O inusitado dentro do coletivo

O coração tem razões que a própria razão desconhece… e o transporte público também

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma foto tirada dentro de um ônibus urbano em movimento. No lado esquerdo, um jovem casal está se beijando apaixonadamente no assento, com o homem segurando a mulher no colo. No lado direito, uma mulher sentada ao lado da janela ri, cobrindo a boca com a mão, enquanto olha para o casal. Outros passageiros são visíveis ao fundo, e uma rua da cidade pode ser vista pelas janelas.
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Entediada de ficar em casa, Salete decidiu, logo após tomar café, ir fazer uma visita à Paula, uma amiga que acabara de se separar. Não se sabe se houve traição ou, então, seriam meras incompatibilidades de convivência. O problema é que, já devidamente acomodada no banco do seu velho Chevette, girou a chave e nada do carango dar sinal de vida. 

          Salete girou duas, três, quinze vezes. E não era falta de gasolina, pois fazia apenas dois dias que ela enchera o tanque. Sem tempo de chamar um mecânico, resolveu se aventurar a andar de ônibus desde que trocara a minissaia por um emprego no Banco do Brasil. 

          Telefonou para Paula e disse que iria se atrasar. Aproveitou para saber qual o ônibus que passava mais perto. A colega lhe disse para pegar um táxi, que era mais rápido, mas Salete, talvez por economia, talvez por desejar um pouco de aventura, declinou.

          — Creio que será até bom relembrar os tempos de pobretona.

          — E por acaso ficou milionária e está escondendo o jogo?

          — Sou bancária e não banqueira, Paula.

          Já no ponto, Salete ficou atenta aos ônibus que chegavam e partiam, até que, finalmente, surgiu o seu. Um pequeno frio na barriga ao subir os degraus, pura falta de costume. Cumprimentou o motorista, um sujeito de bigode grosso e aparente educação. Em seguida, nova saudação, agora para o cobrador. Pagou-lhe, passou a roleta e, ainda perdida, escolheu um lugar no fundo do coletivo. Sentou-se.

          Salete buscou alguma distração olhando através da janela, mas duas vozes aflitas chamaram sua atenção. Era um casal, ao menos foi a impressão que teve, pois a conversa era carregada de sentimentos.

        — Você promete?

        — Vou ver se consigo, meu amor.

        — Ah, mas ontem você disse que iria.

        — Vou tentar. Te ligo antes do almoço. Pode ser?

         — Mas você promete?

         — Tá. Preciso descer no próximo ponto.

          O homem, antes de se levantar, deu um breve beijo nos lábios da mulher ansiosa por saber se a tal promessa se cumpriria ou não. Salete sorriu, como se desejando o mesmo para a conhecida de última hora, apesar de nem saber do que se tratava, muito menos quais eram os nomes dos pombinhos. 

        Voltou os olhos para fora do ônibus, quando viu o homem, passos apertados, indo em direção a uma padaria. Trabalharia ali ou, não era impossível, teria entrado apenas para comer algo ou comprar cigarros antes de ir para o emprego? 

           Quando ainda tentava desvendar aquele mistério, eis que um rapaz, 10 ou 15 anos mais jovem, entrou no ônibus e foi se sentar justamente ao lado da bonitona que queria porque queria que o marido (?) lhe prometesse algo que permanecia uma incógnita para Salete. E foi aí que algo inesperado aconteceu, como se quisesse provar que Blaise Pascal, filósofo e matemático francês do século XVII, não estava enganado: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

            — Você é louco!

            — Louco por você, meu amor!

            — Por que não esperou na outra parada? Você sabe que o Ademir sempre desce aqui.

            — Um pouquinho de perigo é bom pra apimentar a paixão.

            Beijaram-se, beijaram-se, beijaram-se, que Salete imaginou que talvez aqueles dois, certamente amantes, pensassem que estavam em uma boate ou num quarto de motel. 

            — Para! Não dá pra esperar?

            — Desculpe, Cíntia. É que estava com saudade. 

            — Também, tolinho. Ah, vem cá, Júlio!

            Salete, boquiaberta, tentou buscar algo fora do ônibus para disfarçar seu espanto. Óbvio que não iria falar nem sequer meia vírgula, mas não queria provocar constrangimento aos enamorados. Constrangimento? Será que aqueles dois sabiam o que era isso? Ela levou a mão à boca e sorriu sem provocar barulho. 

