O corredor que se reescreve

Clayton Alexandre Zocarato

‘O corredor que se reescreve’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Corredor surrealista e espiralado em tons escuros e enevoados. Suas paredes de pedra parecem se dissolver como fumaça. Ao longo do corredor, portas de madeira estão abertas, revelando paisagens impossíveis: céus tempestuosos sem estrelas e mares calmos sob um horizonte sem fim. Ao fundo, uma figura solitária caminha em direção ao centro da espiral.
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No lugar onde o fim começava a se desfazer, o corredor encontrou uma nova forma de permanecer. Já não era uma construção entre limites, mas um pensamento abandonado pela própria mente que o imaginara. Suas paredes perderam a certeza de serem paredes e passaram a oscilar entre matéria e lembrança, como se a existência fosse apenas um sonho tentando convencer o sono de que é real.

            A cada nova inscrição invisível, o corredor apagava aquilo que acabara de registrar. A escrita surgia no mesmo instante em que desaparecia, criando uma história sem passado e sem futuro, uma narrativa condenada ao presente absoluto de sua própria contradição. Nada permanecia, exceto o movimento silencioso de deixar de permanecer.

            As portas, antes imóveis guardiãs do desconhecido, começaram a se abrir para lugares que não aceitavam ser encontrados. Atrás delas havia paisagens sem horizonte, céus que recusavam estrelas e mares que não conheciam profundidade. Tudo parecia existir apenas para provar que a existência não precisava de explicação para continuar sendo inexplicável.

            O corredor avançava para dentro de si mesmo, como uma espiral sem centro procurando uma origem que talvez nunca tivesse existido. Cada curva revelava outra curva, cada resposta criava uma pergunta mais antiga, e cada tentativa de compreender transformava o entendimento em uma nova forma de ignorância.

            A solidão tornou-se o único objeto presente naquele espaço sem objetos. Não era uma solidão de abandono, mas uma condição fundamental, uma espécie de espelho onde o vazio contemplava sua própria imagem. Ali, existir significava estar diante de algo que jamais poderia ser completamente alcançado.

            As paredes começaram a murmurar através de pequenas deformações na pedra, como se o próprio silêncio tivesse aprendido a criar ruídos. Não eram palavras, nem mensagens, mas restos de significados perdidos no caminho entre o pensamento e a realidade. Eram vestígios de uma linguagem anterior aos nomes.

            O corredor percebeu que sua maior prisão era também sua única possibilidade de continuar. Se alcançasse um destino, deixaria de ser corredor. Se encontrasse uma resposta definitiva, perderia a razão de permanecer aberto. Sua essência estava justamente na ausência de conclusão.

            Então a ideia de fim tornou-se uma lembrança distante, uma invenção criada pelo medo diante do infinito. O término não era uma porta fechada, mas uma porta que continuava abrindo outras portas até que a própria abertura se tornasse o único lugar possível para existir.

            E assim o corredor prosseguiu através do próprio desaparecimento, reescrevendo-se em camadas de esquecimento e criação. Cada fragmento perdido retornava transformado, cada silêncio gerava outro silêncio, e no coração desse movimento impossível permanecia a pergunta sem rosto: se tudo pode ser reescrito, quem escreve aquilo que permanece apagado?

            A pergunta permaneceu suspensa no interior do corredor, não como uma busca por resposta, mas como uma presença invisível que ocupava todos os espaços deixados pelo silêncio. O próprio ato de perguntar tornou-se mais antigo que qualquer tentativa de compreender, como se a dúvida fosse a primeira forma de existência e todas as certezas fossem apenas suas sombras passageiras.

            As paredes, cansadas de sustentar aquilo que não podia ser sustentado, começaram a perder a distinção entre o dentro e o fora. O corredor deixou de possuir fronteiras e passou a se espalhar como uma ideia sem dono, uma extensão do indizível atravessando regiões onde a lógica chegava apenas para descobrir que já havia chegado tarde demais.

            O chão, antes destinado aos passos, transformou-se em uma superfície de memórias inexistentes. Sobre ele estavam gravadas marcas de movimentos que nunca aconteceram, rastros de percursos abandonados antes de serem iniciados. Cada marca carregava a ausência de uma passagem, como se até o vazio precisasse deixar vestígios de sua própria falta.

            O tempo, agora sem relógios para obedecer, tornou-se uma matéria estranha que escorria pelas paredes. Havia minutos que duravam séculos e séculos que desapareciam em um instante. A duração deixou de medir a existência e passou a ser medida por ela, invertendo a ordem das coisas até que o próprio universo parecesse um pensamento atrasado.

            No centro que nunca existiu, o corredor encontrou aquilo que sempre evitara: a possibilidade de ser apenas uma pergunta prolongada. Não havia propósito escondido em suas curvas, nenhuma mensagem esperando ser descoberta, nenhum segredo guardado além do próprio mistério. Sua razão de existir era permanecer incompleto.

            As portas começaram a desaparecer uma a uma, não porque fossem fechadas, mas porque já não havia diferença entre atravessá-las ou permanecer diante delas. O movimento perdeu seu significado, e a escolha tornou-se uma ilusão criada por uma consciência que precisava acreditar que caminhava para algum lugar.

            A ausência ocupou o último espaço ainda não ocupado pela ausência. E nesse paradoxo silencioso, o corredor descobriu uma espécie de liberdade: nada precisava ser encontrado, pois toda procura já era uma forma de encontro com aquilo que nunca poderia possuir forma.

            A cada nova reescrita, o corredor se aproximava menos de uma identidade e mais de uma transformação contínua. Tornava-se aquilo que deixava de ser, uma existência feita de perdas sucessivas, uma construção erguida com os próprios fragmentos que desmoronavam.

            No entanto, mesmo diante da dissolução completa, algo insistia em permanecer. Não era uma resposta, nem uma esperança, nem uma verdade escondida. Era apenas o movimento inexplicável de continuar. E talvez fosse essa continuidade sem razão aparente a única prova de que alguma coisa, em algum lugar impossível, ainda escrevia.

            Depois da inscrição que não fora escrita por nenhuma mão, o corredor permaneceu diante de sua própria impossibilidade. A frase desapareceu antes de ser compreendida, mas deixou no espaço uma marca semelhante à lembrança de algo que nunca aconteceu. O nada, por um breve instante, pareceu carregar uma cicatriz.

            A arquitetura começou a perder sua antiga rigidez. As paredes tornaram-se pensamentos endurecidos, os pensamentos tornaram-se poeira e a poeira tornou-se novamente aquilo que jamais havia deixado de ser: matéria sem explicação. Tudo retornava ao ponto anterior sem jamais alcançá-lo, como uma volta que percorre o caminho inteiro apenas para descobrir que o início também era uma invenção.

            O corredor percebeu que sua existência dependia daquilo que o negava.   Precisava do vazio para possuir forma, precisava do silêncio para produzir ecos, precisava do desaparecimento para continuar sendo reconhecido como presença. Era uma contradição sustentando outra contradição, um abismo construído sobre a ausência de chão.

            Em suas extensões infinitas, surgiram corredores menores que não levavam a lugar algum, mas guardavam a memória de todos os lugares possíveis. Eram caminhos feitos de escolhas não realizadas, destinos abandonados antes do nascimento, futuros que envelheceram antes de existir.

            Nenhuma porta permanecia fechada porque nenhuma porta permanecia aberta. O próprio conceito de passagem havia perdido sentido. Entrar e sair eram apenas palavras diferentes tentando descrever o mesmo movimento de permanecer preso ao fluxo interminável da transformação.

            O corredor começou a compreender que sua reescrita não era uma tentativa de corrigir a si mesmo, mas uma maneira de aceitar a própria incompletude. Cada erro era uma forma de criação, cada falha era uma nova arquitetura, cada ruína era o início secreto de uma construção desconhecida.

            A solidão, antes vista como um espaço vazio, revelou-se,  como a única companhia possível naquele lugar sem habitantes. Ela não caminhava ao lado do corredor; ela era o próprio corredor caminhando dentro de si. Não havia separação entre aquele que procura e aquilo que é procurado.

            O tempo, já sem direção, ajoelhou-se diante do instante e abandonou sua antiga promessa de continuidade. O passado deixou de ser uma lembrança, o futuro deixou de ser uma esperança, e o presente tornou-se um território absoluto onde tudo nascia e desaparecia ao mesmo tempo.

            No limite onde todas as fronteiras se desfaziam, o corredor encontrou sua última ilusão: a crença de que havia algo para encontrar. E ao perder essa crença, não encontrou vazio algum, mas uma liberdade estranha, sem nome e sem destino.

            Assim, continuou existindo não como resposta, mas como pergunta. Não como caminho para algum lugar, mas como o próprio movimento da procura. O corredor que se reescreve permaneceu escrevendo, porque talvez a única forma de vencer o fim fosse nunca permitir que ele tivesse a última palavra.

            No lugar onde a última palavra deveria existir, o corredor encontrou apenas o espaço vazio deixado pela sua ausência. Não havia conclusão esperando pelo momento certo de surgir, nem uma revelação escondida atrás das últimas paredes. O fim, cansado de ser esperado, tornou-se apenas mais uma passagem dentro da interminável arquitetura do impossível.

            As paredes começaram a esquecer que um dia foram paredes. Algumas transformaram-se em fragmentos de luz apagada, outras em sombras sem origem, outras simplesmente desapareceram sem deixar sequer a memória de terem desaparecido. O corredor não perdeu sua forma; apenas deixou de depender dela para continuar sendo.

            A existência tornou-se um movimento sem direção, semelhante a uma pergunta lançada ao universo que retorna antes de encontrar distância suficiente para se perder.         Tudo retornava modificado, tudo permanecia diferente, tudo carregava em si a marca de uma transformação que não podia ser interrompida.

            No centro inexistente do corredor surgiu uma ausência maior que todas as anteriores. Não era um buraco, nem um espaço vazio, mas uma espécie de presença silenciosa que observava sem olhos e aguardava sem tempo. Ali repousava aquilo que nenhuma linguagem conseguia alcançar.

            O corredor aproximou-se sem caminhar. Quanto mais perto chegava, menos havia para alcançar. A distância se dissolveu, e junto dela desapareceu a diferença entre aquele que procura e aquilo que é procurado. Pela primeira vez, o corredor percebeu que sempre esteve diante de si mesmo, mas nunca possuíra um rosto para reconhecer.

            As marcas deixadas pelas antigas reescritas começaram a retornar. Cada apagamento trouxe de volta uma possibilidade esquecida, cada perda revelou uma forma diferente de permanência. O que parecia destruído apenas aguardava outra maneira de existir.

            O absurdo deixou de ser um obstáculo e tornou-se a própria linguagem daquele lugar. A falta de sentido não representava o fracasso da existência, mas sua condição mais profunda. O corredor não precisava justificar sua presença; bastava continuar sendo aquilo que continuamente deixava de ser.

            O silêncio final aproximou-se lentamente, não como ameaça, mas como uma espécie de descanso impossível. Porém, antes que pudesse cobrir tudo, uma nova linha surgiu na superfície invisível do espaço: “Nenhum fim encerra aquilo que nunca terminou de começar.”

            A frase permaneceu por um instante que poderia ter durado uma eternidade ou apenas a fração de um pensamento. Depois, também desapareceu. Mas o desaparecimento não significou perda. Significou transformação.

            E assim o corredor permaneceu além de sua própria ausência, reescrevendo aquilo que não podia ser escrito, atravessando aquilo que não podia ser atravessado, existindo no intervalo infinito entre o ser e o nada.

            Além do intervalo entre o ser e o nada, o corredor encontrou uma região onde até o impossível parecia ter envelhecido.

            Ali não havia ausência nem presença, apenas uma espécie de espera sem objeto, um silêncio que aguardava algo que nunca havia sido prometido. O tempo permanecia imóvel, não por ter parado, mas por ter esquecido qual direção deveria seguir.

            As antigas paredes, reduzidas a vestígios de uma arquitetura sem matéria, começaram a formar novas imagens que não pertenciam ao passado nem ao futuro.      Eram lembranças de acontecimentos que não aconteceram, memórias de instantes recusados pela realidade antes mesmo de nascerem.

            O corredor compreendeu que sua história não era feita de acontecimentos, mas de interrupções. Cada ruptura criava uma nova possibilidade, cada perda abria uma passagem invisível. O vazio que antes parecia destruir agora revelava ser a força secreta que mantinha tudo em movimento.

            Nenhuma certeza conseguiu permanecer naquele lugar. As verdades que surgiam transformavam-se imediatamente em perguntas, e as perguntas, ao envelhecerem, tornavam-se novamente silêncio. Era um ciclo sem início e sem término, uma dança imóvel entre aquilo que tenta existir e aquilo que insiste em desaparecer.

            O corredor começou a perder até mesmo a memória de sua própria forma. Já não sabia se era caminho, labirinto ou apenas uma ideia atravessando uma consciência desconhecida. Talvez nunca tivesse sido construído; talvez tivesse surgido no instante em que alguém, em algum lugar impossível, imaginou a existência de uma passagem.

            Mas essa possibilidade também se desfez. Pois se não havia criador, também não havia criatura. Se não havia escrita, também não havia palavra. Se não havia origem, então toda busca por uma origem era apenas outra curva do mesmo corredor infinito.

            No silêncio profundo dessa descoberta, uma estranha tranquilidade surgiu. Não era felicidade, nem esperança, nem aceitação. Era algo mais próximo de uma compreensão sem pensamento: a percepção de que a existência não precisava ser decifrada para continuar sendo misteriosa.

            O corredor então deixou de lutar contra suas próprias contradições. Aceitou suas portas sem destino, suas paredes sem certeza, seus caminhos sem chegada. Tornou-se inteiro justamente porque nunca poderia estar completo.

            A última sombra de uma antiga pergunta atravessou seus espaços vazios. Ela não procurava resposta, apenas continuava existindo como testemunha de uma busca interminável. E essa sombra, ao desaparecer, deixou atrás de si uma nova inscrição: “Tudo aquilo que permanece é aquilo que aprende a desaparecer.”

            O corredor leu a frase com sua ausência, guardou-a sem memória e seguiu adiante sem avançar. Porque naquele lugar onde todas as coisas terminavam antes de começar, continuar era a única forma possível de existir.

            E no último espaço onde ainda parecia existir alguma coisa semelhante a uma fronteira, o corredor encontrou aquilo que durante toda a sua existência havia evitado: a completa ausência de si mesmo. Não havia mais paredes para sustentar a dúvida, nem portas para representar escolhas, nem caminhos para alimentar a ilusão de movimento.             Restava apenas o silêncio observando o próprio silêncio.

            Por um instante impossível, o corredor deixou de se reescrever. Não porque tivesse alcançado uma forma definitiva, mas porque percebeu que toda forma já era uma passagem para outra transformação. A permanência absoluta era apenas outra maneira de desaparecer lentamente.

            O que antes parecia uma prisão revelou-se uma liberdade sem nome. Não havia destino para cumprir, nem sentido escondido esperando ser revelado. A existência não era uma mensagem cifrada, mas o próprio ato de permanecer diante do mistério sem exigir que ele se explicasse.

            As antigas marcas espalhadas pelas paredes retornaram como ecos de uma escrita esquecida. Cada palavra apagada, cada curva perdida, cada porta inexistente reapareceu não como lembrança, mas como possibilidade. Tudo aquilo que havia sido perdido continuava presente na forma de uma ausência criadora.

