Cordel das memórias que vão e ficam

Márcio José Zacarias: ‘Cordel das memórias que vão e ficam’

Márcio José Zacarias
Márcio José Zacarias
Imagem criada pela IA do ChatGPT

Introdução

O Alzheimer é uma doença silenciosa.

Ele não chega como uma tempestade repentina, entretanto como uma névoa lenta que vai cobrindo os caminhos da memória. Primeiro desaparecem pequenas coisas: datas, nomes e objetos esquecidos sobre a mesa. Depois, pouco a pouco, histórias inteiras começam a se apagar.

Para quem vive a doença, a memória se torna um território incerto. Para quem acompanha de perto — filhos, netos, companheiros e cuidadores — nasce um outro aprendizado: o de amar para além das lembranças. Quando as palavras falham, restam os gestos, o toque e uma amorosa presença.
O cordel a seguir reúne diferentes vozes de uma mesma família diante dessa travessia. Cada estrofe revela um olhar sobre a perda da memória e, ao mesmo tempo, sobre aquilo que permanece. Porque, mesmo quando as lembranças se desfazem, algo essencial continua vivo: o afeto.

É sobre as memórias que partem e sobre aquelas que insistem em ficar que este cordel se constrói.

Cordel das Memórias que Vão e Ficam

Eu sou a filha mais velha,
Ele foi luz da minha vida,
Sabia todas as datas,
Cada história repetida.
Hoje pergunta meu nome
Com a voz meio perdida.

Eu sou o filho que aprendeu
Com ele todo o serviço,
Martelo, prego e madeira
Não tinham nenhum feitiço.
Hoje perde as próprias chaves
E diz que foi sumiço.

Sou a esposa companheira
De quarenta anos de caminho,
Ele sabia meus gostos
Sem eu falar baixinho.
Hoje me chama ‘senhora’
Como quem chama um vizinho.

Sou o neto que aprendeu
A soltar pipa no vento,
Vovô contava histórias
Que duravam muito tempo.
Agora esquece o final
No meio do pensamento.

Sou a irmã de infância
Do terreiro e pé no chão,
Brincamos de bola e roda
Debaixo do mesmo verão.
Hoje ele sorri pra mim
Mas não sabe quem eu sou não.

Sou o médico que explica
Com cuidado e precisão:
Não é teimosia ou preguiça,
Nem falta de atenção.
É a memória se apagando
Como vela no lampião.

Sou a cuidadora da casa
Que o ajuda todo dia,
Banho, remédio e conversa
Com calma e companhia.
Mesmo sem lembrar de tudo
Ele ainda sente alegria.

Somos a família inteira
Aprendendo outra lição:
Amar mais devagarinho
Com paciência e coração.
Quem perde suas memórias
Precisa mais de união.

E eu sou aquele que esquece
No silêncio da jornada,
Os nomes fogem de mim
Como ave assustadas.
Mas quando seguram minha mão
Sei que não perdi nada.

Márcio José Zacarias

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O mapa que chorava

Márcio José Zacarias: Conto ‘O mapa que chorava’

Márcio José Zacarias
Márcio José Zacarias
Imagemcriada por IA doChatGPT – 28 de janeiro de 2026, às 09h05

Numa noite silenciosa, quando a escola já dormia e o pó do giz repousava sobre as mesas, a sala de aula despertou para um diálogo inesperado.

O Mapa do Brasil, pendurado torto na parede, começou a soluçar. Suas cores estavam opacas, e pequenas gotas escorriam de seus pequenos olhinhos.

— Por que choras, Mapa? — perguntou a Lousa, cansada de carregar tantas palavras que ninguém mais lia até o fim.

O Mapa respirou fundo, como quem carrega séculos nas costas.

— Choro porque já fui orgulho — respondeu, deixando cair mais uma lágrima —, mas hoje sou esquecimento. Já fui verde, hoje sou cinza. Já fui esperança, hoje sou estatística.

A Carteira Escolar, marcada por nomes riscados, rangeu suas pernas enferrujadas.

— Estranho… todos sentam sobre mim todos os dias, contudo poucos se levantam para defender o que aprendem.

O Livro Didático, esquecido aberto na página do Hino Nacional, folheou-se com um vento leve e disse:

— Está tudo escrito aqui. Sempre esteve. Contudo letras sem ação são só tinta cansada.

O Globo Terrestre, rodando devagar sobre a mesa do professor, suspirou:

— Não é só contigo, Mapa. Muitos países giram sem saber para onde vão. Entretanto dói mais quando quem te gira são teus próprios filhos.

O Apontador, cheio de lascas de lápis ao redor, murmurou:

— Todo dia afiam ideias… mas quase ninguém as usa.

O Lápis, pequeno e gasto, levantou a voz:

— Eu ainda tento. Escrevo sonhos, protestos e poemas. Porém sou quebrado com facilidade.

O Apagador, coberto de pó branco, completou:

— E eu apago tudo no fim da aula. Ideias, promessas e indignações. O problema não é apagar… é não reescrever melhor depois.

O Mapa, pensativo, falou mais baixo:

— Já tive filhos que lutavam. Hoje tenho filhos que passam por mim sem me enxergar. Pergunto-me se ainda sou pátria ou apenas paisagem.

Nesse instante, o Relógio da Parede bateu uma hora lenta e solene, e disse:

— O tempo passa, Mapa. E deveras ele cobra. Sempre cobra.

O silêncio voltou à sala.
O Mapa aquietou-se, como uma criança adormecida.
A escola voltou a dormir.

Na manhã seguinte, alunos entraram, sentaram, copiaram e saíram.

No entanto um deles, antes de ir embora, olhou para o Mapa por alguns segundos a mais.

E isso, talvez, tenha sido o começo.

Moral: Um país não adoece por falta de palavras, e sim por excesso de silêncio diante delas.

Márcio José Zacarias

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Vozes caladas

Márcio José Zacarias: Poema ‘Vozes caladas’

Márcio José Zacarias
Márcio José Zacarias
Imagem criada por IA do ChatGPT – 6 de janeiro de 2026, às 11:19 PM

Na rua vazia, há gritos no chão,
Sonhos quebrados, pedindo atenção.
Olhares que clamam por pão e abrigo,
Contudo o mundo apressa-se, segue consigo.

A pele marcada, a fome exposta,
A vida negada, a dor que encosta.
Muros erguemos, pontes esquecemos,
E a indiferença é o que mais mantemos.

A justiça adormece em berço de lei,
Enquanto o pobre pergunta: “E eu, onde fiquei?”
Se cada gesto tivesse coragem,
O mundo seria menos selvagem.

Causas são vidas, não estatística fria;
Só há mudança onde há empatia.

Márcio José Zacarias

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