Planta baixa do infinito

Clayton Alexandre Zocarato ‘Planta baixa do infinito’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69f2d26d-0288-83e9-9bf2-c7a405c80271
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O infinito não começa.

            Ele infiltra.

             Escorre pelas frestas daquilo que se tenta chamar de limite e, quando percebido, já contaminou a ideia inteira de contorno.

            Não há borda que o contenha, apenas a ilusão de uma parede recém-pintada, ainda úmida, onde alguém escreveu com o dedo: “Aqui termina”.

             Mas o dedo atravessa a tinta, atravessa o reboco, atravessa o tijolo e não encontra o fim — apenas mais matéria, mais silêncio, mais uma repetição do mesmo gesto em escalas que se recusam a caber na palavra ‘escala’.

            O vazio não é o oposto disso. O vazio é o método.

            Há quem construa edifícios para se proteger do infinito. Linhas retas, ângulos previsíveis, metragem quadrada registrada em cartório. Cada centímetro delimitado por contrato, cada janela com sua função: olhar para fora sem se misturar.

            A filosofia do imobiliário nasce dessa tentativa desesperada de domesticar o indomesticável: transformar o abismo em planta baixa, o tempo em prestação mensal, a angústia em cláusula.

            Um apartamento de 47 metros quadrados não é um espaço. É uma narrativa comprimida.

            Uma promessa de controle. Um pacto silencioso de que ali dentro o infinito não entra — ou, se entrar, entra educado, em forma de espelho, duplicando o que já existe, jamais criando algo novo.

             A repetição é a grande aliada da propriedade privada: corredores que levam a portas que levam a quartos que levam a janelas que mostram outras janelas. Um eco visual que se vende como segurança.

            Mas o infinito infiltra.

            Ele se manifesta no intervalo entre o elevador e o andar desejado, quando o número digital pisca e por um segundo não é número, é vertigem.

            Ele aparece no corredor vazio às três da manhã, quando o sensor de presença falha e a luz não acende — não por defeito técnico, mas por recusa ontológica.

            Ele sussurra na rachadura da parede recém-reformada, insistindo que nenhuma reforma é suficiente, que todo acabamento é apenas uma pausa superficial.

            E então surge a ideia de redenção.

            Não uma redenção grandiosa, transcendental, mas uma redenção macabra, pequena, quase burocrática.

            Redimir-se de quê? De ter acreditado que o espaço podia ser possuído.

            De ter aceitado que o vazio podia ser ignorado. De ter assinado, com caneta azul, um contrato com o nada.

            Essa redenção não salva. Ela expõe.

            Há um momento — sempre há — em que a planta do imóvel deixa de ser representação e se torna labirinto.

            As linhas, antes claras, começam a se curvar discretamente, como se obedecessem a uma lógica paralela. O quarto invade a sala sem aviso. A cozinha repete a si mesma em ângulos impossíveis.

             O banheiro se prolonga em um corredor que não existia na versão anterior do mapa. Não é um erro de leitura. É uma correção do próprio espaço.

            E nesse instante, o proprietário — palavra curiosa — percebe que não possui nada.

            Que nunca possuiu.

            Que foi, no máximo, tolerado.

            A filosofia do imobiliário ensina que valor é localização. Mas localização de quê? Onde exatamente está um lugar que se altera quando não é observado?

             Que se reorganiza na ausência de testemunha? Que multiplica suas dimensões no escuro?

            O valor, então, torna-se uma ficção compartilhada, uma convenção útil para manter o terror sob controle.

             Paga-se caro por isso. Muito caro.

            A narrativa insiste em ser linear, mas o espaço não colabora.

            Há uma porta que sempre esteve ali, mas que agora parece deslocada alguns centímetros para a esquerda.             Uma diferença mínima, quase imperceptível, mas suficiente para gerar dúvida.

            E a dúvida, uma vez instalada, cresce com uma velocidade incompatível com a metragem do ambiente.

                        Talvez o infinito não seja expansão, mas repetição.

            Talvez ele não precise de espaço adicional, apenas de variação microscópica.

            Um desvio de milímetros que, acumulado, produz um abismo.

             Não se cai de uma vez. Cai-se em parcelas. Um centímetro por dia, financiado em décadas de distração.

            A redenção macabra se oferece como solução: reconhecer o erro, abandonar a pretensão de controle, aceitar o vazio como estrutura fundamental. Mas há um preço. Sempre há.

            Aceitar o vazio implica abrir mão da distinção entre dentro e fora. Significa admitir que as paredes são simbólicas, que o teto é uma sugestão, que o chão pode, a qualquer momento, inverter sua função.

             Não há mais abrigo. Apenas continuidade.

            E, paradoxalmente, é nesse abandono que surge uma forma distorcida de liberdade.

            Sem a necessidade de manter a coerência do espaço, a mente começa a explorar possibilidades antes impensáveis.

            Um corredor pode ser atravessado sem ser percorrido

            . Uma porta pode ser aberta sem ser tocada. Um quarto pode conter todos os outros quartos simultaneamente, dependendo do ângulo de observação — ou da ausência dele.

            A narrativa se fragmenta.

            Não há mais começo, meio e fim. Apenas pontos de intensidade conectados por lacunas.

            O texto se escreve nos intervalos, nos espaços em branco, nas pausas que antes eram ignoradas.

            A linguagem tenta acompanhar, mas tropeça. Palavras se repetem com pequenas variações, como se buscassem uma precisão impossível. Frases começam e não terminam. Ou terminam antes de começar.

            Há um ruído constante, quase imperceptível, como o som de um prédio respirando.

            E talvez respire.

            Talvez cada estrutura construída seja um organismo lento, absorvendo as intenções de seus ocupantes, digerindo suas rotinas, excretando pequenas distorções que, acumuladas, alteram a própria realidade.

            Não por maldade. Por necessidade.

            O infinito precisa de veículos, e o concreto é um excelente condutor.

            A redenção, então, deixa de ser um objetivo e se torna um processo contínuo de desintegração da certeza.

            Cada vez que se reconhece a falha na percepção, algo se dissolve. Não apenas uma crença, mas uma camada inteira de interpretação.

             O mundo se torna mais instável, mais fluido, mais próximo do que talvez sempre tenha sido.

            E o vazio?

            O vazio não ameaça. Ele aguarda.

            Não há urgência no nada. Não há pressão. Apenas uma disponibilidade infinita para acolher aquilo que deixa de se sustentar.

            Cada ideia que colapsa, cada estrutura que se revela ilusória, cada parede que se desloca alguns centímetros — tudo encontra no vazio um destino inevitável e, estranhamente, adequado.

            A perturbação não está no vazio em si, mas na resistência a ele.

            Na insistência em manter formas fixas em um contexto que favorece o fluxo. Na tentativa de congelar o instante em um contrato de longo prazo.

            Na crença de que é possível habitar um ponto sem ser afetado pela totalidade.

            Mas o infinito infiltra.

            Sempre.

            E talvez — apenas talvez — a única redenção possível seja parar de construir paredes e começar a observar as rachaduras.

             Não como defeitos, mas como aberturas. Não como sinais de falha, mas como convites.

            O texto não termina aqui.

            Ele apenas interrompe sua própria continuidade para sugerir que há algo além desta linha, algo que não pode ser contido na sequência de palavras, algo que escapa à sintaxe e se instala diretamente na percepção.

             Um desvio sutil, uma alteração mínima, um deslocamento de sentido que, se seguido, leva a um lugar onde o conceito de lugar já não se aplica.

            E nesse ponto — que não é um ponto — a filosofia do imobiliário se dissolve completamente, revelando-se como o que sempre foi: uma tentativa elegante de negociar com o indizível.

            Sem sucesso.

            Mas com estilo.

Clayton Alexandre Zocarato

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Corpo sem eixo

Clayton Alexandre zocarato: ‘Corpo sem eixo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem gerada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69eb61aa-85c0-83e9-af12-2ed9d5ed01b8
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A palavra começa antes de si mesma, tropeçando num pré-sentido que não chega a nascer — um quase-verbo, um verboide, um pulsar de linguagem que ainda não decidiu ser carne ou conceito. Digo ‘existir’, mas o som já se desfaz em eco, ecoante, ecoísmo, como se a própria noção de presença fosse um erro de gramática ontológica.

