O estranho, fantástico entre nós

PSICANÁLISE & COTIDIANO

Bruna Rosalem:

‘O estranho, fantástico entre nós: a arte de narrar a vida por olhares impensáveis’

Bruna Rosalem
Bruna Rosalem
Imagem do saite do www.gettyimages.com.br

O cinema não tem fronteiras, nem limites. É um fluxo constante de sonhos.”
Orson Welles

É realmente incrível como o cinema consegue transmitir/expressar de maneiras tão diversas e, por vezes, curiosamente inusitadas, a partir de óticas incomuns, assuntos que participam das esferas social e cultural, trazendo dilemas cotidianos, dramas familiares e temáticas delicadas como doença, luto e morte.

Vivenciar essas experiências através de histórias absurdas e até impossíveis exige do espectador certa capacidade de suspensão de descrença, termo popularizado em 1817 pelo poeta e filósofo Samuel Taylor Coleridge. Isto é, para infiltrar-se na realidade ficcional é necessário aceitar as premissas da obra, mesmo que elas sejam contraditórias, improváveis, bizarras, excêntricas ou mirabolantes. É apostar em um caminho provável que permite ao espectador habitar a obra da mesma forma que ela participa do mundo compartilhado. Ao mesmo tempo em que se mergulha numa história contada por um viés diferente, esta integra e denuncia a complexidade do sujeito. Por estas e outras razões, é que somos tomados por uma sensação estranha/familiar, controversa, de saber que tal dilema ou drama existe, porém é retratado de modo estapafúrdio ou inquietante.

Falarei de algumas obras para trabalhar essa ideia. 

Começando por um longa australiano de terror bastante elogiado, ‘Bring Her Back’ (2025), ‘Faça ela voltar’. A premissa gira em torno da adoção de dois meio-irmãos por uma mulher que trabalha com acolhimento de crianças em situação de vulnerabilidade. Acompanhamos a adaptação destes irmãos na nova casa, onde lá também vive um menino que apresenta comportamentos bastante estranhos. Estes irmãos estão passando por um doloroso luto pela morte de seu pai, tentando adaptar-se à realidade que se apresenta. Acontece que a mãe adotiva também vive seu luto: sua filha morre acidentalmente na piscina. A mulher é tomada por um sentimento devastador de culpa e não há nada que a faça aceitar este terrível desfecho para sua amada filha. 

Apesar de o filme ser aterrorizante, com cenas gráficas de violência, apelando para o gore, muitas vezes, a história tem como plano de fundo a dor como narrativa. Um luto não trabalhado de uma mãe que sofre e definha gradativamente. A parte intrigante: ela congela a filha para realizar um ritual envolvendo sacrifício de outras crianças com o intuito de trazê-la de volta ao seu convívio. Embarcamos então em sentimentos conflituosos: nos compadecemos com sua dor, porém queremos salvar as crianças do ritual macabro.

Outra obra de terror e suspense com semelhante temática é o curioso longa escocês ‘A Dark Song’ (2016), ‘Vozes da Escuridão’. Aqui há também a perda de um filho de forma bastante dramática: ele é raptado por um grupo de adolescentes que fazem uma espécie de aposta, porém as coisas tomam outras proporções, e a criança acaba falecendo. A mãe desesperada, procura por um ocultista com o objetivo de trazê-lo de volta. Ela aluga uma casa bastante afastada da cidade grande, onde os dois passam meses confinados executando os ritos, sentenças e atividades requeridas para que o ritual possa se concretizar.

A trama retrata o sofrimento da mãe que além de ser corroída pela culpa, também se vê completamente impotente diante daqueles adolescentes que sequestraram seu filho. Conforme ambos se dedicam ao cansativo ritual, uma verdade é revelada: a mulher mentiu para o ocultista. Ela não busca o retorno do filho, mas vingança para os seus algozes. A partir disso, o filme ganha outros contornos, a tensão aumenta e o espectador embarca junto nesta angustiante mudança de direção que impacta o próprio ritual. 

Mais uma vez temos a temática do luto, da não aceitação, do sofrimento pela perda de um ente querido e o sentimento de vingança tão presente em todos nós. Este último, nem sempre passamos ao ato, porém permanece em nosso imaginário.

‘The Surrender’ (2025), algo como ‘A Rendição’, outro suspense bem avaliado e comentado pelo público, tem em sua premissa relações conflitantes entre mãe e filha. De opiniões muito diferentes uma da outra com relação à família, escolhas de vida, visão de mundo e a morte do patriarca, ela acabam parceiras em um projeto nada convencional: realizar um ritual para trazer o pai/marido de volta. Embora mais uma vez há um ritual presente, temos na trama diálogos bastante marcados entre mãe e filha que por vezes resgatam trechos da história de cada uma. São acusações de abandono, renúncia da vida familiar em busca de outros caminhos, uma vida dedicada em grande parte à doença do marido em detrimento de mais atenção à filha, cobranças de ambas por mais amor e afeto, além de ressentimentos que deixaram feridas ao longo dos anos. 

O conflito entre elas fica ainda mais intenso quando a mãe revela que para contratar um famoso ocultista, ela investe todas as suas reservas financeiras, inclusive a casa. Acompanhamos de um lado, a esposa totalmente perdida, desbussolada, que se vê sem propósitos para continuar vivendo sem o marido, sem fazer papel de esposa, negando a iminente solidão. De outro lado, uma filha dividida entre atender ao pedido da mãe em fazer o ritual juntas, unidas por uma causa ‘nobre’ compadecendo-se com sua dor e desespero, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a absurda decisão de entregar os bens da família em troca de ter o pai de volta. Um drama muito interessante envolto numa atmosfera obscura sobrenatural. O que pesa mais: renunciar aos bens para ter o pai ou aceitar sua morte?

