes” de 2025, a rede Estadual de Educação do Rio de Janeiro está divulgando uma mudança feita por meio do decreto nº 49.994/2025  decreto assinado pelo governador do estado, Cláudio Castro. Este com o objetivo de reduzir a evasão escolar, o governo do Rio de Janeiro autorizou que “alunos do ensino médio reprovados em até seis disciplinas possam avançar para a série seguinte. Esses deverão cumprir um regime especial de recuperação no ano seguinte, no qual deverá ser concluído até o fim do primeiro trimestre”. 

      No caso dos alunos do 3º ano do Ensino Médio, o limite de reprovações reduziu para três disciplinas. Se aprovados na recuperação, poderão receber o certificado de conclusão do Ensino Médio. Concorda?                                                                                                     

     A questão é: para esta Geração Alpha (2010-2025 – os mais jovens, nascidos em um ambiente digital e imersos em tecnologia), há sentido em estudar? Quem estudará? Alguém prestará atenção no professor? Como preparar os alunos para ENEM, UERJ, PUC RJ com esta alteração? Há 30 anos preparo para exames externos (esses e para ingresso na carreira militar), especificamente os alunos da rede Estadual do RJ, nunca vi tamanho desinteresse já neste ano de 2025. Estou imaginando a partir de 2026 como será.                                                                                                                                           

      Quanto às leis nº 10.639/2003 (estabeleceu o ensino da cultura afro-brasileira) e 1.645/2008 (ampliou essa obrigatoriedade ao incluir a cultura e história dos povos indígenas), urge apresentar escritores, escola literária a qual pertence e seu estilo. Fica a dica para conhecerem outros autores contemporâneos no ebook Navegando nas Literaturas afro-brasileiras e indígenas.  

       Por uma educação de qualidade!!! Os alunos da Rede Estadual do Rio de Janeiro merecem ser bem preparados!!! Abaixo o decreto nº 49.994/2025 !!!!

Renata Barcellos

Voltar

Facebook




Textos literários no Enem 2025

Renata Barcellos: ‘Textos literários no Enem 2025’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Renata Barcellos. Arquivo da autora

Dia 9 de novembro de 2025 foi aplicada a primeira etapa da prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de linguagens cuja prova é objetiva, com 45 questões e uma redação com a temática “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Um dos temas cogitados por mim desde o início do ano letivo. As duas etapas das provas são estruturadas em quatro matrizes de referência. Um dos meus Pós-doutoramento foi na análise das elaborações das questões de análise linguística a partir dessas matrizes.                                                                                                                                                     

      Nesta edição, quanto às questões propostas a partir de textos literários, foram 10 de diferentes escolas literárias.  O primeiro texto foi a contemporânea Ana Elisa Ribeiro (professora titular do CEFET-MG, pesquisadora do CNPq e escritora – poeta e editora – @anadigital) intitulado De próprio punho, publicado no jornal Rascunho, em 2021. Segundo ela, “interessante ter o texto no Enem. Para a escritora, uma grande oportunidade de ser lida e ter um momento para se dedicar ao texto. Enquanto linguista, um texto mais longo para cinco questões propostas com habilidades diferentes. Isso faz com que o candidato leia-o para entender e responder. Considerei uma indução interessante de um texto mais longo em relação aos textos fragmentados para uma questão. Como o Enem propôs isto: ler textos maiores, as escolas precisam reforçar. Se isso for uma tendência do Enem, dar mais atenção a textos mais longos para o desenvolvimento da leitura. Foi uma mudança interessante além de ser um texto meu. Isso pode induzir também a da formação”.                

      O contemporâneo Ruy Castro (jornalista, biógrafo e escritor brasileiro contemporâneo), sempre seus textos estão presentes nas provas de concurso. Em entrevista a Biblioteca Pública do Paraná:

