Ó Deus!

Ahmad Vali:
Uma busca espiritual que dissolve as fronteiras entre o eu e o divino

Logotipo da seção O Leitor Participa, do Jornal ROL. Na No centro da imagem, escrito O Leitor Partidipa. No meio Leitura é vida. Nas laterais, uma pilha de livros de cor marrom. E abaixo, o logotipo do ROL
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Dissolvendo-me silenciosamente e apagando a mim mesmo,
procurei por ti.
Esgotado em meu caminho até ti,
fiquei para trás, enquanto tua misericórdia —
permaneceu como tu.

Agora não há dervixe,
nem mendicante, nem tigela de mendigo.

Em toda parte, há somente tu,
a plenitude do teu vazio.

Ahmad Vali

Original (Telugu): Ahmad Vali
Tradução: Elanaaga

O God

Melting silently and effacing myself,
I searched for you.
Depleted on my way to you,
I stayed behind as your mercy–
lingered as you.

Now there is no darwish,
no mendicant, nor any beggar’s bowl.

Everywhere, it is only you,
the fullness of your emptiness.

Ahmad Vali

M. B. Ahmad Vali

M. B. Ahmad Vali is a 57 year-old poet from Narsipatnam village, Andhra Pradesh State, India. He runs a small business. His writings keep appearing in the local Telugu periodicals as well as social media such as Facebook on and off.




O Romantismo no Brasil

Lina Veira:
Entre a poesia e a mediocridade, uma defesa apaixonada da liberdade de sentir, pensar e escrever

Lina Veira
Lina Veira
Imagem do Canva, com texto de Lina Veira

O romantismo no Brasil ganhou algumas características próprias, ligadas ao processo de construção da identidade nacional após a independência do BRASIL, 1822 . A linguagem sofria transformações na época e os escritores românticos  abandonaram o tom  rígido das regras de composição poética, criando ritmos que diferenciaram o Brasil de Portugal, identificando-nos e  reconhecendo nossa literatura e vida cultural. Era exaltada   as paixões e liberdade humana, a expressão plena da alma humana. Um romantismo ligado à música  e literatura – Um movimento  dedicado a crítica da ideologia  e  dos poderosos para salvar o mundo.

Não podemos ignorar Barroco,  que  foi  precursor estético e temático para o Romantismo, compartilhando o cultivo do contraste, a dramaticidade e a forte carga emocional, onde cada palavra parecia carregar o peso do mundo, da alma e do divino.

Mas até onde especialistas podem  explicar, precisamos viver em grupos para sobreviver a abundância  do repetitivo,  ainda precisando  da sensibilidade de um poeta para garantir o cotidiano com  menos mediocridade, pessoas monótonas e tristes; antes de ser devorado pela breguice dos idiotas.

Mesmo com diploma universitário de engenharia  e pensamentos profundos  sobre o mundo,  eu sinto que a sociedade se afastou do real romantismo e  criou muitas opiniões  dando poder numérico a maioria da humanidade medíocre com  suas faces iradas, onde a inércia  garante o cotidiano sem poesia e romance. Digo  medíocre, porque sem poesia tememos a liberdade e nos tornamos covardes demais. Escolhemos seguir confiando em psiquiatras infantis que não tem filhos, e continuamos  a  casar com homens que nem sabemos  se respeitam suas mães dentro de casa.

BANALIZAMOS O  POETA QUESTIONADOR! Quem disse que os livros mais vendidos não são romances, ou de poesia? 

Outro dia perguntei a alguns jovens se eles liam poesia, e eles responderam que não gostam.  Talvez precisem viajar mais , ou não perceberam a maldição do que é ser um indivíduo  primitivo e estupido,    sem conhecimento  e liberdade da resistência. A poesia precisa ser ordem de estudo. Nada mais profundo arrancado das pedras existe  como ela.   E quem ler são como nozes: esmagados,  revelados.

Sobre romantismo, ser romântico, amor,  poesia,  emoção intensa.  Tudo é uma amostra de vida, você  não consegue vender  sua beleza, ou fórmula a ninguém. Dentro de um cenário de desespero ou de alegria , escrever  é a confissão de um pecador monótono e as vezes irônico, mas devoto de suas consciências ainda pouco melhores.