Os próximos dois filmes a seguir têm a temática maternidade como ponto de partida.

‘Lamb’ (2021) é uma produção do tipo folk horror bem peculiar. Trata-se de um casal que na ânsia de ter um filho a qualquer custo passa a cuidar de uma criatura metade humana, metade ovelha. 

A mulher, quando a vê, logo nutre seu lado maternal, inclusive ajudando-a no parto. Ela faz de tudo para afastar sua real mãe, uma ovelha que permanece por dias em sua janela chamando seu bebê de volta. Enfurecida, a mulher mata a ovelha. Mais tarde, ela mostra à criança, já crescida, onde sua mãe biológica está enterrada. Mentiu a ela dizendo que morreu por causas naturais. 

Interessante um ponto do filme em que a presença do cunhado, irmão do marido, tenta colocar em xeque o que parecia ser um delírio a dois em chamar de filho aquela estranha criatura. Porém suas investidas não têm sucesso, e o casal continua a protagonizar a família perfeita. Depois de um tempo, a natureza cobra seu preço: o verdadeiro genitor aparece, ele metade homem, metade ovelha. Para vingar a morte da mãe, mata o marido, toma seu filho, deixando a mulher desolada e isolada nos confins das terras remotas islandesas em companhia de um silêncio ensurdecedor.

Para finalizar, temos um longa-metragem tcheco pouco conhecido pelo público em geral, ‘Little Otik’ (2000), também chamado por ‘Greedy Guts’. Talvez a mais estranha premissa até o momento: um casal com problemas de fertilidade passa a cuidar de um graveto como se fosse um bebê. O filme mistura comédia e drama numa atmosfera surrealista, bastante improvável. Há momentos em que tudo parece não passar de um surto ou alucinações de ambos personagens.

O filme é baseado em um conto de fadas ‘às avessas’. Se nos contos tradicionais lobos, ogros e bruxas ameaçam devorar crianças, o graveto criado como ente da família cresce demasiadamente, formando longos troncos fortes e raízes protuberantes e passa a querer devorar seus pais. Além de trabalhar a questão de uma maternidade paranoica levada até as últimas consequências, ‘Little Otik’ também assume a crítica à sociedade do consumo, à regressão infantil focada na oralidade onde objetos assumem dimensões fetichistas e mágicas com vistas a tamponar (o que é impossível) as frustrações.

A ideia deste texto foi apresentar outros modos de contar a vida através da linguagem do cinema. A experiência na tela nos faz mover na história como nos movimentamos no mundo e nos convoca a exercitar ‘pontos fora da curva’. As produções cinematográficas nos mostram como é possível trabalhar aquilo que é mais familiar nos dramas da vida narradas em diferentes cartelas, propostas, possibilitando aberturas para novas ancoragens na realidade, novas perspectivas, novos olhares e atravessamentos. É permitir-se embarcar nas entranhas do estranho.

Bruna Rosalem

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Um último suspiro na Golden Gate Bridge

COLUNA  PSICANÁLISE E COTIDIANO

Bruna Rosalem: ‘Um último suspiro na Golden Gate Bridge’

Bruna Rosalem
Bruna Rosalem
Golden Gate Bridge - Imagem de domínio público
Golden Gate Bridge – Imagem de Domínio Público (www.publicdomainpictures.net)

Socorro, alguma alma, mesmo que penada.
Me empreste suas penas.
Já não sinto amor nem dor,
Já não sinto nada.

Socorro, alguém que me dê um coração, 
Que esse já não bate nem apanha.
Por favor, uma emoção pequena, 
Qualquer coisa.

Composição de Alice Ruiz, cantada por Arnaldo Antunes – Socorro/1998, Álbum ‘Um som’

Por indicação de um cinéfilo que admiro muito, resolvi assistir ao documentário americano A Ponte’ (The Bridge). É uma produção de 2006 dirigida por Eric Steel que retrata ao longo do ano de 2004, filmagens posicionadas em dois pontos ocultos diferentes da ponte Golden Gate em São Francisco, Califórnia, nos Estados Unidos, de pessoas das mais diversas idades, gêneros, etnias, culturas, classes sociais, que decidiram tirar suas vidas naquele lugar, mais do que em qualquer outro lugar do mundo. São dados realmente alarmantes: naquele ano, mais de 24 suicídios puderam ser registrados.

Além das terríveis e desoladoras cenas das pessoas se jogando da ponte, a equipe de produção gravou várias entrevistas com amigos, familiares e testemunhas tentando dar alguma explicação sobre as possíveis motivações que levaram seus entes queridos a desistir da vida. São histórias que perpassam por depressão, abuso de substâncias e transtornos mentais. 

A fala das pessoas próximas aos que cometeram suicídio parece expressar um grande e avassalador ponto de interrogação, pois jamais se saberá ao certo que fator ou fatores determinantes fizeram aqueles sujeitos não conseguirem vislumbrar nenhum tipo de saída para seus tormentos que não fosse a morte. Ainda mais triste é carregar sentimentos de culpa, remorso, impotência diante do que parecia ser inevitável. Os testemunhos que acompanhamos no documentário doem tanto quanto assistir ao momento do salto fatal. É angustiante pensar na vida dos familiares e amigos que muito pouco ou nada puderam fazer para impedir um fim tão trágico. Não importa quantos anos se passem, a pergunta sempre ecoa: Por que ele (a) não era feliz? Outras questões também surgem: O que fizemos para ele (a)? Onde erramos? Por que não vimos sinais? Por que não o (a) salvamos? São indagações que permanecem sem respostas.