           Três pontos adiante, desceu quase em frente ao prédio da Paula. Conversaram por quase duas horas. Enquanto a agora separada falava mal do ex-marido, Salete não conseguia deixar de se lembrar do ocorrido dentro do coletivo. Tanto é que, durante quase um mês, visitou a amiga, não somente com o intuito de consolá-la, mas principalmente de reencontrar aquele trio inusitado.

            Nunca mais viu qualquer um dos envolvidos. Teria Ademir descoberto a traição? Ou Cíntia teria fugido com Júlio? Se ao menos ela tivesse a oportunidade de encontrá-los… Que fossem felizes. Era o que Salete desejou do fundo do coração. 

Eduardo Cesario-Martínez

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Três telefones em pensão para senhoras

Em um corredor silencioso, três telefones são o único elo com o mundo e com a esperança do reencontro

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem colorida mostra seis mulheres idosas num pátio de pedra. No centro, uma mulher de cabelo cacheado e casaco azul caminha. À esquerda, três mulheres sentadas, uma com andador. À direita, uma mulher numa cadeira de rodas e duas numa banca. O fundo tem paredes de tijolo e telefones pretos vintage.
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Três telefones presos à mesma parede do corredor daquela pensão para senhoras. Enquanto aqueles três objetos permaneciam grudados, sempre no mesmo lugar, as hóspedes, ansiosas, olhavam para o vazio na esperança de que a próxima chamada fosse para elas. Nesse silêncio, até o zumbido de uma mosca poderia ser confundido com o toque do telefone.         

          Alice, uma das hóspedes mais antigas, imaginava estar em um hospício. Já Ruth, que há dois dias havia sido levada para lá, não tinha a menor dúvida. Mas outras opiniões saíam da boca daquelas mulheres, a maioria já passada dos 70, cinco ou seis beirando os 90, sem contar Clara, que insistia em permanecer sobre a terra, apesar dos 104 completados em janeiro. 

          Não eram maltratadas fisicamente, pois o tempo já se encarregara desse papel. Todavia, dor maior era aquela que todas sentiam: o abandono. É verdade que algumas recebiam visitas de parentes, que, aos poucos ou de modo mais ligeiro, iam escasseando até que restassem apenas datas especiais, quando muito. 

          — Isto é uma prisão!

          — Dona Laura, aqui estão os seus remédios. A senhora precisa tomá-los.

          A velha, olhos arregalados, torceu os lábios e, contrariada, obedeceu. Bebeu meio copo d’água e, em seguida, abriu bem a boca para mostrar que havia engolido tudo. A funcionária, assim que deu as costas para levar medicamentos para outras hóspedes, esboçou um sorriso com as palavras de Laura para a hóspede ao lado, Solange.

          — Essa aí é uma peste!

          Solange, que há tempos não falava e mal se movia, se esforçou ao máximo para concordar. Maldito AVC, que a limitou ao quase imperceptível movimento do indicador da mão esquerda. Por conta de toda essa limitação, era comum colocá-la em frente à televisão, onde era obrigada a assistir à mesma programação todos os dias. Ela sonhava em ter o controle do aparelho em suas mãos para poder trocar de canal. Melhor, desligaria aquela caixa falante e cheia de imagens distorcidas. Pobre mulher, sonhava com os dias em que possuía controle sobre suas próprias ações. 

          Hora para isso, hora para aquilo, hora que não era hora. Ora, vê se pode? Onde já se viu ter hora para tudo e para nada? Isso lá é vida? Até planta tem hora de abrir e fechar as flores. Ali, naquele lugar, não havia botões. Todas as pétalas já teriam caído há tempos. Há tempos! Quiçá não foram arrancadas por mãos truculentas. 

          Hora do pátio. A osteoporose comia solta naquele ambiente. Melhor tomar um solzinho. Era hora de relembrar tempos de praia, idas ao clube ou banhos de cachoeira. Por ali, no entanto, quando muito, um borrifador. 

          Aquelas velhas, algumas sentadas, outras em pé, praticamente todas com a face virada para cima tentando sentir os raios solares invadirem a alma. Momento em que se simulavam vivas. Eis que o telefone tocou. Todas se olharam, sorrisos estampados em lábios murchos. 

          Elizabeth, no auge dos 73, simulou uma corrida até o corredor. Não demorou, voltou para o pátio, onde ouviu várias vozes perguntando para quem era a ligação. A mulher, olhos tristonhos, voz quase muda, finalmente respondeu.