Lina Veira

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Patrimônio vivo da literatura brasileira

Shirley Ferro, Poetisa da Luz, celebra uma trajetória de literatura, reconhecimento e representatividade

Imagem comemorativa com o título "UMA HONRARIA À LITERATURA BRASILEIRA", de tom dourado e vinho. À direita, destaca-se uma mulher sorridente com cabelos escuros pelos ombros, vestindo uma túnica ou vestido de tom bordo/vinho com bordados dourados no peito e nos punhos. 
À esquerda, sobre o fundo, lê-se em destaque: "SHIRLEY FERRO" 
"POETISA DA LUZ" "PATRIMÔNIO VIVO DA LITERATURA BRASILEIRA"
"Homenageada por sua trajetória dedicada à poesia, à literatura e à inclusão." Abaixo deste texto, há um quadro dourado que emoldura um documento oficial da "Brazilian Christian Leadership Convention".

Na parte inferior da imagem, sob a palavra "GRATIDÃO", encontra-se um texto de agradecimento à UPF (União das Famílias pela Paz Mundial), à ONU, à BCLC, à Prefeitura e Secretaria de Educação de Osasco, ao CEFOR, ao Pr. Carlos Eduardo Gonçalves, ao Secretário José Toste Borges e a todas as autoridades envolvidas.
Imagem comemorativa com o título “Uma Honraria à Literatura Brasileira” em homenagem à escritora e poetisa Shirley Ferro

No dia 6 de novembro de 2026, a Câmara Municipal de Osasco abre suas portas para homenagear uma das vozes atuantes da literatura contemporânea: a escritora e poetisa Shirley Ferro, conhecida como Poetisa da Luz.

A solenidade marcará um momento especial em sua trajetória literária: Shirley Ferro será condecorada com o título de Patrimônio Vivo da Literatura Brasileira, reconhecimento que simboliza a valorização de sua contribuição à cultura, à literatura e à preservação da memória poética.

Mais do que uma homenagem, a distinção representa, para a escritora, o encontro entre uma vida dedicada às palavras e o reconhecimento institucional de uma caminhada construída com poesia, inclusão, espiritualidade, sensibilidade e compromisso com a cultura.

Uma trajetória que se transformou em poesia

A história de Shirley Ferro com a literatura começou ainda na infância. Aos 12 anos, descobriu nos versos uma forma de expressar sentimentos, sonhos e experiências.

Depois de décadas dedicadas à área de contabilidade e auditoria, a escritora retomou com intensidade seu antigo sonho literário. Desde então, sua produção ganhou espaço em livros, antologias, saraus, eventos culturais e projetos voltados à valorização da poesia.

Hoje, Shirley reúne sete livros solo, e sua Biografia lançada na 29ª Bienal de SP um em parceria com a escritora; Dra. Maria Suely Farias Cunha, única Obra Brasileira em Biografia em Poesias, além de participação em dezenas de antologias nacionais e internacionais, levando sua poesia para diferentes espaços e públicos.

Sua obra também encontrou na inclusão uma de suas mais importantes bandeiras.

O livro “A Essência Não Tem Deficiência” tornou-se uma das marcas de sua atuação literária e cultural, alcançando reconhecimento em diferentes países e reforçando uma mensagem que atravessa sua obra: a literatura pode acolher, aproximar e transformar.

Shirley Ferro – Poetisa da Luz

Card do Prêmio Destaques Litrerários AILB 2026
Card do Prêmio Destaques Litrerários AILB 2026

Escritora • Poetisa • Compositora • Agente Cultural

Uma trajetória construída com poesia.

Uma obra marcada pela inclusão.

Uma vida transformada em literatura.

2026: Um ano de consagração literária

A brilhante trajetória literária de Shirley Ferro, Poetisa da Luz, continua a receber novos capítulos de reconhecimento.

Em novembro, a escritora dará mais um passo de grande significado em sua caminhada: tornar-se-á imortal da Academia William Shakespeare, passando a ocupar a Cadeira nº 37, cujo Patrono é o escritor Graciliano Ramos.

