Manual de propriedade do nada

Clayton Alexandre Zocarato

‘Manual de propriedade do nada’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O primeiro artigo deste manual estabelece que o nada não pode ser possuído

O segundo corrige o primeiro e informa que tudo aquilo que não pode ser possuído desperta imediatamente o desejo de posse. 

O terceiro artigo revoga os anteriores e declara que a propriedade é apenas uma ficção criada pelo medo de desaparecer. O restante deste documento consiste na lenta assinatura de um contrato invisível entre o ser e o vazio.

No início havia apenas uma pequena rachadura.

Nada dramático.

Uma fissura discreta atravessando o pensamento como uma linha de ferrugem sobre uma lâmina antiga. 

Não era tristeza. 

Não era desespero. Era apenas a sensação de que todas as coisas estavam ligeiramente deslocadas de si mesmas. 

As palavras já não coincidiam com os objetos. 

Os espelhos refletiam superfícies, mas não devolviam identidades. 

Os dias surgiam iguais uns aos outros como páginas impressas por uma máquina cansada.

Foi então que apareceu a escritura.

Nenhuma assinatura era exigida.

Nenhuma testemunha.

Nenhum cartório.

O documento já estava assinado desde sempre.

O ser apenas descobria, tarde demais, que seu nome habitava aquelas cláusulas.

A primeira delas era simples:

“Concede-se ao proprietário o direito irrestrito de cultivar ausências.”

E as ausências começaram a crescer.

Primeiro como ervas daninhas entre os pensamentos.

Depois como árvores.

Depois como florestas inteiras.

A paisagem interior tornou-se um território de corredores vazios. As ideias passaram a ecoar sem encontrar paredes.

As perguntas reproduziam-se em velocidade assustadora, enquanto as respostas desapareciam como pássaros migratórios que jamais regressam.

O vazio intelectual não chegou como ignorância.

Chegou como excesso.

Excesso de informação.

Excesso de ruído.

Excesso de opiniões.

Uma avalanche de palavras cobrindo lentamente o significado das coisas.

Bibliotecas inteiras foram transformadas em desertos.

Os livros permaneciam sobre as estantes, mas já não eram lidos.

As frases permaneciam sobre as páginas, mas já não eram compreendidas.

O pensamento converteu-se numa fábrica de repetições.

Produzia reflexões em série.

Embalava conceitos.

Vendia certezas.

Distribuía convicções prontas para consumo.

E, ao final de cada expediente, recolhia cuidadosamente qualquer vestígio de dúvida.

O nada sorria.

Era um proprietário paciente.

Nunca exigia pagamento imediato.

Preferia os juros.

Acumulava pequenas parcelas de desistência.

Uma renúncia hoje.

Outra amanhã.

Uma reflexão abandonada.

Uma pergunta esquecida.

Uma inquietação silenciada.

Até que o território inteiro passasse para seu domínio.

Então veio a segunda cláusula.

“Concede-se ao proprietário o direito de transformar relações em superfícies.”

E o vazio social iniciou sua expansão.

As vozes multiplicaram-se.

As conversas desapareceram.

As multidões aumentaram.

Os encontros tornaram-se raros.

Jamais houvera tantas janelas abertas para o mundo.

Jamais houvera tantos quartos fechados por dentro.

A comunicação tornou-se uma ponte construída apenas até a metade do rio.

Os gestos perderam profundidade.

Os abraços passaram a tocar apenas tecidos.

Os olhares atravessavam rostos sem encontrar presença.

Todos pareciam próximos.

Ninguém realmente chegava.

O ser começou a colecionar contatos como quem coleciona sombras.

Milhares de nomes.

Milhares de imagens.

Milhares de ecos.

Nenhuma companhia.

A solidão já não era ausência de pessoas.

Era ausência de significado.

Era uma praça lotada de estátuas.

Um mercado repleto de fantasmas.

Uma festa onde cada convidado conversava exclusivamente com seu próprio reflexo.

O nada ampliava seus domínios.

Silenciosamente.

Metodicamente.

Sem violência.

Como a ferrugem.

Como a poeira.

Como a noite.

Depois surgiu a terceira cláusula.

A mais extensa.

A mais perigosa.

“Concede-se ao proprietário o direito de substituir valores por conveniências.”

E o vazio moral encontrou terreno fértil.

As palavras virtude, honra, compromisso e responsabilidade tornaram-se objetos arqueológicos.

Peças de museu.

Relíquias de uma civilização esquecida.

Tudo passou a ser medido por utilidade.

Tudo passou a ser calculado por vantagem.

Tudo passou a ser avaliado por rentabilidade.

O bem deixou de ser uma direção.

Transformou-se numa estratégia.

A verdade deixou de ser uma busca.

Transformou-se numa ferramenta.

A consciência deixou de ser uma voz.

Transformou-se num ruído de fundo facilmente ajustável.

O ser observava tudo isso sem perceber que assinava novas páginas do contrato.

Cada concessão parecia insignificante.

Cada renúncia parecia temporária.

Cada acomodação parecia razoável.

Mas o nada era um colecionador de fragmentos.

Sabia que montanhas são feitas de grãos.

Sabia que abismos começam como rachaduras.

Sabia que desertos nascem da morte lenta de pequenas fontes.

O contrato crescia.

As páginas multiplicavam-se.

As cláusulas estendiam-se para além do horizonte.

E o proprietário do nada tornava-se cada vez mais rico.

Até que chegou o momento inevitável.

A vistoria.

O ser caminhou pelos corredores da própria existência.

Abriu portas.

Examinou gavetas.

Percorreu arquivos.

Investigou memórias.

Procurou algo que ainda lhe pertencesse.

Encontrou apenas espaços vazios.

As estantes estavam intactas.

Mas os livros haviam desaparecido.

As molduras permaneciam nas paredes.

Mas as imagens haviam evaporado.

Os relógios continuavam funcionando.

Mas o tempo já não acontecia.

Tudo estava presente.

Nada existia.

Foi então que compreendeu a natureza da propriedade.

Jamais possuíra o nada.

Era o nada quem o possuía.

A escritura sempre estivera invertida.

O proprietário era a propriedade.

O senhor era o terreno.

O dono era a mercadoria.

A assinatura no final do contrato não representava uma conquista.

Representava uma rendição.

E naquele instante surgiu uma pergunta.

Talvez a última pergunta.

Talvez a única pergunta verdadeira.

Se o nada podia ser proprietário de tudo, o que existiria além dele?

Nenhuma resposta apareceu.

Apenas silêncio.

Um silêncio vasto.

Profundo.

Antigo.

Mas pela primeira vez esse silêncio não parecia vazio.

Parecia possibilidade.

Como um campo antes da semeadura.

Como uma página antes da escrita.

Como uma madrugada antes do primeiro pássaro.

Talvez o nada não fosse apenas destruição.

Talvez fosse também um espelho.

Um lugar onde todas as ilusões de posse terminam.

Um tribunal onde todas as propriedades são revogadas.

Uma fronteira onde o ser descobre que jamais possuiu coisa alguma.

Nem riquezas.

Nem ideias.

Nem pessoas.

Nem tempo.

Nem a si mesmo.

E ao compreender isso, algo inesperado aconteceu.

O contrato começou a desaparecer.

As cláusulas dissolveram-se.

As assinaturas tornaram-se poeira.

Os selos evaporaram.

As páginas transformaram-se em vento.

Restou apenas a existência.

Nua.

Sem títulos.

Sem escrituras.

Sem garantias.

Sem proprietários.

Sem propriedade.

Diante da imensidão silenciosa do universo, o ser finalmente compreendeu que a liberdade talvez começasse exatamente onde terminava a posse.

E que o verdadeiro Manual de Propriedade do Nada continha apenas uma frase escrita em letras invisíveis:

“Aquilo que tenta possuir o vazio acaba descobrindo que era o vazio quem o possuía desde o princípio.

Mas a revelação não trouxe conforto.

A liberdade, quando surge depois de uma vida inteira de servidão invisível, possui a textura do abismo. 

Não há celebração na descoberta de que todas as muralhas eram imaginárias. Não há júbilo imediato quando se percebe que os alicerces sobre os quais se ergueu uma existência inteira foram construídos sobre névoa.

O ser permaneceu diante daquele horizonte sem nome.

Já não havia contratos.

Já não havia cláusulas.

Já não havia o nada como proprietário.

Mas também não existiam as antigas referências.

Era como despertar em uma cidade cujos mapas haviam sido queimados durante a noite.

As ruas continuavam lá.

As construções permaneciam de pé.

Entretanto, nenhum caminho conduzia a lugar algum conhecido.

E foi nesse instante que surgiu o mais profundo dos vazios.

Não o vazio da ausência.

Mas o vazio da possibilidade.

Não o vazio da perda.

O espaço aberto.

A página em branco.

A vertigem de quem descobre que não existe um destino previamente desenhado.

Durante muito tempo o ser acreditara que sua angústia vinha da falta de sentido.

Agora compreendia algo mais inquietante.

O sentido nunca estivera ausente.

Apenas jamais fora entregue pronto.

Era necessário construí-lo.

Pedra por pedra.

Pergunta por pergunta.

Fracasso por fracasso.

E essa tarefa parecia mais pesada do que carregar qualquer corrente.

Ao redor, o mundo continuava funcionando com sua habitual maquinaria de distrações.

Mercados vendiam felicidade embalada.

Discursos prometiam respostas definitivas.

Doutrinas ofereciam atalhos para a eternidade.

Ideologias distribuíam identidades prontas.

Tudo parecia convidar novamente para a velha assinatura.

Tudo parecia dizer:

“Retorne ao contrato.”

“Entregue outra vez sua inquietação.”

“Troque sua liberdade por uma explicação confortável.”

Mas o ser já conhecia o preço.

Sabia que toda certeza absoluta escondia uma pequena cláusula escrita em letras microscópicas.

Sabia que todo dogma carregava consigo uma cerca.

Sabia que toda prisão começa oferecendo proteção.

Então permaneceu imóvel.

Escutando.

Observando.

Esperando.

E no centro daquele silêncio começou a perceber algo estranho.

Muito estranho.

O nada não havia desaparecido completamente.

Continuava ali.

Mas sua forma era diferente.

Antes era um proprietário.

Agora era apenas espaço.

Antes era cárcere.

Agora era horizonte.

Antes era ausência de significado.

Agora era possibilidade de criação.

A diferença parecia mínima.

Entretanto continha universos inteiros.

Uma folha em branco pode ser uma condenação para quem espera respostas.

Mas pode ser também uma promessa para quem deseja escrever.

O mesmo vazio.

Dois destinos.

Dois olhares.

Duas interpretações.

Foi então que o ser compreendeu a natureza secreta do abismo.

Durante toda a existência acreditara que estava olhando para dentro dele.

Na verdade, era o abismo que olhava para dentro dele.

E tudo o que enxergava refletido em suas profundezas eram as próprias renúncias.

As desistências.

Os medos.

As acomodações.

As máscaras cuidadosamente colecionadas ao longo dos anos.

O vazio jamais fora um inimigo.

Apenas um espelho radical.

Um espelho incapaz de mentir.

Um espelho que removia todos os adornos.

Todas as justificativas.

Todas as ficções.

Diante dele, restava apenas aquilo que realmente existia.

Ou aquilo que realmente não existia.

O ser então caminhou.

Sem direção definida.

Sem roteiro.

Sem garantias.

Cada passo parecia inaugurar o mundo pela primeira vez.