Há um eu, supostamente, mas esse eu é uma hipótese mal formulada: se penso, então, talvez; se sinto, contudo; se sou, por quê? Eis o silogismo falho que me sustenta: todo corpo é vazio, eu sou corpo, logo eu me esvazio — e, no entanto, algo insiste, uma anti-lógica, uma permanência absurda que se recusa a concluir.

As coisas ao redor não são coisas, são quase-coisas, espectros de utilidade, utilitários do nada. A cadeira não serve para sentar, serve para questionar o peso do sentar; a mesa não apoia, desapoia a certeza de que há superfície. Tudo é um exercício de desfunção, uma coreografia do inútil que dança sobre o abismo do significado.

Penso em termos que não existem ainda: des-ser, intra-vácuo, mentefratura. Palavras que não nomeiam, apenas insinuam um colapso, porque nomear seria fixar, e nada aqui quer ser fixo — tudo escorre, tudo é viscosidade metafísica, um lodo de ideias que se recusam a endurecer em conceito.

Se o mundo é, então ele não deveria ser assim. Eis outro silogismo torto: o real deveria ser coerente; o real é incoerente; portanto, o real não é — ou é um erro de cálculo em alguma equação cósmica que ninguém terminou de escrever. E nós, variáveis perdidas, tentamos resolver um sistema que já nasceu insolúvel.

Há uma tentativa de sentido que pulsa como um nervo exposto, mas sentido de quê? Finalidade para quem? O intelecto se dobra sobre si mesmo, cria labirintos de razão que levam sempre ao mesmo centro vazio. Raciocínio após raciocínio, constrói-se uma arquitetura impecável de nada — uma catedral do inexistente, onde cada argumento é um vitral que filtra a luz inexistente de um sol hipotético.

O corpo, esse objeto insistente, participa do absurdo. Ele sente fome de significado, sede de propósito, mas só encontra matéria. Carne, osso, impulso elétrico — uma mecânica sem manual, um dispositivo que opera sem saber por quê. E o pensamento, que deveria iluminar, apenas amplifica a escuridão, criando sombras mais complexas.

Invento, então, uma lógica alternativa: tudo aquilo que não faz sentido é, por definição, mais verdadeiro, pois o sentido é uma imposição, uma tentativa de domesticar o caos. O absurdo, ao contrário, é livre — livre de coerência, de finalidade, de necessidade. Ele apenas é, ou melhor, ele acontece sem ser.

Surge outro neologismo: absurdância. Estado contínuo de ser sem razão suficiente. Condição fundamental de tudo que insiste em existir apesar da ausência de justificativa. E, se tudo é absurdante, então nada precisa ser explicado — o que, paradoxalmente, nos condena a explicar tudo.

Penso, logo me complico. Sinto, logo me perco. Existo, logo me contradigo. Eis a tríade que substitui qualquer certeza cartesiana. Não há ponto fixo, apenas um deslizamento constante entre possibilidades que não se realizam plenamente.

A linguagem acompanha esse colapso. Frases começam e não terminam, ideias se interrompem no meio de si mesmas, como se o próprio ato de dizer fosse sabotado por uma força interna. Talvez, porque dizer seja já trair o indizível, reduzir o infinito a uma sequência de sons. E, no entanto, continuo. Continuo a falar, a pensar, a tentar organizar o caos em estruturas reconhecíveis. Talvez seja isso que nos define: a incapacidade de aceitar o vazio sem tentar preenchê-lo, mesmo sabendo que qualquer preenchimento é ilusório.

O mundo não responde. Ele não nega nem afirma, apenas permanece — ou pseudo-permanece — como um cenário que não precisa de espectadores, mas que ainda assim nos inclui. Somos figurantes de uma peça sem roteiro, atores sem personagem, vozes sem discurso. E, então, volto ao início, que nunca foi um início. A palavra que tropeça em si mesma, o sentido que se desfaz antes de se formar. Talvez tudo isso seja apenas um exercício de linguagem, um jogo de conceitos que tenta capturar o incapturável.

Ou, talvez, seja exatamente o contrário: talvez seja o incapturável que joga conosco, que nos usa como meio para se manifestar brevemente antes de desaparecer de novo no silêncio.

E, nesse silêncio — que não é ausência de som, mas excesso de indeterminação — algo persiste. Não como certeza, nem como dúvida, mas como uma espécie de tensão contínua entre ser e não ser.

Uma tensão que não se resolve. E, talvez, nunca precise.

Clayton Alexandre Zocarato

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O amor que o tempo não soube terminar

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘O amor que o tempo não soube terminar’

(Inspirada na canção Please Forgive Me)

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem gerada pelo ChatGPT

Nem todo amor precisa continuar para permanecer.
Alguns atravessam o tempo, mudam de forma… e ainda assim vivem dentro de nós.

Entre memórias, silêncios e reencontros, essa história revela que há sentimentos que não acabam — apenas aprendem a existir de outro jeito.

Havia algo nos anos 1990 que parecia suspenso no ar, como se o tempo respirasse mais devagar, permitindo que cada instante se impregnasse de significado.

            As tardes eram longas, atravessadas por rádios chiando, fitas cassete rebobinadas com caneta e promessas que não sabiam ainda o peso que carregariam no futuro. Era uma época em que o mundo começava a se abrir, mas os sentimentos ainda eram guardados com uma espécie de pudor antigo, quase sagrado.

            E foi nesse intervalo entre o analógico e o que viria depois que nasceu aquilo que jamais terminou de existir.

            Ele lembra do primeiro olhar como quem recorda um sonho recorrente. Não havia nada de extraordinário na cena, exceto o modo como o coração decidiu interromper sua rotina e bater fora de compasso.

            Era simples, quase banal, mas carregava uma densidade inexplicável. Talvez porque, naquela década, os encontros ainda não eram mediados por telas, e o acaso tinha mais autoridade do que qualquer algoritmo jamais teria.

            Ela tinha um jeito de sorrir que parecia negar o peso do mundo. E ele, ainda imerso em dúvidas juvenis, encontrou naquele sorriso um tipo de abrigo que não sabia nomear.

            Conversavam sobre tudo e nada, como se o tempo lhes fosse infinito. Falavam de filmes, de livros que talvez nunca leriam, de músicas que marcariam seus dias — e entre elas, uma em especial, que se infiltrava nas pausas do silêncio e nas lacunas do que não era dito.

            “Please forgive me“, tocava baixo, quase como uma confissão que nenhum dos dois tinha coragem de fazer em voz alta.

            E ali, entre versos que falavam de erro, arrependimento e amor persistente, eles construíam um território invisível, onde cada gesto ganhava um significado que o mundo exterior não compreendia.

            Havia uma espécie de ingenuidade naquele vínculo, mas também uma profundidade que só os encontros verdadeiros carregam.

            Porque, no fundo, amar nunca foi sobre saber — sempre foi sobre sentir.

            Mas o tempo, esse escultor impiedoso, começou a intervir.

            A década avançava, trazendo consigo suas mudanças. A modernidade insinuava-se nas pequenas coisas: novos aparelhos, novas formas de comunicação, novas urgências.

            E com ela, vieram também as distâncias — não apenas geográficas, mas existenciais. Cada um seguiu um caminho que parecia inevitável, como se a vida tivesse decidido que aquele encontro pertencia mais à memória do que ao futuro.

            Eles não brigaram. Não houve ruptura dramática. Apenas um afastamento lento, quase imperceptível, como o apagar de uma luz ao entardecer.

            E talvez tenha sido isso que mais doeu: a ausência de um fim claro.

            Porque aquilo que não se encerra continua existindo de alguma forma, insistindo em permanecer nos cantos da consciência.

            Os anos passaram.

            E com eles, vieram as responsabilidades, os erros, as escolhas que moldam quem nos tornamos. Ele construiu uma vida, como todos fazem. Trabalhou, amou outras vezes, errou outras tantas.

            Mas havia sempre uma espécie de eco, uma lembrança persistente que surgia nos momentos mais inesperados. Um cheiro, uma música, um entardecer específico — e lá estava ela, intacta no tempo.

            “Please forgive me, I can’t stop loving you…

            A canção surgia como um portal. E não importava quantos anos tivessem passado, bastava ouvi-la para que tudo retornasse com uma nitidez quase cruel.

            Não como saudade comum, mas como algo mais profundo — uma consciência de que certas conexões não obedecem às regras do tempo.

