O sétimo sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O sétimo sinal’

Ramos António Amine
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Após a fuga da aldeia com a brigada provincial e por recomendação do vigário, o carro da brigada foi conduzido até o mosteiro da capital provincial, onde o jovem foi acolhido no orfanato, enquanto aguardava os trâmites legais para a sua ida à capital do país, para frequentar o curso de Geologia, como prometido pelo vigário e confirmado pela brigada provincial.

Do outro lado do santuário, o vigário procurava formas discretas que lhe permitissem sair sem cruzar a mesma aldeia que quisera queimar vivo o jovem, pois seria ele o próximo alvo da fúria dos aldeões, por ter precipitado a saída do jovem da aldeia, quando este ainda tinha muito para dar.

Por isso, aguardava a noite.

Quando a noite chegou, disfarçado de motorista comum, o vigário colocou-se na viatura e dirigiu-se pela estrada que dava acesso à aldeia. Para sua surpresa, a aldeia estava totalmente calma, quase resignada consigo mesma. Nenhum dos seus habitantes se encontrava na estrada a vigiar os movimentos habituais. Este facto deixou o vigário incrédulo, pois não esperava tal situação, o que lhe permitiu atravessar a aldeia sem dificuldade, embora permanecesse atento a cada canto. Desconfiava sempre de possíveis ciladas por parte dos populares.

Na manhã seguinte, a aldeia descobriu que o vigário havia passado durante a noite e lamentou não tê-lo interceptado de dia, pois queria pedir desculpas pelo que acontecera ao jovem. Ainda assim, prometeu fazê-lo oportunamente, sendo aquela a única estrada de acesso ao santuário, por onde o vigário sempre passava.

No orfanato, o jovem não encontrava espaço para conversar com os outros miúdos ali acolhidos, não por preconceito das responsáveis do mosteiro, mas pela própria urgência da sua estadia. Ali, quase não havia tempo para conversas, todos estavam ocupados nos seus afazeres.

Apesar disso, observava os outros órfãos, marcados pela ausência de identidade e pela sede de futuro. Não via neles diferença essencial em relação a si. Apenas notava nos seus olhos um certo otimismo em relação ao presente e um automatismo nas suas acções, o que o distinguia, pois ele acreditava que cada um devia cultivar o seu próprio jardim, convicção que guardava desde a leitura de Cândido, de Voltaire.

Por outro lado, agradecia interiormente o cuidado das responsáveis do orfanato. Sem a sua abnegação, a rua teria sido o destino inevitável daqueles órfãos. Quis expressar a sua gratidão, mas encontrou barreiras, pois não era permitida qualquer aproximação, sobretudo de pessoas sem identidade definida, como ele. Ainda assim, guardou esse gesto consigo e prometeu fazê-lo oportunamente.

O mês foi passando.

Até que, certo dia, um dos comissionários do amparo da província, juntamente com o vigário, se fez presente na instituição. Após explicarem a razão da visita, informaram as responsáveis de que o jovem não ficaria ali de forma definitiva, pois tinha obtido a oportunidade de seguir para a capital do país para cursar Geologia, cumprindo-se assim a promessa feita pelas entidades envolvidas.

As responsáveis não resistiram. Além disso, o jovem não representava uma ligação afectiva forte para aquele lugar, que dependia sobretudo de crianças de presença recente e identidade em formação. Assim, assinaram os documentos que autorizavam a sua partida.

Porém, uma das funcionárias, a mais velha de todas, decidiu aproximar-se para se despedir do jovem. Esse gesto reabriu nele uma ferida que nunca cicatrizara: a memória da mãe e de um filho perdido há anos. No entanto, nem o jovem nem a funcionária sabiam que estavam diante de memórias vivas um do outro.

A mãe reconheceu o filho. O filho, porém, não a reconheceu. Ela ficou em choque, quase perdendo os sentidos ao ver o seu único filho transformado pelo tempo. Ainda assim, resistiu.

Decidiu revelar-se.

Mas não houve tempo.

A rotina da instituição não permitia conversas longas, e para evitar conflitos com as responsáveis, a mãe limitou-se a despedir-se do jovem, entregando-lhe um colar em formato de 7 e um papel com rabiscos apressados, onde se lia:

“Para trás, nunca, sob nenhum pretexto, pois o mundo está cheio de gente que te quer desviar do teu caminho.”

Assinado: a tua mãe.

A hora da saída para a capital já estava definida há muito. O jovem recebeu o colar e a carta, mas a sua atenção ficou presa noutro lugar. Afinal, precisava de se concentrar nos últimos dizeres vindos do vigário e dos comissionários do amparo.

Todo aquele tempo de espera permitira aos comissionários do amparo tratar de toda a documentação do jovem. Tinham prometido na aldeia, quando ele recebeu a confirmação da atribuição da oportunidade de estudos na capital, após ter respondido correctamente ao enigma elaborado pelo vigário.

Para além dos últimos dizeres, aquele momento serviu também para a entrega dos seus documentos, incluindo certificados que haviam sido esquecidos na quinta, quando da fuga da mãe e do menino. O jovem admirou-se da astúcia que levou os comissionários do amparo até à quinta dos ímpios, a ponto de tratarem de toda a documentação, sabendo que se tratava de um lugar de protecção reforçada. Ainda assim, não quis saber mais da quinta, como se pressentisse a morte do pai no garimpo daquela quinta, após ter encontrado algo de valor ímpar.

Enquanto isso, a mãe não tirava os olhos do jovem, culpando-se em silêncio por o ter deixado nas mãos do destino alheio. No entanto, nunca se culpava de ter fugido da quinta dos ímpios, decisão que os empurrou para caminhos diferentes. Dizia para consigo mesma que daria tudo para poder contornar o destino do filho. Porém, esse destino já estava traçado: curso de Geologia, na capital do país. Consciente disso, restava-lhe apenas manter-se serena e torcer pelo seu sucesso.

O jovem foi acompanhado até à terminal de transportes rodoviários da cidade, onde foi deixado sozinho para pernoitar e partir no dia seguinte. Da sua cidade para a capital, percorreria distâncias possíveis apenas com a coragem. A estrada principal não estava totalmente transitável, agravada pelo período de inverno, marcado por chuvas torrenciais e granizo.

A primeira tentação que o jovem enfrentou surgiu logo na terminal, onde, em plena noite sonolenta, sentiu que algo lhe era retirado por gente de má-fé. Era a sua pasta que, aos poucos, deixava de repousar como sua cabeceira e parecia querer ficar naquela cidade, como se os certificados vindos da quinta dos ímpios quisessem inviabilizar o seu destino. Mesmo assim, o jovem despertou a tempo e enfrentou os sem-vergonha, como se escutasse, dentro de si, as palavras ainda não lidas da carta da mãe. Apresentou-os imediatamente às autoridades da guarita e permaneceu vigilante.