As coisas tornaram-se novamente estranhas.

Eram familiares e desconhecidas ao mesmo tempo.

Uma árvore já não era apenas uma árvore.

Era um milagre biológico flutuando entre a terra e o céu.

Uma pedra já não era apenas uma pedra.

Era uma memória mineral atravessando milênios.

Uma respiração já não era apenas um reflexo.

Era uma negociação permanente entre o corpo e o infinito.

Tudo adquiria uma intensidade esquecida.

Como se a realidade estivesse sendo devolvida ao seu estado original.

Como se o excesso de explicações tivesse finalmente saído do caminho.

O ser percebeu que o vazio intelectual havia nascido quando deixou de admirar.

O vazio social havia crescido quando deixou de escutar.

O vazio moral havia prosperado quando deixou de responsabilizar-se por suas escolhas.

Nenhum deles surgiu de uma única vez.

Foram sedimentações lentas.

Camadas.

Poeira acumulada sobre a consciência.

E talvez a reconstrução também precisasse ocorrer lentamente.

Sem milagres.

Sem revelações grandiosas.

Sem promessas de redenção.

Apenas através de pequenos gestos.

Uma pergunta verdadeira.

Uma conversa sincera.

Uma leitura realizada sem pressa.

Um pensamento levado até suas últimas consequências.

Uma recusa em aceitar respostas fáceis.

Uma coragem silenciosa para permanecer humano em um mundo que frequentemente recompensa a superficialidade.

O nada continuava existindo.

Sempre continuaria.

Porque o nada é a sombra inevitável de toda existência.

Onde há ser, há possibilidade de não-ser.

Onde há significado, há possibilidade de vazio.

Onde há construção, há possibilidade de ruína.

Mas essa descoberta já não provocava terror.

Produzia humildade.

O ser percebeu que viver talvez não consistisse em derrotar o nada.

Ninguém derrota o nada.

Nenhuma filosofia.

Nenhuma religião.

Nenhuma ciência.

Nenhum império.

Todos terminam encontrando-o em alguma esquina do tempo.

Talvez viver significasse apenas atravessá-lo.

Reconhecê-lo.

Dialogar com ele.

Sem entregar-lhe a escritura da própria alma.

Sem permitir que se tornasse proprietário daquilo que ainda pulsa.

E assim, diante de uma existência que permanecia sem garantias, sem explicações finais e sem manuais definitivos, o ser compreendeu a última ironia.

O verdadeiro proprietário do nada não era aquele que o possuía.

Era aquele que aceitava sua presença sem tornar-se seu escravo.

Porque somente quem aprende a caminhar ao lado do vazio consegue impedir que ele ocupe todos os cômodos da casa.

E enquanto o universo prosseguia expandindo-se em silêncio entre galáxias indiferentes, estrelas moribundas e futuros inimagináveis, uma pequena centelha persistia.

Frágil.

Quase invisível.

Mas real.

A centelha da consciência.

A capacidade de perguntar.

De criar.

De negar.

De escolher.

De resistir.

E talvez fosse exatamente isso que nenhuma escritura do nada jamais conseguiria confiscar por completo.

Pois enquanto houver uma única pergunta atravessando a escuridão, uma única inquietação recusando o conforto das respostas prontas, uma única consciência disposta a contemplar o abismo sem entregar-se a ele, o contrato permanecerá incompleto.

E o nada, por mais vasto que seja, continuará encontrando diante de si a única propriedade que jamais poderá registrar em cartório algum: a liberdade inquieta de existir.

Clayton Alexandre Zocarato

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Topografia da ausência

Clayton Alexandre Zocarato: Ensaio Filosófico ‘Topografia da ausência’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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A primeira coisa que desapareceu não foi uma pessoa, nem um objeto, nem uma lembrança. Foi uma certeza.

Talvez você conheça essa sensação. Talvez não. Talvez esteja lendo estas linhas acreditando que ainda habita um mundo sólido, composto de fatos, identidades e significados estáveis. Mas responda com sinceridade: quantas das coisas que você chama de suas realmente permanecem? Quantas sobreviveram intactas à passagem dos anos? Quantas resistiram à lenta erosão do tempo?

A ausência começa assim.

Não como um acontecimento.

Como uma infiltração.

Ela entra pelos cantos invisíveis da existência e, pouco a pouco, corrói aquilo que parecia definitivo. Primeiro leva os rostos. Depois as vozes. Mais tarde os motivos. Por fim, quando já não resta quase nada, leva também as perguntas.

Foi numa dessas regiões silenciosas da vida que alguém despertou certa manhã e percebeu que havia esquecido uma coisa fundamental. Não sabia exatamente o quê. Talvez um acontecimento. Talvez um sentimento. Talvez a si mesmo.

Levantou-se e caminhou pela casa.

As paredes estavam onde sempre estiveram. As janelas continuavam abertas para a mesma rua. 

Os móveis guardavam a mesma disposição de décadas. Entretanto, tudo parecia deslocado por uma distância impossível de medir. Como se os objetos tivessem emigrado para dentro de si próprios.

Já aconteceu com você?

Olhar para uma fotografia antiga e sentir que a pessoa retratada é uma desconhecida?

Entrar no quarto onde passou a infância e perceber que as memórias não moram mais ali?

Ou pior: perceber que talvez nunca tenham morado.

Existe uma diferença profunda entre recordar e inventar. Contudo, quem é capaz de determinar onde termina uma coisa e começa a outra?

A memória é uma ficção escrita pelo sobrevivente.

E o sobrevivente é sempre suspeito.

Ao longo daquele dia, a sensação cresceu.

Havia uma ausência espalhada pelos cômodos.

Não a ausência de alguém específico.

A ausência daquilo que tornava todas as presenças possíveis.

Sentou-se diante da janela.

Lá fora, as pessoas atravessavam a rua carregando sacolas, compromissos, preocupações, destinos. Pareciam saber para onde iam. Pareciam compreender a lógica secreta que organiza a realidade.

Mas será que compreendiam?

Ou apenas repetiam movimentos herdados?

Quantas vidas são realmente vividas?

Quantas são apenas administradas?

Você já se perguntou isso?

Ou prefere continuar acreditando que existir e viver são sinônimos?

A tarde avançou lentamente.

O sol deslizava pelos telhados como uma moeda gasta rolando sobre uma mesa infinita.

Talvez a ausência não fosse uma falha da existência.

Talvez fosse sua arquitetura.

Talvez tudo o que existe estivesse construído sobre aquilo que falta.

O desejo nasce da ausência.

A esperança nasce da ausência.

A linguagem nasce da ausência.

Até o amor talvez seja apenas uma tentativa desesperada de preencher um espaço que jamais poderá ser preenchido.

Pense nisso.

Se fôssemos completos, amaríamos?

Se nada nos faltasse, desejaríamos?

Se estivéssemos inteiros, procuraríamos alguém?

Talvez não.

Talvez o ser humano seja apenas uma ferida que aprendeu a falar.

A noite chegou.

E com ela vieram os corredores.

Não os corredores da casa.

Os corredores da consciência.

Aqueles lugares escuros onde pensamentos esquecidos continuam andando de um lado para o outro como prisioneiros que perderam a memória do crime.

Lá dentro existiam portas.

Milhares delas.

Atrás de algumas havia lembranças.

Atrás de outras havia arrependimentos.

Muitas escondiam futuros que nunca aconteceram.

Você guarda quantos futuros mortos dentro de si?

Quantas versões da sua vida foram abandonadas pelo caminho?

Quantas cidades você não conheceu?

Quantas palavras não disse?

Quantos amores não viveu?

Há cemitérios inteiros dentro de cada pessoa.

Mas ninguém fala deles.

Porque o mundo prefere celebrar as realizações.

A ausência não vende livros de autoajuda.

A ausência não produz heróis.

A ausência não cabe nos discursos motivacionais.

Entretanto, ela está em toda parte.

Ela mora atrás dos olhos.

Respira entre duas frases.

Habita os espaços vazios das fotografias.

Talvez esteja lendo este texto junto com você.

Talvez seja ela quem move seus olhos neste exato instante.

A madrugada avançava.

O silêncio tornava-se cada vez mais espesso.

Então aconteceu algo estranho.

As paredes começaram a desaparecer.

Não fisicamente.

Metafisicamente.

Como se perdessem sua função.

Como se deixassem de separar dentro e fora.

Eu e mundo.

Sujeito e objeto.

Tudo parecia dissolver-se numa espécie de névoa ontológica.

Quem observava?

Quem era observado?

Onde terminava a consciência?

Onde começava a realidade?

As perguntas se multiplicavam.

Mas nenhuma resposta surgia.

E talvez fosse melhor assim.

As respostas costumam ser túmulos prematuros para perguntas importantes.

A humanidade construiu religiões para responder.

Construiu filosofias para responder.

Construiu ideologias para responder.

Entretanto, séculos depois, continua sentada diante do mesmo abismo.

Mudaram apenas os nomes.

O vazio permaneceu.

Você consegue suportar essa ideia?

A possibilidade de que não exista uma explicação final?

De que o universo não esconda uma mensagem secreta?

De que talvez o sentido não esteja esperando para ser encontrado?

Talvez precise ser inventado.

Ou talvez nem isso.

Talvez a obsessão pelo sentido seja apenas mais uma forma de medo.

Medo da ausência.

Medo do silêncio.

Medo daquilo que permanece quando todas as narrativas desmoronam.

Perto do amanhecer, surgiu uma visão.

Uma paisagem imensa.

Sem árvores.

Sem rios.

Sem montanhas.

Uma extensão infinita composta exclusivamente de vazios.

Como um mapa.

Uma cartografia do que não existe.

Uma topografia da ausência.

E então tornou-se evidente.

A vida inteira havia sido passada tentando preencher aqueles espaços.

Com trabalho.

Com dinheiro.

Com relacionamentos.

Com crenças.

Com memórias.

Com distrações.

Mas os espaços permaneciam.

Porque não haviam sido feitos para ser preenchidos.

E sim habitados.

Há uma diferença enorme entre eliminar o vazio e aprender a viver dentro dele.

A maioria das pessoas passa a existência inteira fugindo.

Correndo de compromisso em compromisso.

De tela em tela.

De ruído em ruído.

Como se o silêncio fosse um predador.

Como se a solidão fosse uma doença.

Como se a ausência fosse um erro.

Mas e se ela não for?

E se a ausência for justamente aquilo que nos torna humanos?

E se ela for o espaço onde nasce a liberdade?

Porque somente quem não está completo pode escolher.

Somente quem não está terminado pode transformar-se.

Somente quem não possui todas as respostas pode continuar procurando.

O sol começou a nascer.

Uma luz pálida atravessou a janela.

Nada havia mudado.

A casa continuava a mesma.

A rua permanecia igual.

Os objetos estavam onde sempre estiveram.

Entretanto, alguma coisa havia se deslocado.

Talvez a compreensão.

Talvez a ilusão.

Talvez apenas a forma de olhar.

A ausência continuava ali.

Mas agora possuía relevo.

Possuía profundidade.

Possuía geografia.

Já não era um inimigo.

Era uma paisagem.

E toda paisagem exige contemplação.

Você também carrega a sua.

Talvez a esconda atrás das tarefas diárias.

Talvez a disfarce com palavras bonitas.

Talvez a cubra com sucessos, projetos e promessas.

Mas ela está aí.

Esperando.

Não para ser vencida.

Não para ser curada.

Não para ser preenchida.

Esperando para ser reconhecida.

