Cartografia da lucidez feminina em primeira pessoa
Ella Dominici
“Cartografia da lucidez feminina em primeira pessoa
– Eu, mulher — consciência que resiste à violência invisível‘
Ella DominiciElla Dominici, autora do livro ‘Lava Incontida’
Eu não fui ensinada a desaparecer, mas fui conduzida a isso, como quem aprende a reduzir a própria presença para não perturbar a ordem estabelecida.
Não é uma violência que se anuncia é um deslocamento contínuo, onde a palavra que penso encontra escuta apenas para ser esvaziada.
Há uma agressão que não deixa marcas visíveis, mas instala dúvida. Não se combate o que digo; desqualifica-se o tom, ridiculariza-se a intenção.
E assim, pouco a pouco, a mulher que pensa é levada a suspeitar de si mesma — não por falta de lucidez, mas porque sua lucidez desestabiliza.
Minha voz não é interrompida, é dissolvida. E, nesse gesto, tenta-se reposicionar-me: não como sujeito que interpreta, mas como presença que deve ajustar-se.
Nos espaços sociais, familiares, religiosos e profissionais, repete-se uma pedagogia silenciosa: posso falar, mas não deslocar. Quando ultrapasso esse limite invisível, não sou confrontada, sou excluída sem ruído.
Essa experiência não me paralisa, mas me atravessa. Continuo, produzo, existo, mas há uma dimensão silenciosa que sofre, não pela incapacidade de ser, mas pela dificuldade de ser reconhecida sem distorção.
E, ainda assim, há algo que não cede.
Não sou invisível. Não sou excesso. Não sou inadequada.
Sou.
E ao sustentar esse “sou”, mesmo sem eco, algo se inaugura.
Ella DominiciImagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/s/m_6a3e7f945fdc819197e4df0f9555eae9
O sublime mora em minha mente, confidente desse instante presente. No tédio exalo o que se cala obra viva, luta e fala contra o caos persistente.
Mergulho no abismo, sem alarde, irmão da música em tom grave. Que beleza há no fim que invade, e à dor, rainha tão suave, minha alma inteira arde.
Nas letras, visões tão passageiras, notas lúgubres, flores estrangeiras. Como Flores do Mal, me tomam, nu, com vaidade anarquista à flor do azul, nesta conquista derradeira.
Vozes que não sei dizer, mas que me fazem compreender. Na partitura da lembrança, ecoam cólera e esperança dor vestida de prazer.
Despeço-me, em fim tardio, do que fui — por desafio. Aceito-me, enfim, na contradição do que pulsa em meu coração: silêncio e bravio estio.
No acorde final que me invade, sou dois: saudade e claridade. O outro de mim — tão real — é pétala branda e madrigal nas marés da eternidade.
A Albatroza nasceu de um diálogo entre a modernidade poética francesa e a condição contemporânea da mulher que pensa, escreve e contempla.
A inspiração inicial remete ao célebre poema O Albatroz, de Charles Baudelaire, no qual a ave majestosa, soberana nos céus, torna-se desajeitada e vulnerável ao tocar o convés do navio. Nessa imagem, Baudelaire reconheceu a condição do poeta diante de uma sociedade frequentemente incapaz de compreender a natureza do pensamento criador.
Em A Albatroza, essa figura é revisitada sob uma perspectiva feminina. A ave transforma-se em símbolo da mulher intelectual, da poeta, da escritora e da pensadora que, ao elevar seu olhar para além das convenções imediatas, frequentemente encontra incompreensão, censura ou estranhamento.
Há também uma discreta sombra de Stéphane Mallarmé, especialmente na presença do ‘branco’ como espaço de permanência do poema e na ideia de que o pensamento lança seus dados ao invisível. Entretanto, a obra não se limita à homenagem literária. Ela busca afirmar uma voz própria, onde contemplação, lucidez e sensibilidade coexistem.
A palavra Albatroza, criada pela feminização poética do albatroz baudelariano, torna-se mais que uma imagem: converte-se em arquétipo. Representa a mulher que aceita a altitude da reflexão sem renunciar à delicadeza, que suporta a incompreensão sem abandonar a própria voz e que encontra na escrita uma forma de permanência.
Se Baudelaire escreveu a queda do poeta, A Albatroza procura escrever a permanência da poeta.
Rute Ella Dominici
A Albatroza
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/s/m_6a2b6e923a20819185b58face9214358
A mulher de espírito assemelha-se à albatroza das alturas,
abrindo suas asas ao vento com serena desenvoltura.
O voo lhe é contemplação,
onde a dúvida se transforma em lúcida razão.
Nos céus, lança pensamentos como dados ao invisível,
e seus versos aprendem a dizer o indizível.
Mas quando desce às terras ordinárias,
erguem-se as vozes telúricas, severas e contrárias.
Chamam excesso ao que é apenas ascensão,
confundem o silêncio com erro ou negação.
