A carta e a urna

Eduardo Martínes: Conto ‘A carta e a urna’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez
Imagem criada por IA do Gemini – 1º de fevereiro de 2026, às 08:01 PM

Berenice não entendia por que havia sido chamada para aquela leitura de testamento. Não conhecia o falecido, um tal de Aldo Schmidt, ou qualquer dos parentes e amigos que ansiavam por um quinhão. Mesmo assim, fez questão de chegar a tempo e se sentar antes mesmo de todos, tamanha a curiosidade. Na certa, haviam-na confundida com uma homônima. Berenice Ananias Louzada de Alcântara? Não! Não era possível que houvesse outra. Meu Deus, só poderia ser ela!

            Apesar de nunca ter visto aquelas pessoas, ninguém pareceu estranhar a presença de Berenice. Todos estavam mais interessados na voz do advogado, que lia as últimas vontades do seu ex-cliente, que morrera de alguma doença de velho há exatos 36 dias. Foi cremado, e suas cinzas cuidadosamente depositadas em uma urna, que estava sobre a estante de madeira de lei. Pela tonalidade avermelhada, obviamente que era mogno.

             Depois de pouco mais de 10 ou 15 minutos de leitura, eis que começou o falatório daqueles que não haviam sido beneficiados por nem um vintém sequer. Quase todos, na verdade, a não ser a afilhada, filha única da empregada. Solteirão convicto que fora, não deixou herdeiros em linha direta, mas apenas primos e sobrinhos. Mas por que o finado havia insistido para que a parentada estivesse presente? Era óbvia a intenção de caçoar daquele bando de parasitas pela última vez. Com certeza, Aldo estava gargalhando do além, enquanto os vivos, do lado de cá, o amaldiçoavam.

            E a balbúrdia prosseguia. Berenice se esforçava para manter a face rija, como querendo esconder expressões que pudessem gerar conflito. Rosto virado para o chão, sabia que os olhos a denunciariam, caso alguém os visse. Quieta. Absolutamente estática. No final de alguns minutos, que pareceram horas, a pequena plateia foi se dispersando, até que a mulher se viu sozinha na companhia do advogado. Um silêncio sepulcral tomou conta do local, até que, em seguida, foi interrompido pela mulher.

            — Senhor, por que fui chamada, já que nunca nem ouvi falar desse Smith?

            — Schmidt.

            — Que seja! Não faço a menor ideia de quem era esse homem.

            Mudo, o advogado se levantou e foi em direção à estante. Tomou a urna e um envelope ao lado. Virou-se com a intenção de dá-los àquela mulher, que nada entendia.

            — Por que o senhor está me entregando essas coisas?

            — Senhora Berenice, sou apenas o advogado. Nada sei sobre esse envelope. Mas o senhor Schmidt me orientou a entregá-lo à senhora. Ele me disse que a senhora entenderia tudo assim que lesse a carta que, suponho, esteja dentro desse envelope.

            — Carta?

            — Sim, há uma carta dentro do envelope.

            Apesar do estranhamento, a mulher esticou o braço e quase tomou o envelope das mãos do advogado. Ela olhou o objeto com cuidado, enquanto o homem, ainda em pé segurando a urna, apenas a observava. Berenice rasgou o envelope na lateral, de onde retirou uma carta, escrita com letra trêmula, mas legível.

            “Não lhe deixo algo valioso, pois bem sei que é uma senhora de posses. Como sei? Eu a fiz assim. E, antes que rasgue ou amasse essa missiva, deixe-me explicar.

            Como já bem sabe, meus pais me deram o nome de Aldo Schmidt. Nasci no dia 12/12/1912, uma data, no mínimo, curiosa. Mas nada que tenha a ver com o caso em questão, a não ser que a senhora acredite em astrologia. Creio que não, tamanho o período do seu luto, que acompanhei de perto, como fetiche de uma mente doentia.

            Nossas histórias se cruzaram há quase 60 anos, quando eu, ainda um jovem de 23, andava desgostoso da vida. Certamente, não por falta de opções, pois as possuía aos montes. Dinheiro não me faltava, pois nasci com o destino dos predestinados a uma vida de luxo. No entanto, o mundo aos pés não me parecia suficiente para tanta angústia.

            Após os festejos da chegada de 1936, lá me encontrava afundado, em todos sentidos, no amplo sofá na varanda da casa dos meus pais. Entediado de tantas bebidas, peguei um cigarro sobre a mesa de centro. Mal o acendi, percebi a chegada de Rita, uma das empregadas, que carregava uma lixeira e começou a catar os restos da noite anterior. Olhei-a com desprezo e imaginei-me esmagando aquele ser sem qualquer valor aos meus olhos de então.