Na época, o documentário provocou muita ira e indignação entre o público em geral, pois o diretor Eric Steel foi acusado de sensacionalismo por expor de forma tão crua um tema extremamente sensível. Polêmicas à parte, fato é que testemunhar pessoas se jogando da ponte, sem efeitos de borrões ou cortes, é realmente difícil de ver. Chega a ser indigesto. A vontade é de sair correndo e impedir o ato. Como espectadora, além da sensação incômoda de assistir uma pessoa real se jogar, pois você sabe que não é um ator ou atriz, nada foi possível fazer. A única coisa que resta é a reflexão sobre as muitas significações sobre vida e a morte. 

Uma pessoa em especial me marcou demais: um senhor vestido com roupas confortáveis como se tivesse saído para caminhar numa linda manhã de sol. Vestia bermuda e camiseta, tênis, boné e óculos de sol. O clima era ameno e havia uma brisa refrescante. Ele se aproximou da ponte sem nenhuma cerimônia, olhou rapidamente para baixo, transpassou as pernas para o lado de fora e, como num ato simples e trivial, deixou seu corpo cair. Seu boné e óculos voaram no ar. Confesso que esta imagem perdurou por dias em minha mente.

Depois dessa experiência, permanece o convite a revisitar as razões que te faz viver, o que te fortalece, o que te mobiliza, o que, no fundo, te faz vencer a morte.

Certa vez escutei de uma paciente que lidava com a morte de perto, dizia ela, pois trabalhou por muitos anos em Unidade de Tratamento Intensivo, as conhecidas UTI´s. Afirmava com veemência: “Eu fazia de tudo para salvar uma pessoa! Queria o suspiro de vida! Aí sim eu me sentia bem. Porém, logo depois me perguntava: por que esta pessoa quer tanto viver?”.

Se pensarmos, é realmente uma questão pertinente. Deixo o convite à reflexão em aberto.

Bruna Rosalem

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Pensar os excessos

PSICANÁLISE E COTIDIANO

Bruna Rosalem: Artigo ‘Pensar os excessos’

Bruna Rosalem
Bruna Rosalem
Imagem criada por IA da Meta - 1º de setembro de 2025, às 11:03 PM
Imagem criada por IA da Meta – 1º de setembro de 2025, às 11:03 PM

Todo excesso traz, em si, o germe da autodestruição.”
(Aldous Huxley)

Excesso de sentido. Isso te faz sentido? 

É fato que muitas vezes no percurso da vida nos deparamos com alguns entraves que nos faz questionar ou rever nossas próprias escolhas: carreira profissional, casamento, ter ou não filhos, divórcio, mudança de cidade, estado ou país, seguir outra área profissional completamente diferente daquilo que exercia, começar ou encerrar um negócio próprio, investir em novos conhecimentos, abandonar hábitos, trilhar outros caminhos.

Nesta seara de escolhas e muitas dúvidas, é comum que busquemos algo que nos faça sentido. Mas será que justamente não é neste ponto que reside o problema? A obrigatoriedade de fazer algo que traga a certeza do sentido? De estar no caminho certo? De finalmente ‘acertar na vida’?

Estes questionamentos acabam sendo muito ricos em termos de escuta terapêutica. Ao fazer o sujeito se escutar de suas indagações e dessa busca neurótica, quase que paranoica, por construir algo que o coloque sempre em posições seguras diante das inúmeras contingências da vida, chega uma hora que todo esse ‘controle’, ilusoriamente pensado, escapa, perde o tal sentido e o sujeito se vê sem rumo.

Uma escuta mais atenta de si pode abrir caminhos para possibilidades de desconstrução de sentidos. E isso nem de longe é tarefa fácil. É um exercício bastante árduo que convoca o sujeito a revisitar crenças, conceitos, mandamentos, culturas que até então eram seus alicerces. É um convite desafiador que busca estremecer essas bases, questionando uma a uma.

Leva tempo, exige muito desejo, esforço e paciência. E o mais complicado é que vivemos em tempos de pressa, resultados instantâneos, alta performance, hiperatividade nas conexões, relações líquidas e a promessa constante de uma vida plenamente feliz. Será que haveria espaço para lançar-se a este desafio que pode ser tão enriquecedor? 

A obra do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, intitulada ‘Sociedade do Cansaço’, discute questões como a corrida pela alta performance, a realização concomitante de várias atividades em um curto período de tempo, a dificuldade de contemplação, afinal é preciso agir imediatamente de maneira performática e sempre eficaz em diversos ramos da vida seja trabalho, esporte, arte, mercado financeiro, acadêmico, amoroso. Praticamente não há espaço para reflexões ou criações, apenas positividade e produção a qualquer custo. 

Como consequência, Byung-Chul Han retrata uma sociedade cansada deste ritmo, porém longe de pensar outras possibilidades para mudar isso, pois o que importa é o acúmulo de bens e ‘coisas a fazer’ e não mais a experiência. Pessoas se tornam carrascas de si mesmas, incorporando cobranças incessantes, um ideal de eu imperativo e inalcançável. Temos então uma sociedade depressiva, transtornada, constantemente inconformada, insuficiente, hiperativa e doente.

