Wellbeing, saúde mental e o diálogo entre medicina e tecnologia

Cristina Rhea percorre as fronteiras entre medicina, tecnologia, saúde mental e as novas perspectivas do wellbeing

Rhea Cristina
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Queridos amigos do Jornal Cultural ROL, é uma grande satisfação escrever este artigo sobre o wellbeing e o lugar que os produtos e as abordagens complementares podem ocupar em relação à medicina moderna.

A saúde mental ocupa um lugar cada vez mais importante nas discussões sobre o futuro da medicina, ao lado das neurociências, da tecnologia, do estilo de vida e do equilíbrio emocional.

Assim, em todo o mundo, são realizados diversos encontros e congressos na área médica, que reúnem todos esses temas em eventos interdisciplinares dedicados a desafios cada vez mais presentes na sociedade contemporânea. Essas conferências reúnem especialistas da Romênia e do exterior em áreas como psiquiatria, neurologia, neurociências, farmacologia e inteligência artificial aplicada à medicina.

Na prática, são espaços de diálogo entre especialistas e pesquisadores interessados na evolução da medicina e nos novos desafios da saúde mental. Assim, são realizados debates sobre alguns dos temas mais atuais da área da saúde mental, como:

  • ansiedade e depressão;
  • burnout médico;
  • dependências digitais;
  • saúde mental dos jovens;
  • impacto da tecnologia sobre a psique;
  • papel da inteligência artificial na medicina.

Uma das perguntas que frequentemente chama a atenção é: “Can AI Transform Medicine?”

Em outras palavras, a inteligência artificial pode contribuir para a identificação de alguns sinais associados à depressão ou ao risco de suicídio? A tecnologia pode apoiar os médicos sem substituir a relação humana entre o especialista e o paciente?

São questões que já não pertencem apenas à literatura de ficção científica. A inteligência artificial já está presente em diversas áreas da medicina, e a forma como será utilizada na psiquiatria e na neurologia continua sendo um dos grandes temas de debate.

Nesse tipo de conferências, congressos e eventos especializados realizados na Romênia, inclusive em encontros com participação internacional, a NaturWay também participa muitas vezes como expositora, patrocinadora ou palestrante. Trata-se de uma marca romena construída em torno dessa ideia, com um portfólio que inclui produtos das áreas de wellness, CBD, suplementos alimentares e cosméticos.

Nesse contexto, a NaturWay apresenta sua linha de produtos à base de CBD e dialoga com psicólogos, psiquiatras, neurologistas, médicos e outros profissionais interessados na área de wellbeing. As discussões abordam a perspectiva da empresa sobre os produtos à base de CBD, bem como seu interesse pela área de wellbeing e pelas abordagens complementares.

A presença de uma marca dessa categoria em eventos internacionais dedicados à psiquiatria, à neurologia e à saúde mental em geral também proporciona uma oportunidade para discussões sobre a forma como a abordagem médica clássica se encontra com o campo cada vez mais amplo do wellbeing.

“Participamos de encontros internacionais desse tipo, que, para nós, significam muito mais do que uma simples presença em conferências. Estamos lá para dialogar. Para estabelecer conexões reais. Para aproximar nossos produtos dos especialistas interessados na área de wellbeing e nas abordagens complementares. Temos a oportunidade de apresentar nossa linha à base de CBD a profissionais da área médica e a outros profissionais interessados em conhecer melhor essa categoria de produtos e as perspectivas existentes na área de wellbeing. 

São centenas de perguntas, conversas sinceras, trocas de experiências e muito interesse pelo que fazemos. Para nós, isso é extremamente importante”, declara Mihai Bogdan Ioniță, diretor da NaturWay (Romênia).

É absolutamente natural que, para as pessoas interessadas em wellbeing, na gestão do estresse e nas diferentes opções disponíveis na área das abordagens complementares, a informação correta e a responsabilidade continuem sendo essenciais.

O representante da NaturWay considera que esses encontros representam uma oportunidade de diálogo e de troca de perspectivas com profissionais interessados na área de wellbeing e nas abordagens complementares. “Acreditamos que o futuro da saúde significa colaboração, e o progresso começa sempre pela educação, pela colaboração e por conversas sinceras. 

Significa médicos, psicólogos, pesquisadores, especialistas em tecnologia e empresas responsáveis que escolhem evoluir juntos, comunicar-se e colocar o ser humano no centro de todas as discussões. E foi exatamente isso que sentimos em cada uma dessas conferências: que o mundo começa a mudar e que a saúde mental já não é mais ignorada. E, sobretudo, que as pessoas estão buscando cada vez mais soluções que as ajudem a viver melhor, e não apenas a ‘funcionar’.”

Qual é a relação entre wellbeing e as abordagens complementares na discussão sobre a saúde mental?

A saúde mental é uma área complexa, na qual a pesquisa, a prática médica, a educação e o estilo de vida estão em um diálogo permanente. Nos últimos anos, o termo wellbeing tornou-se cada vez mais presente nas conversas sobre qualidade de vida. Ao lado das recomendações e intervenções médicas, as pessoas estão cada vez mais interessadas no sono, no equilíbrio emocional, na gestão do estresse, na alimentação, na atividade física e em outros elementos relacionados ao estilo de vida. 

Nesse contexto, também estão presentes as abordagens complementares, uma área que continua gerando discussões e opiniões diferentes e que exige, sobretudo quando associada à saúde, informação correta e discernimento.

É importante destacar que o status dos produtos à base de CBD varia de um país para outro e de acordo com a categoria do produto. Alguns podem ser comercializados em contextos de wellness ou cosméticos, de acordo com a legislação aplicável, enquanto determinados produtos à base de cannabis destinados ao uso medicinal estão sujeitos a regulamentações específicas. Por isso, as discussões sobre CBD devem levar em consideração as diferenças entre categorias de produtos, usos e marcos regulatórios nacionais.

Qual é a importância de um diálogo entre medicina, pesquisa e tecnologia?

Uma das mensagens importantes de conferências médicas desse tipo é justamente a necessidade de diálogo entre diferentes áreas. A psiquiatria e a neurologia já não podem ser vistas de forma isolada da evolução das neurociências, do desenvolvimento da tecnologia e das mudanças que ocorrem no estilo de vida das pessoas. Ao mesmo tempo, as novas tecnologias precisam ser integradas com responsabilidade, e a relação entre médico e paciente continua sendo um elemento essencial da prática médica.

Da inteligência artificial e das neurociências à educação, ao wellbeing e à pesquisa, conferências desse tipo colocam frente a frente diferentes perspectivas sobre alguns dos desafios mais importantes da medicina contemporânea.

Em um mundo no qual circulam informações muito diferentes sobre saúde, produtos e estilo de vida, o diálogo entre medicina, pesquisa e sociedade torna-se ainda mais importante. E, quando falamos de produtos e abordagens complementares, compreender as diferenças entre os países, entre as categorias de produtos e entre o uso voltado ao wellbeing e o uso médico pode contribuir para uma discussão mais responsável e mais bem informada.

Texto de autoria de Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. Todos los derechos reservados
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Ensaio sobre a atriz e escritora romena Claudia Motea

Rhea Cristina

‘Claudia Motea: A atriz romena que transformou o palco em um universo de emoções. O raro fenômeno do teatro romeno’

Rhea Cristina
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Caros amigos do Jornal Cultural ROL, tenho o imenso prazer de apresentar este ensaio escrito por mim sobre Claudia Motea, atriz, dramaturga, escritora, poeta, roteirista, tradutora e professora de arte dramática. É uma daquelas artistas raras que construíram uma carreira entre a Romênia, o Canadá, a Europa e os Estados Unidos.

Por meio de seus espetáculos solo (one-woman-shows), de seus livros e de seus projetos multimídia, ela transforma a história, a cultura e as grandes personalidades romenas em experiências vivas, capazes de emocionar o público em todos os lugares.

Claudia Motea - Claudia Motea - Arquivo Pessoal
Claudia Motea – Arquivo Pessoal

Uma carreira construída entre a Romênia e a América

Definir Claudia Motea em poucas palavras é uma tarefa difícil. Atriz, poetisa, escritora, dramaturga, roteirista, tradutora e professora de arte dramática, ela é, ao mesmo tempo, produtora e coordenadora de projetos culturais. É uma daquelas personalidades artísticas que conseguiram afirmar seu valor em diferentes áreas e espaços culturais.

Sua carreira internacional começou com o espetáculo Les Danaïdes, com direção de Silviu Purcărete. Logo após se formar na faculdade, ela participou de prestigiosos festivais de teatro em Dublin, Amsterdã, Paris, Avignon, Glasgow e Recklinghausen, culminando em apresentações no Lincoln Center, em Nova York.

Claudia Motea – Arquivo Pessoal

O encontro com Silviu Purcărete continua sendo uma das experiências determinantes de sua trajetória artística:“Acredito que o Maestro Silviu Purcărete traça destinos. Ele é um Deus do palco e, por conseguinte, da alma artística… No meu caso, o destino sorriu para mim através do encontro com esse diretor. Foi o grande encontro da minha vida, uma verdadeira experiência de vida (a life time experience)…”

Após emigrar para o Canadá, Claudia Motea continuou atuando e escrevendo, conseguindo se impor em um novo meio artístico, mesmo sem falar inglês no início. Ela conquistou prêmios de atuação, dramaturgia, produção e a apreciação do público, incluindo os prêmios Best Actress, Best Original Script, Best Production e Best Audience Awards, além de uma indicação ao Brickenâden Award.

Ela participou de importantes eventos e festivais nos Estados Unidos, entre eles o Hollywood Film Festival, o Los Angeles Comedy Fest, o Hollywood Fringe Theater Festival, o New York in LA e o Lincoln Center Theater Festival. Sua estreia em Hollywood aconteceu em 2010, no The Magic Castle, no show de variedades The Big IF.

Olhando retrospectivamente para o período canadense, a artista o resume por meio de uma sucessão de palavras que definem sua jornada:

Claudea Motea
Claudia Motea – Arquivo pessoal

“Busca, Conscientização, Audácia, Luta, Trabalho, Sobrevivência, Redescoberta, Brilho. Uma marcha inabalável sempre em frente!”

Em 2012, ela retornou à Romênia e continuou a criar espetáculos, filmes e projetos culturais.

A força de um one-woman-show

Uma das dimensões mais espetaculares de sua atividade são os espetáculos de one-woman-show. Claudia Motea transformou essa forma teatral em um verdadeiro território de criação, interpretando múltiplos personagens e trazendo para o palco personalidades emblemáticas da cultura e da história.

Seus espetáculos combinam documentação histórica, teatro, música, poesia, cinema e multimídia, construindo uma relação direta e intensa com o público.“Na essência, sou atriz. Amo muito o Teatro, em primeiro lugar. Tudo o que vem a mais complementa o meu ser artístico. Também amo o cinema. Escrevi alguns roteiros e produzi curtas-metragens”, declara a atriz romena Claudia Motea, que transforma as grandes histórias romenas em teatro.

Essa concepção de teatro reflete-se em seus projetos mais importantes, dedicados a personalidades como Constantin Brâncuși, a Rainha Maria ou Veronica Micle.

“Brâncuși, meu amor!” – nove mulheres, um universo

Um dos espetáculos mais importantes de Claudia Motea é “Brâncuși, meu amor!”, inspirado na vida e nos amores de Constantin Brâncuși. A peça foi incluída no volume MUCH LOVE – Decalog Teatral, publicado pela Libris Editorial, e o projeto foi realizado como uma coprodução romeno-sueca. O espetáculo estreou em Karlskrona, na Suécia, e em 2021 a peça foi traduzida e publicada em cinco idiomas, para projetos e turnês na Europa e na América.Na Feira Gaudeamus 2019, o volume MUCH LOVE – Decalog Teatral foi selecionado, em uma campanha da Radiodifusão Romena, entre os livros mais queridos da feira.

O livro Brâncuși, meu amor foi traduzido para 10 idiomas e transformado em um espetáculo de teatro e multimídia único, com direção de Beatrice Rancea. Claudia Motea interpreta nove personagens femininas, inspiradas pelas mulheres que foram, de uma forma ou de outra, musas do grande escultor.

No ano de 2026, dedicado a Constantin Brâncuși por ocasião dos 150 anos de seu nascimento, o espetáculo ganha um significado especial.“Os nove personagens femininos que interpreto são nove universos distintos. Cada um tem sua respiração, seu ritmo, sua luz. A transição de um para o outro é um desafio artístico intenso, mas também uma alegria profunda.”

„Ame-me… América!” – a experiência da emigração transformada em arte

Após retornar à Romênia, Claudia Motea produziu e atuou, em 2012, em “Ame-me… América!”, um espetáculo multimídia realizado em colaboração com a R.A.D.E.F. România Film, com direção de Al. G. Croitoru e produzido pela Associação International Artiscan.

O espetáculo parte da experiência de uma atriz romena emigrada para a América e transforma o tema da emigração, da adaptação e da redescoberta em uma narrativa cênica.

„Prelúdios” – a poesia que se torna espetáculo

Claudia Motea também é autora de volumes de poesia e dramaturgia. Seu primeiro livro de versos, Prelúdios na Cidade do Sol (Preludii în Cetatea Soarelui), foi lançado no final de 2017 no Teatro Nottara, em Bucareste.

Seguiram-se lançamentos em Los Angeles, Lucerna, Chisinau — no Teatro Nacional “Eugene Ionesco” — e Cahul — no Teatro Musical-Dramático “B. P. Hasdeu” —, bem como apresentações em importantes feiras internacionais do livro em Paris, Leipzig, Chisinau, Turim e Madri.

O espetáculo multimídia “Prelúdios na Cidade do Sol – ROMÊNIA 100” foi apresentado na Feira Internacional do Livro e da Música Libris Brașov, destacando-se entre os eventos mais apreciados do evento.

„Shalom, Israel!” – literatura e diálogo cultural

Outro projeto importante é “Shalom, Israel!”, inspirado no volume de mesmo título publicado pela Libris Editorial.

O livro recebeu em Israel o prêmio de “Livro do Ano de 2019”, em Tel Aviv, servindo posteriormente de base para o projeto teatral realizado com o envolvimento do Centro Cultural UNESCO “Mihai Eminescu”.

Em 2021, o Centro Cultural Israelense-Romeno de Tel Aviv, a revista Maximum e a editora Teșu concederam ao volume Shalom, Israel! o título de Livro do Ano de 2021. Em 2022, o livro foi apresentado no Salão Internacional do Livro de Turim e, em seguida, na Bookfest.

No mesmo ano, Claudia Motea recebeu a Medalha Governamental Numismática do Estado de Israel, “Kol Israel Haverim” — Amigos de Israel, por sua atividade cultural e artística dedicada ao desenvolvimento das relações de amizade romeno-israelenses.

Outros projetos: teatro, cinema e música

A atividade de Claudia Motea abrange inúmeros projetos que reúnem teatro, cinema, poesia e música.

“Já Pensou Nisso?” (Te-ai Gândit Vreodată?) é um recital de poesia e jazz, realizado em parceria com Lucian Sabados, diretor do Teatro Dramático “Maria Filotti” de Brăila, e produzido pela Libris Brașov. O projeto também incluiu a gravação de um CD.

Em “O Casamento de Zamfira” (Nunta Zamfirei), um musical folclórico romeno-sueco, a artista atua ao lado de Dorel Vișan, Maia Morgenstern, Marius Bodochi e Monica Anghel.

Pelo filme Kandy, no qual interpreta o papel principal e assina o corroteiro e a coprodução, Claudia Motea recebeu, em 2016, o prêmio de Melhor Atriz no Festival Modern-Movie de Galați.

Em 2017, em Roma, apresentou para cerca de 5.000 espectadores o espetáculo A Pequena Malandra do 13º Andar (Pușlamaua de la etajul 13), de Mircea M. Ionescu, com direção de Vlad Stănescu.

“Que eu posso sonhar e criar… Que estou no caminho mais nobre e bonito da minha vida… Que EU SOU EU!”

„O Coração da Rainha Maria” – um papel que permanece no coração

Um dos espetáculos mais representativos de Claudia Motea é “O Coração da Rainha Maria” (“Inima Reginei Maria”), dedicado à soberana mais conhecida da Romênia.

A artista não busca apenas a reconstrução da personagem histórica, mas a descoberta da mulher por trás da imagem real: a mãe, a artista, a diplomata, a mulher que amou a Romênia e se tornou um símbolo de coragem e dignidade.

“Interpretar a Rainha Maria é uma responsabilidade espiritual e uma bênção. Não interpreto apenas uma rainha, mas uma mulher que amou a Romênia com uma força quase mística.”

Em 2026, o espetáculo chegou ao Royce Hall – UCLA, em Los Angeles, em um evento organizado por ocasião do Dia da Língua Romena pela União e Liga das Sociedades Romeno-Americanas, juntamente com o Grupo La Steaua, o Grupo de Língua e Literatura Romena e o Consulado Geral da Romênia em Los Angeles.

O momento tem um forte valor simbólico, pois em 2026 completa-se um século da histórica turnê da Rainha Maria pelos Estados Unidos, visita que impressionou a América e contribuiu para consolidar a imagem da Romênia no cenário internacional.

O pianista Daniel Manoiu completou a atmosfera do espetáculo e, ao final, o público teve a oportunidade de participar de um diálogo com a artista e receber autógrafos no livro “Rainha Maria. Solilóquio Real” (“Regina Maria. Soliloc Regal”).

Para Claudia Motea, o encontro com a personagem real é profundamente pessoal:

“Para mim, a Rainha Maria não é um papel que termina nos aplausos. É um papel que permanece no coração e continua a me ensinar sobre dignidade, coragem e amor.”

Prêmios e reconhecimento internacional

A carreira de Claudia Motea foi recompensada com inúmeros prêmios e distinções na Romênia, no Canadá, nos Estados Unidos e em Israel.

Entre eles estão os prêmios de Best Actress, Best Original Script, Best Production e Best Audience Awards, além da indicação ao Brickenâden Award.

Na Romênia, a artista recebeu o Magna cum Laude da UARF, o Prêmio de Excelência no Gala Celebrităților (Gala das Celebridades), a Claquete de Ouro – Prêmio de Excelência concedido pela União dos Autores e Realizadores de Filmes da Romênia, e foi designada uma das dez Mulheres de Sucesso do Ano de 2016. Em 2018, recebeu o título de Mulher do Ano na Gala Mulheres de Sucesso.

Pela atividade literária e cultural, recebeu o prêmio de Livro do Ano de 2019 em Israel por Shalom, Israel! e, em junho de 2021, foi agraciada na Academia Romena com o Prêmio Cronica Timpului (Crônica do Tempo), concedido pela União dos Jornalistas Profissionais da Romênia.

Em 2021, Shalom, Israel! também recebeu o título de Livro do Ano de 2021, e em 2022 a artista recebeu a Medalha Governamental Numismática do Estado de Israel, “Kol Israel Haverim” — Amigos de Israel.

Em 2024, Claudia Motea foi homenageada na Gala “Valori Contemporane” (Valores Contemporâneos) por sua maestria nas artes cênicas.

A arte como forma de educação e entrega

Além dos prêmios e espetáculos, Claudia Motea é uma artista preocupada com a relação entre a 

cultura e as pessoas.

Atualmente, ela é diretora artística do Teatrul NostruM – UZPR, afiliado à União dos Jornalistas Profissionais da Romênia, professora de arte dramática no Centro Cultural UNESCO “Mihai Eminescu” de Bucareste e representante da Editora Creator (parte do grupo Libris) para eventos de lançamento de livros em Bucareste.

Para ela, a arte também é uma forma de educação, e o teatro pode se tornar um espaço onde as pessoas encontram a história, a literatura e a sua própria identidade.

“Um solilóquio… confessado no papel sobre o meu amor pelas pessoas, pela arte, pela vida… Um meio de aprofundar a minha mensagem artística para as pessoas…”

Talvez o verbo que melhor a define seja “entregar” ou “dedicar” (a dărui). Claudia Motea constrói seus projetos a partir dessa necessidade de comunicação e de proximidade com o público.

“Gosto de pensar que sou uma pessoa normal, às vezes sou tímida, mas ambiciosa, sou generosa, com uma grande empatia pelas pessoas, sou perdoadora, grata, afetuosa, leal, responsável e com um coração grande para tudo o que é belo e bom, ou seja, para a arte!”

E o seu credo é simples:

“Vamos rir com vontade e aproveitar cada momento da vida. E venham em grande número aos meus espetáculos… Sim, espero sempre por vocês com amor e luz, lindas pessoas!”

Uma embaixadora cultural da Romênia

De Les Danaïdes e dos grandes festivais europeus até a experiência canadense e os projetos na América, a trajetória de Claudia Motea fala de perseverança, coragem e fidelidade à vocação artística.

Brâncuși, meu amor!, Ame-me… América!, Prelúdios, Shalom, Israel!, Já Pensou Nisso?, O Casamento de Zamfira, Kandy, A Pequena Malandra do 13º Andar e O Coração da Rainha Maria são marcos de uma carreira em que o teatro se encontra permanentemente com a literatura, a cinematografia, a música e a história.

E a presença de “O Coração da Rainha Maria” na UCLA representa muito mais do que um sucesso pessoal. É um momento em que uma história romena, contada pela voz de uma artista romena, chega diante de um público internacional.

Claudia Motea não leva para o exterior apenas espetáculos. Ela leva histórias, memória, emoção e identidade.

Talvez seja exatamente aí que reside a essência de sua arte: transformar o passado em emoção, a cultura em diálogo e o palco em um lugar onde as pessoas podem se encontrar além das fronteiras.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

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Germán A. de la Reza

Rhea Cristina – entrevista com o escritor e professor universitário boliviano-mexicano Germán A. de la Reza

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German A. de la Reza - Fotocedida pelo entrevistado
German A. de la Reza – Foto cedida pelo entrevistado

Queridos amigos do Jornal Cultural ROL, é para mim uma grande alegria e uma grande honra apresentar-lhes Germán A. de la Reza, escritor e acadêmico boliviano-mexicano, um verdadeiro intelectual, um erudito e uma das personalidades acadêmicas internacionais contemporâneas, com uma extensa e notável trajetória, especialista em história das relações interamericanas e em integração latino-americana.

Germán A. de la Reza nasceu em Cochabamba, Bolívia, e possui as cidadanias mexicana e boliviana. Ao longo de sua formação acadêmica e de sua atividade profissional, residiu no Peru, na França, na Romênia, na Suécia, no Brasil e no México. É pesquisador, poeta e romancista, especialista em história das relações interamericanas e em relações econômicas internacionais, com uma ampla trajetória acadêmica internacional.

É professor-pesquisador da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), do México, desde 1998. Foi pesquisador da Universidade de Estocolmo e da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Em 2005-2006 e 2011, ocupou as cátedras “Simón Bolívar”, da Universidade de Paris, e “Estudos Latino-Americanos”, da Universidade de Toulouse, entre outras. É Pesquisador Nacional Emérito e membro da Academia Mexicana de Ciências, duas das principais distinções da vida acadêmica mexicana. Sua formação universitária inclui Filosofia e História na Universidade de Bucareste e Filosofia Política na Universidade Paris I. Possui dois doutorados: um em Filosofia pela Universidade de Toulouse e outro em Economia Internacional pela Universidade Paris II.

Capa do livro 'La invención de la paz '(2009)
Capa do livro ‘La invención de la paz ‘(2009)

É autor de mais de trinta livros publicados em dez países e em cinco idiomas. Entre suas obras mais importantes estão La invención de la paz (2009), distinguida com o Prêmio “Pensamiento de América”, da OEA, e disponível em cinco idiomas; Pensamiento confederal latinoamericano 1810–1865 (2022); Génesis de la supranacionalidad europea (2024); Integración económica en América Latina (2006); Défis de l’intégration en Amérique latine (2010); e Sistemas complejos (2010, Barcelona).

No âmbito literário, publicou os volumes de poesia: Silencio en el Paraíso (2024); Poemas selectos – poeme alese (2023), uma seleção poética traduzida por Catalina Constantinescu; Doppelgänger. La distancia interior (2022); Poemas 1988–2008 (2009); e, anteriormente, Décima interior (1996), sua obra de estreia, Columna de luz e En el reino de las teas. É também autor de uma antologia de poesia romena publicada pela UAM Xochimilco (2000) e de uma seleção de poemas de Nichita Stănescu. Em 2021, publicou o romance Cuaderno de Timișoara. Saga del último corresponsal del Este, traduzido para o romeno por Coman Lupu sob o título Caietul de la Timișoara (2023).

Sua obra acadêmica e literária foi incluída em mais de cinquenta programas de estudo de universidades das Américas e da Europa.

Capa do livro 'El Congreso Anfictiônica de Panama y La Intgegración Confederal Latinoamericaa (1821-1865)
Capa do livro ‘El Congreso Anfictiônica de Panama y La Intgegración Confederal Latinoamericaa (1821-1865)

Rhea Cristina: O Brasil é o maior país da América Latina, tanto em extensão territorial quanto em população. Durante cinco anos, o senhor foi professor convidado da UNESP (Universidade Estadual Paulista), uma das mais prestigiosas universidades públicas do Brasil. Que outras lembranças guarda do Brasil e o que este país representa para o senhor?

Germán A. de la Reza: Tenho uma relação com o Brasil que não consigo decifrar inteiramente. Recém-casados, meus pais se instalaram em uma propriedade rural próxima à fronteira com o Brasil. Ali viveram até poucas semanas antes do meu nascimento, quando partiram para Cochabamba. Esse início acabou sendo premonitório: o Brasil sempre esteve, de uma forma ou de outra, presente em minha vida.

Fui professor e pesquisador convidado em universidades brasileiras; neste país, dois de meus livros foram traduzidos e publicados — há um terceiro a caminho —, e revistas acadêmicas brasileiras publicaram cerca de dez de meus artigos científicos. Em 2010, estive a ponto de me integrar-me à UNESP, um projeto do qual desisti após o nascimento de meu filho no México, naquele mesmo ano. Em 2015, percorri diversas cidades brasileiras proferindo conferências sobre a integração latino-americana.

Há também algo menos fácil de explicar. O dinamismo editorial, a dimensão cultural do país e sua extraordinária capacidade de absorver influências e transformá-las em algo próprio fazem com que o Brasil tenha sido e continue sendo, para mim, uma presença particularmente magnética.

Rhea Cristina: O que representam para o senhor as palavras “história” e “memória individual e coletiva”?

Germán A. de la Reza: Não considero história e memória sinônimos. A memória pertence àqueles que viveram, herdaram ou imaginaram uma experiência; a história, por sua vez, começa justamente quando submetemos essas lembranças ao confronto, à contextualização e à crítica. Mas uma tampouco pode prescindir da outra.

A memória individual conserva gestos, medos, silêncios e detalhes que muitas vezes não chegam aos arquivos. A memória coletiva organiza essas lembranças e lhes confere um significado compartilhado, embora também possa deformá-las, selecionar umas e apagar outras. O historiador trabalha nessa zona de tensão: necessita da memória, mas não pode obedecê-la.

Grande parte de minha atividade como historiador é realizada com colegas de universidades do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Paraná, e esse diálogo entre diferentes tradições e especialidades me confirmou algo: um acontecimento histórico se transforma quando deslocamos a escala da instituição para o indivíduo ou da experiência pessoal para as estruturas coletivas. Nenhuma dessas perspectivas dá conta, por si só, do passado. O interessante começa quando as obrigamos a dialogar.

Rhea Cristina: O senhor é especialista em integração latino-americana. Como assinalamos acima, possui aproximadamente 60 a 70 trabalhos acadêmicos —artigos e livros— publicados em revistas de relações internacionais, história intelectual latino-americana e economia política internacional. O que representa a integração latino-americana e qual é o seu papel no contexto cultural atual?

Germán A. de la Reza: A América Latina possui duas grandes matrizes linguísticas e culturais: a hispano-americana e a luso-brasileira. Pouco depois da independência política, no início do século XIX, essa diferença nos separou de tal maneira que não foram poucos os episódios de rivalidade e antagonismo. Durante muito tempo, as elites hispano-americanas conheceram melhor Paris, Londres ou Madri do que o Rio de Janeiro ou São Paulo, e algo semelhante ocorreu no Brasil em relação ao mundo hispano-americano.

No entanto, durante o século XX e, sobretudo, no XXI, uns e outros conseguiram criar espaços culturais comuns e lançar as bases de uma economia regional mais integrada. Para mim, a integração latino-americana começa justamente aí: não em apagar as diferenças, mas em fazer com que deixem de funcionar como fronteiras mentais.

Cada país tem, naturalmente, suas próprias características, mas sinto os romances de Jorge Amado, os contos de Clarice Lispector ou os poemas de Murilo Mendes —penso particularmente em seu maravilhoso Canto do Noivo— tão próximos de minha cultura quanto os romances de García Márquez ou os poemas de Neruda.

Por isso, a integração possui também uma dimensão cultural que muitas vezes esquecemos quando a reduzimos ao comércio ou às instituições. Consiste em criar hábitos de leitura, tradução, circulação e reconhecimento mútuo. O Brasil deixa então de ser, para a América Hispânica, um grande vizinho relativamente desconhecido, e a América Hispânica deixa de ser, para o Brasil, uma extensão indistinta situada do outro lado de suas fronteiras. Talvez seja nesse reconhecimento recíproco que se encontre uma das formas mais duradouras de integração.

Rhea Cristina: O que representa, atualmente, o tipo de pesquisa histórica e política que o senhor propõe em escala europeia e mundial? Qual é, hoje, o lugar do historiador e do analista político em escala global?

Germán A. de la Reza: Uma parte importante de minha pesquisa tem consistido em estudar processos de integração, confederação e supranacionalidade evitando apresentá-los como desfechos inevitáveis. O que me interessa, ao contrário, é reconstruir as alternativas que existiram em cada momento: os projetos que triunfaram, mas também aqueles que foram abandonados, derrotados ou simplesmente esquecidos. Creio que aí reside uma das utilidades contemporâneas da história. O passado não nos diz o que devemos fazer, mas nos mostra que muitas instituições que hoje parecem naturais foram, em sua origem, apenas uma possibilidade entre várias.

Isso vale tanto para a América Latina quanto para a Europa. Durante muito tempo, interpretou-se a integração europeia como uma experiência excepcional e a latino-americana como uma sucessão de tentativas frustradas. Quando se estudam ambas as genealogias com maior atenção, o panorama se revela mais complexo: a América Latina formulou desde cedo projetos confederais e mecanismos de segurança coletiva, enquanto a Europa precisou passar por numerosos ensaios, conflitos e fracassos antes de construir instituições supranacionais estáveis. A comparação permite que nos afastemos tanto da autocomplacência europeia quanto do fatalismo latino-americano.

O lugar do historiador e do analista político é hoje, nesse sentido, paradoxal. Nunca dispusemos de tantos documentos, bases de dados e possibilidades de acesso à informação; mas tampouco estivemos submetidos a uma pressão semelhante para opinar imediatamente sobre acontecimentos cujo significado ainda ignoramos. O analista corre o risco de se transformar em comentarista da urgência, e o historiador, ao se fechar exclusivamente no arquivo, corre o risco oposto: chegar tarde demais às perguntas de seu tempo.

Talvez nossa tarefa consista precisamente em resistir a ambas as tentações. Não se trata de prever o futuro nem de dar lições a partir do passado, mas de devolver profundidade temporal a debates que a atualidade costuma apresentar como se tivessem começado esta manhã. Para mim, essa capacidade de mostrar que o presente chega por genealogias abertas — e que, portanto, também contém alternativas — continua sendo uma das funções intelectuais mais necessárias da história.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

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Christian Tămaș

Cristina Rhea

‘Entrevista com o escritor, tradutor e pesquisador romeno Christian Tămaș’

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“O que me preocupa, na verdade, é a busca por um caminho de retorno do ser humano às suas realidades e valores últimos, cada vez mais sufocados pela arrogância megalomaníaca do homem contemporâneo.” (Christian Tămaș)

Crhistian Tamas - Arquivo pessoal
Christian Tămaș – Arquivo pessoal

Queridos amigos, tenho a grande alegria e a honra de dar continuidade à minha série de entrevistas na maravilhosa revista Jornal Cultural ROL, com trechos da minha entrevista com o ilustre escritor, tradutor e pesquisador romeno Christian Tămaș.

É escritor, filósofo, orientalista e tradutor de oito línguas estrangeiras (árabe, francês, inglês, italiano, espanhol, português, catalão e irlandês), consultor de Ciências Humanas do IBC – Cambridge (Reino Unido) e pesquisador da Universidade „Al. I. Cuza“, em Iași (Romênia), além de professor de língua e civilização árabe no Centro Cultural Árabe de Iași (Romênia).

Christian Tămaș é Doutor “Magna cum laude” em Filosofia, com a tese “Estratégias de comunicação no Alcorão”. As línguas estrangeiras nas quais atua como tradutor são: árabe, francês, espanhol, italiano, português, catalão, inglês e irlandês (celta).

Também é membro da União dos Escritores da Romênia.

Capa do livro ROMENOS DO SÉCULO XXI. Entrevistas-documento com personalidades romenas (Editora Pro Universitaria, 2013
Capa do livro ROMENOS DO SÉCULO XXI. Entrevistas-documento com personalidades romenas (Editora Pro Universitaria, 2013

A entrevista foi publicada no meu quarto livro de entrevistas, ROMENOS DO SÉCULO XXI. Entrevistas-documento com personalidades romenas (Editora Pro Universitaria, 2013).

O volume contém 32 entrevistas com 29 personalidades culturais e sociopolíticas da Romênia contemporânea, nas quais analiso diversos aspectos da vida política, socioeconômica e cultural da Romênia, bem como as formas pelas quais esses aspectos foram afetados pela ideologia comunista e pela transição para a democracia após 1989.

Os temas abordados nessas entrevistas tratam da ideia de nação romena e do destino do povo romeno nos planos cultural, social, histórico e político, analisando o processo do comunismo na Romênia, o período de transição pós-comunista e o período da monarquia constitucional romena.

Nascido em 13 de novembro de 1964, o escritor, tradutor e pesquisador romeno Christian Tămaș é uma personalidade única no âmbito da cultura romena.

Sua obra é abrangente e inclui: trabalhos especializados (livros); artigos e estudos; trabalhos apresentados em conferências, congressos e colóquios nacionais e internacionais; prefácios, estudos introdutórios, notas e comentários, organização e preparação de edições; traduções (livros); além de numerosos artigos, resenhas e traduções publicados em periódicos culturais romenos e internacionais.

Parte de seus trabalhos foi incluída em dicionários e obras de referência biobibliográficas de instituições internacionais especializadas (Centre for Translations and Textual Studies, Irish Research Council for Humanities and Social Sciences, Dublin, Irlanda; International Biographical Centre, Cambridge, Reino Unido; American Biographical Institute, Raleigh, Carolina do Norte, EUA).

Além disso, Christian Tămaș recebeu importantes prêmios nacionais (Prêmio da União dos Escritores da Romênia – Filial de Iași, Romênia, 2008; Prêmio de Tradução do Festival Internacional „Lucian Blaga”, Alba Iulia, Romênia, 2011) e internacionais (Prix Na‘man, Beirute, Líbano, 2007; Medalha de Ouro por Excelência Intelectual, Lima, Peru, 2012).

Sempre que nos encontramos, tive o mesmo sentimento: o de que qualquer diálogo com Christian Tămaș é único e, depois de apenas alguns minutos de conversa, transforma-se em um verdadeiro colóquio espiritual, no qual você, como ouvinte, assiste, mudo de assombro, à essência conflituosa/benéfica dos temas mais debatidos do mundo contemporâneo: o mundo árabe, o cristianismo, o espaço ocidental, os horizontes transcendentais, a sacralidade, a modernidade, a comunicação religiosa, a condição humana, o neopaganismo contemporâneo, a ideologia, a sociedade pluralista, a hegemonia mundial, o comunismo e o capitalismo.

Convido vocês a lerem trechos da entrevista a seguir, realizada em 2013, na qual analisamos grande parte desses temas fundamentais do mundo contemporâneo.

Rh. C.: O intelectualidade romena corre atualmente o risco de ser eliminada do cenário social e político da sociedade?

Ch. T.: A intelectualidade romena, infelizmente, já foi eliminada dos cenários aos quais o senhor se refere. E aqui me refiro ao verdadeiro intelectual, não àquele que possui um diploma de ensino superior. Mas isso é uma consequência natural da falta de clareza e de visão que a sociedade romena enfrenta em seu conjunto. E isso, por sua vez, é consequência do choque representado pela Revolução de 1989, uma mudança brusca e radical de uma maneira de compreender o mundo, por assim dizer, para outra, diametralmente oposta. Mais ou menos como na história de Abu Hasan, que certa manhã acordou califa.

Em nosso país, o comunismo deixou marcas profundas, por meio de uma “nivelização pela base” da sociedade, da destruição sistemática da individualidade e do deslocamento da atenção desta para a comunidade — mas não de uma comunidade entendida como o conjunto das individualidades de seus membros, e sim como uma multidão amorfa. É claro que os outros povos da Europa Central e Oriental que compartilharam nosso destino também passaram por isso, mas a tradição e a experiência pré-comunistas às quais me referi em determinado momento fizeram com que as sequelas do totalitarismo assumissem uma gravidade diferente em cada caso.

Ora, se o intelectual tem seu lugar (e sua razão de ser) no seio da comunidade, ele se torna um elemento negligenciável aos olhos de pessoas manipuladas e impedidas de desenvolver plenamente sua individualidade.

Rh. C.: O que significa o tipo de pesquisa científica que o senhor propunha, em 2013, no plano europeu e mundial?

Ch. T.: Não saberia dizer o que isso significa. Poderia, entretanto, dizer para onde ela se dirige: para o conhecimento da realidade do “outro”, tal como ela é, sem distorções nem preconceitos, com o objetivo de estabelecer uma base para o diálogo e a compreensão entre os seres humanos. É para isso que se voltam minhas preocupações e pesquisas das últimas décadas, não apenas desde 2009, ano de minha chegada à Universidade “Alexandru Ioan Cuza”, em Iași, e é também para isso que continuarão voltadas no futuro.

O que me preocupa, na verdade, é a busca por um caminho de retorno do ser humano às suas realidades e valores últimos, cada vez mais sufocados pela arrogância megalomaníaca do homem contemporâneo, para parafrasear o filósofo espanhol Milán-Puelles, que nos torna prisioneiros de uma autossuficiência cada vez mais desprovida de horizontes transcendentais.

Sinto que essa é a missão que me foi confiada e que me esforço para levar a bom termo, dentro das minhas possibilidades.

Rh. C.: Quais são as diretrizes que definem e a situação profissional do escritor/pesquisador romeno? Um bastardo da Europa? A elite intelectual europeia?

Ch. T.: É difícil definir as diretrizes que caracterizam o escritor ou pesquisador romeno. Isso depende de cada indivíduo, de seu horizonte, de seus ideais e dos objetivos concretos que estabelece para si. Em essência, elas são — ou deveriam ser — as mesmas de todos os escritores ou pesquisadores do mundo.

Em uma sociedade normal, plenamente “estruturada”, depende em grande medida dele tornar-se um “bastardo” ou um membro da “elite” intelectual de um país ou de um continente. Depende dele e da maneira como sabe compreender e assumir a missão que lhe cabe neste mundo.

Quanto à sua situação profissional, ela está longe de ser invejável, pois parece que, em nosso país, se confirmam as palavras do Salvador, que dizia que “ninguém é profeta em sua própria terra”. A falta de transcendência de nosso universo interior e exterior nos dota, enquanto sociedade, de umas formidáveis viseiras que nos impedem de enxergar além do estreito campo de visão que nos é imposto. Daí também a crescente falta de apetite por tudo aquilo que significa cultura e educação.

Rh. C.: O comunismo tentou minar a identidade cultural da Europa Oriental. O que a Romênia trouxe de novo e o que preservou, nesse espaço geográfico, especialmente no que diz respeito à cultura?

Ch. T.: Em primeiro lugar, não acredito que se possa falar de uma identidade cultural stricto sensu da Europa Oriental anterior ao comunismo. Os povos dessa região provêm de duas vertentes da espiritualidade e, consequentemente, da cultura cristã: a católico-protestante, de um lado, e a ortodoxa, de outro, que evoluíram de maneiras bastante diferentes.

O comunismo procurou minar, ideologicamente falando, as características dos povos sobre os quais estendeu seu domínio, tentando nivelar as diferenças sob as esteiras do totalitarismo, mas não conseguiu. Os povos dessa região da Europa permaneceram os mesmos, assim como suas mentalidades.

É difícil dizer o que a Romênia trouxe de novo. Quanto ao que preservou, manteve suas tradições e sua língua, que somente agora correm o risco de se perder. É um paradoxo, sem dúvida, mas apenas aparentemente. A falta de liberdade, em seu sentido absoluto, destrói as almas; a liberdade as rouba.

Rh. C.: A escola romena tem futuro?

Ch. T.: Qualquer discussão a respeito da “Escola romena” (que não consigo deixar de comparar, quase por reflexo, com a situação da educação nos demais países europeus) me faz pensar em uma pintura do artista alemão do século XVI, Hans Baldung Grien, intitulada “As Três Idades do Homem”.

Ali, à esquerda, aparece uma mulher nua, jovem e bela — a “escola” europeia, na minha visão, ou a “escola” como ela deveria ser —, enquanto, no centro, aparece uma mulher também nua, mas enrugada e descarnada, cujos ossos são mantidos unidos apenas pela pele; atrás dela está a morte, olhando por cima de seu ombro: a “escola” romena e seu futuro. É a resposta mais direta que posso lhe dar.

Rh. C.: Qual é a importância da cultura do Leste para a Europa?

Ch. T.: É muito importante, pois reflete as mentalidades, as ideias e as tradições de povos que sempre fizeram parte desse espaço cultural, que professaram a mesma religião cristã, compartilharam os mesmos tipos de valores e enfrentaram ameaças comuns ao longo da história.

Apesar dos conflitos de todos os tipos e das duas guerras devastadoras do século passado, a Europa, seja Ocidental ou Oriental, do ponto de vista espiritual ou ideológico, sempre constituiu uma comunidade circunscrita ao mesmo espaço interior que seus povos foram destinados — ou condenados — a administrar da melhor maneira que conseguiram.

Rh. C.: Em que consistiu o naufrágio do regime comunista na Romênia? Foi semelhante ao dos países da Europa Oriental? Quais são atualmente os grandes sofrimentos do povo romeno e os perigos que a Romênia enfrenta (no plano europeu e mundial — refiro-me sobretudo às alianças político-econômicas e à invasão da religião na vida da sociedade)?

Ch. T.: O comunismo foi, desde o início, uma utopia no sentido mais pleno da palavra e, por isso, fracassou tanto na Romênia quanto nos demais Estados europeus. E as causas de seu naufrágio foram mais ou menos as mesmas. Talvez tenham diferido apenas as nuances, não a essência.

O grande fracasso do comunismo, que também provocou sua queda, foi o econômico, fato que desencadeou uma reação em cadeia. O rebanho, se não recebe alimento, dispersa-se.

Quanto aos sofrimentos do povo romeno, sobretudo no plano europeu, acredito que eles gravitam em torno de uma crise de identidade. A velocidade das mudanças na Europa nas últimas duas décadas talvez seja um pouco rápida demais para nós, acostumados, quase geneticamente, a outro ritmo e a outra maneira de vivenciar a passagem do tempo.

Quanto aos perigos determinados pelas alianças político-econômicas, eles são os mesmos que dizem respeito aos nossos aliados: crises econômicas, conflitos internacionais…

O maior perigo vem de dentro, de nós mesmos, por assim dizer, da falta de coerência que marca nossas ações. Esse é o maior perigo que se manifesta, em um nível mais elevado, por meio da crise de identidade mencionada anteriormente.

E ele não está relacionado a uma invasão da religião na vida da sociedade, mas, ao contrário, ao seu afastamento ou, melhor dizendo, ao fato de a religião estar sendo empurrada para as margens da sociedade. A invasão à qual você se refere é apenas aparente e está relacionada, na melhor das hipóteses, a aspectos formais, ritualísticos, e não às essências. A exacerbação do ritualismo no âmbito de uma religião constitui um sinal clínico de sua morte.

A presença da religião na vida de uma sociedade, seja aqui ou em qualquer outro lugar, não diz respeito ao que você faz quando vai à igreja, mas ao que faz fora dela; em outras palavras, à maneira como você entende que deve viver efetivamente aquilo que professa.

Rh. C.: O que os seres humanos representam para o senhor? Eles nascem necessariamente com alma e consciência?

Ch. T.: O ser humano é uma criação de Deus, de quem recebe tanto a alma quanto a consciência. Ele nasce, portanto, bom, com alma e consciência, que conserva até o fim de sua existência. O que acontece com ele ao longo de sua existência terrena depende, em ordem cronológica, em grande medida, de uma série de fatores sociais presentes em seu entorno imediato, que condicionam seu desenvolvimento: os pais, os educadores, os amigos, a sociedade.

Por ser uma criação de Deus, assim como eu também sou, o ser humano é meu semelhante, é uma alteridade na qual eu me reconheço.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. Todos los derechos reservados © Rhea Cristina, www.cristinarhea.wordpress.com  

Rhea Cristina

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Amo o cheiro da poesia

Cristina Rhea

Poesia em prosa: ‘Amo o cheiro da poesia’

Rhea Cristina
Rhea Cristina
Imagem criada pelo chatGPT e, 11 de julho de 2026 - https://chatGPT.com/c/6a528223-105c-83eb-9d27-dd4cdb8efb4a
Imagem criada pelo chatGPT e, 11 de julho de 2026 – https://chatGPT.com/c/6a528223-105c-83eb-9d27-dd4cdb8efb4a

amo o cheiro da poesia entre duas estações
duas palavras respirando profundamente um oxigênio gravado com amor.
nunca é tarde para que ela venha ao meu coração
perguntando-me em segredo como uma criança com os olhos voltados para algo mais alto do que ela.
muitas vezes nos afastamos profundamente dentro de nós quando não nos dizemos e fingimos que vivemos,
a cada dia negamos tudo a nós mesmos, embora acreditemos que falamos com sinceridade.
é uma luta pela vida entre o velho e o novo, entre hoje e amanhã,
entre dois silêncios, há sempre lugar
para a Poesia do Coração,
para aquele leopardo ardente caindo sobre a boca dos poços de palavras,
para aquele instante veloz amando-me profundamente,
para a voz do Vivo que somente Ela pode trazer à superfície e
transformar em diamante os papéis sobre a minha mesa de trabalho.
amo o cheiro da poesia
quando a recusa da escuridão tem cor e aroma de laranja amarga,
quando o sabor do milagre ganha forma no aposento em que estou.
é um sentimento único que faz as estrelas falarem em meu lugar,
quando tenho a sensação de que as letras chegam de mansinho ao coração explorando o Céu.
eu te amo, Poesia,
ao som da tua música dançam as forças de todos os seres humanos,
os pensamentos vestem o manto da imortalidade e o ar estremece de novidade.
ao entardecer, as alamedas das cidades se enchem de palavras pronunciadas com autenticidade e sem medo.
é o sinal da plenitude da poesia que também neste dia se recusou a morrer,
abrindo caminho e lançando amor em cada palavra escrita por mim.

Uma poesia de Rhea Cristina. Qualquer utilização do conteúdo deste poema implica a citação da fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. Todos os direitos reservados © Rhea Cristina, www.cristinarhea.wordpress.com

Rhea Cristina

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Entrevista com o mestre romeno Gigi Căciuleanu

Rhea Cristina

‘Entrevista com o mestre romeno Gigi Căciuleanu’

Logo das Entrevistas ROLianas
Logo das Entrevistas ROLianas

“É preciso muito talento, grande habilidade, autodisciplina e autocensura para conseguir inventar não apenas algo novo, mas também algo realmente válido!” (Gigi Căciuleanu)

Caros amigos, tenho o grande prazer e a honra de dar continuidade à minha série de entrevistas no maravilho Jornal Cultural ROL com esta entrevista realizada com o renomado bailarino e coreógrafo francês de origem romena, Gigi Căciuleanu.

Capa do livro 'Romenos do Século XXI', de Rhea Cristina
Capa do livro ‘Romenos do Século XXI’, de Rhea Cristina

A entrevista foi publicada no meu quarto livro de entrevistas, ROMENOS DO SÉCULO XXI. Entrevistas-documento com personalidades romenas (editora Pro Universitaria, 2013). 

O volume contém 32 entrevistas com 29 personalidades (culturais e sociopolíticas) da Roménia contemporânea, nas quais analiso diversos aspetos da vida política, socioeconómica e cultural da Roménia, bem como as formas pelas quais estas foram afetadas pela ideologia comunista e pela transição para a democracia após 1989.

Os temas de discussão destas entrevistas abordam a ideia da nação romena, o destino do povo romeno nos planos cultural, social, histórico e político, analisando o processo do comunismo na Roménia, o período de transição pós-comunista e a fase da monarquia constitucional da Roménia.

Gigi Căciuleanu Arquivo pessoal
Gigi Căciuleanu Arquivo pessoal

Conhecido como bailarino e coreógrafo em quatro continentes, dançarino ao lado de Pina Bausch, coreógrafo em diversas ocasiões em sua companhia, coreógrafo e parceiro de Maya Plisetskaya, entre tantas outras colaborações internacionais, além de diretor artístico do Ballet Nacional Chileno, “El Banch”, Gigi Căciuleanu é, por sua maneira de ser, uma combinação singular de originalidade, sensibilidade artística e humor.

Gigi Căciuleanu é primeiro bailarino e professor de dança contemporânea de renome mundial, fundador da companhia de dança que leva seu nome. É um dos mais importantes bailarinos, coreógrafos e professores romenos de dança contemporânea, com uma notável carreira internacional desenvolvida na Romênia, França, Chile e em diversos outros países.

Nascido em Bucareste e formado pela Escola Nacional de Coreografia, descobriu a dança contemporânea aos 14 anos, sob a orientação de Miriam Răducanu, participando das célebres “Nocturnas 9½”. Complementou sua formação artística no Teatro Bolshoi, em Moscou, e tornou-se solista da Ópera Romena de Bucareste, onde interpretou papéis de destaque e inspirou a criação de partituras coreográficas especialmente concebidas para ele.

Desde o início da década de 1970, destacou-se internacionalmente ao conquistar importantes prêmios de coreografia: o Prêmio de Coreografia no Concurso Internacional de Varna (1970) e, por duas vezes, o Primeiro Prêmio no Concurso Internacional de Coreografia de Colônia (1971 e 1972). Entre 1972 e 1973, integrou a companhia Folkwang Ballet, em Essen, dirigida por Pina Bausch, onde criou dez obras originais.

Em 1973, com o apoio de Rosella Hightower, fundou em Nancy, na França, o Estúdio de Dança Contemporânea, que posteriormente se transformaria nos “Ballets de Lorraine – Danse Contemporaine de France”. 

Entre 1974 e 1978, dirigiu o Balé do Grand Théâtre de Nancy, contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento da dança contemporânea francesa. Tornou-se membro da SACD e um dos fundadores do Conselho Internacional da Dança da UNESCO, organizando festivais, turnês e encontros coreográficos, além de promover numerosos artistas da nova geração.

No período de 1978 a 1993, foi diretor artístico do Centro Nacional Coreográfico de Rennes e do Teatro Coreográfico Rennes/Bretagne. Colaborou com personalidades de renome mundial, como Astor Piazzolla, Pina Bausch, Maya Plisetskaya e Jean-Michel Jarre. Suas coreografias passaram a integrar o repertório de importantes instituições culturais de Paris, Hamburgo, Roma, Veneza, Cardiff, Montevidéu, São Paulo e Israel. Nessa mesma fase, organizou numerosas turnês internacionais e consolidou sua reputação como um criador inovador.

Seu reconhecimento internacional foi confirmado por diversas distinções. Em 1984, recebeu na França o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras. Em 1991, conquistou o Prêmio de Coreografia da revista Actualitatea Muzicală e, em 1992, criou para Maya Plisetskaya o espetáculo A Louca de Chaillot (Nebuna din Chaillot), apresentado com grande sucesso em Moscou. Suas criações foram transmitidas por importantes emissoras internacionais de televisão.

A partir de 1994, estabeleceu-se em Paris e fundou a Companhia Gigi Căciuleanu, com a qual desenvolveu inúmeros espetáculos e turnês internacionais. Paralelamente, colaborou com instituições e companhias de dança da Europa e da América Latina. 

Em 2001, assumiu a direção artística do Balé Nacional do Chile, onde criou diversos espetáculos amplamente aclamados e recebeu importantes prêmios, incluindo o Prêmio Altazor, equivalente chileno do Oscar das artes.

Nas décadas de 2000 e 2010, continuou a criar espetáculos na França, Chile, Uruguai e Romênia, a ministrar oficinas e masterclasses e a participar de júris internacionais de dança. Em 2007, fundou em Bucareste a Gigi Căciuleanu Romania Dance Company. Sua atividade foi recompensada com inúmeras distinções, entre elas o Prêmio Especial UNITER pelo conjunto da carreira (2010), o Prêmio ROMAinDANZA pela contribuição ao desenvolvimento do teatro-dança contemporâneo (2011), o título de Professor Honoris Causa da Universidade de Artes de Târgu Mureș (2012) e a Medalha Reitoral da Universidade do Chile.

Por meio de sua atividade artística, pedagógica e de gestão, Gigi Căciuleanu contribuiu de forma decisiva para a afirmação e o desenvolvimento da dança contemporânea em nível internacional, sendo considerado uma das grandes personalidades da coreografia mundial.

Em agosto de 2009, tive o privilégio de realizar uma entrevista com o mestre Gigi Căciuleanu. Um homem da comunicação e da excelência artística. Um artista seduzido pelo próprio voo, pelo conhecimento humano da Arte. E um ser de rara modéstia.

Reproduzo agora, na íntegra, esta fascinante entrevista.

Rhea Cristina: Antes de dezembro de 1989, qual era o significado do repertório da Ópera? O termo “bailarino” tinha o mesmo significado que “dançarino”? E depois de 1989?

Gigi Căciuleanu: Prefiro que me chamem de “dançarino”. Nunca gostei do termo “bailarino”. É uma espécie de equivalente masculino de “bailarina”. A bailarina é aquela que faz as jovens sonharem. O dançarino (tanto no masculino quanto no feminino) é aquele que faz pensar. Isso vale tanto antes quanto depois de 1989.

Voltando ao repertório. Considero que, no que diz respeito ao Balé (e à Ópera), a situação na Romênia (assim como nos demais países do Leste Europeu) era muito positiva. Qualquer pessoa podia assistir, a qualquer momento, a qualquer obra do repertório. Isso se perdeu ou nunca existiu no Ocidente. 

As criações são produzidas e descartadas conforme o gosto do momento, mas nada permanece. O que teria acontecido com O Lago dos Cisnes se não existisse a noção de repertório e se a obra não tivesse sido integrada a ele?… Ou com Molière sem a Comédie-Française e Bertolt Brecht sem o Berliner Ensemble?… E o que teria sido da pintura moderna (e das artes plásticas em geral) se tivéssemos jogado fora as telas de Da Vinci, Rafael, Rembrandt, Picasso, Dalí etc., depois de vê-las apenas uma única vez?

Rhea Cristina: O que a dança representa, em nível europeu e mundial, em 2009?

Gigi Căciuleanu: A dança, apesar de ser talvez a arte mais antiga e mais completa que existe (afinal, não há uma única parte, não apenas do corpo, mas de todo o ser humano, que não participe do ato de dançar!), continua sendo… a quinta roda da carroça. Não por culpa do público ou das diferentes “autoridades” culturais, mas sobretudo por culpa… nossa, dos artistas da dança.

Minha opinião é a seguinte:

  1. A dança é uma arte tão antiga quanto ainda inexplorada; 

  1. Para que ela saia da sua “idade da pedra”, é necessário PROFISSIONALISMO em um nível muito elevado. 

Não se deve aceitar qualquer coisa, a qualquer momento e de qualquer pessoa…

Claro que tudo é possível!

Beethoven também era uma possibilidade, mas, entre infinitas possibilidades, até hoje surgiu… apenas um único Beethoven!

Para ser um artista da dança, é preciso conhecer o próprio instrumento, ou seja, o CORPO, e isso não apenas em cada átomo do ser físico, mas até nas profundezas do cérebro.

Para ser Verdi, não basta ter algumas ideias ou saber organizar uma melodia; é preciso também conhecer as cordas vocais.

Para ser verdadeiramente um coreógrafo (e não apenas um organizador de movimentos), considero indispensável ter passado pela prova de fogo do palco, ter dançado centenas ou milhares de horas seguidas, ter morrido dançando entre quatro paredes e ressuscitado outras tantas vezes.

Rhea Cristina: Nesse contexto, onde se situa o dançarino romeno? Ele é um bastardo da Europa? Faz parte da elite da coreografia europeia ou mundial?

Gigi Căciuleanu: Não devemos confundir a noção de dançarino com a noção mais ampla de artista coreográfico, de coreógrafo, de coreautor (definição criada por Serge Lifar). O dançarino, assim como o artista circense, é uma espécie de bastardo não apenas da Europa, mas das artes em geral. Mas não por muito tempo.

Assim que a necessidade de uma linguagem universal se impuser como uma necessidade, como uma forma de sobrevivência, a linguagem do corpo se tornará o veículo de uma arte maior, no mesmo nível (ou talvez ainda mais necessária e elevada) que a música, o teatro etc. E as diversas imposturas (inclusive as internacionais) desaparecerão por si mesmas…

Porque a dança não é apenas movimento ou emoção (como no circo ou nos programas de variedades da televisão), mas sobretudo — pelo menos para mim — significado.

Independentemente de considerações geográficas ou político-materiais, faz realmente parte da elite da dança aquele que consegue fazer com que apenas a dança possa verdadeiramente expressá-lo, e que, por sua vez, consegue expressar-se através do movimento. De forma sincera e sem cálculo. Simplesmente pela necessidade de sobreviver (e não apenas fisicamente) por meio de sua arte. Aquele que realmente não consegue viver sem tornar-se um só com sua arte.

Ao mesmo tempo, deve ter a coragem de ser e permanecer ele mesmo (sem imitar este ou aquele). Permanecer fiel a si próprio não apenas em sua loucura, mas também em seu próprio conhecimento. Cultivar ambos, passo a passo. E aceitar, apesar do canto das sereias ou das exigências momentâneas de alguma moda, ser uma “singularidade”. Não apenas desfrutando de seus aspectos maravilhosos, mas também aceitando — e sendo capaz de suportar — as numerosas e agressivas desvantagens que essa condição representa.

Rhea Cristina: O que significava, para o coreógrafo romeno, participar de um concurso internacional de balé nas condições do marasmo totalitário comunista anterior a 1989?

Gigi Căciuleanu: Antes de 1989, era a única possibilidade de sair do país ou até mesmo de “fugir”, ou, como se dizia de forma mais elegante, de “ficar”. Em outras palavras, uma oportunidade de “escolher a liberdade”.

Rhea Cristina: E atualmente?

Gigi Căciuleanu: Participar de um concurso artístico, onde quer que ele aconteça, foi, é e continuará sendo uma loteria. Assim como os membros dos diversos júris e comissões. Muitas vezes também retirados do chapéu do acaso…

Não há como avaliar a arte de maneira objetiva. Digo isso porque participei de inúmeros concursos, dos dois lados do espelho: tanto como concorrente quanto como membro do júri. Como concorrente, tive sorte todas as vezes. Como jurado, procurei não esquecer os momentos em que minha própria arte foi julgada e pontuada, ficando à mercê de um veredicto tão subjetivo quanto aquilo que eu apresentava…

Rhea Cristina: Quais são as frustrações, as motivações e a força criadora de sua arte?

Gigi Căciuleanu: Muito frequentemente, essas noções se entrelaçam e se devoram mutuamente justamente para… alimentar o ato criador.

Rhea Cristina: Depois de 1989, podemos falar de um fracasso da coreografia romena ou de uma explosão de talentos que puderam se afirmar?

Gigi Căciuleanu: Eu falaria antes da existência permanente de grandes figuras da dança romena. Elas sempre existiram, existem e continuarão existindo. As flores não começaram a florescer depois de 1989, assim como não esperaram 1944 para fazê-lo.

Se eu tivesse de mencionar apenas uma dessas personalidades, pensaria em Miriam Răducanu. E somente por sua existência já podemos considerar que a dança romena está muito mais do que à altura…

Rhea Cristina: Na Romênia, o valor é apreciado ou desencorajado?

Gigi Căciuleanu: Voltemos ao exemplo de Miriam. Se percebermos que uma grande Dama da Dança romena (não apenas da dança moderna) — e não apenas da Romênia — não possui em seu próprio país sequer um espaço de um centímetro quadrado dedicado à sua arte (uma arte tão valiosa internacionalmente quanto específica e singular), deixo que a senhora mesma responda à pergunta…

Rhea Cristina: A dança está diretamente ligada à evolução da sociedade civil romena? Ela exerce uma ação catártica? O diálogo com o público ocorre de forma definidora e substancial na Romênia? E no Ocidente?

Gigi Căciuleanu: Não sou crítico nem historiador de arte ou de dança — e nem desejo ser.

Para descontrair um pouco: pessoalmente, tenho diante da dança a mesma atitude que tenho diante do AMOR: gosto de praticá-lo eu mesmo e não de ficar olhando os outros…

Brincadeiras à parte (embora talvez nem fosse brincadeira): a Dança, com letra maiúscula, como arte maior, está sem dúvida ligada à evolução da sociedade. Só que hoje, com a explosão dos meios de comunicação, entre os quais a Internet (a circulação de informações e vídeos) é a mais revolucionária e poderosa, já não se pode dizer que essa evolução esteja ligada apenas à sociedade romena. Estamos, na dança como em todos os outros domínios, “condenados” à globalização.

Uma ação catártica? Sem a menor dúvida. Tanto no sentido aristotélico quanto no da psicanálise.

Para mim, a dança é ao mesmo tempo doença e remédio. Doença e droga porque, se você estiver realmente “contaminado”, não consegue viver sem ela. E é também um remédio, sem qualquer dúvida, para muitas de nossas feridas físicas e emocionais. E até filosóficas, existenciais.

Uma espécie de elixir dos alquimistas, obtido não apenas pela manipulação física e/ou pela transmutação dos elementos, mas sobretudo pela transfiguração essencial da própria pessoa que provoca e conduz esse processo.

Rhea Cristina: Fale-nos um pouco sobre as origens de sua família…

Gigi Căciuleanu: Uma origem que, como se dizia antes de 1989, era o mais “não saudável” possível…

Antes de 1944, eu teria sido considerado alguém de “boa família”…

Rhea Cristina: Desde 2001, o senhor é diretor artístico do Balé Nacional do Chile, em Santiago.

Gigi Căciuleanu: Existem diretores porque são políticos (da cultura ou simplesmente da política). Outros são artistas porque são diretores. No meu caso, é diferente: sou diretor porque sou artista.

O Chile, depois da França, foi o país que me confiou o destino de uma companhia nacional. Lamento que não tenha sido a Romênia a me conceder essa honra. Mas quem sabe? Talvez um dia…

Rhea Cristina: Como isso aconteceu?

Gigi Căciuleanu: No Chile, assim como na França, deram-me a oportunidade de propor. E gostaram daquilo que eu propunha. Em Santiago, encontrei novamente um terreno fértil, como se diz na botânica.

Rhea Cristina: Como é o espaço cultural da América do Sul?

Gigi Căciuleanu: Não sou político. Nem mesmo um político da cultura…

Ele se parece com qualquer outro espaço “cultural”. Cultura não significa arte. A arte é a mesma em qualquer lugar. Ou seja, é praticada por personalidades — ou melhor, por “singularidades”.

Essas singularidades não se definem nem politicamente nem geograficamente, e evoluem não na horizontal, mas na vertical de uma espécie de escala de valores, semelhante à escala Richter dos terremotos.

Rhea Cristina: Quem foi/é Miriam Răducanu no contexto do balé romeno e mundial?

Gigi Căciuleanu: Ela é uma Mestra. Como eu dizia antes: universal, mas também única. Além de qualquer definição.

Rhea Cristina: Como a dança contemporânea se relaciona com o balé clássico, do tipo tchaikovskiano? Poderia me dar uma definição, se possível?

Gigi Căciuleanu: Dança é… dança. Uma grande crítica de dança parisiense, Dinah Maggie, dizia que o balé clássico é a dança contemporânea da época de Luís XIV. Tchaikovsky foi apenas compositor, não coreógrafo, e Petipa foi extremamente moderno para o seu tempo.

Hoje, como sempre, virar a página é algo tão necessário quanto difícil. Precisamos propor algo que supere aquilo que existiu antes, e não que o reduza. É preciso muito talento, grande habilidade, autodisciplina e autocensura para conseguir inventar não apenas algo novo, mas também algo realmente válido!

Rhea Cristina: Que tipo de esperança e de desesperança existe na sociedade romena contemporânea?

Gigi Căciuleanu: A mesma que existe no mundo inteiro, acrescida dos parâmetros específicos do espaço miorítico. Isso explica, na minha opinião, por que, apesar de termos artistas, intelectuais e cientistas excepcionais em abundância, ainda não temos nenhum Prêmio Nobel!…

Rhea Cristina: O que o público romeno espera atualmente dos coreógrafos romenos?

Gigi Căciuleanu: Provavelmente a mesma coisa que eu espero, e que qualquer um de nós espera…

A questão principal é: o que nós, artistas e criadores, somos capazes de oferecer a esse público?

Rhea Cristina: Que tipo de público de balé existe na Romênia, em comparação com a Europa e os Estados Unidos?

Gigi Căciuleanu: Tenho a impressão de que é o mesmo. “La même Jeannette mais autrement coiffée” (“A mesma Jeannette, apenas penteada de outra maneira”). Minha ideia é que o público é, em toda parte — do Chile ao Vietnã, da Romênia ao Canadá, da Grécia Antiga à moderna Nova York ou à decadente Paris — uma entidade mais inteligente ou, pelo menos, muito mais informada do que o autor de uma obra ou o intérprete em cena. E isso pela simples razão de que o público, sendo mais numeroso, representa uma quantidade maior (e também uma qualidade maior) de massa cinzenta e de antenas emocionais.

Rhea Cristina: Recentemente, em 2009, o senhor montou Sinfonia Fantástica na Ópera de Bucareste; em 2007 fundou a companhia de dança que leva seu nome, presente também no espetáculo Răzvan Mazilu e seus convidados; e, em 2009, lançou a versão em língua romena de seu livro Vento, Volumes, Vetores (Vânt, Volume, Vectori), publicado na coleção “Urban” da editora Curtea Veche, na qual descreve os símbolos alquímicos de sua arte.

Pouco antes, o senhor dançou no palco da Ópera Nacional de Bucareste ao som de La Vie en Rose, como convidado especial do evento de Răzvan Mazilu, organizado em apoio às escolas de coreografia (a última vez que o senhor havia dançado na Romênia foi em 1973, no espetáculo Um Americano em Paris, de Gershwin)…

Gigi Căciuleanu: Uau! Fui eu mesmo quem fez tudo isso???

Rhea Cristina: O que representam para o senhor a Romênia, a língua romena e o povo romeno? Qual é sua motivação para continuar vivendo e criando dança na Romênia, para os romenos?

Gigi Căciuleanu: A Romênia representa para mim um público com o qual me identifico plenamente do ponto de vista cultural, tanto pelo humor quanto pelo amor. Um público que, acredito, me compreende melhor do que qualquer outro e que eu não apenas compreendo, mas também gosto de compreender. E, pelo que me foi dado ver e viver, tenho a impressão de que o público romeno é mais apto a compreender o universal do que o público de países que se consideram depositários da “universalidade”!…

A língua romena? É a minha língua. Minha língua materna. Em determinado momento, no início do exílio, ela me ajudou a sobreviver psicologicamente. Hoje, ela me ajuda a viver. Quando não danço, escrevo. Embora eu também escreva em francês e em espanhol, e às vezes em russo, italiano ou até inglês, penso a minha dança em romeno. E aquilo que escrevo não são textos, mas dança.

Rhea Cristina: Por que o senhor decidiu se estabelecer definitivamente no Ocidente (França, Paris)?

Gigi Căciuleanu: Não fui eu que me estabeleci lá. Foi ele que se estabeleceu em mim…

Apaixonei-me por Paris desde o primeiro instante. Eu estava em Paris a caminho dos Estados Unidos quando, ao passar pela Embaixada Americana para retirar os documentos necessários à minha emigração, decidi reconstruir minha vida — ou melhor, renascer — ali, e não em outro lugar. Coupe de foudre! — amor à primeira vista!…

Rhea Cristina: Em 2009, Paris ainda é a “capital mundial da cultura”?

Gigi Căciuleanu: A capital do Artista é onde ele se encontra. Nesta época em que percebemos não apenas que a Terra é um planeta redondo, mas sobretudo que é um planeta muito pequeno, o umbigo do mundo pode estar em qualquer lugar.

Rhea Cristina: Ainda se lê poesia em Paris?

Gigi Căciuleanu: Não muito. Mas ainda se escreve.

Rhea Cristina: Qual é atualmente a situação do balé na capital francesa?

Gigi Căciuleanu: Como em qualquer outro lugar: muitas bobagens, alguns artistas maravilhosos (poucos, mas excelentes); tudo isso promovido mais pelos critérios de uma determinada política cultural do momento do que pelos da verdadeira Arte, que é atemporal e universal.

Rhea Cristina: Quais são seus maiores arrependimentos e suas maiores realizações?

Gigi Căciuleanu: Como na canção de Edith Piaf: “Non, rien de rien, non, je ne regrette rien…” (“Não, nada de nada, não me arrependo de nada…”). Quanto às minhas maiores realizações: espero que elas ainda estejam me esperando no futuro!

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

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Rhea Cristina

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Félix Nicolau

Entrevista com o escritor e professor universitário romeno
Félix Nicolau

Logo da seção Entrevistas ROLianas
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“Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se
contra a censura”. (Félix Nicolau)

Professor Felix Nicolau - Arquivo pessoal
Professor Felix Nicolau – Arquivo pessoal

Caros amigos do Jornal Cultural ROL, e´ com grande prazer que vos apresento Félix Nicolau, um erudito e uma das personalidades da literatura romena contemporânea, com uma carreira complexa e multifacetada que combina, com naturalidade, a criação literária, a reflexão crítica e a atividade académica. 

Licenciado em Filologia e Filosofia, obteve o título de Doutor em Filologia em 2003, com uma tese de literatura comparada. A sua estreia editorial ocorreu em 1996 com o livro de poesia Ascultând cerurile, publicado na revista Arca de Arad, marcando o início de uma atividade literária prolífica e diversificada. 

É membro da União dos Escritores da Romênia e colabora com numerosas revistas literárias e científicas, tanto nacionais como estrangeiras.  

Ao longo do tempo, Felix Nicolau publicou uma obra rica que inclui poesia (quatro volumes), prosa (dois romances) e ensaios e crítica literária (nove livros). 

No domínio da poesia, obras como Kamceatka, Time is Honey (2014), Bach, manele & kostel (2003), Salonul de invenții (2002) e Cucerirea râsului (1996) revelam um poeta preocupado com o jogo semântico, a ironia cultural e a expressão lúdica.

No que se refere à prosa, os romances Tandru și rece (2007) e Pe mâna femeilor (2011) são exemplos do seu interesse pela exploração das relações interpessoais e dos paradigmas socioculturais do espaço pós-moderno romeno. 

No domínio da crítica literária e da teoria cultural, Nicolau publicou vários volumes de ensaios e estudos que refletem profundas preocupações teóricas. Entre as suas obras de referência, destacam-se: Homo Imprudens (2006), Anticanonice (2009), Codul lui Eminescu (2010), Estetica umană: de la postmodernism la Facebook (2013) e os volumes de 2014: Cultural Communication: Approaches to Modernity and Postmodernity e Comunicare și creativitate. Interpretarea textului contemporan e Take the Floor. Professional Communication: Theoretical Contextualization. Mais recentemente, Nicolau publicou Istoria nucleară a culturii. Cuante hermeneutice (2021) e Știința minciunii responsabile. Tratat de embolii culturale (2024), no qual aborda temas atuais relacionados com a hermenêutica, a identidade e o discurso cultural na era digital.

Além da paixão pela escrita e pela crítica, Felix Nicolau é um professor universitário dedicado e respeitado. Leciona literatura, comunicação e estudos culturais em diversas instituições académicas, nomeadamente como professor convidado do Instituto da Língua Romena (ILR) na Universidade Complutense de Madrid e na Universidade de Granada, como professor na Universidade Técnica de Construções Civis de Bucareste, na Roménia, e como professor convidado na Universidade de Lund, na Suécia.

Além disso, é afiliado à Escola de Doutoramento em Filologia da Universidade “1 de Dezembro de 1918” de Alba Iulia, na Roménia, onde contribui para a formação de investigadores nas áreas da literatura e da comunicação.

A obra e a atividade de Felix Nicolau inserem-se nos debates contemporâneos sobre literatura e cultura, dado que o autor participa ativamente na vida jornalística e académica, tanto romena como internacional, colaborando com publicações como o Swedish Journal of Romanian Studies, a Littera Nova ou a Bucovina literară.

Através das suas abordagens teóricas, ensaísticas e criativas, Felix Nicolau procura conferir clareza e profundidade ao discurso literário, explorando simultaneamente as dimensões hermenêuticas, culturais e comunicativas da arte e da sociedade.

Rhea Cristina: Conhece e fala sete línguas estrangeiras: inglês, italiano, francês, espanhol, alemão, português e sueco. O que o levou a estudar português? O que representam para si o Brasil e a América do Sul em geral?

Felix Nicolau: Há muitos anos, frequentei cursos de língua e cultura portuguesas na embaixada do Brasil em Bucareste. Com certeza irei frequentar um novo curso num instituto para atualizar os meus conhecimentos da língua. Por isso, conheço melhor o português do Brasil, que, aliás, tem uma pronúncia mais clara. 

Sempre me interessei pela cultura de expressão portuguesa, devido à sua vastidão temporal e espacial. O Brasil e a América do Sul são um caldeirão de culturas que não se pode deixar de conhecer. E como nós, romenos, também usamos uma língua neolatina, seria uma pena não aceder ao original do que as culturas de expressão portuguesa têm para oferecer.

Rhea Cristina: O que significam para si as palavras «história», «identidade» e «memória individual e coletiva»? 

Felix Nicolau: São conceitos essenciais para o ser humano. Por exemplo, não basta uma pessoa falar com um certo grau de correção a língua portuguesa ou a língua romena para se poder dizer que é brasileira ou romena. A identidade, que inclui os tipos de memória, significa conhecer a história sem distorções, as tradições e a cultura em causa. Sem isso, ninguém pode assumir uma identidade específica. 

Pelo contrário, se um estrangeiro aprender bem essas coisas, então torna-se mais nativo do que um habitante local que não se esforça para desenvolver a sua identidade. Portanto, a identidade conquista-se, não é algo que se tenha por direito. É em vão que muitos se gabam de ter nascido num determinado lugar. Podiam ter nascido noutro qualquer lugar. 

A falta de pensamento crítico e os automatismos são pragas da humanidade que só podem ser curadas através da exposição à cultura autêntica. No entanto, isso está a tornar-se cada vez mais difícil, pois a educação está cada vez mais diluída. Especialmente para se obter o ser humano globalizado, o homem de plasticina.

Rhea Cristina: Durante os 50 anos de totalitarismo, a Europa de Leste produziu apenas cultura de propaganda? A cultura da Europa de Leste submeteu-se totalmente aos cânones da ideologia oficial? Que ensinamentos sobre os valores do ser humano nos legou essa cultura?

Felix Nicolau: …De modo algum. É verdade, porém, que apenas a cultura alinhada com o sistema comunista foi promovida. Além disso, era mesmo perigoso produzir cultura não alinhada. Muitos acabaram na prisão, foram mortos ou perderam o estatuto social por causa disso. Em suma, apenas os fanáticos, os idiotas e os oportunistas se submeteram aos cânones da cultura oficial. 

A verdadeira cultura, a não alinhada, revelou o lado absurdo, ou mesmo feroz, do mundo. Não existe uma cultura do Leste europeu, mas sim várias. Os romenos promovem criações com um toque folclórico, mas também o absurdo e as vanguardas. Os checos têm um sentido de humor ingênuo-absurdo no cinema. Os húngaros têm uma inclinação para o absurdo sofisticado e para uma visão romântica e misteriosa. E assim sucessivamente. São povos com matrizes culturais semelhantes, mas também diferentes. 

Daí os frequentes conflitos e a incapacidade de estabelecer uma aliança político-militar-econômica em toda a região. Isso diz muito sobre as diferenças.

Rhea Cristina: Num mundo com grandes mudanças geopolíticas, como o atual, qual é ou qual deveria ser o papel da cultura a nível mundial? Que importância tem a cultura europeia? E a literatura sul-americana? 

Felix Nicolau: A cultura tem, como sempre, um papel duplo: preservar identidades e tradições elevadas, não bárbaras, e construir pontes interculturais. Não é uma tarefa fácil e, infelizmente, muitos promotores culturais têm um domínio limitado da cultura, limitando-se a procurar um lugar confortável em diversas instituições e projetos. Além disso, há muitos projetos supostamente culturais, mas centrados em aspectos da moda e ideologizados que, na verdade, não contribuem em nada para a vida cultural. 

A literatura sul-americana tem um papel especial precisamente devido à cultura de onde provém. Como se sabe, esta literatura abordou, com meios estilísticos espetaculares, temas relacionados com a ditadura e o autoritarismo. Afinal, é isso que a literatura deve fazer: propor novas formas narrativas e desenvolver a humanidade, expondo temas e situações de forma desideologizada. Não impor uma única forma de leitura.

Rhea Cristina: Qual é, atualmente, o estatuto do escritor, filósofo e tradutor no espaço cultural europeu e mundial? 

Felix Nicolau: Existem diferenças significativas entre estas três figuras. O escritor tornou-se um pilar da sociedade do espetáculo e um crítico desta, apenas na medida em que não é movido pelo desejo de receber prêmios. Refiro-me aos escritores representativos, aqueles que são apoiados pelos sistemas. No entanto, também existem escritores livres que não se deixam condicionar pelas relações comerciais em busca do sucesso. 

Ultimamente, os filósofos representativos têm recuperado a vantagem perdida face aos escritores. Surgem filósofos-influenciadores que dão conselhos, sobretudo, sobre a felicidade. Quanto aos tradutores, tinham alcançado um certo nível de respeitabilidade, sobretudo sob a pressão dos estudos de tradução. No entanto, a explosão de programas baseados em inteligência artificial irá reduzir a sua contribuição. Ficarão muito poucos tradutores, que se dedicarão mais a aperfeiçoar as traduções feitas com IA. 

Porém, os escritores também começaram a criar textos de forma pós-algorítmica com a ajuda da IA, embora poucos o reconheçam. De qualquer forma, um artista define-se pela liberdade na sua arte. Enquanto o artista se preocupar em incorporar a correção política do momento no seu processo criativo, a sua arte estará morta a nível ontológico. Por mais prêmios que receba.

Rhea Christina: Que tipo de intelectual existe atualmente na Europa e na cultura sul-americana? Estão presentes na cena cultural mundial?

Felix Nicolau: Na minha opinião, um intelectual não é apenas um especialista ou um homem de cultura pago pelo Sistema. O intelectual é alguém que está genuinamente em busca da verdade, com espírito crítico, e que se esforça por acumular informação de tantos domínios quanto possível. Essa informação é depois integrada no seu sistema cultural com base em critérios de valor, e não em função de ofertas e oportunidades. 

Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se contra a censura. Poderia dizer que uma pessoa amplamente aceite pelo Sistema e multipremiada não pode, de forma alguma, ser um intelectual. A função do intelectual consiste, acima de tudo, em lutar pela decência e pelos direitos, e não em alinhar com os diversos discursos do poder. Da mesma forma, um intelectual esforça-se por construir a sua cultura através de várias línguas estrangeiras. 

A verdade é que esta condição humana é extremamente rara e, na maioria dos casos, é marginalizada. A história mostra-nos que a espécie humana não gosta de jogos justos e baseados em regras. Desde sempre que os sistemas têm influenciado o resultado do jogo e da competição. O mundo poderia ter sido um paraíso para todos, mas está longe disso. 

O mito do robô que libertará o homem do trabalho e lhe permitirá dedicar-se à construção cultural não passa de um mito. A proliferação dos robôs empurra o homem verdadeiramente trabalhador, que não usufrui de diversos privilégios imerecidos, para fora do panorama, tornando-o inútil e dispensável. É uma perspetiva sombria, nada intelectual.

Rhea Cristina: Qual é a sua mensagem para a comunidade romena no Brasil e para a comunidade cultural brasileira?  

Felix Nicolau: Uma mensagem de coragem e abertura cultural, ou seja, de esforço intelectual contínuo, de acumulação e interpretação. Não nos limitemos à superfície das culturas; estudemos com energia durante toda a vida. Só assim as culturas podem permanecer verdadeiramente vivas e não se transformar em mecanismos festivos para a promoção de diversos funcionários. 

Lutem pela verdade e não se deixem levar apenas pelos influenciadores culturais. Procurem os verdadeiros sábios. Pensem, portanto, na vitória e na alegria.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

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