A estrada deserta do coração

Clayton Alexandre Zocarato e uma narrativa sensível sobre o tempo, a memória e tudo o que a pressa da vida moderna tenta silenciar

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Naquela cidade pequena, onde as ruas ainda pareciam conhecer pelo nome aqueles que passavam por elas, havia uma estrada que começava depois da última casa e desaparecia lentamente entre os cafezais, as árvores antigas e algumas propriedades esquecidas pelo tempo. Não possuía placa, não aparecia nos mapas mais recentes e quase ninguém se lembrava de onde terminava. Os mais velhos diziam apenas que aquela estrada sempre existira, como se tivesse nascido junto com a própria cidade.

            Chamavam-na de Estrada Deserta.

            Não porque fosse completamente abandonada, pois de vez em quando alguém ainda passava por ali com uma carroça, uma bicicleta velha ou uma caminhonete carregada de ferramentas.

             Era deserta porque, segundo os antigos, quem caminhava por ela começava a ouvir coisas que a cidade moderna havia aprendido a silenciar.

            O vento.

            Os pássaros.

            O próprio pensamento.

            E, sobretudo, o coração.

            A cidade havia mudado muito.

            Durante muitos anos, as pessoas deixavam as portas abertas durante o dia. As crianças brincavam nas calçadas até que alguma mãe aparecesse na esquina chamando pelo nome.

            Os homens se reuniam diante da venda depois do trabalho, enquanto as mulheres conversavam nas cadeiras colocadas nas calçadas, comentando a vida dos vizinhos, o preço do café, o casamento de alguém ou simplesmente o tempo.

            Havia pouca riqueza, mas existia uma espécie de abundância que não aparecia nos livros de economia.

            As pessoas tinham tempo.

            Tempo para conversar.

            Tempo para esperar.

            Tempo para visitar um doente.

            Tempo para sentar diante de uma praça e observar a tarde morrer lentamente.

            Com os anos, chegaram as,  máquinas, os telefones inteligentes, os aplicativos, os carros silenciosos, as entregas rápidas e a promessa de que tudo poderia ser feito sem que ninguém precisasse sair de casa.

            A cidade ganhou velocidade.

            Mas perdeu demora.

            E talvez tenha sido justamente a demora que um dia havia permitido que as pessoas se encontrassem.

            Seu Anselmo percebeu isso antes de quase todos.

            Tinha setenta e oito anos e ainda conservava uma pequena oficina de consertos de relógios numa rua próxima à praça central. A oficina era estreita, cheirava a madeira velha, óleo e café passado. Havia relógios pendurados pelas paredes, alguns funcionando, outros parados em horários diferentes, como se cada um guardasse uma pequena morte.

            Seu Anselmo dizia que relógio parado não era relógio quebrado.

            Era memória.

            — O relógio não deixa de existir porque deixou de marcar as horas — costumava dizer.

            Poucos compreendiam.

            Ele também já não fazia questão de explicar.

            Tinha aprendido que certas coisas somente são entendidas quando a vida nos coloca diante delas.

            Todas as manhãs, abria a porta da oficina às oito. Colocava uma cadeira na calçada e esperava os primeiros movimentos da cidade.

            Antigamente, conhecia quase todos.

            Agora conhecia apenas os passos.

            As pessoas passavam olhando para baixo, os olhos presos às pequenas telas luminosas de seus telefones.

            Às vezes, duas pessoas caminhavam lado a lado sem trocar uma palavra.

            Seu Anselmo observava aquilo com tristeza, mas não com raiva.

            Sabia que a modernidade não havia chegado para destruir ninguém.

            Ela simplesmente havia chegado prometendo facilitar a vida.

            E, sem perceber, havia começado a ocupá-la.

            Certa manhã, uma mulher chamada Helena entrou na oficina.

            Tinha pouco mais de quarenta anos e carregava uma expressão de cansaço que não parecia vir do trabalho. Pediu que Seu Anselmo consertasse um relógio de pulso que pertencera ao pai.

— Ele morreu há três anos — disse.

            Seu Anselmo pegou o relógio cuidadosamente.

            — E ele funcionava?

            — Funcionava.

            — Então por que parou?

            Helena ficou alguns segundos em silêncio.

            — Acho que parou quando meu pai morreu.

            Seu Anselmo olhou para ela.

            Não corrigiu.

            Não disse que relógios não possuem sentimentos.

            Apenas abriu a tampa traseira.

            — Às vezes, o mecanismo continua funcionando por algum tempo — falou. —   Mas chega uma hora em que a gente percebe que estava dando corda para uma lembrança.

            Helena sorriu tristemente.

            Era a primeira vez, em muito tempo, que alguém falava com ela sem tentar resolver sua vida.

            Naquela tarde, ela voltou para buscar o relógio.

            Seu Anselmo havia feito o conserto.

            Quando colocou o objeto no pulso, Helena ouviu o pequeno tic-tac.

            Por alguns segundos, pareceu escutar a voz do pai.

            Não uma voz verdadeira, mas aquela voz que a memória inventa quando sente falta de alguém.

            — Quanto devo?

            — Nada.

            — Como assim?

            — O senhor seu pai já pagou.

            Helena franziu a testa.

            — Pagou?

            — Pagou quando ainda estava vivo. Consertou meu telhado numa época em que eu não tinha dinheiro.

            Ela não se lembrava.

            Talvez porque a memória também seja uma casa cheia de quartos que esquecemos de visitar.

            Helena saiu da oficina olhando para o relógio.

            Na praça, os bancos estavam quase vazios.

            Um homem velho alimentava alguns pombos.

            Uma criança passava de bicicleta.

            Uma senhora atravessava lentamente a rua com uma sacola de pão.

            E por um instante a cidade pareceu voltar a ser aquela que existia antes dos telefones, antes das notificações, antes da pressa.

            Foi apenas um instante.

            Mas alguns instantes são maiores que muitos anos.

            Naquela mesma cidade morava Joaquim, antigo ferroviário.

            A estação havia sido desativada décadas antes. Restava apenas o prédio envelhecido, com suas paredes manchadas e a plataforma tomada por mato.

            Joaquim ainda ia até lá todas as tardes.

            Sentava-se num banco de madeira e ficava olhando os trilhos que já não levavam ninguém.

            Os jovens riam quando passavam.

            — Seu Joaquim espera o trem até hoje?

            Ele respondia:

            — Não espero o trem.

            — Então espera o quê?

            — O que o trem levou.

            Ninguém entendia.

            Talvez nem ele.

            Mas sabia que os trilhos tinham levado mais do que passageiros.

            Tinham levado uma época.

            Antes, quando o trem chegava, a cidade inteira parecia acordar. Havia vendedores, famílias, trabalhadores, estudantes, crianças correndo, malas, despedidas e reencontros.

            O trem era mais do que transporte.

            Era acontecimento.

            Hoje, tudo chegava rapidamente pelos caminhões, pelos aplicativos, pelas estradas asfaltadas.

            Mas nada parecia chegar de verdade.

            Joaquim dizia que uma cidade começa a envelhecer quando suas pessoas deixam de esperar umas pelas outras.

            E talvez tivesse razão.

            Na padaria de Dona Nair, o tempo ainda caminhava devagar.

            Ela acordava antes do sol e preparava o pão como aprendera com a mãe. Não utilizava grandes máquinas. Fazia quase tudo com as próprias mãos.

            A massa era sovada lentamente.

            O café era passado no coador.

            As portas eram abertas cedo.

            E havia sempre alguém sentado à mesa do canto.

            Dona Nair conhecia as histórias de quase todos.

            Sabia quem tinha filho estudando longe.

            Quem estava procurando emprego.

            Quem havia se separado.

            Quem estava doente.

            Quem fingia estar bem.

            Ela dizia que cidade pequena era como família.

            — Todo mundo sabe da vida de todo mundo.

            Depois acrescentava:

            — O problema é que hoje ninguém mais quer saber de verdade.

            O comentário parecia simples, mas carregava uma tristeza profunda.

            Porque saber não é o mesmo que conhecer.

            Hoje as pessoas sabiam onde as outras estavam.

            Sabiam o que comiam.

            Sabiam onde viajavam.

            Sabiam o que compravam.

            Sabiam o que fotografavam.

            Mas não sabiam quando alguém estava triste.

            Talvez a modernidade tivesse criado uma nova forma de solidão: aquela em que ninguém está sozinho, mas quase ninguém está verdadeiramente acompanhado.

            Naquela cidade, havia também Miguel, rapaz de vinte e seis anos, nascido ali, mas com os olhos sempre voltados para longe.

            Trabalhava remotamente para uma empresa de uma grande cidade.

            Passava o dia diante do computador.

            Recebia mensagens de pessoas que nunca havia visto.

            Participava de reuniões em que todos falavam, mas ninguém realmente conversava.

            Morava sozinho num apartamento pequeno.

            Tinha internet rápida, televisão enorme, celular moderno e uma geladeira cheia.

            Mesmo assim, algumas noites jantava sentado no chão porque não havia ninguém para conversar.

            Sua mãe morava duas ruas acima.

            Ele poderia visitá-la em cinco minutos.

            Mas quase sempre dizia:

            — Amanhã eu vou.

            O amanhã tornou-se um lugar onde muitas pessoas enterram seus afetos.

            Um sábado, Miguel decidiu caminhar pela antiga estrada.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez tivesse cansado de olhar para uma tela.

            Talvez estivesse cansado de si mesmo.

            Caminhou pela cidade, passou pela praça, pela antiga estação, pela padaria de Dona Nair e seguiu até o começo da estrada.

            O céu estava avermelhado.

            O campo tinha aquele cheiro úmido das tardes depois da chuva.

            Ao longe, ouviam-se algumas vacas.

            Era estranho perceber que ainda existiam sons que não pediam atenção.

            A estrada seguia silenciosa.

            Miguel caminhou.

            Depois de alguns minutos, encontrou Joaquim sentado à sombra de uma árvore.

            — O senhor vem sempre aqui?

            Joaquim sorriu.

            — Eu poderia perguntar o mesmo.

            Miguel sentou-se ao lado dele.

            Ficaram alguns minutos sem falar.

            Na cidade, o silêncio parecia constrangedor.

            Ali, não.

            Ali o silêncio parecia uma conversa.

            — O senhor não sente falta do trem? — perguntou Miguel.

            — Sinto.

            — Então por que continua vindo?

            Joaquim olhou para a estrada.

            — Porque sentir falta também é uma maneira de continuar amando.

            Miguel ficou quieto.

            A frase permaneceu dentro dele como uma pedra jogada num poço.

            Naquele momento percebeu que passara anos tentando fugir daquilo que sentia.

            Fazia compras para preencher espaços.

            Assistia a filmes para não pensar.

            Trabalhava para não lembrar.

            Conversava virtualmente para não precisar olhar alguém nos olhos.

            Acreditava que estar conectado era estar acompanhado.

            Mas talvez conexão fosse apenas uma palavra bonita para esconder a distância.

            Quando voltou para casa, encontrou sua mãe sentada na varanda.

            Ela segurava uma xícara de café.

            — Você sumiu.

            — Fui caminhar.

            — Sozinho?

            Miguel hesitou.

            — Nem tanto.

            Ela sorriu.

            — Então entrou em alguma estrada?

            — Entrei.

            A mãe levantou-se e foi buscar outra xícara.

            Não perguntou mais nada.

            Algumas mães sabem que certas perguntas precisam esperar.

            Sentaram-se juntos.

            Conversaram por quase duas horas.

            Falaram do pai.

            Da infância.

            Da antiga casa.

            Do quintal.

            Dos vizinhos.

            Da primeira bicicleta.

            Do tempo em que Miguel brincava na rua até anoitecer.

            Ele descobriu que sua mãe ainda guardava uma caixa com seus desenhos de criança.

            Achou engraçado.

            Depois chorou.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez porque percebesse que havia passado anos procurando novidades quando suas maiores riquezas estavam guardadas em caixas antigas.

            A cidade continuava mudando.

            Novos prédios surgiam.

            Casas antigas eram demolidas.

            A praça recebia novas luminárias.

            A antiga padaria ganhava uma máquina moderna de café.

            A estação permanecia fechada.

            A estrada continuava lá.

            E as pessoas continuavam envelhecendo.

            Seu Anselmo morreu numa manhã de inverno.

            A oficina permaneceu fechada por algumas semanas.

            Na porta, alguém colocou uma pequena fotografia dele sentado na cadeira da calçada.

            Abaixo, uma frase escrita à mão:

            “Consertava relógios, mas entendia de tempo.”

            Helena levou flores.

            Joaquim ficou em silêncio.

            Dona Nair preparou café para todos.

            Miguel apareceu com sua mãe.

            Foi uma despedida simples.

            Sem discursos.

            Sem música.

            Apenas algumas pessoas lembrando de um homem que havia passado grande parte da vida tentando impedir que as coisas desaparecessem completamente.

            Depois da morte de Seu Anselmo, Helena começou a visitar a praça todos os domingos.

            Joaquim passou a conversar mais com Miguel.

            Dona Nair colocou uma mesa maior na padaria.

            Aos poucos, outras pessoas começaram a aparecer.

            Não era um movimento organizado.

            Não havia projeto.

            Não havia aplicativo.

            Era apenas gente sentando perto de gente.

            Uma tarde, alguém levou um rádio antigo.

            Outro trouxe um álbum de fotografias.

            Uma senhora apareceu com uma receita de bolo que aprendera com a avó.

            Um antigo trabalhador da ferrovia levou fotografias da estação.

            As crianças começaram a perguntar sobre os trens.

            Os velhos começaram a contar histórias.

            E a cidade descobriu que memória não é apenas aquilo que ficou para trás.

            Memória também é aquilo que impede o presente de ficar vazio.

            Certa noite, Miguel caminhou novamente pela estrada.

            O céu estava cheio de estrelas.

            Pensou em todas as pessoas que haviam passado por aquela cidade.

            Algumas haviam partido.

            Outras haviam morrido.

            Outras continuavam vivas, mas distantes.

            Talvez a vida fosse uma longa estrada feita de encontros e ausências.

            Ninguém permanece.

            Nenhuma casa permanece exatamente igual.

            Nenhum amor permanece da mesma maneira.

            Nenhuma cidade consegue impedir o tempo.

            Mas isso não significa que tudo seja perdido.

            Há coisas que desaparecem dos olhos e permanecem no coração.

            Miguel entendeu então que a solidão não era simplesmente estar sozinho.

            Era perder a capacidade de reconhecer os outros.

            Era atravessar uma praça cheia de pessoas sem encontrar ninguém.

            Era possuir milhares de contatos e não saber para quem telefonar quando a noite ficava difícil.

            Era ter tudo imediatamente e não possuir ninguém com quem esperar.

            A estrada parecia interminável.

            Miguel continuou caminhando.

            Lembrou-se de Seu Anselmo.

            Do pai de Helena.

            Dos trilhos.

            De sua mãe.

            Da padaria.

            Das fotografias.

            De tudo aquilo que parecia pequeno demais para o mundo moderno, mas grande demais para desaparecer.

            Pensou que talvez o progresso não fosse o inimigo.

            O problema era acreditar que progresso significava abandonar tudo aquilo que nos tornava humanos.

            A tecnologia poderia aproximar distâncias.

            Mas não poderia abraçar ninguém.

            Uma mensagem poderia atravessar continentes em segundos.

            Mas não poderia substituir uma pessoa sentada ao nosso lado.

            Uma fotografia poderia guardar um rosto.

            Mas não poderia devolver uma voz.

            Um relógio poderia marcar as horas.

            Mas não poderia dizer o que fazer com elas.

            Miguel parou.

            Olhou para trás.

            A cidade estava iluminada ao longe.

            As casas pareciam pequenas estrelas espalhadas sobre a terra.

            Havia carros passando.

            Algumas janelas estavam acesas.

            Talvez alguém estivesse trabalhando.

            Talvez alguém estivesse chorando.

            Talvez alguém estivesse esperando.

            Ele percebeu que, apesar de toda a modernidade, ainda existiam pessoas desejando aquilo que sempre desejaram.

            Ser lembradas.

            Ser escutadas.

            Ser amadas.

            Ser necessárias.

            A estrada deserta não era realmente deserta.

            Estava cheia de ausências.

            Cada árvore guardava uma história.

            Cada curva escondia uma lembrança.

            Cada pedra parecia ter sido pisada por alguém.

            A solidão, pensou Miguel, não nasce apenas quando alguém vai embora.

            Às vezes ela nasce quando deixamos de olhar para aquilo que ficou.

            Na manhã seguinte, ele acordou cedo.

            Não abriu o computador.

            Não pegou imediatamente o telefone.

            Foi até a casa da mãe.

            Bateram café juntos.

            Depois caminharam até a praça.

            Encontraram Helena.

            Dona Nair apareceu com pão quente.

            Joaquim chegou mais tarde.

            Ninguém havia combinado.

            Era assim que antigamente as coisas aconteciam.

            As pessoas simplesmente apareciam.

            E talvez fosse essa a maior diferença entre aquele tempo e o presente.

            Hoje tudo precisava ser marcado.

            Agendado.

            Confirmado.

            Compartilhado.

            Antigamente, algumas coisas simplesmente aconteciam.

            E, quando aconteciam, ninguém precisava fotografar.

            Bastava viver.

            Ao meio-dia, Miguel voltou para casa pela mesma rua de sempre.

            Mas alguma coisa havia mudado.

            Não na cidade.

            Nele.

            A estrada continuava deserta.

            A estação continuava abandonada.

            Os relógios continuavam marcando horas diferentes.

            As casas continuavam envelhecendo.

            As pessoas continuavam partindo.

            Nada havia sido consertado.

            E talvez essa fosse a verdade mais difícil de aceitar.

            A vida não conserta tudo.

            Algumas coisas permanecem quebradas.

            Algumas ausências nunca deixam de doer.

            Algumas estradas não conduzem a lugar algum.

            Mas mesmo uma estrada sem destino pode ensinar alguém a caminhar.

            E talvez o sentido da vida não esteja em chegar.

            Talvez esteja em não atravessar o caminho completamente sozinho.

            Naquela noite, Miguel desligou o telefone.

            Abriu a janela.

            Ouviu o vento.

            Por alguns minutos, não fez nada.

            Apenas escutou.

            A cidade estava silenciosa.

            Muito longe, um cachorro latiu.

            Uma motocicleta passou.

            Uma porta se fechou.

            Depois, novamente, o silêncio.

            Miguel sorriu.

            Não porque tivesse encontrado uma resposta.

            Mas porque finalmente compreendera que talvez não precisasse de uma.

            O coração também possui suas estradas.

            Algumas são iluminadas.

            Outras desaparecem na escuridão.

            Há caminhos que seguimos por amor.

            Outros por medo.

            Alguns por necessidade.

            E existem aqueles que percorremos simplesmente porque não sabemos para onde ir.

            A estrada deserta continuaria ali.

            Esperando os passos daqueles que ainda tivessem coragem de caminhar sem pressa.

            Talvez um dia alguém encontrasse uma velha placa caída no mato.

            Nela estaria escrito apenas:

ESTRADA DESERTA DO CORAÇÃO.

            E talvez essa pessoa sorrisse.

            Porque descobriria que toda cidade possui uma estrada assim.

            Um lugar onde o passado não morreu completamente.

            Onde as vozes dos antigos ainda atravessam o vento.

            Onde a infância continua escondida atrás de uma árvore.

            Onde um trem inexistente ainda parece chegar nas tardes de domingo.

            Onde o cheiro de café lembra uma casa que já não existe.

            Onde uma fotografia antiga consegue fazer alguém chorar.

            E onde a solidão, por alguns instantes, deixa de ser ausência e transforma-se em memória.

            Porque talvez seja isso que nos resta quando o mundo corre depressa demais: Parar.

Olhar.

Lembrar.            

E reconhecer que, apesar de todos os caminhos modernos, ainda precisamos uns dos outros para atravessar a estrada deserta do coração

Clayton Alexandre Zocarato

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Entre o céu e o interior

Clayton Alexandre Zocarato: um retorno às raízes entre memória, saudade e reencontro

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Homem retorna ao interior e contempla o céu ao reencontrar memórias, afetos e suas raízes.
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Quando o ônibus começou a descer a estrada de terra, Joaquim abriu a janela, apesar da poeira que entrava feita farinha de mandioca. Gostava daquele cheiro. Cheiro de terra quente, de capim amassado, de café passado na hora, de curral e de lenha queimando no fogão.

            Era um cheiro que não se explicava. Ou talvez se explicasse justamente porque não precisava de explicação.

            Fazia trinta e tantos anos que Joaquim tinha ido embora.

            Na cidade grande, aprendera a andar depressa, a falar olhando o relógio, a tomar café em copo de papel e a responder “tudo bem” mesmo quando nada estava bem.          Aprendera também que as pessoas podiam morar no mesmo prédio durante vinte anos sem saber o nome umas das outras. No interior era diferente. Lá todo mundo sabia de todo mundo.

            Sabia quem tinha casado, quem tinha separado, quem estava devendo na venda, quem tinha dado cria na vaca, quem estava doente e até quem tinha chorado escondido depois da missa.

            — Ô motorista, falta muito?

            — Uai, homem, cê já perguntou isso umas três vezes.

            Joaquim sorriu.

            — É que a gente fica meio ansioso.

            — Ansioso nada. Cê tá é com saudade.

            O motorista falou aquilo sem olhar para trás. Joaquim ficou quieto.

            Saudade…

            A palavra ficou dentro dele como um passarinho preso.

            Pela janela, reconheceu o velho morro. Já não havia tantas árvores como antigamente. Algumas cercas tinham sido trocadas por arame novo. Um sítio que antes pertencia aos Alves agora tinha uma placa de “vende-se”.

