Inimaginável

Evani Rocha: entre sombras, silêncios e a inquietante fronteira entre o que se perdeu e o que ainda pode existir

Evani Rocha
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Entre os conflitos e a ilusão, 

Você é a estrela ao amanhecer…

A triste ausência nas mãos

E a incerteza posta sobre a mesa

Entre os lençóis amassados, 

O cheiro de jasmim que se esvai com o vento,

As borboletas que não vieram

E a escassez da vida e do tempo…

Entre a saudade e as lágrimas, 

A gota fria sobre o cenho

A palavra presa entre os lábios,

 E o toque na pele encrespada…

Você é a chuva torrencial lavando o telhado, 

E a poeira que se assenta no caminho…

O riso e a dor da partida

O nó desfeito do nosso laço.

 Entre as pedras e os espinhos, 

Você é a flor que não desabrochou, 

As marcas de sol sobre face…

O respingo de luz que restou!

Você é o silêncio inquietante das calçadas 

E o vazio que não quis partir…

Você é meu tudo

 E um pouco mais do inimaginável…

As sombras de um passado esquecido 

E um futuro ansioso,

 Que não deixa minh‘alma dormir!

Evani Rocha

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Humana e previsível

Em ‘Humana e previsível’, Evani Rocha proporciona ao leitor um mergulho sensível nos meandros da alma que busca decifrar a vida de um jeito único!

Evani Rocha
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Eu queria escrever uma poesia única,

Lavar minhas veias com as palavras que brotam de minha alma

Eu queria entender a vida,

Escrever minha história em pergaminho,

Desbravar os caminhos dos sentimentos…

Eu queria uma aurora colorida, ou silenciosamente chuvosa…

Eu queria uma noite de inverno dentro de mim,

Pra ouvir meus pensamentos,

Decifrar a vida de um jeito loucamente meu!

Sem ponto e vírgula ou reticências.

Eu queria ver o tempo do avesso no reverso do espelho,

Trilhar os meandros desse trem, os vales

E as montanhas!

Colher flores do campo na primavera

E folhas secas no outono…

Eu queria ser breve nas minhas narrativas,

Não me exigir explicações, dizer sempre não de um jeito sutil!

Eu queria…eu queria….

Mas sou indecifravelmente humana e previsível!

Evani Rocha

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A árvore centenária

Evani Rocha: Do tronco ressequido ao sopro do primeiro broto, um conto profundo sobre como o amor materno vence a barreira do tempo.

Evani Rocha
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O céu escureceu de repente, bradou, rugiu e desabou em águas torrenciais. Um vendaval arrancou galhos e troncos das maiores árvores da floresta. Uma senhora-árvore centenária não suportou a força do vendaval. Lutou contra o vento, retorceu-se, mas foi vencida! Então, caiu desfalecida sobre os braços da terra-mãe. Deitou-se sobre o solo alagado e chorou, chorou muito…de seus estômagos abertos, as águas brotavam como nascentes, querendo viver…

Quando a tempestade cessou, tudo se acalmou e o burburinho da floresta voltou ao trivial. Exceto aquele espaço ocupado pela árvore, agora, era um triste vazio…

A árvore tentou mover seu grande tronco, muito dolorido. Mas viu suas raízes axiais expostas, dilaceradas, arrancadas…

Dos seus grandes galhos-braços, as folhas caídas estavam espalhadas pelo chão da floresta, à revelia.

Ela olhou em prece para o céu. Viu o azul profundo, abrindo-se num clarão…era o sol! A árvore esfacelada mal podia abrir seus olhos-estômatos das poucas folhas que ainda aderiam a seus galhos esguios. Mas esforçou-se ao máximo. Abriu-os vagarosamente e as lágrimas secaram!

Então, ela esperou…

Esperou pelos dias e pelas noites… Esperou o tempo passar, continuamente. Amanhecia e anoitecia, tudo igual! Mas a senhora-árvore continuava no mesmo lugar…

Perdeu todas as folhas e frutos…Foi secando-se, definhando, despedaçando-se aos poucos, no correr solitário do tempo. Tornou-se esquelética e fria. Tudo o que lhe restara foram os galhos e troncos ressequidos e quebradiços. À sua volta, formigas carregavam seus fragmentos, em fila indiana, incansavelmente.

No final do verão, a árvore soltava seus últimos suspiros, quando alguém cochichou ao seu ouvido: “mamãe…”

Era um bebê verdinho, quase pálido, recém-nascido. Despontava de uma semente sepultada sob ela…

A árvore, sem vida, sentiu algo renascer dentro de si… Era um bebê seu, que nascera de suas sementes jogadas pelo vento. Ali, sob ela, no solo encharcado pela tempestade, a sementinha alimentou-se de seus nutrientes e germinou.