Na hora de embarque, já na confusão da entrada da viatura, o jovem passou o teste da segunda tentação. Desta vez, quase perdeu o seu bilhete de passageiro, pressionado pelo fluxo desordenado de pessoas. Havia ali gente dura, marcada por uma vida que parecia não ter sido suficientemente amada pelo mundo. Ainda assim, recuperou o bilhete e seguiu viagem, guardando essa experiência consigo.

A viagem prosseguiu. Desamparado, o jovem foi-se perdendo em reflexões sobre a sua vida. Pela primeira vez, ninguém o incomodava, a não ser os rostos absortos e os companheiros de viagem isolados por ecrãs e auriculares.

Pensou que tudo na sua vida se encaixava: cada tragédia vivida preparava-o para uma etapa maior, até chegar ao ponto de se encontrar na viatura rumo à capital. Porém, por outro lado, sentia que o mundo à sua volta não era o melhor possível, daí que era imperioso começar a cultivar o seu próprio jardim.

Estas reflexões fortaleciam a sua determinação em prosseguir, apesar das estradas esburacadas e lamacentas. Só não entendia por que razão iria cursar Geologia, em detrimento de Filosofia, com a qual tivera contacto por meio de Cândido de Voltaire na quinta dos ímpios e, de A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset no santuário.

Até que o transporte parou em plena viagem, à procura de estratégias para escapar a um charco que se formara ao longo da estrada principal. O cenário chamou-lhe a atenção. Pensou, então, que a palavra Geologia, formada por “geo” (terra) e “logia” (estudo), poderia dar-lhe uma forma de compreender e talvez propor vias alternativas para o tráfego de pessoas e bens.

Depois de uma semana e meia de viagem, o jovem chegou à capital do país. Logo na descida, quis o destino que enfrentasse mais uma constatação dura: a existência de contentores de lixo espalhados, crianças desamparadas e, do outro lado da via, automóveis de luxo que passavam indiferentes. Notou também que, pela primeira vez, respirava um ar poluído, marcado por emissões que afectavam a camada de ozono.

Pela segunda vez, o jovem sentiu a razão de levar o curso de Geologia a sério. Porém, esse ânimo foi abafado ao recordar que, após o desembarque, cabia-lhe procurar a sua própria moradia.

Ramos António Amine

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O sexto sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O sexto sinal’

Ramos António Amine
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Após a confusão instalada no momento da acção de graças, que culminara na fuga do santuário, embora com a mochila desprovida de sentido, pois o livro Cândido ficara esquecido dentro do recinto sagrado, o miúdo cruzou caminhos estreitos, noites escuras e dias sem comida. Servia-se de água suja partilhada com os animais não humanos, temendo passar por estradas comuns e encontrar gente perversa que lhe pudesse fazer mal. Afinal, depois das sucessivas tragédias que marcavam a sua existência: a morte do pai, a fuga da mãe da quinta, a transformação da mãe em prostituta ressuscitada, a vida de catador de lixo, o acolhimento e posterior fuga do santuário, o miúdo já possuía consciência suficiente para discernir o bem do mal.

Porém, embora consciente do mundo e dos seus devaneios, o miúdo ignorava que, para além do passado repleto de nuances, outra nódoa o perseguia: o fumo do incenso do santuário. E o pior de tudo era que o fumo o seguia inocentemente por onde passasse.

Depois de sucessivos devaneios que o transformaram num peregrino solitário, eis que o miúdo chegou a uma aldeia de gente desconhecida. Desejava que a sua presença ali não fosse notada, como quem acredita que a ausência pesa mais do que a presença. Não se apresentou às estruturas da aldeia, tentando evitar chamar atenção, sem saber que não chamar atenção é, muitas vezes, a melhor forma de chamá-la.

Entretanto, apesar da discrição da sua chegada em terra alheia, as lideranças logo pressentiram a entrada de um ente novo na aldeia. E o fumo do incenso que perseguia o miúdo foi o grande denunciante.

Enquanto isso, no santuário espalhava-se a notícia da fuga do miúdo, pois ele jamais voltara a apresentar-se desde o domingo de ramos. Os sinos foram accionados. Os diáconos começaram a culpar-se mutuamente, acreditando que a fuga estivesse relacionada às atitudes que desagradaram o miúdo. O padre, porém, acreditava na inocência do rapaz e esperava pelo seu regresso. Já os outros miúdos acolhidos no santuário combinavam entre si que, caso o companheiro não regressasse, rebelar-se-iam contra as treze regras do santuário ou seguiriam o mesmo destino: a fuga.

Quem não demonstrava preocupação alguma era o vigário que presidira à missa do domingo de ramos. Estivera atento apenas ao ofertório recebido durante a celebração.

Os ímpios, a mãe do miúdo junto da amiga, o monge e os cães fardados regressaram sem sucesso às suas zonas de proveniência. Como se viu na missa, ninguém reconheceu ninguém, embora o instinto de cada um sentisse o cheiro do seu alvo.

O vigário despediu-se do santuário. Carregou a sua oferenda e pôs-se a conduzir a viatura luxuosa em estradas de lixo.

Ao passar pela aldeia circunvizinha, a mesma que acolhera o miúdo, a viatura atolou e capotou, pois a estrada, além de esburacada, não passava de um lamaçal.

E, como é habitual nas aldeias de bons selvagens, sempre que há tragédia social não se clama por ajuda: ela vem sozinha. Naquela aldeia não foi diferente. De repente, surgiu um grupo de jovens munidos do material necessário para pronta intervenção. Entre eles estava o miúdo, que se aproximou atentamente da viatura e descobriu tratar-se da do vigário-geral da diocese. Decidiu afastar-se para não ser reconhecido, porém uma voz interior dizia-lhe para permanecer e intervir.

De repente, o cheiro do fumo do incenso que permanecera no miúdo atingiu o vigário, embora não tão fortemente quanto a preocupação que tinha em ver a viatura livre daquela situação.

Várias tentativas foram levadas a cabo, mas sem sucesso. Até que o miúdo decidiu apresentar a sua visão. Sugeriu que levantassem a viatura com força, em vez de escavar o lado onde o pneu capotara. Alguns jovens resistiram à ideia, mas outros decidiram ouvi-lo. Ergueram a viatura de um lado e, depois de sucessivas tentativas frustradas, conseguiram finalmente libertá-la.

Felizardo, o vigário quis agradecer aos jovens. Fe-lo distribuindo algumas moedas arrecadadas do ofertório solene da missa do domingo de ramos. Porém, o miúdo recusou aceitar a recompensa, acreditando ter agido apenas por humanidade. Enquanto isso, os outros alegravam-se com o gesto e rogavam para que mais viaturas capotassem naquele trajecto, para fins de arrecadação de fundos.

A atitude do miúdo surpreendeu o vigário, mas não os jovens, que cochichavam entre si que fora melhor o rapaz recusar as moedas, pois assim evitava-se dificuldade na partilha.

Antes de partir daquela aldeia, o vigário decidiu testar a instrução dos jovens. Prometeu que quem respondesse correctamente à sua pergunta receberia uma oportunidade de estudo.

Concentrou-os e lançou apenas uma questão:

– Qual é o ser que, no começo da vida, anda sobre quatro pés; a meio da vida, sobre dois; e, no fim, sobre três?