            A estrada continuava quase a mesma, mas ele sabia que não era.

            A gente volta para um lugar esperando encontrar o passado, pensou. E o passado nunca está lá. Quem está lá é a nossa lembrança dele.

            O ônibus parou perto da venda do Zé Bento.

            Joaquim desceu devagar, carregando uma mala pequena.

            — Ô, Joca!

            Ele virou.

            Era Dito.

            Ou o que restava de Dito.

            Os cabelos estavam completamente brancos, o corpo mais curvado, mas o sorriso continuava o mesmo.

            — Rapaz… ocê?

            — Eu mesmo, sô. Quem mais ia ser?

            Os dois se abraçaram.

            — Tá véio, hein?

            — Nós dois.

            — Eu tô nada.

            — Tá sim.

            — Então deixa eu fingir que não.

            Riram.

            Era assim no interior. A amizade também tinha sua maneira de envelhecer.

            Naquela tarde, Joaquim caminhou pela rua principal. A igreja continuava no mesmo lugar, embora a pintura estivesse mais clara.

            A praça tinha bancos novos. A antiga fonte havia desaparecido. A árvore onde ele e Dito costumavam sentar ainda existia, mas agora cercada por um pequeno canteiro.

            Passou diante da casa de Dona Alzira.

            A janela estava fechada.

            Joaquim parou.

            Ali morara Mariana.

            A menina que tinha cabelos compridos e uma risada que fazia a gente esquecer o mundo.

            Mariana…

            Ele não sabia se ela ainda vivia.

            Não perguntou.

            Algumas perguntas envelhecem mais depressa quando encontram resposta.

            Naquele tempo, Joaquim tinha dezoito anos e acreditava que o mundo começava e terminava naquela pequena cidade. De manhã ajudava o pai na roça. Depois do almoço, ia para a venda. À tarde, encontrava os amigos perto do campo de futebol. À noite, havia sempre alguém tocando viola em alguma varanda.

            A vida era pobre, mas tinha tempo.

            Talvez fosse isso que mais lhe fizesse falta.

            O tempo.

            Na cidade grande, tinha dinheiro suficiente para comprar quase tudo, menos uma tarde sem compromisso.

            No interior, uma tarde podia durar uma eternidade.

            Na sexta-feira, o povo se juntava na praça. As mulheres levavam crianças, os homens ficavam encostados nos carros ou sentados nos bancos.

            Tinha milho cozido, pamonha, bolo de fubá, café preto e aquele queijo curado que fazia a pessoa beber água depois.

            Quando chegava junho, era festa.

            Bandeirinha colorida atravessando a rua. Fogueira. Sanfona. Viola. Criança correndo. Moça escondendo o sorriso. Rapaz tentando parecer valente diante da moça que gostava.

            E tinha quadrilha.

            — Anarriê!

            — Alavantú!

            — Olha a chuva!

            Todo mundo fingia que acreditava.

            Depois vinha a fogueira.

            Os mais velhos contavam histórias.

            Falavam de assombração.

            Falavam de alma penada.

            Falavam de homem que tinha visto uma luz andando sozinha pelo pasto.

            Dito jurava ter visto uma vez.

            — Vi mesmo, Joca.

            — Cê tava bêbado.

            — Eu tava meio alegrinho.

            — Então.

            — Mas vi.

            — E o que era?

            — Não sei.

            — Então podia ser qualquer coisa.

            — Podia. Mas era uma coisa que não devia tá ali.

            Joaquim gostava dessas conversas. Talvez porque o interior tivesse o dom de deixar uma porta aberta entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

            Naquela noite, ele dormiu na casa antiga do pai.

            O quarto era pequeno.

            A cama ainda tinha o mesmo rangido.

            Na parede havia uma fotografia antiga, já amarelada.

            Seu pai estava de chapéu.

            Sua mãe estava ao lado.

            Ele, menino, aparecia na frente, com os cabelos penteados para trás.

            Joaquim aproximou-se.

            Passou o dedo pela fotografia.

            Foi então que percebeu que sentia falta até daquilo que, quando vivo, ele não tinha coragem de dizer que amava.

            A mãe morreu cedo.

            O pai depois.

            A casa ficou vazia.

            Mas as coisas continuaram esperando.

            Uma cadeira.

            Um rádio.

            Uma panela.

            Um terço.

            Uma fotografia.

            Talvez uma casa nunca fique completamente vazia. As pessoas continuam morando nela depois que partem.

            No domingo, Joaquim foi à missa.

            O sino tocava como antigamente.

            As pessoas chegavam aos poucos.

            Algumas de carro, outras a pé.

            Dona Nair vinha com o mesmo vestido escuro de sempre.

            Seu Agenor ainda carregava o chapéu debaixo do braço.

            As crianças continuavam inquietas.

            Um menino chorou no meio da missa.

            Uma senhora virou para trás e fez aquele olhar de quem queria que a criança ficasse quieta.

            Joaquim sorriu.

            Nada mudara completamente.

            O padre falou sobre esperança.

            Joaquim olhou para o teto da igreja.

            Pensou no céu.

            Desde menino imaginava o céu como uma espécie de continuação do interior.

            Um lugar de árvores grandes, sombra fresca, água limpa e gente conhecida.

            Achava que seu pai estaria lá.

            Sua mãe também.

            Talvez Mariana.

            Talvez todos os que tinham partido.

            Talvez o céu fosse simplesmente isso: um lugar onde ninguém mais precisava dizer adeus.

            Depois da missa, o povo ficou na calçada.

            Era costume.

            A missa acabava, mas ninguém tinha pressa de ir embora.

            Falavam da chuva.

            Da safra.

            Do preço da carne.

            Da política.

            Do casamento de alguém.

            Da saúde de alguém.

            Da vida dos outros.

            Mas, no fundo, falavam da própria vida.

            — Ocê ficou muito tempo fora — disse Dona Nair.

            — Fiquei.

            — Gostou de lá?

            Joaquim demorou para responder.

            — Gostei.

            — E foi feliz?

            Ele olhou para ela.

            Dona Nair não parecia estar perguntando por curiosidade.

            Esperava uma resposta.

            — Fui algumas vezes.

            Ela sorriu.

            — É. Felicidade também não mora num lugar só.

            Joaquim guardou aquilo.

            Mais tarde, encontrou Mariana.

            Foi na saída da farmácia.

            Ele a reconheceu antes.

            Ela também.

            Ficaram alguns segundos sem falar.

            — Joaquim?

            — Mariana.

            Ela estava mais velha.

            Naturalmente.

            Os cabelos já tinham alguns fios brancos.

            O rosto trazia marcas que não estavam ali trinta anos antes.

            Mas os olhos continuavam iguais.

            — Cê voltou?

            — Voltei.

            — Pra ficar?

            Joaquim respirou fundo.

            — Não sei.

            Mariana sorriu.

            — Ocê nunca soube.

            Ele riu.

            — É verdade.

            Caminharam juntos pela praça.

            Nenhum dos dois perguntou sobre os amores que vieram depois.

            Nenhum dos dois contou os fracassos.

            Há coisas que o tempo ensina a não perguntar.

            Sentaram-se no banco perto da igreja.

            — Lembra das festas?

            — Lembro.

            — Daquela quermesse em que você caiu dentro do barril?

            Joaquim começou a rir.

            — Não precisa lembrar disso.

            — Eu lembro.

            — Todo mundo lembra.

            — Você ficou três dias sem olhar na minha cara.

            — Eu tinha vergonha.

            — Eu achei bonito.

            Ele olhou para ela.

            — Bonito?

            — Você com vergonha.

            Ficaram em silêncio.

            O vento passou pelas árvores.

            Uma folha caiu entre os dois.

            Joaquim pensou que talvez a vida fosse feita dessas coisas pequenas.

            Uma folha.

            Uma praça.

            Uma pessoa que a gente amou.

            Uma lembrança que insiste em respirar.

            Naquela noite houve música na praça.

            Um velho violeiro chamado Chico Lampejo  sentou-se perto do coreto.

            A viola começou devagar.

            Primeiro vieram as notas.

            Depois a voz.

            Cantava uma moda antiga sobre um homem que deixara sua terra para ganhar dinheiro e, depois de muitos anos, descobrira que havia enriquecido de tudo, menos de si mesmo.

            Joaquim ouviu sem dizer nada.

            Dito sentou-se ao lado.

            — Essa moda é sua cara.

            — Por quê?

            — Porque ocê fez exatamente isso.

            — Fiquei rico?

            — Não.

            — Então?

            — Foi embora.

            Joaquim riu.

            A viola continuou.

            Havia alguma coisa naquela música que parecia conversar com o céu.

Talvez porque as modas de viola nunca falassem apenas de gente.

            Falavam de estrada.

            De boi.

            De roça.

            De amor.

            De morte.

            De promessa.

            De espera.

            Falavam do homem diante daquilo que não consegue entender.

            E o interior sabia disso sem precisar estudar.

            Na manhã seguinte, Joaquim acordou cedo.

            O galo cantava.

            O céu ainda estava meio azul, meio cinza.

            Ele tomou café passado no coador de pano.

            Comeu pão com manteiga.

            Depois saiu para caminhar.

            Passou pela venda.

            — Bom dia, Joca.

            — Bom dia.

            — Café?

            — Café.

            Zé Bento colocou a xícara sobre o balcão.

            — Forte.

            — Do jeito que tem que ser.

            — Aqui ninguém toma café fraco.

            — Na cidade tomam.

            — Então a cidade tá errada.

            Joaquim sorriu.

            Ficou ali algum tempo.

            Ouviu conversa sobre chuva.

            Ouviu conversa sobre um bezerro desaparecido.

            Ouviu falar que a ponte precisava de conserto.

            Ouviu uma senhora reclamar do preço do açúcar.

            Era uma conversa sem importância.

            E, justamente por isso, era importante.

            Naquele instante, Joaquim percebeu que passara a vida procurando grandes acontecimentos, quando talvez a felicidade estivesse escondida nas coisas que ninguém fotografava.

            O café.

            A prosa.

            A sombra da árvore.

            O canto dos passarinhos.

            A porta aberta.

            A vizinha chamando do outro lado da rua.

            O menino correndo atrás de uma bola.

            O sino da igreja.

            O cheiro de chuva chegando.

            O rádio tocando uma música antiga.

            Tudo aquilo parecia pequeno.

            Mas era o tamanho exato da vida.

            No fim da tarde, Joaquim foi até o sítio onde trabalhara com o pai.

            O mato tinha tomado conta de parte da estrada.

            A antiga porteira ainda estava lá.

            Ele colocou a mão sobre a madeira.

            Sentiu uma espécie de tremor.

            Lembrou-se do pai dizendo:

            — Segura firme, menino. Cerca mal feita derruba até boi teimoso.

            Ele sorriu.

            Entrou.

            O pasto estava quase vazio.

            Havia algumas vacas.

            Um cachorro latiu ao longe.

            O sol começava a desaparecer atrás do morro.

            Joaquim sentou-se numa pedra.

            Ficou olhando.

            Foi então que entendeu.

            O céu não estava distante.

            O céu estava ali.

            Naquela luz.

            Naquela terra.

            Naquela lembrança.

            Na voz do pai que já não existia.

            Na mãe que ele ainda procurava em sonhos.

            Em Mariana andando pela praça.

            Em Dito fazendo piada.

            Na viola de Chico Lampejo.

            No cheiro do café.

            Na poeira da estrada.

            Talvez o céu não fosse um lugar para onde se ia depois da morte.

            Talvez fosse aquilo que a gente conseguia reconhecer enquanto ainda estava vivo.

            Joaquim ficou ali até escurecer.

            Quando voltou para casa, encontrou Mariana sentada na varanda.

            — Vim trazer isso.

            Ela entregou uma pequena caixa.

            Dentro havia fotografias antigas.

            Joaquim abriu.

            Havia uma fotografia dos dois.

            Eram jovens.

            Ele quase não se reconheceu.

            Mariana estava sorrindo.

            — Eu guardei esse tempo todo — disse ela.

            — Por quê?

            Ela olhou para o quintal.

            — Porque algumas coisas não pedem para ser esquecidas.

            Joaquim fechou a caixa.

            Não disse nada.

            A noite chegou devagar.

            Em alguma casa distante alguém tocava sanfona.

            Uma criança ria.

            Um cachorro latia.

            O sino da igreja bateu oito vezes.

            Joaquim olhou para o céu.

            Havia estrelas.

            Muitas.

            Mais do que conseguia contar.

            Mariana ficou ao lado dele.

            — Bonito, né?

            — É.

            — Na cidade não dá pra ver assim.

            — Lá também tem céu.

            — Mas não é igual.

            Joaquim concordou.

            Porque sabia.

            O céu era o mesmo.

            Mas o homem que olha para ele nunca é.

            Passaram-se alguns minutos.

            Mariana levantou.

            — Vou embora.

            — Amanhã você vem?

            Ela olhou para ele.

            — Uai, se ocê quiser.

            — Quero.

            Ela sorriu.

            — Então venho.

            Joaquim ficou sozinho na varanda.

            Pensou que talvez tivesse passado tantos anos procurando um lugar para voltar que não percebeu que o lugar sempre estivera dentro dele.

            O interior não era apenas a cidade.

            Não era a praça.

            Não era a igreja.

            Não era a roça.

            Não era a casa.

            Era uma maneira de guardar o tempo.

            Ali, os mortos continuavam vivos nas fotografias.

            Os amores antigos continuavam sentados nos bancos da praça.

            As músicas continuavam tocando mesmo quando ninguém mais sabia seus nomes.

            As festas acabavam, mas deixavam cheiro de fumaça nas roupas.

            As procissões terminavam, mas o som dos sinos permanecia.

            As pessoas partiam.

            As casas envelheciam.

            As árvores cresciam.

            As estradas mudavam.

            E ainda assim alguma coisa permanecia.

            Talvez fosse a memória.

            Talvez fosse Deus.

            Talvez fosse apenas a teimosia do coração em não deixar morrer aquilo que um dia lhe deu sentido.

            Joaquim entrou em casa.

            Antes de dormir, abriu a janela.

            O ar da noite entrou.

            Havia cheiro de terra molhada.

            Em algum lugar, um grilo cantava.

            Ele ouviu uma última vez a música distante da viola.

            E sorriu.

            Porque finalmente compreendia.

            Não havia distância entre o céu e o interior.

            O céu estava sobre a cidade pequena.

            Mas o interior estava dentro dele.

            E, depois de tantos anos correndo para longe, Joaquim descobrira que certas estradas não servem para ir embora.

            Servem para voltar.

            Naquela noite, dormiu sem medo.

            E sonhou com a mãe.

            Ela estava na cozinha, coando café.

            Seu pai estava sentado à mesa.

            Dito ria do lado de fora.

            Mariana caminhava pela praça.

            A igreja tocava os sinos.

            E a velha estrada de terra seguia para longe, entrando no horizonte.

            Joaquim caminhava por ela.

            Não sabia para onde.

            Também não precisava saber.

            Ao longe, o céu começava a clarear.

            E, pela primeira vez em muitos anos, ele não sentiu saudade do lugar onde tinha vivido.

            Sentiu saudade de si mesmo.

            Do menino que fora.

            Do homem que poderia ter sido.

            Da vida que passou.

            E compreendeu, com aquela simplicidade que só chega quando quase tudo já passou, que a gente nunca volta exatamente para casa.

            Volta para dentro de si.

            E às vezes isso basta.

            Porque há lugares que desaparecem do mapa, mas continuam existindo no coração.

            Há vozes que morrem, mas continuam chamando.

            Há músicas que envelhecem, mas nunca ficam antigas.

            Há amores que não acontecem, mas permanecem.

            E há um céu.

            Sempre o mesmo.

            Azul de manhã.

            Vermelho no fim da tarde.

            Escuro à noite.

            Cheio de estrelas.

            E há o interior.

            Com sua poeira, suas festas, suas rezas, suas modas de viola, seus causos, suas fogueiras, suas procissões, suas janelas abertas, suas cozinhas cheirando a café, suas mulheres na calçada, seus homens falando de chuva, seus meninos correndo descalços e seus velhos guardando histórias como quem guarda sementes.

            Talvez seja por isso que Joaquim tenha voltado.

            Não para recuperar o passado.

            Isso ninguém consegue.

            Voltou apenas para ouvir novamente aquilo que o mundo moderno havia feito tanto barulho para calar.

            O silêncio.

            O sino.

            A viola.

            O vento no quintal.

            A voz de quem chama pelo nosso nome.

            E, principalmente, aquele sentimento antigo de que, apesar de tudo, apesar do tempo, apesar da morte e das estradas que nos levam para longe, ainda existe algum lugar onde podemos sentar, respirar fundo e dizer baixinho:

            — Uai… cheguei.

Clayton Alexandre Zocarato

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Contrato de permanência com o nada

Clayton Alexandre Zocarato desvenda as pequenas mentiras cotidianas e o abismo de um homem diante da própria consciência.

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Naquela manhã, o homem acordou antes que o despertador tocasse. Não havia motivo para isso. O corpo simplesmente abandonara o sono como quem abandona uma cidade condenada. 

Durante alguns segundos permaneceu imóvel, olhando para o teto, tentando descobrir se havia alguma diferença entre acordar e continuar dormindo. O teto estava ali, branco, indiferente, perfeitamente inútil. Uma pequena rachadura atravessava a pintura e terminava exatamente sobre sua cabeça. 

Pensou que talvez aquela rachadura fosse a única coisa verdadeiramente honesta naquele quarto. Ela não prometia nada. Não escondia sua existência. Não procurava justificar-se.

Levantou-se lentamente. O chão estava frio. Caminhou até o banheiro e observou o próprio rosto no espelho. Não reconheceu imediatamente aquele homem. Havia olhos, barba, pele, rugas discretas e uma expressão que parecia pertencer a alguém que já havia desistido de esperar alguma coisa. Aproximou o rosto do espelho. Durante alguns instantes teve a impressão de que seu reflexo respirava depois dele. Recuou. Piscou. O reflexo continuou imóvel por uma fração de segundo antes de imitá-lo. Sorriu involuntariamente. O outro não sorriu.

Naquele instante compreendeu uma coisa que não conseguiu formular: talvez nunca tivesse sido o homem diante do espelho. Talvez tivesse sido apenas o reflexo de alguma coisa que se recusava a existir.

Preparou café. A água ferveu. O ruído da chaleira ocupou a cozinha com uma espécie de alegria mecânica. Colocou açúcar na xícara, mexeu lentamente e observou o líquido escuro girar. Pensou que a vida talvez fosse aquilo: uma substância amarga que alguém insistia em adoçar para suportá-la. O problema era que, depois de algum tempo, até o açúcar se dissolvia e deixava apenas o gosto original.

Saiu para trabalhar.

‘ Na rua, as pessoas caminhavam depressa. Todas pareciam saber para onde estavam indo. Ele desconfiava disso. Talvez ninguém soubesse. Talvez a pressa fosse apenas uma forma socialmente aceita de esconder o medo.

Os homens carregavam pastas, as mulheres carregavam bolsas, crianças carregavam mochilas maiores do que seus corpos. Os automóveis avançavam uns contra os outros como animais treinados para disputar alguns segundos de existência.

Parou diante de uma faixa de pedestres. Uma senhora ao seu lado segurava duas sacolas de supermercado. Ela respirava com dificuldade. Olhou para ele e perguntou se aquele ônibus passava pelo centro. Ele respondeu que sim, embora não tivesse certeza.

A mulher agradeceu.

Foi embora.

Ele continuou parado.

Pensou que talvez toda relação humana fosse construída sobre pequenas mentiras necessárias. Ela acreditara nele. Ele acreditara que precisava responder alguma coisa. Nenhum dos dois sabia a verdade. Ainda assim, por alguns segundos, tinham dividido uma certeza falsa. Talvez fosse isso que as pessoas chamavam de convivência.

No trabalho, cumprimentou os colegas. Sentou-se diante do computador. 

A tela acendeu e pediu uma senha. Digitou. O sistema carregou lentamente. Na parte superior aparecia seu nome completo, seguido de um número de identificação. Ficou olhando para aquilo durante muito tempo.

Seu nome parecia menor que o número.

O número parecia mais importante que seu rosto.

Sentiu uma estranha vontade de rir.

Havia passado anos tentando construir uma identidade e agora descobria que bastavam alguns algarismos para substituí-la.

Abriu os arquivos. Respondeu mensagens. Preencheu formulários. Conferiu documentos. O mundo continuava funcionando sem precisar de sua presença interior. Isso o incomodou mais do que deveria. Percebeu que poderia desaparecer naquele instante e, provavelmente, algumas pessoas só perceberiam depois de algumas horas. Outras depois de alguns dias. Algumas talvez nunca percebessem.

O pensamento não o entristeceu.

Pior.

O pensamento lhe pareceu lógico.

Durante o intervalo, foi até a janela. Lá embaixo, centenas de pessoas atravessavam a rua. Observou uma criança correndo atrás de um pombo. O animal levantou voo. A criança parou e riu.

Ele ficou olhando.

Havia uma crueldade naquela cena.

A criança ainda acreditava que correr atrás das coisas era suficiente para alcançá-las.

Ele já sabia que não era.

Talvez crescer fosse exatamente isso: descobrir lentamente a distância entre o desejo e aquilo que o mundo permite. Primeiro desejamos brinquedos. Depois pessoas. Depois reconhecimento. Depois dinheiro. Depois tranquilidade. Finalmente desejamos apenas não desejar mais nada.

E mesmo isso nos é negado.