            Ergui meu corpo e fui passear na ampla propriedade. O cigarro deu lugar a outro e mais quatro ou cinco. Lembro que parei diante da piscina, cujo fundo depositava uma enormidade de insetos. Havia um besouro, ainda com vida, na superfície, tentando se livrar do destino de se juntar aos seus semelhantes. Observei-o por, talvez, meia hora, até que o infeliz perdeu as forças e, vencido, afundou lentamente. Um prazer, até então incompreensível, tomou meu corpo.

            Não tardou, lá estava eu fora dos muros das posses que, não tardaria, seriam minhas, já que meus pais morreram, após quase dois anos, por conta de um fortuito acidente de carro. Digo fortuito, pois foi o terceiro prazer que senti, levando-se em conta o trágico fim daquele besouro. Todavia, nem o primeiro e, muito menos, o terceiro interessam à senhora. Apenas o segundo, que foi justamente aquele que enlaçou nossos destinos.

            Como havia dito, lá estava eu caminhando cada vez mais distante dos muros, quando decidi ir até o lago que, bem a senhora sabe, encontra-se a aproximadamente uma hora, dependendo dos ânimos dos passantes. Sentei-me numa enorme clareira em frente à placidez daquelas águas. Fiquei por ali por não sei quanto tempo, até que ouvi vozes. Virei o rosto e percebi que eram dois homens pouco mais velhos, mas que não haviam chegado aos 30, como soube alguns dias depois.

            Um era pouca coisa mais alto, encorpado, cabelos praticamente negros. O outro era esguio, quase loiro, olhos de um castanho bem claro. Não vou descrevê-lo com mais detalhes, mesmo porque, tenho certeza, a senhora poderia fazê-lo muito melhor. Afinal, era seu finado esposo.

            Aqueles dois foram ali para pescar. Colocaram as tralhas debaixo de uma árvore, conversaram algo que não consegui captar, apesar dos ouvidos atentos. Seja como for, seu marido pegou uma lata e uma pequena pá. Ele deu alguns passos em direção a uma terra mais fofa, onde começou a cavoucar em busca de minhocas. O amigo retirou sapatos e meias e foi em direção à beira, onde colocou os pés e pegou um pouco de água com as mãos para jogá-la no rosto.

            Não sei exatamente por que fiz, mas sei que o fiz. Peguei um robusto pedaço de pau ao lado e, decidido, caminhei em direção ao seu marido. Aproximei-me como um felino e, sem pensar, lhe desferi um golpe certeiro na nuca. Nenhum gemido. Ele caiu que nem jaca madura. Apenas o som abafado daquela face na terra úmida.

            Saí apressado do local, antes que o outro homem percebesse minha presença. Não me lembro de ter olhado para trás, até que voltei para casa, onde fui em direção à piscina. O besouro continuava lá, imóvel, junto aos seus. Creio que fui bem-sucedido, já que, até onde soube desde então, o amigo do seu marido jamais mencionou que tivesse visto alguém naquele dia.

            Sem suspeitos mais convenientes, a polícia acabou prendendo o amigo do seu marido. Torturam-no até que, finalmente, o homem sucumbiu e confessou que havia assassinado o amigo. O motivo, segundo as investigações, seria mais óbvio se o morto fosse ele, já que, como bem a senhora sabe, era seu amante. Tal detalhe, entretanto, foi suprimido dos autos. Não que a polícia quisesse protegê-la de tamanho escândalo. Tudo não passou de um pedido meu, generosamente regado à paga.

            Com esse gesto, que pode lhe parecer de bondade, fiz-lhe o favor de manter a sua reputação ilibada de dama da sociedade. Caso eu não tivesse tido esse ímpeto, certamente a senhora não herdaria a fortuna do finado, que, bem sabemos, era de fazer inveja até mesmo àquela que herdei.

            Quanto ao assassino confesso, que agora revelo que foi apenas um bode expiatório diante da incapacidade da polícia, foi condenado a 28 anos de prisão. Não cumpriu dois, pois, sabemos, enforcou-se na cela. Pobre alma. Católico que era, parece-me que se deixou sucumbir ao pecado do suicídio. Que Deus tenha piedade daquela pobre alma!

            Para finalizar, entrego minhas cinzas à senhora. Faça o que desejar. Que seja o melhor ou o pior. Não me importo. Sei que cumpri minha sina e espero que, também, a senhora cumpra a sua.

            Atenciosamente,

            Aldo Schmidt”

            Berenice virou a folha. Nenhuma palavra mais. Ergueu o corpo, guardou a carta na bolsa. Encarou o advogado, tomou-lhe a urna e foi embora.