Os jovens ficaram encurralados, pois jamais haviam estado diante de questão daquela natureza. O miúdo, porém, não se surpreendeu com o enigma, pois a sua própria vida não passava de uma sucessão de enigmas.

Permaneceu em silêncio por alguns instantes. Embora soubesse a resposta, não desejava tornar-se beneficiário da recompensa prometida pelo vigário. Ainda assim, decidiu responder por coerência consigo mesmo, afinal, reza a lenda que quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Quando o vigário já parecia cansado de esperar, o miúdo respondeu prontamente:

– É o homem. Na infância desloca-se sobre duas mãos e dois pés; durante a vida caminha sobre dois pés; e, no fim da existência, serve-se de um bastão como terceiro apoio.

Satisfeito com a resposta, o vigário viu-se no dever de cumprir a promessa de conceder ao rapaz uma oportunidade de estudo. Pediu apenas algum tempo para regressar à diocese e formalizar o gesto.

Enquanto isso, na aldeia, o miúdo agora já em fase juvenil, tornara-se famoso. Por onde passasse, todos clamavam por ele. A notícia espalhou-se até ao santuário, à quinta dos ímpios, ao prostíbulo onde residia a mãe e à casa do monge. Porém, cada qual permanecia ocupado com a própria vida. Até porque ninguém fazia a menor ideia sobre tal jovem.

A fama entristecia cada vez mais o jovem, pois jurara viver discretamente, longe dos alardes. Passou a viver numa cabana abandonada por uma anciã da aldeia que fora morta sob acusações de feitiçaria. Houve até quem associasse a chegada do jovem a um sinal de vingança pela morte da velha, considerando-o fruto da mesma árvore genealógica.

Num desses dias, enquanto deambulava pelas lixeiras da aldeia, o jovem encontrou o bibliotecário do santuário, o mesmo que sob o comando do diácono, retirara das estantes o livro A Rebelião das Massas. O homem não reconheceu o rapaz, pois ele crescera e a aparência mudara com os devaneios da existência. O jovem, contudo, reconheceu-o imediatamente.

Ainda assim, jamais guardara rancor daquele senhor. E a forma respeitosa como o tratou sensibilizou o bibliotecário, que, em gesto de correspondência, prometeu-lhe um presente.

O jovem, sereno, considerou a atitude algo natural. Mesmo assim, agradeceu e pediu que o homem não se preocupasse.

Sucedeu que, no regresso do santuário, o bibliotecário procurou o aposento do jovem. Sem encontrá-lo, acabou por cruzar-se com ele numa ruela da aldeia. Retirou então de um saco velho o presente prometido e entregou-lho.

O jovem regressou calmamente à cabana. Ao abrir o saco, deparou-se com uma realidade inesperada: o livro A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, o mesmo que lhe fora implicitamente proibido na biblioteca do santuário, por orientação de um dos diáconos.

Agradeceu aos céus pelo gesto do bibliotecário, mas decidiu devolvê-lo, pois sabia que o livro fora retirado do santuário em condições duvidosas. Dizia para si mesmo que, se fosse para alcançar o saber, que assim fosse não por meio do desvio moral, mas pelo esforço individual.

Na manhã seguinte, o jovem colocou-se novamente nas andanças das lixeiras, desta vez com o propósito de encontrar o bibliotecário para devolver-lhe o presente proibido e agradecer-lhe pela intenção.

Assim aconteceu. O bibliotecário passou. O jovem interpelou-o, devolveu-lhe o livro e ambos dispersaram-se sem despertar suspeitas. Afinal, apesar de movimentada, a aldeia tinha olhos atentos para tudo.

Dias depois, o vigário regressou. Não vinha sozinho, mas acompanhado por uma brigada provincial responsável pela área da criança e acção social.

A aldeia agitou-se. Os idosos esperavam o anúncio do subsídio de velhice. Os jovens imaginavam novas viaturas atoladas para arrecadação de moedas.

A brigada desceu juntamente com o vigário e iniciou conversa com os populares. Após alguns minutos, o vigário anunciou o verdadeiro motivo da visita. Pediu então que comparecesse o jovem que decifrara o enigma durante a sua passagem pela aldeia.

O jovem não estava presente. Desejava viver distante da mídia populista. Apesar da irritação de alguns, houve quem fosse procurá-lo. Encontraram-no na lixeira, a tentar compreender o sentido da existência. Resistiu, mas como a maioria vence, acabou por seguir até ao encontro do vigário e da brigada.

As lideranças da aldeia não aceitaram o que presenciavam. Para demonstrar repulsa, decidiram boicotar o evento e erguer barricadas na estrada principal, a mesma enlameada e esburacada.

Ainda assim, nada impediu a cerimónia.

O vigário apresentou o jovem à brigada provincial, que anunciou oficialmente que, a partir daquele momento, ele receberia uma oportunidade de estudo no curso de Geologia, numa das universidades reconhecidas da capital do país.

Quando lhe perguntaram se possuía o ensino médio concluído, respondeu que sim, e que os certificados provavelmente permaneciam na quinta dos ímpios, local onde estudara.

A brigada comprometeu-se a tratar dos documentos necessários. Depois disso, o vigário despediu-se e regressou ao santuário para coordenar sobre a peregrinação das famílias cristãs da diocese.

Os populares, enfurecidos por nenhum dos seus filhos ter sido distinguido, decidiram sacrificar o jovem. Planeavam incendiar o casebre enquanto ele dormisse, como forma de inviabilizar o destino que consideravam repugnante.

O jovem percebeu os olhares desavindos das lideranças. Descobriu o plano. Segredou-o à brigada, que resolveu partir com ele imediatamente após o término do encontro, sem anunciar nada a ninguém.

Assim sucedeu.

Enquanto a aldeia se preparava para consumar o incêndio, a viatura da brigada arrancou em alta velocidade levando o jovem consigo. Apesar das pedradas lançadas pelos populares e das barricadas tardias, o veículo conseguiu escapar da fúria colectiva.

Enquanto a viatura desaparecia na estrada enlameada, o jovem olhou pela última vez para a aldeia. 

Ao longe, já se via o fogo consumir o casebre onde pretendiam queimá-lo vivo. 

O jovem nada disse.

Apenas apertou contra o peito o vazio deixado pela mochila perdida.

E assim se consumou o sexto sinal.

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O quinto sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O quinto sinal’

Ramos António Amine
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Acolhido pelo padre no santuário, o miúdo deparou-se com uma realidade inusitada, tal como o pai se deparara aquando da sua transferência da lavra para o garimpo: muitas crianças órfãs de futuro sob o amparo do santuário. Logo à entrada, pediram-lhe que se desfizesse da mochila, o autêntico abrigo da única herança que trouxera da quinta dos ímpios: o livro Cândido, de Voltaire. Aceitou desprender-se da mochila, mas levou consigo o livro, atitude que deixou boquiabertas as demais crianças do santuário.