          — Era engano.

Eduardo Cesario-Martínez

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Um certo Edmundo Donato

Descubra a história por trás do jornalista que sonhava em viver da literatura e marcar gerações.

Eduardo Cesario-Martínez
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Não era de briga, ainda mais depois da última surra que levou quando ainda estava nos primeiros anos na escola.  Se aquilo fazia parte do mundo masculino, ele preferiu seguir pelo caminho da literatura e, desde então, embrenhou-se entre páginas amareladas dos livros da estante do avô. 

          Começou por volumes da Coleção Vaga-Lume, quando se apaixonou pelas obras do escritor Marcos Rey: O mistério do cinco estrelasO rapto do garoto de ouro e Um cadáver ouve rádio. Que mundo era aquele? Não teve dúvida e arriscou-se a abrir o coração para o avô.

            — Quero ser escritor.

            — Hum! Já falou isso pros seus pais?

            — Papai talvez não diga nada, mas mamãe vai me matar.

            — Por quê?

            — Porque quer me ver advogado ou médico.

            — Não.

            — Não?

            — Não perguntei isso. Por que quer ser escritor?

            Edmundo Donato pensou, pensou, pensou… 

            — Não posso?

            — É óbvio que pode.

            — Então?

            — Então, o quê, Edmundo?

            — Então, quero ser escritor. 

            Os anos seguintes foram de muitas descobertas. Edmundo passou por vários autores. Apaixonou-se por alguns, mas invejava apenas um: Afonso Henriques de Lima Barreto. Tanto é que enfrentou a mãe diante do pai mudo.

            — Mamãe, quero ser jornalista.

            — Jornalista, Edmundo? Quer morrer de fome? 

            — De fome não morro, mamãe.

            — E você acha que vai ter a mim e seu pai durante toda a vida.

            — Não, mamãe.

            — E por que é então que você diz com tanta certeza que não vai morrer de fome, meu filho?

            — Antes morro de desgosto entre processos e agulhas, mamãe.

            Edmundo virou jornalista. Não chegou a morrer de fome, mas longe de degustar caviar. Suficiente para ter uma vida pouco acima do modesto, o que, aos seus olhos, era mais do que satisfatório. No entanto, faltava-lhe algo.

               Durante uma conversa com um colega de redação, no Bar do Bosco, na 709 Norte, em Brasília, Edmundo levantou a questão que o frustrava.

                — Sabe, Bartô, quero ser escritor.

                — Nem sabia que você escrevia, Edmundo.

                — Um pouco.

                — E do nada você quer virar escritor?

                — Não é do nada. Virei jornalista por causa do Lima Barreto.

                — Pois eu virei por causa do José Seabra.

                — Excelente referência. Mas eu queria ser que nem o Lima.

                — Logo tu?

                — E por que não eu?

                — Nunca que você vai ser que nem o Lima Barreto.

                — Tá! Mas me dê uma razão. Uma única razão!

                — Edmundo, tu é um arregão!

                 — Alto lá, meu amigo! Arregão não!!! Cauteloso.

Eduardo Cesario-Martínez

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Lata, barro e café com leite

Uma fascinante viagem no tempo onde a imigração italiana, a astúcia das ruas e a linhagem fictícia de um cãozinho revelam como se constroem as grandes oportunidades da vida

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Um homem pouco mais velho segurando um cachorro enquanto conversa com outro homem mais jovem.
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Meu bisavô, Salvatore Conti, chegou ao Brasil ainda no colo de sua mamma, Giuseppina Rossi, que acompanhava os passos aflitos do marido, Francesco Conti, um italiano que teria acreditado em promessas de vida farta na então capital do país, o Rio de Janeiro. Apesar da decepção inicial, o trio decidiu ficar, mesmo porque lhe faltavam recursos para a viagem de volta para a comuna de Paola, na Cosenza, parte da Calábria, região mais ao Sul da Itália. 

            Sem alternativas e pressionado pela situação, Francesco não titubeou em aceitar a primeira oferta de emprego: ajudante de pedreiro. O salário era pífio para tanto calo e suor, mas o suficiente para apaziguar o fantasma da fome que já rondava os seus. Giuseppina, olhos voltados para o rebento, preocupada com a unidade familiar, se fiava no discernimento do marido, ainda mais por se encontrar em terras estrangeiras tão distantes. 