Eduardo Martínes

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O pomo da discórdia

Eduardo Martínez: Conto ‘O pomo da discórdia’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez
Imagem criada por IA do Gemini – 25 de janeiro de 2026, às 02:00 AM

Não sou tiete, mesmo quando estava lá com meus 15, 16 anos, nunca tive ídolos, apesar de andar com outras garotas da minha idade, todas apaixonadas por algum cantor ou astro do cinema. Minha mãe sempre disse que, ainda no tempo da creche, era eu uma adulta de fraldas. Certo exagero, mas que talvez retrate um pouco sobre o meu íntimo, reservada que quase sempre sou.

          Andei com uns problemas aí. Melhor, os problemas ainda continuam por aqui, enquanto tento lidar com eles de maneira racional. No entanto, por mais que busque seguir o caminho da razão, eis que o coração me faz tomar, vez ou outra, um desvio. Desvio? Não sei se a palavra exata seja essa, até porque fica parecendo que a vida é um jogo de xadrez, que você precisa sacrificar a felicidade para manter os pés calçados. 

          Descobri que andar descalça não é somente prazeroso, como também necessário. Além de massagear os pés sobre a areia macia, e mesmo que de vez em quando nos deparemos com alguma pedra pontiaguda ou um espinho, isso faz bem para a alma. A saúde mental agradece, e podemos, assim, buscar conforto em outras coisas.

          Tenho me alimentado melhor, tenho saciado minha mente de poesias. Nossa, como isso é bom! E você, por acaso, já se deparou com Drummond? Já reparou que Drummond rima com bombom?

          Não me entenda mal, mas confesso que tenho me interessado por outro. É verdade que o Carlos continua com seu cantinho reservado no meu coração. E como poderia ser diferente? Amo aquele jeito tímido e, ao mesmo tempo, atrevido desse mineiro com gosto de pão de queijo. Seja como for, confesso que tenho outro. E pode apontar todos os dedos para mim, que aceito a sina de ser culpada. 

          Antes de revelar o pomo da discórdia, deixe-me contar um pouco como tudo começou. Pois estava eu fragilizada pelo término trágico de um relacionamento, que nem eu, apaixonada que estava, tinha muita esperança de que vingasse. Coisa do tipo de encontro fortuito na balada, mas que insistimos, pura teimosia, esticar para ver onde vai dar. Durou pouco mais de mês, e poderia ir até o final do mês seguinte, caso não fosse por algo bobo, comum e, não obstante, derradeiro. 

          — Aurélio, o que você tá fazendo com a minha escova de dente?

          — Ué, escovando os dentes.

          — Que nojo!

          Pois é, não tinha como continuar com alguém que mal conhecia, apesar dos tórridos momentos de puro prazer, e que se apossa de algo que é só seu. De tão possessa que fiquei, não tive dúvida e mandei o, até aquele momento, amado, pegar as suas coisas e ir embora.

          — Laura, você é maluca!

          Maluca? Eu? Bem, não vou tentar fazer defesa em causa própria. As palavras do Aurélio não me afetaram. Maluca? Creio que ele pegou pesado comigo. Pois maluca é a mãe daquele sem-noção, usurpador de escovas de dente alheias. 

          Não sei se isso acontece com você, mas quando sinto princípio de desavença interna, busco na poesia o apaziguamento do qual necessito. E foi assim que fiz. Peguei meu Drummond na estante e, em meus braços, o levei para cama. Mas eis que algo me incomodou.

            — Carlos, por acaso estou errada?

          Mudo, o poeta me encarou de maneira serena. Pior mesmo foi aquele sorriso discreto de canto de boca, como se querendo dizer: “Laura, Laura, dessa vez você pegou pesado!”

          — Pois hoje você vai dormir novamente sozinho na estante, seu Carlos!

          E lá fui eu para a sala devolver Drummond, o meu amado Drummond, companheiro de tantos anos, o meu mineirinho com gosto de pão de queijo, para a estante de madeira. Que passasse a noite entre Vinicius, Bandeira, Castro Alves e tantos outros. Pensei, de relance, puxar pelas mãos o Casimiro. Muito menino, queria alguém com mais maturidade. 

          Quase desistindo, eis que vi debaixo da porta um envelope. Hum! Pelo volume parecia algo substancial. Nada de contas e contas a pagar. Tomei-o em minhas mãos e logo percebi que a remetente era a minha grande amiga Sarah Munck, poetisa das melhores. Curiosa, abri o envelope e me deparei com o livro ‘A verdade nos seres’, de Daniel Marchi. Folheei e li a dedicatória.

 Querida Laura, 

Tenho certeza de que estes poemas chegarão a você em momento apropriado.