A solenidade de posse está marcada para 14 de novembro de 2026, às 19h, na Catedral Nossa Senhora do Líbano, localizada na Rua Tamandaré, 355, no bairro da Liberdade, em São Paulo.

A escolha para integrar a Academia representa mais um reconhecimento à trajetória de Shirley Ferro e à sua atuação no cenário literário e cultural.

Uma agenda marcada por grandes homenagens

O calendário de 2026 reserva ainda outras importantes celebrações.

No dia 26 de outubro, Shirley Ferro receberá o Prêmio de Embaixadora Cultural, concedido pelo Movimento Poético Nacional, em solenidade que acontecerá no Círculo Militar de São Paulo.

Poucos dias depois, em 10 de novembro, a escritora será novamente homenageada na Câmara Municipal de São Paulo, onde receberá o Prêmio Comunicação e Destaque na Área Literária 2026, reconhecimento que evidencia sua presença e atuação no universo das letras e da cultura.

E antes de todas essas celebrações, no dia 9 de outubro de 2026, Shirley Ferro participará, como convidada de honra, do VIII Encontro Mundial de Literatura Brasileira, ampliando ainda mais sua presença em um cenário de encontro entre escritores, poetas e representantes da literatura.

Um calendário que conta uma história

Card da Academia Willam Shakespeare, com a imagem de Shirley Ferro, a Poesia da Luz
Card da Academia Willam Shakespeare, com a imagem de Shirley Ferro, a Poesia da Luz

Em poucos meses, uma sequência de acontecimentos colocará a trajetória da Poetisa da Luz em evidência:

09/10/2026

VIII Encontro Mundial de Literatura Brasileira

Convidada de honra

20/10/2026

50 anos do Movimento Poético Nacional

Ano histórico de celebração da instituição

26/10/2026

Prêmio Embaixadora Cultural

Movimento Poético Nacional — Círculo Militar de São Paulo

06/11/2026

Patrimônio Vivo da Literatura Brasileira

Câmara Municipal de Osasco

10/11/2026

Prêmio Comunicação e Destaque na Área Literária 2026

Câmara Municipal de São Paulo

14/11/2026

Posse como Imortal da Academia William Shakespeare

Cadeira nº 37 — Patrono Graciliano Ramos

Uma mulher, muitas páginas de uma mesma história

A sequência de homenagens revela um momento singular na trajetória de Shirley Ferro.

Cada título, prêmio ou convite representa uma página diferente de uma história que começou ainda na infância, quando a menina que escrevia versos aos 12 anos descobriu que a poesia seria muito mais do que uma paixão: seria sua forma de expressão, sua missão cultural e parte essencial de sua identidade.

Hoje, aos 67 anos, a Poetisa da Luz reúne livros, prêmios, títulos, participações nacionais e internacionais e uma atuação permanente na promoção da literatura e da cultura.

Seu percurso também demonstra que uma trajetória literária não se constrói apenas pela publicação de livros, mas pela capacidade de permanecer presente, criar, participar, representar e abrir caminhos para que a poesia continue viva.

E 2026 chega como um ano particularmente simbólico.

Um ano de portas que se abrem.

De instituições que reconhecem.

De novos títulos que chegam.

De encontros que aproximam escritores.

De uma história que continua sendo escrita.

Porque, para Shirley Ferro, a literatura não é apenas aquilo que está escrito nos livros. É aquilo que permanece na memória de quem lê, de quem sente e de quem acredita que uma palavra pode transformar uma vida.

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Só prossor

Milton Gaspar Domingos:
Do sonho de ensinar ao desencanto da sala de aula

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Já vi e vivi na pele tal dor,
É um contentamento só de dor…
Diz Camões num poema de amor.
É dor a alegria de um professor!

num piscar de olhos se acaba o amor…
Ingressar ao Ministério é flor!
ser professor parece um sonho,
Para o de um camponês ser um docente.

Tal sonho, uma vez ser realidade,
se esvai com ele a alegria e a vaidade
Antes de ingressar, até é um sonho,

Mas já dentro, tudo é um pesadelo.
Tem de procurar um outro emprego,
para na vida encontrar um sossego.

