‘Encontrando um ex-aluno bagunceiro, que foi criando responsabilidade’
Clayton A. ZocaratoImagemcriada por IA do Grok – 27 de janeiro de 2026, às 09h27 https://grok.com/imagine/post/8f4a140e-ec02-4993-96c9-a42c098fb31b
O tempo é um professor silencioso. Não grita, não aplica advertências, não escreve bilhetes na agenda.
Ele apenas passa — e, ao passar, ensina. Eu aprendi isso numa manhã comum, dessas que não prometem revelações, mas acabam entregando epifanias embrulhadas em simplicidade.
Estava na fila de uma padaria, observando o vapor do café subir como pensamentos indecisos, quando ouvi meu nome ser chamado com uma familiaridade quase insolente:
— Professor?
Virei-me devagar, como quem abre um livro antigo esperando encontrar rabiscos conhecidos. E encontrei. Ali estava ele: Lucas.
Ou melhor, o que restava do menino que um dia ocupou as últimas carteiras da sala, como se aquele espaço fosse um território sem lei.
Lucas, o bagunceiro.
O mesmo que transformava lápis em projéteis, risadas em epidemias e silêncio em desafio. O menino que parecia travar uma guerra pessoal contra regras, horários e qualquer tentativa de ordem.
Naquela época, ele era como um vento inquieto: impossível de conter, difícil de compreender.
Mas o homem à minha frente não carregava mais o vendaval nos olhos.
— Sou eu, professor… o Lucas.
O nome caiu no chão entre nós como uma chave antiga, abrindo portas enferrujadas da memória. Vi, por um instante, a sala de aula reaparecer: o quadro manchado de giz, o relógio lento na parede, os colegas rindo enquanto eu tentava ensinar que palavras também tinham peso e direção.
— Eu reconheci o senhor na hora — ele continuou. — O jeito de observar as coisas… o senhor sempre olhava como se estivesse escutando o mundo.
Sorri. Nunca pensei que alguém notasse isso.
Lucas agora vestia uma camisa simples, mas bem passada. Havia algo novo em sua postura: os ombros firmes, o olhar atento, o corpo presente no próprio lugar.
A bagunça havia saído dele — ou talvez tivesse aprendido a se organizar por dentro.
Sentamo-nos. O café chegou. O silêncio entre nós não era constrangido; era reflexivo, como um intervalo entre dois parágrafos importantes.
— Eu era difícil, né? — ele disse, mexendo o açúcar com cuidado excessivo, como quem não quer derramar nada.
Difícil não. Inacabado, pensei. Mas respondi apenas:
— Você estava em construção.
Lucas riu. Um riso mais curto, mais contido. Um riso adulto.
— Eu não entendia isso naquela época. Achava que responsabilidade era uma prisão. Hoje vejo que era uma estrada.
Aquela frase ficou suspensa no ar, como poeira iluminada pelo sol.
Estrada. Sim. Alguns aprendem cedo que viver é escolher caminhos; outros precisam tropeçar bastante até entender que não escolher também é uma escolha.
Ele contou que trabalha agora como encarregado em uma pequena empresa. Tem horários, pessoas que dependem dele, decisões que não podem ser adiadas. Disse isso sem orgulho exagerado, mas com um respeito silencioso pelo próprio esforço.
— Teve um dia — continuou — que percebi que ninguém viria me salvar do caos que eu mesmo criava. A bagunça cansa. A desordem cobra juros altos.
Enquanto ele falava, lembrei-me de quantas vezes tentei corrigi-lo com palavras que agora soavam pequenas diante da grande professora que é a experiência. Talvez o erro dos educadores seja achar que ensinam tudo, quando, na verdade, apenas plantam dúvidas.
Lucas não virou responsável de um dia para o outro. Ele foi se tornando. Como quem aprende a carregar água sem derramar, como quem descobre que liberdade não é ausência de limites, mas consciência deles.
— O senhor sabe — disse ele, olhando-me nos olhos —, eu só entendi o valor da responsabilidade quando percebi que ela era uma forma de cuidado. Com os outros… e comigo.
Ali, naquele instante, senti algo raro: a sensação de missão cumprida sem ter percebido o trabalho sendo feito. Talvez eu nunca tenha conseguido domar o vento que ele era. Mas, de algum modo, ajudei a ensiná-lo a navegar.
Pagamos a conta. Levantamo-nos. Antes de ir, Lucas apertou minha mão com firmeza.
— Obrigado por não desistir de mim — disse.
Observei-o sair, misturando-se à cidade como alguém que finalmente encontrou seu ritmo. Fiquei ali mais um pouco, pensando que a educação é isso: um encontro que só faz sentido anos depois.
O tempo, afinal, não reprova ninguém. Ele apenas dá novas provas.
E algumas pessoas, como Lucas, finalmente aprendem a respondê-las.