À tarde, recebeu uma ligação de sua mãe. Ela perguntou se ele estava bem. Respondeu que sim.

Outra mentira.

Ela perguntou se havia comido.

Disse que sim.

Outra.

Perguntou quando iria visitá-la.

Disse que no domingo.

Não sabia se iria.

Desligou.

Ficou olhando para o telefone.

A culpa apareceu, mas não como arrependimento. Era uma culpa antiga, quase doméstica, como um móvel esquecido dentro da consciência. Pensou na mãe envelhecendo. Pensou no pai morto. Pensou nas fotografias guardadas em caixas. Pensou nas pessoas que amamos apenas depois que percebemos que não poderemos mais conversar com elas.

Talvez amar fosse isso: assinar antecipadamente um contrato de sofrimento.

Quanto mais amamos alguém, mais garantimos a nós mesmos uma futura ausência.

Essa ideia lhe pareceu terrível.

Depois lhe pareceu verdadeira.

Ao sair do trabalho, caminhou sem destino. A cidade começava a acender suas luzes. As vitrines exibiam roupas caras, relógios, aparelhos eletrônicos, objetos que prometiam melhorar a existência. Entrou em uma loja e observou um relógio de pulso. Era bonito. Custava mais do que seu salário mensal.

O vendedor aproximou-se.

— Posso ajudá-lo?

Ele olhou para o relógio.

— Quanto tempo ele dura?

O vendedor sorriu, sem entender.

— É um excelente relógio. Tem garantia.

— Não perguntei sobre a garantia.

O vendedor ficou em silêncio.

— Perguntei quanto tempo ele dura.

— Muitos anos.

O homem agradeceu e saiu.

Na calçada, percebeu que não queria comprar o relógio. Queria comprar a sensação de que o tempo pudesse ser possuído.

Não podia.

Ninguém podia.

O tempo era o único proprietário de todos.

Continuou andando.

Entrou em um bar quase vazio. Sentou-se no fundo. Pediu uma bebida. O homem atrás do balcão serviu sem perguntar nada. Aquilo lhe agradou. Havia uma espécie de delicadeza no silêncio de desconhecidos.

Um homem mais velho estava sentado próximo à porta lendo um jornal. De vez em quando franzia a testa. Depois dobrava a página. Depois voltava a ler.

Ele perguntou:

— O senhor encontra alguma coisa importante aí?

O velho levantou os olhos.

— Nada importante.

— Então por que continua lendo?

O velho pensou.

— Porque preciso ocupar o tempo.

O homem sorriu.

— E se o tempo não precisasse ser ocupado?

O velho dobrou o jornal.

— Então teríamos de descobrir o que fazer com nós mesmos.

Nenhum dos dois falou durante alguns minutos.

Depois o velho voltou ao jornal.

Aquela frase permaneceu dentro dele.

Talvez o maior medo humano não fosse a morte.

Talvez fosse o intervalo.

O instante em que não houvesse mais distrações suficientes para impedir alguém de encontrar a própria consciência.

Pagou a conta e voltou para casa.

No caminho, começou a chover.

Não procurou abrigo.

Andou lentamente enquanto a água escorria pelo rosto. Algumas pessoas corriam para debaixo das marquises. Ele continuou.

A chuva não o incomodava.

Havia algo quase reconfortante em ser molhado por uma coisa que não tinha intenção alguma.

Chegou ao prédio.

O elevador estava parado no quinto andar.

Apertou o botão.

Esperou.

Nada.

Subiu pelas escadas.

No terceiro andar ouviu uma televisão ligada atrás de uma porta. Alguém discutia sobre política. No quarto, uma criança chorava. No quinto, um casal discutia.

No sexto, silêncio.

Parou diante da própria porta.

Antes de abrir, ouviu alguém atrás dele.

Virou-se.

Não havia ninguém.

Olhou novamente.

No corredor vazio, uma segunda porta aparecera onde antes havia apenas uma parede.

A porta era antiga, de madeira escura.

Havia uma placa pequena.

Nela estava escrito:

CONTRATO DE PERMANÊNCIA COM O NADA.

Ele ficou olhando.

Pensou que aquilo fosse uma alucinação.

Estendeu a mão.

A maçaneta estava fria.

Abriu.

Do outro lado havia o mesmo corredor.

Exatamente o mesmo.

Mas não havia portas.

Apenas uma extensão interminável de paredes brancas.

Entrou.

A porta desapareceu atrás dele.

Continuou caminhando.

Não havia chão visível, mas seus pés tocavam alguma superfície. Não havia teto, mas não sentia o céu. Não havia vento, mas sua roupa se movia.

Depois de algum tempo encontrou uma mesa.

Sobre ela havia, um folha de papel.

Sentou-se.

Leu:

“Você deseja permanecer?”

Abaixo havia duas opções.

SIM.

NÃO.

Ele ficou olhando.

Parecia uma pergunta simples.

Não era.

Se respondesse sim, permaneceria.

Se respondesse não, o que aconteceria?

Procurou uma terceira opção.

Não havia.

Pensou em tudo aquilo que havia vivido. Os trabalhos. As conversas. Os amores interrompidos. As pequenas alegrias. Os fracassos. As esperanças que morreram antes de se transformarem em alguma coisa concreta.

Pensou na mãe.

Pensou na criança correndo atrás do pombo.

Pensou no velho lendo jornal.

Pensou no relógio.

Pensou no espelho.

Pensou na rachadura do teto.

Talvez existir fosse sempre escolher entre duas formas de perda.

Escolheu SIM.

A folha desapareceu.

Outra surgiu.

“Você aceita permanecer sem promessa de sentido?”

Ele respirou profundamente.

A pergunta lhe pareceu quase ofensiva.

Sentido?

Durante anos procurara sentido como quem procura uma casa. Talvez tivesse imaginado que em algum lugar existisse uma resposta esperando por ele. Uma estrutura secreta organizando tudo. Uma razão escondida atrás das coisas.

Mas talvez não houvesse nada.

Talvez o universo não fosse um livro.

Talvez fosse apenas uma página em branco onde criaturas desesperadas escreviam justificativas para não enlouquecer.

Pegou a caneta.

Escreveu:

ACEITO.

A folha desapareceu.

Outra apareceu.

“Você aceita que nenhuma escolha sua seja capaz de derrotar a morte?”

Ele respondeu:

SIM.

“Você aceita que aqueles que ama irão desaparecer?”

SIM.

“Você aceita que também será esquecido?”

Demorou.

Depois escreveu:

SIM.

A sala ficou escura.

Uma voz perguntou:

— Então por que deseja permanecer?

Ele não respondeu.

A voz insistiu:

— Por quê?

Ele tentou encontrar uma resposta.

Não encontrou.

Talvez permanecesse porque não sabia partir.

Talvez a vida não fosse vontade de existir, mas incapacidade de desaparecer.

Lembrou-se de uma ideia que havia lido muitos anos antes: o sofrimento nasce porque desejamos aquilo que o mundo não tem obrigação alguma de nos oferecer. Outra lembrança surgiu: a existência não vinha acompanhada de instruções. 

Depois outra: somos lançados no mundo e obrigados a escolher mesmo quando nenhuma escolha parece boa. E uma última ideia, ainda mais terrível, apareceu dentro dele: talvez a liberdade fosse apenas o nome elegante que damos à nossa condenação de escolher.

A voz perguntou:

— Você ainda quer permanecer?

Ele respondeu:

— Não sei.

Pela primeira vez, a voz pareceu satisfeita.

— Finalmente.

As paredes começaram a desaparecer.

O corredor transformou-se no quarto de sua casa.

Ele estava deitado na cama.

O despertador tocava.

A luz da manhã atravessava a janela.

Levantou-se.

Foi ao banheiro.

Olhou para o espelho.

O reflexo sorria.

Dessa vez, ele não.

A rachadura continuava no teto.

O café estava sobre a mesa.

O telefone tocou.

Era sua mãe.

Ele atendeu.

— Filho?

Ficou em silêncio.

— Você está aí?

— Estou.

— Você vem domingo?

Olhou para a janela.

A cidade estava começando novamente.

— Venho.

Desligou.

Foi até a cozinha.

Preparou café.

Sentou-se.

Durante alguns minutos, permaneceu olhando para a xícara.

Depois percebeu alguma coisa escrita em sua mão.

Não se lembrava de ter escrito.

Era uma frase curta:

“Permanecer também é uma forma de morrer.”

Esfregou a pele.

A frase não saiu.

Lavou as mãos.

Continuou ali.

Naquele momento compreendeu que o contrato nunca havia sido assinado naquela sala impossível. 

Ele vinha sendo assinado todos os dias, silenciosamente, através de pequenas concessões: acordar quando não queria, trabalhar quando não acreditava, sorrir quando estava vazio, amar sabendo que perderia, esperar sabendo que a espera também envelhecia.

O contrato era a própria rotina.

O nada não precisava buscá-lo.

O nada já estava dentro de tudo.

Estava no café que esfriava.

No telefone que parava de tocar.

Na cadeira vazia.

Na fotografia de alguém morto.

No emprego que consumia anos.

Nas palavras que não foram ditas.

Nas palavras que foram ditas tarde demais.

No corpo que envelhecia enquanto a pessoa continuava fingindo ser a mesma.

Levantou-se.

Foi até a porta.

Antes de sair, olhou uma última vez para o espelho.

Dessa vez, o reflexo não o acompanhou.

Ficou parado.

Ele abriu a porta.

O reflexo ficou parado.

Desceu as escadas.

No terceiro andar, ouviu uma televisão.

No quarto, uma criança chorava.

No quinto, um casal discutia.

No sexto, silêncio.

Saiu para a rua.

A senhora das sacolas estava no ponto de ônibus.

Ela olhou para ele.

— Esse ônibus passa pelo centro?

Ele hesitou.

Dessa vez, respondeu:

— Não sei.

Ela sorriu.

— Tudo bem.

O ônibus chegou.

Ela entrou.

Ele ficou.

A cidade continuou.

Os carros passaram.

As pessoas caminharam.

As lojas abriram.

Os relógios avançaram.

E, em algum lugar invisível entre um segundo e outro, alguém assinou novamente o contrato.

Sem testemunhas.

Sem promessa.

Sem Deus.

Sem sentido.

Apenas a permanência.

E o nada, paciente, permaneceu esperando.

Clayton Alexandre Zocarato

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O imóvel que respira no escuro

Conto de Clayton Alexandre Zocarato narra os segredos de uma misteriosa casa viva

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O imóvel respirava.

            Ninguém sabia dizer quando aquilo havia começado, e talvez essa fosse a primeira mentira contada pela casa, porque toda coisa que respira já respirou antes de ser percebida.

            O problema não era ouvir o ar entrando pelas paredes, nem perceber o pequeno movimento das janelas durante a madrugada, nem mesmo a insistência de um ruído semelhante ao pulmão de um animal adormecido.

            O problema era que o imóvel respirava sem possuir pulmões, e isso fazia com que todas as explicações possíveis parecessem imediatamente ridículas.

            Durante o dia, a casa permanecia imóvel, obediente à geometria das coisas que não possuem vontade. Era um imóvel como tantos outros: paredes, portas, janelas, corredores, tomadas, uma escada estreita, um quintal coberto por uma espécie de silêncio vegetal.

            Havia poeira sobre os móveis e uma lâmpada que demorava alguns segundos para acender. Havia também uma torneira que pingava sempre às três horas da tarde, embora ninguém tivesse encontrado qualquer vazamento.

            À noite, porém, tudo mudava.

            Não era uma mudança visível. O imóvel não crescia, não se deslocava, não alterava a posição das portas. Nada acontecia que pudesse ser fotografado.

             Ainda assim, às duas horas e dezessete minutos, aproximadamente, as paredes pareciam adquirir uma espessura diferente, como se deixassem de separar o interior do exterior e passassem a separar o possível do impossível.

            Era nesse momento que começava a respiração.

            Primeiro, um sopro quase imperceptível.

            Depois, um longo recolhimento.

            Em seguida, o estalo das vigas.

            E então o imóvel inspirava.

            Inspirava como quem espera alguma coisa.

            Expirava como quem se arrepende.

            Ninguém morava ali havia muitos anos. Isso, entretanto, nunca significou que o imóvel estivesse vazio. O vazio é uma palavra inventada pelos vivos para nomear aquilo que não conseguem ocupar. Uma casa abandonada não está vazia. Está cheia de ausências. E algumas ausências possuem mais peso do que pessoas.

            O antigo proprietário havia desaparecido sem deixar explicações. Não havia sangue, não havia cartas, não havia roupas abandonadas sobre uma cama. Havia apenas uma fotografia encontrada na sala, virada para a parede. Nela aparecia a fachada do imóvel, ainda recém-construído, mas havia uma diferença perturbadora: todas as janelas estavam abertas, embora a fotografia tivesse sido tirada em um dia de inverno.

            No verso da fotografia havia uma frase:

            “Não venda a casa. Ela ainda não terminou de existir.”

            Ninguém compreendeu.

            Frases assim costumam sobreviver porque não precisam ser compreendidas.

            Durante anos, corretores tentaram vender o imóvel. Alguns desistiram depois de visitá-lo. Outros simplesmente desapareceram dos registros, como se nunca tivessem trabalhado com imóveis.

            Um deles afirmou que havia entrado na cozinha e saído pela infância. Outro jurou ter encontrado, no segundo andar, uma porta que dava para uma sala idêntica à sala de entrada, mas habitada por móveis que pertenciam à sua própria casa.

            Ninguém acreditou.

            É sempre mais fácil acreditar na loucura de alguém do que na arquitetura de uma casa.

            O imóvel permaneceu fechado.

            Até que certa noite alguém entrou.

            Não porque desejasse comprar.

            Não porque procurasse abrigo.

            Não porque estivesse perdido.

            Entrou porque teve a impressão de que a casa o chamava.

            Era uma sensação absurda, quase infantil. Um chamado sem voz. Uma inclinação invisível do mundo. Como se todas as ruas daquela cidade tivessem sido construídas para conduzi-lo àquela porta.

            Parou diante da fachada.

            A noite estava úmida.

            As árvores permaneciam imóveis.

            Nenhum carro passava.

            Então ouviu.

            Um som profundo.

            Lento.

            Respiratório.

            O imóvel inspirou.

            Ele recuou.

            O imóvel expirou.

            Ele aproximou-se.

            Durante alguns segundos ficou diante da porta, tentando decidir se aquilo que sentia era medo ou apenas a percepção tardia de que nunca havia estado realmente seguro em lugar algum.

            Tocou a maçaneta.

            Estava quente.

            Isso o perturbou mais do que qualquer outra coisa.

            Uma maçaneta quente significa que alguém esteve ali.

            Ou que a própria casa possui temperatura.

            Ou que a realidade é apenas uma forma educada de esconder aquilo que não conseguimos explicar.

            Abriu a porta.

            A sala estava escura.

            Não havia eletricidade, mas alguma luminosidade cinzenta penetrava pelas frestas das janelas. A poeira suspensa parecia formar pequenas constelações. Por alguns instantes ele teve a impressão de que o chão se movia.

            Não era o chão.

            Era a respiração.

            As paredes avançavam alguns milímetros e recuavam.

            Avançavam.

            Recuavam.

            Como se o imóvel estivesse tentando aprender a permanecer vivo.

            Ele entrou.

            A porta fechou-se atrás dele.

            Não houve estrondo.

            Apenas um clique.

            O tipo de clique que uma decisão produz quando já não pode ser desfeita.

            Olhou para trás.

            A porta estava lá.

            Mas parecia distante.

            Muito distante.

            Não fisicamente.

            Existencialmente.

            Aquela porta ainda era uma porta, mas havia deixado de ser uma saída.

            Foi então que compreendeu que certas coisas não precisam estar trancadas para impedir uma fuga.

            Caminhou pela sala.

            Havia um relógio sobre a parede.

            O ponteiro dos segundos girava para trás.

            Ele aproximou-se.

            O relógio marcava duas horas e dezessete minutos.

            Sempre.

            O ponteiro dos minutos tremia.

            O dos segundos recuava.

            O das horas parecia imóvel.

            Encostou o ouvido na parede.

            Ouviu um coração.

            Afastou-se imediatamente.

            Depois riu.

            Riu porque a alternativa seria aceitar.

            E rir diante do inexplicável é uma das últimas formas de soberania que restam ao homem.

            — É apenas madeira — disse.

            A parede respondeu:

            — Sim.

            Ele ficou imóvel.

            Não havia boca.

            Não havia voz.

            A resposta parecia ter surgido dentro de sua cabeça, mas possuía uma textura estranha, como se outra consciência tivesse utilizado sua memória para falar.

            — Quem disse isso?

            Silêncio.

            — Eu perguntei quem disse isso.

            A casa respirou.

            — Ninguém.

            Ele olhou para o teto.

            — Então quem respondeu?

            A casa permaneceu imóvel.

            — Você.

            — Eu não disse nada.

            — Ainda.

            A palavra caiu dentro dele como uma pedra.

            Ainda.

            O que significava ainda?

            Ainda não havia dito?

            Ainda não existia?

            Ainda não havia morrido?

            A casa respirou novamente.

            Ele começou a caminhar.

            No corredor havia sete portas.

            Tinha certeza de que eram seis.

            Contou novamente.

            Sete.

            Abriu a primeira.

            Um quarto vazio.

            Abriu a segunda.

            Outro quarto vazio.

            A terceira dava para uma pequena biblioteca.

            Livros ocupavam as estantes.

            Todos sem títulos.

            Retirou um volume.

            Abriu.

            As páginas estavam em branco.

            Virou outra.

            Em branco.

            Outra.

            Em branco.

            Até chegar à última página.

            Ali havia uma única frase:

            “Você está lendo o lugar errado.”

            Fechou o livro.

            Devolveu-o à estante.

            Foi então que percebeu que os livros respiravam.

            As capas se elevavam lentamente.

            Subiam.

            Desciam.

            Subiam.

            Desciam.

            Centenas de pequenos pulmões de papel.

            Ele saiu da biblioteca.

            A casa parecia observá-lo.

            Não havia olhos.

            Mas havia observação.

            Talvez os olhos sejam apenas uma forma primitiva de observar.

            Talvez observar seja algo que as paredes fazem melhor do que nós.

            Entrou em outro quarto.

            Havia uma cama.

            Sobre ela, um casaco.

            O casaco estava molhado.

            Ele reconheceu o tecido.

            Era seu.

            Passou a mão sobre a roupa.

            Estava fria.

            No bolso encontrou uma chave.

            Não sabia de que porta era.

            Guardou-a.

            Então ouviu passos no andar superior.

            Um.

            Dois.

            Três.

            Pararam.

            Depois quatro.

            Cinco.

            Seis.

            Ele contou.

            Eram os passos de alguém descendo.

            Mas não havia escada naquela direção.

            Mesmo assim, os passos aproximavam-se.

            O som atravessava o teto.

            Descia pelas paredes.

            Entrava no chão.

            Até que parou diante dele.

            — Quem está aí?

            A casa respondeu:

            — Você.

            — Eu estou aqui.

            — Não este.

            Ele sentiu frio.

            — Quantos de mim existem?

            A casa demorou a responder.

            — Depende de quando você pergunta.

            Ele começou a compreender que não deveria fazer perguntas.

            Mas o ser humano, diante do abismo, costuma fazer perguntas justamente porque não sabe fazer outra coisa.

            — A casa está viva?

            Silêncio.

            — A casa está viva?

            O imóvel respirou profundamente.

            — A pergunta é pequena demais.

            — Então o que você é?

            As paredes estalaram.

            — Aquilo que permanece quando ninguém mais acredita.

            Ele sentou-se na cama.

            Durante alguns minutos não disse nada.

            A casa também não.

            Foi o primeiro momento de paz.

            Talvez a paz seja apenas a suspensão temporária das perguntas.

            Fechou os olhos.

            Pensou em sua infância.

            Não lembrava do rosto da mãe.

            Isso o assustou.

            Tentou lembrar do pai.

            Também não conseguiu.

            Lembrou da escola.

            Dos corredores.

            Da primeira vez em que sentira vergonha.

            Do primeiro beijo.

            Da primeira morte.

            Mas tudo parecia acontecer dentro daquela casa.

            A casa não mostrava lembranças.

            Ela fabricava passado.

            E talvez essa fosse sua verdadeira perversidade.

            Ela não precisava matar ninguém.

            Bastava alterar aquilo que alguém acreditava ter vivido.

            Levantou-se.

            No corredor, agora havia oito portas.

            Depois nove.

            Depois dez.

            Cada vez que olhava, uma nova porta aparecia.

            — Isso não é possível.

            A casa respondeu:

            — Possível para quem?

            Ele não respondeu.

            A casa continuou:

            — Você chama de impossível tudo aquilo que não sabe suportar.

            — E o que é possível?

            — Tudo o que já aconteceu.

            — E o que não aconteceu?

            — Também.

            Ele fechou os olhos.

            — Você não faz sentido.

            A casa respirou.

            — Finalmente.

            Foi então que ele percebeu que o absurdo não era a casa respirar.

            O absurdo era ele esperar que o mundo tivesse obrigação de fazer sentido.

            A casa não era louca.

            Louca era a expectativa.

            Aquela pequena crença humana de que paredes deveriam permanecer imóveis, relógios deveriam avançar, portas deveriam conduzir a lugares e mortos deveriam permanecer mortos.

            A casa apenas retirava essas convenções.

            E, sem elas, o mundo revelava sua verdadeira arquitetura.

            Uma arquitetura sem arquiteto.

            Caminhou até o fim do corredor.

            Encontrou uma porta diferente.

            Era branca.

