Sobre o poema A Albatroza

Ella Dominici: ‘Sobre o poema A Albatroza’

Ella Dominici
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A Albatroza nasceu de um diálogo entre a modernidade poética francesa e a condição contemporânea da mulher que pensa, escreve e contempla.

A inspiração inicial remete ao célebre poema O Albatroz, de Charles Baudelaire, no qual a ave majestosa, soberana nos céus, torna-se desajeitada e vulnerável ao tocar o convés do navio. Nessa imagem, Baudelaire reconheceu a condição do poeta diante de uma sociedade frequentemente incapaz de compreender a natureza do pensamento criador.

Em A Albatroza, essa figura é revisitada sob uma perspectiva feminina. A ave transforma-se em símbolo da mulher intelectual, da poeta, da escritora e da pensadora que, ao elevar seu olhar para além das convenções imediatas, frequentemente encontra incompreensão, censura ou estranhamento.

Há também uma discreta sombra de Stéphane Mallarmé, especialmente na presença do ‘branco’ como espaço de permanência do poema e na ideia de que o pensamento lança seus dados ao invisível. Entretanto, a obra não se limita à homenagem literária. Ela busca afirmar uma voz própria, onde contemplação, lucidez e sensibilidade coexistem.

A palavra Albatroza, criada pela feminização poética do albatroz baudelariano, torna-se mais que uma imagem: converte-se em arquétipo. Representa a mulher que aceita a altitude da reflexão sem renunciar à delicadeza, que suporta a incompreensão sem abandonar a própria voz e que encontra na escrita uma forma de permanência.

Se Baudelaire escreveu a queda do poeta, A Albatroza procura escrever a permanência da poeta.

Rute Ella Dominici

A Albatroza

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A mulher de espírito assemelha-se à albatroza das alturas,

abrindo suas asas ao vento com serena desenvoltura.

O voo lhe é contemplação,

onde a dúvida se transforma em lúcida razão.

Nos céus, lança pensamentos como dados ao invisível,

e seus versos aprendem a dizer o indizível.

Mas quando desce às terras ordinárias,

erguem-se as vozes telúricas, severas e contrárias.

Chamam excesso ao que é apenas ascensão,

confundem o silêncio com erro ou negação.

E riem da ave que não sabe caminhar

entre os passos apressados dos que temem pensar.

Assim, viva nos ares, torna-se estranha na terra;

suas vastas asas ultrapassam toda fronteira.

Contudo, entre vaias e juízos amargos,

permanece fiel aos seus horizontes largos.

Pois quando o tumulto terrestre se desfaz enfim,

resta o branco onde o poema retoma seu jardim:

o antigo voo da ideia que ousa ainda existir,

porque pensar é voar —

e voar é persistir.

Ella Dominici

L’Albatrosse

La femme d’esprit ressemble à l’albatrosse des hauteurs,

ouvrant ses ailes au vent avec une sereine grandeur.

Le vol est pour elle contemplation,

où le doute devient lumineuse raison.

Dans les cieux, elle lance ses pensées comme des dés vers l’invisible,

et ses vers apprennent à parler l’indicible.

Mais lorsqu’elle descend vers les terres ordinaires,

s’élèvent les voix telluriques, sévères.

Elles nomment excès ce qui n’est qu’essor,

confondent le silence avec quelque tort.

Et elles se moquent de l’oiseau qui ne sait marcher

parmi les pas pressés de ceux qui craignent de penser.

Ainsi, vivante dans les airs, elle demeure étrangère sur la terre ;

ses vastes ailes dépassent toute frontière.

Pourtant, au milieu des huées et des jugements amers,

son destin demeure fidèle à la lumière.

Car lorsque le tumulte terrestre s’efface enfin,

il reste le blanc où le poème reprend son chemin :

l’ancien vol de l’idée qui ose encore exister,

car penser, c’est voler —

et voler, c’est persister.

Ella Dominici

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Despedida

Ella Dominici: Poema ‘Despedida’

Ella Dominici
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Na estrada,

a lua envelhece.

Olhos cansados

de tantos milênios

perdem-se

nas curvas do tempo.

E despedem-se

as palavras.

Uma a uma,

recolhem-se

ao longo corredor da espera,

onde o silêncio

é terra,

é semente,

é repouso.

Abre-se então o mistério

para além da noite fria.

Ali,

os olhos fincados no céu

aguardam que a poeira assente,

que o rumor dos dias se dissolva,

que a memória do sol

abandone suas últimas cinzas.

Tudo se distancia.

Tudo regressa.

E o que parecia fim

desata-se em horizonte.

Há um deslumbre

na alva que raia,

um clarão sem nome

entre a ausência e o retorno,

como se a eternidade

respirasse devagar

atrás das manhãs.

Na estrada,

a lua continua.

E nós,

feitos luz desprendida do instante,

seguimos

para dentro do infinito.

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A aurora que te lembra

Ella Dominici: ‘A aurora que te lembra’

Ella Dominici
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E quando o sol enfim romper a noite, restará de ti apenas o rumor suave que a manhã carrega — o sopro que abandona os frutos, a claridade que se desfaz como cintilação nas folhas. Eu, apaixonado e cansado da própria febre, deixo que tua ausência se instale em mim como ouro tênue: relâmpago que não volta, sombra que respira. E nesse clarão que se dissolve, descubro que te amar é perder-te devagar, como quem bebe a luz até o último gesto do dia.