            Ele começou a se perguntar se aquilo era amor ou apenas memória idealizada.             Afinal, o que permanece não é necessariamente o que foi real, mas aquilo que escolhemos preservar.

            No entanto, havia algo naquela lembrança que resistia à análise racional. Não era perfeita, não era romantizada demais — era simplesmente viva.

            E então, num daqueles acasos que parecem ensaiados pelo próprio destino, eles se reencontraram.

            Não foi como nos filmes. Não houve música ao fundo nem câmera lenta. Foi simples, quase comum. Um olhar que reconhece antes mesmo da razão compreender.  Um silêncio carregado de tudo o que nunca foi dito. E, no entanto, havia ali uma estranha familiaridade, como se o tempo tivesse dado uma volta completa apenas para colocá-los novamente frente a frente.

            Ela ainda sorria daquele mesmo jeito.

            Mas havia algo diferente. Não no sorriso em si, mas na forma como ele o recebia. Antes, era descoberta.

            Agora, era reconhecimento. E talvez essa seja a diferença fundamental entre o amor jovem e o amor que atravessa o tempo: o primeiro surpreende, o segundo confirma.

            Sobre a vida, sobre os caminhos que seguiram, sobre o que perderam e o que encontraram. E em meio a essas palavras, havia uma corrente invisível que os conectava ao passado. Não como um peso, mas como uma base — algo que, de alguma forma, nunca deixou de existir.

            Ele percebeu então que o tempo não havia apagado o que sentiram. Apenas havia transformado.

            Porque o amor, quando verdadeiro, não precisa permanecer constante para continuar sendo real.

             Ele pode mudar de forma, de intensidade, de presença — mas não desaparece completamente. Torna-se parte daquilo que somos, influenciando nossas escolhas, nossos medos, nossas esperanças.

            E naquele reencontro, não havia mais a urgência dos anos 90, nem a ingenuidade dos primeiros sentimentos.

            Havia algo mais profundo: uma aceitação tranquila do que foram e do que ainda poderiam ser, mesmo que de maneira diferente.

            A música, inevitavelmente, voltou a surgir.

  Please forgive me, if I need you like I do…

            Eles riram ao perceber como aquela canção ainda os atravessava. Não como antes, mas com uma nova camada de significado.

            Antes, era promessa. Agora, era memória. E, de certa forma, também era reconciliação.

            Porque talvez o amor não seja sobre permanecer juntos, mas sobre aquilo que permanece em nós, independentemente das circunstâncias.

            Ao se despedirem, não houveram promessas grandiosas. Não houveram tentativas de recuperar o que o tempo já havia transformado.

            Houve apenas um entendimento silencioso de que aquele encontro, mesmo interrompido, nunca foi em vão.

            Ele seguiu seu caminho com uma leveza diferente.

            Não porque tivesse recuperado algo perdido, mas porque finalmente compreendeu que certas histórias não precisam de continuidade para terem significado.             Elas existem como fragmentos de eternidade dentro de nós, lembrando-nos de quem fomos e, de alguma forma, de quem ainda somos.

            E assim, entre lembranças, músicas e o lento passar dos anos, ele entendeu que o amor — aquele amor dos anos 1990 — não havia terminado.

            Apenas havia aprendido a existir de outro jeito.

            Mas essa constatação não veio como um alívio imediato. Pelo contrário, trouxe consigo uma densidade nova, quase filosófica, como se o sentimento precisasse agora ser compreendido não mais pela emoção crua da juventude, mas por uma consciência amadurecida, atravessada pelo tempo, pelas perdas e pelas inevitáveis transformações do ser.

            Porque há uma diferença profunda entre sentir e compreender o que se sente.

            Na juventude, o amor se impõe. Ele não pede licença, não exige justificativa, não se preocupa com coerência.

             Ele simplesmente acontece, como um fenômeno natural, quase biológico, que toma o corpo e reorganiza o mundo ao redor.

            Já na maturidade, o amor se torna também um problema filosófico.

             Ele precisa ser interpretado, revisitado, questionado. E, ainda assim, escapa.

            Era isso que o inquietava.

            Como algo que aparentemente havia ficado no passado podia ainda pulsar com tanta presença no agora? Seria memória? Seria desejo? Ou haveria, de fato, uma dimensão do amor que transcende o tempo cronológico?

            A canção voltava, como sempre.

            Não mais apenas como trilha sonora de uma lembrança, mas como um texto, quase um tratado emocional condensado em poucos versos. Ele começou a ouvi-la com outro tipo de atenção, como quem tenta decifrar não apenas a música, mas a si mesmo através dela.

            Please forgive me, I know not what I do…

            Havia algo de profundamente humano nesse pedido. O reconhecimento da própria limitação.

            A consciência de que amar, muitas vezes, é agir sem plena compreensão das consequências. É errar, insistir, retornar. É desejar mesmo quando a razão aconselha o contrário.

            E então ele pensou: talvez o amor verdadeiro não seja aquele que acerta, mas aquele que persiste apesar do erro.

            Essa ideia o atravessou com força.

            Durante anos, ele havia tentado organizar sua vida sob a lógica da coerência. Escolhas racionais, caminhos previsíveis, relações que fizessem sentido dentro de um projeto de estabilidade.

             Mas aquele amor antigo — ou melhor, aquela presença contínua — desafiava essa estrutura.

             Não fazia sentido permanecer, mas permanecia. Não era útil, mas era essencial.             Não era atual, mas era vivo.

            E isso o levava a outra reflexão: nem tudo que é verdadeiro precisa ser funcional.

            Vivemos, pensou ele, numa época que exige utilidade de tudo — até dos sentimentos. Amar deve levar a algo: a uma construção, a uma família, a uma história contínua.

             Mas e quando o amor não leva a lugar algum, e ainda assim transforma tudo?

            Talvez esse seja o tipo mais raro de amor. Aquele que não se realiza externamente, mas que, por isso mesmo, se aprofunda internamente.

            Please forgive me, I can’t stop loving you…” novamente.

            Ele percebeu que essa frase já não era mais um lamento. Era quase uma constatação ontológica.

            Como se amar não fosse uma escolha, mas uma condição. Não algo que se inicia ou se encerra, mas algo que simplesmente é o que é em si mesmo.

            E então surgiu uma ideia ainda mais inquietante: e se o amor não pertencesse ao tempo?

            Se tudo o que vivemos está submetido ao tempo — nascimento, crescimento, declínio — talvez o amor seja uma das poucas experiências que desafiam essa lógica.             Não porque ele não mude, mas porque ele não desaparece completamente. Ele se transforma, se dilui, se reconfigura, mas não se anula.

            Ele se torna parte da estrutura do ser.

            Nesse ponto, a lembrança dela já não era mais apenas pessoal. Era quase simbólica.

            Representava não apenas um encontro específico, mas a possibilidade de um tipo de conexão que ultrapassa circunstâncias. Ela se tornava, em sua memória, menos uma pessoa concreta e mais uma ideia viva — a ideia de que é possível tocar o outro de maneira irreversível.

            E isso o levou a uma pergunta inevitável: quantas pessoas carregamos dentro de nós sem percebermos?

            Talvez sejamos feitos não apenas do que vivemos, mas de todos os encontros que nos atravessaram profundamente.

            Pessoas que, mesmo ausentes, continuam operando silenciosamente em nossas escolhas, em nossos medos, em nossas formas de amar.

            Nesse sentido, ninguém vai embora completamente.

            E talvez seja por isso que a saudade dói de um jeito tão específico. Não é apenas a falta do outro — é o confronto com uma parte de nós mesmos que só existia na presença daquele outro.

            A música, mais uma vez:

            Please forgive me, if I need you like I do…

            Agora, essa necessidade não era mais literal. Não se tratava de querer a presença física, o reencontro constante, a reconstrução de algo perdido.

            Era uma necessidade mais sutil e, ao mesmo tempo, mais profunda: a necessidade de reconhecer que aquilo existiu e que continua existindo de alguma forma.

            Porque negar seria empobrecer a própria experiência de vida.

            Ele começou então a perceber que o reencontro não tinha sido sobre retomar, mas sobre legitimar. Como se ambos, ao se verem novamente, tivessem autorizado a memória a deixar de ser apenas nostalgia e se tornar compreensão.