Emocionada, a árvore-mãe pensou: “Minha morte não foi em vão! Ela trouxe vida, continuidade, sentido…”

Agora renascia em outro corpo, de um jeito próprio, fincando suas tenras raízes, ganhando novos pigmentos através do rei-sol…

Assim, de alguma forma, ela vivia novamente, para iniciar um novo e magnífico ciclo!

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Um dia na vida real

Um retrato cru da era digital, do desemprego e do silêncio na Avenida São João, por Evani Rocha

Evani Rocha
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Deita novamente no sofá, estica as pernas, levanta e aumenta a velocidade do ventilador de teto. Vai até a janela, puxa a cortina veneziana, olha a rua. O sol escaldante brilha no asfalto preto. Os carros se enfileiram no sinaleiro. Imagina o calor que os transeuntes devem estar sentindo. Vai até a geladeira, abre a porta, sente necessidade de comer algo, de preferência doce. Não está com fome. Começa abrindo os vários potes de plástico… quem sabe encontra algo interessante. Abre um, dois, três e, dessa vez, achou um pedaço de goiabada esquecido numa lata de sorvete.  Pensa rápido: ‘Acho que goiabada não estraga…’ Procura por um creme de leite, lógico, daria uma boa incrementada naquele achado. Oba! Encontrou na porta da geladeira em meio à algumas garrafas e potes com coisas não identificadas. Apanhou a caixa, balançou; tinha um restinho. Olhou a data. Estava vencido. Pensou novamente: ‘Creme de leite estraga…’. Resolveu deixar de lado. Ficou só com a goiabada mesmo.

Foi até ao armário da cozinha, abriu a segunda gaveta; os talheres estavam muito misturados. Mexeu, mexeu e finalmente encontrou um garfo. Espetou-o no pedaço de doce e jogou a lata dentro da pia, de qualquer jeito. Uma pilha de louça suja, saía para fora da cuba. Foi até ao sofá, deitou-se e recostou-se confortavelmente nas almofadas amassadas. Começou a degustar o doce. Seus olhos passeavam pelo ambiente. Seu cérebro processava, processava…reparou o lustre caindo, pendurado apenas por um fio, lembrou-se também da lâmpada queimada. Pegou novamente o celular. Passou rapidamente pelas redes, viu alguns vídeos e pulou vários. Abriu o Instagram, nenhuma novidade há vinte minutos. Começou a repassar algumas conversas antigas no WhatsApp. Ninguém havia falado com ele nas últimas seis horas. 

O doce acabou. Pôs o garfo sobre a mesinha de centro, juntamente com três copos sujos, que ali jaziam há pelo menos três dias. Continuou mexendo no celular. Nada lhe apetecia. Jogou-o no sofá; sentou-se. Foi até o banheiro e se olhou no espelho. Não tinha necessidade fisiológica. Enquanto se olhava no espelho, processava, processava…pensou em fazer a barba, talvez cortar um pouco os cabelos. As olheiras denunciavam as noites mal dormidas. Abriu a torneira da pia, enxaguou a boca, jogou água no rosto. De súbito ouviu um apito no celular, enxugou o rosto e correu para o sofá. Apanhou o celular, viu que havia uma mensagem nova no WhatsApp.

Um amigo perguntou se ele estava bem, porque estava sumido!? Teve vontade de responder que estivera muito ocupado, com muito trabalho…processou. Resolveu gravar um áudio; assim poderia explicar melhor. Começou a gravar: ‘Que nada, cara, estou sempre por aqui, sabe como é, as coisas estão difíceis, estou levando currículo em vários lugares…aguardando ser chamado em algum!’ Preferiu dizer a verdade. Não gostaria de aumentar seus problemas cometendo o primeiro pecado capital. 

Ficou à espera de que o amigo continuasse a conversa, mas nada, o aplicativo mostrava ‘mensagem não visualizada’. Processava, processava…Chegou à conclusão de que o amigo era só mais um daqueles que dizem: ‘Olha, você sabe como te considero, cara, se precisar de alguma coisa, é só falar!’. Estava cansado dessa hipocrisia disfarçada de amizade. Lembrou que sua conta bancária estava praticamente no vermelho; tinha que economizar o máximo que pudesse, pois não havia mesmo com quem contar. Também, lá se vão sete meses desempregado. Levantou-se novamente do sofá. Andou pela sala em círculos por algumas vezes. Processava, processava…o celular na mão, de segundo em segundo, passava por todos os aplicativos e redes sociais que frequentava. Nada, nada, nada…pensou que estava com ranço dessa tal tecnologia…