            O corredor finalmente compreendeu que nunca havia caminhado por um lugar.   Havia sido o próprio caminhar. Nunca havia procurado uma saída. Havia sido a própria procura. Nunca havia esperado uma resposta. Havia sido a pergunta prolongando-se através do infinito.

            Então o fim aproximou-se sem ruído. Não veio como destruição, mas como uma última transformação.

            O fim deixou de ser uma chegada e tornou-se apenas mais uma palavra escrita pelo corredor para depois ser apagada.

            E quando a última parede desapareceu, não surgiu o vazio esperado. Surgiu outro corredor, mais antigo e mais desconhecido, recomeçando onde tudo deveria terminar. Não era repetição, mas uma nova versão do mesmo enigma, uma continuidade sem origem.

            A escrita invisível voltou a surgir no espaço sem forma:     “Todo fim é apenas uma porta que esqueceu seu nome.”

            Depois disso, nada permaneceu como antes, porque nunca houve um antes verdadeiro. O corredor continuou existindo naquilo que não podia ser encontrado, sendo reconstruído pela própria impossibilidade de desaparecer completamente.

            E assim, entre o silêncio e a palavra, entre o nada e a existência, o corredor permaneceu reescrevendo-se eternamente. Não para alcançar alguma verdade, mas para manter viva a única certeza que jamais conseguiu ser destruída: a de que o mistério continua sendo o último lugar onde tudo começa.

Clayton Alexandre Zocarato

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Arquitetura para um vazio habitável

Clayton Alexandre Zocarato

‘Arquitetura para um vazio habitável’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato

Antes que o primeiro tijolo fosse assentado, o terreno já estava vazio. Não porque lhe faltassem construções, mas porque lhe sobravam presenças. 

Havia milhões de vozes atravessando o ar como enxames elétricos, milhões de imagens comprimindo os olhos, milhões de gestos transformados em arquivos, e, ainda assim, nenhuma existência parecia ocupar verdadeiramente o espaço que reivindicava.

O mundo havia aprendido a multiplicar contatos enquanto demolia encontros. A tecnologia não construíra uma nova civilização; apenas revestira de luzes um antigo deserto.

Toda arquitetura nasce de uma ausência. Levantam-se paredes porque existe o vento, fecham-se portas porque existe o medo, abrem-se janelas porque existe o desejo de olhar além daquilo que aprisiona. 

Contudo, havia surgido um novo tipo de construção cuja finalidade não era proteger corpos nem aproximar almas. Edificava-se o vazio. Cada tela era uma parede transparente. 

Cada perfil era uma janela voltada para um horizonte inexistente. Cada notificação era um pequeno martelo golpeando os alicerces da interioridade.

Nunca tantos haviam falado tão incessantemente para dizer tão pouco.

A palavra perdera sua espessura. Tornara-se um objeto descartável, produzido em escala industrial como copos plásticos destinados ao lixo poucos segundos depois de utilizados. 

As frases deixaram de carregar experiências para transportar impulsos. O pensamento foi substituído pela velocidade da reação. 

Já não importava compreender. Bastava responder antes que outro respondesse primeiro.

A inteligência passou a medir-se em segundos.

A sabedoria desapareceu dos relógios.

O silêncio converteu-se em uma espécie de escândalo moral.

Quem permanecia calado parecia culpado de alguma conspiração invisível. Era preciso comentar tudo, opinar sobre tudo, indignar-se diante de tudo, esquecer tudo logo em seguida. 

A memória coletiva começou a respirar como um animal asmático: inspirava acontecimentos gigantescos para expirar banalidades poucos minutos depois.

Nada permanecia.

Nem mesmo a dor.

Principalmente a dor.

A dor, outrora professora severa da condição humana, foi transformada em espetáculo portátil. Chorava-se diante da câmera e sorria-se quando ela era desligada. O sofrimento tornou-se uma estratégia de mercado. 

O luto passou a competir por curtidas. A solidão ganhou filtros capazes de torná-la esteticamente agradável. As cicatrizes precisavam ser fotogênicas.

O horror deixou de causar horror.

Precisava apenas gerar engajamento.

Era curioso observar como a humanidade aprendera a construir pontes digitais enquanto demolia todas as pontes invisíveis que ligavam uma consciência à outra. Aproximavam-se os aparelhos; afastavam-se os corações. 

Os dedos adquiriram uma intimidade impossível com superfícies lisas de vidro, enquanto desaprendiam o peso de outra mão.

O toque perdeu densidade.

O abraço tornou-se uma lembrança anatômica.

As pessoas passaram a existir como vitrines ambulantes. Cada fotografia era cuidadosamente polida para esconder o acúmulo de poeira interior. 

Produziam felicidade como quem produz cimento: em massa, rapidamente, sem perguntar se alguém realmente necessitava daquela matéria endurecida.

Viviam cercadas por espelhos que refletiam apenas versões editadas da própria inexistência.

Já não havia biografias.

Havia campanhas publicitárias.

Cada indivíduo transformou-se em departamento de marketing de si mesmo.

A sinceridade começou a parecer um erro de configuração.

Os algoritmos compreenderam antes dos próprios seres humanos que ninguém desejava conhecer a verdade. A verdade era lenta, contraditória, frequentemente desagradável. 

Preferia-se a confirmação das certezas, mesmo quando essas certezas conduziam lentamente ao abismo. A mentira tornou-se confortável porque se ajustava perfeitamente ao formato das expectativas.

Nunca a realidade foi tão opcional.

Era possível escolher qual mundo habitar sem sair do mesmo quarto.

Cada tela funcionava como um pequeno universo privado onde toda discordância podia ser eliminada com um simples toque. Assim nasceu uma geração incapaz de conviver com o diferente porque aprendera que toda divergência podia ser bloqueada. A alteridade transformou-se em defeito técnico.

Não havia mais adversários.

Havia inconvenientes.

A convivência foi substituída pela filtragem.

O amor sofreu a mesma mutação silenciosa.

Durante séculos, amar significava suportar a presença imprevisível de outra existência. Exigia demora, paciência, renúncia, escuta e, sobretudo, fracasso. Todo amor verdadeiro carregava inevitavelmente o peso da imperfeição.

Agora, porém, o amor precisava caber na velocidade dos aplicativos.

Precisava ser eficiente.

Precisava ser reversível.

Precisava oferecer garantia de satisfação.

Como qualquer produto.

Quando duas pessoas deixavam de proporcionar prazer imediato, bastava deslizar um dedo. A esperança passou a funcionar como um catálogo infinito de possibilidades. 

O problema era que a abundância destrói o valor da escolha. Quem acredita possuir infinitas alternativas jamais mergulha verdadeiramente em uma delas.

A superfície venceu a profundidade.

Não porque fosse mais bela.

Mas porque era mais rápida.

A intimidade tornou-se perigosa. Conhecer verdadeiramente alguém implica descobrir rachaduras. 

E as rachaduras diminuem o valor de mercado das pessoas. Melhor permanecer na luminosidade dos primeiros encontros eternamente inacabados. Melhor colecionar começos do que enfrentar qualquer continuidade.

Assim nasceu uma multidão especializada em inaugurar relações, mas incapazes de construírem  permanências.

Tudo começava.

Nada amadurecia.

O tempo perdeu sua vocação agrícola.

Já não cultivava. Consumia-se.

Até mesmo a esperança passou a envelhecer antes de nascer.

As conversas transformaram-se em negociações emocionais. Cada gesto escondia cálculos invisíveis sobre retorno afetivo, reciprocidade, visibilidade social. 

A generosidade tornou-se investimento. A amizade converteu-se em rede de contatos. O afeto passou a obedecer às mesmas leis do mercado financeiro: rendimento, valorização, liquidez.

A alma aprendeu a falar a linguagem das bolsas de valores.

E faliu silenciosamente.

Talvez a maior tragédia não fosse a ausência do amor, mas sua simulação perfeita. Já não era necessário amar. Bastava reproduzir todos os sinais externos do amor. 

Fotografias, declarações públicas, aniversários comemorados diante de espectadores invisíveis, viagens cuidadosamente documentadas, beijos interrompidos pela necessidade de registrar o próprio beijo.

A experiência passou a existir para ser lembrada antes mesmo de ser vivida.

Toda felicidade precisava de testemunhas.

Caso contrário, parecia não existir.

Pouco a pouco, o ser humano começou a confundir existência com visibilidade. O invisível tornou-se equivalente ao inexistente. As emoções silenciosas perderam legitimidade. A contemplação foi substituída pela exposição.

Até Deus pareceria insuficientemente conectado para sobreviver naquele ambiente.

A eternidade não possuía perfil.

O infinito não publicava conteúdos.

O mistério era péssimo produtor de audiência.

Enquanto isso, uma estranha sensação espalhava-se sem fazer ruído. Era um vazio diferente daquele conhecido pelos antigos filósofos.

Não era o vazio provocado pela falta de respostas. Era o vazio produzido pelo excesso delas. Nunca houve tantas opiniões disponíveis. Nunca houve tão poucas perguntas verdadeiras.

A humanidade deixara de buscar sentido.

Passara apenas a administrar distrações.

E cada distração exigia outra ainda maior para esconder a anterior.

Assim se erguia, todos os dias, a mais sofisticada construção da história: uma arquitetura monumental feita de conexões instantâneas, emoções descartáveis, afetos terceirizados e consciências continuamente ocupadas para jamais perceberem que habitavam,  desde muito tempo, uma casa sem fundamento, cuidadosamente decorada para impedir que seus moradores escutassem o eco da própria ausência.

O paradoxo tornou-se invisível justamente porque se tornara absoluto. Nunca a humanidade produzira tantos mecanismos para evitar a solidão, e nunca a solidão alcançara tamanha sofisticação.

Ela já não precisava do isolamento físico para existir. Aprendera a sobreviver em cafés lotados, escritórios compartilhados, salas de aula, aeroportos, elevadores, festas e até mesmo entre corpos que dividiam a mesma cama. A solidão descobrira que o lugar mais seguro para esconder-se era exatamente no centro da multidão.

Não havia mais desertos.

As pessoas haviam se tornado desertos.

Cada consciência carregava um clima próprio de estiagem. O pensamento secava antes de amadurecer. As emoções evaporavam antes de encontrarem linguagem.

Tudo precisava nascer pronto, explicado, resumido, traduzido em imagens pequenas o suficiente para caberem entre dois anúncios. A lentidão passou a ser interpretada como defeito biológico.

O espírito tornou-se incompatível com a velocidade.

O silêncio, que outrora permitia ao ser humano encontrar-se consigo mesmo, passou a ser percebido como uma falha do sistema.

Era necessário preencher cada segundo com algum ruído: uma música, um vídeo, um comentário, uma conversa superficial, qualquer coisa que impedisse a aproximação daquela pergunta antiga que atravessa todas as épocas: “Quem permanece quando tudo se cala?”

Poucos ousavam escutá-la.

Responder era impossível.

Ignorá-la parecia mais confortável.

A tecnologia, que prometera ampliar horizontes, acabou reduzindo a paisagem interior. O infinito foi comprimido na dimensão de uma tela. A experiência humana passou a ser organizada por algoritmos cuja maior virtude consistia em impedir qualquer surpresa verdadeira. 

O inesperado tornou-se inconveniente. O espanto passou a ser tratado como erro estatístico.

Já não se descobria.

Consumiam-se descobertas previamente calculadas.

O acaso foi domesticado.

Até o destino começou a parecer previsível.

O ser humano deixou de caminhar para procurar alguma coisa. Caminhava porque o aplicativo indicava uma rota. 

Lia porque alguém recomendava. Pensava porque outro já havia pensado primeiro. Revoltava-se conforme o assunto do dia. Esquecia obedecendo ao calendário invisível das tendências.

A liberdade sobrevivia apenas como estética.

Era uma fotografia antiga pendurada na parede de uma casa abandonada.

A autonomia foi lentamente substituída pela personalização. Pareciam conceitos semelhantes, mas eram inimigos silenciosos. A autonomia exige decisão; a personalização apenas adapta a prisão ao gosto do prisioneiro. Escolhiam-se as cores da cela, mas jamais suas paredes.

Chamavam isso de liberdade.

Talvez porque toda prisão confortável dispense grades.

A própria identidade tornou-se um projeto interminável. Durante séculos, buscava-se descobrir quem se era. Agora, fabricava-se continuamente quem se desejava parecer. A existência converteu-se em design.

Cada dia exigia uma nova versão.

Cada versão precisava superar a anterior.

Nenhuma delas sobrevivia até a semana seguinte.

As máscaras deixaram de esconder o rosto.

Passaram a substituí-lo.

Houve um tempo em que a mentira precisava esconder-se da verdade. Hoje, a verdade pede licença para existir entre versões mais agradáveis dela mesma. 

A sinceridade tornou-se grosseira porque insiste em possuir arestas. As pessoas preferem narrativas cuidadosamente polidas, ainda que completamente vazias.

A realidade perdeu valor de mercado.

A aparência tornou-se o principal ativo financeiro da alma.

Tudo precisava parecer extraordinário. Um café deixava de ser café para tornar-se experiência gastronômica. 

Uma caminhada precisava transformar-se em jornada de autoconhecimento. Um simples amanhecer exigia legenda filosófica. O cotidiano passou a sentir vergonha de sua simplicidade.

Mas a vida continua acontecendo nas coisas pequenas.

Enquanto todos fotografavam o pôr do sol, ninguém percebia a escuridão crescendo por dentro.

O amor sofreu a consequência mais devastadora dessa mutação invisível.

Antes, amar era reconhecer no outro um mistério impossível de possuir completamente. 

Havia humildade nesse reconhecimento. Existia beleza justamente porque sempre permanecia alguma região desconhecida.

Agora, desejava-se transparência absoluta.

Tudo precisava ser explicado, compartilhado, monitorado, validado. O mistério tornou-se ameaça.

A confiança foi substituída pela vigilância. O cuidado converteu-se em controle.

Chamavam ciúme de zelo.

Chamavam dependência de intensidade.

Chamavam posse de compromisso.

Pouco a pouco, o amor deixou de ser encontro entre duas liberdades para transformar-se em contrato entre duas carências.

Não se buscava alguém para caminhar ao lado, mas alguém capaz de anestesiar provisoriamente o próprio vazio.

O outro deixou de ser sujeito.

Transformou-se em remédio.

E todo remédio perde efeito quando utilizado para curar aquilo que pertence à própria existência.

Foi então que surgiu uma epidemia silenciosa.

Pessoas emocionalmente exaustas.

Não por excesso de sofrimento.

Mas por excesso de superficialidade.

A superfície exige esforço permanente. É preciso mantê-la brilhando. A profundidade, ao contrário, aceita até mesmo a escuridão.

No entanto, poucos ainda possuíam coragem para mergulhar.

Mergulhar tornou-se perigoso.

Ali habitavam perguntas.

E perguntas verdadeiras jamais oferecem conforto.

Elas retiram o chão.

Mostram que o edifício inteiro talvez tenha sido construído sobre areia.

Foi assim que a moral também começou a dissolver-se. Não através de grandes revoluções, mas pela lenta substituição da consciência pela conveniência. 

O certo passou a depender do número de compartilhamentos. O justo passou a obedecer às estatísticas da aprovação coletiva.

A ética transformou-se em enquete.

A consciência tornou-se refém da audiência.

Ninguém perguntava mais se determinada ação era boa.

Perguntava-se apenas se seria aceita.

