Equilibrista

Ella Dominici: Poema ‘Equilibrista’

Ella Dominici
Ella Dominici
Criador de imagens do Bing – 30 de janeiro de 2026, às 15:28 PM https://sl.bing.net/j5QL2psYie4

Vida segue duas vias paralelas:
imposição,
paciência, compromissos
reais e leais imprescindíveis
outra avança no mais profundo:
Ser livre sensorial ridente
às palavras irredutíveis

Sabes, deixas tuas mãos viajarem,
se puderes
desliga-te do tempo esmagador,
não sabemos que somos
todos marinheiros?
como o porto é amargo
quando todos os barcos
partindo, partiram?

Reconcilias o diplomata
homem alma aflita,
Sabes, as casas se irritam
com moradores rasos
povoas dignamente bem-te-vis
nos teus cantos e espaços

Ella Dominici

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Conchas e o mar adentro

Ella Dominici: Poema ‘Conchas e o mar adentro’

Ella Dominici
Ella Dominici

Imagem criada por IA da Mea - 23 de janeiro de 2026, às 16h06 - https://grok.com/imagine/post/d861784d-8fdc-4842-ab4e-ed4b1df0f1df
Imagem criada por IA da Mea – 23 de janeiro de 2026, às 16h06 – https://grok.com/imagine/post/d861784d-8fdc-4842-ab4e-ed4b1df0f1df

conchas esmagadas em sofrido aperto
contritas consternadas pelo vento
constantes sopros desmesurados
neste amor que une graciosas pérolas
rochas com a sedimentação dos tempos

águas colam enquanto passam argolas
adentrando os montes pelas grutas
choro nas paredes lágrimas nos tetos
nas lástimas me inundo em lago interno

dentro vigora azul profundo água-estéril
pinga-pinga de arbustos-folhas-sacras
ondas desiguais do mar na praia
estrondos violência em sons espetaculares

como o mar se comporta mediante
Impassibilidade das rochas
recontam o amor louco e estupendo
em tuas rochas abres fenda e adentro
enquanto mar no ímpeto

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Díptico poético da alma ferida

Ella Dominici: ‘Díptico poético da Alma Ferida’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada pela IA do ChatGPT – 15 de janeiro de 2026, às 23:33 PM (https://chatgpt.com/s/m_6969a366c2d08191a4b2ec749fbfd459)

Aos judeus do século XIX Dreyfusards (em ressonância com Yehuda Amichai)

Onde a certeza endurece a terra…

Onde a certeza endurece a terra,

nada consente em nascer.

Ali a justiça caminha sem hesitar,

com os olhos fechados à voz humana.

A verdade não ama o solo rígido.

Prefere a terra revolvida

pelas perguntas,

pelas mãos que tremem

antes de condenar.

É no intervalo da dúvida

que o ser humano ainda respira.

E somente ali

algo de justo

ousa permanecer humano.

(em ressonância com Nelly Sachs)

Vigília de Cinzas

Da dor das acusações injustas

As cinzas não desaparecem.

Permanecem suspensas

na memória do mundo.

Dessa poeira ardente

nasce uma vigília silenciosa —

não para acusar os mortos,

mas para impedir que o esquecimento

se torne cúmplice.

A dor não é um peso,

é uma chama frágil

confiada aos vivos.

Algumas perdas exigem fidelidade.

E algumas almas

só encontram repouso

quando a memória

aprende a cuidar

dos que virão


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Lavanda, amor em flor

Ella Dominici: Poema ‘Lavanda, amor em flor’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada por IA da Meta
Imagem criada por IA da Meta

antes de encontrar-te em sonhos
para assim atingir minha utopia
lavei-me toda todo tudo em lavanda
mãos impregnadas pela essência
teceram um jardim na pele
e em todos os escondidos
cantos floriu e riu

Violácea flor
cor de tanto amor campanil
se espreguiçou com voz
em falsete perfumando
a evolução dos sentidos
tranquila? paixão que aniquila!
todos sentidos coloridos de erva-anil

minha alma será eterna perfumada
será muda fala esperantista
ao despertar de mais utopias
esta ciranda inocente quase infantil
sangra, lava-me e leva-me a amar-te
LAVANDA…
Lavande, merci, je t’aime

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Meandros de rio

Ella Dominici: Poema ‘Meandros de rio’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada por IA do Bing - 12 de dezembro de 2025
Imagem criada por IA do Bing12 de dezembro de 2025,

O rio não é cenário.
Ele fala — não em voz, mas em sinais.
Seu fluxo, ora manso, ora urgente, traduz humores invisíveis,
e quem permanece à sua beira aprende a escutá-lo pela percepção que atravessa a pele
e alcança o interior da alma.