Isso tudo em cena é elevado à quinta potência pela rapidez de informações por segundo disseminadas pelas redes sociais. Acompanhamos atualmente uma avalanche de pessoas que levam a vida postando conteúdos infindáveis sobre possíveis ganhos vindos de fontes duvidosas, desfilando em carros luxuosos, habitando casas que valem milhões, além de viagens e itens de luxo dos mais variados desde bolsas, sapatos, relógios, vestimentas, até verdadeiros festins comestíveis, entre outros frenesis a preços exorbitantes.

São promessas de lucro fácil e rápido, muitas vezes em esquemas de apostas ou ‘pirâmides’, entre diversas outras formas de sedução para que o consumidor deste tipo de conteúdo seja bem-sucedido, ‘zere a vida’ e passe a ser visto como vencedor. Byung-Chul Han coloca que estamos infartando nossas almas imersos neste gozo ilimitado rumo a possíveis tragédias e desolação.

Convido a repensar o excesso! Desde o excesso de itens materiais que julgamos necessário ter até o excesso de sentido na vida. Pensando com o filósofo, realmente é muita coisa ao mesmo tempo para digerir. Inevitavelmente, todo excesso deixa resto, sobra, descarte e então, todo este material retorna ao corpo em forma de ansiedade, sofrimento, perturbação, aflição, desespero.

Dizia Nietzsche: “temos a arte para não morrer de verdade”. É possível também pensar: temos a arte para não nos afogar nos excessos. A arte nos dá respiro, alívio, pausa. 

Nesse passo, temos o belíssimo filme de Wim Wenders, ‘Dias Perfeitos’, lançado em 2023, que nos convoca a refletir. Na obra, acompanhamos Hirayama, um zelador de banheiros públicos em Tóquio que leva uma vida simples, pacata, porém apaixonantemente marcada pelos seus gostos musicais, por admirar as árvores e paisagens pelo caminho onde ele faz questão de registrar em lindas fotografias reveladas e armazenadas cuidadosamente, além de toda noite desfrutar da companhia de boas literaturas. Na hora das refeições, parece saborear cada gosto, aroma, textura, cor. Hirayama nos ensina a apreciar o momento de cada atividade que se propõe a fazer sem ser atravessado por quaisquer outras distrações.

O zelador têm sim seus dramas, suas tristezas, principalmente com relação aos familiares, seus momentos de solitude, no entanto, parece ter encontrado novas maneiras de lidar com as dificuldades sem necessariamente perseguir um ideal. Na contramão da corrida pelo sucesso, fama e evidência, Hirayama fica com a serenidade de ser quem é. 

Difícil bancar algo assim? Muito! Pois a sedução dos excessos que nos soterra a alma é forte. Mas chega um momento que é preciso subir à tona e respirar para não perecer de vez.

Bruna Rosalen

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Tempo de não permanência

PSICANÁLISE E COTIDIANO

Bruna Rosalem: ‘Tempo de não permanência’

Bruna Rosalem
Bruna Rosalem
" A vida acontece, ela não para. Mas ela exige que seja sentida!"
Imagem criada por IA do Bing - 30 de junho de 2025, às 23:26 PM
” A vida acontece, ela não para. Mas ela exige que seja sentida!”
Imagem criada por IA do Bing – 30 de junho de 2025, às 23:26 PM

Não se pode criar experiência, é preciso passar por ela.
Albert Camus

Em um mundo em que as informações estão tão atropeladas, imediatistas, palavras rápidas no julgamento de pessoas e situações altamente conclusivas, superficiais, chegando como uma avalanche que atravessa nosso cotidiano, minuto a minuto, impulsionado pela velocidade e amplitude que as redes sociais alcançam, ao simples deslizar de dedo na tela, passando de notícia em notícia, eventos, ocorrências, agenda cultural para o final de semana, cotação do dólar, o destino de viagem do momento, ou ainda, notícias de guerras em outros países, desastres, acidentes, mortes e assassinatos, isso tudo em fração de segundos, diante dos olhos, o que então permanece? Apenas fragmentos, restos, resquícios completamente esquecíveis, descartáveis. Não há tempo e espaço  para que algo se torne uma experiência marcante, sentida, significada.

Este ritmo frenético colocado em cena nos permite refletir sobre a dificuldade dos tempos atuais com relação à duração de algo que nos atravessa e faz efeito, marca, move, transforma. E para que isso aconteça é necessário voltar a sentir, pensar, meditar na preciosidade das palavras e suas significações e entregar-se à observação, contemplar, imaginar, divagar. Nem que seja por algumas horas, deixar de filmar, postar, repostar, curtir, compartilhar e comentar. 

A intenção aqui não é ditar como as coisas deveriam ser, mas propor que não percamos a capacidade que temos de inferir significado às experiências e ser transformados por ela. Mesmo passageiras, o importante é apontar para que o fica impresso e elaborar sobre isso.

Afinal, tudo o que vemos neste mundo não perdura, é finito. Porém, a sensação que se tem é de que o tempo de permanência parece estar mais encurtado do que nunca, e isso pode afetar nossa inscrição de maneira subjetiva na narrativa de nossa história enquanto segmentação passado/presente/futuro como pressuposto de existência e continuidade do ser.

Somos seres feitos de encontros, perdas, memórias. De experiências, vivências boas e ruins, que podem nos ensinar a cada ciclo. Muitas vezes é fazer da dor uma nova maneira de enxergar as coisas e as relações ao redor. O sujeito precisa sofrer. Não transpassar, não saltar, não fugir do que gera sofrimento, mas tentar tornar o tormento passageiro em aprendizagem.