Da sua amiga,

Sarah Munck

             Não quis parecer muito interessada a princípio, já que acabara de ter rusgas com o meu amor de longa data. Entretanto, como quem não quer nada, peguei o Daniel e o levei para meu quarto, onde passei a noite inteira tentando decifrá-lo. Se me sinto culpada por isso? Hum! Quem mandou o Carlos ficar do lado do Aurélio?

Eduardo Martínez

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Tio Jurandir era um terror

Eduardo Martínez: Conto ‘Tio Jurandir era um terror’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez
Imagem criada por IA do Gemini - 18 de janeiro de 2026, às 14:36 PM
Imagem criada por IA do Gemini – 18 de janeiro de 2026, às 14:36 PM

Reunião de família é coisa rara, mas, de vez em quando, acontece por aqui. Tirando Natal, apenas aniversário de vovó ou alguma tia graduada. De resto, mensagem ou ligação curta já está de bom tamanho. Seja como for, o imbróglio que soube foi em confidência, já que é coisa antiga, e o pessoal se esqueceu ou não gosta de comentar.

          A história se passou lá pelos idos de 1950, ali pelos lados de Luziânia, época em que a capital ainda era o Rio de Janeiro, e Brasília nem se cogitava e fazia parte do Goiás. A família de minha mãe morava por aquelas bandas, e o causo ocorreu em uma fazenda.

          Meu tio Jurandir era um terror. Atrevido que nem macaco-prego, não se importava se a mulher era casada, solteira ou tico-tico no fubá. Se desse brecha, o danado não perdia a oportunidade. Prova disso é que ele foi se engraçar para o lado da Sônia, que era casada com o Tião, justamente o cabra mais brabo da região. No entanto, não foi por conta de suposta coragem do meu parente, que era praticamente nenhuma. A coisa desandou pela falta de juízo mesmo.

          De tantas investidas que recebeu do tio Jurandir, Sônia deixou o resto de pudor na igreja e se engraçou para o lado do galanteador. O problema é que na roça as coisas acontecem de modo um tanto diferente. É que, enquanto as paredes têm ouvidos, o mato possui olhos. E era justamente no meio do capim que os amantes iam se refestelar.

          Há meses naquele vuco-vuco, a confiança batia na copa do jacarandá sem qualquer cerimônia. Tio Jurandir e Sônia, crentes de que faziam as coisas sem serem notados, acabaram por levantar suspeita no marido traído. Tião, caçador dos bons, começou a usar a tática de caça dos gatos. Sem fazer barulho, o homem seguiu a esposa, que, naquele dia, talvez por conta dos hormônios aflorados, saiu toda apressada rumo ao matagal na beira do rio. 

          Sônia, assim que avistou tio Jurandir, caiu em seus braços. Afoitos por carícias, não demorou e se deitaram sobre o capim, que aceitou o peso e o movimento daqueles corpos apaixonados. Mas eis que, no meio da brincadeira, foram flagrados pelo marido traído, que saiu detrás da moita com o facão na mão. Sem desculpas convincentes, os amantes, completamente pelados, nem tentaram mentir.

          Tio Jurandir, receoso de ter as partes decepadas, tratou de cobri-las com as mãos. Sônia até tentou ficar na frente para protegê-lo, mas ela sabia que facão que corta um também corta dois. Melhor seria confessar o que estava engasgado na garganta há tempos.

           — Não te amo, Tião. Nunca te amei. Casei com você porque papai quis assim. Se quiser me matar, mate-me de uma vez. 

          — Não vou te matar, Sônia. Mas quero ter um dedo de prosa com esse moleque.

          Tio Jurandir, com os cambitos tremendo, ficou mudo.

          — Olha aqui, Jurandir, vou falar uma vez só. Você vai se casar com a Sônia, vai tratar dela com todo respeito. Se eu ficar sabendo que você maltratou essa mulher ou anda arrastando asa pra mulher casada de novo, é melhor preparar o caixão, que eu volto e te mato, seu cabra safado. Você ama a Sônia?

          — Amo, sim, senhor!

          — Pois pode levá-la pra sua casa, pois na minha não entra mais. Vou jogar fora todas as roupas dela e tacar fogo. Trate de comprar roupa nova pra sua mulher. 

          Tião olhou mais uma vez aqueles dois, virou o rosto e cuspiu grosso. Levantou o facão e, com um golpe só, rasgou o chão. Virou as costas e se embrenhou no mato.

          Depois de ouvir atentamente cada palavra, levei alguns dias para visitar meus tios, que ainda moram na fazenda da família em Luziânia. Olhando aqueles rostos enrugados e corpos curvados, é difícil imaginar que protagonizaram aquela história. 

