O dia em que o Cid Moreira me deixou no vácuo

Eduardo Cesario-Martínez:

Crônica ‘O dia em que o Cid Moreira me deixou no vácuo’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
https://gemini.google.com/share/2eced06df49b?skid=03fbab6d-27b0-416a-a4bb-9fcfd8a3bff7

Dia desses um sujeito me abordou na rua, e eu não o reconheci de imediato. Digo até que estranhei o modo que ele me chamou.

            — Ei, Eduardo!

            Se o meu nome é esse? Sim, mas praticamente ninguém me chama assim. Meus amigos costumam me chamar de Edu e, por conta do meu blog, de Dudu. Alguns até de Du e, creio que apenas o escritor J. Emiliano Cruz (Jota), de Ed. Ah, o meu amigo Marco Antônio também me chamava de Ed, mas não sei por quê.

            Pensando bem, creio que, no caso do Jota, seja por causa do personagem Ed Mort, do Luis Fernando Verissimo. É, provavelmente seja por isso mesmo. Dia desses vou questioná-lo a respeito. Quanto ao Marco Antônio, há tempos que não nos vemos e, pelo menos por enquanto, terei que conviver com essa incógnita.

           Mas lá estava aquele tipo me gritando na rua. Aliás, do outro lado da calçada, as mãos erguidas, como se fosse um náufrago em uma ilha isolada.

           — Ei, Eduardo! É você mesmo, cara?

           Confesso que, naquele instante, a dúvida se instalou bem ao lado da quase certeza. É que talvez ele tenha me confundido com um amigo homônimo. Afinal, são tantos Eduardos, que daria para lotar vários Maracanãs. E não estou falando do Maracanã de agora, mas do tempo das arquibancadas e geral. Acredite ou não, somos mais de 650 mil só no Brasil. 

           Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, eis que o homem se arriscou entre os automóveis e, milagrosamente sem nem mesmo um arranhão, atravessou a rua. Pior, o cara carregava aquele sorriso que me deixou ainda mais ressabiado, pois, por mais que eu tentasse, não conseguia me lembrar de onde eu o conhecia. E, antes que eu pudesse colocar tudo a perder, eis que o meu querido desconhecido, esbaforido por conta da carreira, estendeu a mão e se revelou:

            — Puxa, sou seu maior fã! Já li o seu livro duas vezes. Você é o melhor!

           Que falta faz um cinegrafista do Canal 100 nessas horas. Já pensou? E com aquela música de abertura, a voz do Cid Moreira narrando todo aquele espetáculo, a galera atenta a cada lance, o sujeito com o radinho de pilha grudado na orelha… De repente, surgem as pernas do Garrincha sambando pra cá, sambando pra lá, os marcadores no chão, lá vai o rei dos dribles em direção ao gol… Acorda, Eduardo! Literatura não é futebol!

           — Oh, meu amigo, muito obrigado! 

          Costumo falar que escritores não são astros do rock. Podemos sair tranquilamente, ir à padaria tomar um café, jogar conversa fora na esquina, passear com o cachorro, andar de mãos dadas com a namorada… Nós não sabemos o que são paparazzi na prática. Mesmo assim, lá estava eu diante de um fã. Pois é, meu amigo, um fã! Que isso chegue ligeiro aos ouvidos do meu grande amigo e escritor Daniel Marchi, o Dan, que, por acaso, só me chama de Edu. Fico aqui imaginando a sua reação.

           — Sério, Edu?

           — Pois é, Dan. Pra você ver. A coisa está de um jeito, que mal posso colocar os pés na rua. 

           — Que loucura!

           — Sim. Uma loucura! Mas é a vida, meu amigo. Não dá pra fugir do meu destino, que é brilhar, brilhar, brilhar…

          O meu fã, talvez o único no quarteirão inteiro, me arranca do devaneio.

            — Eduardo, posso tirar uma foto com você?

            Obviamente que disse sim e tratei de mostrar o meu melhor ângulo, caso ele realmente exista. Não queria que a captação daquele momento, que espero ficar para a posteridade, tenha me pegado de olhos fechados, boca torta ou… feio. Será? Quanta bobagem! O que importa mesmo é o texto que fica. Essa é a vantagem de ser escritor. Ninguém liga se você não tenha o rosto do Alain Delon ou do Tarcísio Meira. 