Porque, no final de todas as jornadas, depois que os amores partem, depois que os sonhos envelhecem, depois que os nomes desaparecem das lápides e as fotografias perdem suas cores, resta uma pergunta simples e terrível.

Quem somos quando tudo aquilo que nos definia se ausenta?

Talvez você passe a vida inteira procurando a resposta.

Talvez nunca a encontre.

Mas talvez a verdadeira questão não seja encontrar.

Talvez seja aprender a caminhar.

Atravessar os desertos interiores.

Escutar os ecos.

Habitar os vazios.

Ler os contornos invisíveis daquilo que falta.

E reconhecer, enfim, que a existência não é um território de presenças.

E, ainda assim, a travessia não termina quando se reconhece a paisagem.

Este é o engano mais antigo da consciência.

Acreditar que compreender uma ferida equivale a cicatrizá-la.

Não equivale.

Há conhecimentos que não libertam. Há revelações que apenas ampliam a extensão do horizonte. E todo horizonte ampliado carrega consigo uma quantidade ainda maior de desconhecido.

Foi isso que se descobriu depois.

A ausência não era apenas uma região da existência.

Era também um método.

Uma linguagem.

Uma forma pela qual o próprio real se manifestava.

Observe uma árvore.

Você dirá que ela existe porque vê seu tronco, seus galhos, suas folhas. Mas o que permite à árvore ser árvore não é apenas aquilo que aparece. São também os espaços invisíveis entre as raízes e a terra, entre as folhas e o vento, entre a matéria e o tempo.

Observe uma casa.

O que a torna habitável não são os tijolos.

São os vazios entre os tijolos.

Os corredores.

As portas.

As janelas.

Os espaços que podem ser atravessados.

Talvez o mesmo aconteça com a vida.

Talvez aquilo que somos não esteja contido apenas nas presenças que acumulamos, mas nos vazios que conseguimos sustentar sem desmoronar.

Você já pensou nisso?

Talvez sua identidade não seja formada pelas certezas que possui.

Talvez seja formada pelas ausências que aprendeu a carregar.

Há pessoas que nunca se recuperam de uma perda.

Não porque a perda seja insuportável.

Mas porque construíram a própria existência sobre a ilusão da permanência.

E nada permanece.

Nem mesmo esta frase.

No instante em que você a lê, ela já pertence ao passado.

No instante em que compreende seu significado, ela já começou a desaparecer.

Tudo escapa.

Tudo flui.

Tudo abandona silenciosamente aquilo que foi.

Talvez seja por isso que o ser humano inventou monumentos.

Livros.

Arquivos.

Museus.

Fotografias.

Não para preservar o passado.

Mas para negociar com o desaparecimento.

Toda memória é um tratado diplomático assinado com o esquecimento.

Toda lembrança é uma tentativa de retardar o inevitável.

Mas o inevitável possui uma paciência infinita.

Ele espera.

Sempre espera.

Há algo profundamente perturbador nisso.

O fato de que o universo não precisa nos destruir.

Basta aguardar.

O tempo faz o restante.

As cidades afundam.

Os idiomas morrem.

As civilizações tornam-se notas de rodapé.

Os amores transformam-se em nomes que ninguém mais pronuncia.

E até os deuses, quando esquecidos, acabam desaparecendo.

Você percebe a dimensão desse silêncio?

Pense em todas as pessoas que viveram antes de você.

Bilhões.

Respiraram.

Amaram.

Sofreram.

Planejaram futuros.

Temeram a morte.

Contemplaram o céu.

E agora?

Onde estão?

Talvez em lugar algum.

Talvez apenas nesta pergunta.

Talvez a verdadeira morada dos mortos não seja a terra.

Mas a ausência.

E talvez seja exatamente por isso que a ausência provoque tanto medo.

Porque ela nos lembra de nossa condição transitória.

Ela desmonta a fantasia da centralidade.

Mostra que não somos o centro da história.

Nem mesmo da nossa própria história.

Quantas decisões que moldaram sua vida foram realmente suas?

Quantos desejos nasceram em você?

Quantos foram herdados?

Quantos medos pertencem verdadeiramente à sua experiência?

Quantos foram transmitidos como uma herança invisível?

Existe uma estranha arrogância em acreditar que somos inteiramente autores de nós mesmos.

Talvez sejamos mais parecidos com ruínas em construção.

Fragmentos sobre fragmentos.

Vestígios sobre vestígios.

Ausências empilhadas umas sobre as outras.

E, mesmo assim, continuamos procurando uma essência.

Uma verdade definitiva.

Um núcleo imóvel.

Como arqueólogos procurando um centro que talvez nunca tenha existido.

Mas imagine, por um momento, que não exista centro algum.

Imagine que a identidade seja apenas movimento.

Imagine que o eu não passe de uma narrativa provisória que contamos para suportar a vertigem.

O que aconteceria?

Você se sentiria livre?

Ou aterrorizado?

Porque a liberdade absoluta possui algo em comum com o abismo.

Ambos eliminam os corrimãos.

Ambos exigem responsabilidade.

Ambos retiram os mapas.

Talvez seja por isso que tantas pessoas preferem as prisões invisíveis.

Elas oferecem conforto.

Oferecem direção.

Oferecem a ilusão de estabilidade.

É mais fácil viver dentro de uma resposta equivocada do que atravessar uma pergunta verdadeira.

No entanto, a ausência continua trabalhando.

Pacientemente.

Ela remove máscaras.

Desgasta convicções.

Enfraquece dogmas.

Até que um dia o indivíduo se encontre diante de si mesmo sem os adornos habituais.

Sem títulos.

Sem funções.

Sem aplausos.

Sem testemunhas.

Apenas consciência.

Apenas silêncio.

Apenas o eco da própria finitude.

E então surge a questão que ninguém consegue evitar para sempre.

O que fazer com o tempo que resta?

Não o tempo abstrato.

Não o tempo filosófico.

Mas o tempo concreto.

Os dias limitados.

As manhãs numeradas.

As noites contáveis.

O estoque invisível de horas que diminui enquanto você lê estas palavras.

O que fazer com isso?

Acumular?

Competir?

Consumir?

Esquecer?

Esperar?

Ou viver?

Mas o que significa viver?

Porque viver não parece ser apenas existir.

As pedras existem.

Os planetas existem.

As máquinas existem.

Viver talvez seja outra coisa.

Talvez seja a capacidade de olhar para o vazio sem fugir imediatamente dele.

Talvez seja suportar a consciência da perda sem transformar a vida em ressentimento.

Talvez seja aprender que o sentido não está escondido em algum lugar distante, aguardando descoberta, mas emerge brevemente nos encontros, nos gestos, nas contemplações e nos instantes que se recusam a durar.

Instantes.

Apenas isso.

Talvez toda a eternidade humana esteja contida em alguns instantes.

Um olhar.

Uma palavra.

Um silêncio compartilhado.

Uma tarde esquecida.

Um céu observado sem motivo.

E então a ausência ganha um significado inesperado.

Porque sem ela nada teria valor.

Se tudo permanecesse para sempre, nada seria precioso.

Se nada pudesse ser perdido, nada mereceria ser amado.

A finitude não é apenas uma condenação.

É também aquilo que confere intensidade à experiência.

Aquilo que transforma um momento comum em algo irrepetível.

Aquilo que faz do amor mais do que hábito.

Aquilo que faz da despedida mais do que distância.

Aquilo que faz da existência mais do que mera permanência.

Talvez seja este o último relevo da topografia da ausência.

A descoberta de que o vazio não está diante de nós.

Está dentro de tudo.

Dentro da beleza.

Dentro da memória.

Dentro do desejo.

Dentro da esperança.

E talvez até dentro da felicidade.

Não como uma falha.

Mas como sua condição de possibilidade.

Porque tudo aquilo que amamos carrega em si a promessa do desaparecimento.

E exatamente por isso amamos.

No fim, quando todas as explicações se recolhem e as teorias perdem a voz, resta apenas a paisagem.

Uma vasta paisagem de presenças transitórias atravessando ausências infinitas.

E você continua caminhando.

Sem respostas definitivas.

Sem garantias.

Sem mapas confiáveis.

Mas caminhando.

Talvez seja isso o que significa existir.

Não conquistar o território.

Não decifrar o mistério.

Não preencher o vazio.

Mas seguir adiante, consciente de que cada passo é desenhado sobre o solo instável daquilo que falta.

E aceitar que, entre o nascimento e o esquecimento, toda vida humana não passa de uma breve inscrição traçada sobre a superfície móvel da ausência — uma escrita frágil que o tempo lentamente apaga, mas que, enquanto existe, ilumina por um instante a escuridão insondável do ser.

Clayton Alexandre Zocarato

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Financiamento do abismo

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘Financiamento do abismo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/6a199272-57b8-83e9-b14a-eac43d0201db
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O banco funcionava dentro de uma catedral submersa. As colunas eram feitas de vértebras humanas empilhadas como mármore antigo, e os caixas eletrônicos respiravam lentamente, como animais adormecidos no fundo do oceano. 

Todas as manhãs, Augusto atravessava o grande salão inundado por uma luz azulada que parecia vir de um céu afogado e sentava-se diante de sua mesa, onde carimbava contratos invisíveis para pessoas sem rosto.

Ninguém sabia exatamente o que o banco financiava. Alguns diziam que eram sonhos interrompidos. Outros acreditavam que eram memórias falsas implantadas em idosos solitários. 

Havia ainda quem jurasse que os empréstimos serviam para manter viva uma criatura enterrada sob a cidade, algo tão antigo que nem possuía nome, apenas fome.

Augusto jamais perguntou.

Há muito tempo aprendera que perguntas criam corredores. E corredores levam a portas. E portas, inevitavelmente, revelam espelhos.

Seu trabalho consistia em analisar pedidos de crédito enviados por pessoas que desejavam comprar pequenas eternidades: juventude provisória, amores artificiais, filhos obedientes, silêncio interior, esquecimento seletivo, reconhecimento social, sensação de pertencimento. O banco oferecia tudo. Parcelava a alma em até quarenta anos.

Naquela terça-feira chuvosa — embora nunca chovesse dentro da cidade subterrânea — Augusto recebeu um envelope preto sem remetente. Ao abri-lo, encontrou apenas uma frase escrita com letras tortas:

“Seu financiamento foi aprovado.”

Ele sentiu um frio percorrer o corpo.

Não se lembrava de ter solicitado nada.

Passou o resto do dia tentando ignorar o envelope, mas a frase parecia crescer sobre a mesa como fungo úmido.

Ao final do expediente, percebeu que os demais funcionários haviam desaparecido. As cadeiras estavam vazias. Os relógios giravam ao contrário. Um odor de terra molhada invadia o salão.

Foi então que ouviu os passos.

Lentos.

Moles.

Como pés descalços caminhando sobre órgãos vivos.

Do corredor principal surgiu uma mulher extremamente magra vestida de branco. Seus cabelos arrastavam-se pelo chão como raízes procurando cadáveres. O rosto era familiar, embora Augusto não conseguisse lembrar de onde.

— Você atrasou muitas parcelas — disse ela.

— Eu não fiz empréstimo algum.

A mulher sorriu.

Seu sorriso possuía dentes demais.

— Todos fazem.

Ela colocou sobre a mesa um enorme contrato encadernado em pele escura.

Na capa lia-se:

CONTRATO DE EXISTÊNCIA

Augusto tentou rir, mas sua garganta produziu apenas um ruído metálico.

