A renovação ética em tempos de divisão

Taghrid Bou Merhi

‘A renovação ética em tempos de divisão: como a palavra reconstrói o mundo’

Taghrid Bou Merhi
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Em tempos em que os mapas se fragmentam e as distâncias entre o medo e o discurso se estreitam, o mundo parece entrar em uma nova fase de partilha: partilha de geografias, de riquezas, de narrativas e até mesmo da própria definição da verdade. As lealdades se distribuem como se distribuem os interesses, e as fronteiras são traçadas dentro da linguagem antes de serem desenhadas sobre a terra.

Nesse clima tenso, a questão já não é apenas política ou cultural — ela se torna, em sua essência, ética: como o ser humano pode recuperar o equilíbrio dos valores em um tempo dominado por paixões, interesses e visões conflitantes? Daí nasce a necessidade de uma renovação ética que não se reduza a um discurso moralizante nem se limite a slogans genéricos, mas que se manifeste como uma transformação profunda da consciência individual e coletiva — uma reconstrução do ser humano a partir de dentro.

A partilha não é um conceito neutro; ela implica uma distribuição de poder e de sentido. Quando os povos dividem a terra, dividem também a história, a memória e os símbolos que a acompanham. Quando as comunidades compartilham narrativas, as verdades se multiplicam a ponto de se confrontarem, e a voz única se fragmenta em estilhaços de vozes. Essa realidade cria um estado de rigidez moral, em que os princípios se tornam instrumentos de defesa e a diferença passa a ser percebida como ameaça. Em tais momentos, não basta apegar-se aos valores herdados; é preciso questioná-los, interrogar suas raízes e libertá-los do uso utilitário que esvazia seu significado.

A renovação ética não significa substituir superficialmente um sistema por outro, mas retornar às perguntas fundamentais: o que é justiça? O que é responsabilidade? Quais são os limites da liberdade quando ela se cruza com a liberdade do outro? Essas questões ocuparam os filósofos ao longo dos séculos, e, a cada época turbulenta, novas respostas emergiram. Após as guerras europeias, o filósofo alemão Immanuel Kant escreveu sobre o dever moral como um compromisso interior baseado no respeito do ser humano por si mesmo e pelo outro.

Seu projeto não era mera especulação racional, mas uma tentativa de estabelecer um critério que transcendesse interesses imediatos. A ideia do “imperativo categórico” surgiu como um convite a agir de modo que a ação pudesse ser universalizada — um comportamento cuja legitimidade provém de sua possibilidade de se tornar regra comum entre os seres humanos.

Cerca de um século e meio depois, em meio ao colapso dos valores europeus nas duas guerras mundiais, o filósofo francês Emmanuel Levinas apresentou uma concepção ética distinta, colocando a responsabilidade pelo outro como origem de todo sentido. Ele não partiu de uma lei abstrata, mas do rosto do outro, cuja presença se impõe como um chamado ético impossível de ignorar. Em tempos de divisão, quando grupos se cristalizam em identidades rígidas, recordar o rosto do outro torna-se um ato de resistência contra a objetificação e a exclusão.

A literatura também não permaneceu distante dessa inquietação ética. Nos romances de Fiódor Dostoiévski, o conflito entre o bem e o mal se desenrola no interior da alma humana, em contextos sociais marcados por desigualdade e angústia espiritual. Suas personagens vivem em ambientes turbulentos, onde a responsabilidade individual é constantemente posta à prova: pode o ser humano justificar seu erro pelas circunstâncias? A renovação nasce da confissão ou da punição? Suas obras revelam que a transformação ética começa quando o indivíduo enfrenta a si mesmo com honestidade dolorosa.

Albert Camus, por sua vez, abordou a moralidade em um mundo absurdo. Em seu romance “A Peste”, a epidemia torna-se metáfora do mal coletivo e da prova da consciência. As personagens não dispõem de certezas metafísicas que as tranquilizem, mas escolhem a solidariedade e a ação. A renovação ética aparece, assim, como um gesto cotidiano, uma insistência no sentido em meio ao absurdo.

Em outro contexto, o pensador indiano Rabindranath Tagore escreveu sobre a unidade entre o ser humano e a natureza, defendendo a superação do egoísmo nacional em direção a um horizonte mais amplo de humanidade. Sua visão não era política no sentido restrito, mas espiritual e cultural: a renovação começa pela reconciliação entre o eu e o mundo. Em tempos de disputa por poder e recursos, seu chamado à abertura e à tolerância soa como um convite ao reequilíbrio interior.