Milton Gaspar Domingos

Miltom Gaspar Domingos
Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

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A invenção de quem somos

Nicole Menezes Martins:
entre memórias, escolhas e medos, a descoberta de quem podemos ser

Descrição detalhada (para leitores de ecrã ou acessibilidade alargada):
A imagem apresenta a marca do projecto. No topo, destaca-se o texto "Jovens Talentos" escrito numa fonte preta com serifa. Por baixo da frase, encontra-se a silhueta em preto e tons alaranjados de um grupo de cerca de dez jovens com os braços erguidos e de mãos dadas num gesto de união e celebração. Abaixo da figura, sobressai a inscrição "Jornal Cultural" em letras azuis e, em maior destaque no fundo, o logótipo "ROL" antecedido por um símbolo geométrico laranja.
Logotipo da seção Jovens Talentos
Jovem mulher diante de caminhos que se dividem, cercada por imagens e sombras que simbolizam memória, identidade e escolhas.
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Talvez uma das coisas mais curiosas sobre a vida seja a quantidade de coisas que deixamos de viver não porque não as desejávamos, mas porque, em algum momento, tivemos medo de tentar. O tempo passa, as pessoas seguem caminhos diferentes e, muitas vezes, aquilo que permanece não é exatamente a pessoa, mas a possibilidade. Talvez seja por isso que uma frase do texto tenha ficado tanto na minha cabeça: “e o amor platônico, às vezes, é eterno só porque nunca foi real”. Existe algo de incômodo nisso. Às vezes queremos tanto alguém que construímos uma imagem quase perfeita justamente porque nunca tivemos a oportunidade de descobrir quem aquela pessoa realmente era. O que permanece, então, não é necessariamente o amor por alguém, mas o apego ao que poderia ter acontecido. E talvez transformar o “e se?” em uma memória seja uma das formas mais silenciosas de perder alguma coisa.

Não acho que isso signifique que devemos tentar controlar o tempo ou fazer tudo acontecer à força. Se você ama alguém, talvez valha a pena dizer. Tentar. Permitir que algo exista fora da imaginação. Se o tempo acabar separando duas pessoas, talvez simplesmente não fosse o momento. E, se a vida as colocar novamente no mesmo caminho, talvez exista uma nova possibilidade. O ponto não está em garantir um resultado, mas em não permitir que o medo seja o único responsável pelas escolhas que fazemos.

Talvez essa dificuldade de agir esteja profundamente relacionada ao modo como construímos nossa própria identidade. Acredito que existam muitos fatores envolvidos: comparação, crenças, medo da rejeição, necessidade de aceitação e experiências que nos ensinam, pouco a pouco, a esconder determinadas partes de nós. Na infância, parece existir uma relação mais espontânea com o simples ato de ser. A criança não precisa pensar o tempo inteiro sobre como está sendo percebida para existir. Mas, conforme cresce, começa a descobrir que ser quem é nem sempre é recebido com acolhimento. Às vezes sofre bullying, preconceito, rejeição ou simplesmente percebe que determinadas características suas são menos aceitas naquele ambiente. Então aprende a criar um personagem.

O problema talvez não esteja em criar esse personagem. Em certos momentos, ele pode até ser uma forma de proteção. O problema começa quando esquecemos que ele foi criado. Depois de tanto tempo desempenhando determinado papel, podemos nos identificar profundamente com ele e passar a acreditar que aquilo é quem somos. O personagem deixa de ser uma estratégia e passa a parecer identidade. E talvez seja justamente aí que aconteça um dos maiores esquecimentos humanos: não esquecer fatos sobre nós mesmos, mas esquecer que somos maiores do que as definições que aprendemos a sustentar.

Por isso, talvez a memória tenha uma função diferente daquela que normalmente atribuímos a ela. Uma memória não precisa ser uma verdade imutável sobre quem fomos. Ela é o registro de algo que, em determinado momento, nos marcou. Quando alguém procura um lugar para voltar, talvez não esteja procurando necessariamente um espaço físico. Talvez esteja procurando uma sensação, uma forma de existir, uma versão de si mesma que parecia mais próxima de alguma coisa essencial. A saudade, nesse sentido, pode não ser apenas daquilo que aconteceu, mas também daquilo que poderíamos ter sido.