            Sem maçaneta.

            Sobre ela havia uma inscrição:

            “ENTRE QUANDO TIVER CERTEZA.”

            Ele sorriu.

            — Nunca entrarei.

            A casa respondeu:

            — Já entrou.

            A porta abriu-se.

            Do outro lado havia uma sala completamente iluminada.

            Ele reconheceu o lugar.

            Era a sala de sua própria casa.

            Seu sofá.

            Sua televisão.

            Sua mesa.

            Seu relógio.

            Seu retrato.

            Mas havia alguém sentado no sofá.

            Ele mesmo.

            A outra versão levantou-se.

            Olhou para ele.

            Sorriu.

            — Você demorou.

            Ele não conseguiu falar.

            — Quanto tempo estou aqui?

            O outro respondeu:

            — Desde antes de você entrar.

            — Isso é impossível.

            — Você continua usando essa palavra.

            — Quem é você?

            — A pergunta errada.

            — Então qual é a pergunta certa?

            O outro aproximou-se.

            — Por que você precisa ser alguém?

            Ele ficou em silêncio.

            O outro continuou:

            — Você passou a vida inteira tentando transformar existência em propriedade. Meu corpo. Minha casa. Meu nome. Minha profissão. Minha memória. Meu passado. Meus medos. Até a morte você queria possuir.

            — Eu apenas fiquei.

            A frase pareceu produzir uma rachadura no ar.

            O imóvel respirou.

            As duas versões dele permaneceram diante uma da outra.

            Então o outro desapareceu.

            Não morreu.

            Não saiu.

            Apenas deixou de estar onde estava.

            Ele entrou na sala.

            Era sua casa.

            Mas não era.

            Sobre a mesa havia uma fotografia.

            Pegou-a.

            Era a fachada do imóvel.

            Virou.

            No verso estava escrito:

            “Não venda a casa. Ela ainda não terminou de existir.”

            Ele deixou a fotografia cair.

            Sentiu vontade de chorar.

            Não chorou.

            Talvez porque naquele momento percebeu que até suas lágrimas pertenciam à casa.

            Saiu.

            A porta estava novamente diante dele.

            Abriu.

            Do lado de fora amanhecia.

            A rua estava cheia.

            Pessoas caminhavam.

            Carros passavam.

            Um cachorro latia.

            Uma mulher varria a calçada.

            Tudo parecia normal.

            Olhou para trás.

            O imóvel estava silencioso.

            Nenhum movimento.

            Nenhuma respiração.

            Nada.

            Ele caminhou alguns metros.

            Sentiu alívio.

            Então ouviu um som.

            Inspirou.

            Expirou.

            Parou.

            Percebeu que o som vinha de dentro dele.

            Respirou novamente.

            A casa respirou junto.

            Ou talvez ele respirasse como a casa.

            Voltou-se.

            A fachada permanecia imóvel.

            No segundo andar, uma janela abriu-se lentamente.

            Ele não viu ninguém.

            Mas teve certeza de que havia alguém olhando.

            Continuou caminhando.

            Durante meses tentou esquecer.

            Conseguiu esquecer durante alguns dias.

            Depois durante algumas horas.

            Depois durante alguns minutos.

            Até perceber que o esquecimento também era uma forma de permanência.

            Começou a sonhar com o imóvel.

            Todas as noites.

            Nos sonhos, nunca entrava.

            Ficava diante da porta.

            Esperando.

            A casa respirava.

            Ele respirava.

            E ambos aguardavam alguma coisa que nenhum dos dois sabia nomear.

            Certa manhã, recebeu uma carta.

            Não havia remetente.

            Dentro havia apenas uma folha.

            Nela estava escrito:

            “Você deixou sua chave aqui.”

            Ele verificou os bolsos.

            A chave encontrada no quarto ainda estava consigo.

            Colocou-a sobre a mesa.

            Naquela noite, dormiu mal.

            Às duas horas e dezessete minutos, acordou.

            Ouviu o som.

            Inspirar.

            Expirar.

            Inspirar.

            Expirar.

            O som vinha do corredor.

            Levantou-se.

            Abriu a porta do quarto.

            A chave estava no chão.

            Não sobre a mesa.

            No chão.

            Brilhava sob a luz fraca.

            Ele pegou.

            Não sabia por quê.

            Vestiu-se.

            Saiu de casa.

            Andou pelas ruas vazias.

            A cidade parecia outra.

            Ou talvez ele fosse outro.

            Chegou ao imóvel pouco antes do amanhecer.

            A porta estava aberta.

            Entrou.

            Desta vez não sentiu medo.

            Sentiu reconhecimento.

            O que era pior.

            A casa respirou.

            — Você voltou.

            Ele respondeu:

            — Eu nunca saí.

            A casa permaneceu em silêncio.

            — Então acabou?

            — O quê?

            — Tudo isso.

            — Tudo isso ainda nem começou.

            Ele olhou para o corredor.

            Havia apenas uma porta.

            A mesma porta.

            Branca.

            Sem maçaneta.

            Sobre ela havia uma nova frase:

            “SAIA QUANDO TIVER CERTEZA.”

            Ele sorriu.

            Empurrou.

            A porta abriu.

            Do outro lado havia uma rua.

            A rua estava cheia.

            Pessoas caminhavam.

            Carros passavam.

            Um cachorro latia.

            Uma mulher varria a calçada.

            Era a mesma manhã.

            Era a mesma cidade.

            Era o mesmo mundo.

            Ele saiu.

            A porta fechou.

            Olhou para trás.

            Não havia imóvel.

            No lugar da casa existia apenas um terreno vazio.

            Nenhuma parede.

            Nenhuma janela.

            Nenhuma escada.

            Nenhum vestígio.

            Um homem passou por ele.

            Ele perguntou:

            — O senhor sabe o que havia aqui?

            O homem olhou para o terreno.

            — Nada.

            — Nunca houve uma casa?

            — Não.

            — Tem certeza?

            O homem sorriu.

            — Tenho.

            Ele continuou caminhando.

            Depois de alguns metros, colocou a mão no bolso.

            Encontrou a chave.

            Parou.

            Olhou para ela.

            Não havia nenhuma porta.

            Mas a chave existia.

            Talvez uma chave não precise de fechadura.

            Talvez sua função verdadeira seja lembrar ao homem que toda abertura contém a possibilidade de um fechamento.

            Guardou-a novamente.

            Continuou.

            A cidade despertava.

            O céu clareava.

            As pessoas começavam a falar.

            O mundo recuperava sua aparência habitual.

            Mas, em algum lugar atrás das coisas, havia uma respiração.

            Lenta.

            Profunda.

            Quase imperceptível.

            Ele caminhou mais depressa.

            A respiração acompanhou.

            Parou.

            Ela parou.

            Voltou a caminhar.

            Ela voltou.

            Então compreendeu.

            Não era o imóvel que respirava.

            Era o espaço entre ele e o imóvel.

            Era aquilo que permanecia quando a casa desaparecia.

            Era a distância.

            Era a ausência.

            Era o intervalo entre uma coisa e seu nome.

            Talvez fosse Deus.

            Talvez fosse o nada.

            Talvez fosse apenas o ruído do próprio sangue procurando uma saída.

            Ele não soube.

            E, pela primeira vez, não precisou saber.

            Sentou-se numa praça.

            Observou as pessoas.

            Todas caminhavam como se soubessem para onde iam.

            Ele achou aquilo profundamente comovente.

            Uma criança corria atrás de uma bola.

            Um homem discutia ao telefone.

            Uma mulher chorava discretamente.

            Um velho alimentava pássaros.

            Nada fazia sentido.

            Tudo continuava.

            E talvez esse fosse o único sentido possível.

            Continuar.

            Não porque houvesse destino.

            Não porque houvesse promessa.

            Não porque alguém tivesse escrito uma finalidade escondida atrás das paredes.

            Continuar porque o movimento é a forma mais discreta que o absurdo encontrou para não confessar sua derrota.

            Ele fechou os olhos.

            Respirou.

            Inspirou.

            Expirou.

            Por um instante, ouviu novamente o imóvel.

            Mas agora o imóvel estava dentro dele.

            Ou ele estava dentro do imóvel.

            Ou nunca existira imóvel algum.

            Abriu os olhos.

            A praça continuava ali.

            As pessoas continuavam ali.

            O mundo continuava.

            No bolso, a chave permanecia quente.

            Ele apertou-a entre os dedos.

            E ouviu, muito distante, uma porta se abrindo.

            Depois outra.

            Depois outra.

            Depois milhares.

            Todas ao mesmo tempo.

            Nenhuma levava a lugar algum.

            E, justamente por isso, todas levavam para dentro.

            Ele sorriu.

            Não havia mais casa.

            Não havia mais saída.

            Não havia mais pergunta.

            Apenas a respiração.

            Apenas o escuro.

            Apenas aquele estranho lugar onde o ser, cansado de existir, finalmente descobria que o nada também precisava respirar.

Clayton Alexandre Zocarato

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Valor de mercado inexistente

A sociedade moderna descobriu uma matéria-prima infinitamente abundante e perigosa: a nossa própria falta de tempo e excesso de telas!

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Uma arte digital conceitual e minimalista em tons de azul e cinza escuro. Ao centro, um smartphone moderno está em pé sobre uma superfície reflexiva e escura. A tela do aparelho exibe gráficos tridimensionais iluminados e métricas digitais que parecem se desmanchar no ar. O fundo é um espaço amplo e vazio com paredes de concreto e luzes frias de escritório, simbolizando a solidão na era digital e a transformação da vida em dados.
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Havia um preço para tudo, inclusive para aquilo que nunca existira. Essa foi a primeira descoberta do século que transformou a ausência em ativo, o desejo em patrimônio, a expectativa em investimento e a própria possibilidade de existir em mercadoria futura. 

Ninguém sabia exatamente quando começara, porque começos eram coisas antigas, pertencentes a épocas em que ainda se acreditava em causalidade, origem, destino. Agora tudo simplesmente acontecia, ou melhor, era disponibilizado para acontecer. 

A existência deixara de ser acontecimento e passara a ser interface. Respirava-se mediante atualização. Pensava-se sob demanda. Desejava-se por recomendação algorítmica. Morria-se, quando possível, sem interromper completamente a circulação dos dados.

O inexistente possuía cotação.

Era possível comprar aquilo que ainda não acontecera, vender aquilo que jamais aconteceria, especular sobre aquilo que ninguém sabia nomear e atribuir valor ao vazio desde que o vazio apresentasse alguma possibilidade de rentabilidade. 

O mercado descobrira uma matéria-prima infinitamente abundante: a falta. 

Não havia escassez de ausência. Quanto menos havia, mais se desejava. Quanto mais se desejava, mais se pagava. Quanto mais se pagava, mais a ausência se tornava real. 

E assim nasceu uma das maiores aberrações da espécie: transformar o nada em propriedade e depois convencer o nada de que ele devia alguma coisa.

A humanidade, depois de séculos tentando compreender o ser, finalmente descobrira o negócio do não-ser.

Não havia mais necessidade de possuir. Bastava prometer. A promessa era mais leve, mais rápida, mais rentável. 

Possuir implicava responsabilidade; prometer implicava circulação. A promessa podia ser atualizada, reformulada, reembalada, reprecificada. O objeto era pesado demais para uma civilização obcecada pela velocidade.

O futuro, entretanto, não pesava nada. Podia ser carregado no bolso, comprimido numa tela, vendido em parcelas, apresentado em gráficos coloridos, convertido em expectativa.

O futuro tornou-se um produto sem entrega.

E talvez tenha sido nesse momento que a existência começou a apodrecer de maneira elegante.

Não havia cadáveres nas ruas. Havia perfis. Não havia ruínas visíveis. Havia versões. Não havia silêncio. Havia notificações.

O mundo não terminara; apenas fora continuamente substituído por representações mais eficientes de si mesmo. A realidade, cansada de ser realidade, terceirizou sua própria aparência.

Tudo era mais importante quando parecia ser.

A aparência tornara-se uma forma superior de ontologia. Ser significava aparecer. Não aparecer significava inexistir. Existir sem registro era quase uma obscenidade metafísica.

Uma vida não fotografada, não comentada, não compartilhada, não transformada em narrativa pública parecia suspeita, talvez até incompleta. 

A antiga pergunta filosófica — por que existe algo em vez de nada? — fora substituída por outra, muito mais adequada ao século XXI: por que alguém deveria acreditar que você existe se não há dados suficientes para comprovar?

A alma foi substituída pelo histórico de atividades.

A consciência virou painel.

A memória virou armazenamento.

A identidade tornou-se senha.

O indivíduo, essa antiga ficção de interioridade, foi gradualmente transformado em pacote de informações negociáveis. 

Havia quem ainda insistisse em dizer “eu”, mas o pronome parecia cada vez mais uma empresa em processo de fusão. 

O eu possuía métricas, índices, avaliações, desempenho, reputação, alcance. Havia um eu profissional, um eu doméstico, um eu social, um eu desejável, um eu aceitável, um eu monetizável e, escondido atrás de todos eles, talvez existisse um eu clandestino, aquele que ninguém conhecia e que por isso mesmo parecia o último resíduo de liberdade.

Mas esse resíduo também estava à venda.

O mercado sempre chega atrasado à filosofia e, justamente por isso, consegue transformar seus conceitos em produtos.

A liberdade foi vendida como escolha.

A autenticidade foi vendida como estilo.

A felicidade foi vendida como experiência.

A rebeldia foi vendida como estética.

A tristeza foi vendida como conteúdo.

A solidão foi convertida em nicho.

Até o sofrimento recebeu embalagem.

Nada escapava. Nem mesmo aquilo que antes servia para denunciar o sistema acabou fora do sistema.

A crítica transformou-se em categoria. A indignação ganhou audiência. O desespero recebeu patrocínio. 

A angústia passou a ter público-alvo. O absurdo encontrou patrocinadores.

Talvez esse tenha sido o triunfo definitivo da civilização: conseguir transformar a própria consciência de sua ruína em oportunidade de negócio.

Não se tratava mais de esconder a decadência. Era preciso administrá-la.

A sociedade descobrira que uma pessoa pode sobreviver por muito tempo sem esperança, desde que possua metas.

Metas são pequenas esperanças burocratizadas.

O objetivo substituiu o sentido.

O desempenho substituiu a dignidade.

A produtividade substituiu a existência.

E ninguém precisava mais perguntar para onde estava indo. Bastava apresentar resultados.

Havia gráficos subindo enquanto a vida descia.

Havia relatórios positivos em meio a pessoas internamente negativas.

Havia crescimento em lugares onde ninguém conseguia respirar.

O mundo estava funcionando.

Esse era o problema.

Funcionava perfeitamente.

A máquina não precisava de felicidade. Precisava de funcionamento. Não precisava de sujeitos realizados. Precisava de sujeitos disponíveis. Não precisava de pessoas livres. Precisava de pessoas conectadas.

Conectividade era a nova palavra para designar uma prisão sem paredes.

Ninguém estava obrigado a permanecer conectado, naturalmente. A obrigação havia se tornado desnecessária.

A compulsão fora internalizada. O indivíduo carregava a cela consigo. Levava-a para a cama, para a mesa, para o trabalho, para o transporte, para os momentos de descanso. Até o descanso precisava produzir algum tipo de evidência.

Descansava-se para produzir melhor. Dormia-se para render mais. Exercitava-se para prolongar a produtividade. Lia-se para aumentar desempenho. Viajava-se para produzir memórias publicáveis.

Até o ócio precisava justificar sua existência.

O nada não podia simplesmente ser nada.

Era preciso monetizá-lo.

Talvez por isso o inexistente tenha adquirido tanto valor.

Aquilo que não havia acontecido era infinitamente manipulável. Não possuía resistência. Não podia contestar. Não podia exigir coerência. Não podia denunciar o fracasso. 

O inexistente era o trabalhador perfeito do imaginário econômico porque nunca reclamava das condições de trabalho.

Vendiam-se cidades que ainda não existiam.

Vendiam-se tecnologias que ainda não funcionavam.

Vendiam-se carreiras futuras.

Vendiam-se identidades possíveis.

Vendiam-se versões melhoradas de pessoas que odiavam suas versões presentes.

Vendia-se envelhecimento sem envelhecer.

Vendia-se juventude sem juventude.

Vendia-se amor sem encontro.

Vendia-se intimidade sem presença.

Vendia-se companhia sem corpo.

Vendia-se transcendência sem Deus.

E, principalmente, vendia-se sentido sem experiência.

O comprador assinava.

O inexistente valorizava.

A realidade cobrava.

O século XXI aperfeiçoara uma espécie particular de sofrimento: o sofrimento antecipado. Já não era necessário perder algo para sentir sua falta. Bastava imaginar a possibilidade da perda. 

Não era necessário fracassar para sentir fracasso. Bastava observar alguém aparentemente bem-sucedido. Não era necessário estar sozinho. Bastava comparar a própria solidão com a felicidade editada dos outros.

A comparação tornou-se uma forma industrial de tortura.

Cada tela carregava milhares de pequenas vidas aparentemente completas. Nenhuma delas parecia sofrer adequadamente. 

O sofrimento, quando aparecia, precisava ser estético. A tristeza devia possuir boa iluminação. A crise precisava gerar aprendizado. O luto deveria ensinar alguma coisa. A derrota precisava produzir uma narrativa de superação.

Não era permitido sofrer gratuitamente.

Até a dor precisava entregar produtividade.

Havia algo profundamente cruel nisso. Não a crueldade antiga, aquela que necessitava de violência explícita, mas uma crueldade limpa, asséptica, quase educada. Uma crueldade sorridente. Uma crueldade que oferecia ajuda enquanto perguntava se a pessoa havia considerado transformar sua fragilidade em oportunidade.

O sofrimento tornou-se empreendedor.

A angústia abriu uma conta.

A solidão ganhou seguidores.

O vazio foi monetizado.

E quanto mais o indivíduo percebia sua própria inutilidade, mais desesperadamente tentava parecer indispensável.

Era um paradoxo perfeito.

A civilização havia produzido instrumentos capazes de conectar bilhões de pessoas e, simultaneamente, fabricado uma solidão de escala planetária. Nunca houvera tanta comunicação e talvez nunca houvesse tão pouco diálogo. As palavras circulavam com velocidade absoluta e chegavam aos lugares onde não eram necessárias. A linguagem perdera o corpo. As frases eram lançadas como objetos descartáveis.

Falar não significava mais dizer.

Dizer não significava mais pensar.

Pensar não significava mais interromper.

E interromper era perigoso.

O sistema não temia exatamente a discordância. Discordâncias podem ser incorporadas. O sistema temia a interrupção. 

Uma pessoa que simplesmente deixa de produzir, de consumir, de responder, de justificar-se, de competir, de publicar, de desejar aquilo que lhe foi apresentado como desejável começa a cometer uma espécie de heresia econômica.

O silêncio, então, tornou-se suspeito.

Quem não responde parece hostil.

Quem não participa parece estranho.

Quem não compete parece fracassado.

Quem não se vende parece inexistente.

E foi assim que o inexistente passou a valer mais do que o existente: porque aquilo que existe pode ser medido, mas aquilo que ainda não existe pode ser infinitamente prometido.

O mercado prefere promessas.

Promessas não têm custos imediatos.

O futuro é um território onde toda mentira pode parecer plausível.

Talvez a humanidade tenha se tornado especialista em hipotecar aquilo que ainda não viveu.

Hipotecou o futuro dos filhos.

Hipotecou o planeta.

Hipotecou o próprio corpo.

Hipotecou a atenção.

Hipotecou a capacidade de desejar.

A existência inteira foi transformada em crédito.

E cada pessoa recebeu uma dívida invisível: tornar-se aquilo que poderia ser.

Essa dívida era impossível de quitar.

Sempre haveria uma versão melhor.

Mais eficiente.

Mais bonita.

Mais inteligente.

Mais saudável.

Mais produtiva.

Mais interessante.

Mais jovem.

Mais velha, quando fosse necessário parecer experiente.

Mais espontânea.

Mais disciplinada.

Mais livre.

Mais livre, sobretudo.

A liberdade passou a ser uma performance tão cansativa que muitos preferiram ser comandados desde que pudessem escolher o comando.

Havia uma estranha nostalgia de obediência.

Não se dizia assim.

Chamava-se curadoria.

Chamava-se recomendação.

Chamava-se personalização.

Chamava-se conveniência.

Mas talvez fosse apenas uma forma sofisticada de abdicação.

A pessoa escolhia aquilo que já havia sido escolhido para ela e experimentava a sensação reconfortante de possuir autonomia.

Essa era uma das maiores invenções do século: oferecer liberdade em doses controladas.

Escolha entre milhares de opções.

Escolha entre centenas de produtos.

Escolha entre infinitas imagens.

Escolha sua identidade.

Escolha sua narrativa.

Escolha sua indignação.

Escolha seu medo.

Escolha seu inimigo.

Escolha sua opinião.

E, quando terminar de escolher, compre.

O indivíduo contemporâneo tornou-se um consumidor de possibilidades.

Não vivia.

Selecionava.

Não experimentava.

Filtrava.

Não conhecia.

Comparava.

Não amava.

Avaliava.

Talvez o amor tenha sido uma das últimas coisas a resistir ao cálculo, mas até ele começou a apresentar indicadores. Compatibilidade. Interesse. Disponibilidade. Preferências. Distância. Probabilidade. Engajamento. Reciprocidade.

O encontro tornou-se estatística.

O beijo tornou-se confirmação.

A ausência tornou-se sinal.

A espera tornou-se ansiedade.

O desejo tornou-se algoritmo.

E, pouco a pouco, até o inesperado começou a parecer uma falha do sistema.