A filosofia árabe contemporânea também abordou essa questão sob diversas perspectivas. O pensador marroquino Mohammed Abed Al-Jabri propôs uma crítica da razão árabe e sua reconstrução sobre bases racionais, afirmando que qualquer renascimento ético exige a desconstrução das estruturas mentais que perpetuam o fechamento. O filósofo libanês Charles Malik, que participou da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, via na dignidade humana o alicerce de qualquer projeto ético moderno. Esses esforços demonstram que a renovação não é ruptura com a tradição, mas leitura crítica que abre novos horizontes.

Na era digital, a crise ética assume novas formas. A verdade se dispersa entre plataformas, e a opinião se converte em mercadoria. Nesse cenário, a honestidade torna-se uma responsabilidade ainda mais pesada. O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa recorda que a liberdade de expressão não é privilégio, mas compromisso. O escritor e o jornalista não podem se refugiar na neutralidade quando a dignidade humana está em jogo. A renovação ética implica redefinir a relação entre liberdade e responsabilidade, entre o direito de falar e o dever de verificar.

O trabalho também ocupa lugar central nesse debate. O Dia Internacional dos Trabalhadores destaca a dignidade das mãos que constroem, cultivam e cuidam. Em um mundo onde a riqueza é distribuída de forma desigual, reconhecer o valor do trabalho é um ato ético. O filósofo alemão Karl Marx identificou na alienação do trabalhador um sintoma de desordem moral na estrutura econômica. Sua análise não era apenas econômica, mas crítica à perda da humanidade em um sistema que transforma o indivíduo em instrumento de produção. Sob essa perspectiva, a renovação ética exige repensar as condições de justiça social.

A questão ambiental igualmente integra esse processo. O Dia Internacional da Biodiversidade nos lembra que a relação entre humanidade e planeta não é mera exploração, mas responsabilidade. O filósofo alemão Hans Jonas formulou o “princípio da responsabilidade” voltado às gerações futuras, defendendo uma nova ética capaz de reconhecer a fragilidade do mundo natural. Em tempos de crise climática, a renovação ética torna-se uma necessidade existencial ligada à preservação da vida em todas as suas formas.

Diante desses exemplos, torna-se evidente que a renovação ética não nasce de decretos, mas de transformações sutis na consciência. Ela começa quando o indivíduo compreende que sua identidade não anula a humanidade compartilhada, que sua força não legitima a dominação e que sua pertença não justifica a exclusão. Em tempos de divisão, pode ser tentador apegar-se ao interesse imediato; contudo, a história mostra que sociedades que negligenciam sua dimensão ética mergulham em ciclos de violência difíceis de romper.

Literatura, filosofia e ciência não são esferas isoladas da vida cotidiana, mas laboratórios de sentido. Quando um poeta escreve sobre a dor do outro, redistribui a luz sobre áreas esquecidas da consciência. Quando um cientista reflete sobre o impacto de nossas escolhas no planeta, coloca diante de nós um espelho do futuro. Quando um filósofo questiona justiça e liberdade, abre caminhos para reconstrução.

A renovação ética, portanto, não é luxo intelectual, mas condição para a sobrevivência do sentido em um mundo fragmentado. É um percurso que exige coragem para reconhecer erros, disposição para escutar e capacidade de imaginar um mundo que acolha a diferença sem convertê-la em conflito permanente. Talvez não transforme rapidamente os mapas políticos, mas transforma o ser humano que os desenha.

Ao final, permanece a pergunta suspensa no espaço da reflexão: se o mundo divide terras, riquezas e narrativas, seremos capazes de compartilhar também a responsabilidade e reconstruir uma ética comum que salve nossa humanidade da erosão ou permitiremos que a partilha se converta em fratura irreversível?

Taghrid Bou Merhi

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A luz é o oposto da sombra ou o seu segredo oculto?

Taghrid Bou Merhi

‘A luz é o oposto da sombra ou o seu segredo oculto?’

Taghrid Bou Merhi
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Desde que o ser humano ergueu os olhos para o céu, tenta compreender a relação entre luz e sombra. A questão nunca foi apenas física, nem um simples jogo luminoso projetado pelo sol sobre as paredes; trata-se de uma pergunta sobre a própria existência. Por que a luz só se torna visível quando encontra algo que a interrompe? E por que a sombra nasce como consequência direta da presença da luz? Nessa ligação reside um paradoxo profundo: aquilo que parece oposição pode ser, na verdade, uma forma de interdependência.

A luz, em seu sentido simbólico, representa clareza, conhecimento, serenidade e presença. Ela revela as coisas e lhes dá contornos. Quando brilha, os detalhes se distinguem e as formas se tornam perceptíveis. A sombra, por sua vez, expressa o mistério, a possibilidade, o espaço ainda não revelado. É aquilo que permanece fora do campo da visão direta, despertando questionamento e inquietação. No entanto, a sombra não existe de maneira independente; ela é resultado da luz, um efeito do seu agir.

