Pergunta-me onde me achava morrendo, como um navio incendiado em alto-mar, deixando tombar o ouro que se fundia em plena lava, incandescente, derretendo aos poucos, a formar arte deslumbrante.
Sem ar nos pulmões das águas frias, pergunta-me as palavras que te dissera. Foram de audácia as correntes que te prenderam, algema líquida que te segurou bem firme. Deixara-te deslizar como peixe que escorrega das mãos.
Redime-te. Lembra-te e salta em águas conhecidas. Reconhece teu habitat, peixe que passa por minhas pedras limosas, de cheiro do mar.
Marulho te canta aos ouvidos, salgado, salino ao teu paladar. Brinda — e não esqueças do açúcar molhado na borda da taça.
Folga-te das bolhas que se formam na boca que beijas. Palavras poéticas feitas de um nada se agitam e dizem o tudo de uma só vez.
Brigas comigo que o tudo é teu, é meu, é demais e de mais ninguém.
Nademos sem rumo, de mãos enamoradas. Se me afundas, te sossego; se te afundo, nadas de braçadas e boias de prazer comigo.
Olha-me, molha-me debaixo d’água. Meu corpo se dilui e a visão é ilusão. O movimento é nosso, no insustentável, até que morras, até que acordes de tuas águas que me quiseram e me amaram.
Pergunta-me onde me achava, morrendo como um navio incendiado em alto-mar.
Ó sopro infiel, renasce onde as águas me esperam. Ainda hei de cantar, ao entardecer, as deusas que arranquei de seus cintos de sombra. Sucos de uva queimam meus lábios, cachos vazios brilham ao sol, e eu respiro neles a embriaguez do mundo.
Libélulas-lembranças retornam em teimosas asas: a nuca molhada, o riso fugidio, braços que se enredam no meu sono e se dissolvem na claridade.
Tentei deter-vos, mas fostes rosas desfolhadas ao sol; o vosso perfume nasceu para escapar. Almejo, assim, cada fruto maduro que se rompe ao toque; cada abelha que murmura no calor da seiva devolve-me o desejo.
O dia se curva. A mata veste-se de ouro e cinza e, sobre sua lava, repousa a rainha dos meus sonhos. Retê-la é dar à sombra consciência de sua fuga. Agora cedo o corpo ao silêncio. Bebo luz, sorvo vinho e sigo o rastro que de ti resta, já transformado em penumbra.
Destila-te em mim, diva noite. Desce em véus de silêncio e âmbar. Teus passos confundem-se com a brisa, tua pele dissolve-se no orvalho, tua boca reinventa-se no silêncio.
Ainda assim, és minha: presença que não se prende, ausência que me embriaga, clarão que me cega e chama que não se apaga
Ella Dominicihttps://gemini.google.com/app/1843d02fc71fb7fd?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Sozinha com os princípios, eu descubro: a palavra não é um abrigo. É um laboratório.
Entropia.
Digo baixo, como quem nomeia um animal que vive no escuro.
A entropia não consola. Não catequiza. Não faz promessas com voz de altar. Ela apenas registra a tendência: o universo gosta de se desfazer. E eu também.
Num sistema termicamente isolado, a entropia aumenta. E o tempo — esse operário invisível — vai desmontando a mobília do mundo. Até que a ordem se torne uma espécie de saudade.
Chamar isso de decadência é um vício moral.
A ciência não tem pecado: observa.
O que é decadência senão a tradução exata do que é vivo? Tudo o que respira se desorganiza para continuar respirando. Tudo o que ama se desarruma.
E então eu pergunto, com lucidez: qual o grau da desordem do teu nome no meu sistema?
Teu nome não é palavra. Teu nome é física íntima: vibração, colisão, deslocamento. Teu nome é uma partícula que insiste.
No meu quarto há objetos. E eu os olho como quem olha uma teoria. Quantas formas de dispor o mesmo copo? Quantas versões de uma cadeira? Quantas possibilidades de um livro que nunca fecha?
Quanto maior meu íntimo, mais combinações. E quanto mais combinações, mais improvável a paz. É simples. É cruel. É belo.
Os sentimentos não se organizam como biblioteca. Organizam-se como tempestade num copo. Um copo: pequeno. Uma tempestade: infinita.
Se eu te entregasse minhas moléculas, tu não preverias. Não por falta de inteligência, mas por excesso de vida.
Porque o sistema combinado produz o inumerável: átomos, encontros, desvios, acidentes, memórias — o acaso com sua assinatura de Deus.
Sim: Deus. Esse nome que alguns evitam, mas que eu reconheço no improvável.
No fim, a entropia não me entristece. Ela me purifica. Porque na desordem — na efemeridade — eu não tenho tempo de mentir.
Eu amo com urgência.
compreendo com humildade,
perdoo com grandeza. E cada gesto, por menor que seja, torna-se um milagre em miniatura.
Há dignidade escondida no caos. E talvez seja essa a forma mais alta de liberdade: não um direito proclamado, mas um instante íntimo em que eu me permito ser desordem — sem culpa.
Amélia Moreau escolheu a menor cabana porque o corpo já não comportava excessos.
Não era cansaço — era um pedido interno de depuração.