E riem da ave que não sabe caminhar
entre os passos apressados dos que temem pensar.
Assim, viva nos ares, torna-se estranha na terra;
suas vastas asas ultrapassam toda fronteira.
Contudo, entre vaias e juízos amargos,
permanece fiel aos seus horizontes largos.
Pois quando o tumulto terrestre se desfaz enfim,
resta o branco onde o poema retoma seu jardim:
o antigo voo da ideia que ousa ainda existir,
porque pensar é voar —
e voar é persistir.
Ella Dominici
L’Albatrosse
La femme d’esprit ressemble à l’albatrosse des hauteurs,
ouvrant ses ailes au vent avec une sereine grandeur.
Le vol est pour elle contemplation,
où le doute devient lumineuse raison.
Dans les cieux, elle lance ses pensées comme des dés vers l’invisible,
et ses vers apprennent à parler l’indicible.
Mais lorsqu’elle descend vers les terres ordinaires,
s’élèvent les voix telluriques, sévères.
Elles nomment excès ce qui n’est qu’essor,
confondent le silence avec quelque tort.
Et elles se moquent de l’oiseau qui ne sait marcher
parmi les pas pressés de ceux qui craignent de penser.
Ainsi, vivante dans les airs, elle demeure étrangère sur la terre ;
ses vastes ailes dépassent toute frontière.
Pourtant, au milieu des huées et des jugements amers,
son destin demeure fidèle à la lumière.
Car lorsque le tumulte terrestre s’efface enfin,
il reste le blanc où le poème reprend son chemin :
E quando o sol enfim romper a noite, restará de ti apenas o rumor suave que a manhã carrega — o sopro que abandona os frutos, a claridade que se desfaz como cintilação nas folhas. Eu, apaixonado e cansado da própria febre, deixo que tua ausência se instale em mim como ouro tênue: relâmpago que não volta, sombra que respira. E nesse clarão que se dissolve, descubro que te amar é perder-te devagar, como quem bebe a luz até o último gesto do dia.
E quando a manhã chega, simples e sem cerimônia, descubro que ficou de ti apenas um jeito de luz na janela, um silêncio macio espalhado pela casa. Não é dor; é lembrança viva, dessas que aquecem devagar, como quem toca a água morna antes de mergulhar. Carrego tua ausência com a mesma ternura com que te buscava, e percebo — meio distraído, meio desarmado — que amar também é aprender a guardar o que não volta, e mesmo assim continuar esperando.
Ella DominiciImagem criada pela IA do Bing – 08 de maio de 2026, às 9h15
A carne não é triste; é translúcida demais. Leu-se o mundo até que as páginas perderam peso e restou apenas o brilho nu entre uma palavra e outra, como se o sentido tivesse migrado para o intervalo. Algo chama — não o mar visível, mas o rumor que antecede a onda, a vibração que percorre o vidro antes da fratura.
Há um cristal no centro do peito: não é pedra, é memória suspensa, luz coagida em forma. Quando a brisa o atravessa, não sopra — fende. E os fragmentos não caem; flutuam, cada estilhaço guardando um rosto incompleto, um gesto repetido, uma infância que ainda não terminou de acordar.
Não se foge da transparência; ela persegue. O navio é interno, feito de nervuras frágeis, e suas velas são silêncios estendidos sobre o abismo. Parte-se sem mover-se. O cristal, perplexo, não sabe se é ferida ou revelação. Mas quando a luz insiste — branca, impiedosa — compreende que não é o golpe que o quebra, e sim o excesso de claridade.
Então canta. Não som: refração. E no canto invisível do vidro algo se recompõe sem retornar ao que era. O mar não aparece; apenas pulsa dentro da transparência. E o coração, entre um estilhaço e outro, aprende a permanecer.
Ella DominiciImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/fa884857680ba8c8?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Nasci da argila e da espera. Sou parte do barro que sonhou ser rosto e permaneceu espelho. Carrego comigo as veias abertas do que sente demais, e o pulso secreto das coisas que não sabem morrer.
Há em mim a casa e o exílio. A casa é onde o olhar repousa, o exílio é quando o olhar não se reconhece. E sigo, em cada rua, plantando pequenas eternidades: palavras, gestos, silêncios, pedras transparentes que a vida deixa como migalhas do invisível.
O amor, esse desassossego manso, anda comigo, calçado de areia e espanto. Não pede posse — pede presença. Ele chega como um sol que se desculpa por nascer tarde, mas ainda aquece o corpo todo
Direi: sou o que restou da travessia — e o que começa depois do naufrágio. Sou mulher de sal e aurora, carrego oceanos no peito e um punhado de luz no escuro. Sigo, mesmo cega, coração conhece atalhos que a razão ignora.
E quando a noite cai, volto a ser palavra de cura,de memória, de fogo. Que sopra nas feridas e acende o invisível. E ainda que o mundo me esqueça, sei que a vida — essa antiga amante — sempre volta, com o perfume do impossível.