           Ser lido é muito bom! E digo mais, meu amigo, é especial. Veja bem, ninguém aumenta o volume quando está lendo. É íntimo, quase sempre solitário, escondido, no máximo bem lá no fundo do metrô ou do ônibus, correndo os olhos, sentimentos guardados no peito, folheando as páginas discretamente. 

         Virei ouvinte do meu leitor, cujas palavras me pareceram muito maiores do que as que o meu coração está acostumado. Coisa linda demais. Será que a minha esposa vai acreditar? O que as minhas filhas vão dizer? E o Dan? A vida tem dessas coisas, meu amigo. Se a gente não está preparado, melhor nem pisar na rua.         

            Será que saí bonito?

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Nem o Botafogo explica o Banco do Brasil

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘Nem o Botafogo explica o Banco do Brasil’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
https://gemini.google.com/share/83931e64cc4a?skid=7ec01fd8-a604-4564-96d1-f158c3cfc1e3
https://gemini.google.com/share/83931e64cc4a?skid=7ec01fd8-a604-4564-96d1-f158c3cfc1e3

Se existe o ditado que há coisas que só acontecem ao Botafogo, afirmo que outras tantas, por mais esquisitas que sejam, costumam frequentar as dependências do Banco do Brasil. E aqui vai uma dessas incongruências com a sanidade, testemunhada por Gilmarildo, amigo de longa data do ex-funcionário da casa Sérgio.

Lá pelos idos de 1992, talvez 1993 ou 1994, não importa, o Sérgio estava lotado na saudosa agência Figueiredo Magalhães, em Copacabana, o mais afamado, para o bem e para o mal, bairro carioca. Tempos divertidos, costuma dizer o sujeito, que ainda guarda na lembrança momentos divertidos e, não raro, constrangedores. No entanto, deixemos tais eventos de lado, pois a tinta é curta e periga não ser suficiente para terminar este causo.

Cecília, nome de poetisa, era a gerente de uma das inúmeras equipes da agência. E, por azar, sorte, calvário ou destino, eis que o Sérgio era um dos seus subordinados. A mulher, acredite, era difícil no trato, do tipo que buscava a discórdia só para ter a chance de apezinhar o alvo da vez. Uma peste, como os colegas a chamavam à boca pequena, pois ai da carrasca se os ouvisse. Era bronca na hora, com direito a meia hora de sermão.

— Sérgio, tu só pode estar de brincadeira! Já é a terceira vez que você me aparece aqui com diferença no caixa.

— Terceira vez no ano, né, Cecília!?

— E tu acha pouco?

— Foi mal, chefe! Ah, antes que me esqueça, feliz Natal pra você também.

Cecília, que nascera desprovida de uns 15 centímetros para atingir um metro e meio, só ia trabalhar de salto alto, sem contar a gastança de laquê para deixar os cabelos armados. Entretanto, por conta do incômodo de se equilibrar nas alturas, ela preferia retirar o calçado antes do final do expediente. E foi justamente essa a oportunidade que o Sérgio e o Gilmarildo estavam esperando, mesmo que, até aquele instante, não soubessem.

Soares, o maloteiro, costumava passar na agência já no final do expediente. Ele trazia e levava documentos nos malotes, que eram lacrados e rodavam o país inteiro. E não se sabe exatamente por que, mas Cecília era toda sorriso com o tipo. E, quando o fechamento do expediente estava tranquilo, fazia questão de convidá-lo para um café na cantina, que ficava no corredor à esquerda.

— O que você está fazendo, Sérgio?

Não é que o Sérgio, aproveitando-se da breve ausência da gerente, tinha pego um dos pés do sapato da Cecília sob a mesa e, pasmem, o jogou dentro do malote? Acredite, pois foi o que aconteceu.

— Fica na tua, Gilmarildo. Vê se não vai dar com a língua nos dentes! Olha lá, hein!?

Gilmarildo, do alto do seu físico de grilo, não era besta de criar imbróglio com o Sérgio, famoso por bíceps talhados em academia. Melhor era ficar calado, e ficou mudo que nem rato quando tem gato no sótão.

Sérgio, assim que a Cecília e o Soares retornaram, se despediu e, como era sexta-feira, decidiu caminhar pela orla até seu quarto e sala, que ficava na altura do Posto 2. Inebriado pela maresia e principalmente por conta da arte que acabara de aprontar, o bancário se sentiu vingado e nem se preocupou com os olhares esquisitos quando gargalhou.