As margens murmuram histórias antigas;
o vento traz respostas que ninguém formula;
e o som da água, ao tocar pedras distintas, compõe significados
que não cabem em palavras, mas em sensações.

O voo dos pássaros risca o céu como pequenas frases do alto;
cada mudança de direção é aviso,
cada pouso, uma pausa;
cada revoada, um pensamento que se desprende do mundo.

Depois da chuva, a terra exala um cheiro quente, quase maternal,
como se afirma que o tempo sempre guarda alguma fertilidade,
mesmo quando se mostra hostil.
A fragrância sobe devagar, criando um diálogo silencioso
entre o visível e o que não se nomeia.

A paisagem inteira se comporta como consciência desperta,
como se o mundo pensasse e aguardasse ser compreendido.
E quem ali permanece, mesmo sem perceber,
entra nesse movimento de leitura,
onde cada detalhe — vento, água, folha, aroma —
é frase de um texto maior,
escrito pela própria existência.

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Ouro derretido à deriva

Ella Dominici: Poema ‘Ouro derretido à deriva’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada por IA do Bing (https://sl.bing.net/cA5FAA4aR6i) , em 04 de dezembro de 2025, às 15:38.

pergunta-me onde me achava morrendo
como um navio incendiado em alto mar
deixando tombar o ouro que se fundia em pleno amar lava
incandescente derretendo aos poucos a formar arte deslumbrante

sem ar no pulmão das águas frias
pergunta-me as palavras que te dissera
foram de audácia as correntes que te prenderam
algema líquida que te segurou bem firme
deixara-te deslizar como peixe escorrega das mãos
redimes, lembra-te e salta em águas conhecidas
reconhece teu habitat

peixe que passa por minhas pedras limosas de cheiro do mar
marulho te cante aos ouvidos
salgado salino ao teu paladar
brinda e não esqueças do molhado na borda da taça
folga-te das bolhas que se formam na boca que beijas
palavras poéticas feitas de um nada
se agitam e dizem o tudo de uma só vez

brigas comigo que o tudo é teu é meu
é demais e de mais ninguém
nademos sem rumo de mãos enamoradas
se me afundas te sossego, se te afundo nadas de braçadas
e boias de prazer comigo

olha-me molha-me debaixo d’água
meu corpo se dilui e a visão é ilusão
o movimento é nosso no insustentável
até que morras até que acordes
de tuas águas que me quiseram e me amaram
pergunta-me onde me achava
morrendo como um navio incendiado em alto mar,
à deriva

Ella Dominici

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O que mora na seca do sonho

Ella Dominici: ‘O Que Mora na Seca do Sonho’

(Serapião de Aurora, alter ego de Ariano Suassuna, alma sertaneja e verbo resistente)

Ella Dominici
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Imagem criada por IA do Bing
Imagem criada por IA do Bing

Sou aquele que inventa sede pra beber palavra.
Não tenho nome, tenho sina:
sou o riso que ficou preso no galope do vento,
sou o santo que erra rezando,
sou o ermo que sonha com mar.

Nasci do barro e da conversa.
Minha mãe foi uma nuvem com fome de chuva,
meu pai, um aboio que fugiu do curral.
Aprendi cedo que o verbo nasce de faca:
é cortante, mas abre caminho pro coração passar.

Falo o português que o sol ensinou —
cheio de calor, cheio de teimosia.
E quando a palavra falta,
invento um silêncio de passarinho.

Tenho dentro de mim um sertão que não cabe em mapa.
É um mundo de rezadeiras e vaqueiros,
onde o riso é remédio e a dor é professora.
Por lá, as histórias se deitam no chão,
esperando que alguém as acorde com fé.

Sou o auto e o milagre,
sou o palhaço que filosofou diante do altar,
sou o Cristo que sorriu do alto do gibão.
Sou o cavalo sem freio do pensamento nordestino,
que corre, tropeça, mas não se entrega.

E quando o céu se quebra em trovão,
eu digo: é Deus rindo alto de nós.
Porque até o divino, no meu sertão,
tem um sotaque de barro e poesia.

Ella Dominici

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