A coragem desapareceu discretamente. Não foi assassinada. Foi ridicularizada. Tornou-se antiquada diante da eficiência das adaptações. Aprendeu-se a sobreviver modificando convicções conforme a direção do vento. 

A coerência começou a parecer fanatismo. A firmeza tornou-se sinônimo de inflexibilidade.

O caráter converteu-se em software.

Recebia atualizações constantes.

Até perder completamente sua versão original.

Nesse cenário, a esperança assumiu uma forma curiosa. Já não acreditava na transformação do mundo. Limitava-se a esperar pela próxima distração. Um novo lançamento. 

Um novo escândalo. Uma nova polêmica. Um novo consumo. A expectativa deslocou-se do futuro para a novidade.

O amanhã morreu.

Restou apenas o próximo minuto.

Talvez fosse essa a verdadeira arquitetura do vazio: construir uma civilização tão ocupada consigo mesma,  que jamais encontrasse tempo para perguntar por que existia. Uma engenharia perfeita da dispersão. Um urbanismo espiritual onde,  cada avenida conduzia inevitavelmente ao mesmo lugar: um centro completamente desabitado.

As cidades cresceram.

Os edifícios tocaram as nuvens.

As redes conectaram continentes.

As inteligências artificiais aprenderam a conversar.

Mas algo infinitamente mais simples desapareceu sem deixar vestígios.

A capacidade de permanecer diante de outro ser humano sem desejar escapar.

Porque fugir tornou-se um hábito.

Permanecer tornou-se um ato revolucionário.

E ninguém mais parecia disposto a habitar aquilo que mais temia encontrar: o silêncio onde a própria alma, finalmente despida de todas as conexões, perguntava se ainda existia alguém vivendo dentro dela ou se restava apenas uma bela construção erguida para proteger um vazio que, há muito tempo, deixara de ser ausência para tornar-se o único morador permanente da casa chamada humanidade.

O vazio possui uma inteligência silenciosa.

Ao contrário da dor, ele não grita. Ao contrário da tristeza, não exige lágrimas. Diferentemente do desespero, não ameaça destruir imediatamente aquilo que toca. Sua estratégia é mais refinada. Ele acomoda. 

Aprende a decorar os cômodos da consciência até que seus habitantes deixem de perceber sua presença. Um dia, descobre-se que toda a existência foi organizada ao redor dele, como uma cidade construída para proteger uma ruína cuja origem ninguém mais recorda.

Talvez por isso o mundo parecesse tão funcional.

Funcionava perfeitamente.

Produzia.

Consumiria ainda mais.

Compartilhava.

Competia.

Acumulava.

Exibia.

Apenas…  não vivia.

A vida fora reduzida à administração permanente da sobrevivência simbólica. Já não bastava existir. Era necessário provar continuamente que se existia. Cada fotografia representava um certificado provisório de presença.

Cada comentário era um pedido de reconhecimento. Cada aprovação pública funcionava como uma respiração artificial aplicada sobre uma identidade incapaz de sustentar-se sozinha.

A existência tornara-se dependente do olhar alheio.

Quando ninguém observava, algo dentro do ser humano começava lentamente a desaparecer.

Era curioso perceber que a maior invenção da época não fora a inteligência artificial.

Fora a artificialização da inteligência.

Pensar tornou-se perigoso porque pensar interrompe o fluxo. Quem pensa profundamente desacelera. Quem desacelera deixa de produzir.

Quem deixa de produzir torna-se invisível para uma sociedade cuja religião é o desempenho. Assim, até a contemplação passou a carregar uma aparência de culpa.

O descanso perdeu sua inocência.

Era preciso justificá-lo.

Era preciso transformá-lo em produtividade futura.

Até o lazer passou a trabalhar.

A alma nunca teve férias.

Esgotava-se em silêncio.

A exaustão tornou-se uma medalha invisível. Quanto mais cansado alguém estivesse, maior parecia seu valor social. O sofrimento deixara de ser um problema para converter-se em capital moral. 

Todos competiam para demonstrar quem suportava a agenda mais cruel, quem dormia menos, quem respondia mais rapidamente, quem permanecia permanentemente disponível.

A disponibilidade substituiu a presença.

Estava-se acessível.

Jamais presente.

A presença exige inteireza.

A conexão exige apenas sinal.

Pouco a pouco, o corpo começou a denunciar aquilo que a linguagem insistia em esconder. Ansiedade, insônia, crises de pânico, depressões sem nome, uma angústia difusa espalhando-se como neblina entre pessoas incapazes de explicar por que sofriam. Procuravam causas imediatas quando a origem encontrava-se muito mais profundamente enterrada.

O espírito havia sido amputado.

Continuava vivo.

Mas aprendera a caminhar sem parte de si.

A medicina oferecia diagnósticos.

A economia oferecia soluções.

A publicidade oferecia desejos.

O entretenimento oferecia distrações.

Ninguém oferecia significado.

Porque o significado não pode ser vendido.

Ele exige demora.

Exige fracasso.

Exige silêncio.

Exige uma coragem que o mercado jamais conseguiu transformar em mercadoria.

As antigas religiões perderam espaço não apenas porque deixaram de convencer, mas porque o próprio mistério tornou-se insuportável.

O homem contemporâneo deseja respostas antes mesmo de formular perguntas. A dúvida tornou-se uma espécie de doença cognitiva.

Tudo precisa ser explicado.

Tudo precisa ser classificado.

Tudo precisa caber em categorias.

Mas a existência sempre escapou das classificações.

O amor, sobretudo.

Durante séculos, o amor era a experiência que desmontava qualquer arquitetura racional. Ele interrompia projetos, desmontava certezas, colocava o indivíduo diante de sua própria vulnerabilidade. Amar era aceitar perder parte do controle sobre si.

Agora ama-se,  exatamente para manter o controle.

Calculam-se compatibilidades.

Monitoram-se comportamentos.

Interpretam-se mensagens.

Cronometram-se respostas.

Mensura-se interesse.

Audita-se afeto.

O coração aprendeu contabilidade.

E esqueceu poesia.

O beijo transformou-se em protocolo.

O desejo converteu-se em algoritmo.

Até a saudade tornou-se inconveniente.

Ela demora demais.

A sociedade da aceleração não suporta aquilo que amadurece lentamente. Uma árvore é lenta. Um velho é lento. Um livro é lento. O perdão é lento. A confiança é lenta. O amor verdadeiro é quase geológico.

Mas tudo ao redor exige velocidade.

Por isso as raízes começaram,  a surgirem com defeitos.

Preferiram plantas artificiais.

Jamais crescem.

Jamais morrem.

Jamais vivem.

Também as relações humanas aprenderam essa estética do plástico. Tornaram-se resistentes, bonitas e absolutamente incapazes de produzir frutos.

Havia uma estranha economia afetiva em funcionamento.

As pessoas economizavam entrega.

Economizavam sinceridade.

Economizavam tempo.

Economizavam vulnerabilidade.

Guardavam tudo para um futuro que jamais chegava.

No fim, acumulavam reservas emocionais que nunca seriam utilizadas.

Morreram ricos de sentimentos nunca compartilhados.

Talvez esse fosse o maior desperdício da história.

Não petróleo.

Não ouro.

Não florestas.

Mas ternuras que jamais encontraram coragem para existir.

Enquanto isso, a infância desaparecia cada vez mais cedo. As crianças aprendiam a produzir versões de si antes mesmo de descobrirem quem eram.

Cresciam diante de espelhos digitais que devolviam imagens cuidadosamente corrigidas. O erro tornou-se proibido.

Mas somente quem erra descobre alguma coisa.

A perfeição é estéril.

O fracasso sempre foi mais fértil que o sucesso.

Entretanto, ninguém queria fracassar.

Fracassar significava desaparecer.

Assim nasceu uma geração inteira aterrorizada pela possibilidade de não ser extraordinária.

Como se a beleza da existência dependesse da exceção.

Quando, talvez, sua grandeza estivesse justamente na simplicidade de uma vida comum.

Uma conversa sem registros.

Um abraço sem fotografia.

Um passeio sem localização.

Uma lágrima sem testemunhas.

Um amor sem plateia.

Mas isso já parecia pertencer,  a outra civilização.

A intimidade tornou-se clandestina.

O recolhimento adquiriu aparência de resistência política.

Estar sozinho passou a ser quase um gesto revolucionário.

Porque quem suporta permanecer consigo mesmo já não pode ser facilmente manipulado.

Quem conhece o silêncio torna-se menos dependente do ruído.

Quem encontra sentido dentro de si compra menos ilusões.

Talvez fosse exatamente isso que tornava o vazio tão indispensável ao funcionamento daquela época. Ele precisava permanecer habitável. Não podia revelar sua verdadeira natureza. 

Precisava parecer confortável, moderno, eficiente, elegante. Precisava convencer seus moradores de que aquela ausência era, na verdade, liberdade.

E eles acreditavam.

Decoravam cuidadosamente suas celas.

Chamavam de autonomia aquilo que era apenas isolamento sofisticado.

Chamavam de independência aquilo que era incapacidade de confiar.

Chamavam de autenticidade a fabricação incessante de personagens.

Chamavam de felicidade a interrupção momentânea da angústia.

No fundo, a arquitetura permanecia intacta.

Belíssima.

Iluminada.

Premiada.

Inteligente.

Conectada.

Mas bastava apagar todas as telas por alguns minutos para que se ouvisse, ecoando entre as paredes invisíveis daquela construção monumental, um som antigo que nenhuma tecnologia conseguira eliminar.

O som da própria ausência.

Porque nenhuma civilização desmorona quando perde seus edifícios.

Ela começa a ruir quando seus habitantes já não conseguem reconhecer o rosto do outro, nem suportar o peso do próprio silêncio, transformando a existência numa sucessão interminável de corredores perfeitamente iluminados que conduzem sempre ao mesmo aposento vazio, onde a única coisa realmente habitável é aquilo que lentamente deixou de ser apenas falta e passou a constituir a própria estrutura da condição humana contemporânea.

Talvez nenhuma época tenha confundido tão profundamente progresso com deslocamento. Caminhava-se sem cessar, mas já não importava para onde. O movimento bastava como justificativa.

A velocidade tornou-se uma forma de esquecer que toda direção exige um destino. Assim, as estradas multiplicaram-se enquanto os caminhos desapareciam.

A humanidade passou a acreditar que avançava porque tudo ao redor se movia.

Mas o deserto também muda de forma quando o vento sopra.

E nem por isso deixa de ser deserto.

Houve um tempo em que as cidades eram construídas ao redor de praças. As praças permitiam que o olhar repousasse sobre outro olhar. Eram arquiteturas da convivência. 

Depois vieram os grandes centros comerciais, onde o encontro foi lentamente substituído pelo consumo. Agora surgiam espaços ainda mais silenciosos: ambientes onde nem mesmo o corpo precisava comparecer. Bastava a projeção de sua imagem.

O ser humano retirou-se da própria presença.

Delegou sua existência às representações.

Como,  antigos reis que governavam por meio de emissários, passou a viver através de perfis, fotografias, estatísticas, históricos de navegação, registros de localização, preferências calculadas e memórias armazenadas em servidores mais duradouros que sua própria carne.

Talvez nunca tenha existido uma época tão obcecada pela permanência.

E tão incapaz de permanecer.

Os vínculos dissolviam-se com a facilidade das palavras escritas sobre a água. Promessas tinham prazo de validade inferior ao entusiasmo que as produzia. Juramentos envelheciam antes da primeira dificuldade.

A fidelidade tornou-se um conceito arqueológico, como colunas de templos soterrados por uma civilização que já não compreendia a linguagem das próprias ruínas.

O amor continuava sendo pronunciado.

Mas sua gramática havia morrido.

Restavam apenas os substantivos.

Os verbos desapareceram.

Já ninguém sabia conjugar “cuidar”, “esperar”, “renunciar”, “perdoar”, “permanecer”. O amor foi reduzido a um sentimento, quando sempre fora, sobretudo, uma disciplina da presença. 

Amar exigia construir diariamente uma casa dentro do outro. Agora preferia-se,  alugar quartos provisórios na superfície das pessoas.

Era mais barato emocionalmente.

Também era infinitamente mais solitário.

A moral seguiu o mesmo destino. Não caiu por causa de grandes catástrofes ideológicas, nem foi destruída por revoluções sangrentas. Foi corroída pelo hábito aparentemente inofensivo da indiferença.

O mal já não precisava de convicções. Bastava distração. Bastava que todos permanecessem suficientemente ocupados consigo mesmos para não perceberem a dor alheia.

A crueldade perdeu o rosto.

Vestiu a máscara da pressa.

Enquanto isso, a consciência era lentamente terceirizada. Pensavam as plataformas. Escolhiam os algoritmos.

Recordavam os dispositivos. Calculavam as máquinas. O homem conservava apenas a sensação de decidir. Sua liberdade transformara-se numa elegante interface gráfica.

Nunca a servidão foi tão confortável.

As correntes aprenderam a sorrir.

Talvez fosse essa a mais perfeita realização do vazio: convencer seus habitantes de que ele era plenitude. 

Como um edifício cuja estrutura inteira repousasse sobre o nada, mas cuja decoração fosse tão sofisticada que ninguém ousasse perguntar pelos alicerces.

Entretanto, toda arquitetura possui fissuras.

E toda fissura possui memória.

Às vezes ela surgia durante a madrugada, quando a luminosidade das telas finalmente cedia lugar à escuridão do quarto. Às vezes aparecia diante de um espelho, onde a própria imagem parecia devolver um desconhecido.

Outras vezes manifestava-se em meio a centenas de pessoas, quando uma inexplicável sensação de abandono atravessava o peito sem qualquer motivo aparente.

Era o vazio chamando pelo seu verdadeiro nome.

Não um inimigo.

Não uma doença.

Mas a prova silenciosa de que nenhuma tecnologia conseguiria substituir aquilo que constitui a essência da experiência humana: a necessidade de sentido.

O problema é que o sentido jamais aceita ser produzido em escala industrial.

Ele nasce lentamente.

Como nasce uma floresta.

Como amadurece uma amizade.

Como envelhece um amor.

Como se constrói uma consciência.

Nada disso suporta aceleração.

Nada disso admite atalhos.

Por essa razão, a sociedade preferiu fabricar simulacros. 

Criou,  versões rápidas da felicidade, cópias instantâneas do pertencimento, reproduções digitais da intimidade, caricaturas do reconhecimento. E, durante algum tempo, acreditou que a encenação bastaria.

Mas toda representação depende da existência de um original.

Quando o original desaparece, resta apenas um teatro encenado para plateias igualmente fictícias.

No fim, ninguém mais sabia distinguir quem observava e quem era observado.

Quem desejava e quem apenas reproduzia desejos alheios.

Quem falava e quem apenas ecoava vozes produzidas em algum lugar invisível.

O silêncio, então, retornava.

Não como castigo.

Mas como a última linguagem ainda incapaz de mentir.

Porque o silêncio nunca promete.

Nunca seduz.

Nunca vende.

Ele apenas revela.

E aquilo que revelava era insuportavelmente simples.

Toda aquela civilização monumental, revestida de fibra óptica, inteligência artificial, comunicação instantânea, mercados globais e promessas infinitas, continuava incapaz de responder à pergunta que acompanha o homem desde que aprendeu a contemplar o próprio reflexo na água: Para que existir?

Talvez nenhuma resposta definitiva seja possível.

Talvez jamais tenha sido.