Na segunda-feira, o Gilmarildo foi colocar o colega a par do desfecho do imbróglio, que certamente se deu por causa do desaparecimento de um dos pés do sapato da gerente.

— Tu acredita que ela nem desconfiou?

— Do que você está falando, cara?

— Do sapato da Cecília.

— Sapato? Que sapato, Gilmarildo?

— Ué! Do sapato que tu colocou no malote do Soares.

— Eu? Tu bebeu?

Enquanto Sérgio fez questão de não conter o cinismo, Gilmarildo, sem ânimo ou coragem para prosseguir aquela conversa, fingiu uma dor de barriga e foi cuidar da vida. Que aquilo era assunto morto e enterrado.

Alguns anos se passaram e, já em meados de 2012, Gilmarildo foi trabalhar em uma agência em Brasília. Sentiu falta do Rio, mas as vantagens do novo cargo eram recompensadoras. E foi assim, infeliz e de bolsos recheados, que ele presenciou algo inusitado.

Já no início de 2013, durante um curso para o alto escalão do Banco do Brasil, Gilmarildo reencontrou sua antiga gerente, a Cecília, cuja carreira meteórica lhe possibilitava tocar as nuvens, caso desejasse. Para relembrar os velhos tempos, o homem convidou a colega para um passeio no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que fica em uma área pouco afastada. E lá foram os dois sem nem desconfiarem que aquele momento marcaria para sempre suas vidas.

Estava tendo uma exposição sobre o diretor de cinema Quentin Tarantino no CCBB, e a Cecilia, que tinha fama de adoçar o café com sangue, queria porque queria assisti-la. Gilmarildo, por sua vez, como bom anfitrião, desejou realizar o desejo da mulher.

Cecília se esbaldou com os filmes do aclamado diretor, o que fez com que o anfitrião de última hora se sentisse, de certa forma, satisfeito. E, quando a dupla já se preparava para ir embora, eis que a Cecília, curiosa que era, observou que havia um pequeno museu no local e quis entrar.

Entre tantas relíquias, algo chamou a sua atenção: uma enorme estante com vários objetos. E, acredite ou não, lá estava o sapato perdido da Cecília. Ao lado, uma placa de metal com a seguinte inscrição: “Há coisas que só acontecem no Banco do Brasil”.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Adágio e seu ouvido absoluto

Eduardo Cesario-Martínez

‘Adágio e seu ouvido absoluto’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
https://gemini.google.com/share/9558bc8d3d6a?skid=0892f7b9-a8ba-45b3-8c13-a18062ae0d51

Adágio Allegro, desde menino, fora diagnosticado com algo raro. Não que fosse doença, porém, após alguns anos, passou a deixar a mãe colérica. Acredite ou não, o moleque havia nascido com ouvido absoluto. Isso mesmo! Absoluto!

          Por conta de tal característica, Adágio conseguia não somente distinguir todos os sons, mas também apontar, certeiro como as flechas impossíveis de Robin Hood, a nota musical. Todavia, não pense você que o menino falava apenas “dó”. Não mesmo!  Tacava logo “dó menor sustenido!”

          De tão afamado ficou, alguém teve a providencial ideia de apelidá-lo de Diapasão. A princípio, Adágio ficou furioso e, dizem, só parou de berrar quando percebeu o som do próprio choro em si bemol menor. No final das contas, acabou gostando da alcunha, que percebeu ser sua sina. 

          Já aos 10 anos, Adágio havia se tornado músico respeitado na banda do bairro. Tocava de tudo, desde flauta até trombone, passando por trompete e clarinete. Clarinete, sim, senhor! O guri era um prodígio. 

          Aos 12, não teve jeito de segurar o ímpeto do pirralho. Queria porque queria ser o maestro. E quem seria besta em não acatar tal desejo? Afinal, Afonso, que há quase seis décadas comandava aquela trupe, estava sem forças para manter a batuta firme. Resultado: aposentaram o velho. 

          Nas mãos firmes de Adágio, a antes banda de bairro, agora havia se transformado em uma orquestra. A fama correu a cidade inteira, até que chegou aos ouvidos do prefeito e, em seguida, aos do governador. Todos desejavam tirar uma casquinha da fama daquele prodígio. Diziam até que havia gente importante do exterior querendo levá-lo embora. 

          Pois foi justamente nesse tempo em que o governador, em conluio com o prefeito, pensou numa ideia quase infalível para manter Adágio na região. Uma namorada! Sim, isso mesmo! Isso porque, até onde se sabia, o rapaz, agora com 20 anos, estava solteiro. Solteiro e desimpedido.