A mulher abriu o documento.

Cada página continha momentos de sua vida.

Seu nascimento.

Seu primeiro medo.

A tarde em que o pai o abandonou num posto de gasolina durante quarenta minutos apenas para lhe ensinar “autonomia”.

O cachorro morto encontrado na infância.

A primeira masturbação.

O cheiro do quarto da mãe durante a depressão.

O instante exato em que percebeu que envelheceria.

Tudo registrado.

Tudo assinado.

— Isso é impossível.

— Não — respondeu ela. — Impossível é existir gratuitamente.

A mulher explicou que todos os seres humanos nasciam endividados. O simples ato de respirar já gerava juros. Cada desejo produzia uma taxa adicional. O sofrimento acumulava correção monetária. O medo de morrer era a principal garantia do sistema.

— E quem criou isso?

Ela inclinou a cabeça.

— Vocês.

O salão pareceu expandir-se ao infinito.

Augusto sentiu as paredes respirarem.

A mulher desapareceu.

No lugar dela surgiu uma porta vermelha no centro do banco.

Uma porta que antes não existia.

Augusto sabia que não deveria abri-la.

Mas certas portas começam a nos abrir antes mesmo de serem atravessadas.

Ele girou a maçaneta.

Do outro lado havia um hospital abandonado.

As paredes estavam cobertas por fotografias de pessoas dormindo. Algumas sorriam. Outras choravam durante o sono. O chão era feito de água rasa, e peixes pequenos nadavam entre seringas enferrujadas.

No corredor principal, dezenas de pacientes permaneciam deitados em macas, todos usando máscaras sem expressão.

Uma enfermeira aproximou-se.

Seu rosto era completamente liso.

Sem olhos.

Sem boca.

Sem nariz.

Apenas pele.

Mesmo assim, Augusto teve a impressão de que ela sorria.

— Seja bem-vindo ao setor de inadimplência afetiva.

Ela conduziu Augusto pelos corredores.

Em um quarto havia um homem tentando arrancar o próprio reflexo do espelho.

Em outro, uma senhora costurava fotografias da juventude sobre a própria pele.

Mais adiante, crianças brincavam de funeral usando pequenos caixões de madeira.

— Quem são essas pessoas?

— Clientes.

— Do banco?

— Da realidade.

A enfermeira abriu uma porta metálica.

Dentro havia uma sala gigantesca cheia de gavetas catalogadas.

Cada gaveta possuía o nome de uma emoção.

CULPA.

VERGONHA.

DESEJO.

MELANCOLIA.

CIÚME.

NOSTALGIA.

— O que é isso?

— Arquivo central da psique humana.

Ela puxou uma gaveta marcada como “MEDO DE NÃO SER AMADO”.

Dentro havia milhões de pequenos corações batendo lentamente.

Augusto sentiu náusea.

— Isso é loucura.

— Loucura é apenas um quarto sem janelas dentro da consciência.

A enfermeira então entregou a Augusto uma chave dourada.

— O diretor deseja vê-lo.

— Diretor de quê?

— Do abismo.

Ela apontou para o elevador no fim do corredor.

As portas abriram-se sozinhas.

O interior estava cheio de areia.

Augusto entrou.

O elevador começou a descer.

Os números no painel não indicavam andares.

Indicavam idades.

Depois surgiram números negativos.

-1.

-8.

-23.

O elevador continuou descendo.

Augusto começou a ouvir vozes.

Milhares delas.

Eram pensamentos que tivera durante a vida inteira.

Pensamentos violentos.

Sexuais.

Covardes.

Ridículos.

Todos repetidos simultaneamente.

Tentou tapar os ouvidos.

Inútil.

As vozes vinham de dentro.

Quando as portas se abriram, Augusto encontrou-se diante de uma praia noturna.

O céu estava cheio de relógios derretidos.

No horizonte, um gigantesco coração mecânico pulsava lentamente dentro do oceano.

E ali, sentado numa cadeira de escritório enterrada parcialmente na areia, estava seu pai.

Morto havia quinze anos.

Usava o mesmo terno cinza do funeral.

— Você demorou — disse ele.

Augusto recuou.

— Isso não é real.

— Claro que não. Mas você sempre preferiu as coisas irreais.

O pai acendeu um cigarro.

Da fumaça surgiram pássaros negros que desapareceram no céu.

— O que é este lugar?

— Sua contabilidade interior.

— Eu estou sonhando?

— Não exatamente. Sonhos ainda possuem misericórdia.

O pai explicou que o banco era apenas a superfície administrativa de algo muito maior: uma estrutura metafísica alimentada pela incapacidade humana de aceitar o vazio.

Os homens criavam religiões, relações, dinheiro, consumo, ideologias e rotinas para evitar encarar o abismo primordial existente dentro deles.

Mas cada tentativa de preencher o vazio apenas aprofundava o próprio vazio.

Como cavar um buraco usando o próprio corpo.

— Então estamos condenados?

O pai riu.

— Condenados? Augusto, vocês transformaram a condenação em estilo de vida.

Ao longe, figuras humanas caminhavam para dentro do mar carregando televisores nas costas.

Outras enterravam os próprios rostos na areia.

Uma multidão inteira rezava diante de um enorme cartão de crédito pendurado no céu como lua.

— O que acontece com quem não paga a dívida?

O pai apontou para o oceano.

Das águas emergiam criaturas humanas sem olhos.

Elas carregavam maletas executivas presas aos pulsos por correntes.

— Tornam-se parte da máquina.

Augusto sentiu o chão tremer.

Então percebeu que a areia era feita de dentes.

Milhões deles.

O pai levantou-se lentamente.

— Existe algo que você precisa ver.

Caminharam pela praia durante horas ou segundos — naquele lugar o tempo parecia um animal ferido incapaz de mover-se em linha reta.

Chegaram a um prédio gigantesco construído inteiramente com espelhos.

Cada espelho refletia uma versão diferente de Augusto.

Augustos ricos.

Augustos miseráveis.

Augustos assassinos.

Augustos religiosos.

Augustos mendigos.

Augustos felizes.

Augustos suicidas.

— O que é isso?

— Todas as pessoas que você poderia ter sido.

Ao entrar no edifício, Augusto percebeu que os corredores eram feitos de carne pulsante.

As paredes sussurravam frases ditas por sua mãe durante a infância.

“Você precisa ser alguém.”

“Não decepcione seu pai.”

“Pessoas comuns desaparecem.”

Em uma sala encontrou centenas de versões de si mesmo sentadas diante de computadores antigos.

Todos trabalhavam compulsivamente.

Todos estavam exaustos.

Nenhum parecia saber o motivo.

Um dos Augustos ergueu a cabeça.

Seus olhos eram dois buracos vazios.

— Produzimos sentido artificial.

— Para quê?

— Para evitar o silêncio.

Outro Augusto começou a bater a cabeça contra o teclado enquanto chorava sangue.

— O silêncio revela.

As luzes piscaram.

Todos os Augustos pararam simultaneamente.

Viraram os rostos na direção dele.

E disseram juntos:

— Você ainda acredita possuir alguma coisa?

Augusto correu.

Correu pelos corredores vivos.

Correu até encontrar uma escada infinita descendo para dentro de uma escuridão líquida.

No fundo havia uma única cadeira de dentista iluminada por uma lâmpada oscilante.

Sentada nela estava a mulher do banco.

— Chegamos ao núcleo.

— O que você quer de mim?

— Nada.

Ela sorriu novamente.

— Você é quem quer alguma coisa. Sempre quis.

A mulher pediu que Augusto se sentasse.

Ele obedeceu sem compreender por quê.

Acima dele surgiu uma máquina enorme feita de olhos humanos conectados por fios umbilicais.

— O que é isso?

— O mecanismo do desejo.

A máquina começou a funcionar.

Augusto viu sua vida inteira atravessá-lo.

Cada ambição.

Cada carência.

Cada humilhação escondida sob performances de normalidade.

Percebeu que jamais amara verdadeiramente ninguém.

Apenas buscara pessoas capazes de anestesiar temporariamente seu medo de existir.

Percebeu que trabalhara não por realização, mas para provar algo indefinido a fantasmas familiares.

Percebeu que seus sonhos eram anúncios publicitários infiltrados na alma.

Percebeu que nunca estivera sozinho porque sempre carregara dentro de si um tribunal inteiro.

Começou a gritar.

A mulher aproximou-se lentamente.

— O ser humano é a única criatura que transforma a própria prisão em decoração.

A máquina acelerou.

Os olhos giravam.

Milhares deles.

Observando.

Julgando.

Consumindo.

Augusto sentiu algo romper-se dentro de sua mente.

Então aconteceu o silêncio.

Um silêncio absoluto.

Branco.

Imenso.

Pela primeira vez desde a infância, não desejava nada.

Nem sucesso.

Nem amor.

Nem permanência.

Nem respostas.

Apenas vazio.

Mas o vazio agora não parecia ameaçador.

Parecia honesto.

As correias se soltaram.

A mulher observou-o com estranha ternura.

— Poucos chegam até aqui.

— O que acontece agora?

— Agora você decide.

— Decido o quê?

— Continuar financiando o abismo ou aprender a habitá-lo.

Ela entregou-lhe um espelho pequeno.

Ao olhar, Augusto não viu seu rosto.

Viu apenas um quarto escuro.

No centro do quarto havia uma criança sentada no chão.

Ela chorava silenciosamente.

Augusto reconheceu imediatamente quem era.

A criança ergueu os olhos.

— Você me abandonou.

Augusto começou a tremer.

Tentou tocar o espelho.

A superfície tornou-se líquida.

Então caiu para dentro.

Despertou num apartamento minúsculo.

O despertador tocava.

O sol atravessava parcialmente as cortinas.

Tudo parecia normal.

Por alguns segundos acreditou que tivera apenas um pesadelo.

Levantou-se.

Foi até o banheiro.

Lavou o rosto.

Ao erguer os olhos para o espelho, encontrou uma pequena frase escrita no vidro com vapor:

“Saldo devedor: infinito.”

Augusto recuou.

O apartamento começou a emitir sons estranhos.

As paredes respiravam.

Os móveis pulsavam como órgãos internos.

Da televisão desligada surgiu a voz da mulher:

— O sistema nunca esteve fora de você.

As luzes apagaram.

No escuro, Augusto ouviu milhares de teclas sendo digitadas.

Percebeu então que sua mente inteira funcionava como um escritório administrativo dedicado a organizar medos.

Cada memória era um documento.

Cada trauma, um contrato.

Cada desejo, um boleto vencido.

Sentou-se no chão.

Exausto.

O silêncio voltou.

Lentamente compreendeu que passara a vida inteira tentando comprar autorização para existir.

Dos pais.

Da sociedade.

Do trabalho.

Do amor.

De Deus.

Sempre esperando algum carimbo metafísico que legitimasse sua presença no mundo.

Mas talvez existir fosse justamente suportar a ausência desse carimbo.

Talvez maturidade fosse aceitar que nenhuma estrutura viria salvá-lo do vazio fundamental.

Talvez liberdade começasse quando o homem deixasse de pedir empréstimos emocionais ao mundo.

Augusto chorou.

Não de tristeza.

Mas de cansaço.

Um cansaço antigo.

Herdado.

Transgeracional.

Como se milhares de ancestrais frustrados ainda respirassem dentro de seus pulmões.

A noite caiu rapidamente.

Do lado de fora, a cidade parecia normal.

Pessoas caminhavam.

Carros passavam.