O passado, entretanto, não pode ser reconstruído. Podemos observá-lo, compreendê-lo e aprender com ele, mas não precisamos permanecer presos a ele. Talvez o caminho não seja voltar a ser quem éramos, mas trazer para quem somos hoje aquilo que havia de verdadeiro naquela versão. Recuperar uma espontaneidade sem recuperar a ingenuidade. Recuperar a coragem sem abandonar a consciência. Olhar para trás não para morar no passado, mas para reconhecer partes de nós que ficaram esquecidas no caminho.

Isso também muda a maneira como enxergamos as outras pessoas. Vivemos em uma época em que frequentemente vemos apenas aquilo de que gostamos ou não gostamos em alguém. Muitas vezes, enquanto outra pessoa fala, já estamos preparando uma resposta, uma defesa ou um julgamento. Escutamos menos do que pensamos que escutamos. Talvez compreender alguém exija justamente uma espécie de redução do próprio ego: aceitar que uma pessoa é complexa demais para caber em uma única definição. Ninguém é apenas uma característica, uma escolha, um erro, uma opinião ou uma fase da vida. E isso vale também para nós mesmos.

Talvez nos rotulemos tanto que esquecemos que estamos constantemente mudando. Uma pessoa pode ser contraditória, mudar de ideia, amadurecer, regredir, aprender, esquecer e reconstruir-se inúmeras vezes. Isso não significa que não exista identidade, mas que identidade talvez seja menos uma coisa fixa e mais um processo. Somos influenciados por aquilo que vivemos, pelas pessoas que encontramos, pela cultura, pelas crenças que aprendemos e pelos ambientes que habitamos. A questão não é escapar completamente dessas influências — provavelmente isso seja impossível —, mas perceber que elas existem.

É nesse ponto que a discussão sobre tecnologia e sociedade se torna interessante. Talvez seja simplista tratá-la como algo simplesmente bom ou ruim. A pergunta mais profunda é quem constrói esses ambientes, quais incentivos existem dentro deles e de que maneira eles moldam nosso comportamento. Byung-Chul Han ajuda a pensar sobre isso quando discute como o “você pode” pode transformar-se silenciosamente em “você precisa”. Ninguém necessariamente nos obriga a produzir o tempo inteiro, responder imediatamente, estar disponíveis ou melhorar constantemente. Ainda assim, podemos acabar internalizando essas exigências e cobrando de nós mesmos aquilo que antes vinha de fora.

Isso levanta uma questão importante sobre autonomia. Nossas escolhas continuam sendo nossas, mas não acontecem no vazio. Escolhemos dentro de ambientes, possibilidades, valores e estruturas que já existiam antes de nós. Talvez autonomia, então, não seja a ausência completa de influência, mas a capacidade de perceber as influências que nos atravessam e, mesmo assim, escolher conscientemente. A pergunta deixa de ser apenas “eu escolhi?” e passa a ser “eu consigo perceber por que estou escolhendo isso?”.

Essa mesma questão aparece dentro de nós. Existe uma diferença enorme entre ter um pensamento e acreditar que somos aquele pensamento; entre sentir uma emoção e acreditar que precisamos agir imediatamente de acordo com ela. Talvez liberdade não seja fazer tudo aquilo que desejamos, mas ampliar nossa capacidade de escolha. Existe um pequeno espaço entre o estímulo e a resposta, e talvez seja justamente nesse espaço que nasce o discernimento. Não precisamos deixar de sentir medo, raiva, tristeza ou insegurança para sermos livres. Precisamos conseguir perceber o que está acontecendo antes de transformar automaticamente aquilo em ação.

Talvez o mesmo aconteça com nossas crenças. Muitas vezes tratamos interpretações que aprendemos ao longo da vida como se fossem verdades absolutas sobre quem somos. “Eu sou assim”, “eu não consigo”, “isso não é para mim”, “as pessoas vão me rejeitar”. Mas de onde veio cada uma dessas certezas? Quantas delas nasceram realmente de uma escolha consciente e quantas foram construídas a partir de experiências, medo, comparação ou necessidade de pertencimento?