            E há algo de profundamente libertador nisso.

            Quando deixamos de lutar contra o passado e passamos a integrá-lo, ele perde seu peso e ganha sentido. Não como algo que nos prende, mas como algo que nos compõe.

            Ainda assim, havia uma melancolia inevitável.

            Não a melancolia desesperada da perda, mas uma melancolia lúcida, quase serena. A consciência de que algumas coisas são belas justamente porque não permanecem da forma como começaram.

            Porque, se permanecessem, talvez se tornassem comuns, previsíveis, desgastadas.

            O tempo, nesse caso, não destruiu — refinou.

            Transformou o amor vivido em algo mais amplo: uma espécie de sensibilidade, uma abertura para o mundo, uma capacidade maior de sentir.

            E isso o levou a uma última reflexão, talvez a mais difícil de aceitar: nem todo amor é feito para ser vivido plenamente no plano concreto.

            Alguns existem como experiência formadora, como acontecimento interno, como marca. Não são histórias para serem continuadas, mas para serem compreendidas.

            E, paradoxalmente, são essas que mais permanecem.

            “Please forgive me…

            Dessa vez, ele não ouviu a frase como um pedido dirigido a ela. Mas a si mesmo.

            Perdoar-se por não ter entendido tudo na época. Por não ter sabido nomear o que sentia. Por ter deixado escapar algo que só mais tarde compreenderia em sua profundidade.

            Mas também por ter vivido.

            Porque, no fim, não há erro em sentir intensamente. O erro, talvez, esteja em tentar reduzir o amor a algo que ele não é: simples, linear, controlável.

            O amor é excesso. É transbordamento. É aquilo que escapa.

            E naquele instante — já distante dos anos 1990, mas ainda atravessado por eles — ele finalmente aceitou que algumas histórias não precisam de conclusão.

            Elas continuam.

            Não no mundo visível, não nas rotinas compartilhadas, não nas promessas cumpridas.

            Mas no pensamento, na memória, na forma como vemos o mundo depois delas.

            E isso, de alguma forma, é uma forma de eternidade.

            A canção terminou.

            Mas, como sempre, deixou algo no ar.

            Não um vazio — mas uma presença silenciosa.

            Como o próprio amor.

            E foi nesse silêncio, mais eloquente do que qualquer palavra, que algo novo começou a se insinuar dentro dele.

             Não era a repetição da saudade, nem o retorno de uma dor antiga. Era diferente.  Mais suave, mais luminoso, quase como se o sentimento, depois de atravessar tantos anos e tantas formas, estivesse finalmente encontrando um modo de existir sem ferir.

            Porque há um momento — raro, mas possível — em que o amor deixa de ser ausência e se torna possibilidade.

            Ele não soube identificar exatamente quando essa mudança começou. Talvez tenha sido no instante em que deixou de perguntar “e se tivesse sido diferente?” E passou a se perguntar e se ainda puder ser, de outro modo?”.

            Essa pequena inflexão no pensamento abriu um espaço inesperado, como uma janela em uma casa antiga que, por muito tempo, permaneceu fechada.

            E pela primeira vez em muitos anos, a lembrança dela não veio acompanhada de peso, mas de leveza.

            Ele voltou a pensar naquele reencontro.

            No modo como os olhares se sustentaram sem pressa. Na forma como o tempo, por alguns instantes, pareceu suspenso — não como nos anos 1990, quando tudo era intensidade e descoberta, mas agora como um reconhecimento tranquilo, quase sereno, de algo que havia resistido.

            E se aquilo não fosse apenas passado?

            Essa pergunta, que antes pareceria ingênua, agora se apresentava com uma dignidade inesperada. Não como ilusão, mas como hipótese. Não como fuga da realidade, mas como abertura para ela.

            Porque, afinal, o que define o tempo de um sentimento?

            A cronologia ou a verdade que ele carrega?

            Ele começou a perceber que talvez tivesse sido rígido demais ao interpretar a própria história.

             Como se o amor só pudesse ser válido dentro de certos formatos: início, meio, continuidade. Como se tudo aquilo que escapasse desse modelo estivesse condenado à categoria de inacabado”.

            Mas e se o inacabado não for ausência de sentido — e sim excesso?

            E se algumas histórias permanecem abertas não porque falharam, mas porque não cabem em um único ciclo?

            A ideia o inquietou, mas também o aqueceu.

            Porque, ao pensá-la, ele não sentia mais apenas nostalgia. Havia algo de vivo, algo que apontava não para trás, mas para frente. Como se o passado, em vez de encerrar possibilidades, estivesse, na verdade, alimentando novas formas de existência.

            A música voltou, quase como se acompanhasse essa transformação interna.

            Please forgive me, if I need you like I do…

            Mas agora, havia um detalhe diferente: ele não ouvia mais essa frase como um apego ao que foi.

            Havia nela um pedido que também era convite. Como se o amor, mesmo transformado, ainda encontrasse caminhos para se manifestar.

            E então ele pensou nela — não como lembrança fixa, mas como presença possível no presente.

            Onde estaria agora? O que sentiria? Será que também carregava aquele mesmo eco? Ou teria seguido de forma mais leve, deixando tudo no passado?

            Essas perguntas já não doíam.

            Elas tinham, curiosamente, um tom de esperança.

            Porque, pela primeira vez, ele não precisava que as respostas confirmassem nada.

            Bastava saber que o vínculo existiu — e que, de alguma forma, ainda vibrava.

            E talvez fosse isso que o amor amadurecido oferece: não a necessidade de possuir, mas a capacidade de reconhecer.

            Reconhecer que houve verdade. Que houve encontro. Que houve transformação.

            E que isso, por si só, já é extraordinário.

            Ainda assim, algo dentro dele ousava ir além.

            Não como insistência, mas como delicadeza.

            E se o reencontro não tivesse sido apenas um fechamento, mas um recomeço silencioso?

            Ele se lembrou do último olhar que trocaram ao se despedirem. Havia ali uma pausa — breve, quase imperceptível — mas carregada de algo que não se disse. Não era arrependimento. Não era urgência. Era… possibilidade.

            Uma possibilidade tímida, quase envergonhada de existir.

            Mas real.

            E foi nesse ponto que ele compreendeu algo essencial: a esperança não precisa ser grandiosa para ser verdadeira.

            Às vezes, ela se apresenta em gestos mínimos. Em pensamentos que persistem.             Em uma música que insiste em voltar. Em um nome que, mesmo não sendo dito, continua habitando o silêncio.

            Ele não sabia se voltariam a se encontrar.

            Não sabia se o tempo, novamente, cruzaria seus caminhos de forma concreta. Mas isso já não era o mais importante.

            Porque, de alguma forma, eles já haviam se reencontrado em um nível mais profundo — aquele onde o passado deixa de ser distância e se torna presença integrada.

            E, ainda assim, havia espaço para o futuro.

            Um futuro que não precisava repetir o que foi, nem corrigir o que não aconteceu.  Um futuro que poderia simplesmente acolher aquilo que permanece.

    Please forgive me, I can’t stop loving you…

            Dessa vez, ele sorriu ao ouvir.

            Não havia mais conflito nessa frase.

            Amar não era mais um problema a ser resolvido, nem uma memória a ser superada. Era uma condição tranquila, quase serena, como quem aceita a própria história sem resistência.

            E, curiosamente, foi essa aceitação que abriu espaço para algo novo.

            Porque quando deixamos de nos prender ao que deveria ter sido, começamos a perceber o que ainda pode ser.

            Ele passou a caminhar com outra disposição.

            Os dias, antes atravessados por uma nostalgia difusa, começaram a ganhar uma tonalidade diferente.

             Não era euforia, nem expectativa exagerada. Era uma espécie de abertura — uma sensibilidade renovada para o encontro, para o acaso, para aquilo que a vida ainda poderia oferecer.

            E isso incluía, inevitavelmente, a possibilidade de revê-la.

            Mas, se isso acontecesse, não seria mais como antes.

            Não haveria a urgência da juventude, nem o medo de perder. Haveria algo mais raro: a escolha consciente de estar.

            Porque o amor que atravessa o tempo aprende uma coisa fundamental — ele deixa de ser necessidade e se torna presença.

            E presença não se impõe. Ela se oferece.

            Talvez, pensou ele, o verdadeiro reencontro ainda não tenha acontecido.