O acaso incomodava porque não possuía previsão de retorno.

Era necessário prever.

Prever para investir.

Prever para controlar.

Prever para evitar sofrimento.

Mas uma existência sem risco é apenas uma existência previamente amputada.

Talvez fosse isso que ninguém queria admitir.

A segurança absoluta não elimina a morte.

Apenas transforma a vida em uma sala de espera.

E todos esperavam.

Esperavam o próximo lançamento.

A próxima promoção.

O próximo reconhecimento.

A próxima atualização.

A próxima mensagem.

A próxima oportunidade.

O próximo relacionamento.

A próxima versão de si mesmos.

Esperavam tanto que o presente começou a parecer um erro de sistema.

O presente não tinha valor porque não prometia nada.

Era apenas aquilo que estava acontecendo.

E aquilo que estava acontecendo era insuficiente.

Sempre insuficiente.

O século XXI transformou a insuficiência em método.

Nunca basta.

Nunca chega.

Nunca é agora.

Sempre depois.

Depois do curso.

Depois do emprego.

Depois do dinheiro.

Depois da promoção.

Depois da viagem.

Depois da aposentadoria.

Depois da mudança.

Depois da cura.

Depois da próxima versão.

Depois.

A palavra mais lucrativa da história talvez seja “depois”.

Porque depois permite continuar comprando.

O futuro é o grande vendedor de uma mercadoria chamada esperança.

Mas esperança, quando industrializada, torna-se uma forma de adiamento.

O indivíduo contemporâneo não precisava acreditar que sua vida tinha sentido. Bastava acreditar que poderia ter.

Era suficiente.

A possibilidade tornou-se anestésico.

E talvez seja por isso que o inexistente valesse tanto.

Porque o inexistente não decepciona.

Aquilo que nunca aconteceu permanece perfeito.

Um amor que nunca começou não fracassou.

Uma carreira que nunca existiu não deu errado.

Uma cidade imaginária não possui trânsito.

Uma sociedade futura não possui desigualdade.

Uma revolução que nunca aconteceu permanece pura.

Uma pessoa que nunca se conheceu pode ser amada sem contradizer a fantasia.

A ausência é impecável porque não possui testemunhas.

E então se percebe a tragédia: talvez a humanidade não esteja apaixonada pelo futuro, mas pela impossibilidade de verificar suas promessas.

O inexistente tornou-se o último território onde a fantasia ainda consegue vencer a realidade.

Por isso recebe preço.

Por isso recebe investimento.

Por isso recebe propaganda.

Por isso recebe discursos.

Por isso recebe planos.

Por isso recebe conferências, relatórios, projetos, metas, plataformas, aplicativos, discursos motivacionais e toda uma indústria especializada em transformar o vazio em expectativa.

A indústria do futuro vende futuros.

Mas nenhum futuro chega como foi vendido.

Ele chega deformado pela realidade.

Chega envelhecido.

Chega tarde.

Chega com contas.

Chega com perdas.

Chega com corpos que já não são os mesmos.

Chega quando algumas pessoas que deveriam testemunhá-lo já morreram.

Chega, às vezes, e não encontra ninguém esperando.

Porque esperar pelo futuro é uma forma estranha de esquecer que o futuro, quando chega, chama-se presente.

E o presente é aquilo que mais desprezamos.

Talvez porque seja pobre em promessa.

O presente não pode ser editado.

Não oferece filtro.

Não permite voltar.

Não permite salvar outra versão.

Não aceita desfazer.

Ele simplesmente acontece.

E acontecer é uma violência contra o desejo de controle.

A existência sempre foi uma espécie de acidente.

Ninguém escolheu nascer.

Ninguém escolheu a primeira língua.

Ninguém escolheu o rosto inicial.

Ninguém escolheu o tempo histórico.

Ninguém escolheu o corpo que receberia.

Ninguém escolheu as perdas.

Depois, porém, ensinaram que tudo dependia de escolha.

A responsabilidade tornou-se uma religião.

Se deu errado, escolha melhor.

Se está pobre, escolha melhor.

Se está triste, escolha melhor.

Se fracassou, escolha melhor.

Se envelheceu, escolha melhor.

Se não conseguiu, tente outra estratégia.

A culpa foi individualizada até desaparecer a sociedade.

Tudo passou a parecer uma questão de desempenho pessoal.

O sistema podia permanecer invisível enquanto o indivíduo carregava sozinho a culpa por não ter conseguido vencer um jogo cujas regras jamais foram apresentadas de maneira igual.

Era uma crueldade elegante.

Não dizia “você é culpado”.

Dizia apenas:

“Você poderia ter feito mais.”

Essa frase bastava.

Ela entrava no corpo.

Dormia junto.

Acordava primeiro.

O indivíduo tornava-se fiscal de si mesmo.

Punidor.

Supervisor.

Chefe.

Cliente.

Produto.

Funcionário.

Mercadoria.

Tudo ao mesmo tempo.

Uma pequena empresa ambulante chamada eu.

E talvez esse seja o verdadeiro triunfo da sociedade de desempenho: transformar cada pessoa em seu próprio carcereiro e depois convencê-la de que a cela é autonomia.

Não havia mais necessidade de vigias.

Bastava a consciência.

Uma consciência saturada de metas, comparações, notificações e medo.

O medo era indispensável.

Medo de perder.

Medo de ficar para trás.

Medo de não ser suficiente.

Medo de envelhecer.

Medo de desaparecer.

Medo de não ser visto.

Medo de ser visto demais.

Medo de estar errado.

Medo de não ter opinião.

Medo de possuir a opinião errada.

Medo de não produzir.

Medo de produzir pouco.

Medo de produzir demais.

Medo de parar.

O medo tornou-se uma infraestrutura.

E uma infraestrutura eficiente não precisa ser percebida.

Ela apenas sustenta o funcionamento.

O medo sustentava.

Sustentava relações.

Empresas.

Instituições.

Governos.

Famílias.

Ambições.

Sonhos.

Até a esperança precisava de medo para continuar funcionando.

O medo de perder alimentava o desejo de possuir.

O medo de morrer alimentava o mercado da juventude.

O medo de adoecer alimentava a indústria da prevenção.

O medo de ficar sozinho alimentava plataformas de relacionamento.

O medo de fracassar alimentava cursos.

O medo de não saber alimentava especialistas.

O medo de não existir alimentava redes sociais.

E assim a humanidade descobriu que seu maior recurso econômico não era o petróleo, nem a informação, nem o dinheiro.

Era a insegurança.

A insegurança era renovável.

Cada resposta produzia uma nova pergunta.

Cada conquista produzia um novo padrão.

Cada padrão produzia uma nova inadequação.

Cada inadequação produzia um novo consumo.

O ciclo era perfeito.

E enquanto o indivíduo comprava soluções para problemas que ainda não possuía, o inexistente continuava valorizando.

Havia ações de empresas que negociavam expectativas.

Havia moedas sustentadas por confiança.

Havia mercados construídos sobre promessas.

Havia carreiras baseadas em competências que talvez nunca fossem utilizadas.

Havia tecnologias anunciadas antes de existirem.

Havia mundos virtuais esperando pessoas que ainda não tinham abandonado completamente o mundo real.

O inexistente não era mais ausência.

Era antecipação.

E antecipação era capital.

Talvez fosse por isso que ninguém soubesse exatamente onde terminava a realidade e começava a propaganda.

Tudo parecia anúncio de alguma coisa.

O céu anunciava calor.

O corpo anunciava desempenho.

A roupa anunciava personalidade.

O restaurante anunciava experiência.

A viagem anunciava felicidade.

A universidade anunciava futuro.

O trabalho anunciava sucesso.

A política anunciava mudança.

A religião anunciava salvação.

A tecnologia anunciava liberdade.

E a morte, silenciosa, anunciava a única coisa que nenhum mercado conseguira cancelar.

O fim.

Mas até a morte começou a ser administrada.

A morte foi digitalizada, arquivada, memorializada.

Perfis continuavam existindo depois das pessoas.

Imagens continuavam falando.

Mensagens permaneciam.

A pessoa morria, mas seus dados continuavam trabalhando.

Era uma espécie de pós-vida algorítmica.

Talvez o sonho mais perverso da civilização não fosse viver para sempre, mas continuar sendo útil depois de morto.

Um cadáver produtivo.

Uma memória monetizável.

Um rosto circulando.

Uma presença ausente.

Um inexistente com valor de mercado.

E então talvez fosse possível compreender a estranha economia do século XXI: quanto menos alguém existe como presença, mais pode existir como representação.

A presença é limitada.

A representação é infinita.

O corpo envelhece.

A imagem não.

A pessoa contradiz.

A marca não.

A memória falha.

O arquivo não.

A vida termina.

O perfil permanece.

Era uma vitória?

Talvez.

Mas uma vitória contra quem?

Contra a morte?

Contra o esquecimento?

Contra a própria condição humana?

Talvez não.

Talvez fosse apenas outra forma de adiamento.

Porque sobreviver como informação não significa continuar existindo.

Significa continuar circulando.

E circular não é viver.

Uma mercadoria também circula.

Uma moeda circula.

Um vírus circula.

Uma mentira circula.

Uma imagem circula.

Uma pessoa pode circular sem jamais estar em lugar algum.

Essa talvez fosse a grande doença metafísica do século: uma existência em circulação permanente, mas sem morada.

Tudo passa.

Nada permanece.

E justamente por isso tudo precisa ser registrado.

Fotografa-se porque se sabe que desaparecerá.

Publica-se porque se sabe que será esquecido.

Acumula-se porque se sabe que perderá.

Compra-se porque se sabe que morrerá.

Trabalha-se porque se sabe que não basta.

Ama-se com medo de perder.

Perde-se com medo de lembrar.

Lembra-se para não desaparecer.

E desaparece-se mesmo assim.

No fim, talvez o mercado não venda coisas.

Talvez venda pequenas defesas contra o nada.

E cada uma delas falha.

Porque o nada não precisa competir.

Ele espera.

Sem pressa.

Sem propaganda.

Sem preço.

O nada não precisa convencer ninguém.

É o único produto que todos receberão gratuitamente.

E talvez por isso seja tão assustador.

O inexistente possui valor porque ainda pode ser imaginado.

O nada absoluto não possui valor algum.

Não pode ser comprado.

Não pode ser vendido.

Não pode ser atualizado.

Não pode ser compartilhado.

Não pode ser curtido.

Não pode ser monetizado.

O nada simplesmente é a ausência de qualquer possibilidade de mercado.

Talvez seja por isso que a humanidade trabalhe tanto para não chegar até ele.

Produz.

Consome.

Comenta.

Publica.

Compra.

Vende.

Estuda.

Compete.

Corre.

Planeja.

Acumula.

Investe.

Promete.

E chama tudo isso de vida.

Talvez seja.

Talvez não.

A filosofia nunca conseguiu resolver completamente essa dúvida.

E talvez não devesse.

Porque uma resposta definitiva seria apenas mais um produto.

O século XXI não precisa de respostas.

Precisa de mais perguntas que não possam ser vendidas.

Perguntas sem utilidade.

Perguntas improdutivas.

Perguntas que não gerem certificados, resultados, seguidores, contratos ou oportunidades.

Perguntas capazes de interromper.

Porque talvez a verdadeira resistência comece quando alguém consegue permanecer diante de uma pergunta sem transformá-la imediatamente em solução.

Quem sou?

Por que existo?

O que desejo?

Quem colocou esse desejo em mim?

O que permanece quando ninguém olha?

O que sou quando não estou produzindo?

O que resta de mim quando desaparecem as avaliações?

Existe uma vida por trás daquilo que apresento?

Existe um eu antes da mercadoria?

Existe alguma coisa que não possa ser comprada?

Talvez sim.

Talvez não.

Mas procurar uma resposta já seria perigoso.

Porque a busca poderia devolver à existência aquilo que o mercado tentou retirar dela: sua inutilidade.

Talvez a vida não precise ter utilidade.

Talvez viver seja justamente aquilo que não serve para nada.

Um instante.

Uma conversa.

Um silêncio.

Um olhar que não produz registro.

Uma caminhada sem destino.

Uma tarde perdida.

Uma lembrança que não pode ser comercializada.

Uma tristeza sem legenda.

Uma alegria sem fotografia.

Um pensamento que ninguém lê.

Um gesto que não gera retorno.

Um amor que não pode ser contabilizado.

Uma ausência que não se transforma em conteúdo.

Talvez nesses restos miseráveis e magníficos sobreviva alguma coisa que ainda não tenha sido completamente colonizada.

Não seria liberdade.

Seria apenas uma falha.

Uma pequena falha humana.

Uma rachadura na máquina.

Um defeito de cálculo.

Um momento em que alguém não compra.

Não responde.

Não publica.

Não explica.

Não performa.

Não transforma.

Não otimiza.

Apenas permanece.

E permanecer, naquele mundo, seria quase um ato revolucionário.

Porque tudo exigia movimento.

Tudo precisava circular.

Tudo precisava crescer.

Tudo precisava produzir.

Permanecer era improdutivo.

O silêncio não tinha valor de mercado.

A contemplação não gerava dividendos.

A dúvida não entregava resultados.

A fragilidade não apresentava desempenho.

A morte não aceitava negociação.

E talvez fosse justamente por isso que ainda houvesse alguma esperança.

Não a esperança vendida.

Não a esperança parcelada.

Não a esperança publicitária.

Mas aquela espécie arcaica, quase inútil, que nasce quando o ser humano percebe que não controla nada e, mesmo assim, decide continuar olhando.

Olhar sem possuir.

Amar sem garantir.

Viver sem promessa.

Existir sem cotação.

Talvez fosse pouco.

Era quase nada.

Mas o quase nada ainda era alguma coisa.

E foi nesse quase nada que o inexistente perdeu, por um instante, seu valor.

Não porque tivesse deixado de ser desejado.

Mas porque alguém finalmente compreendera que nem tudo aquilo que não existe precisa existir.

Algumas coisas podem permanecer impossíveis.

Algumas perguntas podem permanecer abertas.

Alguns sonhos podem morrer sem terem fracassado.

Alguns desejos podem não ser realizados.

Algumas vidas podem não alcançar aquilo que prometeram.

E isso não significa necessariamente derrota.

Talvez seja apenas a condição humana.

Uma condição absurda, incompleta, contraditória, envelhecida desde o nascimento e condenada a atribuir significado ao que sabe que desaparecerá.

Talvez o ser humano seja justamente isso: uma criatura que sabe que vai morrer e, mesmo assim, inventa futuros.

Não porque acredita verdadeiramente neles.

Mas porque precisa continuar.

E continuar não é vencer.

Continuar é apenas adiar o silêncio.

O mercado chama isso de crescimento.

A filosofia talvez chame de existência.

A morte não chama de nada.

No fim, todas as cotações desaparecem.

As empresas fecham.

Os aplicativos envelhecem.

As moedas mudam.

As plataformas desaparecem.

Os nomes perdem relevância.

As imagens ficam ilegíveis.

Os arquivos corrompem.

As memórias se dissolvem.

Os monumentos racham.

As cidades mudam de dono.

Os livros acumulam poeira.

As ideias perdem seus intérpretes.

As promessas vencem.

Os futuros deixam de ser futuros.

E aquilo que um dia parecia impossível de perder se torna simplesmente aquilo que foi perdido.

Então talvez reste apenas o inexistente.

Não como mercadoria.

Não como investimento.

Não como promessa.

Mas como silêncio.

Um silêncio sem preço.

Sem audiência.

Sem algoritmo.

Sem comprador.

Sem vendedor.

Um silêncio que não precisa provar sua existência.

E talvez, diante dele, pela primeira vez em muito tempo, ninguém precise ser alguma coisa.

Nem vencedor.

Nem fracassado.

Nem produtivo.

Nem interessante.

Nem necessário.

Nem lembrado.

Nem visto.

Apenas aquilo que resta quando todas as versões foram retiradas.

Nada grandioso.

Nada heroico.

Nada vendável.

Apenas um corpo cansado diante do mundo.

Um pensamento sem utilidade.

Uma consciência sem mercado.

Uma existência sem garantia.

E, no interior dessa pobreza absoluta, talvez ainda exista alguma coisa que não possa ser precificada.

Não uma verdade.

Não uma salvação.

Não um sentido.

Talvez apenas a possibilidade de não transformar tudo em mercadoria.

Talvez seja pouco.

Mas o século XXI construiu um mundo tão faminto por valor que até o pouco se tornou precioso.

E então compreendemos a última ironia: o maior luxo de uma civilização que conseguiu atribuir preço ao inexistente talvez seja aquilo que não pode ser vendido.

Um instante que não serve para nada.

Um silêncio que não produz nada.

Uma vida que não precisa justificar-se.

E, por alguns segundos, enquanto o mundo continua funcionando, alguém permanece imóvel.

Não compra.

Não vende.

Não promete.

Não espera.

Não existe para o mercado.

E justamente por isso, pela primeira vez, talvez exista.

Não como produto.

Não como perfil.

Não como projeto.

Não como futuro.

Mas como presença.

Breve.

Imperfeita.

Inútil.

Mortal.

E completamente impossível de precificar.

Clayton Alexandre Zocarato

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Habitar a rachadura

Clayton Alexandre Zocarato ‘Habitar a rachadura’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Não há começo. Há apenas a pretensão humana de chamar de começo ao instante em que alguma coisa percebe que já estava ruindo. Antes da primeira palavra, a parede já conhecia a fissura. Antes da primeira consciência, o vazio já havia aprendido a pronunciar o nome de ninguém. O mundo não nasceu; abriu-se.

            E desde então permanece nessa abertura, esse desabismamentocontínuo que chamamos existência porque ainda não encontramos uma palavra suficientemente honesta para dizer: acidente.

            Habitar a rachadura não é morar dentro dela. Morar ainda pressupõe abrigo, interioridade, alguma arquitetura capaz de oferecer a ilusão de permanência.

             A rachadura não abriga. Ela expõe. Ela é o lugar onde a matéria perde sua mentira de solidez e a existência perde seu verniz de necessidade. Tudo aquilo que parecia inteiro era apenas uma pausa entre duas ruínas. Tudo aquilo que parecia ser era apenas aquilo que ainda não havia percebido o quanto estava deixando de ser.

            Olhe para a parede.

            Não a parede física, essa vulgaridade mineral que separa quartos e corredores, mas a parede metafísica que você ergue diariamente entre aquilo que pensa ser e aquilo que sabe, secretamente, que não é. Essa parede tem nome? Talvez. Necessidade.      Identidade. Destino. Caráter. Deus. Futuro. Amor. Progresso. Qualquer palavra serve quando utilizada com suficiente convicção para impedir que o abismo responda.

            Mas ele responde.

            Responde sempre.

            A rachadura é a resposta.

            Ela começa quase invisível, como todas as catástrofes realmente importantes.      Uma linha mínima atravessa a superfície do real. Não se sabe quando apareceu.          Não se sabe quem a produziu. Talvez ninguém. Talvez o próprio universo seja uma rachadura tentando convencer-se de que é construção. Talvez a matéria seja apenas o modo como o nada se distrai de sua própria ausência. Talvez aquilo que chamamos realidade seja uma espécie de entretela cósmica, um tecido barato estendido sobre um buraco sem fundo para impedir que o olhar humano enlouqueça.

            Você olha e diz: mundo.

            O abismo olha e responde: intervalo.

            Você insiste.

            Ele não precisa.

            A consciência é essa insistência.

            Pensar talvez seja apenas uma forma sofisticada de não perceber que não há pensamento algum por trás do pensamento. Uma autoconsciência do vazio produzindo pequenas frases para se distrair da própria inexistência. A filosofia nasceu dessa doença: a necessidade de perguntar por que, quando talvez a única resposta possível seja porque não. E ainda assim perguntamos. Perguntamos como quem bate à porta de uma casa abandonada esperando que a ausência tenha desenvolvido hospitalidade.

            A pergunta é o primeiro móvel colocado dentro do quarto vazio.

            Depois vêm os conceitos.

            Depois os sistemas.

            Depois as religiões.

            Depois os Estados.

            Depois as famílias.

            Depois os calendários.

            Depois as fotografias.

            Depois os túmulos.

            E finalmente, quando tudo parece suficientemente organizado para esconder o desmoronamento, inventamos a palavra sentido.

            Que palavra obscena.

            Sentido.

            Como se o universo tivesse escrito uma direção na margem de sua própria existência. Como se o nascimento fosse uma frase iniciada por uma inteligência e a morte, apenas sua pontuação final. Como se houvesse alguma gramática escondida na decomposição.

            E não há.

            Ou talvez haja, o que seria ainda pior.

            Porque se existe uma gramática secreta, então fomos condenados a obedecê-la sem jamais aprendê-la.

            A rachadura não explica. A rachadura acontece.

            E isso deveria bastar para destruir nossa arrogância.

            Mas não basta.

            Você ainda acorda.

            Essa é a primeira violência do dia.

            Acordar.

            Abrir os olhos e aceitar novamente a existência como se nada tivesse acontecido durante a noite. Como se dormir não fosse uma pequena experiência de morte e despertar não fosse um pacto renovado com aquilo que nos destruirá.

            O corpo retorna ao mundo e, por alguns segundos, talvez antes que a linguagem se recomponha, existe uma possibilidade de lucidez: ainda não somos ninguém. Ainda não somos função, documento, profissão, história, memória, fracasso, sucesso, nome, rosto, biografia. Somos apenas uma presença sem legenda.

            Então o pensamento retorna.

            E estraga tudo.

            A primeira palavra reorganiza o cárcere.

            Depois outra.

            Depois outra.