Talvez consciência seja justamente começar a fazer essas perguntas. Não para desconfiar de tudo o que somos, mas para diferenciar aquilo que escolhemos daquilo que simplesmente aprendemos a repetir. Talvez amadurecer não seja chegar a um estado em que nada mais nos afeta, em que finalmente somos imunes ao medo, às opiniões ou às circunstâncias. Talvez seja perceber cada vez mais aquilo que antes acontecia automaticamente e conquistar, pouco a pouco, a possibilidade de escolher diferente.

No fim, talvez o que mais nos aprisione não seja o passado, o tempo, a tecnologia ou sequer as outras pessoas, mas a inconsciência com que atravessamos tudo isso. O passado não pode ser mudado, mas pode ser compreendido. O futuro não pode ser garantido, mas pode ser construído. As influências não podem ser eliminadas, mas podem ser percebidas. E aquilo que sentimos não precisa determinar aquilo que fazemos.

Talvez viver seja justamente esse movimento entre receber aquilo que a vida nos oferece e decidir o que faremos com isso. Não voltar a ser quem éramos, nem tentar controlar quem seremos, mas reconhecer, no presente, aquilo que ainda é verdade em nós. Porque talvez a pergunta mais importante não seja “quem eu fui?” ou “quem eu deveria ser?”, mas simplesmente: diante de tudo o que me aconteceu, quem eu escolho ser agora?

Nicole Menezes Martins

Nicole Menezes Martins, aluna do 3º ano do ensino médio do curso técnico com ênfase em Administração de Empresas da Etec de Novo Horizonte (SP), é orientanda do professor clayton Alexandre Zocarato.

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Um caminhante desnorteado

Nagaraju Ramaswamy:
Poema que transforma a perda do caminho em metáfora da própria existência

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Tem-se a sensação de que tudo é conhecido,
mas o caminho na floresta nunca termina.
A direção parece perfeita,
mas a pequena embarcação não chega à margem.
As trilhas no deserto não são desconhecidas,
mas, por mais que se caminhe,
não se chega à fronteira.
Assim é a vida dos seres humanos.
É uma selva impenetrável,
um vasto oceano que se estende até o horizonte.
Uma infinidade de areia que se alonga até a linha do céu.
É um encantamento mágico,
feito de miragens entretecidas e místicas.
E o homem, um caminhante desnorteado,
continua vagando, tendo perdido o seu caminho.

Nagaraju Ramaswamy

Original (Telugu): Nagaraju Ramaswamy
Tradução: Elanaaga

A Befuddled Wayfarer

One feels as if everything is known,
but the path in the forest never ends.
Direction seems perfect,
yet the dinghy doesn’t get ashore.
The tracks in the desert are not unknown,
but no amount of treading
takes you to the frontier.
Such is the life of humans.
It’s an impenetrable jungle,
a vast ocean spread to the horizon.
Infinite sand stretched to the skyline.
A magic spell it is,
of woven, mystical mirages.
And man, a befuddled wayfarer,
keeps roaming, having lost his way.

Nagaraju Ramaswamy

Original (Telugu): Nagaraju Ramaswamy
Translation: Elanaaga

Nagaraju Ramaswamy, um indiano de meia idade, cabelos brancos e de úculos.
Nagaraju Ramaswamy

Nagaraju Ramaswamy nasceu na Índia, em 9 de setembro de 1939. É engenheiro eletricista de profissão.

Após uma longa trajetória profissional na Índia, Nigéria, Gana, Omã e Arábia Saudita, aposentou-se há muitos anos e atualmente reside nos Estados Unidos.

Sua obra compreende 14 livros em télugo e três em inglês. Sua tradução para o télugo da coletânea de poemas “Sunstone”, de Octavio Paz, lhe trouxe reconhecimento. A tradução da poesia de John Keats também merece destaque. Igualmente dignos de menção são “The Great Void”, “Wings of Musings” e “Blue Pleasance”.