Clayton Alexandre Zocarato ‘Meu Universo em Dúvida’
Clayton A. ZocaratoImagem criada por IA do Grok –Meu universo em dúvida12 de janeiro de 2026, às 8:04 PM https://grok.com/imagine/post/f105f1e1-c8ef-4188-af99-8d2525e34c4b
Baseado na canção Meu Universo É Você – Roupa Nova – Álbum Luz – 1988
Amar, na pós-modernidade, tornou-se um gesto quase subversivo, porque exige permanência num tempo que venera o provisório, e é desse paradoxo que nasce esta crônica, escrita não para explicar o amor, mas para sobreviver a ele quando a depressão o cerca como uma névoa espessa e silenciosa.
Há dias em que acordar é um ato filosófico: levantar da cama significa aceitar, ainda que sem convicção, que o mundo continua mesmo quando o sentido falha, e que existir é um verbo que se conjuga apesar de….
O amor, nesse cenário, não aparece como salvação romântica, mas como eixo frágil em torno do qual tudo gira, um centro instável que sustenta o caos interior, como se o outro fosse o último ponto fixo num universo que se expande sem pedir permissão. Amar alguém passa a ser a tentativa de organizar o vazio, de dar nome ao silêncio que cresce dentro do peito quando as certezas morrem uma a uma, vítimas de uma modernidade tardia que prometeu liberdade e entregou cansaço, prometeu escolha e entregou ansiedade.
A depressão não grita; ela sussurra perguntas ontológicas enquanto o mundo exige produtividade, felicidade performática e respostas rápidas, e nesse conflito o sujeito se fragmenta, dividido entre o desejo de desaparecer e a necessidade quase infantil de ser visto, reconhecido, amado.
O amor, então, não é euforia, é resistência: é acordar todos os dias e decidir ficar, mesmo quando tudo em volta diz que partir é mais fácil, mesmo quando a própria identidade parece líquida demais para sustentar compromissos duradouros.
Na crise existencial, o eu se pergunta qual é o seu lugar num mundo onde tudo é relativo, onde valores se dissolvem como açúcar em café quente, e onde até os sentimentos são medidos por algoritmos e curtidas; ainda assim, amar alguém é afirmar que nem tudo pode ser reduzido a dados, que existe algo irredutível, quase sagrado, na presença do outro.
O amor vira abrigo contra o niilismo cotidiano, uma pequena metafísica doméstica construída de gestos simples, de silêncios compartilhados, de uma confiança que não se explica, apenas se vive.
Mas esse mesmo amor também dói, porque expõe a fragilidade do ser, escancara medos antigos, reabre feridas que a razão acreditava cicatrizadas; amar é permitir que o outro veja o que nem nós suportamos encarar sozinhos.
A depressão, nesse contexto, não é apenas doença, é sintoma de uma época que perdeu seus grandes sentidos e deixou o indivíduo sozinho com perguntas grandes demais, e o amor surge como tentativa desesperada de resposta, não definitiva, mas suficiente para atravessar o dia.
Há uma melancolia própria de quem ama num tempo cínico, porque amar exige esperança, e esperar, hoje, parece ingenuidade; ainda assim, é nessa ingenuidade que reside a última forma de coragem.
O sujeito pós-moderno ama sabendo que tudo pode acabar, que nada é garantido, que o futuro é uma promessa instável, mas ama mesmo assim, como quem acende uma vela em meio ao vendaval, consciente de que a chama pode se apagar, mas incapaz de aceitar a escuridão total.
E quando a crise existencial aperta, quando o sentido da vida parece uma pergunta mal formulada, é o amor que reorganiza o caos interno, não oferecendo respostas filosóficas elaboradas, mas uma presença concreta, um “estou aqui” que vale mais do que qualquer sistema de pensamento.
Amar, nesse nível, é aceitar a incompletude como condição humana, é reconhecer que não somos universos autossuficientes, mas constelações que só fazem sentido em relação ao outro.
Talvez por isso, em meio à depressão e à dúvida, o amor seja vivido como centro gravitacional: não porque resolve tudo, mas porque impede que tudo se desfaça.
Na pós-modernidade cansada, amar é um ato (a)gnóstico, um posicionamento diante do nada, uma forma de dizer que, apesar de todas as incertezas, apesar do medo, apesar do vazio, ainda vale a pena existir — nem que seja apenas porque, para alguém, somos o universo possível.
Clayton A. ZocaratoImagem criada por IA da Meta. 11 de dezembro de 2025, às 18:05 PM
A traição tem um gosto curioso. Não é doce, não é amargo — é um tempero proibido que só interessa a quem está espiritualmente subnutrido. Quem trai, muitas vezes, mastiga o mundo como se estivesse saboreando um prêmio, um troféu de vitória pessoal. Mas essa sensação suculenta dura pouco: é como fruta madura demais, que explode na boca e, segundos depois, deixa apenas o cheiro da própria imaturidade.