            O pequeno, carinhosamente chamado de Sal, protegido por Giuseppina, levou alguns anos até perceber que a vida não era tão doce como imaginava. Não que tivesse luxos, mas criança sabe se divertir com qualquer pedaço de lata. Além do mais, gente tem o hábito de guardar com carinho o sabor de meros nacos de pão dormido molhados em café com leite pelos dedos macios da mãe.

            Sal estudou o necessário para entender que manchetes, não raro, direcionam para caminhos diversos do conteúdo. O resto aprendeu em casa ou, quando os assuntos não eram apropriados para uma mãe ter com a cria, nas ruas. 

           Várias tentativas para deixar de ser um peso morto para família, a partir dos nove anos, conseguiu alguns trocados, a maior parte entregue para sua mamma. Se fosse por ela, Salvatore se tornaria doutor. Porém, a mulher há muito teria deixado as tolices nas profundezas do Atlântico.

            Em 1922, após breve e respeitoso namoro com a filha de um determinado comerciante, Sal se casou. Orgulhoso, declinou de trabalhar em um dos prósperos negócios do sogro, preferindo manter o emprego de mascate, quando, em uma das viagens para o interior de Minas Gerais, conheceu um adestrador de cachorros. Achou aquilo interessante, mas não vislumbrou de imediato serventia. Que aquela coisa de fazer cachorro deitar, sentar, dar a pata e até fingir de morto era curiosa, como se o bicho tivesse passado anos em escola, mas a vida corrida não permitia que o sujeito se perdesse em contemplações.

            — Qual é seu ofício, amigo?

            — De tudo um pouco, o que a vida me oferecer, eu cato. E o seu?

            — Bem, meu amigo, a vida não tem me oferecido muita coisa. Então, ai de mim se não criar as minhas próprias oportunidades. Você está vendo este cachorro?

                Salvatore observou o pequeno animal, não mais de cinco quilos, calculou. Em seguida, voltou os olhos para Diego, era esse o nome do tipo, cujo forte sotaque indicava origem espanhola. 

                — Pois é, meu amigo, este aqui é o Peteleco. Esperto que nem a mãe, que era menor do que ele quando a peguei na sarjeta. Você acredita nisso? Que alguém possa largar uma criatura de Deus assim pra morrer? Era pele e osso, mais osso do que pele até, não sei como ainda estava viva. Era desses casos de querer resistir ao chamado da Senhora da Foice. 

                    — Onde ela está? Morreu?

                    — Não, não, não! Você acredita que hoje vive num palacete no Rio de Janeiro? Na capital, meu amigo. Na capital! E sabe por quê?

                    — Por quê?

                    — Grana, meu amigo. Grana! 

                    Salvatore passou a olhar com interesse aquele homem, que ele sabia ser deveras esperto e, por isso mesmo, precisaria ficar ainda mais atento do que de costume. 

                    — Uma madame, meu amigo, mais emperiquitada que mulher da vida. Não me enganei, e não foi por causa das joias, que todas lá têm as suas. Estilo, meu amigo! A dona era chique. E até a Teca, que de boba não tem nada, percebeu.

                — Teca?

                — A cachorra.

                — Ah, tá!

                — Pois como te falava, a Teca, sabida que nem Pedro Urdemales, começou a fazer os truques que sabia.

                Espanhol, Salvatore teve quase certeza. Todavia, preferiu não interromper o homem, que falava mais do que a própria língua.

                — E olha que eu não dei qualquer comando. A Teca parece que entendeu que a grande chance de comer caviar estava ali naquela criatura perfumada. E começou a sentar, deitar, dava as patinhas, ficava de pé, saltitava só com as patas de trás, depois rolava, rodopiava e, então, fingiu ter morrido. Um dos olhos fechado, o outro tão aberto que parecia jabuticaba. Funcionou! A madame se apaixonou e quis saber se eu vendia. Fiz cara de contrariado, a dona insistiu. Falei que a cadela era da família, que precisava valer muito a pena pra desfazer dela. A ricaça me olhou de cima a baixo, como se estivesse calculando a pobreza instalada. A primeira oferta foi de 50 mil-réis. Fiz cara de ofendido, e a dona ofereceu o dobro. Continuei indiferente, quando a madame pareceu irredutível: “Pois bem, meu senhor, 200 mil-réis!”

                — E é óbvio que você vendeu a cachorra.