Foi então apresentado às outras crianças, mas não conseguiu libertar-se do primeiro erro da sua existência: não conseguia dizer o seu nome, não por devaneio, mas porque, de facto, nunca o tivera desde a sua aparição ao mundo. Deram-lhe abrigo, mas também as treze regras do santuário. Ficou particularmente atento à quinta regra: “não se salva fora do santuário”. Questionou-se em silêncio, como guardião de avisos ignorados: que salvação é essa que só existe aqui? Novo naquele espaço, decidiu guardar as suas interrogações para o momento da refeição, acreditando que encontraria respostas junto das outras crianças famintas de futuro.

Deram-lhe roupa adequada, exigida pela dignidade do santuário. Mas permanecia ainda nu de identidade. Essa nudez entristecia-o, pois às outras crianças fora-lhes forjada alguma forma de pertença.

O padre, responsável pelo santuário, o mesmo que o acolhera, lisonjeado com o gesto de amparo, decidiu reunir-se de imediato com os dois diáconos para lhes comunicar a situação do novo miúdo. Revelou que o encontrara na rua, desalojado, e que o acolhera em nome da humanidade. Da reunião resultou a missão de lhe fabricar uma identidade nova, capaz de o afastar rapidamente do passado, tal como se afastara da mochila.

Enquanto discutiam a nova identidade do miúdo, a mãe nunca deixara de pensar no filho. Porém, a sua missão presente consistia em encontrar o monge que a enganara no primeiro encontro no prostíbulo, logo após a sua conversão  à prostituição. Missão quase impossível, pois o monge havia redimensionado os seus apetites carnais, evitando novos encontros no prostíbulo e preferindo sugar as tetas das prostitutas no mosteiro.

Ainda assim, a mãe não desistia de o procurar. Até ao dia em que recebeu um cliente cujo odor lhe pareceu semelhante ao da injustiça do garimpeiro que matara o pai do miúdo, no garimpo. Ninguém reconheceu ninguém. Mas uma sensação antiga de injustiça atravessou-a, levando-a a envolver-se com o garimpeiro disfarçado de cliente. O propósito tornara-se cristalino: extrair verdades sobre a morte do pai do miúdo e preparar, a partir delas, uma vingança contra a quinta dos ímpios.

O miúdo foi crescendo, longe da quinta dos ímpios, onde o pai fora morto pela ganância dos garimpeiros após encontrar ouro de valor ímpar, e longe da mãe, agora prostituta ressuscitada.

No santuário, ninguém estava autorizado a falar do passado, muito menos em voz alta, pois os responsáveis acreditavam que a repetição da memória despertaria consciências de resistência. Contudo, esqueciam-se de que o passado não tem lugar: está sempre no presente.

Nos primeiros dias, o miúdo foi-se ajustando ao novo ar do santuário. Teve contacto com grandes escritores que a basílica guardava, mas nunca se imaginou sem o Cândido nas mãos. Um dia, movido pela mesma curiosidade que o guiara quando catava lixo na rua, o seu abrigo anterior, deparou-se com um livro cuja capa ostentava o título A Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset. Leu as primeiras páginas com atenção, mas não conseguiu terminá-lo, pois o sino da capela soou anunciando a adoração do Santíssimo Corpo do Senhor. Afinal, era numa quinta-feira. Ainda assim, manteve a esperança de reencontrar o livro após a adoração.

Esta foi a sua primeira prestação serviçal a Deus após ter crescido sem Ele: primeiro na quinta dos ímpios e depois na rua. Assim, foi-lhe confiada a missão de segurar o incensário, tal como acontecera outrora na quinta, antes da fuga com a mãe.

E porque a adoração eucarística é o momento que exige maior entrega, o miúdo, tão incauto quanto era, não conseguiu permanecer muito tempo de joelhos. Levantou-se em plena adoração, facto que chamou a atenção de todos, incluindo dos dois diáconos, cujos rostos se transformaram de imediato, como se diante deles surgisse uma profanação.

Cessada a adoração, o miúdo, na sua inocência, correu apressadamente para a biblioteca do santuário, com a esperança de rever o livro que não terminara. Estava tomado pela urgência de o ler.

Para sua surpresa, o livro fora retirado da estante habitual. O que o miúdo não sabia era que, no primeiro contacto com a obra, o bibliotecário, um dos ex-lavradores da quinta dos ímpios, o vira e imediatamente informara o diácono que se encontrava próximo. Do diácono nascera a decisão de retirar o livro da biblioteca, como se temesse uma rebelião dentro do santuário.

Essa atitude, longe de passar despercebida, afiou ainda mais as inquietações do miúdo. Contudo, como sempre, decidiu mantê-las em silêncio, tal como a mãe mantivera em silêncio a ideia de fuga da quinta dos ímpios.

Entretanto, os diáconos, já incapazes de suportar a intrepidez do miúdo, decidiram falar com o padre. Para isso, esperaram que anoitecesse.

Após a última refeição do dia e a oração da noite, aquela que invocava o anjo da guarda, os miúdos foram deitar-se, na esperança de ver o amanhecer em paz, para iniciarem as atividades de lavoura dentro do santuário.

Um dos diáconos não esperou pela digestão do padre e começou a bombardeá-lo com uma sopa de questões:

– Padre, o senhor sabe que esse miúdo é tão intrépido que pode precipitar a queda do cálice do santo altar?

– Não vejo nada de estranho nele – respondeu o padre.

– Não diga isso, reverendo. O miúdo parece intransigente. Lembra-se de que não quis permanecer de joelhos na última adoração eucarística?

– Lembro-me. Mas não houve nada de grave. É novo e poderá habituar-se aos procedimentos do santuário. Acreditem.

– E se não o fizer? – rematou o outro diácono.

– Confio que o miúdo se ajustará ao ar do santuário.

– Caso contrário, terá de mandá-lo para o seminário. Lá aprenderá o que é a vida, de facto – disse o outro diácono.

– O seminário é vocação. Ele deve decidir ir para o seminário. Caso contrário, poderá desistir pelo caminho. O seminário recorda-se tristemente de gente assim – respondeu o padre.

– Reverendo, esse miúdo parece esconder algo inquietante. O senhor conhece o seu passado?

Do lado do padre veio um silêncio ensurdecedor.

Enquanto conversavam, o miúdo escutara tudo, pois não tinha o hábito de dormir cedo, até porque estivera a reler as últimas páginas de Cândido.

Percebeu imediatamente que falavam dele. Mas não se importou. Na manhã seguinte, decidiu ajudar os colegas na lavra da horta do santuário.

Foi então que soube que a maioria dos seus colegas eram filhos de garimpeiros e outros de lavradores da quinta dos ímpios. Porém, desconheciam o paradeiro dos seus progenitores. Ali, ninguém se lembrava das origens, apenas sabiam que as tinham.

Num desses dias, o miúdo foi escalado para servir o santo altar. Ensaiara quase toda a semana, pois a disciplina litúrgica era rígida e exigia precisão nos gestos para não tropeçar com o incensário.