Pessoas mal resolvidas consigo mesmas encontram na traição um espelho torto. Em vez de enxergarem suas próprias fissuras, veem, por alguns instantes, uma imagem melhorada de si. Lao-tsé alertava que “quem conquista os outros é forte, mas quem conquista a si mesmo é poderoso”. O traidor faz justamente o contrário: tenta conquistar o mundo para não perceber que não conquistou nada dentro de si. Ele se infla, mas continua oco.
Há, na traição, um tipo de euforia infantil. É como se o ego dissesse: “vejam, ainda posso ser desejado!”, enquanto varre para baixo do tapete a própria incapacidade de lidar consigo. O escritor indiano Rabindranath Tagore dizia que “não há óculos capazes de corrigir a visão de quem se recusa a enxergar”. A traição, portanto, é uma tentativa desesperada de ajustar a própria miopia emocional usando lentes emprestadas de outra pessoa.
A música também não perdoa esse tema. Da crueza de ‘Back Stabbers’do The O’Jays às confissões afiadas de Pitty em ‘Me Adora’, a cultura popular vive repetindo a mesma melodia: quem trai não está falando sobre o outro — está, na verdade, tentando berrar alguma verdade sobre si. A traição é o refrão desafinado de quem não aprendeu a se ouvir.
Na literatura, Machado de Assis já sabia disso quando desenhou personagens que se alimentam das próprias contradições. Ele mostrava que o traidor é muitas vezes um autor frustrado escrevendo sua narrativa de poder, tentando compensar a pequena autoridade que tem sobre a própria vida. Não é sobre amor. É sobre vaidade.
O pensamento oriental costuma tratar o ego como um animal inquieto que, quando não treinado, morde a própria cauda achando que captura algo valioso. Buda ensinava que “o desejo é a raiz do sofrimento”. Assim, a traição se revela como um desejo desgovernado que não leva ao prazer duradouro, mas à eterna sensação de vazio — o tipo de vazio que só cresce quanto mais se tenta preenchê-lo com aventuras rápidas e promessas quebradas.
A cidade sempre foi uma cerimônia silenciosa. As pessoas caminhavam com passos iguais, ritmos iguais, rostos iguais. Não por natureza — mas por medo.
Eudoro, desde cedo, percebeu que a cidade só acolhia os que ofereciam um brilho sem fendas, uma docilidade sem hesitações, uma identidade sem rachaduras. E por isso, um dia, quando a exigência tornou-se insuportável, ele aceitou a máscara.
Não uma máscara comum, mas um espelho vivo: um rosto oferecido à multidão, moldado pela fome invisível de ser aceito. Ele acreditava que a máscara era um instrumento. Não sabia que ela era um pacto.
Durante algum tempo, foi glorificado. A cidade o vestiu de aplausos, como quem veste um cordeiro de ouro para ocultar o medo da própria miséria. Filóstrato, o sacerdote da aparência, o guiava como guia um ator:
“Mostra o que eles querem ver, Eudoro. A autenticidade é uma ousadia indecente. A máscara é o que protege.”
Eudoro acreditou.
No início, acreditou com a inocência dos que querem apenas pertencer. Mas a máscara, nutrida pelos desejos alheios, cresceu. Falava mais do que ele. Respirava antes dele. E um dia, no silêncio da noite, seu próprio eco já não obedecia ao seu passo.
Foi então que Lisandra surgiu — filósofa indesejada, amiga do que é nu, amante do que é verdadeiro. Ela não trouxe soluções. Trouxe apenas perguntas. E estas, quando chegam ao coração dos mascarados, doem mais que golpes.
“Quem és tu, Eudoro?”, ela lhe perguntou.
Ele, porém, não soube responder. A máscara respondeu por ele — e mentiu.
O banquete da cidade, certo dia, transformou-se em arena. Todos os olhares repousavam sobre o rosto impecável de Eudoro, e, mesmo assim, algo em seu peito implodiu. A máscara pulsou como um animal ferido, tentando dominar o que restava dele. E Eudoro fugiu, tropeçando entre colunas antigas, até encontrar a estátua esquecida de Aletheia, a deusa da verdade.
Ali, seu eco — aquela sombra da alma que o acompanhava desde a infância — finalmente falou. E não pediu. Acusou. Acusou-o de ter traído a criança que foi. Acusou-o de ter preferido aplausos a autenticidade. Acusou-o de ter deixado que o medo escolhesse por ele.
Eudoro caiu de joelhos. A máscara advertiu: “Sem mim, tu não sobrevives.”
Filóstrato ordenou: “Sem a máscara, tu és ameaça.”
A multidão sussurrou: “Sem ela, não confiamos.”
Lisandra, porém, sussurrou outra coisa: “A verdade dói, Eudoro. Mas a mentira te consome.”
E foi nessa fissura — entre o medo e o possível — que ele pela primeira vez tentou arrancá-la.
A máscara, agarrada à pele, gritou como fera que enfrenta a morte. Mas cedeu. E rachou.