           — Hum! Assim que a madame disse que 200 mil-réis era o limite, fiz cara de ofendido. Falei que a Teca era uma legítima pastora de Covadonga, de estirpe que não custa menos do que 400 mil-réis. Mesmo assim, disse que não vendia, que as crianças de casa ficariam desoladas, que a mulher também era apegada demais. 

                — Não vendeu?

                — Hum! Aquela madame era tinhosa, mais cabeçuda do que Miura. 

                Sim, o sujeito só podia ser espanhol, pensou Salvatore.

                — Sabe o que ela fez?

                — O quê?

                —  Abriu a bolsa e retirou um bolo de notas graúdas, meu amigo. A dona se aproximou de mim, esticou o braço e disse: “Toma aqui, meu senhor! É o que tenho! Agora me dê essa cachorra!”

                    — E você aceitou?

                     — É, meu amigo, chega uma hora que não dá mais pra esticar a corda. Tive que ceder, afinal, eram 500 mil-réis.

                    — E os seus filhos? E a sua esposa?

                    — Meu amigo, nem sou casado. Como é que vou ter filhos?

                    Salvatore, misto de incredulidade e admiração, quis esticar a conversa.

                     — Hum… Mas tem uma coisa que não entendo.

                    — O quê, meu amigo?

                    — Por que você me abordou? É óbvio que sou um tipo sem bufunfa.

                 — Você tem razão, meu amigo, mas percebi em você algo parecido comigo quando eu ainda era jovem. Quer ser meu sócio?

                   E foi assim que meu bisavô Salvatore Conti entrou para o ramo de adestramento de cachorros, que virou negócio da família. Ofício mais difícil do que parece, pois precisa ter paciência e saber escolher bem os cães para se trabalhar. Que nem aqueles filhotes ali no canto. Todos descendentes diretos da Teca, legítimos pastores de Covadonga, raça que não está catalogada em nenhum lugar.

Eduardo Cesario-Martínez

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Verdades que parecem mentiras

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Verdades que parecem mentiras’

Eduardo Cesario-Martínez
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Getúlio andava com a pulga atrás da orelha, desconfiado de Laís, a noiva de feições faceiras e curvas de parar o trânsito. Talvez fosse apenas impressão ou, ao menos, era isso que dona Felícia, a quase sogra, tentava incutir na mente do sujeito. 

           — Mas, dona Felícia, a senhora tem certeza?

          — Getúlio, meu rapaz, você acha que uma filha consegue esconder alguma coisa da mãe?

           — Bem… Ela mentiu pra mim, e não foi só uma vez.

          Dona Felícia se espichou que nem girafa, lançou sobre o jovem aquele olhar de coruja ressabiada, rodeou-o por duas, três vezes, enquanto Getúlio começou a esperar por um ataque pelas costas. Do nada, a mulher saiu da sala, foi até a cozinha. O homem não entendeu tal atitude, talvez ele tivesse dito coisa que não devia.

          Os minutos seguintes duraram uma eternidade, embora, na conta do relógio na parede, não tivessem chegado a meia hora. De repente, lá estava a anfitriã, café e bolinhos de chuva em uma bandeja de plástico simples, porém honesta. Ela ajeitou o lanche da tarde sobre a mesa e, logo em seguida, ordenou.

          — Venha se sentar.

          Getúlio nem titubeou. Era homem de enfrentar qualquer um, até cachorro bravo se fosse necessário. Todavia, a coragem se acanhava diante daquela mulher.

          — O café tá do seu agrado?

          — Tá sim, senhora.

          — E os bolinhos?

          — Os melhores que já provei.

          Dona Felícia pareceu satisfeita, apesar de não acreditar por completo nas respostas. Seja como for, regozijou-se por dentro sem deixar transparecer os sentimentos para o futuro genro. De súbito, a dona da casa, dedo em riste, ergueu a voz.

          — Pois vou lhe dizer uma coisa muito séria!

          Getúlio, olhos do tamanho de jabuticaba madura, ficou diante da mulher aguardando a grande explicação, que acabou por deixá-lo ainda mais confuso.

          — A Laís não mentiu porque simplesmente nunca aprendeu a mentir. Ela é moça direita, que você precisa confiar. A minha filha só sabe dizer verdades, mesmo aquelas que ainda não chegaram a acontecer.