Mas houve épocas em que essa pergunta era compartilhada ao redor de uma mesa, de uma fogueira, de um livro, de um abraço ou de um olhar demorado. Agora ela era sufocada por notificações antes mesmo de terminar de nascer.

E uma pergunta que não pode amadurecer transforma-se em ansiedade.

Uma consciência que não suporta o silêncio transforma-se em ruído.

Uma sociedade incapaz de amar transforma o afeto em mercadoria.

Uma moral sem transcendência converte-se em estatística.

Uma liberdade sem interioridade reduz-se à escolha entre vitrines.

Foi assim que o edifício chegou ao fim de sua construção.

Não havia teto desabando.

Não havia incêndios.

Não havia guerras atravessando suas paredes.

Tudo permanecia impecavelmente organizado.

Os corredores brilhavam.

Os elevadores funcionavam.

As janelas refletiam um céu artificialmente azul.

As portas abriam-se automaticamente.

As vozes continuavam circulando por cabos invisíveis.

As imagens viajavam à velocidade da luz.

As máquinas aprendiam.

Os mercados cresciam.

As cidades respiravam.

As pessoas sorriam.

E, exatamente por isso, quase ninguém percebeu que o edifício nunca fora uma moradia.

Era apenas um monumento cuidadosamente projetado para tornar o vazio confortável o suficiente para ser confundido com lar.

Talvez essa tenha sido a maior obra arquitetônica da modernidade.

Não construir cidades.

Nem erguer impérios tecnológicos.

Nem conectar continentes.

Mas ensinar milhões de pessoas a habitarem a própria ausência sem jamais chamá-la pelo nome.

E quando o último brilho das telas finalmente se apagar, quando todas as conexões regressarem ao silêncio primordial de onde vieram, talvez reste apenas aquilo que sempre esteve escondido sob os alicerces dessa construção magnífica: um ser humano diante de si mesmo, sem testemunhas, sem algoritmos, sem máscaras, sem audiência, descobrindo tarde demais que nenhuma arquitetura, por mais perfeita que seja, consegue oferecer abrigo àquele que passou a vida inteira fugindo da única morada que jamais poderia abandonar: a própria consciência.

Clayton Alexandre Zocarato

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Escritura pública do infinito

Clayton Alexandre Zocarato: ‘Escritura pública do infinito’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/4666255120514742?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

No princípio não havia o Verbo. Havia uma rasura. O universo começou como uma correção malfeita de um escriba que nunca existiu.

Toda cosmogonia é um processo administrativo do desespero; toda metafísica é um cartório onde o Nada registra imóveis que jamais possuirá. Chamaram aquilo de criação porque ninguém suporta a hipótese de que o primeiro gesto da existência tenha sido um erro de caligrafia.

Encontrei a Escritura Pública do Infinito numa repartição abandonada entre duas madrugadas. 

Não havia paredes, embora houvesse limites. 

Não havia teto, embora pingassem silêncios sobre a cabeça dos ausentes. O funcionário que me atendeu usava um rosto dobrável. 

Toda vez que sorria, sua face mudava de geometria, como se a carne estivesse cansada de representar a mesma pessoa.

— Nome?

A pergunta caiu sobre mim como um tijolo lançado por uma biblioteca.

Procurei meu nome nos bolsos. Não estava. Revirei minhas lembranças. 

Apenas encontrei fotografias de alguém que talvez tivesse morado dentro de mim muitos anos antes. Meu nome havia emigrado para alguma língua que ainda não inventara seus substantivos.

O funcionário esperava.

Então respondi:

— Sou aquilo que resta quando a linguagem desiste de respirar.

Ele anotou sem levantar os olhos.

Descobri, naquele instante, que todo cartório é um cemitério de metáforas que conseguiram emprego.

Sobre a mesa repousava um livro tão espesso que parecia sustentar o peso da gravidade. 

Sua capa era feita de um material impossível, semelhante à pele do tempo quando este adoece de eternidade. Ao tocá-lo, ouvi o ruído de milhões de relógios desaprendendo as horas.

Abri a primeira página.

Ela estava completamente em branco.

Na segunda também.

Na terceira.

Na centésima.

Na milésima.

O funcionário explicou, com absoluta serenidade:

— Este é o registro oficial de tudo aquilo que nunca aconteceu.

Compreendi, então, que os acontecimentos são apenas acidentes burocráticos da inexistência.

Desde criança ensinaram-me que o infinito era uma linha sem fim. 

Mentiram. O infinito não possui extensão; possui fadiga. É o cansaço daquilo que jamais consegue terminar de ser impossível.

A filosofia gastou séculos tentando localizar o absoluto. Procurou-o nas estrelas, nos deuses, nas ideias puras, na razão, na matéria, na consciência. 

Nunca percebeu que o absoluto talvez fosse apenas o hábito infantil de exigir sentido onde existe apenas continuidade.

A metafísica não construiu catedrais.

Construiu espelhos.

E passou milênios ajoelhada diante do próprio reflexo.

Inventamos Deus para explicar o céu.

Depois inventamos o Universo para substituir Deus.

Depois inventamos equações para substituir o Universo.

Agora inventamos algoritmos para substituir as equações.

Mudam-se os nomes.

Permanece intacta a velha superstição de que alguma palavra será suficientemente grande para conter o abismo.

Mas o abismo não cabe.

O abismo transborda até das próprias ausências.

Percebi que minha sombra havia desaparecido.

Olhei em volta.

Todas as sombras daquele lugar caminhavam sozinhas.

Conversavam entre si.

Ignoravam completamente seus antigos proprietários.

Talvez as sombras fossem os verdadeiros seres, e nós apenas acidentes luminosos projetados por sua paciência.

A ideia me provocou um tipo inédito de vertigem.

Não era medo.

Nem espanto.

Era uma espécie de ontofratura.

Uma ruptura mineral na arquitetura do ser.

Algo dentro de mim começava a desexistir.

Sim.

Desexistir.

Porque deixar de existir ainda pressupõe que a existência tenha acontecido.

Desexistir é mais antigo.

É regressar ao estágio anterior à possibilidade.

É ser apagado antes da tinta.

É morrer antes da hipótese.

Descobri, nesse instante, que a língua portuguesa ainda sofre de excesso de realidade. Existem verbos demais comprometidos com o mundo. Poucos aceitam trabalhar para o impossível.

Passei a inventá-los.

Infinitar.

Abismar.

Silencificar.

Nadear.

Desmemoriar.

Metafisicar.

Vazionomar.

Cada palavra nova arrancava um tijolo invisível da prisão gramatical que chamamos de realidade.

A linguagem começou a ranger.

Os substantivos perderam peso.

Os adjetivos envelheceram de repente.

Os verbos recusaram-se a obedecer ao tempo.

A sintaxe sofreu uma pequena hemorragia ontológica.

O funcionário sorriu.

— Está funcionando.

— O quê?

— O processo de desapessoar.

Perguntei-lhe quanto tempo demoraria.

Ele respondeu:

— Tempo?

Sorriu novamente.

Naquele edifício ninguém utilizava relógios.

Utilizavam erosões.

Cada pensamento retirava uma camada do mundo.

Cada lembrança demolia um corredor do passado.

Cada esperança acrescentava uma janela ao vazio.

Comecei a perceber que as paredes respiravam conceitos.

A palavra “substância” exalava mofo.

“Causalidade” cheirava a papel queimado.

“Essência” tinha gosto de ferrugem molhada.

Quanto ao “eu”, era apenas um casaco esquecido sobre uma cadeira metafísica.

Sempre imaginei que a identidade fosse uma casa.

Descobri que era um contrato de aluguel vencido.

Passei então a caminhar pelos corredores daquele cartório.

Havia gavetas catalogadas sob títulos incompreensíveis:

“Objetos Perdidos Antes de Existirem.”

“Memórias de Pessoas Nunca Nascidas.”

“Silêncios Produzidos por Pedras.”

“Últimos Pensamentos de Deuses Cancelados.”

Abri uma delas.

Dentro havia apenas um vento dobrado cuidadosamente em quatro partes.

Ao tocá-lo, ouvi minha própria voz dizendo uma frase que jamais pronunciara:

“Todo infinito necessita de testemunhas porque, sozinho, ele não consegue acreditar em si mesmo.”

Fechei imediatamente a gaveta.

Não por medo.

Mas porque compreendi que talvez aquela frase estivesse me escrevendo.

Não era eu quem lia a Escritura Pública do Infinito.

Era ela que começava, lenta e impiedosamente, a registrar o desaparecimento daquele que acreditava ser seu leitor.

Depois daquela gaveta, compreendi que toda leitura é uma forma lenta de ser devorado. 

Os livros nunca precisaram de leitores; precisaram apenas de organismos suficientemente ingênuos para acreditar que permaneciam os mesmos depois da última página. Eu já não era o homem que atravessara a porta daquele cartório. Talvez nunca o tivesse sido. 

Talvez aquela recordação fosse um documento falsificado pela nostalgia, essa repartição clandestina onde o passado aprende a mentir com elegância.

Continuei caminhando.

Os corredores já não obedeciam à geometria.

Curvavam-se para dentro de si mesmos como serpentes tentando engolir o próprio conceito. 

As portas davam acesso a salas que continham apenas outras portas.

As escadas terminavam antes do primeiro degrau. 

As janelas olhavam para interiores mais profundos do que qualquer exterior poderia suportar.

Foi então que encontrei o Arquivo das Hipóteses Abortadas.

Ali repousavam todas as possibilidades que o universo recusou antes de fabricar esta realidade provisória.

Havia um mundo onde as pedras sonhavam os homens. Outro em que a morte precisava pedir licença para existir. 

Um terceiro onde a linguagem envelhecia mais rapidamente que seus falantes, obrigando cada geração a inventar uma gramática inteiramente nova para dizer a mesma solidão.

Pensei que fossem fantasias.

Mas imediatamente compreendi que fantasia é apenas o nome que a realidade dá aos mundos que teve medo de experimentar.

Foi quando ouvi um ruído.

Não vinha das paredes.

Nem do teto.

Vinha das palavras.

As palavras estavam rachando.

Cada substantivo começava a perder seus contornos. “Árvore” já não apontava para nenhuma árvore. “Corpo” tornava-se um recipiente vazio. “Memória” dissolvia-se como sal lançado sobre um rio de espelhos.

A linguagem sofria uma ontorragia.

Não havia mais correspondência entre os nomes e as coisas.

Talvez nunca tivesse havido.

Talvez a filosofia inteira tivesse sido construída sobre uma coincidência fonética.

Recordei todos os tratados que buscavam definir essência, substância, verdade, ser.

Sorri.

Que extraordinária ingenuidade.

Durante séculos discutimos o conteúdo das palavras sem perceber que eram as palavras que discutiam secretamente o conteúdo de nós mesmos.

Comecei a sentir pequenas fissuras atravessando minha consciência.

Não era dor.

Era uma espécie de deseu.

O eu descolava lentamente de mim.

Como tinta antiga abandonando uma parede úmida.

Vi minha infância caminhando alguns metros adiante.

Ela não me reconheceu.

Vi meu futuro sentado num banco, alimentando pombos invisíveis.

Também desviou o olhar.

Então compreendi que passado e futuro jamais pertencem ao presente; são apenas vizinhos mal-educados que ocupam terrenos imaginários dentro da cabeça.

Continuei andando.

Mas quem continuava?

A pergunta já não possuía sujeito.

Descobri que a identidade é um vício gramatical.

A primeira pessoa talvez tenha sido o maior erro da linguagem.

O “eu” é apenas um pronome excessivamente otimista.

Inventei outro.

Ø.

Nem eu.

Nem tu.

Nem ele.

Ø.

O pronome do intervalo.

Daquilo que ainda não aconteceu suficiente para existir.

Passei a conjugar o impossível.

Ø desvive.

Ø deslembra.

Ø infinita.

Ø desaparece para dentro.

Os corredores aprovaram.

As paredes tornaram-se líquidas.

O chão começou a escrever pegadas antes que meus pés decidissem caminhar.

Tudo acontecia alguns segundos antes da própria possibilidade.

Era uma realidade premeditada pelo vazio.

No centro do edifício encontrei uma mesa circular.

Sobre ela repousava um espelho coberto por um tecido negro.

Retirei cuidadosamente o pano.

O espelho estava vazio.

Nenhum reflexo.

Nenhuma imagem.

Nenhuma luz.

Olhei demoradamente.

Depois de algum tempo surgiu uma frase escrita do lado de dentro do vidro.

“Quem procura a si mesmo já começou a fabricar o próprio cárcere.”

Afastei-me.

Mas a frase continuou olhando para mim.

Percebi que certas ideias possuem pupilas.

E observam seus autores até depois da morte.

Sentei-me.

Ou talvez tenha sido a cadeira que resolveu acomodar minha ausência.

Já não fazia diferença.

Foi então que compreendi a verdadeira natureza daquele cartório.

Não registrava propriedades.

Nem nascimentos.

Nem casamentos.

Nem óbitos.

Registrava desistências.

Cada documento ali arquivado correspondia ao instante exato em que alguém desistira de compreender o infinito e passara apenas a descrevê-lo.

Toda metafísica era isso.

Uma escritura pública lavrada por testemunhas incapazes de aceitar o silêncio.

Sorri novamente.

Não por felicidade.

Mas porque a ironia é a última articulação que permanece funcionando quando o pensamento sofre falência múltipla dos órgãos.

Olhei minhas mãos.

Os dedos haviam adquirido transparência mineral.

Dentro deles circulavam pequenas letras.

Consoantes caminhavam pelas veias.

Vogais respiravam nos ossos.

Meu sangue transformara-se em sintaxe.

Cada batimento reorganizava um parágrafo invisível.

Meu coração já não bombeava vida.

Bombeava linguagem.

Assustei-me.

Logo depois percebi que sempre fora assim.

Não pensamos porque existimos.

Existimos apenas enquanto alguma frase continua nos escrevendo.

Quando a última palavra termina de pronunciar nosso nome, chamamos esse acontecimento de morte.

Mas talvez seja apenas pontuação.

Talvez Deus nunca tenha criado homens.

Talvez tenha criado apenas vírgulas.

E o universo inteiro não passe de uma oração subordinada cujo verbo principal foi perdido antes da invenção do tempo.

Levantei-me.

Ou fui levantado pela própria ausência.

Ao fundo do corredor surgiu uma porta que não existia alguns instantes antes.

Sobre ela havia apenas uma inscrição.

“Setor de Retificação Ontológica.”

Empurrei lentamente a maçaneta.

Do outro lado não encontrei um quarto.

Encontrei uma página.

Branca.

Infinita.

Esperando.

E pela primeira vez suspeitei que o mundo inteiro talvez fosse apenas a margem de um livro que ainda não começou a ser escrito.

Quando atravessei a página, não fui eu quem entrou.

Foi o branco.

Durante séculos imaginei que o branco fosse uma ausência de escrita.

Descobri, tarde demais, que a escrita é apenas uma doença passageira do branco.

O branco não espera.

O branco mastiga.

Cada passo que eu dava era imediatamente apagado antes de acontecer. 

Não havia pegadas. Havia pré-esquecimentos.

O chão possuía a delicadeza cruel de quem nunca permitiu que nenhuma memória criasse raízes.

Olhei para trás.

O corredor desaparecera.

Olhei para frente.

Também.

Pela primeira vez compreendi que direção é uma superstição espacial.