A cidade viu. E a cidade, ao ver, temeu. pois nada assusta mais o coletivo do que um indivíduo que deixa de representar.
Na manhã seguinte, a ágora inteira estava tomada. Cidadãos erguiam dedos acusadores, como se o rosto de Eudoro — humano, imperfeito, vulnerável — fosse uma heresia. Filóstrato discursou como quem protege a ordem: “Se ele pode tirar a máscara, todos podem. E se todos podem, quem poderemos ser nós?”
O pavor se espalhou como peste — não o pavor de Eudoro, mas o pavor de reconhecerem-se como igualmente mascarados.
Então Eudoro falou.
Pela primeira vez, falaram seus pulmões, e não a máscara.
“Vocês temem que eu mude… porque não suportam mudar também.”
A multidão recuou.
Mas o decreto veio: exílio.
A cidade não suporta quem abandona o teatro social.
Lisandra quis segui-lo.
Ele recusou — não por desamor, mas por gratidão.
“Tu ficas, Lisandra. Ensina-os a pensar. Eu vou, porque preciso aprender a existir.”
E no centro da praça, sob a noite que parecia uma ferida aberta, Eudoro largou no chão as duas metades de sua máscara. Filóstrato gritou, como quem vê um templo ruir. A multidão silenciou, como testemunha de um crime sagrado. Mas Eudoro sorriu — um sorriso sem espetáculo, sem plateia, sem aprovação.
“Ser eu mesmo custou tudo”, murmurou. “Mas tudo que perdi… eu já não era.”
E caminhou rumo ao escuro.
Sem rosto artificial.
Sem testemunhas.
Sem aplausos.
E, pela primeira vez, sem medo.
A cidade, atrás dele, respirava fundo — não em alívio, mas em ameaça, pois agora sabiam: a liberdade era possível. E nada é mais perigoso que um homem que provou a si mesmo.
O Coro acompanhou sua partida com um canto grave: *“O homem que retira a própria máscara não desafia o mundo — desafia a si mesmo. E, ao derrotar sua mentira,
enfrenta o único destino humano: aquele que não cabe no rosto que lhe deram, mas no rosto que descobriu que tem.”*
Então as tochas se apagaram. Eudoro desapareceu entre sombras.
Mas sua ausência ressoou. Sua coragem tornoA cidade sempre foi uma cerimônia silenciosa. As pessoas caminhavam com passos iguais, ritmos iguais, rostos iguais. Não por natureza — mas por medo.
Eudoro, desde cedo, percebeu que a cidade só acolhia os que ofereciam um brilho sem fendas, uma docilidade sem hesitações, uma identidade sem rachaduras. E por isso, um dia, quando a exigência tornou-se insuportável, ele aceitou a máscara. Não uma máscara comum, mas um espelho vivo: um rosto oferecido à multidão, moldado pela fome invisível de ser aceito.
Ele acreditava que a máscara era um instrumento. Não sabia que ela era um pacto.
Durante algum tempo, foi glorificado. A cidade o vestiu de aplausos, como quem veste um cordeiro de ouro para ocultar o medo da própria miséria. Filóstrato, o sacerdote da aparência, o guiava como guia um ator: Mostra o que eles querem ver, Eudoro. A autenticidade é uma ousadia indecente. A máscara é o que protege.”
Eudoro acreditou. No início, acreditou com a inocência dos que querem apenas pertencer. Mas a máscara, nutrida pelos desejos alheios, cresceu. Falava mais do que ele. Respirava antes dele. E um dia, no silêncio da noite, seu próprio eco já não obedecia ao seu passo.
Foi então que Lisandra surgiu — filósofa indesejada, amiga do que é nu, amante do que é verdadeiro. Ela não trouxe soluções. Trouxe apenas perguntas. E estas, quando chegam ao coração dos mascarados, doem mais que golpes.
“Quem és tu, Eudoro?”, ela lhe perguntou. Ele, porém, não soube responder. A máscara respondeu por ele — e mentiu.
O banquete da cidade, certo dia, transformou-se em arena. Todos os olhares repousavam sobre o rosto impecável de Eudoro, e, mesmo assim, algo em seu peito implodiu. A máscara pulsou como um animal ferido, tentando dominar o que restava dele. E Eudoro fugiu, tropeçando entre colunas antigas, até encontrar a estátua esquecida de Aletheia, a deusa da verdade.
Ali, seu eco — aquela sombra da alma que o acompanhava desde a infância — finalmente falou. E não pediu. Acusou. Acusou-o de ter traído a criança que foi. Acusou-o de ter preferido aplausos a autenticidade. Acusou-o de ter deixado que o medo escolhesse por ele.
Eudoro caiu de joelhos. A máscara advertiu: “Sem mim, tu não sobrevives.” Filóstrato ordenou: “Sem a máscara, tu és ameaça.” A multidão sussurrou: “Sem ela, não confiamos.”