“Certa vez me perguntaram: ‘Ruy, você faz livros e trabalhou a vida inteira como jornalista, sente-se mais jornalista ou escritor?’. Respondi que as duas coisas, dependendo do instrumento que eu estou tocando no momento. Mas trocaria essas duas atividades por uma outra, muito mais importante para mim, que é ser leitor. Eu deixaria de ser escritor tranquilamente para ser apenas leitor, se pudesse. Hoje mesmo dei um pulo num sebo aqui em Curitiba, o Fígaro, e o Paulo, dono do local, pediu que eu autografasse um livro para a loja. Escrevi o seguinte: “Quando morrer, não quero ir pro céu, quero vir pro Fígaro”. E é verdade, após a morte, eu iria para um sebo, para uma biblioteca ou para qualquer lugar que tivesse livros, jornais ou até mesmo bula de remédio para ler”.  Um fragmento do texto proposto no Enem: “Frases feitas são aquelas que entram por um ouvido e saem pelo outro sem um estágio intermediário no cérebro. A boca fala por conta própria, dispensando-nos de pensar. E não tem problema nisso. Ou as ditas frases se incorporam à língua ou morrem e nascem outras. A língua é assim. Simples assim.assim”.                                                                                                                             

      Visconde de Taunay autor de “Inocência”. Um romance que narra a trágica história de amor entre Inocência (uma jovem do sertão de Mato Grosso) e Cirino (um farmacêutico que se passa por médico). O romance acontece no Brasil do século XIX e explora o choque entre o mundo patriarcal do sertão, onde Inocência é prometida a Manecão, e a paixão proibida surge com Cirino. Trata-se de um romance regionalista brasileiro do Romantismo, dividido em 30 capítulos e cada um é introduzido por uma citação – mais um epílogo.                                                                                                                    

      Marcelino Juvêncio Freire (Sertânia, 20 de março de 1967) é um escritor contemporâneo brasileiro e editor – @marcelino_freire_escritore vencedor do Prêmio Jabuti (2006) com o livro “Contos negreiros” no qual apresenta uma releitura moderna do preconceito, dando um novo olhar aos marginalizados da sociedade.                                         

      Gilka Machado foi uma poetisa simbolista brasileira. Ficou conhecida como uma das primeiras mulheres a escrever poesia erótica no Brasil. Hoje, praticamente, apagada das instituições de ensino.  Quando se reporta ao Simbolismo se restringe a abordar Cruz e Souza. Isso ocorre até nas licenciaturas. Ótima iniciativa ser proposto um texto da autora a fim de estimular a leitura de sua obra.                 

       Renato Galvão (escritor, poeta, artista e produtor cultural)
O fragmento proposto foi o da obra Borboletas no Estômago descreve tal efeito através de textos poéticos que nos faz refletir.                                                                                                                             

      Vicente de Carvalho (1866-1924 – advogado, jornalista, político, abolicionista, fazendeiro, deputado, magistrado, poeta e contista brasileiro). É considerado um dos maiores poetas parnasianos brasileiros, conhecido por sua linguagem precisa, rigor estético e temas que incluem o amor, a morte e, especialmente, o mar. Entretanto, pouco é estudado da Educação Básica à Superior.                                     

      Eliana Alves Cruz (escritora contemporânea brasileira, roteirista e jornalista. Prêmio Jabuti de Contos 2022 – @elialvescruz). Nesta prova, é  proposto um fragmento do romance histórico “Água de Barrela”. O livro narra a saga de uma família negra por gerações, desde o período da escravidão no Brasil até os dias atuais, abordando temas como ancestralidade, resistência e as marcas do rascismo cultural estrutural.                                                                                                                                   

       Jorge de Sá (escritor, poeta e diplomata brasileiro contemporâneo). O fragmento do texto proposto de autoria do autor é uma reflexão sobre conto e crônica:  “Sendo a crônica uma soma de jornalismo e literatura (daí a imagem do narrador-repórter), dirige-se a uma classe que tem preferência pelo jornal em que ela é publicada”. Este tema já foi abordado por diversos escritores. Trata-se do recurso linguístico da metalinguagem.            

      Carmen Dolores (pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo – 1852-1910, uma das escritoras brasileiras mais influentes no início do século XX e também pioneira na luta pelos direitos femininos. Em uma época na qual mulheres sequer podiam votar, Emília tratou, com sua escrita incisiva e corajosa, de temas incendiários, como o direito ao divórcio, à educação e a igualdade no trabalho, além de ironizar o conservadorismo católico. A autora ingressou na imprensa como diletante ao ficar viúva, com seis filhos para criar. Passou a escrever crônicas — assumindo a coluna de Machado de Assis, no jornal O paiz —, artigos de crítica literária e contos até sua morte, tornando-se a colunista mais bem paga no Brasil). Outra escritora proposta “apagada” da historiografia literária. Precisa ser trabalhada da Educação Básica à Superior. Em uma época na qual a mulher não tinha “voz” e era “impensável estes temas”, ela teve coragem de abordar e lutar por temas tão delicados. O Enem propôs um fragmento da sua obra mais famosa é A luta (livro de estética naturalista publicado pela Garnier, em 1911. Anteriormente, publicado em folhetim pelo Jornal do Commercio, em 1909).