            Até que o vazio se transforme novamente em agenda.

            É assim que a civilização funciona: uma grande operação de tapume contra o abismo. Construímos para não ver. Trabalhamos para não pensar. Amamos para não morrer sozinhos. Reproduzimos para fingir continuidade.

            Acumulamos objetos porque não conseguimos acumular tempo. Inventamos monumentos porque não suportamos a ideia de que tudo aquilo que fazemos desaparecerá sem testemunhas.

            Chamamos isso de progresso.

            Talvez seja apenas uma técnica refinada de adiamento.

            A espécie humana tornou-se especialista em adiar a pergunta essencial: por que continuar?

            Não porque tenha encontrado uma resposta, mas porque descobriu inúmeras maneiras de evitar formulá-la.

            O cotidiano é a grande anestesia metafísica.

            O café, o relógio, a notificação, a reunião, o salário, o compromisso, a conta, o trânsito, o entretenimento, a fotografia, o comentário, a opinião, a próxima semana, o próximo ano. Tudo cuidadosamente disposto para que ninguém tenha tempo de perceber o horror elementar de existir.

            E quando alguém percebe, chamamos de crise.

            Talvez a crise seja apenas a primeira forma de saúde.

            Talvez adoecer seja adaptar-se perfeitamente ao absurdo.

            Talvez o homem verdadeiramente enfermo seja aquele que funciona.

            Que acorda no horário.

            Que responde.

            Que produz.

            Que sorri.

            Que cumpre.

            Que compra.

            Que planeja.

            Que envelhece.

            Que morre.

            Que é enterrado.

            E que ainda assim, até o último instante, continua convencido de que estava vivendo.

            A rachadura aparece justamente quando essa máquina falha.

            Uma palavra perde o significado.

            Um rosto deixa de significar alguma coisa.

            Uma manhã parece repetida de uma maneira intolerável.

            O relógio passa a marcar não horas, mas erosões.

            O futuro deixa de ser promessa e passa a parecer apenas uma forma adiada do mesmo quarto.

            Então alguma coisa se desloca.

            Não no mundo.

            Dentro da percepção.

            É o instante em que a realidade deixa de parecer familiar.

            E talvez nunca tenha sido.

            A familiaridade é uma droga.

            Ela faz o absurdo parecer doméstico.

            Você chama de casa aquilo que deveria chamar de precipício.

            Chama de rotina aquilo que é repetição da morte.

            Chama de identidade aquilo que é apenas uma sequência de hábitos defendidos com orgulho.

            Chama de personalidade aquilo que sobreviveu às expectativas alheias.

            Chama de liberdade aquilo que escolheu dentro de uma lista previamente organizada.

            Chama de escolha aquilo que o medo permitiu.

            Chama de destino aquilo que não teve coragem de recusar.

            Chama de amor aquilo que muitas vezes é apenas o medo de ficar sozinho diante da própria rachadura.

            Não se ofenda.

            A ofensa é outra defesa.

            Tudo aquilo que o atinge talvez esteja apenas tocando uma região que você mantém interditada.

            O leitor deseja uma história.

            Não haverá.

            Deseja acontecimentos.

            Haverá apenas o acontecimento de perceber que está lendo.

            Deseja personagens.

            Não haverá ninguém suficientemente inteiro para ocupar esse lugar.

            Deseja uma voz.

            Talvez esta voz seja apenas o eco de algo que você trouxe consigo.

            E se isso incomoda, melhor.

            A literatura que não incomoda serve apenas para decorar a sala onde a consciência adormece.

            O conto deve ser uma pequena máquina de perturbação.

            Uma espécie de rachadormáquina.

            Uma palavra que não deveria existir, mas existe porque as palavras existentes se tornaram insuficientes.

            Rachadormáquina: mecanismo pelo qual o real produz sua própria ruptura.

            Talvez todo conceito verdadeiro seja um neologismo esperando nascer porque as palavras antigas ficaram pequenas demais para conter a angústia.

            Há coisas que não podem ser ditas sem deformar a língua.

            A morte é uma delas.

            O nada é outra.

            O amor, quando levado suficientemente a sério, também.

            Porque amar é uma espécie de metafísica clandestina: afirmar que alguma presença possui importância em um universo que não demonstra qualquer obrigação de conservar coisa alguma.

            Você ama e, portanto, desafia a indiferença.

            Mas a indiferença não precisa responder.

            Ela simplesmente continua.

            Essa é sua crueldade.

            O universo não odeia.

            Seria reconfortante se odiasse.

            O ódio ainda seria uma forma de atenção.

            O universo não presta atenção.

            As estrelas explodem sem intenção moral. Os planetas continuam suas órbitas sem considerar nossas tragédias.

            A matéria não possui compaixão. O tempo não reconhece injustiça. A morte não distingue inocência de culpa.

            E, mesmo assim, insistimos em procurar justiça no mecanismo.

            Por quê?

            Porque precisamos que o sofrimento signifique alguma coisa.

            É difícil aceitar que uma dor possa ser absolutamente inútil.

            Talvez seja por isso que inventamos explicações.

            A dor precisa ter causa.

            A morte precisa ter propósito.

            A perda precisa ensinar.

            O fracasso precisa transformar.

            O sofrimento precisa produzir alguém melhor.

            Mas e se não produzir?

            E se houver sofrimentos que não ensinam nada?

            E se algumas perdas forem apenas perdas?

            E se determinados mortos não deixarem nenhuma lição?

            E se o universo não estiver interessado em transformar sua tragédia em parábola?

            Talvez a maior violência contra o sofrimento seja obrigá-lo a ter significado.

            Há uma crueldade pedagógica em tudo isso.

            Morreu? Aprenda.

            Perdeu? Cresça.

            Foi abandonado? Fortaleça-se.

            Fracassou? Recomece.

            Que maquinaria miserável.

            Às vezes o fracasso não é preparação para o sucesso.

            Às vezes é apenas fracasso.

            Às vezes o abandono não prepara um encontro melhor.

            É apenas abandono.

            Às vezes a vida não está preparando ninguém para nada.

            Ela está acontecendo.

            E isso deveria ser suficientemente aterrador.

            A rachadura cresce.

            Não porque alguém a aumente.

            Ela cresce porque tudo cresce para a decomposição.

            O concreto cede.

            O ferro enferruja.

            A madeira apodrece.

            A pele enruga.

            A memória falha.

            A linguagem perde palavras.

            As cidades envelhecem.

            Os nomes desaparecem.

            Os documentos se desfazem.

            As fotografias amarelecem.

            Os arquivos são apagados.

            Os servidores queimam.

            Os edifícios são demolidos.

            Os cemitérios são esquecidos.

            E, em algum momento, ninguém mais sabe onde determinada pessoa foi enterrada.

            Talvez esse seja o verdadeiro significado da morte: não deixar de existir, mas perder gradualmente os lugares onde se era lembrado.

            Primeiro morre o corpo.

            Depois morre a voz.

            Depois o rosto.

            Depois a história.

            Depois o nome.

            Depois a memória do nome.

            Depois até a possibilidade de alguém perguntar quem fomos.

            A morte absoluta não é desaparecer.

            É tornar-se uma pergunta que ninguém mais formula.

            Você ainda acredita na eternidade?

            Pergunte novamente.

            Mais devagar.

            Eternidade.

            Que palavra magnífica para esconder o pânico diante da finitude.

            Talvez a eternidade não seja duração infinita.

            Talvez seja apenas ausência de acontecimento.

            Um tempo sem mudança.

            Um instante que jamais termina.

            Se for assim, talvez a eternidade seja mais próxima do inferno do que do paraíso.

            Porque aquilo que torna a existência suportável é justamente sua impermanência.

            A dor termina.

            O prazer termina.

            A infância termina.

            O amor muda.

            O medo passa.

            As pessoas vão embora.

            As cidades se transformam.

            Tudo se move.

            A existência é suportável porque não permanece.

            O absurdo nasce quando desejamos permanência em um mundo construído pela transformação.

            Queremos que alguém fique.

            Queremos que determinada época não termine.

            Queremos que um corpo permaneça jovem.

            Queremos que uma lembrança não se deteriore.

            Queremos que o amor conserve sua primeira temperatura.

            Queremos que a casa continue sendo casa.

            Mas a casa racha.

            Sempre.

            E talvez habitar a rachadura seja justamente abandonar a esperança de que ela desapareça.

            Não repará-la.

            Não escondê-la.

            Não pintá-la.

            Não preenchê-la com cimento psicológico.

            Habitar.

            Fazer do defeito uma morada.

            Fazer do fracasso uma arquitetura.

            Fazer do vazio uma janela.

            Isso parece belo.

            E talvez seja justamente aí que a armadilha se esconda.

            Porque até o pessimismo pode virar estética.

            Até o desespero pode ser transformado em ornamento.

            Até o absurdo pode virar pose.

            Há uma vaidade profunda em parecer desencantado.

            O sujeito que declara que nada faz sentido pode estar apenas procurando uma maneira sofisticada de sentir-se superior aos que ainda acreditam.

            O pessimismo também pode ser uma forma de narcisismo.

            Olhe como sofro.

            Olhe como compreendo o vazio.

            Olhe como sou profundo porque não acredito.

            Não.

            A rachadura não concede superioridade.

            Ela retira.

            Retira o chão.

            Retira a desculpa.

            Retira a possibilidade de posar diante do abismo.

            O absurdo não transforma ninguém em sábio.

            Apenas remove alguns móveis do quarto.

            Depois você precisa continuar lá.

            Sem decoração.

            Sem personagens.

            Sem biografia.

            Sem narrativa redentora.

            Somente você e aquilo que não responde.

            E talvez nem isso.

            Porque o “você” também é uma construção provisória.

            Quem exatamente habita?

            A pergunta deveria destruir a casa.

            Existe um corpo.

            Existe memória.

            Existem hábitos.

            Existem cicatrizes.

            Existe linguagem.

            Mas onde está o proprietário?

            Onde está aquele que diz “eu”?

            Procure.

            Abra gavetas.

            Examine fotografias.

            Leia documentos.

            Consulte lembranças.

            Nada.

            O eu não está lá.

            Há apenas rastros.

            O eu talvez seja a rachadura tentando acreditar que possui uma casa.

            Somos menos indivíduos do que processos.

            Menos identidades do que continuidades imaginárias.

            Menos histórias do que versões sucessivas de um acontecimento corporal que ainda não terminou.

            E se o eu é provisório, o medo de perdê-lo torna-se uma espécie de comédia metafísica.

            Tememos desaparecer antes mesmo de termos conseguido provar que estivemos aqui.

            É possível que a consciência seja o universo cometendo o erro de olhar para si mesmo e acreditar que encontrou alguém.

            Essa frase parece filosófica.

            Talvez seja apenas uma frase.

            Cuidado.

            A linguagem também sabe fingir profundidade.

            Uma palavra difícil pode esconder uma ideia vazia com mais elegância do que uma palavra simples.

            Hermetizar não é necessariamente aprofundar.

            Às vezes é apenas fechar a porta.

            Por isso a rachadura precisa permanecer aberta.

            Ela não é uma resposta.

            Ela é uma interrupção.

            Uma falha no sistema explicativo.

            Um defeito na narrativa.

            Um pequeno rasgo pelo qual entra aquilo que não conseguimos domesticar.

            A metafísica começa quando o mundo deixa de ser suficiente.

            O absurdo começa quando descobrimos que a metafísica também não é suficiente.

            Primeiro perguntamos o que existe.

            Depois perguntamos por que existe.

            Depois perguntamos por que perguntamos.

            Depois percebemos que nenhuma pergunta garante resposta.

            E então surge o silêncio.

            Não o silêncio poético.

            Não o silêncio contemplativo.

            O silêncio bruto.

            Aquele que não pretende ensinar.

            Aquele que não cura.

            Aquele que simplesmente permanece quando todas as palavras terminam.

            Talvez seja nele que a rachadura realmente habite.

            Não na parede.

            Não no corpo.

            Não na história.

            Mas entre a pergunta e aquilo que não responde.

            Esse intervalo é insuportável.

            Por isso construímos religiões.

            Por isso construímos filosofias.

            Por isso construímos sistemas políticos.

            Por isso construímos famílias.

            Por isso construímos bibliotecas.

            Não necessariamente porque amamos construir.

            Talvez porque temos medo de ouvir o silêncio entre duas coisas.

            E o mais estranho é que nossas construções também envelhecem.

            A biblioteca vira arquivo.

            O arquivo vira depósito.

            O depósito vira ruína.

            A ruína vira patrimônio.

            O patrimônio vira fotografia.

            A fotografia vira lembrança.

            A lembrança vira ausência.

            A ausência vira silêncio.

            E então alguém escreve sobre tudo isso.

            Como se escrever pudesse impedir.

            Não impede.

            Escrever é uma forma elegante de perder.

            Cada frase escrita é uma coisa que já começou a envelhecer.

            A tinta é um relógio.

            O papel é uma pele.

            O livro é um corpo tentando sobreviver à própria decomposição.

            E você lê.

            Essa é a parte mais estranha.

            Você empresta seu tempo às palavras.

            Por alguns minutos, alguma coisa que não existe materialmente dentro deste espaço começa a existir em sua consciência.

            Isso é quase uma assombração.

            A literatura é a arte de colocar mortos dentro da cabeça dos vivos sem exigir licença.

            E talvez por isso ela seja perigosa.

            Porque toda narrativa reorganiza o leitor.

            Você não lê impunemente.

            Alguma coisa entra.

            Alguma coisa desloca.

            Alguma coisa racha.

            Se nada aconteceu enquanto você lia, talvez o texto tenha fracassado.

            Ou talvez você tenha se protegido.

            Também é possível.

            A mente possui mecanismos sofisticados de defesa.

            Transforma o horror em conceito.

            A angústia em teoria.

            A morte em tema.

            O vazio em estética.

            O sofrimento em linguagem.

            Você pode estar lendo sobre a rachadura sem jamais olhar para a sua.

            Essa é a maior possibilidade de fracasso.

            Porque habitar a rachadura não significa falar sobre ela.

            Significa permanecer diante dela sem imediatamente fechá-la com uma explicação.

            É possível?

            Talvez não.

            Mas tentar talvez seja o máximo de honestidade que resta.

            Não há heroísmo nisso.

            Não há redenção.

            Não há recompensa.

            Não haverá uma luz no fim.

            Se houver, provavelmente será outro mecanismo de iluminação.

            Outro cenário.

            Outra promessa.

            Outro modo de fugir.

            O absurdo não promete saída.

            Ele exige presença.

            Uma presença sem garantia.

            Uma existência sem certificado metafísico.

            Viver sem saber por quê.

            Continuar sem receber autorização do universo.

            Respirar sem interpretar a respiração como mensagem.

            Amar sabendo que o amor não suspende a morte.

            Pensar sabendo que o pensamento não produz fundamento.

            Criar sabendo que toda criação carrega sua própria ruína.

            Talvez isso seja liberdade.

            Ou talvez seja apenas uma forma mais sofisticada de condenação.

            Não importa.

            A pergunta retorna.

            Por que continuar?

            E a resposta mais honesta talvez seja: porque ainda está acontecendo.

            Nada mais.

            Nenhuma missão secreta.

            Nenhum destino.

            Nenhuma promessa.

            O coração continua batendo não porque tenha recebido uma ordem metafísica, mas porque ainda não parou.

            Essa ausência de fundamento deveria ser aterradora.

            E é.

            Mas também pode ser libertadora.

            Se nada está garantido, nada precisa ser venerado como inevitável.

            Se nenhuma essência está escrita, talvez possamos abandonar algumas máscaras.

            Se não existe roteiro, talvez a responsabilidade comece justamente aí.

            Não há destino para culpar.

            Não há universo para responsabilizar.

            Não há sentido pré-fabricado para obedecer.

            Há apenas o espaço rachado entre aquilo que acontece e aquilo que fazemos com o acontecimento.

            Talvez seja pouco.

            Talvez seja tudo.

            A rachadura continua.

            Você olha novamente para a parede.

            Agora percebe que ela não está apenas diante de você.

            Está em você.

            Não como metáfora.

            Como estrutura.

            Há fissuras no modo como lembra.

            No modo como deseja.

            No modo como ama.

            No modo como odeia.

            No modo como espera.

            No modo como teme.

            Há rachaduras naquilo que chama de certeza.

            Você não é inteiro.

            Nunca foi.

            A ideia de integridade talvez seja uma invenção posterior à fratura.

            Primeiro quebramos.

            Depois inventamos uma narrativa sobre como éramos inteiros.

            Essa é talvez a maior mentira da memória.

            Ela organiza ruínas em sequência e chama isso de vida.

            Mas a vida talvez seja apenas uma coleção de fragmentos que aprenderam a permanecer próximos o suficiente para produzir a ilusão de continuidade.

            O que você chama de passado é aquilo que a memória decidiu não destruir.

            O que chama de presente é aquilo que ainda não foi convertido em lembrança.

            O que chama de futuro é uma fantasia construída para suportar o presente.

            E o presente?

            O presente é quase nada.

            Um ponto impossível.

            Um instante sem duração.

            Quando você percebe que está nele, ele já passou.

            Você habita o intervalo entre dois desaparecimentos.

            E ainda chama isso de agora.

            Talvez seja belo.

            Talvez seja horrível.

            Talvez beleza e horror sejam apenas nomes diferentes para o mesmo espanto.

            A rachadura não escolhe.

            Ela atravessa.

            Atravessa a parede.

            Atravessa a consciência.

            Atravessa a história.

            Atravessa a linguagem.

            Atravessa a esperança.

            E, finalmente, atravessa este texto.

            Você chegou até aqui procurando talvez uma conclusão.

            Não haverá.

            Conclusões são fechaduras.

            A rachadura não fecha.

            Se este conto terminasse dizendo que tudo possui um sentido, seria uma mentira.

            Se terminasse dizendo que nada possui sentido, seria outra.

            Porque até o nada pode virar dogma.

            A única certeza possível talvez seja a impossibilidade da certeza.

            E isso não é uma resposta.

            É uma ferida epistemológica.

            Um epistemorragia.

            Mais uma palavra inventada porque o pensamento sangra quando tenta conhecer aquilo que não pode conhecer.

            Você pode rir.

            Ria.

            O riso também é uma rachadura.

            Você pode fechar este texto.

            Feche.

            O mundo continuará aqui.

            Ou talvez não.

            A diferença entre essas duas possibilidades não será decidida por você.

            Essa é a humilhação final.

            Você não controla a realidade.

            Você apenas participa dela durante um intervalo.

            Depois será removido.

            Sem cerimônia metafísica.

            Sem aplausos cósmicos.

            Sem créditos finais.

            O universo não exibirá seu nome.

            A matéria não fará minuto de silêncio.

            O tempo não diminuirá sua velocidade.

            E, ainda assim, enquanto durar, alguma coisa terá acontecido.

            Não necessariamente algo grandioso.

            Talvez apenas uma consciência diante de uma página.

            Talvez apenas um pensamento interrompendo outro.

            Talvez apenas a percepção súbita de que aquilo que parecia sólido possuía uma fissura.

            E então, pela primeira vez, em vez de preenchê-la, você permanece.

            Não para vencê-la.

            Não para compreendê-la.

            Não para transformá-la em lição.

            Apenas para habitá-la.

            Você é que descobre que nunca esteve fora dela.

            E talvez seja esse o único final possível para uma existência que jamais começou de verdade: perceber que o abrigo era a fissura, que a certeza era o intervalo, que o sentido era uma hipótese desesperada e que aquilo que chamávamos de mundo era apenas o nome dado ao lugar onde o nada ainda não terminou de acontecer.

            Então não procure a saída.

            Não existe.

            Procure a abertura.

            Ela está aí.

            Sempre esteve.

            E se você olhar suficientemente fundo, talvez descubra algo ainda pior: a rachadura não está no mundo.

            É o mundo. E você é apenas o lugar provisório onde ela aprendeu a se perceber.

Clayton Alexandre Zocarato

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Avaliação imobiliária do indizível

Clayton Alexandre Zocarato

‘Avaliação imobiliária do indizível’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Toda arquitetura nasce de um erro cometido pela matéria ao acreditar que o vazio necessita de paredes. Antes da primeira pedra já existia a ruína; antes da fundação já havia a poeira esperando pacientemente pela sua vitória. O mundo nunca foi um lugar habitável, apenas um contrato assinado entre o silêncio e a decomposição. Chamaram de realidade aquilo que apenas resistia por alguns instantes ao colapso inevitável, como um edifício sustentado por cálculos elaborados por vermes. 

Desde então tudo passou a possuir um preço, inclusive aquilo que jamais poderia ser comprado: o peso da ausência, a umidade do esquecimento, a espessura daquilo que nunca chegou a existir. Inventou-se uma corretora para negociar o invisível, um cartório destinado a registrar a posse do impossível, uma escritura lavrada com tinta feita de dias perdidos. A partir desse momento o indizível tornou-se propriedade de ninguém e patrimônio daquilo que jamais aprenderia a desaparecer completamente.

Existe uma metragem secreta que nenhuma geometria alcança. Ela mede a distância entre o pensamento que nasce e aquele que morre antes de ser pronunciado. Não pertence ao espaço, mas ao fracasso do espaço em conter aquilo que o ultrapassa. Cada centímetro desse terreno invisível possui o peso de séculos inteiros de expectativas abandonadas. É uma terra estéril onde florescem apenas possibilidades abortadas. Não existe horizonte porque toda linha termina antes de começar. Não existe profundidade porque o abismo também possui medo de cair em si mesmo.