Eduardo Cesario-Martínez




Leopoldo e o mendigo

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘Leopoldo e o mendigo’

Eduardo Cesario-Martínez
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Leopoldo era do tipo que não levava desaforo para casa, mesmo que aquilo lhe custasse rusgas permanentes com, por exemplo, um vizinho de porta. Que fosse daquele jeito, o sujeito não parecia se importar, apesar das aflições cada vez mais perenes, que chegavam sem qualquer cerimônia e se instalavam no coração.

            O sujeito sabia que aquela situação não era amiga da saúde e, por isso, buscou algumas alternativas para evitar descontroles por bobagens. Que guardasse energia para quando fosse realmente necessário como, por exemplo, salvar o planeta de um improvável ataque alienígena ou, então, enfrentar o ex-boxeador Popó, desde que fosse recompensado com alguns milhões para valer a pena a surra que iria levar. 

            Não podemos dizer que Leopoldo não tenha tentado, até porque Gabriela, namorada com longo histórico de paciência, testemunhou alguns fatos que, outrora, seriam estopins para crises histéricas do amado. Mas o fato que mudou definitivamente o jeito do rapaz de levar a vida aconteceu por acaso e, talvez pelo inusitado, vale aqui mencioná-lo.

            Estava o casal passando pelo Setor Comercial Sul, em Brasília, quando um mendigo, sentado na calçada, esticou a mão e pediu ajuda. Leopoldo, que não era de questionar necessidades alheias, abriu a carteira, mas não encontrou trocado.

            — Meu amigo, vou ficar te devendo. Só tenho uma nota de cem.

            O pedinte sorriu e, percebendo que daquele mato não saía cachorro, aguardou o próximo transeunte. Nisso, Leopoldo, assim que deu as costas para seguir seu caminho de mãos dadas com a namorada, arregalou os olhos e exclamou:

            — Não pode ser!

            — O que foi, meu amor?

            — Eu conheço aquele cara!

            Leopoldo retornou e, diante do necessitado, perguntou:

            — Camilo, é você?

            Pego de surpresa, o homem levou alguns segundos encarando Leopoldo.

            — Leopoldo! Não é possível! É você mesmo?

            — Sim, Camilo! Sou eu! Mas o que você está fazendo aqui? Olha, se você estiver mesmo precisando, estão aqui os cem reais.

            — Que nada! Pode ficar com o seu dinheiro. 

            Camilo se levantou e abraçou o amigo.

            — Leopoldo, e quem é a gatinha?

            — Ah, Camilo! Essa é a Gabriela, minha namorada.

           Apresentações feitas, Camilo disse que estava fazendo laboratório para viver um mendigo em um curta que seria filmado no mês seguinte. 

           — Que loucura!

            — Um pouco, Leopoldo. Mas vida de ator é assim mesmo. Aliás, vocês já almoçaram? 

            — Ainda não, mas…

            — Então, estão convidados pra almoçar comigo. Já ensaiei muito por hoje. 

           Lá foram os três para um restaurante ali perto. E o engraçado mesmo foi na hora de pagar a conta. O Camilo nem deixou o colega tirar a carteira do bolso.

            — Nananinanão, Leopoldo! Vocês são meus convidados. Além do mais, faturei bem hoje. Estou até pensando em largar a vida de ator pra virar mendigo profissional. 

             Por sorte ou destino, Camilo não trocou de profissão. O curta foi um sucesso, ele foi requisitado para viver o protagonista de um longa, pois um famoso diretor de cinema ficou impressionado com a sua atuação carregada de emoção e veracidade ao dizer o derradeiro texto antes dos letreiros começarem a subir:

            Sei que muitos de nós gostaríamos de enaltecer uma das qualidades mais nobres que uma pessoa pode possuir: o humor. Nunca perca seu humor, pois, apesar das perturbações que a vida nos oferece, com humor encontraremos mais soluções e menos problemas. O mundo é muito rude e, para vencê-lo, devemos mudar a estratégia.

Eduardo Cesario-Martínez




O dia em que o Cid Moreira me deixou no vácuo

Eduardo Cesario-Martínez:

Crônica ‘O dia em que o Cid Moreira me deixou no vácuo’

Eduardo Cesario-Martínez
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Dia desses um sujeito me abordou na rua, e eu não o reconheci de imediato. Digo até que estranhei o modo que ele me chamou.

            — Ei, Eduardo!