Freud escreveu certa vez sobre a ideia de transitoriedade (1916). Enquanto dialogava com um poeta, este dizia estar triste pela constatação de que toda a exuberância da paisagem natural que observava, assim como toda a beleza criada pelos humanos, estaria fadada à extinção, à finitude. Continua ele, diz que tudo aquilo que um dia foi amado e admirado ao longo de sua vida parecia-lhe desprovido de valor por estar fadado à transitoriedade.

Freud contesta esta afirmação colocando que justamente pelas coisas não serem eternas é que as fazem privilegiadas. Atribuímos mais valor àquilo que um dia deixará de existir. Por serem efêmeros, os objetos e as relações objetais que estabelecemos durante a complexa jornada da existência, podem se tornar valiosos. É, muitas vezes, na contingência que reside o belo, o surpreendente, o admirável. Freud nos traz a relação da transitoriedade com a escassez do tempo onde a possibilidade do fim eleva o valor da fruição. 

Diante desta passagem, é possível dizer que para atribuir realmente valor de experiência e fruição é necessário que exista, mesmo que ilusória, a ideia de permanência para que isto marque, imprima e gere efeitos de significação. Então, será que a ideia de transitoriedade defendida por Freud e contestada pelo poeta se aplicaria na contemporaneidade? 

Será que há espaços de vivência, de entrega, de experimentação, de sentir na carne e na alma? Para residir o belo, o surpreendente e o admirável assim apontado por Freud durante o percurso da vida, trazendo para os tempos atuais, será necessário refletir sobre a maneira como construímos nossas relações com o outro, com as coisas, com a natureza?

Afinal, retomando ao início deste texto, o que de fato está permanecendo em nós? Estamos vivendo apenas de dejetos espalhados por onde passamos? Ou apenas replicando o que escutamos? Imitando fazeres? Vomitando palavras vazias? Expurgando? Medicando-se em demasia para esquecer, soterrar, ‘desmemorizar’ nossos processos de luto, frustrações e decepções? 

A questão que se coloca é: o que estamos fazendo com nossa existência para que ela seja valiosa, valorosa? 

Fernando Pessoa nos diz:

           Eu amo tudo o que foi,
          Tudo o que já não é,
          A dor que já me não dói,
          A antiga e errônea fé,
          O ontem que dor deixou,
          O que deixou alegria

           Só porque foi, e voou
          E hoje é já outro dia. 

O tempo passa, outro dia chega, o sol é sempre pontual e a lua inaugura mais uma noite.  A vida acontece, ela não para. Mas ela exige que seja sentida! 

Bruna Rosalem

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A febre reborn

PSICANÁLISE E COTIDIANO

Bruna Rosalem: Artigo ‘A febre reborn’

Bruna Rosalem
Bruna Rosalem
Bebês reborn
Imagem criada por IA do Bing – 15 de maio de 2025,
às 23:45 PM

“A vida é uma grande ilusão! Só sei que ela está com a razão!”
Vinícius de Moraes

Consultas médicas, guarda compartilhada, encontros de mães de bebês reborn para compartilhar experiências de maternagem, festas de aniversário, vídeos ‘instagramáveis’ contando a rotina de cuidados dessas mães um tanto diferentes que optaram por comprar seus filhos numa loja. À primeira vista, parece ser algo relacionado a colecionismo, como carros ou personagens de filmes, séries, videogames, entre outros, porém o que estamos acompanhando, principalmente nas redes sociais, é uma expressiva mudança de comportamento no relacionamento das pessoas com estes objetos.

É possível que esta prática esteja indo além de simples colecionismo ou passatempo, gerando estranhamentos e certas polêmicas. Não é de hoje que os bebês hiper-realistas existem, porém, tempos atrás, ter um boneco ou boneca deste tipo era mais voltado ao público infantil, além do custo alto, o item não era de tão fácil acesso.

Atualmente, mulheres são as principais consumidoras dos bebês que passam a cuidar da criança como se fosse um verdadeiro filho: trocam fralda, dão banho, o alimentam com as mamadeiras cuidadosamente preparadas, organizam um quarto especial com roupas, acessórios, brinquedos, cama, o levam à consulta médica para checar sua saúde, pesagem. Também há passeios pelas ruas, levam o bebê ao parque, ao supermercado, enfim, criam uma rotina diária semelhante a de uma criança humana, viva, de verdade.

A questão disso tudo é: até que ponto um inofensivo passatempo pode extrapolar para uma prática
defendida como realidade?

O interessante é pensar o quão solitária é a relação entre a mãe e o bebê de silicone, que incapaz de
emitir qualquer tipo de som, nem um mero gemido, ou um movimento sequer, jaz num silêncio profundo.

Sem contar com aquele olhar paralisado, morto, sem vida, opaco. Imagine esta situação em um quarto
decorado, o quão ensurdecedor pode ser a ausência de um choro, de um mexer de pernas e braços, de um brincar com móbiles e ursos de pelúcia. A mulher que embala a criança é a única voz ativa da relação. A mesma que faz perguntas ao bebê, responde.

Neste meandro, há questões pertinentes a serem levantadas: os bebês falsamente enrugados seriam
bonecos de apoio para questões emocionais destas mulheres ou são alavancas midiáticas para chamar a
atenção das pessoas como mais uma mera prática ‘viralizável’, dentre tantas que já existem, com o
objetivo de lucrar e se tornar uma figura famosa? Seria o mais do mesmo ou realmente um movimento de mulheres que buscam novas roupagens para a maternidade? Ou para o que é ser mãe?

A discussão tem tomado vários espaços na sociedade e recentemente vereadores do Rio de Janeiro
aprovaram um projeto de lei que institui o ‘Dia da Cegonha Reborn’, que segue aguardando sanção da
prefeitura. Já em Minas Gerais, cogita-se um projeto de lei proibindo o atendimento de bebês reborn no
sistema único de saúde, o SUS.