Se imaginarmos um mundo sem luz, também não haveria sombra. Haveria apenas uma escuridão total, sem distinções. Isso mostra que a sombra não é inimiga da luz, mas sinal de sua presença. Quanto mais intensa a luz, mais definidas se tornam as sombras. Quanto mais suave, menos marcadas elas aparecem. Essa relação revela que a vida se constrói sobre um equilíbrio delicado entre revelar e ocultar, entre clareza e ambiguidade.

Na experiência humana, a luz surge nos momentos de compreensão e certeza. Quando alguém entende o sentido do que vive, sente-se como se tivesse saído de um espaço fechado para um horizonte aberto. O entendimento ilumina o interior e organiza pensamentos e emoções. A sombra manifesta-se na dúvida, nas perguntas sem resposta, no receio diante do desconhecido. Essas condições não são falhas na trajetória, mas etapas naturais dela.

Muitas vezes tentamos fugir da sombra, como se fosse algo defeituoso. No entanto, ela cumpre uma função essencial. É a sombra que confere profundidade às formas. Na pintura, não há dimensão sem contraste entre claro e escuro. Na vida, não há verdadeira apreciação da tranquilidade sem ter atravessado a inquietação. A sombra nos recorda nossos limites e nos ensina que não somos seres de conhecimento absoluto.

Por outro lado, a luz nem sempre é confortável. Uma claridade intensa pode revelar aquilo que preferíamos manter oculto. A verdade, quando se apresenta sem filtros, pode ser difícil de aceitar. Por isso, algumas pessoas evitam o confronto direto com a luz e permanecem em zonas intermediárias. Nesses momentos, a sombra torna-se um espaço de pausa, um tempo de reflexão antes do enfrentamento.

O equilíbrio entre luz e sombra é o que conduz à maturidade. Quem se recusa a reconhecer sua própria sombra, suas fragilidades e erros, vive em ilusão. Quem permanece preso à escuridão sem buscar qualquer claridade perde a esperança. A sabedoria consiste em aceitar ambas as dimensões, compreendendo que cada pessoa carrega áreas luminosas e regiões obscuras, e que o crescimento nasce da integração dessas partes.

Na natureza, essa alternância é evidente. O ciclo entre dia e noite não é uma disputa com vencedor definitivo, mas um ritmo contínuo que sustenta a vida. As plantas necessitam da luz para crescer e da escuridão para se regenerar. O corpo humano também se restaura durante a noite e se ativa à luz do dia. Esse movimento ensina que a alternância não indica fraqueza, e sim condição de continuidade.

No âmbito social, a luz manifesta-se nos valores que promovem justiça, solidariedade e responsabilidade. A sombra surge quando prevalecem a indiferença e o egoísmo. Ainda assim, a escuridão coletiva não aparece sem causa; ela reflete o distanciamento das fontes internas de consciência. Quando a sensibilidade enfraquece, a sombra se expande. Mesmo assim, um único gesto íntegro pode reacender um foco luminoso capaz de transformar o ambiente.

A sombra também é território de criação. É nas zonas não totalmente esclarecidas que surgem as perguntas, e das perguntas nascem descobertas. Se tudo estivesse plenamente revelado desde o início, não haveria impulso para investigar. O mistério estimula a mente e amplia a percepção. Nesse sentido, a sombra não representa deficiência, mas convite ao aprofundamento.

Em nível interior, cada pessoa possui sua própria sombra: aspectos pouco expostos, medos, memórias dolorosas e desejos silenciados. Ignorar essa dimensão não a elimina, apenas a torna mais ativa nos bastidores. Enfrentá-la exige coragem, porém essa atitude fortalece a integridade pessoal. Ao reconhecer sua sombra, o indivíduo torna-se mais verdadeiro consigo mesmo e mais compreensivo com os outros.

A luz, por sua vez, é uma energia que necessita direção. Não basta desejá-la; é preciso saber como utilizá-la. Quando empregada com consciência, ilumina caminhos e amplia entendimentos. Quando usada de modo imprudente, pode cegar ou impor. A luz que respeita a sombra aceita diferentes perspectivas e reconhece que a realidade pode ser vista de múltiplos ângulos.

No fim, a relação entre luz e sombra não é conflito permanente, mas definição recíproca. Uma dá sentido à outra. Sem sombra, a luz perde profundidade. Sem luz, a sombra não possui contorno. Esse diálogo constante reflete o próprio movimento da existência, onde não há brilho eterno nem escuridão definitiva.