Lisandra, porém, sussurrou outra coisa: “A verdade dói, Eudoro. Mas a mentira te consome.”
E foi nessa fissura — entre o medo e o possível — que ele pela primeira vez tentou arrancá-la. A máscara, agarrada à pele, gritou como fera que enfrenta a morte. Mas cedeu. E rachou.
A cidade viu. E a cidade, ao ver, temeu., porquanto nada assusta mais o coletivo do que um indivíduo que deixa de representar.
Na manhã seguinte, a ágora inteira estava tomada. Cidadãos erguiam dedos acusadores, como se o rosto de Eudoro — humano, imperfeito, vulnerável — fosse uma heresia. Filóstrato discursou como quem protege a ordem: “Se ele pode tirar a máscara, todos podem. E se todos podem, quem poderemos ser nós?”
O pavor se espalhou como peste — não o pavor de Eudoro, mas o pavor de reconhecerem-se como igualmente mascarados.
Então Eudoro falou. Pela primeira vez, falaram seus pulmões, e não a máscara: “Vocês temem que eu mude… porque não suportam mudar também.”
A multidão recuou. Mas o decreto veio: exílio. A cidade não suporta quem abandona o teatro social.
Lisandra quis segui-lo. Ele recusou — não por desamor, mas por gratidão. “Tu ficas, Lisandra. Ensina-os a pensar. Eu vou, porque preciso aprender a existir.”
E no centro da praça, sob a noite que parecia uma ferida aberta, Eudoro largou no chão as duas metades de sua máscara. Filóstrato gritou, como quem vê um templo ruir. A multidão silenciou, como testemunha de um crime sagrado. Mas Eudoro sorriu — um sorriso sem espetáculo, sem plateia, sem aprovação.
“Ser eu mesmo custou tudo”, murmurou. “Mas tudo que perdi… eu já não era.” E caminhou rumo ao escuro. Sem rosto artificial. Sem testemunhas. Sem aplausos. E, pela primeira vez, sem medo.
A cidade, atrás dele, respirava fundo — não em alívio, mas em ameaça, pois agora sabia: a liberdade era possível. E nada é mais perigoso que um homem que provou a si mesmo.
O Coro acompanhou sua partida com um canto grave: *“O homem que retira a própria máscara não desafia o mundo — desafia a si mesmo. E, ao derrotar sua mentira, enfrenta o único destino humano: aquele que não cabe no rosto que lhe deram, mas no rosto que descobriu que tem.”*
Então as tochas se apagaram. Eudoro desapareceu entre sombras. Mas sua ausência ressoou. Sua coragem tornou-se ferida e profecia. E a cidade, pela primeira vez, sentiu-se nua, porque, diante de um homem inteiro, todos os mascarados tremem.u-se ferida e profecia.
E a cidade, pela primeira vez, sentiu-se nua, porque, diante de um homem inteiro, todos os mascarados tremem.
‘O julgamento do tempo: razão e desrazão em diálogo’
Clayton ZocaratoImagem criada por IA do Grok
(Cenário: Um espaço indefinido, entre ruínas e telas luminosas. No fundo, notícias piscam, protestos ecoam, o som de redes sociais se mistura a ruídos de bombas e aplausos. No centro, duas figuras humanas — Razão e Desrazão — sentam-se frente a frente, uma com um livro antigo nas mãos, outra com um smartphone brilhando no escuro.)
Razão: O mundo tornou-se um espetáculo. O que era reflexão virou manchete, o que era busca virou trend. Já não se lê para compreender — lê-se para vencer.
Desrazão: E por que não? A vitória é o novo critério da verdade. Antigamente, vocês, filósofos, diziam que a verdade libertaria o homem. Hoje, a liberdade é o álibi da mentira.
Razão: Não chame isso de liberdade. É fuga. Desde Sócrates, eu caminho ao lado do homem tentando ensinar que pensar é um ato de coragem. Mas vocês, os filhos da pressa, transformaram o pensamento em meme.
Desrazão: E você, mãe dos códigos, ainda acredita que o pensamento muda o mundo? Marx acreditava. Gramsci acreditava. Mas o capital aprendeu a falar em hashtags. A revolução agora é patrocinada por empresas de tecnologia, e os algoritmos são os novos deuses do destino.
Razão: Os algoritmos são espelhos — refletem a alma de quem os programou. E o homem, ao entregar seu julgamento às máquinas, apenas confessa sua preguiça moral.
Desrazão: Ah, moral… essa palavra enferrujada. Quem ainda acredita em virtude num tempo em que os heróis são processados e os corruptos dão palestras sobre ética? Olhe ao redor: o planeta está quente, a humanidade fria.
Razão: Ainda assim, existe esperança. Veja as ruas: jovens protestando, vozes que não se calam diante da injustiça. Da Revolução Francesa à Primavera Árabe, a chama da resistência não se apagou.