E quando a manhã chega, simples e sem cerimônia, descubro que ficou de ti apenas um jeito de luz na janela, um silêncio macio espalhado pela casa. Não é dor; é lembrança viva, dessas que aquecem devagar, como quem toca a água morna antes de mergulhar. Carrego tua ausência com a mesma ternura com que te buscava, e percebo — meio distraído, meio desarmado — que amar também é aprender a guardar o que não volta, e mesmo assim continuar esperando.

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Entre estilhaço e claridade

Ella Dominici: ‘Entre estilhaço e claridade’

Ella Dominici
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às 9h15

A carne não é triste; é translúcida demais. Leu-se o mundo até que as páginas perderam peso e restou apenas o brilho nu entre uma palavra e outra, como se o sentido tivesse migrado para o intervalo. Algo chama — não o mar visível, mas o rumor que antecede a onda, a vibração que percorre o vidro antes da fratura.

 Há um cristal no centro do peito: não é pedra, é memória suspensa, luz coagida em forma. Quando a brisa o atravessa, não sopra — fende. E os fragmentos não caem; flutuam, cada estilhaço guardando um rosto incompleto, um gesto repetido, uma infância que ainda não terminou de acordar.

Não se foge da transparência; ela persegue. O navio é interno, feito de nervuras frágeis, e suas velas são silêncios estendidos sobre o abismo. Parte-se sem mover-se. O cristal, perplexo, não sabe se é ferida ou revelação. Mas quando a luz insiste — branca, impiedosa — compreende que não é o golpe que o quebra, e sim o excesso de claridade.

Então canta. Não som: refração. E no canto invisível do vidro algo se recompõe sem retornar ao que era. O mar não aparece; apenas pulsa dentro da transparência. E o coração, entre um estilhaço e outro, aprende a permanecer.

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Corpo lume em terra

Ella Dominici: Poema ‘Corpo Lume em Terra’

Ella Dominici
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Nasci da argila e da espera.
Sou parte do barro que sonhou ser rosto e permaneceu espelho.
Carrego comigo as veias abertas do que sente demais,
e o pulso secreto das coisas que não sabem morrer.

Há em mim a casa e o exílio.
A casa é onde o olhar repousa,
o exílio é quando o olhar não se reconhece.
E sigo, em cada rua, plantando pequenas eternidades:
palavras, gestos, silêncios,
pedras transparentes que a vida deixa como migalhas do invisível.

O amor, esse desassossego manso,
anda comigo, calçado de areia e espanto.
Não pede posse — pede presença.
Ele chega como um sol que se desculpa por nascer tarde,
mas ainda aquece o corpo todo

Direi:
sou o que restou da travessia — e o que começa depois do naufrágio.
Sou mulher de sal e aurora,
carrego oceanos no peito e um punhado de luz no escuro.
Sigo, mesmo cega, coração conhece atalhos que a razão ignora.

E quando a noite cai, volto a ser
palavra de cura,de memória, de fogo.
Que sopra nas feridas e acende o invisível.
E ainda que o mundo me esqueça,
sei que a vida — essa antiga amante — sempre volta,
com o perfume do impossível.

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Invencível amor

Ella Dominici: Poema ‘Invencível amor’

Ella Dominici
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Imagem gerada pela IA da Meta
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Invencível é o amor que não se explica,
nem pede ao mundo licença para arder.
Chega em silêncio, habita e multiplica
o corpo alheio em casa de viver.

Eu te amo sem cálculo ou defesa,
com pele acesa e sede de verdade;
meu coração aprende outra linguagem
quando teu nome chama a claridade.

Em ti, desejo não é jogo ou cena:
é maré viva, é chama sem razão.
Teu toque rompe, em forma leve e plena,
as fortalezas frágeis da ilusão.

E ao te querer inteiro, reconheço:
há uma luz triste em tudo que é maior.
Mas fico, volto — e no mesmo tropeço
te amo mais, ainda que seja dor.

Invencível, assim se faz destino:
perder-se em ti — e, ao fim, achar caminho.

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Pequenas permanências

Ella Dominici: Poema ‘Pequenas permanências’

Ella Dominici
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A vida não começa em grandes inaugurações,
instala-se mansa nas frestas do instante.
As coisas mínimas guardam força secreta,
uma folha cai — mas cumpre seu trajeto.

Aprende primeiro o ar antes de tocar o chão,
que a acolhe antigo, sem qualquer alarde.
As formigas não pensam no amanhã distante,
carregam o agora com rigor delicado.

O peso que levam não as torna menores,
apenas ordena seu íntimo caminho.
O rio sabe bem do fim que o aguarda,
e ainda assim desenha curvas no tempo.

As flores não negam sua breve passagem,
abrem-se inteiras na exata duração.
Nós queremos fixar o que nasce em ciclo,
e esquecemos: crescer é também dissolver.

A finitude muda apenas a paisagem,
do visível tênue ao invisível pleno.
E viver, no fundo, é circular com o tempo,
como folhas, rios — retornando em silêncio.

Ella Dominici

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