Eduardo Martínez

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Trauma de infância

Eduardo Martínez: Conto ‘Trauma de infância’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez
Imagem criada por IA doGemini – 11 de janeiro de 2026, às 1:00 PM

Boris Scherer, 56 anos, alto, loiro, olhos azuis, pele tão branca, que lhe dava aquele aspecto de boneco de cera, parou diante da porta. A placa indicava que estava no local certo: Dr. José Oliveira Silva, psicólogo. Não foi preciso se anunciar, haja vista um homem quase tão alto, pele escura, olhos profundos e sorriso largo o recebeu, ao mesmo tempo em que o cumprimentou. Era o dono não só da placa, mas daquela sala inteira, que se abriu de maneira acolhedora para o paciente. Primeira consulta. 

          — Fale sobre você.

          — O que você quer saber?

          — Tudo o que você quiser falar.

          Boris, com os olhos voltados para o tapete com formas geométricas, tentou buscar seu passado mais longínquo, onde se encontrava com seus lá quatro, cinco anos. Estava brincando no canto do escritório do pai, Klauss Scherer. 

          O agora paciente herdou a aparência do pai, que, àquela época, era mais jovem que ele é hoje. Não mais de 40 anos, talvez 36. Detalhes sem a menor importância. Quanto ao temperamento, por mais que Klauss tivesse tentado incutir seu modo de ser no filho, o fruto não poderia ter caído mais longe do pé. 

          — Meu pai era controlador. Era um bom homem, mas gostava de manter as rédeas firmes. Bruto, mas creio que todos os homens eram assim naquela época. Minha mãe sempre me falava para respeitar meu pai, pois era ele que mantinha a família unida. Ele era o homem da casa, o sustento de todos nós. 

          Pelas próximas quase duas horas, o psicólogo escutou atentamente o paciente e, ao final, os dois se despediram com um forte aperto de mãos. Boris, apesar de contido nas emoções, não conseguiu esconder a fragilidade no olhar ao remexer o passado. Mas parece ter saído aliviado e, caminhando pelo amplo corredor, chegou ao elevador, que o levou até a garagem do edifício. Ligou o automóvel e voltou para casa, onde encontrou a esposa e os dois filhos adolescentes.

          — Como foi a consulta, meu amor?

          — Boa.

          — Gostou do psicólogo?

          — Sim. Agendei nova sessão para semana que vem.

          A semana caminhou a passos lentos. Boris queria porque queria contar tantas outras coisas para o psicólogo. É verdade que pensou em desmarcar a consulta, pois não queria relembrar tempos tão difíceis. Todavia, ao recordar da sensação de leveza que o acompanhou no caminho de volta para casa, desejou reencontrar novamente o profissional.

          Pouco antes do horário, Boris estava diante da porta do consultório. José o recebeu de braços abertos, o que fez o paciente se sentir acolhido de maneira incomum para o mundo que lhe fora apresentado desde a mais tenra idade.

          — Meu pai, sempre autoritário, não aceitava que eu chorasse. Sempre dizia que homem não chora. Minha mãe, talvez receosa da reação do marido, nada dizia. E, quando estávamos sozinhos, ela enxugava minhas lágrimas em sua saia e me mandava lavar o rosto antes que meu pai retornasse. Aquilo sempre me pareceu algo normal, que certamente acontecia em todas as famílias. Levei anos para perceber que, apesar de acontecer com bastante frequência, aquilo não era normal.

          Boris, após quase seis meses de consultas, conseguiu se livrar de vários traumas de infância. No entanto, um ainda estava instalado bem lá no fundo do seu subconsciente. Mas, naquela sessão de agosto, tudo veio à tona. 

          — Sei que estava prestes a completar dez anos, pois acompanhei meus pais até o supermercado para comprar refrigerante. Estava eufórico, mas contido para não tomar bronca do papai. Ele segurava firme o meu pulso, como um carcereiro conduzindo o preso. Percebi um menino, praticamente da minha idade, empurrando um carrinho de compras pelos corredores. Ele me pareceu bem feliz e, obviamente sem querer, esbarrou o carrinho na minha perna. O garoto se voltou para mim e tentou se desculpar, mas meu pai, ríspido, o segurou pelo braço. Comecei a chorar, não sei se pela dor ou se por presenciar aquela violência. Meu pai, ainda segurando firme o braço do menino, me mandou chutar a sua perna. Eu não queria agredi-lo, mas meu pai me ordenou. Chutei a perna do menino uma, duas, três, dez vezes. Não me lembro de quantas, até que a minha perna ficar doendo demais para prosseguir. O menino, imóvel, aguentou sem derramar lágrimas. Meu pai o soltou, e o menino foi embora. Desde então, isso me consome de tal modo, que até hoje procuro por aquele menino para lhe pedir desculpas. 