            Talvez tudo até agora tenha sido apenas preparação.

            Não no sentido de destino inevitável, mas de maturidade suficiente para que, se um novo encontro acontecer, ele seja vivido de forma inteira — sem as interrupções do medo, da imaturidade ou da falta de compreensão.

            E, se não acontecer, ainda assim estará tudo bem.

            Porque o amor já cumpriu seu papel mais profundo: transformá-lo.

            Ainda assim, ele não negava — havia um desejo suave, quase silencioso, de que a vida lhes desse mais uma chance. Não para repetir o passado, mas para reinventá-lo.

            Para olhar novamente, mas com outros olhos.

            Para tocar, mas com outra consciência.

            Para amar, não apesar do tempo, mas através dele.

            A noite caiu devagar, como nos anos 1990.

            E, por um instante, ele teve a sensação de que o tempo não era uma linha, mas um círculo — onde certos encontros não se perdem, apenas aguardam o momento certo de se revelar novamente.

            A música, como sempre, encontrou seu caminho de volta.

            Mas dessa vez, não trouxe apenas memória.

            Trouxe futuro.

            E, no silêncio que se seguiu, ele percebeu que o amor — aquele amor — já não era apenas saudade.

            Era também esperança.

Clayton Alexandre Zocarato

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Entre a água e o amor

Clayton alexandre Zocarato: ‘Entre a água e o amor’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Há algo na água que nunca se explica por completo, mesmo quando a vemos escorrer entre os dedos como se fosse apenas matéria obediente à gravidade.

            A água parece simples, mas guarda em si um silêncio antigo, uma memória de tudo o que já tocou. Assim também é o amor: pensamos compreendê-lo quando ele nos atravessa, quando ocupa o corpo com sua presença leve e inevitável, mas basta um instante para que ele mude de forma, escorra, evapore, desapareça sem aviso, deixando apenas um vestígio úmido na pele da lembrança.

            E é nesse desaparecer que ele mais se revela.

            O amor nasce como a água brota: inesperado, subterrâneo, vindo de um lugar que não sabíamos existir. Primeiro é um fio tímido, quase imperceptível, um rumor que se anuncia antes de se mostrar.

            Depois cresce, se alarga, toma espaço, contorna pedras, insiste. A água nunca pede licença; o amor também não. Ambos chegam como quem sempre esteve ali, como se fossem uma continuação natural daquilo que somos.

             E, de repente, já não sabemos mais viver sem o seu fluxo constante, sem o seu som repetido, quase musical, preenchendo os vazios que antes eram apenas silêncio.

            Mas o que mais assombra não é o nascimento, é a transformação. A água, quando aquecida, se torna invisível. Sobe, desaparece, se desfaz no ar como um suspiro que ninguém consegue segurar.

             O amor também conhece esse movimento. Ele se eleva sem aviso, deixa de ser presença para virar ausência, e quando percebemos, já não há corpo, já não há toque — apenas um vapor difuso, um eco que insiste em permanecer, embora não se possa mais tocar.

            Como compreender algo que existiu com tanta intensidade e que, ainda assim, se dissolve como se nunca tivesse sido?

            Há uma melancolia própria nesse ciclo, como uma canção tocada em tom menor, repetindo acordes que parecem familiares, mas nunca idênticos.

            A água que escorre hoje não é a mesma de ontem, e o amor que sentimos agora não é o mesmo que nos habitou antes. Ainda assim, carregam algo em comum: uma essência que se recusa a ser fixa.

            São feitos de passagem. São feitos de tempo.

            E o tempo, esse grande regente silencioso, conduz tanto a água quanto o amor em ritmos que não controlamos.

            Há dias em que o amor é chuva intensa, quase tempestade, invadindo tudo, transbordando, ocupando cada espaço disponível. Nesses dias, não há como fugir: somos inundados, tomados por uma sensação que mistura beleza e excesso, como se viver fosse demais.

            Mas há também os períodos de seca, quando o amor se retrai, se esconde, e tudo o que resta é um solo rachado, esperando por algo que talvez não volte.

            A água, nesses momentos, parece uma lembrança distante — e o amor, uma hipótese.

            E ainda assim, mesmo quando desaparecem, ambos deixam marcas. A água molda a pedra com sua insistência suave; o amor molda o coração com sua passagem silenciosa.

            Nenhum dos dois precisa de força para transformar — basta tempo. Basta permanecer, mesmo que em outra forma, mesmo que invisível.

            Porque a água que evapora retorna como chuva, e o amor que se desfaz talvez encontre outro caminho para existir, ainda que não seja mais reconhecível.

            Há uma música escondida nesse processo, algo que não se ouve com os ouvidos, mas com aquilo que resta quando o som termina.

            É um ritmo feito de idas e vindas, de presenças e ausências, de começos que já carregam em si o germe do fim. A água canta quando corre, quando cai, quando evapora — e o amor, de alguma forma, acompanha essa melodia, como se ambos fossem parte da mesma composição, executada em diferentes instrumentos.

            Talvez seja por isso que nos sentimos tão perdidos quando o amor se vai. Não é apenas a perda de algo que estava ali, mas a ruptura de um fluxo, a interrupção de uma música que parecia contínua.

            Ficamos como quem observa um leito seco, tentando lembrar o som da água que já passou por ali.

            E quanto mais tentamos segurar, mais escapa. Porque nem a água nem o amor pertencem a quem tenta possuí-los.

            Eles existem na liberdade de se mover, de mudar, de desaparecer.

            E há beleza nisso, embora doa.

             Há beleza na impermanência, na ideia de que algo pode ser intenso sem ser eterno. A água não precisa permanecer para justificar sua existência; o amor também não. Ambos cumprem seu papel no instante em que são, no toque que deixam, na transformação que provocam.

             O resto é memória — e a memória, assim como o vapor, é uma forma sutil de permanência.

            No fim, talvez amar seja aceitar essa natureza líquida, essa incapacidade de fixar o que por essência é movimento.

             Talvez seja compreender que o desaparecimento não anula o que foi vivido, assim como a água que evapora não deixa de ter existido.

            Ela apenas muda de estado, encontra outro lugar, outro tempo, outro modo de ser.

            E nós ficamos aqui, entre o que escorre e o que evapora, tentando dar nome ao indizível, tentando transformar em palavras aquilo que, como a água e o amor, insiste em escapar.

Clayton Alexandre Zocarato

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homemágua – hidropoema em descompasso

Clayton Alexandre Zocarato

‘homemágua – hidropoema em descompasso’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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torneira do pensamento
goteja-mente
mente-goteja

um homem se dissolve em copos de silêncio
e bebe a si mesmo
em goles de ontem

azulcrânio
veiafluviária
corposalgado
respirágua

o tempo escorre
pela palma da mão
— ampulheta líquida —

        gota  
   gota  
gota

gota
mar

ele é mar
mas esquece de ser onda

no café da manhã
mastiga sede
engole nuvens
e arrota rios interrompidos

plim
plim
plim

notícias pingam na testa do dia
informágua
dadoslíquidos
transparêncifra

um peixe atravessa o pensamento
sem pedir licença
sem pedir pulmão

        homem  
   homágua 
 aguahomem

omemágua

(des)forma

a palavra evapora
condensa
chove dentro da boca

há desertos no olhar
e oceanos na língua

ele diz:
— sede

mas o som sai:
— cidade

e ninguém percebe
que a garganta é um mapa rachado

        beba  
   beba-se 
 beba-nos

bebe

até que o corpo
vire verbo

e o verbo
escorra

fim?

não.

ciclo.

Clayton Alexandre Zocarato

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O ruído e o vazio entre nós

Clayton Alexandre Zocarato ‘O ruído e o vazio entre nós’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Há algo de profundamente inquietante neste tempo — não apenas o excesso de vozes, mas a rarefação do sentido. Em Filosofia, desde Sócrates, o não saber era o ponto de partida para o diálogo; hoje, parece ser aquilo que mais tememos admitir.

            Entre a ágora de Atenas e os fluxos digitais de um presente fragmentado, algo se perdeu: a coragem de sustentar a dúvida. Diga, leitor — quando foi a última vez que você permaneceu em silêncio não por evasão, mas por escuta verdadeira?

            O tempo, que em Santo Agostinho era uma experiência íntima e elusiva, tornou-se agora uma sucessão de instantes descartáveis. Já não habitamos o tempo; consumimos ferozmente seus vértices.