A missa seria presidida pelo vigário-geral da diocese, conhecido pelo gesto de reclamar o ofertório da acção de graças. A informação espalhou-se rapidamente. A comunidade paroquial convidou as circunvizinhas. As leituras foram distribuídas entre as comunidades.

Chegou o domingo. Era de ramos. A paróquia estava apinhada de gente. Vieram os ímpios de todos os tipos, incluindo os filhos da quinta, os lavradores e os garimpeiros da quinta, a prostituta ressuscitada e a amiga que lhe emprestara a roupa de estreia do prostíbulo, os compradores de ouro do garimpo, os cães fardados, o monge e o dono do prostíbulo, e os fiéis em geral.

Ninguém reconheceu ninguém, pois todos estavam transfigurados e cada um atento aos seus próprios objectivos. 

O vigário estava concentrado no ofertório solene. Os ímpios procuravam o miúdo, a oferenda prometida pelos filhos da quinta. 

Os filhos da quinta procuravam a mãe do miúdo, a fugitiva. A mãe do miúdo procurava o monge, o desonesto. O monge procurava o incensário desaparecido na quinta dos ímpios, agora nas mãos do miúdo. Os cães fardados procuravam a prostituta ressuscitada. Os garimpeiros e os lavradores procuravam os seus filhos, acolhidos pelo santuário. Os fiéis não buscavam salvação: clamavam por humanidade. O miúdo queria entender a razão de tantos olhares desatentos.

Durante o ofertório solene, no momento em que o miúdo se aproxima do altar com o incensário, o monge reconhece imediatamente o objecto desaparecido da quinta dos ímpios. Não reconhece primeiro o miúdo, reconhece o incensário.

O monge perde momentaneamente a compostura.

A mãe, ao observar o monge perturbado, fixa finalmente o olhar nele.

Os filhos da quinta percebem a inquietação.

Os cães fardados observam os movimentos.

O vigário mantém-se concentrado no ofertório.

E o miúdo, sem compreender totalmente, sente pela primeira vez que todos os olhares convergem para si.

Nesse instante, o incensário toca o altar como quem toca o destino. O miúdo segura-o com a mesma leveza com que segurara Cândido, nas páginas da sua infância sem nome. O fumo sobe, mas não em paz: sobe como inquietação.

O silêncio que se segue não é litúrgico. É reconhecimento.

A mãe do miúdo, entre rostos transfigurados, sente algo que não sabe nomear. O monge também a vê. Não a reconhece de imediato. Mas o passado, esse que o santuário fingia não existir, começa a respirar dentro do espaço sagrado.

Os diáconos sentem a tensão antes de a compreenderem. O vigário mantém-se preso ao ofertório, como se os olhares desavindos pudessem impedir o cântico da acção de graças.

Até que o incensário vacila.

E cai.

O som do metal no chão não é apenas ruído. É ruptura.

O fumo espalha-se pelo altar, já não em direcção ao céu, mas em direcção aos homens. E por um breve momento, ninguém sabe se está diante de uma missa ou de um julgamento.

O miúdo olha à sua volta. Pela primeira vez, não são apenas olhares dispersos. São buscas. Todos procuram algo nele sem saber o quê.

E ele, que nunca tivera nome, percebe apenas isto: está no centro de algo que não escolheu.

Naquele domingo de ramos, o santo altar cheira mais a incêndio do que a incenso.

O cântico da acção de graças comove aos fiéis ao ponto de se juntarem à fileira das dançarinas que animavam a missa. Esse gesto desencadeia uma confusão generalizada, em que cada um tenta alcançar os seus próprios objectivos.

Foi nesse tumulto que o miúdo consegue escapar do santuário, sem o incensário, mas com a sua mochila, apesar de vazia, do livro que terá ficado no santuário.

Assim, se consumou o quinto sinal: quando no santo altar, o incenso deixou de ser oração e passou a ser memória.

Ramos António Amine

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O quarto sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O quarto sinal’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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A fuga da mãe e do miúdo passou despercebida aos olhares impávidos dos filhos da quinta. Os ímpios encontravam-se em festa, apesar da confusão instalada no interior da tenda, que culminara na queda do cálice sobre o altar da hipocrisia.

Após o último gole do vinho que sustentava a celebração, o monge, com gestos incomuns, solicitou o incensário para a bênção final. Foi então que os ímpios se recordaram: o incensário havia sido levado pelo miúdo, logo após a bênção inicial.

O miúdo não estava presente. Nem a mãe.

Um silêncio denso instalou-se. Para quebrá-lo, ergueu-se um assobio, um só, suficiente para convocar todos os cães fardados.

Vieram as filhas da quinta, trémulas. Vieram os cães fardados. Vieram os informantes da bófia, os garimpeiros, os lavradores. Até a guardiã dos avisos ignorados se fez presente.

Menos a mãe e o miúdo.

A ausência despertou inquietação entre os ímpios.
Onde estão?

A resposta foi um silêncio ensurdecedor.

Assim, a festa que começara sob a exibição da luxúria e da comunhão dos ímpios terminou com uma bênção sem incensário. Afinal, o miúdo era a oferenda dos filhos da quinta aos convidados, e o incensário, apenas o pretexto.

Declarou-se, então, a caça.

Uma rusga foi lançada em direção ao resgate do miúdo e da mãe.

A quinta foi reforçada. Novos arames farpados foram erguidos. A altura dos muros aumentou. A eletrificação do portão foi intensificada.

Os filhos da quinta permaneceram sob custódia da nova guardiã dos avisos ignorados, uma figura oferecida pelos ímpios convidados, trazida numa sacola triste.

Aos lavradores foram atribuídas porções maiores de terra, para que o cansaço lhes roubasse o tempo e, com ele, qualquer tentativa de fisgar o coração de uma das filhas da quinta, como sucedera com a mãe refugiada.

Aos garimpeiros impôs-se uma dívida eterna: pagariam pela morte do pai do miúdo, morto por ambição desmedida após encontrar ouro de valor ímpar. A dívida seria saldada na mina do Diabo, nas profundezas da quinta, sob exploração incessante, sem remuneração e vigiados pelos informantes da bófia.

Recrutaram-se novos cães fardados, mais jovens e de faro apurado. Os antigos foram expulsos e condenados a vaguear pelo mundo, à procura da mãe e do miúdo, agora como cães vadios.

Nenhuma punição recaiu sobre os filhos da quinta. Afinal, eram peritos em não sujar as mãos.

A caça estava declarada.

Enquanto isso, longe dali, a mãe, agora prostituta ressuscitada, enfrentava os piores solavancos da sua vida.

Sem teto. Sem alimento. Sem água sequer para a pureza do corpo.

Naquele novo mundo, tudo escasseava, excepto o sexo. O sexo, esse, fora elevado à condição de negócio mais rentável.

Diante disso, decidiu reinventar-se.

Tomou emprestado de uma amiga, também desalojada após a morte do marido, uma calça de pernas apertadas, uma blusa curta que mal lhe cobria o umbigo, um par de sapatos de salto alto, alguns cosméticos e um relógio simples para controlar o tempo.