Os homens inventaram o “adiante” porque tinham medo de admitir que toda caminhada é um círculo desenhado por uma reta delirante.

Não aquele silêncio que sucede um ruído.

Mas outro.

Mais antigo.

O silêncio anterior ao primeiro átomo.

O silêncio que existia antes mesmo da possibilidade da ausência.

Ele aproximou-se lentamente.

Sentou-se diante de mim.

Tinha mãos.

Não possuía rosto.

Nem precisava.

Os rostos são apenas máscaras que o vazio utiliza para conversar consigo mesmo.

— És o infinito? — perguntei.

Ele permaneceu calado.

Compreendi.

Responder seria limitar-se.

Todo nome é uma cerca construída ao redor do indizível.

Durante toda a história da filosofia confundimos definição com aproximação.

Quanto mais precisamente descrevíamos uma coisa, mais distante dela permanecíamos.

As palavras não alcançam.

Circundam.

Toda linguagem é uma órbita.

Jamais um pouso.

Sentei-me diante do silêncio.

Passamos um tempo conversando sem utilizar nenhuma existência.

Foi a conversa mais honesta que já tive.

Depois disso minha respiração começou a desaprender o ar.

Inspirava vazio.

Expirava distância.

Meu corpo tornou-se cada vez mais leve.

Não porque estivesse desaparecendo.

Mas porque finalmente abandonava o peso de acreditar em si mesmo.

Toda identidade é gravidade.

Toda consciência é um excesso de massa.

Todo nome é uma pedra amarrada ao tornozelo daquilo que gostaria de evaporar.

Comecei a perder substância.

Primeiro os ossos.

Depois a memória.

Mais tarde o tempo.

Por último o verbo.

O verbo foi o mais resistente.

Agarrava-se desesperadamente às minhas frases.

Recusava-se a morrer.

Era compreensível.

Os verbos vivem da ilusão de que existe movimento.

Mas o movimento nunca existiu.

Existiu apenas uma lentíssima mudança de perspectiva do imóvel.

Então aconteceu.

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As palavras começaram a abandonar suas funções.

Os substantivos transformaram-se em ventos.

Os adjetivos criaram ferrugem.

Os pronomes emigraram para um idioma mineral.

As vírgulas recusaram-se a separar o que jamais estivera unido.

Os pontos finais fugiram.

Ninguém mais conseguia terminar nenhuma frase.

Nem a realidade.

Observei o universo inteiro sofrer uma gramaticlise.

Era semelhante a uma avalanche.

Mas de sintaxe.

As montanhas perderam seus nomes.

Os oceanos esqueceram a profundidade.

Os relógios começaram a marcar apenas “talvez”.

As árvores floresciam perguntas.

As pedras produziam infância.

Os espelhos refletiam futuros extintos.

Os cadáveres envelheciam para dentro.

As crianças nasciam já saudosas de alguma coisa que nunca aconteceria.

Compreendi, finalmente, que o cosmos inteiro era apenas uma tentativa mal resolvida de conjugar um verbo impossível.

Exister.

Não existir.

Nem deixar de existir.

Exister.

Habitar o intervalo entre duas impossibilidades.

O universo era apenas isso.

Um intervalo pronunciando-se.

Passei a caminhar sobre conceitos.

Pisei na causalidade.

Ela quebrou.

Atravessei a essência.

Era oca.

Toquei a verdade.

Produziu eco.

Encontrei a identidade.

Dormia dentro de um armário cheio de máscaras descartadas.

Nenhuma servia.

Todas eram minhas.

Nenhuma me pertencia.

Foi quando descobri o último departamento daquele cartório.

A sala não possuía paredes.

Nem teto.

Nem chão.

Apenas uma inscrição suspensa.

“Setor de Cancelamento dos Absolutos.”

Entrei.

Sobre uma mesa havia um único documento.

Meu nome aparecia no alto.

Ou aquilo que um dia respondera por mim.

Logo abaixo lia-se:

Objeto do processo:

Revogação definitiva da necessidade de existir.

Assinatura do interessado: ___________

Não havia caneta.

Nem tinta.

Nem testemunhas.

Assinei com o desaparecimento.

No instante seguinte o universo inteiro respirou aliviado.

Como se minha identidade fosse um erro administrativo mantido durante bilhões de anos.

Então tudo começou a apagar-se.

Não em direção ao escuro.

Mas em direção ao impensável.

As estrelas esqueceram como iluminar.

A matemática desaprendeu o número.

O tempo arquivou sua última tarde.

O espaço dobrou cuidadosamente suas distâncias e guardou-as numa gaveta sem interior.

Restou apenas a página.

A primeira.

A mesma.

Ainda em branco.

Percebi, enfim, o segredo da Escritura Pública do Infinito.

Ela jamais registrou aquilo que existe.

Registrava apenas todos os fracassos da linguagem em tentar justificar o fato inexplicável de haver alguma coisa onde talvez bastasse o silêncio.

Fechei o livro.

Ou talvez tenha sido ele quem me fechou.

Desde então ninguém mais encontrou aquele cartório.

Alguns afirmam que nunca existiu.

Outros dizem que continua funcionando em algum lugar entre uma pergunta e outra.

Quanto a mim, já não posso oferecer testemunho.

Porque aquilo que um dia respondeu pelo meu nome foi definitivamente cancelado no registro das possibilidades.

Se estas palavras ainda chegaram até alguém, desconfie.

Talvez você não esteja lendo este conto.

Talvez seja este conto que acaba de protocolar, silenciosamente, a escritura pública do seu próprio infinito.

Clayton Alexandre Zocarato

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Geometria da redenção macabra

Clayton Alexandre Zocarato

Conto: ‘Geometria da redenção macabra’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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“Há homens que procuram a salvação como quem procura uma saída. Outros
descobrem, tarde demais, que a saída era apenas mais um corredor.”
(C. A. Zocarato)

Quando o velho Aristeu completou sessenta e sete anos, decidiu desenhar um quadrado.

Não uma casa.

Não um mapa.

Não um projeto.

Um quadrado.

Passou horas diante da mesa, observando o papel vazio como um sacerdote contempla um altar abandonado. A mão tremia. Os olhos ardiam. 

A vida inteira lhe pesava nos ombros como uma biblioteca construída com pedras.

Finalmente traçou quatro linhas.

Perfeitas.

Quatro limites.

Quatro fronteiras.

Quatro prisões.

Sorriu.

E chorou.

Naquele instante compreendeu algo que a maioria dos homens jamais percebe: toda existência humana é uma tentativa desesperada de desenhar formas geométricas sobre o caos.

O casamento.

A carreira.

A religião.

A moral.

A pátria.

A identidade.

Tudo não passava de linhas imaginárias riscadas sobre um universo que jamais pedira organização.

Você, leitor, talvez não goste dessa ideia.

Talvez prefira acreditar que sua vida possui um centro.

Uma finalidade.

Uma direção.

Mas responda sinceramente:

Quantas vezes você mudou de opinião?

Quantas vezes traiu os próprios princípios?

Quantas vezes chamou de verdade aquilo que depois chamou de erro?

O que mudou?

O mundo?

Ou apenas o desenho que você fazia dele?

Aristeu sabia.

Sabia porque carregava cadáveres dentro da memória.

Não cadáveres físicos.

Piores.

Cadáveres morais.

Os amigos abandonados.

Os amores destruídos.

As covardias justificadas.

As oportunidades assassinadas pela preguiça.

Cada erro era um ponto.

Cada culpa era uma linha.

Cada arrependimento acrescentava um novo ângulo à arquitetura secreta da alma.

Foi então que começou a construir sua geometria.

Durante meses, isolou-se.

Os vizinhos acreditavam que estivesse enlouquecendo.

Talvez estivesse.

Mas existe uma diferença entre o louco e o filósofo.

O louco acredita ter encontrado respostas.

O filósofo descobre perguntas.

E Aristeu estava afogado nelas.

Desenhava círculos.

Triângulos.

Espirais.

Poliedros impossíveis.

Cada figura representava um pecado.

Cada vértice representava uma escollha.

Cada linha simbolizava uma consequência.

Com o tempo percebeu algo perturbador.

Nenhuma figura era perfeita.

Todas possuíam falhas.

Pequenas deformações.

Assim como os seres humanos.

Assim como a própria moral.

Afinal, quem inventou o bem?

Quem definiu o mal?

Quem distribuiu certificados de virtude?

Os vencedores?

Os sacerdotes?

Os políticos?

Os mortos?

Você já pensou nisso?

Ou apenas repetiu as respostas que herdou?

A sociedade produz certezas da mesma forma que uma fábrica produz parafusos.

Em série.

Sem reflexão.

Sem profundidade.

Sem alma.

Aristeu percebeu que havia passado décadas vivendo segundo fórmulas que nunca examinara.

Era um homem educado.

Honesto.

Respeitável.

Mas também era um escravo.

Como quase todos.

Escravo de opiniões.

De expectativas.

De medos.

Principalmente de medos.

Numa madrugada de inverno encontrou um velho livro numa estante esquecida.

As páginas estavam amareladas.

Cheiravam a poeira e fracasso.

Leu uma frase que mudou tudo:

“A redenção não é apagar os erros. É compreendê-los.”

Fechou o livro.

Permaneceu imóvel.

Horas.

Dias.

Talvez anos espirituais tenham passado naquele silêncio.

Porque compreendeu uma verdade aterradora.

A humanidade construiu uma religião da absolvição.

Todos querem ser perdoados.

Ninguém quer ser compreendido.

Nem compreender.

Querem lavar as mãos.

Limpar o currículo moral.

Apagar manchas.

Como crianças que escondem sujeira debaixo do tapete.

Mas o universo não esquece.

A consciência não esquece.

A memória não esquece.

O passado é um arquiteto paciente.

Constrói silenciosamente os corredores pelos quais caminharemos amanhã.

Aristeu então abandonou a busca pelo perdão.

Passou a buscar entendimento.

E foi aí que começou sua redenção macabra.

Macabra porque exigia encarar os monstros.

Não os monstros externos.

Esses são simples.

Os monstros internos.

Os mais perigosos.

A inveja disfarçada de justiça.

A vaidade fantasiada de humildade.

O egoísmo vestido de amor.

A covardia escondida atrás da prudência.

Você conhece esses monstros?

Claro que conhece.

Talvez esteja alimentando um deles agora.

Talvez ele esteja lendo este texto através dos seus olhos.

Aristeu descobriu que o ser humano possui um talento extraordinário para mentir.

Principalmente para si mesmo.

Nenhum mentiroso é tão eficiente quanto a própria consciência tentando preservar sua autoimagem.

A alma fabrica desculpas como uma máquina produz fumaça.

Sem parar.

Sem descanso.

Sem vergonha.

Por isso a verdade é rara.

Ela exige sacrifício.

Exige mutilação.

Exige coragem.

A verdade não conforta.

A verdade opera.

Sem anestesia.

Os anos passaram.

As paredes da casa estavam cobertas por diagramas.

Milhares deles.

Quem entrasse ali acreditaria ter encontrado um laboratório secreto.

E de fato havia encontrado.

O laboratório da condição humana.

Cada figura representava uma conclusão.

Cada conclusão destruía uma ilusão.

Cada ilusão destruída aproximava Aristeu de algo que ele chamava de centro.

Não o centro geométrico.

O centro existencial.

O núcleo obscuro onde habitam nossas contradições.

Foi então que percebeu a maior descoberta de sua vida.

O ser humano não busca felicidade.

Busca distração.

Felicidade exige presença.

Distração exige apenas movimento.

Observe as multidões.

Correndo.

Comprando.

Consumindo.

Postando.

Acumulando.

Competindo.

Fugindo.

Sempre fugindo.

Mas de quê?

Da pobreza?

Da morte?

Do fracasso?

Não.

Fogem do encontro consigo mesmas.

O silêncio tornou-se o último terror moderno.

Porque no silêncio surgem perguntas.

E perguntas são mais perigosas que armas.

Na noite de seu aniversário de setenta anos, Aristeu terminou a obra.

Era uma figura gigantesca.

Formada por milhares de linhas.

Uma estrutura tão complexa que parecia impossível compreendê-la.

No centro havia apenas um ponto.

Um único ponto.

Nada mais.

Nenhuma explicação.

Nenhuma legenda.

Nenhuma resposta.

Apenas um ponto.

Sorriu novamente.

O mesmo sorriso do primeiro quadrado.

Sentou-se diante da figura.

Permaneceu observando-a até o amanhecer.

Então compreendeu.

Toda sua geometria apontava para aquele centro.

Todos os fracassos.

Todas as vitórias.

Todos os arrependimentos.

Tudo convergia para um único lugar.

A consciência.

O tribunal que jamais fecha.

O juiz que jamais dorme.

A testemunha que jamais desaparece.

A verdadeira redenção não estava fora.

Nunca esteve.

Nenhuma instituição poderia concedê-la.

Nenhuma ideologia.

Nenhuma autoridade.

Nenhum guru.

Nenhum profeta.

A redenção nascia quando o homem abandonava a mentira sobre si mesmo.

Somente isso.

Nada mais.

Nada menos.

Na manhã seguinte, os vizinhos encontraram a casa vazia.

Aristeu havia desaparecido.

Nenhuma carta.

Nenhuma despedida.

Nenhum corpo.

Nenhum vestígio.

Somente a imensa figura geométrica cobrindo as paredes.

Durante décadas, estudiosos tentaram interpretá-la.

Fracassaram.

Matemáticos.

Filósofos.

Psicólogos.

Teólogos.

Todos fracassaram.

Porque procuravam respostas.

E a obra não continha respostas.

Continha espelhos.

Quem a observava enxergava apenas a si mesmo.

Como acontece com toda grande filosofia.

Como acontece com toda grande literatura.

Como acontece com a própria vida.

Agora chegamos ao fim desta história.

Ou talvez ao início.

E resta uma pergunta.

A única que realmente importa.

Se sua vida fosse transformada numa figura geométrica, que forma ela teria?

Um círculo de repetições?

Um triângulo de conflitos?

Uma espiral de desejos?

Um labirinto de desculpas?

Ou uma prisão construída pelas próprias mãos?

Pense com cuidado.

Porque um dia todas as linhas que você traçou se encontrarão.

Todos os ângulos convergirão.

Todas as máscaras cairão.

E quando isso acontecer, não haverá público.

Não haverá aplausos.

Não haverá seguidores.

Não haverá títulos.

Não haverá currículos.

Não haverá narrativas.

Apenas você.

E o ponto central.

O núcleo silencioso daquilo que realmente foi.

A geometria da redenção macabra começa exatamente aí:

No instante em que o homem percebe que passou a vida inteira tentando escapar de si mesmo, e descobre, tarde demais, que era justamente para dentro de si que todos os caminhos apontavam.

Clayton Alexandre Zocarato

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Manual de propriedade do nada

Clayton Alexandre Zocarato

‘Manual de propriedade do nada’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O primeiro artigo deste manual estabelece que o nada não pode ser possuído

O segundo corrige o primeiro e informa que tudo aquilo que não pode ser possuído desperta imediatamente o desejo de posse. 

O terceiro artigo revoga os anteriores e declara que a propriedade é apenas uma ficção criada pelo medo de desaparecer. O restante deste documento consiste na lenta assinatura de um contrato invisível entre o ser e o vazio.

No início havia apenas uma pequena rachadura.

Nada dramático.

Uma fissura discreta atravessando o pensamento como uma linha de ferrugem sobre uma lâmina antiga. 

Não era tristeza. 