Compreender essa interdependência transforma nossa maneira de viver. A escuridão deixa de ser ameaça absoluta e passa a ser etapa de transição. A luz deixa de ser ideal distante e torna-se responsabilidade. Entre ambas, desenha-se o percurso humano, marcado por contrastes e aprendizados.

Assim, a pergunta inicial permanece como guia: não se trata de saber qual prevalece, mas de reconhecer como se complementam. A luz orienta, a sombra aprofunda. Entre direção e profundidade, constrói-se nossa experiência, e é nesse espaço de tensão harmoniosa que amadurecemos e encontramos sentido.

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Horizonte humano

Taghrid Bou Merhi: Prosa poética ‘Horizonte humano’

Taghrid Bou Merhi
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Neste mês que abre suas janelas para a memória da mulher, o tempo faz uma breve pausa para escutar um antigo pulsar que habita o coração da história.

A mulher caminha pelas estradas da vida carregando o segredo dos começos, como se fosse a nascente onde se formam as primeiras narrativas da existência.

De seus passos crescem os significados, e de sua paciência os dias aprendem a ouvir a voz da justiça.

A mulher é a memória da terra quando narra seu cansaço, e a voz da alma quando busca um sentido mais profundo para a vida.

Em sua presença a linguagem se renova, e a ideia se amplia até tornar-se humana o suficiente para abraçar o mundo.

Quando escreve sua experiência nas páginas do tempo, desenham-se os contornos de um futuro mais caloroso.

Quantos sonhos nasceram no coração de uma mulher antes de encontrar o caminho da luz.

Quantas ideias atravessaram seu silêncio até transformarem-se em passos rumo à liberdade.

Ela é o ser que aprende com a dor a sabedoria do caminho e transforma a espera em energia de vida.

No seu dia internacional, as vozes das mulheres encontram-se como asas de luz atravessando os continentes.

Cada voz carrega uma história, e cada história abre uma janela para o significado da dignidade humana.

Desse encontro nasce uma nova linguagem que o coração compreende antes que as palavras a traduzam.

A mulher não é apenas um motivo passageiro de celebração no calendário dos dias.

Ela é uma presença profunda no tecido da civilização e um ritmo oculto que acompanha o crescimento da consciência humana.

Onde quer que esteja, nasce a possibilidade de mudança e desperta no ser humano um sentimento mais puro de justiça.

Por isso este dia surge como um espelho onde o mundo contempla seu rosto humano.

Nele percebe que a dignidade cresce quando o espaço para o sonho e o conhecimento se amplia.

E a mulher vê em seu reflexo um caminho que continua a estender-se em direção a um horizonte mais luminoso.

Assim a luz continua sua viagem através do tempo,
carregada pelo coração de uma mulher que acredita que a vida pode tornar-se mais compassiva.

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Inshallah (se Deus quiser) um menino

Taghrid Bou Merhi

‘Inshallah (se Deus quiser) um menino: o impacto das pressões sociais no desejo pelo nascimento de um filho homem’

Taghrid Bou Merhi
Taghrid Bou Merhi
Card do filme Inshallah (se Deus Quiser) um Menino

O filme jordaniano ‘INSHALLAH (SE DEUS QUISER) UM MENINO’, que conquistou dois prêmios no Festival de Cannes, é uma obra cinematográfica marcante que aborda um tema sensível, ainda presente em muitas sociedades até hoje: as crescentes pressões sociais para o nascimento de filhos homens, especialmente nas sociedades árabes. O filme levanta questionamentos essenciais sobre a herança e as tradições sociais relacionadas ao nascimento de meninos e como essas pressões contribuem para a criação de problemas familiares e conjugais, que por vezes chegam à desintegração da família.

O desejo de ter um filho homem é uma ideia profundamente enraizada em muitas culturas ao redor do mundo, sobretudo nas sociedades árabes, que consideram o menino como a continuidade da família, o portador de seu nome e o herdeiro de seus bens. Daí surge a noção da ‘necessidade’ de ter um filho homem para garantir a preservação do nome da família e sua continuidade ao longo das gerações. Essas ideias estão ligadas a costumes e tradições antigas, que viam no homem a proteção da família e seu suporte econômico e moral.

Nas sociedades tradicionais, o homem era o principal provedor da família, responsável pelas terras, pelo comércio e pelos ofícios. A partir dessa lógica, o nascimento de um menino tornou-se uma questão vital para a sobrevivência e continuidade da família, enquanto o nascimento de meninas, em alguns casos, era considerado um fardo. Essa visão contribuiu para aprofundar a desigualdade entre os gêneros e para a preferência pelos homens em muitas sociedades.