            E, no espaço — esse que Martin Heidegger via como morada do ser — nos deslocamos sem enraizamento, atravessando lugares sem realmente estar neles. Que tipo de linguagem pode emergir de um mundo onde nem o tempo nem o espaço são vividos, mas apenas atravessados?

            A linguagem, outrora ponte, parece hoje ruína. Em Clarice Lispector, a palavra era abismo e revelação; em Fernando Pessoa, multiplicidade e máscara; já em Heráclito, o logos era fluxo — um rio que jamais se detém.

             E você, leitor, ainda acredita que suas palavras alcançam alguém — ou apenas ecoam em um vazio polido por algoritmos?

            Talvez o que chamamos de comunicação tenha se tornado uma coreografia de superfícies: falamos para não calar, respondemos para não ouvir, opinamos para não pensar. O agir comunicativo — esse ideal de reciprocidade e reconhecimento — exige mais do que presença: exige risco.

             O risco de ser transformado pelo outro. Mas em uma sociedade que evita o desconforto como quem foge de uma ferida aberta, quem ainda aceita esse risco?

            E então resta a pergunta, incômoda e persistente: se não há mais horizonte comum, se o mundo compartilhado se dissolve em versões privadas da realidade, o que exatamente tentamos dizer uns aos outros? Ou já desistimos — silenciosamente — de sermos compreendidos? Talvez o verdadeiro colapso não seja da fala, mas da escuta.

            E, nesse cenário, cada palavra dita carrega uma suspeita: ainda há alguém aí, do outro lado, capaz de ouvir — ou estamos apenas ensaiando, sozinhos, o som da própria ausência?

                        Se a resposta nos escapa, talvez seja porque já não sabemos formular a pergunta.            

            Em Ludwig Wittgenstein, os limites da linguagem eram também os limites do mundo; mas o que acontece quando a linguagem não encontra mais mundo algum para delimitar?

            Quando as palavras já não apontam para experiências partilhadas, mas para simulacros privados, filtrados e editados? Você ainda fala para ser compreendido — ou apenas para não desaparecer?

            Há, no entanto, um vestígio que insiste. Mesmo entre ruínas, algo pulsa.

            Em Hannah Arendt, o espaço público era o lugar onde a ação e a palavra revelavam quem somos. Mas que ‘quem’ pode emergir quando o espaço público se fragmenta em bolhas estanques, onde cada voz é apenas reforço de si mesma?

            Talvez estejamos diante de uma nova forma de solidão: aquela que se experimenta em meio à multidão de discursos.

            E ainda assim — por mais paradoxal que pareça — continuamos falando. Como se, em algum lugar recôndito, persistisse a esperança de que alguém escute.

             Como se a linguagem, mesmo ferida, ainda carregasse em si a promessa de encontro. Não seria essa insistência, quase teimosa, uma forma de resistência? Ou será apenas hábito, automatismo, ruído?

            Em Albert Camus, o absurdo não anulava a ação; ao contrário, exigia uma resposta. Talvez falar — ainda falar — seja nossa forma mais silenciosa de revolta contra o vazio.

            Mas revolta para quem, se já não acreditamos no outro? E então volto a você, leitor: quando suas palavras atravessam o espaço incerto entre si e o outro, elas ainda carregam um destino — ou apenas um impulso?

            Talvez seja preciso reaprender. Reaprender o tempo da escuta, o peso de uma pausa, o desconforto fecundo da dúvida. Reaprender a linguagem não como ferramenta, mas como encontro.

            Pois, se tudo se perdeu — horizontes, sentidos, referências — resta ainda a possibilidade de reconstrução. Mas ela começa, inevitavelmente, com um gesto simples e radical: permitir-se não saber, e ainda assim permanecer.

            E então, antes da próxima palavra, antes da próxima resposta apressada, detenha-se.

            Pergunte-se — não ao mundo, mas a si mesmo: há ainda algo que mereça ser dito? E mais grave, mais decisivo: há ainda alguém, em você, disposto a ouvir?

            E mais grave, mais decisivo: há ainda alguém, em você, disposto a ouvir?

            Talvez a questão não seja apenas se o outro nos ouve, mas se ainda habitamos a linguagem como morada — ou se apenas a utilizamos como instrumento.

            Voltando a Heidegger, a linguagem não era um meio neutro, mas ‘a casa do ser’. Ora, o que acontece quando essa casa se torna inabitável?

            Quando cada palavra é suspeita, cada frase já nasce atravessada por ironia, defesa ou cálculo? Não será que, antes de perdermos o outro, perdemos o chão onde o encontro poderia acontecer?

            Você percebe como, mesmo agora, enquanto lê, algo em você oscila entre atenção e dispersão? Entre o desejo de permanecer e a urgência de partir? Esse movimento não é trivial — ele diz algo sobre o nosso tempo.

             Em Zygmunt Bauman, vivemos uma modernidade líquida, onde vínculos se desfazem antes mesmo de se consolidarem. Mas o que é uma conversa senão um vínculo temporário que exige permanência? Sem permanência, o diálogo se torna impossível — e o que resta é apenas a troca de sinais.

            E, no entanto, continuamos a nos expressar. Escrevemos, comentamos, reagimos. Como se estivéssemos constantemente à beira de dizer algo essencial — mas nunca chegássemos lá.

            Em Roland Barthes, a linguagem carrega sempre um excesso, algo que escapa à intenção. Mas e se, hoje, o que escapa não for mais o excesso, e sim a própria intenção?        

            Quando tudo é dito sem risco, sem implicação, sem consequência, o que ainda pode ser verdadeiramente dito?

            Talvez o problema não seja o barulho, mas a anestesia. Já não nos ferimos com palavras — e isso, à primeira vista, parece um progresso. Mas não era justamente essa capacidade de ferir — e de ser ferido — que tornava possível a transformação?

            Em Friedrich Nietzsche, o pensamento não deveria ser confortável, mas perturbador. Diga, então: quando foi a última vez que uma conversa deslocou você de si mesmo?

            Há uma economia do afeto em jogo. Falamos apenas o necessário, ouvimos apenas o conveniente, respondemos apenas o esperado. Tudo é medido, filtrado, ajustado. Mas o que acontece com aquilo que não cabe nesse cálculo?

            Onde vão as palavras excessivas, desajeitadas, incertas — aquelas que, justamente por não se encaixarem, poderiam abrir algo novo? Não será que estamos perdendo não apenas o sentido, mas a possibilidade mesma de criá-lo?

            Em Walter Benjamin, a narrativa tradicional carregava uma experiência compartilhada, algo que passava de geração em geração. Hoje, no entanto, acumulamos informações, mas raramente experiências. E sem experiência, a linguagem se esvazia.    

            Você sente isso? A diferença entre saber algo e ter algo a dizer sobre isso? Entre repetir e realmente comunicar?

            Talvez o silêncio que tememos não seja o do outro, mas o nosso próprio.

             Um silêncio que nos confronta com a ausência de conteúdo, de direção, de sentido. Por isso falamos tanto: para não o escutar. Mas e se, em vez de evitá-lo, o atravessássemos?

            Em Rainer Maria Rilke, era preciso amar as perguntas, viver dentro delas. Mas quem ainda tem paciência para uma pergunta que não se resolve?

            E então voltamos ao início — não como repetição, mas como espiral. Há uma nostalgia no ar, sim, mas talvez ela não seja de um tempo real, e sim de uma possibilidade perdida: a de que a linguagem pudesse, de fato, nos aproximar.

             Mas essa possibilidade não desapareceu completamente. Ela se retraiu, tornou-se rara, exigente. Não basta mais falar — é preciso sustentar o que se diz. Não basta ouvir — é preciso deixar-se afetar.

            Você está disposto a isso?

            Porque, no fundo, é disso que se trata: de uma escolha. Continuar na superfície, onde tudo é rápido, leve, descartável — ou arriscar a profundidade, onde cada palavra pesa, cada silêncio significa, cada encontro transforma.

            Não há garantia de sucesso. Não há promessa de entendimento. Há apenas a possibilidade.

            E talvez seja justamente isso que ainda nos resta: a possibilidade de que, em meio ao ruído, alguém — em algum lugar — ainda esteja tentando dizer algo verdadeiro. E que, por um instante raro, duas consciências se encontrem não apesar da linguagem, mas por causa dela.