          Os políticos inventaram um concurso de beleza para, assim, escolher a futura namorada de Adágio. Obviamente, ninguém sabia que aquele evento era para tal. Seja como for, houve centenas de inscrições, mesmo porque a premiação não era das piores e, além disso, a vencedora receberia um troféu, sem contar a faixa de rainha da beleza. 

          Para encurtar a história, o concurso aconteceu logo no mês seguinte. As finalistas, uma mais linda do que a outra, se esforçaram além da conta. Entre loiras e morenas, ganhou a única ruiva. Jéssyka! Uma belezura!

          Dois dias após a coroação, Jéssyka foi convidada para uma recepção no amplo salão da sede do governo estadual. A moça, assim como todas as rainhas, foi ladeada por algumas damas de companhia, que foram escolhidas pelo governador, que, esperto que só, mandou trazer as quatro últimas colocadas no concurso. Dessa forma, pensou, a beleza da rainha ficaria ainda mais evidente. 

          Adágio também foi convidado para a festança. Ele, além de comandar a orquestra naquele evento, iria se sentar à mesa com a rainha da beleza. Tudo arranjado, era questão de tempo para que os dois pombinhos se sentissem atraídos um pelo outro. 

          Conversa vai, conversa vem, Adágio, sempre com os ouvidos atentos, parece não ter gostado da voz esganiçada de Jéssyka. Ademais, a rainha da beleza também parecia ter outros interesses além de manipuladores de batutas. Dava até para ouvir os pensamentos do governador e do prefeito, que, antes confiantes, agora carregavam só lamúrias. 

          Jéssyka, cuja soberba lhe havia subido à cabeça, decidiu se levantar e ir embora. Aquela situação era uma afronta para uma rainha. Não uma rainha qualquer, diga-se de passagem. Rainha da beleza! Pois se levantou e, apenas com um olhar para as suas damas, disse para que todas a acompanhassem. E foi o que fizeram, mas ocorreu um incidente com a Berenice, justamente a última colocada do concurso. 

          Assim que a Berenice ergueu seu corpo ligeiramente roliço, eis que se ouviu um som vindo do seu orifício mais ao sul. Imediatamente, olhares repreendedores surgiram de todos os lados. A moça, sem ter onde enfiar o rosto de tão envergonhada, foi salva por Adágio, que ficou encantado. Tanto é que, após seis meses de namoro, os dois ficaram noivos e, parece, vão se casar no próximo ano. 

          Percebo que você ainda está aqui me lendo. Na certa, está curioso para saber como é que o Adágio salvou a Berenice daquele imbróglio. Pois bem, eis as palavras do gajo:

— Nem mesmo um saxofone consegue fazer um fá sustenido tão bonito.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Sangue latino

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Sangue latino’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem gerada pelo ChatGPT em 07/07/2026, às 21h06 - https://gemini.google.com/share/43933c0c2547?skid=6fef1acf-87b4-47c4-b100-9bb7e9cc8556
Imagem gerada pelo ChatGPT em 07/07/2026, às 21h06 – https://gemini.google.com/share/43933c0c2547?skid=
6fef1acf-87b4-47c4-b100-9bb7e9cc8556

Foi numa noite de 1978, quando lá fui, levado pelas mãos de minha mãe, para a casa de uma tia. Durante aquelas infinitas partidas de buraco, minha tia começou a puxar conversa comigo, que estava afundado no sofá.

    — Gosta de música?

    — Sim.

    — Do quê?

    — Secos & Molhados.

    — Você tem os dentes separados. Aposto que canta que nem o Ney Matogrosso.

    Não sei quem venceu o carteado, mesmo porque nunca gostei de passar horas fazendo e recebendo sinais do parceiro sobre essa ou aquela jogada. Gostava de paciência, mas não as de uma fileira acima. Minha avó, que sempre foi o grande amor da minha vida, me ensinou outra, que possui duas fileiras nas laterais, cada uma com quatro grupos de cinco cartas.

    Além do baralho, minha avó possuía o hábito de tomar remédios. Eram tantos, que os vidrinhos se acumulavam dentro de uma gaveta na cozinha. De vez em quando, ela me dava um e dizia para ir brincar no quintal. E lá ia eu sorrindo aquele diastema, que me tornava único entre as crianças da rua. 