O primeiro avaliador do indizível descobriu tarde demais que não havia levado instrumentos suficientes. As réguas quebravam ao tocar aquilo que não tinha extensão. As balanças recusavam qualquer tentativa de pesar uma ausência. Os mapas transformavam-se em superfícies lisas onde todas as direções coincidiam com o mesmo ponto imóvel. 

A bússola passou a girar sem descanso, não por desorientação, mas por compreender que qualquer escolha seria igualmente falsa. Foi então que surgiu a suspeita mais ofensiva: talvez o universo inteiro não passasse de uma tentativa frustrada de localizar um endereço inexistente.

Cada parede visível escondia uma parede impossível. Cada teto ocultava outro teto construído sobre o medo de não existir nenhum acima dele. Cada porta conduzia ao interior de uma pergunta incapaz de formular a si mesma. Nenhum cômodo permanecia igual depois de observado. As dimensões alteravam-se não porque crescessem ou diminuíssem, mas porque desistiam de obedecer às leis que haviam recebido da matéria. A física revelava-se apenas uma superstição compartilhada por átomos excessivamente disciplinados.

As janelas jamais serviram para contemplar o exterior. Foram abertas para permitir que o nada respirasse lentamente dentro das construções. A claridade nunca entrou; foi o escuro que aprendeu a parecer luminoso por alguns instantes. Chamaram esse fenômeno de manhã. Mais tarde deram-lhe o nome de esperança. Em seguida perceberam que ambos significavam exatamente o mesmo equívoco.

A escritura do universo foi redigida sobre papel molhado. Cada palavra dissolveu-se antes que pudesse significar alguma coisa. Restaram apenas manchas interpretadas como leis naturais. A metafísica nasceu dessa umidade. Não procurava explicar o ser, mas justificar a permanência de um documento cuja tinta desaparecera antes da leitura. Toda ontologia tornou-se uma perícia realizada sobre ruínas que nunca estiveram inteiras.

Há imóveis abandonados cuja única função consiste em hospedar ecos futuros. São edifícios construídos para lembranças que ainda não fracassaram. Os corredores prolongam-se além da necessidade, como se procurassem alcançar um destino proibido pela própria extensão. As escadas sobem em direção ao peso. Os elevadores descem para alturas negativas. 

Os alicerces sustentam apenas o cansaço mineral de continuar sustentando. O concreto envelhece mais rapidamente quando percebe que nenhuma existência será capaz de justificar sua resistência.

A ferrugem compreendeu antes de todos que o tempo jamais existiu. Ela nunca corroeu metais; apenas revelou a verdadeira aparência das superfícies. Tudo sempre foi oxidação esperando pela ocasião adequada para retirar a máscara da permanência. A deterioração não destrói. Apenas informa que toda forma estava mentindo desde o princípio.

Existe um mercado clandestino onde são negociadas propriedades inexistentes. Vendem-se terrenos situados entre dois pensamentos interrompidos. Comercializam-se apartamentos edificados sobre arrependimentos nunca experimentados. Escritórios ocupam o interior de palavras que não suportaram nascer. Nenhuma transação produz lucro, prejuízo ou consequência. O capital ali acumulado consiste exclusivamente na quantidade de ilusões que conseguiram sobreviver ao conhecimento da própria inutilidade.

O absurdo não é um acidente da razão. É sua planta baixa definitiva. Durante séculos acreditou-se que a lógica ocupava os andares superiores enquanto a loucura permanecia confinada ao porão. 

A inspeção revelou precisamente o contrário. A razão era apenas um elevador quebrado transportando equívocos de um pavimento para outro. O edifício inteiro havia sido erguido sobre um terreno onde a coerência nunca recebeu autorização para construir.

Todo cálculo conduz inevitavelmente ao mesmo resultado: uma cifra composta apenas por espaços em branco. Não se trata do zero. O zero ainda possui a dignidade de representar alguma ausência determinada. O branco absoluto nem sequer alcança esse privilégio.

É uma falência anterior ao número, uma insolvência da própria possibilidade de contar. O universo acumula déficits de realidade desde antes de sua inauguração.

A avaliação prossegue porque não pode terminar. Não existe laudo suficiente para concluir aquilo cuja matéria consiste justamente na impossibilidade de ser delimitada. Cada conclusão acrescenta novos cômodos ao edifício do impensável. Cada certeza inaugura mais um corredor onde nenhuma saída será permitida. 

A perícia transforma-se lentamente na própria construção que pretendia examinar. O avaliador desaparece dentro da avaliação, a medida dissolve o instrumento, o objeto torna-se proprietário daquilo que tentava possuí-lo.

No final, quando todas as plantas arquitetônicas forem reduzidas ao pó que sempre anteciparam, descobrir-se-á que o indizível jamais foi o imóvel avaliado. Era o único comprador possível.

Tudo o mais — a matéria, a linguagem, a metafísica, o vazio, a esperança, a decomposição e a própria ideia de existir — constituía apenas a mobília descartável de uma casa condenada antes mesmo da invenção do primeiro alicerce, onde cada parede sustentava apenas a lenta evidência de que o universo inteiro nunca passou da mais cara e inútil especulação imobiliária realizada pelo nada contra si mesmo.

A documentação do indizível jamais permaneceu arquivada no mesmo lugar. Os registros deslocavam-se por iniciativa própria, como se recusassem a testemunhar qualquer estabilidade. 

Toda certidão envelhecia antes da assinatura. As datas nasciam fossilizadas. O calendário era apenas um cemitério onde dias ainda não vividos aguardavam exumação. Chamaram de futuro a decomposição antecipada de um passado que insistia em não terminar. Chamaram de memória a infiltração produzida por um tempo incapaz de sustentar seu próprio peso.

A cronologia transformou-se em uma doença da linguagem, e toda biografia converteu-se numa sucessão de rachaduras abertas sobre um terreno que nunca suportou o primeiro passo.

A avaliação encontrou então um subsolo que não figurava em planta alguma. Não estava abaixo da construção, mas abaixo da própria ideia de profundidade. Era uma camada onde o espaço esquecia sua obrigação de estender-se. 

Ali toda distância implodia até adquirir espessura suficiente para esmagar qualquer tentativa de localização. Não havia direção. Não havia centro. Tampouco existia periferia. Apenas uma massa imóvel de ausência comprimida sobre si mesma, semelhante àquilo que permaneceria depois da destruição completa da possibilidade de existir destruição.

O silêncio revelava uma arquitetura mais sofisticada do que qualquer linguagem. Não era a falta de som, mas o excesso de tudo aquilo que nenhuma palavra suportaria transportar. Cada frase pronunciada equivalia a uma demolição parcial dessa construção invisível. 

Falar era cometer vandalismo contra aquilo que jamais solicitara interpretação. O idioma foi, desde o princípio, uma retroescavadeira contratada para nivelar montanhas feitas exclusivamente de mistério. Nunca conseguiu terminar o serviço. Apenas espalhou destroços semânticos sobre uma superfície onde antes existia um vazio perfeitamente íntegro.

As fundações do mundo possuíam um defeito anterior à própria matéria. Não afundavam por desgaste, mas por vergonha. Nenhuma estrutura suporta indefinidamente o constrangimento de existir sem justificativa. 

Os pilares arqueavam-se lentamente diante da evidência de que sustentavam apenas a repetição de um equívoco cósmico. Cada coluna era uma vértebra pertencente ao cadáver de uma hipótese esquecida. Cada viga permanecia tensionada entre duas impossibilidades igualmente sólidas. A engenharia tornou-se a arte de distribuir fracassos de maneira simétrica.

Toda superfície escondia uma dívida ontológica impossível de quitar. O reboco encobria apenas a falência da pedra. A pedra ocultava a insolvência do mineral. O mineral mascarava a ruína do elemento. O elemento escondia a falência da própria existência. Escavar nunca conduziu à origem; conduziu apenas a camadas sucessivas de inadimplência metafísica. Quanto mais profunda a investigação, maior a certeza de que nenhuma fundação havia sido completamente paga.

A luz começou a apresentar fissuras. Não se tratava de eclipses, sombras ou qualquer fenômeno óptico. A própria claridade dava sinais de exaustão. Tornava-se opaca por compreender que iluminava apenas corredores destinados à decomposição. Sua fadiga espalhava-se pelas superfícies como um fungo invisível. Os objetos deixavam de refletir porque já não viam sentido em continuar distinguindo-se do vazio. A luminosidade tornou-se um aluguel atrasado cobrado por um proprietário inexistente.

As linhas retas passaram a desconfiar da própria direção. Curvavam-se discretamente, não obedecendo à gravidade, mas ao cansaço. Nenhuma geometria resiste por muito tempo ao conhecimento de que todo ângulo desemboca inevitavelmente na mesma inutilidade

O círculo era apenas uma resignação elegante. O quadrado escondia quatro arrependimentos simultâneos. O triângulo constituía o esforço desesperado da matéria para convencer-se de que três fracassos seriam mais estáveis do que um.

Foi então que surgiu uma rachadura impossível. Não atravessava paredes, mas conceitos. A fissura dividia cada certeza em duas metades igualmente falsas. Nenhuma ideia sobrevivia inteira ao contato com ela. A verdade fragmentava-se antes mesmo de adquirir consistência suficiente para ser negada. O erro já não precisava combater a razão. Bastava esperar. Toda convicção acabava espontaneamente transformando-se em entulho epistemológico.

A propriedade do vazio entrou em litígio consigo mesma. As fronteiras começaram a mover-se durante a ausência de qualquer observação. Terrenos desapareciam sem serem destruídos. Outros surgiam onde nunca houvera espaço disponível. 

As escrituras tornaram-se inúteis porque os limites recusavam qualquer compromisso com a permanência. A cartografia descobriu que sempre desenhara apenas cicatrizes sobre um organismo incapaz de possuir pele.

Nenhuma janela oferecia paisagem. Do outro lado existia apenas outra janela, voltada para outra abertura idêntica, repetindo-se indefinidamente até que o horizonte se transformasse numa sucessão infinita de molduras vazias enquadrando a ausência de qualquer exterior. A contemplação revelou-se um circuito fechado. Nunca houve mundo para além do olhar; havia somente o reflexo interminável da expectativa de encontrá-lo.

A poeira começou a adquirir densidade filosófica. Já não era resíduo da deterioração, mas substância primordial. Talvez tudo tivesse surgido dela e apenas fingisse possuir outra composição. 

Cada partícula carregava consigo fragmentos de edifícios nunca construídos, monumentos jamais sonhados e civilizações abortadas pela própria impossibilidade. Respirar tornou-se um lento processo de incorporação de ruínas anteriores à criação.

O absurdo recusava qualquer definição porque toda definição representava um cercamento. Cercar é domesticar. Domesticar é diminuir. O absurdo jamais aceitou dimensões administráveis.

Expandia-se precisamente onde tentavam compreendê-lo. Tornava-se mais ilegível quanto mais cuidadosamente era descrito. Alimentava-se da inteligência destinada a capturá-lo. Cada sistema filosófico que pretendia encerrá-lo acabava servindo apenas como mais um cômodo em sua propriedade ilimitada.

A existência começou então a parecer um imóvel colocado à venda por um corretor que jamais possuíra autorização para negociar. O anúncio prometia solidez, permanência e valor de mercado. 

A vistoria encontrou apenas infiltrações ontológicas, rachaduras lógicas, colunas corroídas pela contingência e telhados incapazes de proteger contra a chuva do nada. Nenhum comprador apresentou proposta. Nem mesmo o vazio desejava assumir a responsabilidade por tamanho passivo metafísico.

Toda tentativa de restauração agravava a decadência. Reparar significava acrescentar novas camadas de ilusão sobre uma superfície que implorava pelo colapso definitivo. 

A conservação revelou-se a forma mais sofisticada de destruição. Preservar consiste em prolongar artificialmente a agonia das formas. A ruína, ao contrário, sempre foi sincera. Nunca prometeu estabilidade. Apenas cumpriu rigorosamente o destino inscrito em cada molécula desde antes da primeira pedra imaginar tornar-se parede.

Ao final desta etapa da perícia tornou-se impossível distinguir o edifício da linguagem que o descrevia. Ambos apresentavam as mesmas rachaduras, os mesmos vazios estruturais, a mesma inclinação imperceptível em direção ao colapso. As palavras já não representavam a construção; haviam se tornado seus tijolos deteriorados. A leitura deixava de ser interpretação para converter-se em ocupação clandestina de um imóvel condenado, onde cada frase ameaçava desabar sobre a seguinte e onde toda conclusão permanecia interditada por uma única constatação irrecorrível: talvez o indizível nunca tenha sido aquilo que escapa às palavras, mas precisamente aquilo que as utiliza como escombros para continuar edificando o infinito fracasso de toda realidade.

A perícia tornou-se gradualmente indistinguível da doença que pretendia diagnosticar. Cada medição acrescentava novas irregularidades ao objeto medido. O cálculo produzia deformações cuja existência anterior jamais poderia ser comprovada. A exatidão revelou-se apenas uma superstição praticada por instrumentos incapazes de reconhecer a própria ferrugem. Nenhuma régua alcançou o comprimento do intervalo que separa uma coisa de sua inutilidade. Nenhuma balança suportou o peso acumulado por aquilo que nunca aconteceu. O resultado de toda aferição consistia apenas na ampliação daquilo que escapava à própria possibilidade de ser aferido.

As paredes começaram a adquirir comportamento mineralmente hostil. Não desabavam. Permaneciam de pé por uma forma de crueldade estrutural. A permanência era o método mais eficiente de deterioração. Cair representaria um encerramento digno; continuar existindo equivalia à condenação perpétua da matéria a sustentar o próprio esgotamento. Descobriu-se então que a solidez nunca foi sinônimo de força. Era apenas a incapacidade das ruínas de reconhecerem que já haviam terminado.

O teto perdeu sua função antes de perder sua forma. Continuava acima apenas por hábito. Não protegia contra nada porque o exterior já havia atravessado todas as superfícies possíveis. O céu infiltrara-se no interior da construção muito antes da primeira rachadura. 

Depois veio algo ainda mais silencioso que o céu: a ausência da necessidade de qualquer acima. A vertical deixou de possuir sentido. Alto e baixo dissolveram-se na mesma planície fenomenológica, onde toda direção desembocava em um idêntico esgotamento.

O chão revelou uma elasticidade impossível. Não afundava nem sustentava. Limitava-se a adiar a queda absoluta. Cada ponto de apoio era uma promessa que se desfazia antes de completar o próprio enunciado. 

Toda estabilidade dependia de um acordo secreto entre o peso e a desistência. Bastava que um deles revogasse o contrato para que a realidade inteira perdesse o equilíbrio que jamais possuíra.

A matéria começou a produzir ecos anteriores ao impacto. O ruído vinha antes da colisão. A consequência antecedia a causa. O efeito envelhecia enquanto o acontecimento ainda procurava autorização para existir. 

A causalidade revelou-se uma convenção burocrática criada para organizar o caos em arquivos mais facilmente consultáveis. Nada obedecia verdadeiramente à sequência. O universo funcionava por antecipações fracassadas e lembranças de fatos que nunca ocorreram.

Toda superfície passou a exalar um odor semelhante ao daquilo que permanece fechado há milênios dentro de uma linguagem abandonada. Não era cheiro de decomposição. A decomposição ainda pressupõe alguma vitalidade anterior. Tratava-se do perfume discreto daquilo que jamais encontrou ocasião para nascer. 

A inexistência também fermenta. Também amadurece. Também produz resíduos invisíveis que se acumulam lentamente sobre o pensamento até torná-lo irreconhecível para si mesmo.

As medidas oficiais da realidade sofreram sucessivas desvalorizações. O metro perdeu extensão. O segundo deixou de durar. A massa tornou-se uma opinião provisória dos minerais. A temperatura converteu-se na melancolia experimentada pelos átomos durante o lento processo de abandonar a crença em sua própria consistência. 

As unidades permaneceram impressas nos tratados científicos, mas seu conteúdo evaporou sem deixar vestígios. Toda ciência passou a contabilizar ausências utilizando instrumentos fabricados pela nostalgia da precisão.

A propriedade entrou em estado de falência metafísica. Não havia credores porque ninguém jamais possuíra legitimidade suficiente para reivindicar posse sobre qualquer fragmento do vazio. 

Também não existiam devedores. A dívida pertencia exclusivamente ao ato de existir. Cada parede devia ao nada a matéria que havia tomado emprestada. Cada sombra devia à luz o privilégio temporário de parecer escura. Cada silêncio devia à linguagem o favor de nunca precisar justificá-la.

A avaliação alcançou uma sala cuja porta não poderia ser aberta porque nunca estivera fechada. Ali nenhuma dimensão permanecia constante. O espaço respirava lentamente, expandindo-se durante aquilo que poderia ser chamado de esquecimento e contraindo-se toda vez que uma ideia tentava estabelecer residência. 

Nenhuma permanência sobrevivia naquele ambiente. Até a ausência parecia desconfortável consigo mesma. O vazio apresentava sinais inequívocos de saturação.

As linhas arquitetônicas começaram a escrever frases sobre o concreto. Não utilizavam letras, mas inclinações quase imperceptíveis. O edifício transformou-se em um manuscrito mineral cuja leitura exigia o abandono completo da expectativa de compreender. 

Cada fissura era uma sílaba pronunciada pela erosão. Cada desnível correspondia a um verbo recusando a conjugação. As colunas declinavam substantivos inexistentes. As vigas articulavam uma gramática destinada exclusivamente ao colapso.

A ruína deixou de representar um estágio da construção para revelar-se como sua verdadeira condição permanente. Tudo nasce em estado avançado de desaparecimento. 

A infância das coisas consiste apenas em sua incapacidade de perceber a velocidade com que se aproximam do próprio fim. O envelhecimento não acrescenta decadência; apenas remove a maquiagem aplicada pela expectativa.

O tempo nunca destruiu absolutamente nada. Apenas retirou sucessivas camadas de equívoco.

O indizível começou então a apresentar rachaduras internas. Nem mesmo aquilo que escapa completamente à linguagem permaneceu íntegro. Existia um desgaste anterior ao próprio mistério. 

Uma erosão atingindo o incomunicável antes mesmo de qualquer tentativa de comunicá-lo. A transcendência revelou-se igualmente vulnerável à fadiga. O absoluto possuía infiltrações. O infinito apresentava mofo em suas extremidades. A eternidade acumulava poeira sobre superfícies onde jamais deveria existir superfície alguma.

Foi nesse ponto que a avaliação deixou de procurar valor. Toda valoração pressupõe alguma possibilidade de troca. Mas o indizível não poderia ser vendido porque ninguém suportaria recebê-lo. Sua posse equivaleria ao desaparecimento imediato da diferença entre proprietário e propriedade. 

Aquilo que pertence ao impossível transforma automaticamente em impossível tudo aquilo que tenta pertencê-lo. O mercado inteiro dissolveu-se diante dessa incompatibilidade fundamental. Restou apenas a cotação do nada, variando incessantemente entre o vazio absoluto e um vazio ainda mais profundo, como se até mesmo a ausência fosse capaz de perder valor.

Então compreendeu-se que a construção nunca ocupou terreno algum. Era o terreno que havia sido lentamente produzido pela insistência da construção em fracassar. Não existia solo anterior às ruínas. Não existia fundamento anterior ao desmoronamento. 

A própria ideia de origem revelava-se apenas mais um cômodo interditado de um edifício condenado desde antes da possibilidade de receber qualquer nome.

E aquilo que durante todo esse tempo parecera um laudo técnico aproximava-se silenciosamente de sua verdadeira natureza: uma escritura lavrada pela própria inexistência para oficializar a aquisição definitiva de tudo aquilo que jamais teve autorização para ser.

A escritura começou lentamente a rejeitar o papel sobre o qual havia sido inscrita. As palavras desprendiam-se da superfície como reboco abandonando uma parede demasiadamente antiga para continuar fingindo integridade. 

Nenhuma letra aceitava permanecer ao lado da seguinte. As frases desfaziam-se antes de alcançar qualquer sentido, não porque fossem incompreensíveis, mas porque compreender passou a significar um tipo particularmente refinado de destruição.

Todo significado representa uma amputação praticada contra aquilo que poderia permanecer ilimitado. Nomear é demolir. Explicar é reduzir. Conhecer é retirar do mistério a última possibilidade de permanecer inteiro.

O próprio vazio começou a apresentar sintomas de fadiga. Durante incontáveis permanências sustentara silenciosamente a arrogância das formas, aceitando receber aquilo que continuamente desabava sobre ele. Agora, entretanto, demonstrava sinais inequívocos de saturação. 

Nem mesmo a ausência possui capacidade infinita para acolher aquilo que fracassa. Há um instante em que o nada também se torna insuficiente para conter o excesso de inexistência produzido pelas coisas.

As rachaduras já não obedeciam à mineralidade. Cruzavam conceitos, atravessavam hipóteses, fragmentavam sistemas inteiros de pensamento. A metafísica revelou fissuras invisíveis pelas quais escorria lentamente tudo aquilo que durante séculos fora chamado de essência. 

O ser não desaparecia; evaporava. Sua evaporação não deixava resíduos. Restava apenas um odor semelhante ao da pedra molhada por uma chuva que jamais ocorreu.

Toda permanência revelou uma textura inesperadamente orgânica. As paredes respiravam um ar inexistente. Os corredores dilatavam-se como veias congestionadas por uma circulação impossível. 

As colunas pulsavam discretamente sob o peso de uma gravidade anterior à própria matéria. Nada estava vivo. Mas tudo havia adquirido o cansaço característico daquilo que permaneceu demasiadamente próximo da existência durante tempo suficiente para ser contaminado por ela.