O chão de areia batida acolhia os pés como um reconhecimento antigo. A madeira guardava o calor do dia, o vidro devolvia o céu em fragmentos, como pensamentos que não se organizam de imediato. Ao redor, a grama rala insistia em existir, verde frágil, quase desistente. Amélia pensou que também vivia assim: por pequenas persistências silenciosas.
Sentou-se. O silêncio entrou nela antes mesmo de fechar a porta.
O corpo trazia marcas que não pediam tradução. Ombros tensos de contenções prolongadas, o ventre atento como quem pressente, a respiração curta — hábito de quem aprendeu a não ocupar demais o espaço do mundo. Escrevia poemas todos os dias. Vinham como ondas, densas, volumosas, impetuosas. Mas a espuma já não lhe bastava.
Amélia queria o fundo.
Queria a pressão que transforma.
O escuro vivo onde nada é decorativo.
Desejava escrever uma história que não fosse superfície. Um mergulho. Um relato de águas espessas, onde peixes não simbolizam — existem. Onde raias cortam o pensamento, crustáceos caminham sobre memórias esquecidas, golfinhos anunciam breves alegrias e baleias — antigas, vastas — atravessam o escuro como verdades que não pedem permissão.
Foi então que a Sombra se adensou.
A Sombra não chega. Acontece.
Era a parte dela que carregava chão. Aquela que media, que calculava, que via limites. A que fora convocada muitas vezes e quase sempre adiada. Agora, ali, entre madeira e vento, a Sombra tinha densidade.
— Vais escrever rápido — disse Amélia, sentindo a garganta vibrar. — Porque quando escrevo, já passou. Não há histórias longas. Há travessias.
A Sombra apoiou-se na parede, como quem sustenta uma estrutura antiga.
— Então por que escrever, se tudo escorre?
Amélia levou a mão ao peito. O coração batia como mar fechado, sem margem visível.
— Porque o que se inventa existe. Criar é dar corpo ao que não teve permissão de nascer. Não há realidade fixa — há memória do querer e do não querer. E ambas têm peso.
A tarde escorria lenta. O vento trazia cheiro de sal, de fruta madura, de um tempo anterior às nomeações. Amélia sentia, como um nó suave, a presença de vínculos densos — afetos profundos, responsabilidades vivas, laços que não se rompem, mas também não explicam tudo. Eram reais, eram amados, mas não esgotavam o que nela pulsava.
Havia uma fome que não se alimentava de harmonia organizada.
As presenças humanas de sua vida surgiam como figuras adaptadas ao possível, ajustadas ao aceitável. Apenas ela insistia em escutar o que desalinha. Apenas ela interrogava o que todos chamavam de normal.
— Não achas estranho — disse a Sombra — caminhar contra o que chamam de vida?
Amélia sentiu a areia fria sob os pés, como um lembrete.
— O que chamam de vida é sobrevivência com calendário. Eu quero existir com risco. Quero sentir até doer certo.
A Sombra não respondeu. Apenas ficou.
E ficar, ali, já era um gesto de aceitação.
Amélia abriu o caderno. A mão tremia, mas era um tremor fértil. Lá fora, o mar respirava fundo, como quem reconhece outra criatura marinha.
Ela escreveu.
Não para ser lida.
Não para permanecer.
Escreveu como quem mergulha sem corda, sabendo que algumas profundezas não devolvem o mesmo corpo — mas devolvem algo mais raro:
a verdade em estado líquido.
E isso, pensou Amélia, já era uma forma suficiente de existir.
Cartografia da lucidez feminina em primeira pessoa
Ella Dominici
“Cartografia da lucidez feminina em primeira pessoa
– Eu, mulher — consciência que resiste à violência invisível‘
Ella DominiciElla Dominici, autora do livro ‘Lava Incontida’
Eu não fui ensinada a desaparecer, mas fui conduzida a isso, como quem aprende a reduzir a própria presença para não perturbar a ordem estabelecida.
Não é uma violência que se anuncia é um deslocamento contínuo, onde a palavra que penso encontra escuta apenas para ser esvaziada.
Há uma agressão que não deixa marcas visíveis, mas instala dúvida. Não se combate o que digo; desqualifica-se o tom, ridiculariza-se a intenção.
E assim, pouco a pouco, a mulher que pensa é levada a suspeitar de si mesma — não por falta de lucidez, mas porque sua lucidez desestabiliza.
Minha voz não é interrompida, é dissolvida. E, nesse gesto, tenta-se reposicionar-me: não como sujeito que interpreta, mas como presença que deve ajustar-se.
Nos espaços sociais, familiares, religiosos e profissionais, repete-se uma pedagogia silenciosa: posso falar, mas não deslocar. Quando ultrapasso esse limite invisível, não sou confrontada, sou excluída sem ruído.
Essa experiência não me paralisa, mas me atravessa. Continuo, produzo, existo, mas há uma dimensão silenciosa que sofre, não pela incapacidade de ser, mas pela dificuldade de ser reconhecida sem distorção.
E, ainda assim, há algo que não cede.
Não sou invisível. Não sou excesso. Não sou inadequada.
Sou.
E ao sustentar esse “sou”, mesmo sem eco, algo se inaugura.