      Outra escritora contemporânea de Dolores é Andradina América de Andrada e Oliveira (1864 – 1935: jornalista, escritora, atriz, dramaturga e líder feminista brasileira. Fundou em 1898 o jornal literário Escrínio). Esta também defendeu o direito ao divórcio. Escreveu dentre outras obras, Divórcio, em 1912, na qual defende o divórcio “pleno”, para dar uma nova chance às mulheres subjugadas por casamentos infelizes. Estas duas escritoras à frente de seu tempo devem ser estudadas da Educação Básica à Superior.                                                                                                                                                 

       E a última a ser abordada foi Clarice Lispector (1920-1977 – autora de romances, contos e ensaios. É considerada uma das escritoras brasileiras modernistas mais importantes do século XX). A questão proposta foi um fragmento da obra Aprendendo a viver. Trata-se de uma seleção das crônicas confessionais que a escritora escreveu no Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973. Organizado por Pedro Karp Vasquez, o livro reúne uma série de textos em que a escritora conta sua própria vida, na primeira pessoa. Detalha passagens marcantes de sua história ao divagar sobre os temas mais variados e revela particularidades de seu cotidiano e esmiuça seu processo criativo. Neste, por exemplo, ela revela quais foram os livros que marcaram cada fase de sua vida e rejeita o rótulo de intelectual: “Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto”. Cabe dizer que tenho alma “clariceana”.                                                                                                                             

      Para concluir, cabe dizer que, cada vez mais, urge explorar textos diversos e das diversas escolas literárias. E de autores “apagados”, “cancelados” também… Não se restringir aos clássicos. Os candidatos precisam comprovar nas provas externas a importância das Literaturas. Como disse Eliana Alves Cruz, a literatura é “uma agulha para costurar a tapeçaria da nossa história”. E como há belas agulhas dispostas a coser as memórias do povo brasileiro. Vale destacar a falta de autores africanos e indígenas nas questões propostas. As Leis nº 10.639/2003 estabeleceu o ensino da cultura afro-brasileira e 11.645/2008 ampliou essa obrigatoriedade ao incluir a cultura e história dos povos indígenas. Fica a dica para conhecerem outros autores contemporâneos no ebook Navegando nas Literaturas afro-brasileiras e indígenas .  Viva as LITERATURAS!!!!

Renata Barcellos

Voltar

Facebook




Projeto Com a palavra o autor

Renata Barcellos: Projeto ‘Com a palavra o autor’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Renata Barcellos e Regina Pouchain

Este projeto consiste em os alunos do Terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Estadual José Leite Lopes (NAVE RJ – disponível Link de ebook gratuito) interagirem com os escritores afro-brasileiros e indígenas. Trata-se de um trabalho final de Ensino Médio com objetivo de conhecerem autores contemporâneos das diversas vertentes literárias.  A proposta sugerida foi de apresentarmos uma minibiografia, redes sociais, foto, uma breve entrevista acompanhada da técnica da retextualização cuja definição é “o processo de transformação de uma modalidade textual em outra […]. Reescrita de um texto para outro, processo que envolve operações que evidenciam o funcionamento social da linguagem” (DELL’ISOLA, 2007, p. 10).                                                                                                                                                   

    As literaturas contemporâneas abordam temas instigantes e complexos, refletindo a realidade e as preocupações do nosso tempo. Entre os temas mais relevantes, destacam-se a diversidade e inclusão, as questões sociais e políticas, a memória e a identidade, o meio ambiente e a tecnologia, além da exploração da experiência humana em um mundo globalizado e em constante transformação. Urge adotarmos a leitura de autores contemporâneos também em nossas práticas pedagógicas da Educação Básica à Superior.                                                                                                                                         

     Na poesia, especificamente, na vertente literária da Poesia Visual, vertente datada de 300 a.C, ganhou impulso a partir das vanguardas estéticas como movimento artístico do século passado. A Poesia Concreta, parte desse movimento, de forma singular promoveu a ruptura da tradição artística pelas inovações estéticas com uma linguagem poética inaugural de sólida base teórica e de procedimentos planificados, visuais e sintéticos. Apropriou-se de princípios estéticos de diversas tendências artísticas, teorias, autores e obras e desdobrado em poema-processo e a videopoesia, definindo a poesia visual contemporânea. Por exemplo: a obra de Regina Pochain está pautada pela visualidade e tecnologia, a fim de suscitar questões referentes à metalinguagem, intertextualidade e intersemioticidade, compondo uma multiplicidade de relações, de uma polissemia poética vetorizada a uma abstração plástica da palavra, numa relação de procedimentos contemporâneos Pós-Modernos.  