Seu livro mais recente em télugo, “Kavana Kokilalu”, reúne ensaios notáveis e detalhados sobre antigos poetas ingleses. A obra serve como um guia de consulta para os apreciadores da poesia inglesa.

Seus textos continuam sendo publicados em periódicos locais e nas redes sociais, como Facebook, WhatsApp, entre outras. Recebeu alguns prêmios e distinções por sua contribuição à literatura.




Da Palestina ao ROL, Mona Al-Assi!

As letras de Mona Al-Assi exaltam o amor à terra, a resistência, a identidade e a memória da Palestina, a Senhora das Terras, a Mãe dos Começos e dos Fins, o Paraíso Perdido!

Mona Al-Assi

Mona Al-Assi, nascida no Campo de Yarmouk, em Damasco, e radicada em Lausanne, na Suíça, é poeta, jornalista e profissional da área de mídia palestina. Sua atuação e extensa trajetória abrangem o jornalismo cultural, a produção radiofônica, a realização de documentários e projetos artísticos multidisciplinares.

Trajetória literária

Sua poesia foi traduzida para o francês, inglês, alemão, italiano, espanhol e outros idiomas, e apresentada em festivais literários internacionais, leituras de poesia, eventos culturais e projetos artísticos na Suíça, em diversos países europeus e em outros continentes.

Entre seus livros e trabalhos literários estão Training in Barking e How to Raise a Window, coletâneas de poesia, além de Maqām al-Nāb, livro em prosa atualmente em processo de elaboração.

Entre suas antologias e publicações selecionadas estão Analectes de poésie mondiale (Antologia da Poesia Mundial), em francês, que reúne 188 poetas de diferentes partes do mundo, e Exile Named Homeland, antologia búlgara que apresenta trabalhos de 39 poetas palestinas.

Em voos literários cada vez mais altos, recentemente Mona recebeu o Prêmio da Paz em Poesia no Festival Internacional de Poesia de Naoussa, na Grécia.

Mona Al-Assi inicia sua contribuição no ROL com o impactante texto A sombra do sobrevivente: uma canção para Ahmad Manasra, poema sobre a infância roubada, violência, trauma, morte simbólica e a tentativa de sobreviver através da memória e da poesia.

A sombra do sobrevivente:
uma canção para Ahmad Manasra

“Menino palestino de 13 anos, visto de costas diante de uma paisagem urbana devastada, envolvido pela própria sombra, com um copo de chá e tomilho ao lado, simbolizando trauma, memória, infância perdida e sobrevivência.”
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Estações de sombras

vagam pelos aposentos

selando os últimos desejos

e os ossos pálidos

que tecem o meu medo.

Então sacudo as cordas da saudade—

e minha voz se abriga em minha mãe,

arrebatada pelo vento.

A estrada devora os olhos,

e na estrada

me falta a estrada —

aos treze anos, ainda um menino,

ponho tomilho no chá:

letras verdes

para uma menina

que ergue as unhas

para arranhar meu coração

e contar minhas feridas,

fissura

por fissura—

embora ela não saiba contar.

Ó Senhor, eu era bonito,

a semente da minha barba começava a florescer.

Mas a língua do vento

corrompe cada um dos meus nãos:

Eu não sei.

Eu não ouço.

Eu não falo.

Eu não faço nada.

Nããããããããão —

Não me lembro de nada além da minha mão

vindo até mim por trás de uma soleira,

trazendo um copo de chá

que canta ao tomilho,

enquanto a terra,

além da minha atenção,

continua girando.

Ó Senhor, estou morto—

então por que o tremor dos ossos

ainda me dói?

Como um abraço imenso,

as sombras sugam minha alma.

A fala seca em minha boca,

e um impulso me leva a latir

mais alto,

mais alto—

até que eu me esqueça de quem sou

e o bastão

pare de ofegar.

Torci o ferro da minha mão

por trás das minhas costelas

para bater à porta do meu corpo.

E a sombra na parede

tritura minha semente.

Leva-me, ó Ataba,

leva-me até a Mãe do Dia,

para que meu corpo se torne transparente

e os mortos

possam me ver.

Mona Al-Assi

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