E seguiu em direção ao prostíbulo.

Pela primeira vez, deixou o miúdo entregue ao destino, o mesmo destino que fora cruel com o pai.

Nos primeiros dias, enfrentou a resistência das outras mulheres. Chamaram-lhe velha. Intrusa. Indesejada.

A tensão só cessou com a intervenção do dono do prostíbulo.

O dono, um dos ímpios que estivera presente na festa da quinta. O mesmo cuja ação precipitada na tenda provocara a queda do cálice e, por consequência, a fuga da mãe e do miúdo.

Agora, ali estava ele.

E não a reconheceu.

Ela, porém, reconheceu-o sem hesitação.

A sua presença ajustou-lhe as intenções.

O destino, caprichoso, quis que o seu primeiro cliente fosse um rosto familiar: o monge.

Já não parecia velho. Já não era cego. Já não era surdo.

Nada do que fingira ser na tenda permanecia.

Atraído pelos seios firmes da recém-chegada, o monge escolheu-a. Naquele espaço, a novidade era sempre um atractivo e ele apreciava medir territórios ainda não explorados.

Ignorava, porém, que diante dele não estava apenas mais um corpo à venda.

Estava a memória viva daquilo que fingira não ver.

Na casa onde tudo obedecia a regras invisíveis, a prostituta ainda não conhecia os seus limites. Quando o monge a procurou, não recusou. Não por desejo, mas por hábito antigo, feito de sobrevivência e resignação.

Depois do acto apressado, ele levantou-se com a leveza dos que nunca ficam. Disse que ia buscar cigarros, como se o fumo pudesse justificar a impotência. Saiu. E não voltou.

Ficou o quarto. Ficou o cheiro. Ficou a ausência, essa presença mais pesada do que qualquer corpo.

Ela percebeu, então, que não haveria pagamento pelo serviço prestado. Nem palavra, nem responsabilidade, nem vestígio de moral. O monge, homem de fé na aparência e de corrupção nos gestos, dissolvera-se na noite. E, como rumor ainda mais amargo, sabia-se que mantinha ligações com o dono do prostíbulo, alianças silenciosas entre homens que vestiam virtude como máscara.

Saiu à sua procura. Não por esperança, mas por necessidade de sentido.

As outras mulheres perceberam. Já conheciam aquele tipo de abandono. Ainda assim, riram-se. Não por crueldade consciente, mas por desgaste, como quem já não distingue a dor dos outros da própria indiferença.

Mas nela o riso não encontrou eco. Encontrou forma.

Algo se endureceu por dentro. A humilhação deixou de ser ferida e tornou-se direcção. Já não queria apenas o monge. Queria o colapso de tudo o que o sustentava: a quinta, os homens, a ordem invisível dos ímpios.

Quando regressou, trazia o peso de quem já procurou demais e encontrou apenas vazio. Sentou-se em silêncio. E deixou a pergunta que nasceu inevitável: por quê?

O filho aproximou-se e enxugou-lhe as lágrimas. E nesse gesto simples, quase imperceptível, aprendeu uma verdade sem nome: as lágrimas de uma mãe não são como as de crocodilo.

O filho cresceu sem nome, sem pai, sem escola e sem Deus. Cresceu a observar o mundo de fora. Um dia viu uma carrinha levar crianças da sua idade para a escola. Enquanto uns eram conduzidos ao futuro, outros nem sequer sabiam que ele existia.

Ainda assim, o mundo encontrou forma de chegar até ele. Fragmentos de línguas antigas e estrangeiras: latim, alemão, francês, inglês, tiveram lhe atravessado a vida lá na quinta como restos de uma ordem maior que nunca o incluiu.

Depois veio a rua.

A rua não o rejeitou. Absorveu-o. Tornou-se parte do que sobra. Aprendeu a viver entre restos, a abrir sacos como quem abre destinos. E havia nisso uma ironia cruel: os mesmos lixos que lhe garantiam sobrevivência eram admirados por altruístas performativos como paisagens curiosas da pobreza.

A mãe, por sua vez, afundava-se cada vez mais no prostíbulo, não por escolha, mas por perseguição. Havia nela uma obsessão: encontrar o monge, obrigá-lo a olhar com a lâmpada acesa para aquilo que tinha deixado para trás.

Na rua, o rapaz encontrou os que já não perguntavam “porquê”. Mas dentro dele ainda havia resistência.

Até que encontrou o limite.

Num contentor, entre restos sem nome, viu um recém-nascido morto, apertado num saco de plástico. Não disse nada. Guardou o silêncio, como se tivesse herdado o peso do mundo.

Noutro contentor, encontrou comida ainda boa. E pensou no absurdo: o que uns descartam como excesso, outros disputam como sobrevivência.

Começou então a questionar tudo. A mesma sociedade que ridiculariza os que falam sozinhos na rua celebra aqueles que decidem destinos com uma assinatura.

Um dia, cansado, deitou-se sob uma árvore cujas flores pareciam desistir antes de cair. Da sua sacola, retirou um livro: Cândido. Leu e encontrou Pangloss, com o seu otimismo insistente, quase ofensivo diante da realidade.

Mas ali compreendeu: não bastava aceitar o mundo como o melhor possível. Era preciso enfrentá-lo.

O sol desaparecia quando um padre se aproximou. Chamou-o sem pressa, sem julgamento.

O rapaz abriu os olhos.

Tinha o corpo cansado de restos, mas a consciência inquieta de quem já não cabe no lugar onde está.

Levantou-se.

E seguiu.

No santuário da Nossa Senhora, deram-lhe um novo nome, ou talvez apenas um novo lugar.

E assim, o quarto sinal cumpriu-se: não como resposta, mas como início de uma outra forma de dúvida.

Ramos António Amine

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O terceiro sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O terceiro sinal’

Ramos António Amine
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Decidida, sem retorno possível, a fuga da quinta, a mãe do miúdo guardou o plano em silêncio, como faz a guardiã dos avisos ignorados quando decide abrigar-se no espaço diário do pé.

Mas, na quinta, o silêncio também é vigiado.

Os filhos da quinta, zeladores da ordem e da aparência, já haviam disposto cães fardados junto da casa. Não vigiavam apenas corpos, vigiavam intenções. Queriam saber se a mãe conhecia o segredo enterrado: a morte do pai do miúdo.

E havia algo mais.

O nome do miúdo começara a circular entre eles. Não como futuro, mas como destino já decidido, uma oferenda para a próxima comunhão dos ímpios. Na quinta, até a inocência tinha função.

O miúdo, porém, crescia alheio ao desenho do seu próprio fim. Nada lhe faltava, excepto a imagem do pai, cuja ausência o consumia em silêncio.

Um dia, perguntou pelo pai.

A mãe não respondeu. Desviou o olhar e saiu. Ainda não era o momento da verdade, porque ali, a verdade podia matar antes da fuga.

Sem compreender, o miúdo voltou ao seu livro de Cândido, como se a quinta ainda pudesse ser explicada pelo otimismo de Pangloss.