            Se o meu nome é esse? Sim, mas praticamente ninguém me chama assim. Meus amigos costumam me chamar de Edu e, por conta do meu blog, de Dudu. Alguns até de Du e, creio que apenas o escritor J. Emiliano Cruz (Jota), de Ed. Ah, o meu amigo Marco Antônio também me chamava de Ed, mas não sei por quê.

            Pensando bem, creio que, no caso do Jota, seja por causa do personagem Ed Mort, do Luis Fernando Verissimo. É, provavelmente seja por isso mesmo. Dia desses vou questioná-lo a respeito. Quanto ao Marco Antônio, há tempos que não nos vemos e, pelo menos por enquanto, terei que conviver com essa incógnita.

           Mas lá estava aquele tipo me gritando na rua. Aliás, do outro lado da calçada, as mãos erguidas, como se fosse um náufrago em uma ilha isolada.

           — Ei, Eduardo! É você mesmo, cara?

           Confesso que, naquele instante, a dúvida se instalou bem ao lado da quase certeza. É que talvez ele tenha me confundido com um amigo homônimo. Afinal, são tantos Eduardos, que daria para lotar vários Maracanãs. E não estou falando do Maracanã de agora, mas do tempo das arquibancadas e geral. Acredite ou não, somos mais de 650 mil só no Brasil. 

           Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, eis que o homem se arriscou entre os automóveis e, milagrosamente sem nem mesmo um arranhão, atravessou a rua. Pior, o cara carregava aquele sorriso que me deixou ainda mais ressabiado, pois, por mais que eu tentasse, não conseguia me lembrar de onde eu o conhecia. E, antes que eu pudesse colocar tudo a perder, eis que o meu querido desconhecido, esbaforido por conta da carreira, estendeu a mão e se revelou:

            — Puxa, sou seu maior fã! Já li o seu livro duas vezes. Você é o melhor!

           Que falta faz um cinegrafista do Canal 100 nessas horas. Já pensou? E com aquela música de abertura, a voz do Cid Moreira narrando todo aquele espetáculo, a galera atenta a cada lance, o sujeito com o radinho de pilha grudado na orelha… De repente, surgem as pernas do Garrincha sambando pra cá, sambando pra lá, os marcadores no chão, lá vai o rei dos dribles em direção ao gol… Acorda, Eduardo! Literatura não é futebol!

           — Oh, meu amigo, muito obrigado! 

          Costumo falar que escritores não são astros do rock. Podemos sair tranquilamente, ir à padaria tomar um café, jogar conversa fora na esquina, passear com o cachorro, andar de mãos dadas com a namorada… Nós não sabemos o que são paparazzi na prática. Mesmo assim, lá estava eu diante de um fã. Pois é, meu amigo, um fã! Que isso chegue ligeiro aos ouvidos do meu grande amigo e escritor Daniel Marchi, o Dan, que, por acaso, só me chama de Edu. Fico aqui imaginando a sua reação.

           — Sério, Edu?

           — Pois é, Dan. Pra você ver. A coisa está de um jeito, que mal posso colocar os pés na rua. 

           — Que loucura!

           — Sim. Uma loucura! Mas é a vida, meu amigo. Não dá pra fugir do meu destino, que é brilhar, brilhar, brilhar…

          O meu fã, talvez o único no quarteirão inteiro, me arranca do devaneio.

            — Eduardo, posso tirar uma foto com você?

            Obviamente que disse sim e tratei de mostrar o meu melhor ângulo, caso ele realmente exista. Não queria que a captação daquele momento, que espero ficar para a posteridade, tenha me pegado de olhos fechados, boca torta ou… feio. Será? Quanta bobagem! O que importa mesmo é o texto que fica. Essa é a vantagem de ser escritor. Ninguém liga se você não tenha o rosto do Alain Delon ou do Tarcísio Meira. 

           Ser lido é muito bom! E digo mais, meu amigo, é especial. Veja bem, ninguém aumenta o volume quando está lendo. É íntimo, quase sempre solitário, escondido, no máximo bem lá no fundo do metrô ou do ônibus, correndo os olhos, sentimentos guardados no peito, folheando as páginas discretamente. 

         Virei ouvinte do meu leitor, cujas palavras me pareceram muito maiores do que as que o meu coração está acostumado. Coisa linda demais. Será que a minha esposa vai acreditar? O que as minhas filhas vão dizer? E o Dan? A vida tem dessas coisas, meu amigo. Se a gente não está preparado, melhor nem pisar na rua.         

            Será que saí bonito?

Eduardo Cesario-Martínez

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