    Lembro-me de uma mangueira, que ficava mais ao fundo do terreno. Minha avó, certa vez, me disse que aquela era a minha árvore. Nem acreditei que aquele ser enorme fosse só meu. Tentei abraçar o tronco, mas meus braços de menino eram muito curtos. Além disso, a aspereza da casca me causava certo desconforto, que eu tentava disfarçar para não fazer com que a minha avó desistisse daquele gesto tão generoso. Uma árvore! Aos oito, o neto da dona Estelita possuía uma árvore.

    No final de 1992, logo depois de retornar para casa nas férias da faculdade, fui informado por minha mãe que vovó não estava bem de saúde. Meu avô havia nos deixado dois anos antes por conta de um câncer tão comum aos de sua geração de fumantes. Seja como for, dona Estelita requeria cuidados e, por isso, iria morar conosco. 

    Não me incomodei em dividir o quarto com vovó. Pelo contrário, ela sempre havia sido minha maior confidente. Agora, no entanto, os assuntos eram outros, inclusive de supostas namoradas, que nas minhas falas se tornavam muito mais interessantes e apaixonadas por mim. 

    Vovó sempre me falava que queria conhecer a menina que eu fosse escolher para ser minha futura esposa. Como se eu fosse um príncipe que pudesse escolher qualquer uma das garotas da faculdade. Mal sabia ela ou, então, fingia desconhecer a minha total falta de traquejo com as mulheres. Mas isso não era motivo para deixarmos de passar horas divagando sobre as minhas inúmeras pretendentes: Maria Júlia, Roberta, Lúcia, Ana Clara, Solange, Cíntia… 

    Eram tantas, que já não conseguia inventar tantos nomes. E, se eu repetisse algum, minha avó, sempre muito perspicaz, logo me dizia: “Outra Mariana? Essas moças não deixam o meu neto lindo em paz!” E ríamos madrugada adentro.

    Foi pouco depois da minha formatura que vovó nos deixou. Num dia chuvoso, como se toda a cidade chorasse a perda daquela mulher maravilhosa. Diante do caixão, seus olhos, mesmo fechados, pareciam enxergar a angústia que me tomava. Seu rosto sereno, entretanto, me transmitiu uma paz e a certeza de que logo estaríamos juntos novamente.

Eduardo Cesario-Martínez




O velho e a mitral

Eduardo Cesario-Martínez: Conto

‘O velho e a mitral’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada por IA do Gemini
 https://gemini.google.com/share/4859c3568526?skid=de55f151-3bb1-4e86-a3ed-01e903a4d91c4
Imagem criada por IA do Gemini
https://gemini.google.com/share/4859c3568526?skid=de55f151-3bb1-4e86-a3ed-01e903a4d91c4

 Apesar de não me sentir tão velho, a maioria das pessoas costuma colocar um senhor logo antes do meu nome. E não pense você que possuo posição social de destaque. É verdade que também não preciso contar os vinténs no final do mês, isto é, desde que não surja algum imprevisto ou, porventura, eu resolva extrapolar o orçamento por conta de certas extravagâncias. Por sorte, gente da minha idade geralmente as usufruiu quase todas há tempos. 

    Como deve ter percebido, já passei dos 60. Para ser preciso, completei 67 no último julho. Devo confessar que, há muito, abomino meus aniversários. Não por conta do avançar da idade, mas porque todos, invariavelmente, acontecem no mesmo dia do mês mais frio do ano por aqui onde moro. Minhas carnes, antes firmes, agora não suportam mais os rigorosos invernos que cismam em chegar praticamente na mesma época.

    Além do clima, outro desconforto me tomou nos últimos dias. Não sei se essa é a palavra adequada, mesmo porque, até aquele exato momento, havia suportado, certamente a contragosto, todos os invernos, por mais rigorosos que fossem. Todavia, desde então, algo tem me tirado o sono e me enchido de pesadelos. É que tive meu primeiro encontro com a morte.

    Calma, que explico antes que você se aborreça e me deixe aqui falando sozinho. Isso é até compreensível, já que não seria o primeiro a fazê-lo. Entretanto, peço-lhe um pouco de paciência com este velho. Prometo ser breve, como breves foram os anos que passaram diante dos meus olhos. Como deveria tê-los aproveitado melhor!