Nas ruas, a polêmica continua quando as mães dos bebês de silicone decidem passear com suas
crias em carrinhos ou segurando-os no colo. Muitas mulheres alegam serem chamadas de loucas ou
desocupadas. Outras, gostam mesmo é da atenção que recebem e aproveitam para divulgar a ‘arte reborn’.

Fato é que, uma coisa é cuidar do bebê como algo prazeroso que remete a um lazer, uma forma de
distração, de passar o tempo, ou ainda, o próprio ato de colecionar os bonecos que têm preços elevados, pois são confeccionados sob encomenda, feitos um a um pelas chamadas ‘cegonhas’, as artesãs responsáveis pela fabricação. Outra coisa diametralmente diferente é acreditar que o bebê é real, com demandas de cuidados reais, assim como um ser vivo. Seria então o caso da família buscar ajuda profissional quando a relação ultrapassa o ‘faz de conta’.

Antes de formar opinião e nos alarmar com as notícias, cabe escutar e analisar cada caso. Afinal,
fantasiar é algo bem saudável e faz parte de nossa capacidade imaginativa. Já, ir, além disso, poderia ser
um sinal de alerta.

De todo modo, são realidades muito diferentes que nos evoca à reflexão para a escuta destes novos
sintomas e maneiras de ser e estar no mundo contemporâneo. Estranho ou não, fica aberto o convite ao
debate.


Bruna Rosalem

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A droga e a fuga

PSICANÁLISE E COTIDIANO

Bruna Rosalem: Artigo ‘A droga e a fuga’

Bruna Rosalem
Bruna Rosalem
Imagem criada pór IA no Bing – 31 de março de 2025, às 14:09 PM

É verdade: fugir é o maior dos prazeres.”
(Virgínia Woolf)

Desde os primórdios do surgimento da humanidade, o sujeito se interessa por substâncias que alteram a capacidade de raciocínio, humor, visão das coisas, adentrando numa espécie de mundo fictício, repleto de imagens distorcidas da realidade, seres fantasmagóricos, monstros, cenários absurdos ora acalentadores, ora amedrontadores que entorpece o sujeito seja mediante rituais ou pela mística que envolve o uso de tais substâncias. Drogas, diria.

Ou seja, parece que desde sempre na história conhecida e compartilhada, temos a capacidade de provocar situações ao ingerir substâncias psicoativas que buscam nos retirar da bruta e seca realidade com todas as suas dificuldades, limites e burocracias para alcançar outro estado espiritual ou carnal mesmo, que nos leve a outro lugar com novas sensações e sentimentos. Mesmo que isso dure pouco tempo, a experiência continua sendo bastante atrativa até hoje. Inclusive acompanhamos a criação de novas substâncias ainda mais poderosas que proporcionam um estado de êxtase cada vez mais prolongado e prazeroso.

Na mitologia, encontramos Baco, o deus do vinho, ou ainda, o néctar, a bebida dos deuses que exercia um poder embriagador. Apesar dos atos compulsivos relacionados às drogas já se manifestarem, e os que a estes atos se entregavam serem considerados errantes, sem rumo, loucos ou degenerados, o seu uso ponderado visava o gozo, a realização de algo desejado, mas impedido por alguma razão, deleite, satisfação, torpor, felicidade.

O fato de introduzir, injetar ou inalar substâncias com características que provocam no sujeito alterações que o retire de um estado normal e o coloque num estado ‘fantasístico’, nos remete a ideia de que dificilmente é possível suportar o mundo como ele é e os laços sociais que nós mesmos construímos. Baudelaire (1821-1867), ensaísta, tradutor, poeta e crítico de arte francês, dedica um livro a falar de substâncias tóxicas e seus efeitos ‘mágicos’ e riscos. Intitulado ‘Paraísos Artificiais’ de 1860, o escritor francês aborda o haxixe, o ópio e o vinho como produtores de verdadeiros prazeres ou infernos artificiais, além de denunciar os encantos e desencantos das substâncias na vida das pessoas que as consomem.

A prática de consumir produtos que alteram nossa percepção e humor nos deixando relaxados, quase que sedados para a realidade, surge na contemporaneidade de forma exponencial e passa a ser a causa de inúmeros adoecimentos que impactam sobremaneira na qualidade de vida, nos afazeres cotidianos, nos projetos pessoais a médio e longo prazo e nas relações sociais. Além de deixar o sujeito, em quadros mais graves, mergulhado num mundo alheio completamente diferente do compartilhado, deixando-o à margem dos laços sociais sem possibilidades reais de volta. Um vagar sem destino, controle e noção do tempo e do espaço.

A ‘substância prometida’ que outrora trazia uma sensação única e abrupta de bem-estar e felicidade, também carrega consigo uma consequência reversa daquilo que prometera: de um estado anestésico contemplativo e maroto para uma avassaladora sensação de ‘fundo do poço’, onde não há alegrias, esperança, prazer. O efeito da droga leva rapidamente o sujeito às alturas na mesma proporção que o enterra de vez. Paga-se caro por tão pouco. Mesmo assim, conquistar alguns minutos de ‘viagem’ para bem longe deste mundo parece ser um grande motivo que ainda faz o humano desejar tão fortemente este produto, chegando a matar ou ser morto por ele.

É uma guerra sem fim. Interesses por todos os lados, seja para uso pessoal, pequenos ou grandes grupos, até cidades, estados e países. Conflitos armados, disputas pelas melhores fronteiras, embates por controle de territórios, estratégias, recursos e planejamento para que a droga alcance diversos lugares de modo mais acessível possível. A substância traça seu caminho e até chegar ao seu destino vai deixando rastros de morte e destruição.