Foi então que a mãe entendeu: já não havia tempo a perder.

Começou, cuidadosamente, a observar a quinta, como quem aprende o mapa de uma prisão: os turnos dos guardas, os passos dos informantes, o comportamento dos cães, a eletricidade dos arames.

A quinta, que antes era abrigo, tornara-se ameaça.

Durante dias, nada aconteceu. Mas, por dentro, tudo já tinha começado a ruir.

Até que veio a festa.

Era uma celebração dos filhos da quinta, do luxo construído sobre trabalho invisível. Montou-se uma tenda gigante. Um grande alpendre foi erguido no centro e, ao fundo, um altar com um cálice rachado. Um ritual sem fé, mas cheio de poder.

Vieram ímpios de outras quintas. E, com eles, as suas prostitutas. Não vieram os lavradores, nem os garimpeiros, nem aqueles que sustentavam tudo.

O miúdo foi designado para o incenso.

A mãe, para o portão.

E, nesse instante, ela soube: não era apenas um ritual, era uma preparação. O miúdo já não era apenas uma criança. Era escolha.

Tocou no portão.

O portão respondeu com um choque elétrico. Não era apenas uma barreira, era prisão.

A cerimónia começou sob a direção de um monge cego e mudo. E ninguém pareceu estranhar. Na quinta, já ninguém esperava ver ou ouvir a verdade.

O miúdo saiu da tenda com o incensário.

E então, tudo se desfez.

Um convidado embriagado deixou cair o cálice. Aquele que pousava no fundo do altar. E pior, rachado. O som seco abriu o caos.

Gritos. Empurrões. Acusações.

Os cães fardados foram soltos. Os informantes da bófia dispersaram-se. Por instantes, a ordem na tenda falhou.

A mãe não correu de imediato.

Esperou pelo momento exato da brecha.

Depois chamou o filho com um gesto urgente.

Ele veio sem hesitar, trazendo consigo O Cândido e A Rebelião das Massas nas mãos.

Segurou-o com força.

E fugiram.

Não pelo portão, mas por uma falha, um espaço esquecido pela vigilância.

O alarme soou, mas já era tarde.

Dentro da tenda, a confusão ainda engolia tudo.

E, pela terceira vez, a quinta falhou.

Do lado de fora, não havia liberdade.

Havia poeira, fome e um mundo sustentado por aquilo que a quinta escondia.

A mãe chorou, não por medo, mas por confirmação.

A quinta não era um lugar.

Era um sistema.

E estava em todo lado.

Os primeiros dias foram duros. O miúdo pediu para voltar.

Ela recusou:

– Melhor livre a procura de lixo na rua ao luxo na gaiola de ouro.

E não voltou.

Quando lhe perguntavam o nome, respondia:

– Chamem-me prostituta ressuscitada.

Porque, naquele mundo, sobreviver já era resistência.

E ela já não pretendia apenas sobreviver.

Pretendia voltar, não para viver na quinta,

mas para a fazer cair.

Passou a ocupar um lugar tão insignificante quanto contraditório na ordem social: visível, mas não reconhecida; usada e depois descartada; tolerada no discurso, mas rejeitada na práctica.

Passou a denunciar aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e pune quem neles cai.

Ninguém ousou questionar como ela chegou ali. A pergunta que sempre surge é outra: por que não sai da prostituição?

Como se sair fosse apenas uma questão de vontade, e não de oportunidade. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a injustiça não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram.

No fundo, ela não pede absolvição aos ímpios. Reclama a humanidade que há de fazer cair a quinta.

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O segundo sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O segundo sinal’

Ramos António Amine
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Aquele que nascera da mistura proibida entre uma das filhas da quinta e um lavrador de mãos encaladas conheceu, desde o primeiro sopro, o peso da rejeição. Para os filhos legítimos da quinta, não passava de um erro, um desvio na ordem preservada, um corpo estranho num lugar onde a pureza era lei.

Mas a mãe, contra todas as vozes e silêncios, acolheu-o. E jurou, com a firmeza de quem desafia o destino de Édipo, protegê-lo da comunhão dos ímpios e oferecer-lhe aquilo que a própria quinta tinha de mais paradoxal: um luxo nascido do lixo, uma dignidade construída sobre restos.

O miúdo cresceu, assim, como uma promessa cuidadosamente lascada. Educado segundo os mais elevados valores da Era das Luzes, inalava o mundo com uma sede que não era apenas de saber, mas de fuga. Para além das primeiras letras, mergulhou nas línguas antigas, grego, latim, e nas estruturas rígidas do alemão. A mãe acreditava, com uma fé quase ingénua, que o domínio das línguas para lá dos muros da quinta lhe daria asas suficientes para os ultrapassar.

Aos cinco anos, já lia clássicos vindos de terras distantes, como se cada palavra fosse um ensaio de liberdade.

Enquanto isso, o pai era arrancado da lavra e lançado ao garimpo, não por necessidade do tripalium, mas por vingança. Os irmãos da mãe não perdoavam o gesto que manchara o nome da quinta. E, pior ainda, não perdoavam o fruto desse gesto: um filho que desafiava a própria lógica da sua existência.

No garimpo, o homem encontrou um mundo ainda mais cruel do que aquele que deixara. Ali, descobriu que muitos dos considerados desaparecidos no outro lado da quinta não o estavam: haviam sido engolidos pela terra e pelo silêncio, mantidos como reféns de uma mina que alimentava, ironicamente, os próprios filhos da quinta, cultores da pureza e da ordem, à custa de silêncios cúmplices.

No primeiro dia, foi espancado. Chamaram-lhe intruso, ameaça, substituto. Cada golpe agravava-lhe a respiração curta, já marcada pela asma. Ainda assim, sobreviveu. E, como tantos outros no garimpo, aprendeu a sobreviver não pela força, mas pelo cansaço. Foi-se moldando à brutalidade, até que esta deixou de ser exceção e passou a ser regra.

Dias depois, encontrou ouro ensanguentado. Não um ouro qualquer, mas aquele que poderia reescrever destinos. Um brilho raro, quase impossível, como se a própria terra, por um instante, tivesse decidido recompensá-lo.

Mas a fortuna, para os condenados da terra, é sempre breve.

Um olhar trémulo seu gerou um gesto mal interpretado pelos outros. E vieram os golpes, desta vez mais pesados, mais decididos. Não resistiu. Caiu ali mesmo, entre a poeira e o silêncio cúmplice dos demais. O ouro mudou de mãos. O corpo, esse, foi descartado, lançado numa cova rasa, coberto à pressa, como se nunca tivesse acolhido algo valioso: uma alma.

Na quinta, o tempo seguia o seu curso, indiferente. O miúdo crescia. Os filhos da quinta arrastavam-se pelos corredores das decisões, alheios, ou fingindo sê-lo, ao que se passava no garimpo.

E, mesmo que soubessem, o silêncio seria sempre a sua primeira decisão.

Mas há verdades que recusam permanecer enterradas.