    Fui ao médico no início da semana. Exames de rotina, nada mais. Faço-os quase anualmente. Não porque seja tão preocupado com a saúde, que, é certo, me fez companhia durante décadas. Eu, que pensava que tínhamos uma relação harmoniosa, fui pego de surpresa quando o cardiologista me abriu os olhos para um problema em uma das válvulas do coração. Mitral. Pois é esse o nome da dita cuja, que, a essa altura da vida, resolveu me trair. E eu, ingênuo até aquele momento, nunca havia desconfiado. Ela agiu sorrateiramente.

    — Doutor, é grave?

    — Não muito, mas requer cirurgia o mais breve possível.

    — É arriscado?

    — Não se preocupe com isso. Já operei diversos casos até piores do que o seu.

    — Então, posso ficar tranquilo?

   — Certamente, mas, como diz aquele ditado, o seguro morreu de velho. Melhor apressar o testamento.

    Que todos vamos morrer um dia, sempre soube.  No entanto, quando a morte se aproxima de maneira tão sutil, nos pega desprevenidos. Seja como for, já decidi que não farei testamento. Que os herdeiros se engalfinhem pelas migalhas!

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar




A hora do pão de queijo

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘A hora do pão de queijo’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada pela IA do Gemini - https://gemini.google.com/app/b57ad3dd8ec693d0?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/b57ad3dd8ec693d0?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Todos, ainda me lembro, acertavam os relógios assim que o delicioso cheiro do pão de queijo da dona Adélia tomava a rua. Quatro horas da tarde! E ninguém se atrevia a questionar tamanha precisão. Até o padre Horácio sabia que aquela hora era sagrada. Tanto é que, como de costume, ia ter com a senhora um tanto de minutos antes. 

          O sacerdote nem chegava a bater à porta da antiga casa da esquina, pois o arrastar daquelas sandálias sob a batina o anunciava. Um sorriso o recebia assim que ele subia o último vão da pequena escada.

          — Que bom que o senhor chegou a tempo de provar o pão de queijo que acabei de retirar do forno.

          Se era verdade ou não, sei lá, mas corria à boca pequena que aqueles dois possuíam algo além do apreço pelo pão de queijo. Não que fosse algo falado logo ali na pequena praça defronte à igreja. Era mais uma coisa de olhares e sorrisos maliciosos do povo, que não tinha coisa melhor para fazer ou, então, fruto da natureza tão própria dos humanos. 

          Padre Horácio, assim que a porta lhe era aberta, estendia o braço para dona Adélia, que lhe pousava os lábios sobre aquela mão quase tão alva como farinha de trigo. Isso acontecia tanto ao entrar como ao se despedir. E, quando estava de volta à calçada, o religioso pegava um pente de chifre de boi e o deslizava sobre os cabelos quase negros, se não fosse por duas mechas brancas próximas às orelhas. Aquilo, aliás, era mais um mote para o falatório maldoso.

          Enquanto menino, não atentava para tais conversas. Pensava apenas naquele pão de queijo, cujo cheiro inebriava minhas narinas infantis. Na verdade, apenas quando me tornei homem feito é que tive o prazer de degustar um ou dois. Confesso que não o achei nem melhor nem pior do que os demais que já havia comido. Seja como for, é uma parte da minha infância que gosto de lembrar, ainda mais porque era justamente quando a meninada começava a sair para se divertir na rua.

          Adorava brincar de queimada, principalmente quando não ficava no time da Fernanda, uma garota bem magrinha, cujos olhos me causavam arrepios. E, todas as vezes que ela arremessava a bola, eu me deixava ser queimado apenas para olhá-la soltando aquela gargalhada tão gostosa.

          — Te queimei de novo, Carlinhos!

          E lá ia eu para o outro lado. Fingia-me emburrado, enquanto sentia meu coração palpitar dentro do peito. Coisas de menino, cuja voz começava a engrossar. Todavia, jamais consegui fazer com que a Fernanda me fitasse de maneira especial. Isso, aliás, ela fazia, ainda que discretamente, para o Toninho, que morava justamente na casa ao lado da minha. 

          Cheguei a ter ódio daquele garoto. Um intrometido, que impediu que eu desfrutasse o primeiro amor da minha vida. Por ironia, viramos melhores amigos dois anos após. E, confesso, fui eu que me aproximei por ciúme e despeito, pois ele e Fernanda se tornaram namorados. Tal comportamento doentio ou, ao menos, contraditório, também fez com que a menina dos meus sonhos se tornasse minha grande confidente. 

          — Você gosta de alguém, Carlinhos?

          — Sim.

          — E eu posso saber quem é?