A geometria perdeu completamente sua inocência. Os ângulos tornaram-se suspeitos de conspirar contra a estabilidade que fingiam garantir. As linhas paralelas aproximavam-se lentamente umas das outras, não para encontrar-se, mas para confessar que jamais haviam suportado permanecer separadas pelo infinito.

O círculo deixou de fechar-se sobre si mesmo. Em algum ponto imperceptível abria-se uma fresta por onde escapava aquilo que nenhum cálculo havia previsto: a inutilidade da perfeição.

As medidas sofreram um colapso silencioso. O comprimento passou a depender da intensidade do esquecimento. O volume variava conforme a quantidade de silêncio acumulado em cada superfície. 

O peso tornou-se proporcional ao número de perguntas abandonadas sem resposta. Toda física converteu-se numa jurisprudência precária destinada a regulamentar acidentes,  entre inexistências incompatíveis.

O concreto envelhecia para dentro. Sua superfície permanecia aparentemente intacta enquanto seu interior era lentamente substituído por uma substância que não possuía composição, densidade ou qualquer propriedade identificável. 

Não era oco. O vazio ainda constitui uma condição. Aquilo era anterior até mesmo à possibilidade de faltar alguma coisa. Um espaço onde nem sequer a ausência conseguia estabelecer residência.

As portas continuavam abertas porque esqueceram completamente a diferença entre abrir e fechar. Os limites perderam a autoridade necessária para separar um lado do outro. Interior e exterior fundiram-se na mesma falência espacial. Não havia acesso. Não havia saída. Existia apenas uma circulação imóvel onde cada deslocamento retornava imediatamente ao ponto de onde jamais partira.

A deterioração tornou-se extremamente discreta. Já não atacava paredes, metais ou pedras. Corroía possibilidades. 

Cada hipótese envelhecia antes de completar sua formulação. Toda conclusão surgia arqueológica. A novidade aparecia coberta pela poeira de milênios inexistentes. O futuro assumira definitivamente a aparência de um fóssil escavado no interior de um presente incapaz de acontecer.

O silêncio revelou um comportamento ainda mais ofensivo. Não permanecia entre os sons. Habitava dentro deles. Cada ruído carregava consigo uma região muda infinitamente maior do que sua própria duração. 

Escutar significava apenas aproximar-se da enorme quantidade de silêncio escondida em qualquer manifestação. A linguagem inteira passou a funcionar como uma delicada película estendida sobre um oceano absolutamente imóvel.

A avaliação aproximava-se de um resultado impossível. Não porque faltassem dados, mas porque havia informação em excesso. Cada fragmento da construção continha todas as ruínas simultaneamente. 

Cada partícula reproduzia integralmente o colapso do conjunto. O detalhe tornara-se maior que a totalidade. O fragmento recusava a condição de parte. A soma revelou-se muito menor que qualquer uma de suas frações.

Foi então que a própria inexistência pareceu estremecer. Não se tratava do surgimento de alguma coisa, mas do esgotamento daquilo que nunca chegou a surgir. Como se até mesmo o nada pudesse experimentar uma lenta erosão produzida pelo peso de sustentar interminavelmente o fracasso do universo. Havia fadiga antes do ser. Havia decomposição antes da matéria. Havia ruína antes da possibilidade de qualquer arquitetura.

A perícia já não examinava um imóvel, um conceito ou uma hipótese. Examinava a lenta desintegração da própria condição de haver algo examinável. Cada palavra utilizada no laudo era imediatamente confiscada pelo indizível e devolvida completamente vazia, semelhante a uma chave fabricada para uma fechadura que jamais admitiu possuir porta.

Restava apenas a persistência mecânica do exame, continuando não por esperança de alcançar uma conclusão, mas porque até o encerramento havia sido condenado a permanecer eternamente inacabado, como um edifício cuja única finalidade consistia em impedir que a última pedra descobrisse que sempre pertenceu à primeira ruína.

Não havia mais qualquer diferença perceptível entre a deterioração da construção e a deterioração da ideia de construção. Ambas passaram a ruir com a mesma lentidão mineral, como se obedecessem a uma fadiga anterior ao próprio conceito de permanência. 

A matéria deixara de ser uma substância para converter-se em um adiamento. Tudo aquilo que aparentava consistência não passava de um atraso cuidadosamente organizado entre o nascimento impossível e a decomposição inevitável. O universo inteiro revelou-se uma burocracia administrando prazos para o desaparecimento.

As superfícies adquiriram uma característica inédita: recusavam a proximidade. Aproximar-se delas significava apenas aumentar a distância. Quanto mais curta parecia a separação, maior se tornava o intervalo ontológico entre aquilo que observava e aquilo que era observado. 

Nenhum contato ocorreu desde o princípio. Toda experiência sensível consistiu apenas na convivência simultânea de solidões incapazes de alcançar umas às outras. A matéria nunca tocou a matéria. 

A luz jamais encontrou os objetos. O pensamento nunca atravessou a própria espessura. A existência inteira aconteceu dentro de uma sucessão de desencontros suficientemente bem organizados para serem confundidos com realidade.

As paredes começaram a produzir sombras sem depender de claridade alguma. Eram sombras autônomas, anteriores à luz e independentes da escuridão. Não ocultavam formas.

Ocultavam possibilidades. Cada sombra apagava uma existência que jamais chegaria a acontecer. Assim o imóvel aumentava continuamente, não pela construção de novos espaços, mas pelo acúmulo de tudo aquilo que deixava de existir antes de nascer. A verdadeira expansão sempre pertenceu ao fracasso.

Descobriu-se que a arquitetura possuía uma anatomia invisível composta exclusivamente por hesitações. Toda coluna era sustentada por uma dúvida. Todo arco dependia de uma incerteza perfeitamente equilibrada. 

Toda fundação repousava sobre a incapacidade absoluta da matéria em decidir se deveria continuar existindo.

Os edifícios nunca permaneceram de pé graças aos cálculos; sustentaram-se porque o colapso também desconhecia a direção para onde deveria cair.

A erosão começou a consumir aquilo que jamais possuíra superfície. A abstração envelhecia. Os conceitos apresentavam infiltrações. As ideias acumulavam ferrugem em regiões onde nenhuma metáfora alcançava. 

Até mesmo o indizível passou a exibir discretos sintomas de desgaste. Sua incomunicabilidade tornou-se menos intensa, não porque estivesse mais próximo da linguagem, mas porque até o mistério sofrera a lenta abrasão provocada pelo excesso de permanecer oculto. Nada suporta infinitamente a própria condição.

O silêncio modificou novamente sua natureza. Já não ocupava os intervalos entre as palavras; passou a instalar-se dentro das sílabas. Cada vocábulo transformou-se em um edifício construído ao redor de um núcleo absolutamente mudo. 

Falar consistia em revestir esse núcleo com camadas sucessivas de ruído, como quem cobre uma ruína milenar com tinta fresca para ocultar sua idade. A linguagem inteira converteu-se em restauração mal executada.

A avaliação prosseguia sem finalidade. Não porque ignorasse seu objetivo, mas porque compreendera que toda finalidade constitui uma superstição temporal. Os fins pressupõem trajetórias. 

As trajetórias exigem movimento. O movimento depende da ilusão de que alguma coisa muda de lugar. Entretanto, nenhum deslocamento jamais ocorreu. 

O universo permaneceu imóvel desde antes da possibilidade de ser criado. Apenas o desgaste se movimentava, e mesmo ele caminhava em círculos cujo centro permanecia vazio.

As plantas arquitetônicas começaram a envelhecer mais rapidamente que as ruínas que descreviam. O desenho antecedia a deterioração porque toda representação nasce mais frágil do que aquilo que pretende representar. 

Os traços apagavam-se espontaneamente, como se o papel recusasse participar da mentira segundo a qual as formas poderiam conservar uma identidade. Restavam manchas. Depois nem mesmo as manchas aceitavam permanecer.

O próprio cálculo do valor tornou-se obsceno. Avaliar pressupõe equivalência, mas nada era equivalente ao indizível. Nem a perda, nem a ausência, nem o esquecimento, nem o nada conseguiam oferecer parâmetro suficiente.

O indizível não possuía preço porque já havia consumido a possibilidade de qualquer economia. Sua riqueza consistia precisamente na impossibilidade absoluta de ser comparado. Toda medida era humilhada pela simples proximidade de sua existência impossível.

Então ocorreu a mais discreta das catástrofes: o imóvel começou lentamente a esquecer que era imóvel. Suas paredes perderam a memória da verticalidade. Os corredores esqueceram para onde conduziam. As portas abandonaram a lembrança de terem sido passagens. As janelas esqueceram completamente a existência de qualquer lado externo. O edifício mergulhou numa amnésia mineral tão profunda que sua própria ruína deixou de reconhecer aquilo que um dia acreditara destruir.

A poeira, até então silenciosa, revelou-se a única testemunha fiel. Não porque registrasse acontecimentos, mas porque sobrevivia igualmente à presença e à ausência deles. Cada partícula transportava fragmentos de futuros demolidos antes da inauguração. 

Sobre ela repousavam cidades nunca erguidas, templos nunca profanados, casas jamais habitadas e sepulturas destinadas a cadáveres que não receberam autorização para existir. A poeira era mais antiga que a origem e mais recente que o último desaparecimento.

Restava apenas o laudo. Contudo, o laudo já não descrevia o imóvel. Descrevia a lenta inviabilidade da própria descrição. Cada frase anulava a anterior. Cada conclusão dissolvia seu fundamento. 

O texto transformava-se em um edifício feito exclusivamente de demolições sucessivas. Quanto mais avançava, menos permanecia escrito. As palavras desapareciam sem apagar-se, como se compreendessem finalmente que sua maior fidelidade ao indizível consistia em abandonar voluntariamente qualquer pretensão de significar.

Foi nesse abandono que a avaliação atingiu seu ponto mais preciso. Não encontrou um valor. Encontrou a impossibilidade definitiva de qualquer valor sobreviver diante daquilo que jamais pertenceu ao domínio do ser. 

O imóvel não estava condenado porque iria desaparecer. Estava condenado porque jamais conseguira nascer inteiramente.

Toda sua existência consistira em uma interminável aproximação do próprio fracasso, e toda realidade revelou-se apenas o ruído produzido por essa aproximação interminável, semelhante ao ranger de uma estrutura infinita sustentada apenas pela obstinação daquilo que insiste em não admitir que sempre foi, ruína antes mesmo de imaginar a primeira pedra.

A partir de um instante que jamais pôde ser distinguido de todos os outros, o imóvel deixou de conservar qualquer cumplicidade com a matéria. As paredes permaneceram apenas como uma lembrança daquilo que a pedra imaginara ser antes de descobrir a fadiga de sustentar significados. 

Os alicerces transformaram-se em remorsos geológicos. As vigas tornaram-se nervuras de um organismo cuja morte antecedera a própria anatomia. Nada ali se encontrava destruído, porque a destruição exige um passado íntegro, e nunca houve integridade suficiente para justificar semelhante privilégio. 

Existia somente uma sucessão de aproximações fracassadas da forma, uma tentativa infinita de alcançar uma consistência que continuamente se desfazia no exato momento em que parecia possível.

A arquitetura revelou sua natureza mais antiga: não era a ciência da construção, mas a liturgia do adiamento. Cada edifício consistia em um ritual destinado a retardar a evidência de que toda matéria deseja regressar à indiferença absoluta. 

As colunas não sustentavam tetos; retardavam o instante em que o vazio retomaria aquilo que nunca deixara de lhe pertencer. 

As paredes jamais dividiram espaços; apenas administraram provisoriamente a circulação da inexistência. As janelas nunca permitiram ver o exterior; ensinaram o interior a acreditar na fábula de que algo pudesse permanecer além de si mesmo.

Então o próprio conceito de interior dissolveu-se. Nenhum recinto possuía um dentro, porque toda interioridade depende da crença em um limite. E os limites haviam desertado silenciosamente da geometria. 

Cada contorno perdera sua autoridade, cada fronteira tornara-se uma lembrança burocrática de uma ordem espacial que jamais existira. Tudo se confundia não por expansão, mas por esgotamento. A diferença cansara de diferenciar.

As superfícies começaram a envelhecer em direção inversa. Não retornavam ao estado original; aproximavam-se de um estágio anterior à possibilidade de possuir origem.

A pedra regredia para além do mineral. O concreto esquecia o cimento. O ferro abandonava lentamente a memória do fogo.

Cada substância descia por uma escada ontológica onde cada degrau removia não uma camada de tempo, mas uma camada de ser. No último patamar já não permanecia qualquer elemento reconhecível, apenas uma espessura muda, incapaz até mesmo de ser chamada de vazio.

O silêncio assumiu uma consistência mineral. Não era ouvido. Era suportado. Pesava sobre cada frase como uma laje sepulcral colocada sobre a linguagem ainda viva. Toda palavra surgia esmagada antes de alcançar a superfície da voz. 

O idioma inteiro passou a parecer uma escavação realizada dentro de um túmulo cujo cadáver nunca aceitara morrer completamente. Falar converteu-se na arqueologia de uma ausência infinitamente mais antiga que a memória.

As medidas desapareceram sem produzir escândalo. O universo continuou aparentando dimensões, mas elas já não correspondiam a qualquer extensão. O comprimento tornou-se uma superstição óptica. A profundidade, uma nostalgia da queda. 

A altura, um preconceito da gravidade. Nada podia ser localizado porque toda localização pressupõe um espaço capaz de permanecer fiel às próprias coordenadas. Entretanto, o espaço desertara de si mesmo. Cada direção caminhava lentamente para uma desorientação anterior ao movimento.

A avaliação insistia em registrar o que já não possuía registro possível. O laudo adquiria a aparência de um documento escrito por uma caligrafia que desconhecia completamente o alfabeto. 

As frases não descreviam; escavavam. Cada período abria um novo abismo dentro daquilo que restava da linguagem. Não havia mais distinção entre argumento e erosão. Pensar consistia apenas em remover sucessivas camadas de estabilidade até que o próprio pensamento cedesse sob o peso daquilo que revelava.

O imóvel passou a emitir uma espécie de luminosidade negativa. Não iluminava. Retirava claridade das coisas ao redor. Toda proximidade era imediatamente empobrecida pela sua presença. 

As formas perdiam contorno, os conceitos perdiam precisão, as certezas perdiam substância. 

Não era uma influência. Era uma fome metafísica. Uma arquitetura construída para alimentar-se da possibilidade de existir qualquer diferença entre ser e desaparecer.

Então a própria ruína pareceu envergonhar-se de sua condição. Compreendeu que até ela pressupunha uma história demasiado generosa. 

A ruína ainda conserva vestígios. Ainda preserva relações entre aquilo que caiu e aquilo que permaneceu. Mas ali nem mesmo o vestígio sobrevivia. 

O desaparecimento havia ultrapassado a destruição e alcançado uma região onde toda memória do objeto era apagada antes que pudesse transformar-se em lembrança. Restava somente uma sensação de perda cuja origem fora cuidadosamente eliminada.

Foi nesse ponto que a avaliação deixou definitivamente de procurar qualquer resposta. As perguntas também haviam adoecido. Interrogar significava admitir a possibilidade de uma solução escondida em algum lugar do real. Contudo, o real revelara-se incapaz de ocultar qualquer coisa. Sua pobreza era absoluta. 

Não escondia mistérios; escondia apenas o fato de jamais ter possuído mistério algum. A transcendência mostrou-se tão exausta quanto a, matéria. O absoluto apresentou sinais inequívocos de desgaste. A eternidade envelheceu sem que o tempo tivesse participado desse processo.

Assim o imóvel permaneceu, não como objeto, nem como metáfora, tampouco como alegoria, mas como a mais perfeita demonstração de que toda existência talvez constitua apenas uma perícia interminável realizada sobre um patrimônio inexistente, um inventário redigido antes da abertura do espólio, uma escritura lavrada para registrar a posse de um território que sempre pertenceu ao silêncio anterior ao nascimento da própria possibilidade de haver qualquer coisa digna de ser chamada de mundo.

Ao aproximar-se do encerramento da avaliação, tornou-se evidente que nenhum encerramento seria admissível. Concluir pressupõe que alguma coisa permaneça suficientemente inteira para receber um ponto final, mas ali toda inteireza havia sido consumida muito antes da primeira palavra pretender descrevê-la. O laudo aproximava-se de seu término apenas porque a linguagem começava a desmoronar sob o peso daquilo que insistira inutilmente em medir. Não era o indizível que resistia à escrita; era a escrita que finalmente reconhecia sua incapacidade de sobreviver ao contato prolongado com aquilo que jamais aceitara transformar-se em significado.

As últimas superfícies abandonaram discretamente a condição de superfície. Não desapareceram. Tornaram-se incapazes de oferecer qualquer resistência ao olhar. A matéria já não possuía espessura suficiente para distinguir-se daquilo que a atravessava. O espaço deixou de conter volumes e passou a comportar apenas hesitações. Cada vazio apresentava fissuras internas por onde escapava uma ausência ainda mais antiga. Descobriu-se então que o nada também possuía profundidades, e que suas camadas inferiores jamais haviam recebido a visita de qualquer forma de existência.

O edifício inteiro começou a, esquecer o próprio fracasso. Durante toda a sua permanência sustentara a memória de um desmoronamento inevitável. Agora nem mesmo essa lembrança permanecia. 

A ruína dissolvia-se naquilo que antecede toda ruína: uma condição onde, nenhuma pedra chega a desejar transformar-se em parede, onde nenhum alicerce concebe a possibilidade de suportar peso, onde toda arquitetura permanece apenas como um rumor ainda incapaz de distinguir-se do silêncio absoluto.

A avaliação prosseguia mecanicamente, embora já não existisse objeto, critério ou avaliador. 

Permanecera apenas o procedimento, funcionando por uma espécie de inércia metafísica, semelhante ao movimento de engrenagens que continuam girando durante algum tempo depois de terem perdido completamente a máquina da qual faziam parte. 

A burocracia sobrevivia ao universo. Os formulários persistiam quando toda propriedade havia regressado à sua condição original de inapropriável. A assinatura aguardava um nome que jamais chegaria. A data permanecia em branco porque até o calendário havia desistido de organizar o desaparecimento.

A linguagem sofreu então sua última deformação. As palavras deixaram de significar não por insuficiência, mas por excesso. Cada vocábulo passou a conter todas as interpretações simultaneamente. Nenhuma delas prevalecia. O resultado não era riqueza semântica, mas colapso.

O sentido implodia dentro de si mesmo, esmagado pela infinidade de direções incompatíveis que tentavam ocupá-lo. Ler transformou-se numa experiência semelhante à de observar um edifício desabar infinitamente sem jamais alcançar o chão.

O silêncio, por sua vez, deixou de ser ausência de som para tornar-se ausência da própria necessidade de distinguir qualquer manifestação. Não havia mais diferença entre o ruído de uma pedra partindo-se e a quietude de uma eternidade completamente imóvel. 

Ambos pertenciam à mesma substância indiferente. A oposição entre presença e ausência revelou-se apenas um expediente provisório utilizado pela consciência enquanto ainda acreditava habitar algum lugar.

Foi nesse instante impossível de localizar que o imóvel perdeu definitivamente seu endereço. Não um endereço geográfico, mas ontológico. Deixou de situar-se no ser e também deixou de situar-se no não-ser. 

Passou a ocupar uma região onde nenhuma categoria alcançava autoridade suficiente para nomear o que quer que fosse. Nem mesmo o indizível permaneceu adequado. 

Havia algo ainda mais remoto do que aquilo que não pode ser dito: aquilo que jamais admitiu a possibilidade de existir para ser silenciado.

As últimas linhas do laudo começaram lentamente a apagar as primeiras. O documento escrevia-se ao mesmo tempo em que eliminava retrospectivamente sua própria origem. Cada frase anulava a anterior desde sempre. Cada palavra retirava do passado a justificativa para ter sido escrita.

A avaliação convertia-se em um manuscrito arqueológico de uma civilização que nunca alcançara a invenção da escrita. O texto tornava-se anterior ao alfabeto e posterior ao esquecimento.

Nenhuma conclusão restava possível. Conclusões pertencem aos edifícios terminados, às histórias encerradas, às ideias que ainda acreditam possuir contornos. Mas aquilo nunca constituiu um edifício, uma história ou uma ideia. 

Tratava-se apenas da lenta combustão do próprio conceito de realidade, queimando sem produzir calor, luz ou cinzas. 

A destruição havia alcançado um grau tão absoluto que deixara de produzir vestígios. O colapso tornara-se perfeitamente transparente.

Então até a inexistência começou a retirar-se de si mesma. O vazio abandonou sua função de vazio. O nada renunciou à responsabilidade de permanecer nada. A ausência exauriu a própria capacidade de ausentar. 

Não surgiu qualquer plenitude em seu lugar. Surgiu algo incomparavelmente mais inquietante: uma neutralidade anterior à oposição entre haver e faltar, uma região onde a metafísica jamais ousara construir porque ali até mesmo a impossibilidade parecia excessivamente afirmativa.

Restou apenas o título.

Mas o título já não nomeava obra alguma.

Nomeava unicamente o fracasso de toda tentativa de atribuir valor ao que nunca aceitou converter-se em propriedade da linguagem.

Avaliação Imobiliária do Indizível revelou-se, por fim, não como um documento, nem como uma narrativa, nem como um tratado, mas como o último expediente burocrático da própria inexistência, elaborado para registrar em cartório a falência definitiva do ser perante aquilo que o antecedeu, o atravessou e o sobreviverá sem jamais admitir que, em algum momento, tenha realmente existido qualquer realidade capaz de ser avaliada.

Clayton Alexandre Zocarato

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