Não era desespero. Era apenas a sensação de que todas as coisas estavam ligeiramente deslocadas de si mesmas. 

As palavras já não coincidiam com os objetos. 

Os espelhos refletiam superfícies, mas não devolviam identidades. 

Os dias surgiam iguais uns aos outros como páginas impressas por uma máquina cansada.

Foi então que apareceu a escritura.

Nenhuma assinatura era exigida.

Nenhuma testemunha.

Nenhum cartório.

O documento já estava assinado desde sempre.

O ser apenas descobria, tarde demais, que seu nome habitava aquelas cláusulas.

A primeira delas era simples:

“Concede-se ao proprietário o direito irrestrito de cultivar ausências.”

E as ausências começaram a crescer.

Primeiro como ervas daninhas entre os pensamentos.

Depois como árvores.

Depois como florestas inteiras.

A paisagem interior tornou-se um território de corredores vazios. As ideias passaram a ecoar sem encontrar paredes.

As perguntas reproduziam-se em velocidade assustadora, enquanto as respostas desapareciam como pássaros migratórios que jamais regressam.

O vazio intelectual não chegou como ignorância.

Chegou como excesso.

Excesso de informação.

Excesso de ruído.

Excesso de opiniões.

Uma avalanche de palavras cobrindo lentamente o significado das coisas.

Bibliotecas inteiras foram transformadas em desertos.

Os livros permaneciam sobre as estantes, mas já não eram lidos.

As frases permaneciam sobre as páginas, mas já não eram compreendidas.

O pensamento converteu-se numa fábrica de repetições.

Produzia reflexões em série.

Embalava conceitos.

Vendia certezas.

Distribuía convicções prontas para consumo.

E, ao final de cada expediente, recolhia cuidadosamente qualquer vestígio de dúvida.

O nada sorria.

Era um proprietário paciente.

Nunca exigia pagamento imediato.

Preferia os juros.

Acumulava pequenas parcelas de desistência.

Uma renúncia hoje.

Outra amanhã.

Uma reflexão abandonada.

Uma pergunta esquecida.

Uma inquietação silenciada.

Até que o território inteiro passasse para seu domínio.

Então veio a segunda cláusula.

“Concede-se ao proprietário o direito de transformar relações em superfícies.”

E o vazio social iniciou sua expansão.

As vozes multiplicaram-se.

As conversas desapareceram.

As multidões aumentaram.

Os encontros tornaram-se raros.

Jamais houvera tantas janelas abertas para o mundo.

Jamais houvera tantos quartos fechados por dentro.

A comunicação tornou-se uma ponte construída apenas até a metade do rio.

Os gestos perderam profundidade.

Os abraços passaram a tocar apenas tecidos.

Os olhares atravessavam rostos sem encontrar presença.

Todos pareciam próximos.

Ninguém realmente chegava.

O ser começou a colecionar contatos como quem coleciona sombras.

Milhares de nomes.

Milhares de imagens.

Milhares de ecos.

Nenhuma companhia.

A solidão já não era ausência de pessoas.

Era ausência de significado.

Era uma praça lotada de estátuas.

Um mercado repleto de fantasmas.

Uma festa onde cada convidado conversava exclusivamente com seu próprio reflexo.

O nada ampliava seus domínios.

Silenciosamente.

Metodicamente.

Sem violência.

Como a ferrugem.

Como a poeira.

Como a noite.

Depois surgiu a terceira cláusula.

A mais extensa.

A mais perigosa.

“Concede-se ao proprietário o direito de substituir valores por conveniências.”

E o vazio moral encontrou terreno fértil.

As palavras virtude, honra, compromisso e responsabilidade tornaram-se objetos arqueológicos.

Peças de museu.

Relíquias de uma civilização esquecida.

Tudo passou a ser medido por utilidade.

Tudo passou a ser calculado por vantagem.

Tudo passou a ser avaliado por rentabilidade.

O bem deixou de ser uma direção.

Transformou-se numa estratégia.

A verdade deixou de ser uma busca.

Transformou-se numa ferramenta.

A consciência deixou de ser uma voz.

Transformou-se num ruído de fundo facilmente ajustável.

O ser observava tudo isso sem perceber que assinava novas páginas do contrato.

Cada concessão parecia insignificante.

Cada renúncia parecia temporária.

Cada acomodação parecia razoável.

Mas o nada era um colecionador de fragmentos.

Sabia que montanhas são feitas de grãos.

Sabia que abismos começam como rachaduras.

Sabia que desertos nascem da morte lenta de pequenas fontes.

O contrato crescia.

As páginas multiplicavam-se.

As cláusulas estendiam-se para além do horizonte.

E o proprietário do nada tornava-se cada vez mais rico.

Até que chegou o momento inevitável.

A vistoria.

O ser caminhou pelos corredores da própria existência.

Abriu portas.

Examinou gavetas.

Percorreu arquivos.

Investigou memórias.

Procurou algo que ainda lhe pertencesse.

Encontrou apenas espaços vazios.

As estantes estavam intactas.

Mas os livros haviam desaparecido.

As molduras permaneciam nas paredes.

Mas as imagens haviam evaporado.

Os relógios continuavam funcionando.

Mas o tempo já não acontecia.

Tudo estava presente.

Nada existia.

Foi então que compreendeu a natureza da propriedade.

Jamais possuíra o nada.

Era o nada quem o possuía.

A escritura sempre estivera invertida.

O proprietário era a propriedade.

O senhor era o terreno.

O dono era a mercadoria.

A assinatura no final do contrato não representava uma conquista.

Representava uma rendição.

E naquele instante surgiu uma pergunta.

Talvez a última pergunta.

Talvez a única pergunta verdadeira.

Se o nada podia ser proprietário de tudo, o que existiria além dele?

Nenhuma resposta apareceu.

Apenas silêncio.

Um silêncio vasto.

Profundo.

Antigo.

Mas pela primeira vez esse silêncio não parecia vazio.

Parecia possibilidade.

Como um campo antes da semeadura.

Como uma página antes da escrita.

Como uma madrugada antes do primeiro pássaro.

Talvez o nada não fosse apenas destruição.

Talvez fosse também um espelho.

Um lugar onde todas as ilusões de posse terminam.

Um tribunal onde todas as propriedades são revogadas.

Uma fronteira onde o ser descobre que jamais possuiu coisa alguma.

Nem riquezas.

Nem ideias.

Nem pessoas.

Nem tempo.

Nem a si mesmo.

E ao compreender isso, algo inesperado aconteceu.

O contrato começou a desaparecer.

As cláusulas dissolveram-se.

As assinaturas tornaram-se poeira.

Os selos evaporaram.

As páginas transformaram-se em vento.

Restou apenas a existência.

Nua.

Sem títulos.

Sem escrituras.

Sem garantias.

Sem proprietários.

Sem propriedade.

Diante da imensidão silenciosa do universo, o ser finalmente compreendeu que a liberdade talvez começasse exatamente onde terminava a posse.

E que o verdadeiro Manual de Propriedade do Nada continha apenas uma frase escrita em letras invisíveis:

“Aquilo que tenta possuir o vazio acaba descobrindo que era o vazio quem o possuía desde o princípio.

Mas a revelação não trouxe conforto.

A liberdade, quando surge depois de uma vida inteira de servidão invisível, possui a textura do abismo. 

Não há celebração na descoberta de que todas as muralhas eram imaginárias. Não há júbilo imediato quando se percebe que os alicerces sobre os quais se ergueu uma existência inteira foram construídos sobre névoa.

O ser permaneceu diante daquele horizonte sem nome.

Já não havia contratos.

Já não havia cláusulas.

Já não havia o nada como proprietário.

Mas também não existiam as antigas referências.

Era como despertar em uma cidade cujos mapas haviam sido queimados durante a noite.

As ruas continuavam lá.

As construções permaneciam de pé.

Entretanto, nenhum caminho conduzia a lugar algum conhecido.

E foi nesse instante que surgiu o mais profundo dos vazios.

Não o vazio da ausência.

Mas o vazio da possibilidade.

Não o vazio da perda.

O espaço aberto.

A página em branco.

A vertigem de quem descobre que não existe um destino previamente desenhado.

Durante muito tempo o ser acreditara que sua angústia vinha da falta de sentido.

Agora compreendia algo mais inquietante.

O sentido nunca estivera ausente.

Apenas jamais fora entregue pronto.

Era necessário construí-lo.

Pedra por pedra.

Pergunta por pergunta.

Fracasso por fracasso.

E essa tarefa parecia mais pesada do que carregar qualquer corrente.

Ao redor, o mundo continuava funcionando com sua habitual maquinaria de distrações.

Mercados vendiam felicidade embalada.

Discursos prometiam respostas definitivas.

Doutrinas ofereciam atalhos para a eternidade.

Ideologias distribuíam identidades prontas.

Tudo parecia convidar novamente para a velha assinatura.

Tudo parecia dizer:

“Retorne ao contrato.”

“Entregue outra vez sua inquietação.”

“Troque sua liberdade por uma explicação confortável.”

Mas o ser já conhecia o preço.

Sabia que toda certeza absoluta escondia uma pequena cláusula escrita em letras microscópicas.

Sabia que todo dogma carregava consigo uma cerca.

Sabia que toda prisão começa oferecendo proteção.

Então permaneceu imóvel.

Escutando.

Observando.

Esperando.

E no centro daquele silêncio começou a perceber algo estranho.

Muito estranho.

O nada não havia desaparecido completamente.

Continuava ali.

Mas sua forma era diferente.

Antes era um proprietário.

Agora era apenas espaço.

Antes era cárcere.

Agora era horizonte.

Antes era ausência de significado.

Agora era possibilidade de criação.

A diferença parecia mínima.

Entretanto continha universos inteiros.

Uma folha em branco pode ser uma condenação para quem espera respostas.

Mas pode ser também uma promessa para quem deseja escrever.

O mesmo vazio.

Dois destinos.

Dois olhares.

Duas interpretações.

Foi então que o ser compreendeu a natureza secreta do abismo.

Durante toda a existência acreditara que estava olhando para dentro dele.

Na verdade, era o abismo que olhava para dentro dele.

E tudo o que enxergava refletido em suas profundezas eram as próprias renúncias.

As desistências.

Os medos.

As acomodações.

As máscaras cuidadosamente colecionadas ao longo dos anos.

O vazio jamais fora um inimigo.

Apenas um espelho radical.

Um espelho incapaz de mentir.

Um espelho que removia todos os adornos.

Todas as justificativas.

Todas as ficções.

Diante dele, restava apenas aquilo que realmente existia.

Ou aquilo que realmente não existia.

O ser então caminhou.

Sem direção definida.

Sem roteiro.

Sem garantias.

Cada passo parecia inaugurar o mundo pela primeira vez.

As coisas tornaram-se novamente estranhas.

Eram familiares e desconhecidas ao mesmo tempo.

Uma árvore já não era apenas uma árvore.

Era um milagre biológico flutuando entre a terra e o céu.

Uma pedra já não era apenas uma pedra.

Era uma memória mineral atravessando milênios.

Uma respiração já não era apenas um reflexo.

Era uma negociação permanente entre o corpo e o infinito.

Tudo adquiria uma intensidade esquecida.

Como se a realidade estivesse sendo devolvida ao seu estado original.

Como se o excesso de explicações tivesse finalmente saído do caminho.

O ser percebeu que o vazio intelectual havia nascido quando deixou de admirar.

O vazio social havia crescido quando deixou de escutar.

O vazio moral havia prosperado quando deixou de responsabilizar-se por suas escolhas.

Nenhum deles surgiu de uma única vez.

Foram sedimentações lentas.

Camadas.

Poeira acumulada sobre a consciência.

E talvez a reconstrução também precisasse ocorrer lentamente.

Sem milagres.

Sem revelações grandiosas.

Sem promessas de redenção.

Apenas através de pequenos gestos.

Uma pergunta verdadeira.

Uma conversa sincera.

Uma leitura realizada sem pressa.

Um pensamento levado até suas últimas consequências.

Uma recusa em aceitar respostas fáceis.

Uma coragem silenciosa para permanecer humano em um mundo que frequentemente recompensa a superficialidade.

O nada continuava existindo.

Sempre continuaria.

Porque o nada é a sombra inevitável de toda existência.

Onde há ser, há possibilidade de não-ser.

Onde há significado, há possibilidade de vazio.

Onde há construção, há possibilidade de ruína.

Mas essa descoberta já não provocava terror.

Produzia humildade.

O ser percebeu que viver talvez não consistisse em derrotar o nada.

Ninguém derrota o nada.

Nenhuma filosofia.

Nenhuma religião.

Nenhuma ciência.

Nenhum império.

Todos terminam encontrando-o em alguma esquina do tempo.

Talvez viver significasse apenas atravessá-lo.

Reconhecê-lo.

Dialogar com ele.

Sem entregar-lhe a escritura da própria alma.

Sem permitir que se tornasse proprietário daquilo que ainda pulsa.

E assim, diante de uma existência que permanecia sem garantias, sem explicações finais e sem manuais definitivos, o ser compreendeu a última ironia.

O verdadeiro proprietário do nada não era aquele que o possuía.

Era aquele que aceitava sua presença sem tornar-se seu escravo.

Porque somente quem aprende a caminhar ao lado do vazio consegue impedir que ele ocupe todos os cômodos da casa.

E enquanto o universo prosseguia expandindo-se em silêncio entre galáxias indiferentes, estrelas moribundas e futuros inimagináveis, uma pequena centelha persistia.

Frágil.

Quase invisível.

Mas real.

A centelha da consciência.

A capacidade de perguntar.

De criar.

De negar.

De escolher.

De resistir.

E talvez fosse exatamente isso que nenhuma escritura do nada jamais conseguiria confiscar por completo.

Pois enquanto houver uma única pergunta atravessando a escuridão, uma única inquietação recusando o conforto das respostas prontas, uma única consciência disposta a contemplar o abismo sem entregar-se a ele, o contrato permanecerá incompleto.

E o nada, por mais vasto que seja, continuará encontrando diante de si a única propriedade que jamais poderá registrar em cartório algum: a liberdade inquieta de existir.

Clayton Alexandre Zocarato

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Topografia da ausência

Clayton Alexandre Zocarato: Ensaio Filosófico ‘Topografia da ausência’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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A primeira coisa que desapareceu não foi uma pessoa, nem um objeto, nem uma lembrança. Foi uma certeza.

Talvez você conheça essa sensação. Talvez não. Talvez esteja lendo estas linhas acreditando que ainda habita um mundo sólido, composto de fatos, identidades e significados estáveis. Mas responda com sinceridade: quantas das coisas que você chama de suas realmente permanecem? Quantas sobreviveram intactas à passagem dos anos? Quantas resistiram à lenta erosão do tempo?

A ausência começa assim.

Não como um acontecimento.

Como uma infiltração.

Ela entra pelos cantos invisíveis da existência e, pouco a pouco, corrói aquilo que parecia definitivo. Primeiro leva os rostos. Depois as vozes. Mais tarde os motivos. Por fim, quando já não resta quase nada, leva também as perguntas.

Foi numa dessas regiões silenciosas da vida que alguém despertou certa manhã e percebeu que havia esquecido uma coisa fundamental. Não sabia exatamente o quê. Talvez um acontecimento. Talvez um sentimento. Talvez a si mesmo.

Levantou-se e caminhou pela casa.

As paredes estavam onde sempre estiveram. As janelas continuavam abertas para a mesma rua. 