            Mas esse encontro não acontece por acaso. Ele exige tempo — aquele mesmo tempo que evitamos.

             Exige presença — aquela mesma que fragmentamos. Exige coragem — aquela que disfarçamos de indiferença. Em Simone Weil, a atenção era a forma mais pura de generosidade. Talvez ouvir — verdadeiramente ouvir — seja hoje o gesto mais radical que ainda podemos oferecer.

            E então, mais uma vez, a pergunta retorna, não como provocação, mas como necessidade: quando você fala, ainda acredita que alguém pode realmente lhe ouvir?

            Ou, mais fundo ainda — você acredita que ainda há algo em você que valha a pena ser ouvido?

            Se a resposta vacila, não a descarte. Permaneça nela. Pois talvez seja justamente nessa hesitação, nesse intervalo entre o dizer e o não dizer, que algo começa a se formar. Algo que ainda não tem nome, mas que insiste.

            E é dessa insistência — frágil, incerta, quase imperceptível — que talvez possa nascer, novamente, o sentido.

            E é dessa insistência — frágil, incerta, quase imperceptível — que talvez possa nascer, novamente, o sentido.

            Mas o sentido, convém admitir, nunca foi dado: ele sempre exigiu trabalho.         Hannah Arendt refletiu, pensar era uma atividade solitária, mas não isolada — exigia o diálogo silencioso consigo mesmo.

             O que acontece, então, quando já não suportamos sequer a própria companhia? Quando o fluxo constante de estímulos substitui esse diálogo interior?

            Talvez estejamos perdendo não apenas a capacidade de conversar com o outro, mas a de sustentar uma conversa consigo. E sem esse primeiro interlocutor — você mesmo — o que resta a dizer ao mundo?

            Há um esvaziamento que não é ruidoso, mas gradual. Ele se infiltra nas pequenas concessões: na resposta automática, na opinião herdada, na escuta interrompida.

            Você já percebeu quantas vezes responde antes mesmo de compreender? Quantas vezes fala não para dizer algo, mas para manter-se presente, visível, existente?

            Em Jean-Paul Sartre, a existência precede a essência — somos aquilo que fazemos. Mas, se o que fazemos é apenas repetir, reagir, reproduzir, que tipo de existência estamos construindo?

            E talvez aqui se revele uma dimensão ainda mais inquietante: não é apenas o outro que deixou de nos ouvir — nós também deixamos de escutar aquilo que dizemos.      As palavras se tornaram leves demais para nos comprometer.

             Elas já não nos vinculam, não nos obrigam, não nos transformam. Mas uma linguagem sem compromisso não é linguagem — é ruído organizado.

            Você sente o peso dessa afirmação?

            Ou ela já escorrega, como tantas outras, sem deixar marcas?

            Em George Steiner, havia a preocupação com a “retirada da palavra” — o momento em que a linguagem perde sua autoridade ética. Não porque deixamos de falar, mas porque deixamos de acreditar no que dizemos.

            E quando a palavra perde sua credibilidade, o que a substitui? O gesto? A imagem? O silêncio? Ou apenas mais palavras, cada vez mais vazias?

            Talvez estejamos vivendo uma inflação do dizer: quanto mais se fala, menos cada palavra vale.

            E, como em toda inflação, há um empobrecimento — não material, mas simbólico.

             As palavras já não compram sentido, já não constroem pontes, já não sustentam mundos. E então nos vemos cercados por discursos que nada dizem, por frases que nada pedem, por vozes que nada arriscam.

            Mas — e aqui a provocação se torna inevitável — será que isso é apenas “o mundo”?  Ou há, em cada um de nós, uma participação silenciosa nesse esvaziamento?

            Quando você escolhe não aprofundar, não questionar, não sustentar uma conversa difícil — o que exatamente está sendo preservado?

             Conforto? Imagem? Controle? E o que está sendo perdido?

            Em Clarice Lispector, escrever era uma forma de tocar o indizível — aquilo que escapa, que resiste, que não se deixa capturar facilmente.

            Talvez falar — verdadeiramente falar — devesse ter algo dessa mesma qualidade: não a clareza imediata, mas a honestidade do risco. Não a certeza, mas a abertura.

            E isso nos leva a um ponto delicado: talvez o problema não seja a ausência de sentido, mas a nossa impaciência com ele.

            Queremos respostas rápidas, compreensões imediatas, conexões sem fricção.       Mas o sentido — quando existe — é lento, exige elaboração, pede tempo. Está você disposto a esse tempo?

            Porque, sem ele, tudo se torna superfície. E na superfície, nada se fixa.

             As palavras passam, os encontros passam, até mesmo as perguntas passam. E, no fim, o que resta não é o silêncio fértil de quem pensa, mas o vazio de quem já não espera encontrar nada.

            Ainda assim, há algo que resiste.

            Talvez seja mínimo: um instante de atenção não interrompida, uma conversa que se prolonga além do necessário, uma palavra dita sem cálculo. Pequenos gestos que, isoladamente, parecem insignificantes — mas que, juntos, podem reconfigurar o espaço do possível.

            Você já experimentou isso? Um momento em que, contra todas as expectativas, alguém realmente ouviu você — não para responder, não para corrigir, mas para compreender?

            Esse momento, raro como é, não revela algo essencial? Não aponta para uma possibilidade ainda viva?

            Em Emmanuel Levinas, o outro não é um objeto a ser compreendido, mas uma alteridade que nos convoca, que nos exige uma resposta ética.

             Ouvir, nesse sentido, não é passivo — é um ato de responsabilidade. Mas como sustentar essa responsabilidade em um mundo que constantemente nos dispersa?

            Talvez a resposta não esteja em grandes mudanças, mas em deslocamentos mínimos: em escolher permanecer quando seria mais fácil sair; em escutar quando seria mais confortável falar; em perguntar quando seria mais seguro afirmar.

            E então, mais uma vez, tudo retorna a você — não como acusação, mas como possibilidade.

            O que você fará com a próxima palavra que disser?

            Ela será apenas mais uma entre tantas — ou carregará, ainda que discretamente, a intenção de alcançar alguém?

            E, se alcançar — você estará preparado para o que isso implica?

            Porque ser ouvido, no fundo, é também ser exposto. É permitir que o outro nos afete, nos desloque, nos transforme.

             E isso, convenhamos, exige uma coragem que nem sempre estamos dispostos a mobilizar.

            Mas talvez seja justamente aí — nesse ponto de risco, de abertura, de incerteza — que a linguagem reencontre sua força.

            Não como garantia de entendimento, mas como tentativa. Não como domínio, mas como encontro.

            E, quem sabe, ainda seja possível — mesmo agora, mesmo aqui — que uma palavra, dita com cuidado, escutada com atenção, sustentada com presença, atravesse o ruído e encontre, do outro lado, não um eco vazio, mas uma consciência desperta.

            Se isso ainda for possível, então talvez nem tudo esteja perdido.

            Mas essa possibilidade — não se engane — depende, em alguma medida, de você.

Clayton Alexandre Zocarato

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O cara encostado dormindo no semáforo

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘O cara encostado dormindo no semáforo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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No cruzamento barulhento da cidade, entre buzinas e pressa, havia um homem encostado no poste do semáforo, dormindo como quem tinha desistido de disputar lugar no mundo. 

Os carros aceleravam quando a luz ficava verde, mas ninguém parecia notar aquele corpo cansado ali, dobrado sobre si mesmo. Talvez tivesse sido pedreiro, pai, filho, alguém com histórias que a cidade esqueceu de ouvir.

 O sinal mudava de cor como se a vida tivesse regras claras: parar, seguir, esperar. Para ele, porém, todos os sinais já pareciam vermelhos há muito tempo. E enquanto a cidade corria atrás de seus compromissos, o homem dormia — não por descanso, mas por falta de onde acordar.

A cidade acordava todos os dias com pressa. Buzinas, motores, passos acelerados, vendedores abrindo as portas metálicas das lojas, ônibus lotados cuspindo gente em cada esquina.

 No meio desse turbilhão havia um cruzamento comum, daqueles onde quatro avenidas se encontram e a paciência das pessoas termina.

Ali funcionava um semáforo antigo, daqueles que demoravam demais para mudar de cor. Os motoristas odiavam aquele sinal.