          O psicólogo abraçou o paciente, que chorou copiosamente por minutos. Soluços, pedidos de desculpas para aquele menino do supermercado. Após quase meia hora, Boris se despediu de José. A próxima sessão seria na semana seguinte.

          Naquele dia, José entrou em seu apartamento. Não sentiu vontade de acender a luz. A escuridão era necessária para acalmá-lo após mais um dia de trabalho. Que turbilhão de emoções! Pensou em se servir uma dose de uísque, mas preferiu manter a mente limpa. 

          O psicólogo se dirigiu ao banheiro, onde ligou o chuveiro, enquanto retirava a roupa e a jogava no cesto ao lado. Sentiu a temperatura da água, entrou debaixo da ducha. A água morna caiu sobre sua cabeça, seus ombros largos, como se tirassem toneladas de angústias guardadas há tempos. Com o rosto virado para o chuveiro, as lágrimas foram levadas pela água. Passou a mão pela perna esquerda. Ele não era o único que carregava o trauma daquele dia.

Eduardo Martínez

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Relógio de família

Eduardo Martínez: Conto ‘Relógio de família’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez
Imagem criada por IA do Gemini
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Aquele homem era o que pode se dizer bem-nascido. De família abastada, não teve problemas enfrentados pela maioria. No entanto, não quer dizer que não guardasse mágoas e algumas rabugices. Acredite, possuía algumas, mas eis que hoje, seu aniversário de 70 anos, uma lembrança o tirou da cama mais cedo. Coisas de tempos de menino, que, não se sabe a razão, o fez compartilhá-la com amigos e parentes que o ajudaram a apagar tantas velinhas.

    Antes de cortarem o bolo, pediu que todos, não mais de 30, se acomodassem da maneira que quisessem, mas que prestassem atenção na história que tinha para contar. Aliás, não apenas sua, pois envolvia Tunico, o filho da falecida Judite, empregada da sua mãe. Pobre rapaz, cujo destino parece que não foi dos melhores, conforme o velho passou a contar.

     Pois bem, lembro-me bem desse dia, que aconteceu há exatos 60 anos, pois, assim como hoje, também era meu aniversário. Dez anos! Agora, minha idade passaria a conter dois dígitos e, é quase certo, irei para minha futura cova antes de completar três. Se bem que vovó chegou aos 102.

        Tunico, pouco mais novo que eu, me fazia as vontades nas brincadeiras. Quando não queria mais desfrutar da sua companhia, o dispensava com um “Pode ir!” e, não tardava, o moleque ia cabisbaixo para a cozinha ajudar a mãe. Isso se, por acaso, não tivesse uma cerca para ser consertada ou o jardim não precisasse de cuidados. 

        E lá estava eu montado nas costas do Tunico, que se fazia de meu cavalo, apesar das vestes puídas, quando ouvi os gritos da minha avó. Minha montaria e eu paramos a brincadeira por um instante para nos inteirar sobre a situação.

        — Quem roubou o meu relógio? Quem foi o maldito ladrão que roubou o relógio que foi do meu pai? Ou o relógio aparece agora ou, então, chamo já a polícia!

        Tunico, olhos esbugalhados, parecia assustado com tudo aquilo. Devo confessar que aquela cara de coelho desesperado diante da matilha de cães me trouxe certo regozijo. Teria sido ele o larápio? Pois foi justamente isso que o delegado Horácio, chamado às pressas por vovó, descobriu em pouco mais de uma hora.

        — Pode deixar, dona Carmem, que comigo esse pirralho abre o bico num instante.

        E não é que Tunico abriu o bico rapidinho? Resistiu a alguns safanões, mas quando disseram que era melhor falar ou sua mãe perderia o emprego, assumiu toda a culpa. E lá foi o Tunico, amarrado que nem porco, para a delegacia. A partir de então, nunca mais soube notícias dele. Quer dizer, até soube, mas não dei muita importância. Melhor ficar longe dessa gente.

        Quanto à promessa de não mandar a mãe de Tunico embora, obviamente que mamãe não poderia tê-la cumprido, ainda mais depois das súplicas de vovó, que não queria mais saber daquela gente em casa. Fez bem. Não concordam?

          Mas percebo que todos aqui estão curiosos quanto ao destino do Tunico. Como bom anfitrião, sinto-me na obrigação de lhes contar. O moleque passou alguns meses na cadeia, onde foi colocado na mesma cela dos outros bandidos, a maior parte composta de homens feitos. Que dessem jeito nele, não se pode controlar os instintos dessa corja. 

        Tunico, que nem tenho certeza ter iniciado no crime por causa do relógio de vovó, acabou se metendo com uma gangue assim que saiu da prisão. Vi, anos mais tarde, seu retrato num jornal. Estava com a garganta cortada. Quase não o reconheci, caso não fosse por aqueles olhos esbugalhados.