          — É segredo.

          — Hum. Você está me deixando curiosa. Eu conheço essa sortuda?

          Eu não sabia onde enfiar a minha cara, ainda mais diante daqueles olhos tão inquisidores, daqueles lábios maravilhosamente delineados. Menti descaradamente.

          — Não conhece. É uma menina que conheci numa festa. A gente ficou, mas ela preferiu terminar.

          — Por quê?

          — Ah, ela me disse que estava gostando de outro cara.

          — Qual o nome dela?

          — Por que quer saber?

          — Porque sou curiosa e também sou sua melhor amiga.

          — Mara.

          — Mara? Eu conheço uma Mara. Como ela é?

          — Magra, um pouco alta.

          — Da minha altura?

          — Por aí.

          — Qual a cor dos cabelos dela?

          — Ruiva.

          — Ruiva? Não é possível!

          — Por quê?

          — Não é possível que existam duas Maras, magras, altas e ruivas. Eu conheço essa sua namorada!

          Fiquei estático. Não sabia o que falar. Tentei convencê-la de que era óbvio que existiam duas Maras, magras, altas e ruivas. Falei até que era bem provável que existissem dezenas de garotas assim. Que nada! Como fui burro em inventar que namorava uma Mara, magra, alta e ruiva. 

          Lembro-me de que, na noite daquele dia, levei muito tempo para pegar no sono. Morria de medo de ser pego naquela mentira tão deslavada. E, pior, justamente pela Fernanda, a garota mais linda da minha rua. E se aquela história se espalhasse? Os supostos comentários me perseguiram por dias: “Você viu o Carlinhos? Pois é, tá inventando que ficou com a Mara, aquela ruiva amiga da Nanda!”, “Ah, o Carlinhos nunca nem beijou uma garota!”, “O Carlinhos mente que nem sente!”

          Não sei se a Fernanda se esqueceu da nossa conversa ou, então, preferiu não tocar mais no assunto. Por conta disso, meu medo foi se esvaindo, até que, por fim, nem eu me lembrava. Isso até a semana passada, quando, após quase 20 anos, esbarrei com o amor da minha infância na entrada do cinema. A princípio, não me dei conta da sua presença, até que ela tocou meu ombro.

          — Carlinhos! Não é possível! Há quanto tempo!

          — Nanda! 

          A minha antiga confidente me deu um abraço apertado e nos beijamos no rosto. Naquele instante, muitas coisas passaram pela minha mente. O que ela fazia da vida? Morava perto? Será que ela estava solteira? Tais pensamentos, todavia, viraram fumaça assim que ela chamou uma amiga, que carregava um enorme saco de pipoca e dois copos de refrigerante.

          — Lembra da Mara?

          Apenas sorri. Finalmente, depois de tantos anos, fui conhecer o meu antigo caso que nunca existiu. Mara, magra, alta e ruiva. Aliás, como era linda!

          Apesar do cinema praticamente lotado, conseguimos sentar juntos. Não por sorte, mas porque a Nanda convenceu um rapaz a trocar de lugar comigo. Fiquei entre aquelas duas mulheres maravilhosas por quase três horas de filme. Depois, convidei as duas para irmos a uma cafeteria ali perto. Por sorte, elas aceitaram.

          Sentamos à mesa mais ao canto e fizemos nossos pedidos, praticamente idênticos, caso não fosse pelo cappuccino da Fernanda. Para acompanhar, pedimos pão de queijo.

          — Carlinhos, você se lembra da dona Adélia e do padre Horácio?

          — Aqueles pães de queijo fizeram história.

          Entre lembranças e risadas, aqueles momentos foram os melhores da minha vida, que, na verdade, havia se tornado muito chata. É que me tornei gerente de um banco, mal saía com mulheres. Não por culpa delas, é que eu me transformara num homem desinteressante. Isto é, até que, após oferecer carona a Fernanda e Mara, agarrei-me à minha derradeira esperança. Como a Fernanda morava mais perto, a deixei primeiro em casa. Em seguida, quando voltei ao carro, ganhei um beijo inesperado.