Mas quase ninguém percebia outra coisa naquele lugar.

Encostado no poste do semáforo, havia um homem dormindo.

Ele se sentava sempre no mesmo ponto, com as costas apoiadas no metal frio do poste, as pernas estendidas e a cabeça inclinada para frente. 

Parecia ter aprendido a dormir no meio do barulho — habilidade estranha, mas necessária para quem não possui paredes.

Alguns passavam olhando de relance.

Outros fingiam não ver.

Na cidade, ignorar alguém é uma forma discreta de continuar vivendo sem culpa.

Ninguém ali sabia o nome dele.

Para os motoristas era apenas ‘o cara do semáforo’.

Ele usava uma camisa desbotada, calça gasta e um boné que já havia perdido a cor original. A barba crescia irregular, como mato abandonado.

Às vezes ele acordava quando o sinal ficava vermelho e caminhava entre os carros oferecendo balas ou limpando para-brisas. Mas naquela manhã ele estava dormindo profundamente.

O curioso é que sua expressão não era de sofrimento.

Era uma expressão estranhamente tranquila.

Como se o sono fosse um pequeno refúgio contra o peso da realidade.

Poucos imaginavam que, anos antes, aquele homem tinha uma casa pequena, um emprego numa oficina mecânica e uma filha que gostava de desenhar pássaros.

Mas as cidades têm uma capacidade cruel de apagar histórias.

Uma moça dentro de um carro vermelho olhou para ele por alguns segundos.

Ela estava atrasada para o trabalho e tamborilava os dedos no volante com impaciência.

— Esse sinal demora demais — murmurou.

Olhou novamente para o homem dormindo.

Por um instante breve, pensou em como alguém poderia dormir ali, no meio de tanto barulho.

Mas o sinal ficou verde.

Ela acelerou.

A cidade funciona assim: pequenas curiosidades humanas são rapidamente esmagadas pela urgência do relógio.

O homem continuou dormindo.

O trânsito continuou passando.

A vida dele não havia desmoronado de uma vez.

Quase nunca desmorona.

Primeiro veio a demissão da oficina. O dono fechou as portas depois de uma crise econômica. Depois vieram meses de bicos, trabalhos temporários, pequenas dívidas.

A esposa foi embora.

Não por maldade, mas por cansaço.

Ela levou a filha.

Ele ficou com as paredes vazias da casa.

Depois vieram o aluguel atrasado, a mudança forçada, o quarto alugado, a perda de outros empregos.

Até que um dia percebeu algo estranho: não havia mais lugar para voltar.

A rua não se torna casa de repente.

Ela vai se aproximando devagar.

Naquele cruzamento passavam milhares de pessoas todos os dias.

Executivos apressados, estudantes com mochilas, vendedores, motoboys, turistas.

Todos carregando suas próprias preocupações.

Para eles, o homem no poste era apenas parte da paisagem.

Como uma placa enferrujada.

Ou uma rachadura no asfalto.

A cidade possui essa estranha habilidade de tornar certas pessoas invisíveis.

Não porque elas desapareceram.

Mas porque ninguém quer realmente olhar.

Enquanto dormia encostado no semáforo, o homem sonhava.

No sonho ele estava sentado no quintal de sua antiga casa. A filha corria pelo gramado segurando um desenho.

— Olha, pai! — dizia ela.

Era um pássaro enorme, colorido, voando acima de uma cidade.

Ele ria.

No sonho o céu estava limpo e o mundo parecia simples.

Então uma buzina alta explodiu no cruzamento.

Ele abriu os olhos lentamente.

Por alguns segundos, não sabia onde estava.

O semáforo estava vermelho.

Carros formavam uma fila longa diante dele.

O homem se levantou devagar, ainda meio sonolento, e caminhou entre os veículos.

Alguns motoristas desviaram o olhar.

Outros fingiram mexer no celular.

Uma criança no banco de trás de um carro perguntou à mãe:

— Por que aquele homem mora na rua?

A mãe demorou alguns segundos para responder.

— Às vezes… a vida fica difícil para algumas pessoas.

O sinal ficou verde.

Os carros partiram novamente.

O homem voltou a encostar no poste.

Sentou-se no mesmo lugar de antes.

O semáforo continuava mudando de cor, obediente à lógica da cidade: vermelho, amarelo, verde.

Parar.

Esperar.

Seguir.

Mas para ele o tempo parecia diferente.

Ele apoiou a cabeça no metal e fechou os olhos outra vez.

Talvez estivesse cansado.

Talvez estivesse apenas tentando sonhar novamente com aquele pássaro desenhado pela filha.

E enquanto a cidade corria para todos os lados, o homem encostado no semáforo dormia.

Não porque quisesse fugir da vida.

Mas porque, naquele momento, o sono era o único lugar onde ela ainda fazia sentido.

O vento da tarde cortava como lâmina de navalha. O homem puxou a camisa velha mais para cima, tentando proteger o peito do frio, mas ela não fazia diferença.

 Cada rajada de vento parecia atravessar a alma, lembrando-lhe que a cidade jamais se preocupava com quem não tinha endereço.

Alguns passantes o olhavam de relance, curiosos, mas rapidamente desviavam o olhar. Ele conhecia bem esse ritual silencioso: ninguém quer ser lembrado de que a miséria existe, e ele era apenas um espelho desconfortável de uma verdade que todos fingiam não ver.

A fome apertava. O estômago reclamava, mas ele ainda guardava um pouco de dignidade — aquele pouco que resistia aos dias sem comida, à falta de chão, ao desprezo alheio. 

Dignidade, talvez, fosse a única coisa que a cidade ainda não conseguira roubar.

O homem voltou acordar. Olhou para os dois, tentando sorrir, mas seu rosto marcado pela rua não conseguia disfarçar a dor.

 Por um instante, ele desejou que a menina pudesse entender o que significava perder tudo e ainda ter que existir entre sinais vermelhos e verdes.

Então, como quem toma coragem pela última vez, ele se levantou. Não para pedir esmola. Não para limpar para-brisas. Mas para atravessar o cruzamento e desaparecer nas vielas atrás da avenida.

Enquanto caminhava, lembrava-se de cada porta fechada, cada olhar desviado, cada noite em que precisou dormir ao relento. 

E sentiu, finalmente, uma raiva silenciosa crescer dentro dele — não contra a cidade, nem contra os outros, mas contra si mesmo por aceitar, por tanto tempo, o papel que a vida lhe deu sem lutar por mais.

Algumas horas depois, o semáforo ainda estava lá, firme, indiferente ao mundo. O cruzamento continuava com seu movimento mecânico: parar, esperar, seguir. Mas algo mudara.

Para os motoristas, nada.

Para a cidade, nada. Mas para ele, tudo. Ele sentia que a rua, aquela que antes parecia sufocá-lo, agora era apenas um campo de batalha — o campo onde ele finalmente podia lutar contra suas próprias limitações, contra sua própria vaidade de se fazer invisível.

A noite caiu, e a cidade se iluminou com lâmpadas artificiais. Ele parou em um canto, observando as luzes refletirem nas poças de chuva. Sentiu medo, frio, fome… mas também uma centelha de vida que não havia sentido há anos.

O semáforo, vermelho, continuava lá, mas ele não precisava mais esperar. Ele não era mais apenas o homem encostado dormindo. Ele era alguém que havia decidido  voltar existir apesar de tudo, mesmo sem endereço, sem conforto, sem aplausos.

Na manhã seguinte, alguns passantes notaram um bilhete preso ao poste do semáforo. Escrito com tinta borrada, dizia apenas:

“Acordei. Finalmente. Agora sou meu próprio semáforo: vermelho, amarelo, verde… e sigo quando quiser.”

Ninguém parou para ler. Mas talvez não importasse. Ele havia desaparecido das ruas, sim, mas não da sua própria vida. Pela primeira vez, o homem se recusava a ser apenas parte da paisagem.

E enquanto a cidade continuava sua rotina mecânica, com buzinas e pressa, ele caminhava para longe, com passos lentos, determinados e furiosos, decidido a lutar contra tudo o que o reduziu à invisibilidade.

O semáforo continuava ali, parado, mas ele sabia que ninguém, nem a cidade inteira, poderia mais controlar o ritmo do seu tempo.

Clayton Alexandre Zocarato

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