Um cão, guiado talvez pelo instinto, ou pela justiça que falta aos homens, desenterrou o que restava do corpo. E assim, o segredo começou a apodrecer à superfície. Espalhou-se em zum-zum, depois em olhares desviados, até alcançar os ouvidos daqueles que mais temiam a sua revelação.

Tentaram contê-lo. Falharam.

Porque há sempre quem escute onde não deve, quem veja o que lhe é interdito: a guardiã dos avisos ignorados. E assim, a notícia chegou até ela.

A mãe.

Recebeu-a como quem recebe uma sentença. Não chorou de imediato. Primeiro veio o niilismo: um esvaziamento moral, e depois um silêncio pesado, absoluto, como a pedra de Sísifo. Mais tarde, a certeza: ele estava morto. Espancado por ter encontrado, por um instante, aquilo que lhes poderia ter mudado a vida.

O medo instalou-se. Não o medo da morte dela ou do miúdo, mas o da permanência na quinta. Criar o filho ali, sozinha, dentro daqueles muros inumanos, isso, sim, parecia-lhe insuportável, e ao mesmo tempo uma contradição aos valores de igualdade, solidariedade e fraternidade sobre os quais fora educada.

E então decidiu.

Fugir.

Mas fugir implicava atravessar o impossível: muros altos, arames farpados, cães treinados para impedir a liberdade. Ainda assim, havia algo mais forte do que tudo isso, uma vontade crua, quase selvagem, de não pertencer mais àquele lugar.

Antes que o filho fosse estendido no altar da hipocrisia, como oferenda imolada pelos ímpios no seu próximo ritual, preferia a incerteza da liberdade à segurança contaminada. Preferia cair fora da quinta como uma prostituta ressuscitada a apodrecer dentro dela.

E foi assim, no silêncio de uma decisão sem retorno, que se anunciou o segundo sinal da queda da quinta.

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Os filhos da quinta

Ramos António Amine: Conto ‘Os filhos da quinta’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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Durante muito tempo, fingiu-se que a quinta era apenas um lugar, um espaço cercado por arames farpados, guardado por cães fardados e saturado pelo cheiro da cumplicidade entre homens armados. Um território onde se reuniam os devotos da hipocrisia, os bebedores do mesmo cálice rachado da conveniência, os guardiões disciplinados do silêncio.

Mas essa foi sempre a mentira mais confortável.

A quinta nunca foi apenas um lugar. A quinta é uma escola.

Uma escola de fabricar obediência, de polir consciências até que deixem de se rebelar, de ensinar homens e mulheres a trair a verdade com elegância. Ali não se educa, condiciona-se. Não se forma, molda-se. Aprende-se a distorcer a realidade até que ela obedeça, a chamar prudência à cobardia, inteligência à omissão e maturidade à rendição. E, acima de tudo, aprende-se isto: o poder não precisa de ser legítimo, basta parecer legal.

Foi assim que nasceram os filhos da quinta.

Uns nasceram dentro dos muros, domesticados desde o berço. Cresceram a repetir palavras que nunca pensaram, a respeitar limites que nunca compreenderam, a defender uma ordem que nunca os questionou, porque nunca lhes permitiu questionar. Alimentaram-se de histórias sobre ordem, estabilidade e tradição, como quem engole um sedativo, não para entender o mundo, mas para não o perturbar.

Outros chegaram depois, atraídos pela promessa suja do pertencimento. A quinta acolheu-os como sempre faz, oferecendo abrigo em troca de silêncio, influência em troca de submissão, reconhecimento em troca de consciência. E eles aceitaram. Quase todos aceitam. Os poucos que hesitaram aprenderam depressa que a fome dobra mais convicções do que qualquer argumento.

Com o tempo, os filhos da quinta tornaram-se muitos e tornaram-se pesados. Não apenas no corpo, mas naquilo que evitam carregar: responsabilidade. Arrastaram-se pelos corredores do poder como sombras bem alimentadas, ocuparam cadeiras que nunca lhes exigem coragem, pronunciaram palavras que nunca comprometem nada.

Falam muito. Dizem pouco.

Prometem tudo. Não entregam nada.

Reconhecem-se à distância, não por símbolos, mas por reflexo. A mesma linguagem vazia, a mesma habilidade em fugir sem parecer fugir, a mesma obsessão em manter tudo exatamente como está. E assim a quinta sobrevive, não pela força, mas pela repetição, não pela verdade, mas pelo hábito.

Mas há algo que os filhos da quinta nunca aprenderam e nunca quiseram aprender: escutar. Porque escutar é perigoso. Escutar implica dúvida. E a dúvida é o primeiro golpe contra qualquer muralha.

Do outro lado da quinta, o mundo não esperou. As vozes que foram ignoradas cresceram sem permissão. Tornaram-se mais duras, mais claras, mais impossíveis de calar. As perguntas que foram evitadas fora da quinta começaram a ser feitas dentro dela por aqueles que a quinta tolera, mas nunca aceita: os lavradores.

Homens admitidos apenas para lavrar a quinta. Presentes nas manhãs e nas tardes, mas nunca pertencentes. Vigiados por cães vadios, mas indispensáveis à vitalidade da própria quinta.

Foram eles, e não os filhos da quinta, que continuaram a dizer o que precisava ser dito.

As verdades silenciadas não desapareceram. Acumularam-se. E, como tudo o que é comprimido por demasiado tempo, começaram a procurar saída, não pela porta, mas pela fissura, pelo canto, pelo eco, pela falha.

Até que a falha apareceu.

As filhas da quinta, educadas em ideais que a própria quinta trai, igualdade, fraternidade, solidariedade, começaram a sentir o peso da mentira em que foram criadas. E, quando a realidade entra em conflito com a educação, algo cede.

Neste caso, cedeu o muro.

Uma delas atravessou-o.

Envolveu-se com um lavrador, o mais jovem entre eles, e, no silêncio que a quinta exige, fizeram o que a quinta proíbe: reconheceram-se como iguais, despidos de hierarquia e de fingimento.

Do primeiro encontro, perderam a inocência.

Dos seguintes, cometeram o erro irreversível.

Trouxeram ao mundo a prova viva da fraude da quinta.

Um filho.

Um corpo que a quinta não consegue classificar sem se contradizer. Um sangue que mistura aquilo que ela passou gerações a separar. Um facto que destrói o discurso.

E, pela primeira vez, os filhos da quinta ficaram sem linguagem. Porque não há retórica que apague o que existe.

E então surgiu o dilema, não teórico, mas inevitável: continuar a defender os muros, mesmo depois de atravessados, ou admitir, finalmente, que esses muros nunca serviram para proteger, mas apenas para separar, excluir e mentir.

E essa é a escolha que os filhos da quinta sempre evitaram. Porque admitir isso exige mais do que coragem. Exige verdade. E verdade é tudo aquilo que a quinta ensinou a temer.

Acima desse dilema, sobrevoa uma última questão: cuidar do filho, herdeiro involuntário dos muros, ou impedir que ele exista como ruptura.

É assim que nasce, dentro da quinta, o primeiro sinal da tragédia.

Ramos António Amine

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