Desrazão: Chama? Eu vejo fagulhas. E logo depois, selfies. A revolta foi domesticada, virou produto. Até a dor tem marketing. As guerras agora são streams ao vivo, e cada cadáver é um ‘conteúdo sensível’.
Razão: A tecnologia não é a vilã — é a escolha que define o uso. Quando Gutenberg imprimiu a Bíblia, muitos disseram que a escrita destruiria o espírito. E, no entanto, foi ela que preservou a memória humana.
Desrazão: Memória? (ri) Nós vivemos no império do esquecimento. O passado é inconveniente, e o presente precisa de filtros. Negamos a escravidão, reescrevemos ditaduras, chamamos censura de opinião. Eu sou o novo senso comum, e você, velha amiga, é apenas uma página esquecida de Kant.
Razão: Mesmo esquecida, eu resisto. Quando a humanidade erra, é a mim que procura para se justificar. Após Auschwitz, Hiroshima e tantas covas rasas, é a Razão que os sobreviventes invocam para tentar entender o absurdo.
Desrazão: E, no entanto, o absurdo volta. Vestido de progresso, de fé, de segurança nacional. Os séculos mudam, mas o vício é o mesmo: o homem ama o poder mais do que a verdade.
Razão: O poder sem razão é tirania. Veja a história — Roma caiu pela arrogância, Napoleão pela ambição, Hitler pelo delírio.
Desrazão: E todos eles tinham filósofos para explicar suas glórias. A filosofia, minha cara, sempre chega atrasada — aparece depois do sangue, com um discurso pronto sobre o sentido da tragédia.
Razão: Talvez, mas sem ela, o sangue seria apenas lama. É a reflexão que transforma a dor em consciência.
Desrazão: Consciência? O mundo anestesiou-se. Freud chamou o inconsciente de rei oculto, mas hoje ele virou refém do consumo. A terapia é uma assinatura mensal, e a culpa, um emoji triste.
Razão: (fecha o livro lentamente) Mesmo assim, há beleza. Ainda há poetas, cientistas, professores, mães que ensinam os filhos a pensar.
Desrazão: Professores? Esses são os novos inimigos. O conhecimento foi colocado em julgamento. A ignorância é mais rentável — forma massas dóceis, fáceis de conduzir. Lembra-se de Galileu? Pois é, agora a fogueira é virtual.
Razão: Então, você admite que a história se repete. A diferença é que agora as chamas são invisíveis, mas queimam mais.
Desrazão: Sim, e o cheiro é de dados, não de carne. O homem ofereceu a alma ao mercado. E o mercado devolveu-lhe um aplicativo.
Razão: Há séculos, Lutero denunciava a venda do perdão. Hoje, vendem-se curtidas, desejos, ideologias. Tudo se compra, inclusive a verdade.
Desrazão: Exato. E eu sou a gerente desse negócio. (ri alto) As redes sociais são o meu império. Eu governo pelo impulso — raiva, medo, vaidade. Ninguém mais lê Rousseau, todos querem ser influenciadores.
Razão: Mas a influência sem reflexão é tirania estética. O belo sem o bom é o veneno da civilização.
Desrazão: E quem quer o bom quando o belo rende mais visualizações? Veja, Razão, você é nobre, mas ingênua. O mundo não quer pensar — quer sentir.
Razão: Sentir sem pensar é o caminho da barbárie.
Desrazão: E pensar sem sentir é o caminho da indiferença. Eis o dilema eterno entre nós.
(Um silêncio. Ao fundo, projeções de guerras, protestos, incêndios florestais e discursos políticos. A luz pisca como se o tempo oscilasse entre séculos.)
Razão: Você se alimenta da crise. Eu, do diálogo. Enquanto houver palavra, há chance de equilíbrio.
Desrazão: Palavra? A língua foi sequestrada. Cada termo virou campo de batalha. ‘Democracia’, ‘liberdade’, ‘povo’ — todos usados até perder o sentido.
Razão: O sentido se reconstrói. Ele nunca morre. Assim como o homem sempre tenta reerguer-se depois da queda.
Desrazão: O homem tenta, mas tropeça. A pandemia mostrou o quanto somos frágeis: negamos a ciência, adoramos conspirações. Você viu? Até a morte virou estatística.
Razão: E mesmo assim, houve solidariedade. Médicos que trabalharam até cair, cientistas que dividiram conhecimento, vizinhos que se ajudaram. A tragédia revela tanto o pior quanto o melhor de nós.
Desrazão: Sim, mas eu fui mais rápida. Entrei nas redes, espalhei medo, cansaço e divisão. O mundo acredita mais nas minhas sombras do que na tua luz.
Razão: Talvez, mas lembre-se: toda noite é sucedida pelo amanhecer.
Desrazão: Bela metáfora. Pena que os homens andam sem janelas. Vivem trancados nas suas bolhas, gritando sozinhos.
Razão: Por isso mesmo eu insisto: é hora de reaprender a escutar. A democracia não é um grito, é uma escuta coletiva.