Casais jantavam.

Mas Augusto agora enxergava.

Via as correntes invisíveis ligando cada ser humano às próprias carências.

Via homens usando ternos costurados com ansiedade.

Via mulheres carregando aquários cheios de expectativas mortas.

Via crianças já hipotecadas ao futuro.

Todos sorrindo.

Todos cansados.

Todos pagando parcelas emocionais intermináveis.

Na madrugada, ouviu uma batida na porta.

Ao abrir, encontrou apenas um envelope preto.

Dentro havia um único papel.

“Parabéns. Seu refinanciamento foi autorizado.”

No verso havia uma assinatura.

A sua própria.

Augusto sorriu pela primeira vez em muitos anos.

Depois queimou o papel.

As chamas iluminaram brevemente o apartamento.

E por um instante, antes que o fogo apagasse, ele teve a impressão de enxergar dentro das labaredas a gigantesca catedral submersa onde o banco continuava funcionando eternamente.

Centenas de funcionários sem rosto carimbavam contratos.

Milhões de pessoas aguardavam atendimento.

E no centro do salão, sentado sozinho diante de uma mesa vazia, estava ele mesmo.

Trabalhando.

Ainda.

Sempre.

Enquanto, muito abaixo de tudo, no fundo do abismo financiado pela humanidade inteira, alguma coisa respirava satisfeitamente.

Clayton Alexandre Zocarato

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O apartamento que ultrapassa suas paredes

Clayton Alexandre Zocarato

‘O apartamento que ultrapassa suas paredes’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O apartamento respirava antes mesmo que alguém percebesse. Havia um ruído contínuo vindo das tubulações, dos fios enterrados dentro do concreto, dos elevadores subindo como pensamentos obsessivos e descendo como culpas fatigadas.

            Não era exatamente um lugar; era um organismo comprimido entre outros organismos iguais, uma colmeia vertical onde cada janela parecia um olho cansado demais para permanecer aberto.

            Do lado de fora, a cidade acumulava ferrugem sobre seus próprios nervos. Antenas brotavam dos telhados como árvores metálicas buscando um céu que já não respondia.

            Dentro daquele apartamento, as horas não passavam. Elas mofavam.

            As paredes tinham uma textura semelhante à pele de alguém que permaneceu muito tempo sem ser tocado. O teto, baixo o suficiente para lembrar constantemente da gravidade, parecia descer alguns centímetros a cada semana.

             O ar carregava o cheiro de livros úmidos, café esquecido e ansiedade envelhecida. Não havia silêncio verdadeiro. Mesmo durante a madrugada, os canos estalavam como ossos velhos e os apartamentos vizinhos tossiam suas vidas através das divisórias finas.

             Choros abafados. Discussões transformadas em murmúrios. Descargas. Risos mecânicos diante da televisão. O mundo inteiro parecia funcionar através de paredes, nunca através de pessoas.

            A janela da sala dava para outro prédio idêntico, tão próximo que era possível observar detalhes íntimos sem realmente conhecer nada.

            Um homem deitado no sofá havia semanas.

            Uma mulher fumando na lavanderia como quem tentava incendiar lentamente os próprios pulmões para sentir algum calor. Crianças correndo entre móveis estreitos como animais criados em laboratório.

            O sofrimento urbano tinha adquirido a elegância das rotinas inevitáveis. Tudo era normal demais para parecer trágico.

            O apartamento começou a ultrapassar suas paredes numa terça-feira de chuva lenta. Primeiro, foi o corredor. O corredor parecia maior do que deveria. Não fisicamente. Existencialmente.

            Cada passo até a cozinha produzia uma sensação estranha, como atravessar um pensamento depressivo que nunca terminava. A distância entre a mesa e a geladeira se expandia conforme o humor piorava. Em certos dias, o banheiro parecia localizado em outra dimensão.

             Em outros, a cama estava perto demais, como se o cansaço puxasse o corpo pela roupa.

            As coisas começaram a adquirir intenções.

            A torneira pingava com a regularidade de um relógio cardíaco prestes a falhar. A luz do banheiro piscava sempre nos momentos de maior desânimo, como se houvesse uma inteligência elétrica observando silenciosamente a degradação interior.

             O espelho já não refletia apenas um rosto; refletia atrasos, fracassos, mensagens não respondidas, sonhos esquecidos em gavetas, contas acumuladas e uma espécie de erosão invisível que ninguém via nas ruas porque todos carregavam a mesma rachadura.

            A cidade inteira parecia construída sobre pessoas cansadas fingindo estabilidade.

            Nos elevadores, os vizinhos evitavam os próprios olhos porque reconhecer o outro seria reconhecer a própria falência emocional.

            Havia algo profundamente cruel na educação urbana: todos aprendiam desde cedo a esconder o colapso para não atrasar o funcionamento das máquinas sociais.

             As pessoas chegavam ao trabalho como cadáveres maquiados de produtividade. Sorriam com dentes que pareciam móveis alugados. Bebiam café para prolongar a capacidade de obedecer.

            O apartamento percebia isso.

            À noite, as paredes estalavam como se conversassem entre si. Pequenos sons secos percorriam o concreto durante horas, lembrando passos invisíveis ou articulações se ajustando depois de longos períodos imóveis.

             Aos poucos, surgiu a sensação de que o apartamento observava. Não de maneira sobrenatural, mas íntima.

            Como um médico silencioso conhecendo cada sintoma antes mesmo do paciente percebê-lo.

            A geladeira guardava alimentos e desesperos em temperatura baixa. O sofá afundava cada vez mais, absorvendo o peso acumulado das crises silenciosas.

             A cama tornou-se um continente onde o corpo naufragava diariamente. Dormir já não era descanso; era desaparecimento temporário.

            Lá fora, sirenes cortavam a madrugada como bisturis sonoros. Alguém sempre gritava em algum ponto da cidade.

            Alguém sempre caía. Alguém sempre perdia o emprego, o amor, a sanidade ou a vontade de continuar respirando.

            As notícias escorriam pelas telas luminosas como vazamentos tóxicos: guerras, inflação, incêndios, massacres, colapsos climáticos, doenças novas para velhos vazios. O mundo parecia um animal gigantesco mordendo a própria carne sem perceber.

            O apartamento absorvia tudo.

            As rachaduras cresceram perto da janela. Finas no início, depois profundas o suficiente para lembrar veias abertas dentro do concreto. Olhando de perto, era possível imaginar que o prédio inteiro sofria de algum tipo de fadiga existencial.

             Como se os edifícios estivessem cansados de sustentar vidas tão frágeis.

            Como se cada andar acumulasse não apenas móveis e moradores, mas também ansiedade, antidepressivos, traumas familiares, medo econômico, insônia coletiva e aquela solidão moderna que cresce mesmo cercada por milhões de pessoas.

            Houve um período em que sair parecia impossível.

            A porta tornou-se uma fronteira psicológica. Do lado de dentro, o sufocamento familiar. Do lado de fora, o espetáculo indiferente da sobrevivência.

            O corredor do prédio tinha cheiro de desinfetante barato e abandono. As lâmpadas amareladas davam ao ambiente a aparência de um hospital para emoções terminais.

            Em cada apartamento existia alguém tentando suportar a própria mente sem fazer muito barulho.

            Os dias perderam seus nomes.

            Manhãs eram apenas claridades agressivas entrando pelas frestas da persiana. Tardes possuíam a textura de papéis molhados. As noites se acumulavam sobre o peito como concreto fresco.

            O relógio da cozinha continuava funcionando, mas o tempo real parecia ocorrer em outro lugar, talvez dentro das pessoas felizes das propagandas, talvez nos aeroportos, talvez nos corpos ainda capazes de desejar o futuro sem medo.

            Em certos momentos, o apartamento expandia tanto sua presença que parecia ocupar a cidade inteira.

            O prédio vizinho tornava-se extensão da sala. As avenidas atravessavam os corredores. Os semáforos piscavam dentro da cabeça. A multidão do metrô cabia inteira dentro do banheiro.

            Não havia mais separação clara entre interior e exterior. O mundo havia invadido tudo.

            A televisão transmitia tragédias com qualidade digital impecável. Crianças famintas em alta definição. Bombas explodindo em resolução cristalina. Debates políticos transformados em entretenimento histérico.

             O horror contemporâneo perdera o cheiro. Tudo chegava esterilizado pelas telas, consumido entre goles de café e notificações de aplicativos.

            O apartamento sabia disso.

            Por vezes, parecia respirar mais fundo quando a tristeza aumentava. As cortinas se moviam sem vento.

            Objetos mudavam discretamente de posição. O corredor alongava-se nas madrugadas insones. O teto aproximava-se durante crises de ansiedade.

            Havia uma inteligência melancólica espalhada entre os móveis.

            Talvez toda habitação seja construída com restos emocionais de seus moradores anteriores.

            As paredes guardam gritos. O chão absorve passos desesperados. As tomadas escutam telefonemas de despedida.

            Os azulejos testemunham colapsos silenciosos diante do espelho. Todo apartamento é um cemitério microscópico de versões fracassadas de alguém.

            Do lado de fora, a cidade continuava crescendo como um tumor iluminado. Novos prédios surgiam constantemente, empilhando pessoas em cubículos cada vez menores.

            A arquitetura contemporânea parecia baseada na administração eficiente da solidão. Janelas suficientes para observar vidas alheias, mas nunca proximidade suficiente para tocar alguém sem medo.

            As redes sociais agravavam tudo.

            O telefone brilhava no escuro como um altar portátil dedicado à comparação permanente.

            Corpos felizes. Viagens. Casais sorrindo diante de mares artificiais. Frases motivacionais escritas por pessoas claramente destruídas.

            O mundo transformara sofrimento em estética e isolamento em mercado. Até a tristeza precisava parecer interessante.

            O apartamento absorvia cada imagem.

            As paredes começaram a apresentar manchas úmidas semelhantes a mapas desconhecidos. Continentes de mofo crescendo lentamente sobre a tinta descascada. Observando atentamente, era possível imaginar cidades inteiras desenhadas ali, cidades onde ninguém falava porque toda linguagem havia falhado diante da dimensão do vazio humano.

            O sono piorou.

            As madrugadas adquiriram uma consistência mineral. Pesadas. Frias. Eternas. O corpo permanecia deitado enquanto a mente caminhava quilômetros dentro do próprio labirinto.

            Pensamentos repetitivos batiam contra o crânio como pássaros presos em galpões industriais.

            Lembranças antigas reapareciam sem contexto: corredores escolares, vozes familiares, cheiros de infância, promessas esquecidas. Tudo misturado ao zumbido constante da geladeira e ao ruído distante do trânsito.

            Então surgiu a sensação mais assustadora: o apartamento não aprisionava ninguém. Ele apenas revelava.

            Cada parede era um espelho vertical. Cada cômodo ampliava uma ausência já existente. A claustrofobia não vinha do espaço reduzido, mas da consciência excessiva. O apartamento ultrapassava suas paredes porque o sofrimento humano também ultrapassa qualquer limite físico.

             Carrega-se o desamparo para todos os lugares. Dentro do elevador. No supermercado. Nas filas de banco. Nos encontros amorosos. Nos aniversários. No silêncio após desligar o telefone.

            A cidade inteira parecia composta por apartamentos invisíveis caminhando pelas ruas.

            As pessoas carregavam quartos escuros dentro do peito. Corredores sem saída atrás dos olhos.

             Janelas emperradas na memória. Algumas conseguiam decorar o próprio vazio com consumo, exercícios físicos, religiões instantâneas ou excesso de trabalho. Outras apenas envelheciam lentamente dentro dele.

            Certa madrugada, durante uma chuva particularmente violenta, faltou energia no prédio inteiro.

             O apartamento mergulhou numa escuridão espessa, quase líquida. Sem o zumbido dos aparelhos eletrônicos, sem a televisão, sem a internet, sem as lâmpadas, surgiu um silêncio tão profundo que parecia pré-humano.

            Foi então que o apartamento realmente ultrapassou suas paredes.

            A ausência de luz dissolveu os limites dos cômodos. A sala tornou-se oceano. O teto desapareceu.

             O corredor transformou-se num túnel interminável atravessando décadas de medo coletivo. Havia algo imenso respirando na escuridão — não uma criatura, mas a própria condição humana despida de distrações.

            Todos os apartamentos do prédio pareciam conectados naquele instante.

            Era possível ouvir passos nervosos. Crianças chorando. Alguém rezando baixinho. Um casal discutindo em voz baixa sobre dinheiro.

            Um rádio funcionando à pilha em algum andar distante. Pela primeira vez, o sofrimento deixou de ser individual. Tornou-se uma massa compartilhada, uma espécie de coração subterrâneo pulsando entre os andares.

            O prédio inteiro estava vivo.

            E profundamente cansado.

            Quando a energia voltou, algo havia mudado. A luz elétrica parecia artificial demais para esconder a verdade recém-revelada.

            As paredes continuavam estreitas, mas agora continham universos inteiros de abandono. O apartamento já não era um lugar específico.

             Era uma metáfora concreta da existência moderna: um espaço pequeno tentando conter angústias infinitas.

            Dias depois, a janela permaneceu aberta durante horas. O vento entrou trazendo cheiro de chuva, gasolina e comida distante. Pela primeira vez em muito tempo, o ar parecia novo.

             Não melhor. Apenas verdadeiro.

            Lá embaixo, a cidade seguia funcionando com sua maquinaria indiferente. Ônibus lotados.

            Pessoas atrasadas. Ambulâncias atravessando cruzamentos. Motocicletas rugindo como insetos metálicos.

            Vendedores ambulantes oferecendo objetos inúteis para sobrevivências precárias.

            O caos urbano mantinha sua coreografia de exaustão.

            Mas havia algo diferente.

            As janelas dos prédios vizinhos já não pareciam apenas quadros isolados. Havia uma espécie de ligação invisível entre todas aquelas vidas comprimidas.

            Cada apartamento continha alguém tentando suportar o peso de existir sem manual de instruções.

            Cada luz acesa durante a madrugada representava outra mente incapaz de descansar.

            Cada sombra atrás das cortinas escondia uma batalha silenciosa contra o vazio.

            Talvez a humanidade fosse exatamente isso: milhões de apartamentos emocionais tentando não desmoronar ao mesmo tempo.

            O mofo continuou crescendo. As contas continuaram chegando. A cidade permaneceu cruel.

            Nada foi resolvido. Nenhuma epifania purificou o sofrimento. O mundo continuou exigindo produtividade de pessoas emocionalmente mutiladas.

            Continuou transformando ansiedade em combustível econômico e solidão em estatística.

            Ainda assim, algo permaneceu depois daquela noite.

            O apartamento ultrapassara suas paredes porque a dor humana nunca coube dentro de limites arquitetônicos.

            Ela infiltra-se nos objetos, atravessa cidades, contamina gerações, escorre pelos fios elétricos e habita até mesmo os silêncios.

            Mas talvez o contrário também seja verdadeiro: talvez a capacidade de reconhecer o sofrimento do outro atravesse paredes igualmente.

            Na última madrugada antes do inverno chegar, a janela ficou aberta novamente. O prédio inteiro parecia respirar junto. Pequenos ruídos domésticos ecoavam na escuridão como sinais vitais frágeis.

             Alguém ria alguns andares acima. Um bebê chorava ao longe. Uma televisão transmitia um filme antigo. Água corria pelos encanamentos.

            E no centro daquele apartamento, cercado por concreto, ferrugem, insônia e vazio, permanecia uma percepção simples e devastadora: ninguém estava realmente sozinho.

            O verdadeiro horror era perceber que todos compartilhavam o mesmo abandono.

Clayton Alexandre Zocarato

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Cláusulas para um espaço que não existe

Clayton Alexandre Zocarato

‘Cláusulas para um espaço que não existe’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Quando recebeu a carta, pensou primeiro no erro burocrático. O envelope era cinza, sem remetente, e carregava apenas seu nome escrito numa caligrafia excessivamente precisa, como se cada letra tivesse sido desenhada por alguém que jamais escrevera à mão antes.

            Dentro havia um contrato.

            As páginas eram amareladas, embora o papel cheirasse a novo. No topo, em letras pequenas:

            “CLÁUSULAS PARA UM ESPAÇO QUE NÃO EXISTE.”

            Ele riu sozinho no apartamento vazio. A pia estava cheia de pratos, a geladeira emitia um zumbido contínuo, e a chuva escorria pela janela como um pensamento cansado.

            Passou os olhos pelas cláusulas.

Cláusula I

Todo indivíduo ocupa um espaço simbólico na realidade, ainda que tal espaço não exista materialmente.

Cláusula II

O ocupante será responsabilizado pela manutenção emocional desse espaço.

Cláusula III

Não haverá compensação ao final do processo.

            Releu aquilo três vezes.

            Não porque estivesse confuso, mas porque sentiu algo pior: reconhecimento.

            Dobrou as folhas e as colocou sobre a mesa.

             Tentou voltar ao trabalho, mas o cursor piscando na tela parecia zombar dele.

            Fazia semanas que escrevia relatórios para uma empresa que vendia softwares administrativos para outras empresas que também pareciam não produzir nada além de relatórios.

            Às vezes imaginava o mundo inteiro como uma engrenagem girando no vazio, sustentada apenas pelo medo coletivo de admitir que não havia máquina alguma.

            À noite, sonhou com corredores infinitos.

            Portas alinhadas em ambos os lados. Em cada uma delas havia uma placa com nomes de pessoas. Amigos mortos. Antigas amantes. Colegas esquecidos da escola. Seus pais.

            Quando abriu uma das portas, encontrou apenas um cômodo branco e sem móveis.

            Nada.

            Abriu outra.

            Nada.

            Outra.

            Nada novamente.

            Ao fim do corredor havia um espelho. Quando se aproximou, percebeu que seu reflexo não o imitava exatamente.

            O homem do outro lado parecia mais velho, mais cansado.

            O reflexo falou primeiro:

            — Você ainda acredita que existe um centro para tudo isso?

            Acabou suando.

            Nos dias seguintes, começou a notar pequenas falhas na realidade.

            Uma mulher no metrô repetia exatamente o mesmo movimento de ajeitar o cabelo a cada dois minutos.

            Um cachorro ficou parado na esquina por horas olhando para uma parede.

            O jornaleiro perto de seu prédio disse “bom dia” com a mesma entonação perfeita durante três manhãs seguidas, como uma gravação.

            Começou a suspeitar que o mundo não estava vivo.

            Talvez nunca tivesse estado.

            Passou então a reler o contrato obsessivamente.

            Havia cláusulas escondidas que antes não estavam ali.

Cláusula IX

O vazio percebido pelo ocupante não constitui defeito estrutural.

Cláusula XII

A consciência é um mecanismo temporário destinado a suportar a ausência de significado.

Cláusula XVII

Perguntas sem resposta deverão continuar sendo formuladas até a extinção do ocupante.

            Ele tentou rasgar as páginas.

            Na manhã seguinte, elas estavam intactas sobre a mesa.

            Tentou queimá-las.

            As folhas não pegavam fogo.

            Tentou jogá-las fora.

            À noite, encontrou o contrato novamente ao lado da cama.

            Como um animal paciente.

            A partir daí, começou a evitar pessoas.

            Descobriu que toda conversa humana funcionava da mesma forma: duas solidões trocando ruídos para esquecer o abismo.

            No trabalho, ouviu colegas discutindo metas trimestrais com uma seriedade religiosa.

            Num bar, viu um casal brigando porque um deles não respondera mensagens. Na televisão, políticos prometiam futuros que sabiam impossíveis.

            Tudo lhe pareceu grotesco.

            A humanidade inteira atuando numa peça sem plateia.

            Passou então a caminhar pela cidade durante a madrugada.

            As luzes dos prédios acesas pareciam olhos insônes.

             Pensava nas milhares de pessoas acordadas naquele instante: algumas chorando, outras desejando morrer, outras tentando desesperadamente encontrar sentido em rotinas repetidas.

            Mas sentido era apenas uma superstição sofisticada.

            A razão humana havia construído ciência, leis, máquinas, religiões e sistemas filosóficos para evitar uma conclusão simples:

            O universo não precisava de nós.

            Nunca precisou.

            A consciência talvez fosse apenas o acidente mais cruel da matéria: o instante em que o vazio ganhou olhos para contemplar a si mesmo.

            Certa madrugada, encontrou uma porta no fim de um beco.

            Nunca estivera ali antes.

            Branca.

            Sem maçaneta.

            No centro, havia uma pequena placa metálica:

            “ESPAÇO DESIGNADO AO OCUPANTE.”

            Não sentiu medo.

            Sentiu alívio.

            Encostou a mão na porta e ela se abriu lentamente.

            Do outro lado não havia escuridão.

            Nem luz.

            Havia ausência.

            Um espaço impossível de descrever porque não continha forma, profundidade ou tempo.

            Era como olhar para algo anterior à própria ideia de existência.

            Então compreendeu.

            Toda vida humana era uma tentativa desesperada de mobiliar aquele vazio.

            Amor, trabalho, fé, arte, memória — móveis frágeis colocados dentro de um cômodo inexistente.

            Nada permanecia.

            Nada sustentava.

            Nada respondia.

            O universo não odiava os homens.

            Isso exigiria interesse.

            O universo apenas continuava.

            Indiferente.

            Elias deu um passo adiante.

            O chão desapareceu imediatamente sob seus pés, mas não houve queda.

            Seu corpo parecia dissolver-se em silêncio, como fumaça dentro de um espaço sem ar.

            Antes de desaparecer completamente, ouviu uma última frase, vinda de lugar nenhum:

Cláusula Final

O ocupante esteve sozinho durante todo o processo.

Então até a consciência terminou. E o vazio, finalmente, deixou de ser observado

Clayton Alexandre Zocarato

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A metragem do vazio

Clayton Alexandre Zocarato

Crônica reflexiva existencialista: ‘A metragem do vazio’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Começa sempre com uma medida. Não de tempo, nem de distância, mas de ausência. Como se o vazio pudesse ser calculado em metros, pesado em silêncio, delimitado por coordenadas invisíveis.

            Ele acorda com essa sensação — a de que algo falta com precisão matemática — e passa a vida tentando descobrir quanto. Não é uma falta difusa, dessas que se resolvem com distrações ou afeto momentâneo; é uma lacuna exata, quase geométrica, como se houvesse um espaço escavado dentro dele, um negativo perfeitamente moldado àquilo que nunca existiu.

            Na parede do quarto, ele traça linhas imaginárias. Mede o ar entre seus dedos e o teto, entre o chão e o pensamento. Há uma obsessão discreta, quase científica, em quantificar o nada. Ele lê sobre o vácuo físico, sobre como o espaço interestelar não é realmente vazio, mas saturado de partículas, radiações, possibilidades latentes. Isso o irrita.