        E, para finalizar, o relógio nunca foi encontrado. Na certa, deve ter sido vendido a preço de banana. Esse tipo de gente não sabe apreciar as boas coisas da vida. Vovó, desolada com a perda do relógio que foi do seu pai, acabou definhando e faleceu seis meses após. Pobre alma tão bondosa, vítima de um crime cometido por gente que ela havia acolhido aqui em casa. 

        Mas deixemos de lado tais histórias tristes. Vamos festejar, pois hoje é dia de comemorar. Aposto que vocês não adivinham para quem vai o primeiro pedaço do bolo.

        A plateia, antes boquiaberta, gargalhou diante da pilhéria do anfitrião. E, após duas horas, todos foram se despedindo, até que, solitário, o aniversariante se recolheu. Já no quarto, pegou um banquinho de madeira de lei.  Um pé, depois o outro, conseguiu alcançar a porta superior do armário. O velho, quase nas pontas dos pés, visualizou uma mala bem ao fundo. Ele esticou o braço, pegou a alça e puxou a mala para si. Ele a abriu e sorriu o sorriso dos vitoriosos. Todavia, acabou se desequilibrando e, antes de cair, bateu a cabeça na cabeceira da cama. O sangue escorreu pelo tapete persa, anunciando o último suspiro do homem. Um relógio caríssimo, cuspido pelo choque da mala no chão, repousa no canto.

Eduardo Martínez

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Odisseia pernambucana

Eduardo Martínez: Conto ‘Odisseia pernambucana’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez
Imagem criada por IA da Gemini – 13 de dezembro de 2025, às 9:08 PM

Orestes carregava um amontoado de medos. No entanto, não suportava a ideia de morrer em Recife. Não que tivesse medo da morte, bem como não desgostava da capital. Só que queria ser enterrado na sua Sirinhaém, a pouco mais de 70 quilômetros dali. 

           — O lugar mais lindo do mundo!

           — E por acaso você conhece o mundo todo, Orestes?

           — E por acaso preciso conhecer todas as mulheres do mundo pra saber que você é a mais linda, Marinalva?

           — Hum… Tá galanteador hoje, meu amor.

           A despeito desse romantismo todo, o coração do homem não andava bem das pernas. Vez ou outra, a dor no peito vinha sem avisar. Orestes era levado às pressas para o hospital e, após o susto, voltava para casa dois ou três dias depois. Tais episódios se tornaram mais frequentes, até que o sujeito não retornou.

           Antes mesmo do corpo do marido ser liberado pelo nosocômio, Marinalva foi assediada por quase cinco funerárias. Quase porque, assim que o funcionário da quinta apareceu, foi enxotado que nem cachorro. Que nem cachorro, não, pois a mulher era deveras zelosa em relação a essas adoráveis criaturas.

           — Marinalva, por favor, daqui a pouco você vai dizer que cães são que nem gente.

           — Óbvio que não, Orestes! Cães são confiáveis. 

           Após expulsar o último urubu que sombreava o cadáver do Orestes, a mulher começou a pensar num jeito de transportar o defunto para Sirinhaém. A distância nem era tanta, mas faltava dinheiro para fazer o trajeto, ainda mais porque Marinalva havia raspado o último níquel do cofre na compra do caixão.

            O ataúde era muito grande para caber no Fusca. Se bem que, ela pensou, poderia amarrá-lo na capota. Mas espaço não era o único problema, pois o motor do automóvel já não dava no couro há tempos. Era melhor não arriscar ficar pelo meio da estrada, ainda mais com o moribundo começando a feder. 

           Marinalva pensou em pedir ajuda para o Alexandre, o vizinho. Ele possuía uma Kombi, mas logo se atentou a um detalhe. É que os dois não se bicavam desde que haviam discutido por conta de futebol. Marinalva, torcedora doente do Santa Cruz, não suportou as provocações do vizinho fanático pelo Sport. Foi aquela saraivada de palavrões, enquanto Orestes, que era Náutico sem grandes paixões, preferiu não se meter. 

   Diante daquela sinuca de bico, eis que a viúva recebeu uma proposta inesperada. Júlio, que morava no final da rua, soube do problema da mulher e, não tardou, foi bater à sua porta.

           —  Mas isso não é loucura?

      — Não sei por que seria, Marinalva.

— É que o Orestes sempre teve medo do mar. 

     — Se esse é o problema, tenho certeza de que ele não vai morrer afogado.

       — Você tem razão.

   Júlio, afamado pescador, havia dito que levaria o caixão no seu barco. Como o sujeito não possuía automóvel, pediu ajuda a outro vizinho, o Laurentino. Este possuía uma carroça, que era puxada pela Filó, mula de maus bofes, mas de força descomunal. 