Desrazão: Democracia… (ri) Essa palavra está cansada. Uns a usam para censurar, outros para se perpetuar. Ela virou moeda de troca.
Razão: Mas ainda é o melhor dos caminhos imperfeitos. Churchill sabia. E mesmo ele, envolto em guerras, acreditava que o diálogo era a única forma de civilizar o conflito.
Desrazão: Ah, o conflito… o meu palco favorito! Sem mim, vocês não evoluem. Admitam: toda invenção, toda mudança, nasce de mim — do caos, da dúvida, do erro.
Razão: Verdade. Mas eu sou a costura. Você rasga, eu reconstruo. O mundo precisa de ambos — mas com equilíbrio.
Desrazão: Equilíbrio… a palavra mais entediante que existe. O ser humano não nasceu para o equilíbrio. Nasceu para o abismo.
Razão: Talvez. Mas é no abismo que ele aprende a voar.
(Luz baixa. A projeção no fundo mostra uma ampulheta virando lentamente. Som de batimentos cardíacos. Razão e Desrazão se encaram em silêncio por alguns segundos.)
Desrazão: Diga-me, Razão… depois de tantos séculos, de tanto sangue e tanta promessa, ainda acredita no homem?
Razão: Não. Acredito na humanidade. É diferente. O homem cai, mas a humanidade se levanta.
Desrazão: E se um dia ela não se levantar?
Razão: Então, ao menos terá tentado. E essa tentativa será a prova de que existiu.
Desrazão: (sorri) Talvez eu devesse poupá-la, então. Afinal, sem ti, eu também desapareço.
Razão: Vê? Até você compreende que somos interdependentes. A história é o nosso espelho — onde tua loucura e minha lógica dançam lado a lado.
Desrazão: Uma dança eterna.
Razão: Até o último acorde da consciência.
(As luzes diminuem. No fundo, a imagem de um planeta em rotação. Vozes indistintas ecoam — discursos, poemas, risadas, orações. O som de uma página sendo virada encerra a cena.)
FIM
Observação para encenação ou leitura crítica:
Este texto propõe uma reflexão filosófico-jurídica e social sobre o mundo contemporâneo, explorando temas como pós-verdade, democracia, tecnologia, desigualdade, história e memória, sem divisão formal de atos ou cenas. A linguagem é provocativa, mas equilibrada entre o poético e o político.
Clayton Alexandre Zocarato: ‘Entre o céu e o fuzil’
Clayton A. ZocaratoImagem criada por IA do Grok
O sol nasce cedo demais no alto do morro. A luz bate nas lajes como quem cutuca um ferido que ainda dorme.
Lá embaixo, a cidade desperta com café passado e trânsito engarrafado; aqui em cima, o dia começa com o eco metálico do primeiro tiro da manhã.
Ninguém se espanta. A vizinhança aprendeu a distinguir o calibre pelo som.
Na viela da Dona Juraci, o portão ainda guarda as marcas de bala da semana passada. Ela varre o chão como quem reza.
Diz que limpar o sangue do menino Caíque foi o pior trabalho da vida — e olha que ela já trabalhou em casa de madame, limpando sujeira de festa e de culpa.
Agora, o pó é outro: não o do tapete, mas o que corre pelas veias dos meninos do beco, embalado em sacolés de cinquenta.
O cheiro de café se mistura ao da pólvora.
Na birosca do Zeca, a televisão fala de política e de corrupção — palavras grandes demais pra quem vive espremido entre o morro e o esquecimento.
“O problema do Brasil é a violência”, diz o âncora, engomado e seguro atrás do vidro. Aqui, a frase soa como piada.
A violência não é o problema — é o ar que se respira. O problema é não poder parar de respirar.
As crianças jogam bola no campinho de terra.
A trave é de cano velho, a bola, remendada com fita isolante. Lá em cima, dois homens observam. Estão armados, mas parecem entediados.
Um deles, de apelido Muringa, mastiga um chiclete e diz que queria ter sido jogador também.
O outro ri, dizendo que no morro, quem chuta bola demais acaba chutado pela vida.
Eles guardam o território, o ‘movimento’, a fronteira invisível que separa o asfalto do abismo.
E é curioso: aqui, as fronteiras são feitas de medo, não de muros. Todo mundo sabe até onde pode ir. A linha entre o ‘deles’ e o ‘nosso‘ é mais sagrada que mandamento.
Cruzar o beco errado é cometer pecado mortal. Mas, diferentemente da Bíblia, aqui o perdão não vem depois da confissão — vem com chumbo.
No domingo, o bar do Valdir enche.
O samba come solto, o churrasco fumaça o ar e, por um instante, o morro esquece que está sitiado.
Dona Lúcia dança, o pequeno Jonatas brinca de vender cerveja, e o riso corre solto. Até que o rádio chiado de um dos rapazes estala.
Uma mensagem curta, sussurrada no chiado das ondas: “Avisaram que o caveirão tá subindo”. O samba morre no mesmo acorde.
O silêncio que segue é pesado como caixão.
Cada um corre pra sua toca, cada olhar procura refúgio.
Os traficantes recolhem os fuzis e as garrafas, num balé ensaiado. O morro se transforma em trincheira. E o menino Jonatas, aquele da cerveja, fica ali, perdido, sem saber pra onde correr.
Quando o primeiro estampido vem, ele se joga no chão, instintivamente. E aprende — cedo demais — que no morro a vida se mede em segundos de reação.
Depois do tiroteio, o cheiro de gás lacrimogêneo desce como névoa. Os helicópteros ainda rondam, cuspindo luz sobre telhados.
O locutor do rádio, no asfalto, diz que “a operação foi um sucesso”. Aqui, o sucesso tem outro nome: sobreviver.
Na segunda-feira, o comércio reabre. Zeca limpa a vitrine, ajeita os engradados, finge normalidade.
A normalidade é uma armadura — quem tira, morre.
As crianças voltam à escola, mas o professor falta. Dizem que ficou preso na Linha Amarela, por causa da operação.
A aula vira recreio improvisado. Uma menina desenha o céu, mas o pinta de cinza.
– Por quê, Clara – pergunta Zeca, curioso.
– Porque azul não existe mais – responde ela, sem levantar os olhos.
O azul virou lenda. O morro vive em tons de concreto, ferrugem e medo.
O céu, quando não está coberto de fumaça, parece longe demais, quase uma ofensa.
E é nesse cenário que o cotidiano insiste em florescer. Dona Juraci continua vendendo quentinha — arroz, feijão, carne moída e esperança.
O gás acabou, mas ela dá um jeito. Muringa passa na porta, armado, e compra uma. Diz “bom dia” com um sorriso tímido, como se pedisse desculpa por existir.
E talvez peça mesmo. Aqui, todo mundo deve alguma coisa a alguém — e ninguém sabe exatamente o quê.
De vez em quando, um corpo desce o morro, enrolado em lençol.
A TV não mostra, o jornal não imprime. Só quem carrega o peso é o povo, que segue o cortejo em silêncio, enquanto o funk de algum barraco explode alto — não por desrespeito, mas por sobrevivência.
O som alto é o escudo contra o choro.
À noite, o morro se ilumina com luzes trêmulas: lâmpadas penduradas em fios roubados, velas acesas em altares improvisados, cigarros brilhando nas sombras.
Lá de cima, a cidade brilha como um outro planeta, inacessível.
O contraste é cruel: o luxo iluminado pela miséria.
E, ainda assim, há vida — pulsando, teimosa, quente.
Dona Juraci reza. Pede paz, mas já nem sabe o que isso quer dizer. Muringa observa o horizonte e pensa se um dia vai poder andar na praia sem medo de ser preso. O menino Jonatas dorme abraçado num carrinho de brinquedo — o único que sobrou inteiro. E o som dos tiros, mesmo quando cessam, continuam ecoando dentro de cada um.
No dia seguinte, o noticiário fala de “mais uma operação bem-sucedida”. A cidade aplaude, aplaude de longe, de longe onde o sangue não salpica.
“Bandido bom é bandido morto”, dizem. Mas esquecem que, aqui no morro, bandido e vítima moram na mesma casa, dividem o mesmo prato, o mesmo sobrenome.
Porque o que chamam de ‘violência’ é, muitas vezes, o nome que dão à pobreza quando ela resolve gritar.
E o morro grita, sim. Grita com funk, com tiro, com prece, com festa.
Grita pra não ser apagado. Grita porque o silêncio seria o fim.
No fim da tarde, o sol se põe devagar sobre o Rio, tingindo o céu de vermelho. O mesmo vermelho que mancha o chão do beco, o mesmo que tinge a bandeira da esperança.
A cidade é linda — dizem os cartões-postais. Mas ninguém tira foto do lado de cá.
E se tirasse, talvez não coubesse em moldura: uma cidade partida, onde o fuzil é rei, o medo é súdito e a vida, mera sobrevivência.
Mas há algo que resiste — teimoso, desobediente — entre os becos e as balas.
É o amor, aquele mesmo, clandestino e corajoso.
Aquele que faz nascer criança em meio à guerra, que faz mãe lutar, que faz o morro inteiro dançar mesmo quando o ‘caveirão’ronda.
Talvez seja isso que o asfalto nunca entenda: que o morro, apesar de tudo, não é só tragédia.
É também vida, barulho, cor, improviso e fé.
É o território onde o impossível se acostumou a existir.
No fim da noite, quando o silêncio finalmente pousa, o vento traz o som distante de um tamborim. E alguém canta, baixinho, lá no alto:
“Enquanto houver sol, haverá esperança.”
A música sobe e desce pelas vielas, como um recado.
E o morro, cansado, mas vivo, responde com um sopro: “A gente ainda tá aqui.”