          — Carlinhos, ouço falar de você há tanto tempo, que é como se já nos conhecêssemos.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Genuíno, o sincero

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Genuíno, o sincero’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/21278e13fa5f10ca?android-min-version=301356232&ios-min-version=322.0&is_sa=1&campaign_id=footer&utm_source=share_media&utm_medium=product_promo&utm_
campaign=footer&pt=9008&mt=8&ct=product_promo

Genuíno Lhano é o que se pode chamar de homem peremptório. Sim, isso mesmo! Direto como uma flecha, não fazia rodeios para dizer o que tinha que dizer. Ou, como gostava de falar o seu amigo, o Juarez, Genuíno falava o que era para ser falido, dizia o que era para ser dizido. Seja com português rebuscado ou inventado pela sabedoria popular, esse homem diz o que pensa, mesmo que nem sempre pense o que fala. 

    Histórias não faltam sobre esse homem quase octogenário que não faz rodeio nem para montar cavalo xucro, caso seja necessário. Uma delas aconteceu justamente na primeira vez que viu o Augustinho, o primogênito da dona Augusta e do seu Augusto, os então novos moradores do bairro Menino Deus, na linda e acolhedora Porto Alegre. 

    O jovem casal, orgulhoso do seu herdeiro, passeava com aquele bebê de apenas seis meses. Os moradores paravam para elogiar aquela coisa mais fofa do mundo. Dona Lídia, uma das mais antigas, fez questão até de tascar um baita beijo naquelas bochechas rosadas. Nem a marca do batom vermelho pareceu incomodar os pais do menino. Na verdade, os dois pareciam acreditar que mereciam tudo aquilo, tão certos que estavam de que o pequeno Augustinho era mesmo um príncipe de tão lindo. 

        Nisso, eis que surgiu o Genuíno, que não entendeu o porquê daquela algazarra em volta daquele carrinho de bebê. Curioso, foi até lá, quando a Alzira lhe sorriu ao mesmo tempo em que apontou para o Augustinho. 

        — Vem ver, Genuíno! Vem ver esse menino mais lindo do mundo!

        O velho se aproximou do grupo e, finalmente, olhou olho a olho pro Augustinho. Para falar a verdade, bem que ele quis permanecer calado, dar as costas e ir embora. Mas foi impedido pela Alzira, que, eufórica, queria porque queria a opinião do Genuíno. O velho torceu a cara e acabou causando um mal-estar, que poderia ter virado até caso de polícia, caso o seu Valdo não interviesse.

    — Por que viraram o piá do avesso?

    Esse reboliço foi assunto no bairro durante os próximos anos, até que o Augustinho, já com seus quase 8, estava jogando bola na quadra em frente ao cachorródromo do Tesourinha. Chuta daqui, chuta dali, eis que um bicudo mais forte fez com que a bola ultrapassasse a grade e fosse parar justamente aos pés do Genuíno. 

    O idoso, que estava acompanhado do velho Ludo, um vira-lata de pelo rasteiro, fez questão de demonstrar suas habilidades futebolísticas, que não eram muitas. Agachou-se com certa dificuldade, pegou a bola e tentou devolvê-la com um chute. Sem sucesso, pois ela caiu no gramado do cachorródromo, bem ao lado da grade. Foi até lá e, com mais um esforço, conseguiu jogá-la do outro lado. Augustinho, já com a bola nas mãos, agradeceu o velho pela generosidade. O velho sorriu e disse uma coisa que o menino não entendeu.

    — Você ficou bem melhor depois que te reviraram.

    Parece que tal interlúdio foi parar nos ouvidos da dona Augusta, que, até aquele momento, guardava certa mágoa do Genuíno. Todavia, todo esse rancor de anos havia chegado ao fim. Na verdade, a mãe do Augustinho passou até a ser uma defensora do velho, que ainda guardava alguns desafetos no bairro. Tanto é que, certo dia, a dona Augusta resolveu fazer uma visita para o Genuíno. Sem saber o que levar, colheu algumas pimentas no jardim. Colocou-as cuidadosamente numa vasilha e, já na calçada, percebeu que o velho acabara de entrar em casa.

    Dona Augusta caminhou até a residência do Genuíno, tocou a campainha. Logo o velho surgiu. Ela, para desfazer qualquer mal-entendido, sorriu com todos os dentes, ao mesmo tempo em que cumprimentou o vizinho. Trocaram algumas palavras com promessas de uma visita para um café daqui a alguns dias. Nisso, a mãe do Augustinho se lembrou das pimentas e entregou o potinho para o mais sincero dos homens.

    — São para o senhor. 

    — O que é isso?

    — Ah, são pimentas do meu jardim. Eu que plantei.

  — Muito agradecido, minha filha. Mas as minhas hemorroidas não me permitem tal extravagância.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook