Hoje eu sonhei com você

Paulo Siuves: Poema ‘Hoje eu sonhei com você’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem gerada pela IA do Bing – 10 de março de 2026, às 12:34

Hoje eu sonhei com você.

E você jamais saberá disso,

a menos que tropece neste poema.

Sonhei — e foi bom — de um jeito simples,
como quem encontra abrigo numa varanda

enquanto a tarde desmancha.

Acordei sorrindo, sem pressa,

com a sensação de que o mundo, por um instante,

tinha se alinhado ao que eu queria sentir.

Não importa o que fizemos.
Nem o que dissemos.
Amor, nós não fizemos.

Ficamos vestidos, inteiros, leves,
como duas brasas que preferem o calor contido
ao incêndio.
Rimos. Flertamos.
E havia ali algo maior
do que o cotidiano comporta,
um brilho que não cabe
na claridade comum dos dias.
Foi bonito. Tão bonito
que quase doeu ao despertar.

Mas eu não vou te contar.
Não direi que sonhei,
que gostei,
que por segundos desejei
que tudo tivesse sido real.

Guardo o sonho comigo,
como se fosse uma garrafa de água fresca
que não se divide,
porque minha sede
não acabou no sonho.

Paulo Siuves

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Pipa vadia

Paulo Siuves: Poema ‘Pipa vadia’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
IA criada com auxílio do ChatGPT1º de março de 2026,
às 23:07

O sol no meio dessa imensidão azul,
a ausência de nuvens,
uma pipa;
ligação de um pivete à imensidão azul.

Uma linha,
um menino,
um sonho,
sonho de estar no lugar da pipa
e esquecer que existem horas,
horas de parar de brincar,
horas de ir pra esquina da avenida
esperar o vermelho do semáforo…

No céu não existe semáforo.

Dá-se um puxão na linha
e magicamente eu vou com ela pra esquerda,
levo a pipa pra direita
ou pra baixo!

Subo sobre ela até perto do sol,
vou cortar a linha do sol.

“- Êta, solão!”

De repente – zás.

“- Um intruso no meu limite!?”

A pipa sobe incontrolável
como a ira do menino sentado à beira do caminho,
sonhando em ser pipa,
conhecer os sete céus
e os sete mares.

“- Por onde você anda querida pipa?”

“- Com certeza nas mãos de outro menino que sonha ser a pipa, aquela pipa vadia!!”

Coração apertado,
latinha de linha na mão,
menino suado,
cabeça confusa,
desilusão…

Chegou a hora,
essas horas,
que mundo!

“- Esquina, ai vou eu, contar os meus carros, cobrar dessa gente grande por passar na minha rua…”

Paulo Siuves

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Ninguém entra duas vezes no mesmo rio

Paulo Siuves: ‘Ninguém entra duas vezes no mesmo rio’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA do Gemini - 19 de fevereiro de 2026, às 16h25
Imagem criada por IA do Gemini – 19 de fevereiro de 2026, às 16h25

Saí de casa e vi um ônibus passar.
Não era só um ônibus.
Era uma cápsula do tempo.

Painel digital, porta automática, câmera interna, letreiro de LED.
Só o motor barulhento não mudou —
continua o nosso velho e bom busão.

Quase nada nele parecia com os que passavam quando eu era moleque.
Os de antes gemiam, tremiam, soltavam fumaça,
tinham bancos duros e janelas que se abriam à força.
Hoje tem ar-condicionado.

Quarenta anos de tecnologia entre um veículo e outro —
e, mesmo assim, a rua era a mesma.
O ponto era o mesmo.
O asfalto era o mesmo.
Só eu não era.

O que passa pela retina é presente.
O que passa pela memória é outra cidade.
Outro corpo.
Outro tempo.
Outro eu.

Há coisas que mudam fora da gente.
Outras mudam dentro.
E há aquelas que mudam a gente por dentro.

De tempo em tempo, alguém surge lá dentro.
Um outro eu — mais ranzinza, mais cansado.
Enquanto o anterior permanece ali,
em suspensão,
esperando para ver o que vai acontecer.

Ser arguido por alguém no espelho é rotina.
Um sujeito que me encara como se fosse testemunha de um crime que eu não lembro de ter cometido.
Um desaforo íntimo.
Um confronto sem plateia.
Às vezes penso: como é que eu ainda não dei um soco naquele sujeito?

Os que morreram dentro de mim não me incomodam.
O que fumava, por exemplo — já foi tarde.
Morreu no fim de 2009.
Esses eu enterrei em silêncio.
Esses descansam.

O problema são os outros.
Os que se recusam a morrer.
Os que voltam como requerentes da própria existência.
Os que batem à porta da consciência pedindo explicação.
Os que me confrontam toda vez que o espelho acende.

E a mão…
Essa mão que amanhece sem pedir licença.
Eu olho e não reconheço a pele.
Não é a pele que eu lembro.
Não tinha tantas rugas.
Não tinha tantas histórias.
Minha memória guarda uma mão lisa — de quinze, talvez vinte anos.
Não essa pele quase sexagenária que agora habito como se fosse de outro endereço.

Às vezes não parece envelhecimento.
Parece troca de identidade sem aviso prévio.
Como se eu tivesse sido atualizado sem ler os termos do contrato.

Acho que é exatamente isso:
não somos feitos de um tempo só.
Somos sobreposições.
Camadas, pessoas.
Versões em conflito.
Arquivos vivos.

E, como a cidade, a gente muda de pele sem pedir permissão à memória.
O corpo vira outro prédio.
O rosto vira fachada velha.
O olhar vira outra rua.
E a gente caminha dentro de si como quem visita um museu sem placas.

No fim, eu acho que não envelheci.
Só acordei num corpo que ainda estou aprendendo a habitar —
enquanto versões antigas de mim continuam andando alguns passos atrás,
me olhando, em silêncio,
como quem pergunta:
“foi isso que você fez com a vida que a gente sonhou?”

Paulo Siuves

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Água de bosta

Paulo Siuves

‘Água de bosta – Um conto de superação, fé e fezes’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA o Bing – 06 de fevereiro0 de 2026,
às 11:41 PM

O Gole da Vitória

Na quebrada do Córrego do Esquecido, onde o esgoto corre a céu aberto como se fosse rio batizado, nasceu a revolução.
Ali, o cheiro não era vergonha: era costume, era chão. As crianças brincavam com barquinhos de garrafa, e os adultos falavam de política como quem discute futebol, entre um balde de roupa e outro.

Tudo começou numa terça de calor brabo, quando Dona Jacira, 68 anos, tropeçou num balde de água de bosta. Caiu de boca no líquido marrom e o milagre aconteceu: teve uma visão de Jesus, de chinelo de dedo da moda, camisa de time de futebol e sotaque de subúrbio.

— “Minha filha, essa água é santa. Cura, limpa e dá ibope.”

Quando recobrou o fôlego, sentiu o gosto do mundo inteiro: um amargo de derrota misturado a um azedinho de esperança.

No dia seguinte, estava na feira, vendendo garrafinhas PET com um rótulo improvisado:

ÁGUA DE BOSTA – 100% Natural, 0% Vergonha.

A primeira cliente foi uma influencer vegana em detox digital. Fazia jejum de mídia social e só consumia o que “vibrava na frequência da Terra”.

Tomou um gole, fechou os olhos e postou no TikTok:

“É como se eu tivesse bebido a alma do Brasil.”

Em três dias, a água de bosta viralizou.

A influencer chorava em vídeos, jurando ter sentido “a presença de algo maior”. As visualizações chegaram aos milhões, e as garrafinhas de Dona Jacira começaram a sumir da feira como pão quente.

Alguns meses depois, empresários visionários (ou oportunistas) apareceram oferecendo parcerias, licenças e rótulos com design minimalista.

Nas prateleiras do Pão de Açúcar, entre a água de coco e o kombucha, lá estava ela: ÁGUA DE BOSTA – 100% Natural, 0% Vergonha.

Quase um ano depois, o milagre virou política pública.

O Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional, com jingles e comerciais de TV:

“Beba com moderação. Mas beba”.


O Mercado se Adapta

O capitalismo, com seu faro apurado para a desgraça, farejou oportunidade.

Surgiram startups da noite pro dia.

A BostaTech lançou a linha premium: “Água de Bosta com carvão ativado e colágeno vegano”. A BostaNatura S.A. criou a versão “artesanal”, coletada ao nascer do sol por catadores certificados.

A classe média alta, sempre em busca de autenticidade, comprava caixas fechadas.

— É o gosto da periferia, engarrafado — dizia um publicitário da Vila Madalena, enquanto degustava o produto num copo de cristal.

A elite intelectual aplaudia nas colunas de cultura:

“Uma metáfora líquida da brasilidade. Um grito contra o saneamento opressor.”

Enquanto isso, no Córrego do Esquecido, crianças continuavam brincando perto do esgoto. A área do cano quebrado, agora, estava interditada por uma cerca com placa nova:

“Propriedade privada. Coleta exclusiva da BostaNatura S.A.”

A lama foi cercada.
O cheiro, patenteado.
E o povo, mais uma vez, ficou do lado de fora da própria miséria.


O Herói da Lama

Foi quando surgiu Jean Merde Jr., 23 anos — nascido Juninho, rebatizado pelo marketing. Ex-vapor, ex-nada, agora CEO da própria esperança. Dizia que “empreender é se limpar por dentro” e estampava isso num boné da sua marca revolucionária: MerdaChique™. O logotipo? Uma flor de lótus brotando de um cano de esgoto.

“Jean Merde Jr.” soava internacional, sofisticado — como se a lama tivesse aprendido francês. A imprensa adorou. O tradicional programa televisivo dominical da principal emissora do país fez matéria especial: “Do esgoto às passarelas do sucesso: conheça o criador da MerdaChique”. 

Em entrevista ao canal JornalNews, ele declarou, com voz serena e sotaque ensaiado:

— “A água de bosta é mais que um produto. É identidade. É resistência líquida”.

Com a ascensão de Jean Merde Jr., a história precisou ser organizada.
Não dava mais para deixar o milagre solto, sem dono, sem narrativa oficial.

Dona Jacira passou a ser citada como “a origem simples”, “o acaso fundador”, “a senhora que tropeçou”. Seu rosto aparecia nos primeiros eslaides das palestras, sempre em preto e branco, antes que o gráfico de crescimento tomasse a tela.

Um acordo foi feito. Não houve briga, nem escândalo. Apenas documentos.
Dona Jacira recebeu um apartamento em Alphaville, um valor único pela cessão de imagem e uma cláusula de confidencialidade que lhe garantia conforto e silêncio.

Não precisava mais ir à feira.
Nem falar com jornalistas.

O milagre, agora, tinha CEO.

O sucesso foi tanto que Jean lançou sua autobiografia: Do Esgoto ao Sucesso – Como a Merda Salvou Minha Vida, um projeto aprovado por uma lei de incentivo à produção cultural, com patrocínio da marca de papel-toalha BrancoPuro™, que divulgava o livro como “um exemplo de resiliência nacional”.

O livro virou best-seller instantâneo, adotado pelo MEC no programa Leitura para Todos. Teve lançamento com coquetel vegano, sessão de autógrafos no MIS e trilha sonora composta por DJ influente da Vila Madalena. Depois vieram o documentário, a série de podcast e as palestras motivacionais com telão de LED e cachê em euro.

O Brasil aplaudia de pé — afinal, nada mais inspirador que ver a merda dar certo com incentivo fiscal e apoio de quem limpa a sujeira alheia.


O Fim da Sede

Com o tempo, o nome de Dona Jacira deixou de ser mencionado.
Não por desrespeito, mas por eficiência.

A marca não precisava mais de origem. Precisava de escala.

No apartamento amplo e silencioso, longe do cheiro do córrego, Jacira passou a acompanhar as notícias pela televisão. Viu Jean Merde Jr. discursar, sorrir, explicar o milagre com palavras limpas, neutras, pasteurizadas.

Tudo estava certo. Tudo estava melhor.
E, ainda assim, algo tinha sido retirado dela — embora ninguém soubesse dizer exatamente o quê.

Pressionado por ONGs, influenciadores e pelo lobby da indústria marrom, o governo federal lançou o programa “Água para Todos”. Agora, cada escola pública receberia mensalmente um lote de água de bosta pasteurizada.

— É nutritiva, sustentável e 100% brasileira — disse o ministro da Educação, sorrindo para as câmeras e tomando um gole em rede nacional.

 O país dividiu-se nas redes:

— É um absurdo! Água de bosta pros pobres e Perrier pros ricos!
— Deixem de mimimi! É melhor que nada!
— Eu tomo, mas a versão com colágeno. Ajuda no rejuvenescimento.

Enquanto a polêmica fervia, Dona Jacira vivia em Alphaville, cercada por vidros, jardins geométricos e um silêncio que não cheirava a nada. Tinha tudo o que lhe haviam prometido.

Às vezes, sonhava com o córrego. Não com a sujeira em si, mas com o barulho, com as vozes, com o mundo ainda em desordem.

Numa dessas noites, parou diante do espelho d’água da piscina. A superfície lisa devolvia um rosto tranquilo, bem cuidado, quase irreconhecível.

Ela suspirou, mais cansada do que triste, e murmurou:

— Saudade do tempo em que era só merda mesmo.

E o reflexo, por um instante, pareceu sorrir de volta.

Paulo Siuves

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O preço da liberdade

Paulo Siuves: Conto ‘O Preço da Liberdade’

Paulo Siuves
Paulo Siuves

Nem toda história nasce de uma ideia que insiste enquanto estamos deitados, olhando o teto. Algumas chegam de fora, quase por engano, e ficam. Este conto veio assim. Eu o encontrei já contado, mas malcuidado, atravessado pela pressa. Havia algo ali que me incomodou — e não era a história, era a forma. Então fiz o que pude: fiquei com o que pulsava e deixei o resto cair. Não sei dizer se o reescrevi ou se apenas o acompanhei até um lugar mais silencioso. Sei apenas que, ao final, ele já não me parecia novo — parecia antigo. E talvez por isso tenha ficado.

Vamos ao conto.

Um sultão ouviu dizer que havia, no mercado, uma escrava cujo preço excedia o de cem outras. Intrigado, mandou chamar o mercador responsável pela venda.

— Por que pedes tanto por uma só mulher? — perguntou. — Que qualidade justificaria tal valor?

O mercador respondeu com cuidado, escolhendo as palavras:

— Majestade, dizem que essa mulher carrega algo raro. Pensa antes de falar e fala apenas quando é necessário. Há quem diga que, ao ouvi-la, se aprende mais do que se espera.

O sultão permaneceu em silêncio por um instante.

— Traga-a — ordenou.

Quando a escrava entrou no salão, manteve o olhar baixo apenas o suficiente para cumprir o protocolo. Parou diante dele com uma dignidade incomum àquele lugar. Não havia pressa em seus gestos, nem temor visível em seu corpo.

O sultão observou-a longamente.

— Dizem que há em ti algo que não se mede com moedas — disse. — Veremos.

Fez então a proposta:

— Far-te-ei uma pergunta. Se responderes de modo que me convença, conceder-te-ei a liberdade. Caso contrário, morrerás.

Diz-me: qual é a roupa mais bonita, o perfume mais agradável, a comida mais deliciosa, a cama mais macia e o país mais bonito?

Ela permaneceu em silêncio por um instante. Não era hesitação. Era cuidado.

Depois, respondeu:

— A roupa mais bonita — disse — é aquela que preserva a dignidade de quem a veste. É como a honestidade: não se rasga, não envelhece e sempre enfeita quem se cobre com ela.

Pausou. Olhou para o sultão com firmeza e continuou:

— O perfume mais agradável é o que não anuncia quem chega, mas permanece depois que a pessoa se vai. É como o perdão, que espalha suavidade até mesmo entre inimigos.

Ela pousou a mão sobre o estômago, respirou fundo e prosseguiu:

— A comida mais deliciosa é a que se reparte, porque o sabor cresce quando há outro à mesa. Assim é a sabedoria: alimenta a alma e jamais se esgota.

Abrandou o tom da voz.

— A cama mais macia é aquela onde se dorme com a consciência em paz. Nela, o sono vem sem ser chamado e não há sobressaltos durante a noite.

Por fim, ergueu os ombros e, com o olhar firme, concluiu:

— E o país mais bonito é aquele onde um ser humano não é comprado nem vendido, onde ninguém teme dizer a verdade.

O sultão não respondeu de imediato.

— Pedi coisas que costumam ser escolhidas — disse por fim. — E tu me falaste de estados que não se escolhem com facilidade.

Levantou-se. Caminhou pelo salão. As sedas acompanhavam seus passos, e os anéis pesavam nos dedos.

— Tenho roupas raras.

Perfumes trazidos de longe.

Mesas sempre servidas.

Leitos onde o corpo descansa.

Parou diante dela.

— Ainda assim, não sei onde repousa o que mais me escapa.

Fez um gesto breve. Os guardas soltaram os grilhões.

— Vai.

A escrava inclinou levemente a cabeça e partiu. O sultão permaneceu ali, cercado de ouro, sedas e poder.

Tudo continuava em seu lugar. Ainda assim, sentiu que algo se deslocara — não nos mapas, nem nos cofres, mas em um ponto impreciso onde costumava repousar a certeza.

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O café que nunca esfria

Paulo Siuves: ‘O café que nunca esfria’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA do Gemini – 12 de dezembro de 2025, às 13:41 PM

Acordar costumava ser um ato silencioso. Aquele suspiro longo, talvez o canto de um pássaro, depois o tilintar da colher no pires lembrando que o dia existe… Hoje? Hoje, é uma avalanche de notificações. O celular começa o dia antes da gente — um maestro apressado que sacode a batuta e já nos empurra pra dentro da vida com vibrações, alertas e luzes piscando. Mal abrimos os olhos e já estamos em movimento — não físico, mas mental — navegando num mar de demandas que não deu nem tempo de pensar se queremos atender.

 O café, coitado, perdeu o protagonismo, tornando-se mero coadjuvante. Ele esfria na xícara enquanto os dedos deslizam pela tela. A música da manhã — que antes era de respiração tranquila, o borbulhar da água, o chiado da chaleira, o silêncio entre os goles — agora é substituída por uma mixtape remixada por algoritmos. Cada notificação é uma flauta desafinada. Cada mensagem, um tropeço no compasso.

 Vivemos uma sinfonia interrompida.

 A pausa, esse intervalo precioso entre um pensamento e outro, foi sequestrada sem direito a resgate. E com ela, a possibilidade de escuta ativa. Escutar o mundo, escutar o outro, escutar a si mesmo. O tempo do café, que deveria ser o tempo da contemplação, virou tempo de consumo. A gente consome tudo, notícias, imagens, ideias prontas. E, como sempre acontece quando se engole rápido demais, o sabor se perde.

 A música, metáfora que me acompanha em crônicas e poemas, também sofre. Porque a música precisa de silêncio para existir; música sem silêncio é só barulho. Sem pausa, não há ritmo. Sem escuta, não há harmonia. E o que temos hoje é uma overdose de ruído, uma apresentação solo de ansiedade em tempo real.

 O celular virou mais que ferramenta: virou maestro, palco e plateia ao mesmo tempo. Ele dita o ritmo do dia, ocupa cada brecha e exige presença constante. Ele nos desperta e nos embala para dormir. E nesse ciclo, o pensamento se torna refém. A primeira atividade cerebral do dia é desbloquear a tela. Último gesto antes de dormir, é verificar as notificações – talvez zerá-las – conferir se o mundo não explodiu enquanto a gente piscava.

 A vida virou trilha sonora de aplicativo. E o café, que nunca esfria porque nunca é bebido com atenção, transformou-se em símbolo dessa pressa que nos rouba a melodia.

 Talvez o café quente seja uma forma de resistência. Um manifesto silencioso contra a aceleração. Tomar o café com atenção é como ouvir um álbum inteiro sem pular faixas. É como ler um poema sem procurar o resumo no Google. É como viver um instante sem querer registrá-lo. É existir por um minuto sem querer provar nada pra ninguém.

 A Filosofia, que me acompanha na pós-graduação e na vida, ensina que pensar exige tempo. E tempo exige silêncio. E silêncio, ah… silêncio exige coragem. Coragem de não responder imediatamente. Coragem de deixar o celular vibrar sem atender. Coragem de ouvir o próprio compasso.

 No fim, talvez a pergunta seja simples: quantas melodias deixamos de ouvir por causa da pressa? Quantos cafés foram bebidos sem serem saboreados? Quantos pensamentos foram interrompidos por uma tela acesa?

 A resposta não está no celular.

Ela mora na pausa.

No gole de café quente.

Está na música que ainda podemos compor, se tivermos coragem de calar um pouco o mundo para finalmente nos ouvir.

Paulo Siuves

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Entre o meu amor que celebra e o meu país que chora

Paulo Siuves

‘Entre o meu amor que celebra e o meu país que chora’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
magem criada por IA da GEmini - 05 de dezembro de 2025, às 14:10 PM
Imagem criada por IA da GEmini – 05 de dezembro de 2025,
às 14:10 PM

No primeiro dia de dezembro, minha casa acorda com uma alegria que não precisa de aviso nem preparo. É o aniversário da minha esposa. Desde que Delaine chegou, essa data acende uma luz diferente no nosso cotidiano, como se o dia viesse embalado em delicadeza própria. Ela sempre desperta achando que algo bom vai acontecer; e eu, mesmo sem prometer nada, quase sempre deixo acontecer.

 No dia seguinte, é a vez do aniversário da minha filha. E essa coincidência, que o calendário poderia ter distribuído de forma banal, virou um laço bonito entre elas. Já improvisamos mesas às pressas, comemoramos em dobro, rimos misturado, acendemos velas de aniversário que pareciam iluminar o mesmo sopro de alegria. Não foi o tempo que construiu isso. Foi a convivência. Foi a escolha. Foram os gestos que se reconhecem.

 Delaine entrou na vida das minhas filhas como quem chega com a alma aberta. Nunca quis ocupar o lugar de ninguém, nunca desejou disputar sombra nem afeto. Disse, desde o início, que não seria a madrasta má das histórias, que seria uma presença honesta. Alguém que acompanha, que orienta, que partilha. E Kenya e Kelly a acolheram com amizade verdadeira. Ver esse vínculo crescer é um privilégio silencioso. Há beleza em testemunhar três mulheres que não precisavam, mas escolheram construir cuidado.

 Tenho meus modos próprios de celebrar. Não gosto de um amor que vire protocolo, nem de transformar afeto em checklist anual. Mas Delaine sempre espera o café da manhã na cama. Às vezes eu levo, às vezes surpreendo de outro jeito. E essa espera diz mais sobre nós do que qualquer gesto planejado. Entre filhos, netos e a ausência que 2019 me deixou quando perdi minha mãe, minha família é tudo o que eu tenho. Tudo o que eu sou.

 Talvez por isso os acontecimentos desta semana tenham me atravessado com tanta força.

 Como compreender que uma simples linha de anzol seja suficiente para um homem atirar a própria esposa aos tubarões? E pior: como entender que ele faça isso duas vezes? Como aceitar que alguém arraste uma mulher pela Marginal Tietê como se ela fosse objeto? Ou que um influenciador, conhecido por ensinar ‘postura’, seja preso por agredir justamente a mulher com quem divide a casa?

 O que me assusta não é apenas a violência em si, mas a banalidade que a antecede. A rapidez com que a frustração vira ódio. A facilidade com que um cotidiano se transforma em risco. O instante em que um parceiro se converte em algoz. O amor que prometeu cuidar é o mesmo que tenta destruir. Não há lógica que dê conta disso. Não consigo imaginar nenhuma das mulheres da minha vida passando por algo semelhante. Só de supor, o pensamento se torna insuportável, porque ele dói antes mesmo de existir.

 Enquanto celebramos aniversários aqui em casa, os números do país contam outra história. Crescem as perseguições, a violência psicológica, as ameaças que antecedem o feminicídio. São estatísticas que parecem frias, mas ali estão registradas as horas que antecedem o tapa, o silêncio que precede o grito e o medo que anuncia o fim.

 E talvez seja exatamente aqui que os dois mundos se cruzem: o íntimo e o social.

 Porque amar as mulheres da minha família me obriga a olhar também para as que não têm quem as ampare, para as que convivem com o perigo dentro de casa e para as que talvez nem alcancem o próximo aniversário. Ser homem, para mim, nunca foi sinônimo de força física; é sinônimo de responsabilidade. Responsabilidade de não tolerar machismo, de não normalizar insultos, de criar filhos decentes, de apoiar autonomia e independência feminina. Proteção não é posse. É permitir que cada mulher caminhe com liberdade.

 No próximo ano, quando eu preparar o café da manhã para Delaine, seja na cama ou não, vou saber que o gesto carrega outra intenção. Não apenas celebrar sua vida, mas reafirmar que cada vida feminina merece continuidade. Em um país onde tantas mulheres não chegam ao dia seguinte, cada aniversário que comemoramos é também um manifesto silencioso. Que nenhuma mulher precise sobreviver para merecer o próprio amanhã. Porque, no fim das contas, garantir que ela amanheça viva é o mínimo que um país decente deveria entregar.

Paulo Siuves

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