A droga parece ser uma fuga do sofrimento humano que, querendo ou não, faz parte do percurso da vida. Foge-se para buscar satisfação e um intenso prazer que a realidade crua não pode dar. O sujeito busca algo mágico para que a felicidade o possua, porém, ele vive em sociedade e está imerso na cultura que dele exige renúncias, acordos, cumprimento das leis e dos limites impostos. Isso tudo gera tristeza e infelicidade. A má notícia é: não há como estar em outro mundo que não seja este. Então, o que fazer? Refletir sobre este paradoxo pode ser um bom começo.

A possibilidade de existir como sujeito só é possível justamente adentrando e fazendo parte ativamente deste mundo tão espetacularmente diverso e misterioso com os elementos que ele oferece, nas possibilidades e impossibilidades, nas experiências transitórias que nos marcam e nos fazem aprender. Afinal, o mal-estar é inerente à vida. Cabe a cada um criar algo a partir disso.

E você, foge do quê?

Bruna Rosalem

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Parasita

CINEMA & PSICANÁLISE

Bruna Rosalem e Marcus Hemerly

‘Parasita: Entre realidades visíveis e invisíveis.
Ser, não-ser e o nada’

Card da coluna Cinema & Psicanálise. ''Parasita: Entre realidades visíveis e invisíveis. 
Ser, não-ser e o nada'
Card da coluna Cinema & Psicanálise. ”Parasita: Entre realidades visíveis e invisíveis.
Ser, não-ser e o nada’

“Não nos esqueçamos que as causas das ações humanas costumam ser
inumeravelmente mais complexas e diversas do que depois sempre as
explicamos, e raramente se delineiam de maneira definida.”
Fiódor M. Dostoiévski

Quanto se pensa em cinema asiático, inicialmente, a tendência precípua é lembrar das produções japonesas mais populares no ocidente. Evidentemente, não se afasta o mérito da festejada obra de Akira Kurosawa, a título de exemplo, responsável por paralelizar o sucesso comercial a criações de viés extremamente artístico, desde situações contemporâneas até adaptações shakespearianas transpostas ao Japão feudal. Impossível não citar sua versão para ‘Rei Lear’ (Ran, 1985) e ‘Macbeth’ (Trono Manchado de Sangue, 1957), as quais retratam os mais densos e complexos dramas humanos. Indubitavelmente, seu astro recorrente, o expressivo Toshiro Mifune, teria o status de estrela hollywoodiana. 

Kurosawa ainda assentaria seu nome no novo mundo a partir do seu trabalho mais conhecido, ‘Os Sete Samurais’, (1954) – alguns referem como sua obra-prima – que inspiraria outro clássico dos westerns estadunidenses, ‘Sete homens e um destino’, (1960), popularizando-se com um elenco estelar, com nomes como Yul Brynner, Charles Bronson e Steve McQueen. No entanto, a vertente da sétima arte em testilha não é lembrada tão somente pela ilha japonesa. 

O cinema chinês já era extremamente popular quando de sua roupagem muda nos primórdios da imagem em movimento. Imperioso lembrar, o cinema falado surge em 1927 com o filme ‘O cantor de jazz’. Seja a partir de histórias mais sofisticadas em seus contornos teatrais e existencialistas, ou mesmo, derivando as feições de terror voltadas ao sobrenatural das lendas nipônicas e ao body horror, ainda nos anos 50, o tom flagrantemente experimental perpassa a criação asiática desde seus primórdios.

Nas últimas duas décadas, países como Tailândia e Coreia, de modo relevante, têm inovado com realizações que flertam com o horror mais gráfico de violência extreme, que descendem do cinema exploitation dos anos 70 e 80. Produções policiais consagradas que foram elevados ao título de clássicos modernos, como a festejada trilogia ‘Infernal Affairs’ que serviu de inspiração ao filme. ‘Os Infiltrados’, de Martin Scorsese; cita-se ainda, o intenso e visceral filme de serial killer ‘Eu vi o diabo’ de 2010.

No plano internacional, assim como o cinema produzido na Espanha e Argentina, os roteiros altamente inventivos e pouco ortodoxos daquele continente conquistam o gosto de novas audiências. No início do novo milênio, o mundo encantado por toda a poesia do filme ‘O tigre e o dragão’, do tailandês Ang Lee, que já havia alcançado notoriedade desde os anos 90, inclusive adaptando brilhantemente a obra de Jane Austen, com o sucesso de crítica ‘Razão e Sensibilidade’, (1995).  

Traçado esse pequeno parâmetro, alcançamos a grande surpresa do Oscar de 2020, o longa ‘Parasita’. A despeito da merecida expectativa em torno do drama cômico sul coreano, a partir do imediato sucesso nos festivais, o filme literalmente ‘roubou a cena’, arrebatando quatro estatuetas em premiações chave da cerimônia, tais como roteiro original, direção e entrou para a história como a primeira obra fílmica não falada em língua inglesa a vencer como Melhor Filme.  

No roteiro de Bong Joon Ho, que também dirige a trama, a família de Ki-Taek, subempregada e, posteriormente, desempregada, vive em condições precárias num porão sujo de Seul. Quando o filho adolescente da família começa a ministrar aulas de inglês a uma moça de família rica, os Park, a partir de meios dúbios, aos poucos, os Kim se infiltram no staff da família privilegiada. Valendo-se das mais engenhosas conspirações, gradativamente, vão tomando o lugar dos empregados antigos, e, ao mesmo tempo, se imiscuem de forma indissociável à rotina de seus empregadores. 

Aliado a inúmeros questionamentos de ordem sociológica e política subjacentes às diferenciações gritantes de classe econômica, a película suscita situações pouco usuais gerando respostas ainda menos convencionais. As relações grupais que ali se desenham são complexas e um tanto duvidosas. Deparamo-nos, aos poucos, com uma família passível de cometer atos ilegais tentando fugir da extrema pobreza que gera ansiedade com vistas a um futuro incerto e, possivelmente, desesperador.

Na história americana, vemos inúmeros relatos de pessoas que coabitam casas de maneira parasitária, ou seja, se formos tomar o título do filme, parasita, segundo a definição biológica: organismo que vive dentro de outro, usufruindo de moradia e alimentação de forma danosa ao hospedeiro. Pessoas que vivem atrás de portas, paredes, entradas escondidas ou em uma espécie de alojamento subterrâneo como se fosse duas casas em uma. A família ‘original’ que reside no lugar desconhece a existência de outras pessoas. Estas últimas buscam alimento quando os moradores estão dormindo ou ausentes. Assim passam a viver por algum tempo desta maneira, parasitando o outro, sugando seus recursos e tirando proveito dos pertences alheios. A produção ‘A espreita do mal’, (2019), retrata bem este estilo de vida.

O termo para esta prática é definido por phrogging, palavra inglesa derivada de frog, sapo em português. Isto é, viver ‘pulando’ de imóvel em imóvel. Há dois motivos para isso: a busca por uma vivência fora dos padrões normais, observando sorrateiramente a vida alheia, seus costumes e intimidade. E o outro motivo é a necessidade de hospedagem e alimento. Muitos jovens americanos são considerados phroggers. Em 2013, estudantes de uma universidade de Ohio descobriram um morador habitando no porão da escola. No Japão, em 2008, uma família descobriu que uma mulher estava morando no porão de sua casa.

Em ‘Parasita’ esta situação nos leva a reflexões que vão muito mais além da questão da falta de recursos para viver minimamente bem. O ponto excruciante que a família Kim demonstra ao longo da trama parece ser a insuportabilidade de estar na miséria sabendo que existe diante de seus olhos um fantástico mundo de fartura, conforto e ostentação logo adiante. Um admirável mundo novo diametralmente oposto à sua existência neste universo. E este fato é inconcebível.

No contemporâneo livro do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, ‘Sociedade do Cansaço’, discute questões como a corrida pela alta performance, a realização concomitante de várias atividades em um curto período de tempo, a dificuldade de contemplação, afinal é preciso agir imediatamente de maneira performática e sempre eficaz em diversos ramos seja trabalho, esporte, arte, mercado financeiro, acadêmico, onde não haveria espaço para reflexões, apenas positividade e produção a qualquer custo. 

Byung-Chul Han retrata uma sociedade cansada deste ritmo, porém longe de pensar outras possibilidades para isso, afinal o que importa é o acúmulo e não mais a experiência. Pessoas se tornam carrascas de si mesmas, incorporando cobranças incessantes, um ‘ideial de eu’ inalcançável, seguindo a premissa do ‘eu consigo’, ‘yes, we can’. E assim qualquer conquista é possível. Basta querer. Temos então uma sociedade depressiva, transtornada, constantemente inconformada, insuficiente, hiperativa e doente. 

Neste meandro, podemos traçar que mesmo sendo evidente que os Kim vivem em condições extremamente precárias, a realidade escancara-se na impossibilidade de possuir o que é do outro e viver nos mesmos moldes. Ou seja, na sociedade performática a qualquer custo, muitas vezes sem escrúpulos de Byung-Chul Han, a saída para a família Kim é infiltrar-se, incorporando os Park quase que por osmose, sem impor limites, condutas e regras. É manipulando, mentindo, trapaceando e usurpando que os Kim poderiam viver aquele sonho. Não importam os meios, mas sim os fins. Ou seja, ‘é porque quero, que conquisto’. Simples assim.

No entanto, o plano macabro escorre por água abaixo. O que presenciamos ao final, é o filho imerso em seus delírios agora comprando a casa e obtendo ‘o que é de dele por direito’. Um recurso defensivo para lidar com a situação caótica que se configurou e sua cruel realidade, difícil de ingerir, já que é privado aos Kim herdar, comprar ou possuir qualquer fragmento da vida dos Park. Aquela vida luxuosa e vencedora aos moldes da sociedade do sucesso, da produtividade e da alta performance não lhe pertence. E jamais pertencerá. Seu delírio é refúgio.

É notório que existem verdades e versões, para Nietzsche, “a verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde”. Nesse sentido, a busca pelo que se deduz de direito, muitas vezes, amolda um caleidoscópio de indistinção entre a figura do indivíduo e do rebanho (coletividade). Não raro, sem amarras ortodoxas do julgamento, fazendo com que o conceito de justiça social, que é dinâmico, a depender do período histórico, seja buscado sem qualquer pudor, e em ‘Parasita’ isso é gritante. Em meio aos percalços dos Kim e dos Park, a pergunta que assoma poderia ser: o quanto a invisibilidade de uns é motivação/fundamentação para arruinar o outro, reduzi-lo a nada? Afinal, para os Kim, ao se amalgamar a casa, os Park poderiam nunca ter existido.

Realmente, a linguagem cinematográfica nos instiga a tamanha provocação.

Bruna Rosalem e Marcus Hemerly

Bruna Rosalem

Marcus Hemerly

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