Os móveis guardavam a mesma disposição de décadas. Entretanto, tudo parecia deslocado por uma distância impossível de medir. Como se os objetos tivessem emigrado para dentro de si próprios.

Já aconteceu com você?

Olhar para uma fotografia antiga e sentir que a pessoa retratada é uma desconhecida?

Entrar no quarto onde passou a infância e perceber que as memórias não moram mais ali?

Ou pior: perceber que talvez nunca tenham morado.

Existe uma diferença profunda entre recordar e inventar. Contudo, quem é capaz de determinar onde termina uma coisa e começa a outra?

A memória é uma ficção escrita pelo sobrevivente.

E o sobrevivente é sempre suspeito.

Ao longo daquele dia, a sensação cresceu.

Havia uma ausência espalhada pelos cômodos.

Não a ausência de alguém específico.

A ausência daquilo que tornava todas as presenças possíveis.

Sentou-se diante da janela.

Lá fora, as pessoas atravessavam a rua carregando sacolas, compromissos, preocupações, destinos. Pareciam saber para onde iam. Pareciam compreender a lógica secreta que organiza a realidade.

Mas será que compreendiam?

Ou apenas repetiam movimentos herdados?

Quantas vidas são realmente vividas?

Quantas são apenas administradas?

Você já se perguntou isso?

Ou prefere continuar acreditando que existir e viver são sinônimos?

A tarde avançou lentamente.

O sol deslizava pelos telhados como uma moeda gasta rolando sobre uma mesa infinita.

Talvez a ausência não fosse uma falha da existência.

Talvez fosse sua arquitetura.

Talvez tudo o que existe estivesse construído sobre aquilo que falta.

O desejo nasce da ausência.

A esperança nasce da ausência.

A linguagem nasce da ausência.

Até o amor talvez seja apenas uma tentativa desesperada de preencher um espaço que jamais poderá ser preenchido.

Pense nisso.

Se fôssemos completos, amaríamos?

Se nada nos faltasse, desejaríamos?

Se estivéssemos inteiros, procuraríamos alguém?

Talvez não.

Talvez o ser humano seja apenas uma ferida que aprendeu a falar.

A noite chegou.

E com ela vieram os corredores.

Não os corredores da casa.

Os corredores da consciência.

Aqueles lugares escuros onde pensamentos esquecidos continuam andando de um lado para o outro como prisioneiros que perderam a memória do crime.

Lá dentro existiam portas.

Milhares delas.

Atrás de algumas havia lembranças.

Atrás de outras havia arrependimentos.

Muitas escondiam futuros que nunca aconteceram.

Você guarda quantos futuros mortos dentro de si?

Quantas versões da sua vida foram abandonadas pelo caminho?

Quantas cidades você não conheceu?

Quantas palavras não disse?

Quantos amores não viveu?

Há cemitérios inteiros dentro de cada pessoa.

Mas ninguém fala deles.

Porque o mundo prefere celebrar as realizações.

A ausência não vende livros de autoajuda.

A ausência não produz heróis.

A ausência não cabe nos discursos motivacionais.

Entretanto, ela está em toda parte.

Ela mora atrás dos olhos.

Respira entre duas frases.

Habita os espaços vazios das fotografias.

Talvez esteja lendo este texto junto com você.

Talvez seja ela quem move seus olhos neste exato instante.

A madrugada avançava.

O silêncio tornava-se cada vez mais espesso.

Então aconteceu algo estranho.

As paredes começaram a desaparecer.

Não fisicamente.

Metafisicamente.

Como se perdessem sua função.

Como se deixassem de separar dentro e fora.

Eu e mundo.

Sujeito e objeto.

Tudo parecia dissolver-se numa espécie de névoa ontológica.

Quem observava?

Quem era observado?

Onde terminava a consciência?

Onde começava a realidade?

As perguntas se multiplicavam.

Mas nenhuma resposta surgia.

E talvez fosse melhor assim.

As respostas costumam ser túmulos prematuros para perguntas importantes.

A humanidade construiu religiões para responder.

Construiu filosofias para responder.

Construiu ideologias para responder.

Entretanto, séculos depois, continua sentada diante do mesmo abismo.

Mudaram apenas os nomes.

O vazio permaneceu.

Você consegue suportar essa ideia?

A possibilidade de que não exista uma explicação final?

De que o universo não esconda uma mensagem secreta?

De que talvez o sentido não esteja esperando para ser encontrado?

Talvez precise ser inventado.

Ou talvez nem isso.

Talvez a obsessão pelo sentido seja apenas mais uma forma de medo.

Medo da ausência.

Medo do silêncio.

Medo daquilo que permanece quando todas as narrativas desmoronam.

Perto do amanhecer, surgiu uma visão.

Uma paisagem imensa.

Sem árvores.

Sem rios.

Sem montanhas.

Uma extensão infinita composta exclusivamente de vazios.

Como um mapa.

Uma cartografia do que não existe.

Uma topografia da ausência.

E então tornou-se evidente.

A vida inteira havia sido passada tentando preencher aqueles espaços.

Com trabalho.

Com dinheiro.

Com relacionamentos.

Com crenças.

Com memórias.

Com distrações.

Mas os espaços permaneciam.

Porque não haviam sido feitos para ser preenchidos.

E sim habitados.

Há uma diferença enorme entre eliminar o vazio e aprender a viver dentro dele.

A maioria das pessoas passa a existência inteira fugindo.

Correndo de compromisso em compromisso.

De tela em tela.

De ruído em ruído.

Como se o silêncio fosse um predador.

Como se a solidão fosse uma doença.

Como se a ausência fosse um erro.

Mas e se ela não for?

E se a ausência for justamente aquilo que nos torna humanos?

E se ela for o espaço onde nasce a liberdade?

Porque somente quem não está completo pode escolher.

Somente quem não está terminado pode transformar-se.

Somente quem não possui todas as respostas pode continuar procurando.

O sol começou a nascer.

Uma luz pálida atravessou a janela.

Nada havia mudado.

A casa continuava a mesma.

A rua permanecia igual.

Os objetos estavam onde sempre estiveram.

Entretanto, alguma coisa havia se deslocado.

Talvez a compreensão.

Talvez a ilusão.

Talvez apenas a forma de olhar.

A ausência continuava ali.

Mas agora possuía relevo.

Possuía profundidade.

Possuía geografia.

Já não era um inimigo.

Era uma paisagem.

E toda paisagem exige contemplação.

Você também carrega a sua.

Talvez a esconda atrás das tarefas diárias.

Talvez a disfarce com palavras bonitas.

Talvez a cubra com sucessos, projetos e promessas.

Mas ela está aí.

Esperando.

Não para ser vencida.

Não para ser curada.

Não para ser preenchida.

Esperando para ser reconhecida.

Porque, no final de todas as jornadas, depois que os amores partem, depois que os sonhos envelhecem, depois que os nomes desaparecem das lápides e as fotografias perdem suas cores, resta uma pergunta simples e terrível.

Quem somos quando tudo aquilo que nos definia se ausenta?

Talvez você passe a vida inteira procurando a resposta.

Talvez nunca a encontre.

Mas talvez a verdadeira questão não seja encontrar.

Talvez seja aprender a caminhar.

Atravessar os desertos interiores.

Escutar os ecos.

Habitar os vazios.

Ler os contornos invisíveis daquilo que falta.

E reconhecer, enfim, que a existência não é um território de presenças.

E, ainda assim, a travessia não termina quando se reconhece a paisagem.

Este é o engano mais antigo da consciência.

Acreditar que compreender uma ferida equivale a cicatrizá-la.

Não equivale.

Há conhecimentos que não libertam. Há revelações que apenas ampliam a extensão do horizonte. E todo horizonte ampliado carrega consigo uma quantidade ainda maior de desconhecido.

Foi isso que se descobriu depois.

A ausência não era apenas uma região da existência.

Era também um método.

Uma linguagem.

Uma forma pela qual o próprio real se manifestava.

Observe uma árvore.

Você dirá que ela existe porque vê seu tronco, seus galhos, suas folhas. Mas o que permite à árvore ser árvore não é apenas aquilo que aparece. São também os espaços invisíveis entre as raízes e a terra, entre as folhas e o vento, entre a matéria e o tempo.

Observe uma casa.

O que a torna habitável não são os tijolos.

São os vazios entre os tijolos.

Os corredores.

As portas.

As janelas.

Os espaços que podem ser atravessados.

Talvez o mesmo aconteça com a vida.

Talvez aquilo que somos não esteja contido apenas nas presenças que acumulamos, mas nos vazios que conseguimos sustentar sem desmoronar.

Você já pensou nisso?

Talvez sua identidade não seja formada pelas certezas que possui.

Talvez seja formada pelas ausências que aprendeu a carregar.

Há pessoas que nunca se recuperam de uma perda.

Não porque a perda seja insuportável.

Mas porque construíram a própria existência sobre a ilusão da permanência.

E nada permanece.

Nem mesmo esta frase.

No instante em que você a lê, ela já pertence ao passado.

No instante em que compreende seu significado, ela já começou a desaparecer.

Tudo escapa.

Tudo flui.

Tudo abandona silenciosamente aquilo que foi.

Talvez seja por isso que o ser humano inventou monumentos.

Livros.

Arquivos.

Museus.

Fotografias.

Não para preservar o passado.

Mas para negociar com o desaparecimento.

Toda memória é um tratado diplomático assinado com o esquecimento.

Toda lembrança é uma tentativa de retardar o inevitável.

Mas o inevitável possui uma paciência infinita.

Ele espera.

Sempre espera.

Há algo profundamente perturbador nisso.

O fato de que o universo não precisa nos destruir.

Basta aguardar.

O tempo faz o restante.

As cidades afundam.

Os idiomas morrem.

As civilizações tornam-se notas de rodapé.

Os amores transformam-se em nomes que ninguém mais pronuncia.

E até os deuses, quando esquecidos, acabam desaparecendo.

Você percebe a dimensão desse silêncio?

Pense em todas as pessoas que viveram antes de você.

Bilhões.

Respiraram.

Amaram.

Sofreram.

Planejaram futuros.

Temeram a morte.

Contemplaram o céu.

E agora?

Onde estão?

Talvez em lugar algum.

Talvez apenas nesta pergunta.

Talvez a verdadeira morada dos mortos não seja a terra.

Mas a ausência.

E talvez seja exatamente por isso que a ausência provoque tanto medo.

Porque ela nos lembra de nossa condição transitória.

Ela desmonta a fantasia da centralidade.

Mostra que não somos o centro da história.

Nem mesmo da nossa própria história.

Quantas decisões que moldaram sua vida foram realmente suas?

Quantos desejos nasceram em você?

Quantos foram herdados?

Quantos medos pertencem verdadeiramente à sua experiência?

Quantos foram transmitidos como uma herança invisível?

Existe uma estranha arrogância em acreditar que somos inteiramente autores de nós mesmos.

Talvez sejamos mais parecidos com ruínas em construção.

Fragmentos sobre fragmentos.

Vestígios sobre vestígios.

Ausências empilhadas umas sobre as outras.

E, mesmo assim, continuamos procurando uma essência.

Uma verdade definitiva.

Um núcleo imóvel.

Como arqueólogos procurando um centro que talvez nunca tenha existido.

Mas imagine, por um momento, que não exista centro algum.

Imagine que a identidade seja apenas movimento.

Imagine que o eu não passe de uma narrativa provisória que contamos para suportar a vertigem.

O que aconteceria?

Você se sentiria livre?

Ou aterrorizado?

Porque a liberdade absoluta possui algo em comum com o abismo.

Ambos eliminam os corrimãos.

Ambos exigem responsabilidade.

Ambos retiram os mapas.

Talvez seja por isso que tantas pessoas preferem as prisões invisíveis.

Elas oferecem conforto.

Oferecem direção.

Oferecem a ilusão de estabilidade.

É mais fácil viver dentro de uma resposta equivocada do que atravessar uma pergunta verdadeira.

No entanto, a ausência continua trabalhando.

Pacientemente.

Ela remove máscaras.

Desgasta convicções.

Enfraquece dogmas.

Até que um dia o indivíduo se encontre diante de si mesmo sem os adornos habituais.

Sem títulos.

Sem funções.

Sem aplausos.

Sem testemunhas.

Apenas consciência.

Apenas silêncio.

Apenas o eco da própria finitude.

E então surge a questão que ninguém consegue evitar para sempre.

O que fazer com o tempo que resta?

Não o tempo abstrato.

Não o tempo filosófico.

Mas o tempo concreto.

Os dias limitados.

As manhãs numeradas.

As noites contáveis.

O estoque invisível de horas que diminui enquanto você lê estas palavras.

O que fazer com isso?

Acumular?

Competir?

Consumir?

Esquecer?

Esperar?

Ou viver?

Mas o que significa viver?

Porque viver não parece ser apenas existir.

As pedras existem.

Os planetas existem.

As máquinas existem.

Viver talvez seja outra coisa.

Talvez seja a capacidade de olhar para o vazio sem fugir imediatamente dele.

Talvez seja suportar a consciência da perda sem transformar a vida em ressentimento.

Talvez seja aprender que o sentido não está escondido em algum lugar distante, aguardando descoberta, mas emerge brevemente nos encontros, nos gestos, nas contemplações e nos instantes que se recusam a durar.

Instantes.

Apenas isso.

Talvez toda a eternidade humana esteja contida em alguns instantes.

Um olhar.

Uma palavra.

Um silêncio compartilhado.

Uma tarde esquecida.

Um céu observado sem motivo.

E então a ausência ganha um significado inesperado.

Porque sem ela nada teria valor.

Se tudo permanecesse para sempre, nada seria precioso.

Se nada pudesse ser perdido, nada mereceria ser amado.

A finitude não é apenas uma condenação.

É também aquilo que confere intensidade à experiência.

Aquilo que transforma um momento comum em algo irrepetível.

Aquilo que faz do amor mais do que hábito.

Aquilo que faz da despedida mais do que distância.

Aquilo que faz da existência mais do que mera permanência.

Talvez seja este o último relevo da topografia da ausência.

A descoberta de que o vazio não está diante de nós.

Está dentro de tudo.

Dentro da beleza.

Dentro da memória.

Dentro do desejo.

Dentro da esperança.

E talvez até dentro da felicidade.

Não como uma falha.

Mas como sua condição de possibilidade.

Porque tudo aquilo que amamos carrega em si a promessa do desaparecimento.

E exatamente por isso amamos.

No fim, quando todas as explicações se recolhem e as teorias perdem a voz, resta apenas a paisagem.

Uma vasta paisagem de presenças transitórias atravessando ausências infinitas.

E você continua caminhando.

Sem respostas definitivas.

Sem garantias.

Sem mapas confiáveis.

Mas caminhando.

Talvez seja isso o que significa existir.

Não conquistar o território.

Não decifrar o mistério.

Não preencher o vazio.

Mas seguir adiante, consciente de que cada passo é desenhado sobre o solo instável daquilo que falta.

E aceitar que, entre o nascimento e o esquecimento, toda vida humana não passa de uma breve inscrição traçada sobre a superfície móvel da ausência — uma escrita frágil que o tempo lentamente apaga, mas que, enquanto existe, ilumina por um instante a escuridão insondável do ser.