       Antes da meia-noite, Laurentino estacionou a carroça em frente à residência da Marinalva. Lá estava também o Júlio para ajudar a colocar o caixão sobre a carroça. Os dois homens, cujos músculos eram talhados diariamente nas respectivas profissões, ergueram o pesado féretro e o depositaram cuidadosamente sobre a caçamba. 

   Após amarrarem o ataúde, Júlio e Laurentino, acompanhados da Marinalva, subiram na carroça e seguiram para a praia, onde o barco do pescador estava amarrado na areia. O trajeto foi quase silencioso, caso não fosse pelo som provocado pelos cascos da Filó sobre o asfalto duro. 

       Assim que dobrou a esquina, já era possível avistar a enseada. Mais algumas centenas de metros, Filó sentiu a areia, que abafou o ruído das passadas, agora mais pesadas. Ao comando do Laurentino, a mula estacou ao lado do barco, cujo nome, estampado na sua lateral, era Refrega. Júlio saltou da carroça e, com uma das mãos, ajudou a mulher a descer.

         Meia hora após, o barco, já com o caixão no seu interior, foi arrastado até as águas, que estavam calmas. Marinalva e Júlio se despediram do Laurentino, que não aceitou qualquer pagamento. O morto havia sido seu amigo durante décadas. 

       Sem muitas ondas para serem vencidas, não tardou, o barulhento motor a diesel foi transpondo a distância. Júlio, olhos para frente, vez ou outra observava Marinalva com o rosto voltado para as luzes de Recife, que se afastavam cada vez mais. O pescador calculou que a viagem não duraria mais do que oito ou nove horas, dependendo da vontade da maré. Pobre infeliz, não contou com a chuva, que começou a cair forte quando ainda restavam mais de 40 quilômetros para serem vencidos pelo bravo Refrega. 

      Júlio, nervos à flor da pele, tentava aparentar calma, enquanto Marinalva, agarrada ao caixão, lamentava a maldita vontade do marido de ser enterrado na terra natal. Quanto transtorno apenas para cumprir o desejo do defunto. Perigava ela e Júlio serem arrestados para a morte. No entanto, foi justamente quando tudo parecia estar perdido, que a natureza resolveu, irônica como ela só, suspender a tormenta. 

       Abriu-se o céu, que deu passagem para os raios da manhã. Marinalva agora chorava de alívio, enquanto Júlio, apesar de uma furtiva lágrima no canto do olho esquerdo, se mantinha firme no timão. E, pouco mais de uma hora, os aventureiros avistaram as areias da praia de Barra de Sirinhaém. 

           Marinalva, eufórica, começou a conversar com o marido, mesmo que ele fosse incapaz de respondê-la, enquanto Júlio se sentiu aliviado por ter conseguido se manter firme diante do que ele imaginou ser o fim da linha. Sentiu-se Odisseu e, exausto, sentou-se ao lado da viúva. Por impulso, Marinalva beijou os lábios do herói, que, surpreso, recebeu o prêmio mais do que merecido. 

           A distância foi vencida e, há menos de duzentos metros da praia, eis que Refrega, ferido mortalmente pela tempestade que enfrentou, começou a afundar. Assustada, Marinalva gritava, enquanto Júlio, mais pragmático, puxou a mulher pela mão e, assim, os dois pularam no mar. 

           Nadaram e, de vez em quando, olhavam para trás e viam Refrega afundar até que o barco ficou totalmente submerso. Sem ter o que fazer, os dois continuaram nadando e, finalmente, chegaram à praia. Exausto, tombaram na areia e adormeceram.

          Marinalva foi a primeira a despertar. Virou-se para o lado e, por um instante, admirou o corpo de Júlio. Sentada, ela depositou o rosto sobre os joelhos e chorou. O pescador logo acordou.

           — Não chore, Marinalva. Estamos vivos.

           — Como fui tola! Fiz você perder o seu barco.

           — Quanto a isso, não se preocupe.

           — E como é que não vou me preocupar, homem?

           — Já faz tempo que quero largar essa vida de pescador.

           — Deixa de bobagem, Júlio. Você sempre foi apaixonado pelo mar.

           — É verdade. Mas, ultimamente, ele tem me deixado enjoado.

           Os dois se entreolharam e, então, sorriram. Depois, levantaram-se e, mãos dadas, foram procurar um jeito de retornarem para Recife. 

           Quase uma semana após, o caixão, intacto, encalhou na mesma praia. Orestes foi enterrado como indigente no Cemitério Municipal de Sirinhaém. Mesmo assim, o seu último desejo foi realizado.

Eduardo Martínez

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