  Assim, a partir do uso d as linguagens: verbal (escrita) e não verbal (imagens) e sua fusão semissimbólica, forma-se um novo código: a Poesia Visual. A poesia vinculada a elementos imagéticos compõe uma estética híbrida própria de uma parte da produção literária contemporânea. A visualidade, como elemento semiótico constitutivo do poema, suscita aos leitores novos caminhos interpretativos.          Quanto a uma das escritoras do projeto Com a palavra o autor, REGINA POUCHAIN, realizado por: Camila Oliveira e Iasmim Loranny, da turma: 3001.

MINIBIOGRAFIA: carioca, poeta, designer gráfica, artista intermídia, programadora e diagramadora visual, engajada no poema contemporâneo experimental e na poesia discursiva; produzindo em artes visuais e outros meios; pós-graduada em Artes e Filosofia pela PUC; vem realizando projetos diversificados próprios de criação; curadoria e exposições, publicações de livros e obras tais como, fotopoemas, poema visual gráfico, poemas matemáticos – eletrônicos, poemasobjetos, desenvolvendo trabalhos com mídia mista, colagens, desenhos e pintura, livros-de-artista, participando em diversas revistas eletrônicas e projetos em co-autoria com o poeta gráfico Wlademir Dias-Pino.

REDES SOCIAIS:

Facebook: https://www.facebook.com/rpouchain

 Instagram: @reginapouchainhttps

 Blog: wwwlambuja.blogspot.com/?view=flipcard

Entrevista

1.Qual foi a sua primeira obra?

R. Minha primeira obra escrita e publicada chama-se Partitura Maghinética. Trata-se de um romance na linha tradicional.

2. Qual a obra que você já fez e foi a mais “difícil”?

R. Minha obra mais “difícil” de ser trabalhada foi Partitura Maghinética, por ter sido a primeira.

3. Qual a sua motivação?

R. Minha motivação em escrevê-la, está relacionada ao meu projeto de vida, que seria o de me tornar uma escritora e na medida do possível uma poeta de importância para a literatura brasileira. 

4. LIVROS RECOMENDADOS: LITERATURA TRADICIONAL

R. Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima (que considero a obra de poesia mais importante escrita no Brasil) 

Grande Sertão Veredas, de João Guimarães 

Rosa Qualquer, de Clarice Lispector 

A Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar 

NO POEMA VISUAL 

Conhecer a obra do poeta e artista gráfico carioca Wlademir DiasPino, especialmente o poema A AVE. Conhecer Hana Hatherly, poeta e artista plástica portuguesa nascida em Lisboa. Conhecer os trabalhos da poeta Regina Pouchain 

5. MENSAGEM AOS ALUNOS:

R. Para quem pretende tornar-se poeta ou escritor, assim como professor de literatura brasileira, é imprescindível ler/conhecer, tanto o tradicional quanto a vanguarda brasileira. E para quem não pretende nem uma coisa nem outra, a leitura/ cultura é indispensável para qualquer tipo de formação.

Análise de Poema Visual: Poesia

Por: Renata Barcellos

Ebook Poesia Visual: https://bit.ly/4dYXPHt

Poesia virtual

Neste poema, Regina brinca com a palavra “poesia”. Trata-se da figura de linguagem metalinguagem a forma textual poesia com o mesmo conteúdo no qual as letras são desordenadas como se estivessem no ar.  Há também o verbal “ver” no infinitivo e o pretérito “vi” que, juntamente, com o icônico a imagem do cadeado remete a algo oculto. O leitor pode estar diante de alguma imagem e remeter a outro sentido. Afinal, como disse Humberto Eco, a “obra é aberta”. Cada leitor imprime um sentido de acordo com sua vivência.

Renata Barcellos

Voltar

Facebook