Com o passar do tempo, essas tradições transformaram-se em pressões sociais que afetam profundamente a vida dos indivíduos e das famílias. Ter um filho homem passou a ser visto como uma ‘conquista’ ou ‘sucesso’ em certos meios, aumentando assim a pressão sobre os casais, especialmente sobre a esposa. Quando a mulher não consegue ter um filho homem, as pressões familiares e sociais se intensificam, podendo levar a conflitos conjugais e tensões familiares.

A equipe de trabalho, composta por atores, profissionais de montagem, iluminação, direção e equipe dos bastidores. 
Foto divulgação
A equipe de trabalho, composta por atores, profissionais de montagem, iluminação, direção e equipe dos bastidores.
Foto divulgação

Em alguns casos, a esposa enfrenta críticas e cobranças da família do marido e até mesmo da sociedade ao seu redor por não conseguir gerar um menino. Isso pode levá-la a sentimentos de frustração e culpa, intensificando o desgaste na relação conjugal. Por vezes, a situação pode chegar ao divórcio ou ao casamento com uma segunda esposa em algumas culturas, como retratado claramente no filme ‘INSHALLAH (SE DEUS QUISER)UM MENINO’, que destaca as duras pressões sociais enfrentadas pelas mulheres quando não conseguem ter filhos homens.

Esse pensamento que impõe aos indivíduos a obrigação de ter um filho homem constitui um problema social e psicológico que afeta profundamente as pessoas. Os casais, especialmente as mulheres, sofrem enormes pressões psicológicas relacionadas à sensação de não atender às expectativas sociais. A mulher carrega o maior peso dessa carga, assumindo injustamente a responsabilidade pelo sexo do bebê, embora biologicamente essa determinação dependa do homem.

Essas pressões psicológicas e sociais podem acarretar consequências graves para a saúde mental e física da mulher. Muitas sofrem de ansiedade, depressão e isolamento, e em alguns casos são submetidas à violência verbal ou física por não conseguirem gerar um menino. Por outro lado, os homens também podem sofrer pressões sociais por não cumprirem o papel “esperado” como chefes de família.

O filme reflete com clareza esses desafios psicológicos e sociais por meio de uma narrativa dramática e comovente, que acompanha a vida de uma mulher jordaniana submetida a intensas pressões sociais e familiares por não ter um filho homem. O filme retrata com sensibilidade as tensões que surgem dentro da família quando a questão da procriação se torna central. Em vez de o casamento se basear no amor e na compreensão, transforma-se em um campo de conflitos e disputas devido às expectativas sociais.

Por meio de seus personagens, o filme consegue demonstrar o impacto dessas ideias tradicionais nas relações familiares e conjugais. Observamos o aumento da pressão sobre a mulher e o agravamento das tensões dentro da família, à medida que o marido e os que a cercam passam a exercer uma pressão psicológica cada vez maior, fazendo-a sentir-se impotente e culpada.

Os desafios abordados pelo filme são um problema global, não restrito apenas à Jordânia ou ao mundo árabe. No entanto, é importante reconhecer que essas pressões variam de uma sociedade para outra. A grande questão que o filme levanta é: como podemos mudar esses conceitos tradicionais?

Como indivíduos e sociedades podem se libertar das amarras de ideias antigas que fazem do nascimento de um menino uma necessidade urgente?

Uma das possíveis soluções é conscientizar as comunidades sobre a importância da igualdade de gênero e reduzir as pressões relacionadas à procriação. É fundamental reforçar a ideia de que o valor do ser humano não é determinado por seu sexo, mas por suas realizações e por seu papel como indivíduo na sociedade. Também é essencial difundir a consciência de que a capacidade reprodutiva da mulher não deve estar subordinada às exigências sociais e que essas pressões podem destruir relações familiares.
Além disso, as instituições educacionais e religiosas podem desempenhar um papel importante na transformação desses conceitos, por meio de programas de conscientização voltados às famílias e que promovam a igualdade entre homens e mulheres.

Da mesma forma, a mídia e as artes, como o cinema, devem continuar a lançar luz sobre essas questões, tornando o debate social mais aberto e transparente.
O filme ‘INSHALLAH (SE DEUS QUISER) UM MENINO’ constitui uma mensagem poderosa contra as pressões sociais relacionadas ao nascimento de filhos homens e revela claramente o impacto dessas ideias tradicionais nas relações familiares e sociais. Ao abordar esse tema sensível, o filme destaca a importância de repensar o papel do gênero na sociedade e de avançar rumo a um futuro mais justo e igualitário.

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