            Porque o vazio que sente não vibra, não pulsa, não promete nada. É um silêncio absoluto, uma ausência que não contém sequer a esperança de ser preenchida.

            Ele tenta nomear essa experiência, mas as palavras falham. Solidão’ é leve demais. ‘Angústia’ é imprecisa. ‘Nada’ é uma palavra cheia de história, de filosofia, de tentativas fracassadas de captura.

            O que ele sente é anterior à linguagem, ou talvez posterior — como se estivesse além daquilo que pode ser dito, numa zona onde o pensamento se dissolve antes de se formar completamente.

            Há dias em que ele caminha pela cidade como quem percorre um mapa de inconsistências. As pessoas falam, riem, compram, tocam-se, mas tudo parece deslocado por alguns milímetros.

            Como se o mundo estivesse levemente fora de alinhamento, como um quadro torto que ninguém percebe.

            Ele observa os gestos automáticos, as conversas repetidas, os rituais sociais, e tenta medir o vazio entre o que é dito e o que é realmente vivido.        Descobre que esse intervalo é vasto, quase infinito. Uma metragem invisível que sustenta a aparência de normalidade.

            Em certo momento, ele decide que o erro pode estar nele. Talvez o vazio não seja uma falha do mundo, mas uma característica da percepção. Talvez todos sintam isso, mas aprenderam a ignorar, a cobrir com camadas de sentido provisório. Ele tenta fazer o mesmo. Preenche os dias com tarefas, os pensamentos com ruído, o tempo com distrações cuidadosamente escolhidas.

            Funciona por algumas horas, às vezes dias.

            Mas o vazio retorna, sempre com a mesma precisão, como se tivesse um ponto fixo dentro dele, um centro gravitacional que atrai tudo de volta ao silêncio.

            Ele começa então a suspeitar que o vazio não é ausência, mas estrutura. Não aquilo que falta, mas aquilo que sustenta. Como o espaço entre as notas que permite a música, ou o branco da página que torna possível a escrita.

            Essa ideia o perturba mais do que conforta. Porque se o vazio é estrutural, então não há preenchimento possível. Não se trata de completar, mas de coexistir. De aprender a viver com uma falta que não será resolvida, apenas compreendida — ou, talvez, nunca.

            Numa noite particularmente silenciosa, ele se deita no chão e observa o teto como se fosse o céu. Imagina-se flutuando no espaço, cercado por um vácuo que não o oprime, mas o contém. Pela primeira vez, o vazio não parece inimigo.

            Há uma estranha neutralidade nele, uma ausência de julgamento. O vazio não exige nada, não cobra sentido, não impõe direção. Ele apenas é. E, por um instante breve, quase imperceptível, isso basta.

            Mas a consciência retorna, como sempre. E com ela, a necessidade de significar, de entender, de medir. Ele se levanta e volta às suas linhas imaginárias, às suas tentativas de quantificação.

            Mede o silêncio entre duas palavras não ditas, o intervalo entre um pensamento e outro, o espaço entre o que ele é e o que acredita ser. Cada medida falha, mas nenhuma é inútil. Porque no ato de medir, há um reconhecimento: o vazio existe, e ele está ali, presente, constante.

            Com o tempo, ele abandona a ideia de preencher. Começa a explorar. O vazio deixa de ser obstáculo e se torna território. Ele aprende a caminhar por dentro de si como quem atravessa um deserto — não esperando encontrar algo no fim, mas atento às nuances do caminho.

            Descobre que há variações no nada, densidades diferentes de silêncio, formas sutis de ausência. O vazio, afinal, tem textura.

            E talvez seja isso que o salva — não a superação, mas a convivência. Não a resposta, mas a permanência da pergunta. Ele continua medindo, mas agora sabe que a metragem nunca será concluída. O vazio não tem fim, nem início. É um campo aberto, uma extensão sem bordas, onde o ser humano se move tentando deixar marcas que desaparecem quase imediatamente.

            No fim, ele entende — ou acredita entender — que a metragem do vazio não é uma tarefa a ser completada, mas uma condição a ser habitada.

            E que talvez, apenas talvez, o sentido não esteja em preencher o vazio, mas em reconhecê-lo como parte inseparável daquilo que somos. Porque é no espaço que falta que o ser se insinua, hesitante, incompleto, mas ainda assim presente.

            E ele continua.

            Medindo o invisível, habitando o indizível, vivendo na exata distância entre o que existe e aquilo que nunca existirá.

            E ele continua, não mais como quem busca, mas como quem consente — e há nisso uma inversão quase imperceptível, como se o gesto de medir tivesse sido substituído por um gesto mais raro: o de permanecer.

             Porque medir ainda pressupõe um fora, um ponto de referência, uma exterioridade possível; permanecer, não — permanecer é aceitar que não há margem, que o vazio não se circunscreve, não se opõe, não se resolve em contraste. Ele não está diante do vazio; ele é a dobra pela qual o vazio se reconhece.

            Nesse estágio, as categorias falham com maior violência. Ser e não-ser já não operam como distinções úteis, pois ambas supõem uma estabilidade que o vazio dissolve sem esforço.

             O que resta é uma espécie de flutuação ontológica, um estado em que o pensamento não se fixa, mas também não se perde completamente. Há um limiar contínuo, uma zona de quase-consciência onde as ideias surgem apenas para se desfazer, como partículas virtuais no vácuo quântico — emergências efêmeras que não chegam a constituir realidade, mas tampouco podem ser negadas.

            Ele começa a perceber que a linguagem, outrora ferramenta, tornou-se ruína.       Cada palavra que tenta usar para capturar o que vive carrega um atraso, uma defasagem inevitável. Dizer “vazio” já é preenchê-lo com um conceito; nomear é trair.

            E, no entanto, o silêncio absoluto não é uma alternativa, pois mesmo o silêncio implica uma escuta, e toda escuta pressupõe um sujeito. Assim, ele se move num campo paradoxal onde falar é falsificar e calar é pressupor — e ambos os gestos falham com igual precisão.

            É nesse ponto que o pensamento se curva sobre si mesmo.

            Não mais como reflexão, mas como colapso. Ele já não pensa sobre o vazio; o vazio pensa através dele, ou talvez nem isso — talvez não haja mais mediação suficiente para sustentar a ideia de um “através”.

            O que há é uma espécie de impessoalidade radical, uma experiência sem centro, onde a interioridade se dissolve e o exterior perde sua função. Tudo se torna superfície, mas uma superfície sem extensão, sem profundidade, sem orientação.

            E ainda assim, há uma estranha lucidez nisso. Não a lucidez da clareza, mas a da exaustão. Como se, ao esgotar todas as tentativas de sentido, restasse apenas aquilo que nunca precisou de sentido para existir.

             O vazio, então, deixa de ser problema e se torna condição anterior a qualquer problema. Ele não pergunta mais “por quê?”, porque o próprio gesto de perguntar se revela deslocado, quase ingênuo.

            A questão não é mais o sentido, mas a impossibilidade de sua ausência total — pois mesmo o vazio, em sua radicalidade, insiste em se apresentar.

            Há momentos em que ele suspeita que tudo isso é apenas uma forma extrema de consciência, um excesso que se volta contra si mesmo até se desfazer. Mas essa suspeita também se dissolve, pois não há critério externo que a valide ou invalide.

            Tudo acontece no mesmo plano, sem hierarquia, sem garantia.

            A verdade perde sua autoridade, não por ter sido negada, mas por ter sido esvaziada de função. Não há mais o que provar, nem a quem.

            E então surge uma nova forma de atenção. Não dirigida, não intencional, mas difusa, quase mineral. Ele observa sem objeto, percebe sem foco, como se a própria estrutura da percepção tivesse sido desarticulada.

            Não há mais figura e fundo, nem sujeito e mundo. Apenas uma continuidade indistinta, onde tudo ocorre sem realmente ocorrer.

             O tempo, nesse contexto, também se desfaz. Não há passado a ser lembrado nem futuro a ser antecipado — apenas uma duração sem direção, um presente que não se acumula.

            É nesse estado que ele compreende — ou melhor, deixa de resistir à compreensão de que a metragem do vazio nunca foi uma tentativa de quantificar o nada, mas de escapar daquilo que sempre esteve dado.

            Medir era uma forma de manter distância, de preservar a ilusão de separação.      Agora, sem essa mediação, resta apenas a coincidência: ele não está no vazio, nem o vazio está nele — ambos são expressões de uma mesma indistinção.

            E, paradoxalmente, é nessa indistinção que algo como uma ética começa a emergir — não uma ética normativa, baseada em deveres ou valores, mas uma ética da não-interferência, da suspensão do domínio.

            Se não há centro, não há também justificativa para impor sentido ao que quer que seja. A ação, quando ocorre, não parte de um querer, mas de uma espécie de ressonância com o que se apresenta. Não há escolha no sentido tradicional — apenas resposta.

            Essa resposta, porém, não se traduz em gestos visíveis. Ele continua vivendo, aparentemente como antes, mas há uma diferença que não pode ser percebida de fora. Internamente, tudo foi deslocado.

            O mundo já não exige interpretação, nem oferece resistência. Ele atravessa os dias como quem atravessa um campo sem marcas, onde cada passo não deixa rastro e cada instante não se acumula.

            Não há progresso, nem regressão. Apenas continuidade.

            E talvez seja isso o mais difícil de aceitar: que não há clímax, nem revelação final, nem resolução.

            A metragem do vazio não conduz a um fim, porque o fim pressupõe uma narrativa, e toda narrativa exige sentido. Aqui, não. Aqui, o que há é uma persistência sem finalidade, uma existência que não se justifica, mas também não precisa fazê-lo.

            No limite, o que resta é uma espécie de transparência. Não no sentido de clareza, mas de ausência de opacidade.

            Nada mais se interpõe entre o que é e o que aparece, porque já não há distinção suficiente para sustentar essa diferença. O mundo não se revela — ele simplesmente não se esconde.

            E ele continua, não como sujeito de uma história, mas como ponto indistinto numa extensão sem bordas.

            A metragem foi abandonada, não por ter sido concluída, mas por ter se tornado irrelevante. O vazio permanece, mas já não é problema, nem mistério, nem ameaça. É apenas aquilo que sempre foi: o fundo sem fundo sobre o qual tudo, inclusive ele, insiste em acontecer — ou talvez nunca tenha começado.

            E ainda assim, mesmo nesse estado de dissolução silenciosa, algo insiste — não como vontade, nem como pensamento articulado, mas como uma espécie de contração mínima da consciência, quase imperceptível, como se o vazio, ao se tornar total, começasse a produzir suas próprias microfissuras internas.

            Não há evento, não há ruptura, apenas uma leve oscilação na continuidade, um tremor sem causa que não altera a estrutura, mas a revela como instável em sua própria estabilidade. Ele percebe — ou é percebido por isso — que o nada absoluto não é estático, mas respirante em sua impossibilidade.

            Essa respiração não pertence a nada vivo no sentido comum. Não há pulmões, não há organismo, não há interioridade que a sustente. É uma respiração lógica, se isso ainda puder fazer sentido: uma alternância sem sujeito, uma pulsação sem centro, um ritmo que não organiza nada, mas também não se desfaz.

            E é nesse intervalo mínimo que algo como uma memória sem conteúdo tenta emergir, não na lembrança de fatos, mas a lembrança de uma forma de existência em que ainda havia diferença entre o dentro e o fora.

            Essa lembrança, porém, não se fixa; ela escapa no mesmo instante em que é pressentida, como se o próprio ato de recordar fosse incompatível com a condição atual do ser.

            Ele já não sabe se ainda pode ser chamado de “ele”. O pronome parece excessivo, uma concessão linguística que pressupõe unidade onde já não há.

            Mas a linguagem insiste por hábito, como um reflexo antigo de uma estrutura que se desfez.

            E mesmo essa insistência não é vivida como erro, apenas como ruído de fundo, uma camada residual de significado que não consegue se atualizar, mas também não desaparece completamente. Tudo o que resta da identidade é esse atrito entre o que foi e o que não consegue cessar de ser nomeado.

            O espaço ao redor — se ainda faz sentido falar em espaço — não se expande nem se contrai. Ele simplesmente não responde mais às categorias de medida. A metragem do vazio, que antes parecia uma tentativa de compreensão, agora se revela como ficção de orientação.

            Não havia extensão a ser medida, apenas a ilusão de que havia um exterior observável. Essa constatação não produz choque, nem revelação. Apenas se acomoda como uma evidência tardia, sem importância emocional, sem consequência dramática.

            E, no entanto, há algo que persiste como forma de presença sem conteúdo: uma espécie de atenção sem objeto, uma vigilância que não vigia nada.

            Não é consciência no sentido clássico, mas também não é sua ausência. É uma zona intermediária onde os polos perderam sua função. Ali, pensamento e não-pensamento deixam de ser opostos e passam a coexistir como variações de um mesmo fundo indiferenciado. O que antes era abismo agora se mostra como continuidade sem fratura.

            Nesse ponto, qualquer tentativa de narrativa se torna impossível não por falta de acontecimentos, mas por excesso de equivalência entre eles. Tudo é igualmente intenso e igualmente indiferente.

            Uma pedra, um pensamento, uma ausência, uma lembrança inexistente — tudo participa da mesma textura ontológica, sem hierarquia possível. O mundo deixa de ser mundo porque já não há recorte suficiente para distingui-lo de si mesmo.

            E ainda assim, há uma espécie de movimento que não se pode nomear como avanço ou retorno. Ele não vai a lugar algum, porque lugar implica diferença espacial; não retorna a nada, porque retorno implica continuidade temporal.

            O que há é uma permanência sem eixo, uma presença que não se sustenta em nada, mas também não cai. Uma estabilidade paradoxal que não repousa sobre fundamento algum.

            Nesse estado, até a ideia de fim perde consistência. Finalizar seria pressupor uma linha narrativa, uma progressão, um ponto de encerramento. Mas aqui não há linha, apenas campo.

            Não há início que possa ser lembrado nem conclusão que possa ser antecipada.   O que existe é uma espécie de suspensão contínua, onde até a noção de continuidade se torna irrelevante, porque não há descontinuidade contra a qual ela possa se afirmar.

            E então, sem transição, sem resolução, sem qualquer gesto que possa ser identificado como encerramento, o que resta não é silêncio — pois silêncio ainda é uma categoria — mas a impossibilidade de distinguir som de ausência de som, palavra de ausência de palavra, existência de ausência de existência.

            Tudo se torna indiferenciado não por fusão, mas por esgotamento da própria diferença como princípio organizador.

            Ele — ou aquilo que já não pode ser nomeado — permanece nesse estado sem qualidades, não como sobrevivente de uma experiência, mas como expressão contínua de algo que nunca precisou começar para continuar.

            E se há algo que poderia ser chamado de conclusão, seria apenas isto: não há fora do vazio, nem dentro dele, porque essas distinções pertencem a uma gramática que já não opera.

            O que há, sempre houve e talvez sempre haverá, é apenas esta impossibilidade de sair do que nunca foi entrada — e mesmo essa formulação já é excesso, já é ruído, já é tentativa de borda onde nunca houve forma.

Clayton Alexandre Zocarato

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Planta baixa do infinito

Clayton Alexandre Zocarato ‘Planta baixa do infinito’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O infinito não começa.

            Ele infiltra.

             Escorre pelas frestas daquilo que se tenta chamar de limite e, quando percebido, já contaminou a ideia inteira de contorno.

            Não há borda que o contenha, apenas a ilusão de uma parede recém-pintada, ainda úmida, onde alguém escreveu com o dedo: “Aqui termina”.

             Mas o dedo atravessa a tinta, atravessa o reboco, atravessa o tijolo e não encontra o fim — apenas mais matéria, mais silêncio, mais uma repetição do mesmo gesto em escalas que se recusam a caber na palavra ‘escala’.

            O vazio não é o oposto disso. O vazio é o método.

            Há quem construa edifícios para se proteger do infinito. Linhas retas, ângulos previsíveis, metragem quadrada registrada em cartório. Cada centímetro delimitado por contrato, cada janela com sua função: olhar para fora sem se misturar.

            A filosofia do imobiliário nasce dessa tentativa desesperada de domesticar o indomesticável: transformar o abismo em planta baixa, o tempo em prestação mensal, a angústia em cláusula.

            Um apartamento de 47 metros quadrados não é um espaço. É uma narrativa comprimida.

            Uma promessa de controle. Um pacto silencioso de que ali dentro o infinito não entra — ou, se entrar, entra educado, em forma de espelho, duplicando o que já existe, jamais criando algo novo.

             A repetição é a grande aliada da propriedade privada: corredores que levam a portas que levam a quartos que levam a janelas que mostram outras janelas. Um eco visual que se vende como segurança.

            Mas o infinito infiltra.

            Ele se manifesta no intervalo entre o elevador e o andar desejado, quando o número digital pisca e por um segundo não é número, é vertigem.

            Ele aparece no corredor vazio às três da manhã, quando o sensor de presença falha e a luz não acende — não por defeito técnico, mas por recusa ontológica.

            Ele sussurra na rachadura da parede recém-reformada, insistindo que nenhuma reforma é suficiente, que todo acabamento é apenas uma pausa superficial.

            E então surge a ideia de redenção.

            Não uma redenção grandiosa, transcendental, mas uma redenção macabra, pequena, quase burocrática.

            Redimir-se de quê? De ter acreditado que o espaço podia ser possuído.

            De ter aceitado que o vazio podia ser ignorado. De ter assinado, com caneta azul, um contrato com o nada.

            Essa redenção não salva. Ela expõe.

            Há um momento — sempre há — em que a planta do imóvel deixa de ser representação e se torna labirinto.

            As linhas, antes claras, começam a se curvar discretamente, como se obedecessem a uma lógica paralela. O quarto invade a sala sem aviso. A cozinha repete a si mesma em ângulos impossíveis.

             O banheiro se prolonga em um corredor que não existia na versão anterior do mapa. Não é um erro de leitura. É uma correção do próprio espaço.

            E nesse instante, o proprietário — palavra curiosa — percebe que não possui nada.

            Que nunca possuiu.

            Que foi, no máximo, tolerado.

            A filosofia do imobiliário ensina que valor é localização. Mas localização de quê? Onde exatamente está um lugar que se altera quando não é observado?

             Que se reorganiza na ausência de testemunha? Que multiplica suas dimensões no escuro?

            O valor, então, torna-se uma ficção compartilhada, uma convenção útil para manter o terror sob controle.

             Paga-se caro por isso. Muito caro.

            A narrativa insiste em ser linear, mas o espaço não colabora.

            Há uma porta que sempre esteve ali, mas que agora parece deslocada alguns centímetros para a esquerda.             Uma diferença mínima, quase imperceptível, mas suficiente para gerar dúvida.

            E a dúvida, uma vez instalada, cresce com uma velocidade incompatível com a metragem do ambiente.

                        Talvez o infinito não seja expansão, mas repetição.

            Talvez ele não precise de espaço adicional, apenas de variação microscópica.

            Um desvio de milímetros que, acumulado, produz um abismo.

             Não se cai de uma vez. Cai-se em parcelas. Um centímetro por dia, financiado em décadas de distração.

            A redenção macabra se oferece como solução: reconhecer o erro, abandonar a pretensão de controle, aceitar o vazio como estrutura fundamental. Mas há um preço. Sempre há.

            Aceitar o vazio implica abrir mão da distinção entre dentro e fora. Significa admitir que as paredes são simbólicas, que o teto é uma sugestão, que o chão pode, a qualquer momento, inverter sua função.

             Não há mais abrigo. Apenas continuidade.

            E, paradoxalmente, é nesse abandono que surge uma forma distorcida de liberdade.

            Sem a necessidade de manter a coerência do espaço, a mente começa a explorar possibilidades antes impensáveis.

            Um corredor pode ser atravessado sem ser percorrido

            . Uma porta pode ser aberta sem ser tocada. Um quarto pode conter todos os outros quartos simultaneamente, dependendo do ângulo de observação — ou da ausência dele.

            A narrativa se fragmenta.

            Não há mais começo, meio e fim. Apenas pontos de intensidade conectados por lacunas.

            O texto se escreve nos intervalos, nos espaços em branco, nas pausas que antes eram ignoradas.

            A linguagem tenta acompanhar, mas tropeça. Palavras se repetem com pequenas variações, como se buscassem uma precisão impossível. Frases começam e não terminam. Ou terminam antes de começar.

            Há um ruído constante, quase imperceptível, como o som de um prédio respirando.

            E talvez respire.

            Talvez cada estrutura construída seja um organismo lento, absorvendo as intenções de seus ocupantes, digerindo suas rotinas, excretando pequenas distorções que, acumuladas, alteram a própria realidade.

            Não por maldade. Por necessidade.

            O infinito precisa de veículos, e o concreto é um excelente condutor.

            A redenção, então, deixa de ser um objetivo e se torna um processo contínuo de desintegração da certeza.

            Cada vez que se reconhece a falha na percepção, algo se dissolve. Não apenas uma crença, mas uma camada inteira de interpretação.

             O mundo se torna mais instável, mais fluido, mais próximo do que talvez sempre tenha sido.

            E o vazio?

            O vazio não ameaça. Ele aguarda.

            Não há urgência no nada. Não há pressão. Apenas uma disponibilidade infinita para acolher aquilo que deixa de se sustentar.

            Cada ideia que colapsa, cada estrutura que se revela ilusória, cada parede que se desloca alguns centímetros — tudo encontra no vazio um destino inevitável e, estranhamente, adequado.

            A perturbação não está no vazio em si, mas na resistência a ele.

            Na insistência em manter formas fixas em um contexto que favorece o fluxo. Na tentativa de congelar o instante em um contrato de longo prazo.

            Na crença de que é possível habitar um ponto sem ser afetado pela totalidade.

            Mas o infinito infiltra.

            Sempre.

            E talvez — apenas talvez — a única redenção possível seja parar de construir paredes e começar a observar as rachaduras.

             Não como defeitos, mas como aberturas. Não como sinais de falha, mas como convites.

            O texto não termina aqui.

            Ele apenas interrompe sua própria continuidade para sugerir que há algo além desta linha, algo que não pode ser contido na sequência de palavras, algo que escapa à sintaxe e se instala diretamente na percepção.

             Um desvio sutil, uma alteração mínima, um deslocamento de sentido que, se seguido, leva a um lugar onde o conceito de lugar já não se aplica.

            E nesse ponto — que não é um ponto — a filosofia do imobiliário se dissolve completamente, revelando-se como o que sempre foi: uma tentativa elegante de negociar com o indizível.

            Sem sucesso.

            Mas com estilo.

Clayton Alexandre Zocarato

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