Clayton Alexandre Zocarato

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Financiamento do abismo

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘Financiamento do abismo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/6a199272-57b8-83e9-b14a-eac43d0201db
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6a199272-57b8-83e9-b14a-eac43d0201db

O banco funcionava dentro de uma catedral submersa. As colunas eram feitas de vértebras humanas empilhadas como mármore antigo, e os caixas eletrônicos respiravam lentamente, como animais adormecidos no fundo do oceano. 

Todas as manhãs, Augusto atravessava o grande salão inundado por uma luz azulada que parecia vir de um céu afogado e sentava-se diante de sua mesa, onde carimbava contratos invisíveis para pessoas sem rosto.

Ninguém sabia exatamente o que o banco financiava. Alguns diziam que eram sonhos interrompidos. Outros acreditavam que eram memórias falsas implantadas em idosos solitários. 

Havia ainda quem jurasse que os empréstimos serviam para manter viva uma criatura enterrada sob a cidade, algo tão antigo que nem possuía nome, apenas fome.

Augusto jamais perguntou.

Há muito tempo aprendera que perguntas criam corredores. E corredores levam a portas. E portas, inevitavelmente, revelam espelhos.

Seu trabalho consistia em analisar pedidos de crédito enviados por pessoas que desejavam comprar pequenas eternidades: juventude provisória, amores artificiais, filhos obedientes, silêncio interior, esquecimento seletivo, reconhecimento social, sensação de pertencimento. O banco oferecia tudo. Parcelava a alma em até quarenta anos.

Naquela terça-feira chuvosa — embora nunca chovesse dentro da cidade subterrânea — Augusto recebeu um envelope preto sem remetente. Ao abri-lo, encontrou apenas uma frase escrita com letras tortas:

“Seu financiamento foi aprovado.”

Ele sentiu um frio percorrer o corpo.

Não se lembrava de ter solicitado nada.

Passou o resto do dia tentando ignorar o envelope, mas a frase parecia crescer sobre a mesa como fungo úmido.

Ao final do expediente, percebeu que os demais funcionários haviam desaparecido. As cadeiras estavam vazias. Os relógios giravam ao contrário. Um odor de terra molhada invadia o salão.

Foi então que ouviu os passos.

Lentos.

Moles.

Como pés descalços caminhando sobre órgãos vivos.

Do corredor principal surgiu uma mulher extremamente magra vestida de branco. Seus cabelos arrastavam-se pelo chão como raízes procurando cadáveres. O rosto era familiar, embora Augusto não conseguisse lembrar de onde.

— Você atrasou muitas parcelas — disse ela.

— Eu não fiz empréstimo algum.

A mulher sorriu.

Seu sorriso possuía dentes demais.

— Todos fazem.

Ela colocou sobre a mesa um enorme contrato encadernado em pele escura.

Na capa lia-se:

CONTRATO DE EXISTÊNCIA

Augusto tentou rir, mas sua garganta produziu apenas um ruído metálico.

A mulher abriu o documento.

Cada página continha momentos de sua vida.

Seu nascimento.

Seu primeiro medo.

A tarde em que o pai o abandonou num posto de gasolina durante quarenta minutos apenas para lhe ensinar “autonomia”.

O cachorro morto encontrado na infância.

A primeira masturbação.

O cheiro do quarto da mãe durante a depressão.

O instante exato em que percebeu que envelheceria.

Tudo registrado.

Tudo assinado.

— Isso é impossível.

— Não — respondeu ela. — Impossível é existir gratuitamente.

A mulher explicou que todos os seres humanos nasciam endividados. O simples ato de respirar já gerava juros. Cada desejo produzia uma taxa adicional. O sofrimento acumulava correção monetária. O medo de morrer era a principal garantia do sistema.

— E quem criou isso?

Ela inclinou a cabeça.

— Vocês.

O salão pareceu expandir-se ao infinito.

Augusto sentiu as paredes respirarem.

A mulher desapareceu.

No lugar dela surgiu uma porta vermelha no centro do banco.

Uma porta que antes não existia.

Augusto sabia que não deveria abri-la.

Mas certas portas começam a nos abrir antes mesmo de serem atravessadas.

Ele girou a maçaneta.

Do outro lado havia um hospital abandonado.

As paredes estavam cobertas por fotografias de pessoas dormindo. Algumas sorriam. Outras choravam durante o sono. O chão era feito de água rasa, e peixes pequenos nadavam entre seringas enferrujadas.

No corredor principal, dezenas de pacientes permaneciam deitados em macas, todos usando máscaras sem expressão.

Uma enfermeira aproximou-se.

Seu rosto era completamente liso.

Sem olhos.

Sem boca.

Sem nariz.

Apenas pele.

Mesmo assim, Augusto teve a impressão de que ela sorria.

— Seja bem-vindo ao setor de inadimplência afetiva.

Ela conduziu Augusto pelos corredores.

Em um quarto havia um homem tentando arrancar o próprio reflexo do espelho.

Em outro, uma senhora costurava fotografias da juventude sobre a própria pele.

Mais adiante, crianças brincavam de funeral usando pequenos caixões de madeira.

— Quem são essas pessoas?

— Clientes.

— Do banco?

— Da realidade.

A enfermeira abriu uma porta metálica.

Dentro havia uma sala gigantesca cheia de gavetas catalogadas.

Cada gaveta possuía o nome de uma emoção.

CULPA.

VERGONHA.

DESEJO.

MELANCOLIA.

CIÚME.

NOSTALGIA.

— O que é isso?

— Arquivo central da psique humana.

Ela puxou uma gaveta marcada como “MEDO DE NÃO SER AMADO”.

Dentro havia milhões de pequenos corações batendo lentamente.

Augusto sentiu náusea.

— Isso é loucura.

— Loucura é apenas um quarto sem janelas dentro da consciência.

A enfermeira então entregou a Augusto uma chave dourada.

— O diretor deseja vê-lo.

— Diretor de quê?

— Do abismo.

Ela apontou para o elevador no fim do corredor.

As portas abriram-se sozinhas.

O interior estava cheio de areia.

Augusto entrou.

O elevador começou a descer.

Os números no painel não indicavam andares.

Indicavam idades.

Depois surgiram números negativos.

-1.

-8.

-23.

O elevador continuou descendo.

Augusto começou a ouvir vozes.

Milhares delas.

Eram pensamentos que tivera durante a vida inteira.

Pensamentos violentos.

Sexuais.

Covardes.

Ridículos.

Todos repetidos simultaneamente.

Tentou tapar os ouvidos.

Inútil.

As vozes vinham de dentro.

Quando as portas se abriram, Augusto encontrou-se diante de uma praia noturna.

O céu estava cheio de relógios derretidos.

No horizonte, um gigantesco coração mecânico pulsava lentamente dentro do oceano.

E ali, sentado numa cadeira de escritório enterrada parcialmente na areia, estava seu pai.

Morto havia quinze anos.

Usava o mesmo terno cinza do funeral.

— Você demorou — disse ele.

Augusto recuou.

— Isso não é real.

— Claro que não. Mas você sempre preferiu as coisas irreais.

O pai acendeu um cigarro.

Da fumaça surgiram pássaros negros que desapareceram no céu.

— O que é este lugar?

— Sua contabilidade interior.

— Eu estou sonhando?

— Não exatamente. Sonhos ainda possuem misericórdia.

O pai explicou que o banco era apenas a superfície administrativa de algo muito maior: uma estrutura metafísica alimentada pela incapacidade humana de aceitar o vazio.

Os homens criavam religiões, relações, dinheiro, consumo, ideologias e rotinas para evitar encarar o abismo primordial existente dentro deles.

Mas cada tentativa de preencher o vazio apenas aprofundava o próprio vazio.

Como cavar um buraco usando o próprio corpo.

— Então estamos condenados?

O pai riu.

— Condenados? Augusto, vocês transformaram a condenação em estilo de vida.

Ao longe, figuras humanas caminhavam para dentro do mar carregando televisores nas costas.

Outras enterravam os próprios rostos na areia.

Uma multidão inteira rezava diante de um enorme cartão de crédito pendurado no céu como lua.

— O que acontece com quem não paga a dívida?

O pai apontou para o oceano.

Das águas emergiam criaturas humanas sem olhos.

Elas carregavam maletas executivas presas aos pulsos por correntes.

— Tornam-se parte da máquina.

Augusto sentiu o chão tremer.

Então percebeu que a areia era feita de dentes.

Milhões deles.

O pai levantou-se lentamente.

— Existe algo que você precisa ver.

Caminharam pela praia durante horas ou segundos — naquele lugar o tempo parecia um animal ferido incapaz de mover-se em linha reta.

Chegaram a um prédio gigantesco construído inteiramente com espelhos.

Cada espelho refletia uma versão diferente de Augusto.

Augustos ricos.

Augustos miseráveis.

Augustos assassinos.

Augustos religiosos.

Augustos mendigos.

Augustos felizes.

Augustos suicidas.

— O que é isso?

— Todas as pessoas que você poderia ter sido.

Ao entrar no edifício, Augusto percebeu que os corredores eram feitos de carne pulsante.

As paredes sussurravam frases ditas por sua mãe durante a infância.

“Você precisa ser alguém.”

“Não decepcione seu pai.”

“Pessoas comuns desaparecem.”

Em uma sala encontrou centenas de versões de si mesmo sentadas diante de computadores antigos.

Todos trabalhavam compulsivamente.

Todos estavam exaustos.

Nenhum parecia saber o motivo.

Um dos Augustos ergueu a cabeça.

Seus olhos eram dois buracos vazios.

— Produzimos sentido artificial.

— Para quê?

— Para evitar o silêncio.

Outro Augusto começou a bater a cabeça contra o teclado enquanto chorava sangue.

— O silêncio revela.

As luzes piscaram.

Todos os Augustos pararam simultaneamente.

Viraram os rostos na direção dele.

E disseram juntos:

— Você ainda acredita possuir alguma coisa?

Augusto correu.

Correu pelos corredores vivos.

Correu até encontrar uma escada infinita descendo para dentro de uma escuridão líquida.

No fundo havia uma única cadeira de dentista iluminada por uma lâmpada oscilante.

Sentada nela estava a mulher do banco.

— Chegamos ao núcleo.

— O que você quer de mim?

— Nada.

Ela sorriu novamente.

— Você é quem quer alguma coisa. Sempre quis.

A mulher pediu que Augusto se sentasse.

Ele obedeceu sem compreender por quê.

Acima dele surgiu uma máquina enorme feita de olhos humanos conectados por fios umbilicais.

— O que é isso?

— O mecanismo do desejo.

A máquina começou a funcionar.

Augusto viu sua vida inteira atravessá-lo.

Cada ambição.

Cada carência.

Cada humilhação escondida sob performances de normalidade.

Percebeu que jamais amara verdadeiramente ninguém.

Apenas buscara pessoas capazes de anestesiar temporariamente seu medo de existir.

Percebeu que trabalhara não por realização, mas para provar algo indefinido a fantasmas familiares.

Percebeu que seus sonhos eram anúncios publicitários infiltrados na alma.

Percebeu que nunca estivera sozinho porque sempre carregara dentro de si um tribunal inteiro.

Começou a gritar.

A mulher aproximou-se lentamente.

— O ser humano é a única criatura que transforma a própria prisão em decoração.

A máquina acelerou.

Os olhos giravam.

Milhares deles.

Observando.

Julgando.

Consumindo.

Augusto sentiu algo romper-se dentro de sua mente.

Então aconteceu o silêncio.

Um silêncio absoluto.

Branco.

Imenso.

Pela primeira vez desde a infância, não desejava nada.

Nem sucesso.

Nem amor.

Nem permanência.

Nem respostas.

Apenas vazio.

Mas o vazio agora não parecia ameaçador.

Parecia honesto.

As correias se soltaram.

A mulher observou-o com estranha ternura.

— Poucos chegam até aqui.

— O que acontece agora?

— Agora você decide.

— Decido o quê?

— Continuar financiando o abismo ou aprender a habitá-lo.

Ela entregou-lhe um espelho pequeno.

Ao olhar, Augusto não viu seu rosto.

Viu apenas um quarto escuro.

No centro do quarto havia uma criança sentada no chão.

Ela chorava silenciosamente.

Augusto reconheceu imediatamente quem era.

A criança ergueu os olhos.

— Você me abandonou.

Augusto começou a tremer.

Tentou tocar o espelho.

A superfície tornou-se líquida.

Então caiu para dentro.

Despertou num apartamento minúsculo.

O despertador tocava.

O sol atravessava parcialmente as cortinas.

Tudo parecia normal.

Por alguns segundos acreditou que tivera apenas um pesadelo.

Levantou-se.

Foi até o banheiro.

Lavou o rosto.

Ao erguer os olhos para o espelho, encontrou uma pequena frase escrita no vidro com vapor:

“Saldo devedor: infinito.”

Augusto recuou.

O apartamento começou a emitir sons estranhos.

As paredes respiravam.

Os móveis pulsavam como órgãos internos.

Da televisão desligada surgiu a voz da mulher:

— O sistema nunca esteve fora de você.

As luzes apagaram.

No escuro, Augusto ouviu milhares de teclas sendo digitadas.

Percebeu então que sua mente inteira funcionava como um escritório administrativo dedicado a organizar medos.

Cada memória era um documento.

Cada trauma, um contrato.

Cada desejo, um boleto vencido.

Sentou-se no chão.

Exausto.

O silêncio voltou.

Lentamente compreendeu que passara a vida inteira tentando comprar autorização para existir.

Dos pais.

Da sociedade.

Do trabalho.

Do amor.

De Deus.

Sempre esperando algum carimbo metafísico que legitimasse sua presença no mundo.

Mas talvez existir fosse justamente suportar a ausência desse carimbo.

Talvez maturidade fosse aceitar que nenhuma estrutura viria salvá-lo do vazio fundamental.

Talvez liberdade começasse quando o homem deixasse de pedir empréstimos emocionais ao mundo.

Augusto chorou.

Não de tristeza.

Mas de cansaço.

Um cansaço antigo.

Herdado.

Transgeracional.

Como se milhares de ancestrais frustrados ainda respirassem dentro de seus pulmões.

A noite caiu rapidamente.

Do lado de fora, a cidade parecia normal.

Pessoas caminhavam.

Carros passavam.

Casais jantavam.

Mas Augusto agora enxergava.

Via as correntes invisíveis ligando cada ser humano às próprias carências.

Via homens usando ternos costurados com ansiedade.

Via mulheres carregando aquários cheios de expectativas mortas.

Via crianças já hipotecadas ao futuro.

Todos sorrindo.

Todos cansados.

Todos pagando parcelas emocionais intermináveis.

Na madrugada, ouviu uma batida na porta.

Ao abrir, encontrou apenas um envelope preto.

Dentro havia um único papel.

“Parabéns. Seu refinanciamento foi autorizado.”

No verso havia uma assinatura.

A sua própria.

Augusto sorriu pela primeira vez em muitos anos.

Depois queimou o papel.

As chamas iluminaram brevemente o apartamento.

E por um instante, antes que o fogo apagasse, ele teve a impressão de enxergar dentro das labaredas a gigantesca catedral submersa onde o banco continuava funcionando eternamente.

Centenas de funcionários sem rosto carimbavam contratos.

Milhões de pessoas aguardavam atendimento.

E no centro do salão, sentado sozinho diante de uma mesa vazia, estava ele mesmo.

Trabalhando.

Ainda.

Sempre.

Enquanto, muito abaixo de tudo, no fundo do abismo financiado pela humanidade inteira, alguma coisa respirava satisfeitamente.

Clayton Alexandre Zocarato

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