Foi até a geladeira pela enésima vez, agora não procurou comida, pois já sabia que seria em vão. Pegou uma garrafa de plástico transparente com água, procurou por um copo limpo, viu que toda a louça que tinha estava suja dentro da pia, pensou que não ligava para isso, pegou um copo de vidro com um resto de líquido escuro e jogou fora. Era certamente resquício do café fraco feito pela manhã daquele dia. Tomou a água em um só gole. Voltou à sala, rodou o dedo novamente nos aplicativos e redes sociais. Olhou a mensagem enviada ao amigo: ‘Não visualizada’. Processou, processou…Tinha certeza de que o tal amigo fingiu que não viu a mensagem. Pensou: ‘Ninguém quer se comprometer…’

Foi até a janela novamente. O sol já havia abaixado. Dali a pouco seria noitinha. Talvez saísse para dar uma volta com Leocádio, seu cãozinho poodle. Por pensar em Leocádio, atentou-se que por horas não o via. Deu uma volta no pequeno apartamento. Olhou pela sala e cozinha e foi até seu quarto. O cãozinho dormia o sono dos deuses sobre seu edredom, embolado. Suspirou aliviado e pensou que pelo menos alguém conseguia dormir naquela casa. Com o celular na mão, foi novamente até a janela da sala. Olhava as pessoas passando apressadas sobre a calçada estreita, pensou que certamente a maioria delas estava indo ou voltando do trabalho. Teve vontade de gritar, sabe-se lá o quê. Chamar um nome aleatório.

Mas quem iria ouvir um chamamento do terceiro andar daquele prédio antigo da avenida São João, se o barulho do trânsito era insuportável. Olhou novamente o celular. Processou, processou, processou… Nada de novo, nem uma mensagem, nem uma curtida na última foto postada…, ninguém falou com ele nas últimas duas horas. Exceto o tal amigo, que não tinha tempo para responder à mensagem.

Evani Rocha

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Olhos de poeta

Evani Rocha: Poema ‘Olhos de Poeta’

Evani Rocha
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"Mesa de madeira com uma rosa amarela, uma carta escrita à mão com caneta e uma taça com vinho, diante de uma janela molhada pela chuva com vista para um jardim."
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A Lua é poesia
Nas mãos do poeta
A noite é boêmia
E a taça é vazia

Na voz de um poeta
A aurora é colorida
A tarde é perfumada
E a estrada infinita

Os olhos deságuam
E as palavras cegam
Nos braços um nada
Nas mãos despedida

E o amor é flor
No verso sinestesia
A saudade é dor
A lida é peregrina

As estrelas cintilam
No céu de um poeta
Tem a noite e o dia
No caminho as pedras

Não há paz nem guerra
Nos olhos de um poeta
A vida é fugaz
E a morte etérea!

Evani Rocha

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Quando fores embora

Evani Rocha: Poema ‘Quando fores embora’

Evani Rocha
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Quando fores embora 

Lembra-te de deixares teu perfume 

Não derrames em vão o teu pranto 

Porque mais um dia morre…

Lembra-te que logo nascerá a aurora 

Beijando tua pele agridoce…

Quando fores embora 

Lembra-te de deixares tua pegada

Para que eu não me perca no caminho 

Até nossa casa…

Para que ainda regue o nosso jardim.

Lembra-te da floreira na janela 

E do mel de tuas mãos que me alimenta

Quando fores embora 

Lembra-te de deixares tua presença 

Nem que seja leve como a aura

E no ar o toque de tua essência

Lembra-te…

Lembra-te de nossos dedos entrelaçados 

E das promessas do ‘até o fim…’

Não chores pelo vazio da saudade

Pelos sonhos de outrora…

Lembra-te

Quando fores embora!

Evani Rocha

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O ébrio

Evani Rocha: Poema ‘O ébrio’

Evani Rocha
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Fotografia digitalizada mostrando um homem com roupas gastas e sujas sentado no chão de uma rua íngreme de paralelepípedos, em uma vila antiga. Ele está encolhido com a cabeça curvada sobre os braços e joelhos dobrados. Ao seu lado, no chão, há uma garrafa de vidro de bebida alcoólica deitada. Ao fundo, casas históricas de estilo europeu ladeiam a rua e o céu exibe um pôr do sol vibrante em tons intensos de vermelho, laranja e amarelo.
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Amanheceu ali na esquina úmida e lodosa.

Tinha na boca um gosto de zinabre.

A pele encrespada e fria

Pelo sereno da madrugada.

Todos já se foram…

Apenas a penumbra permanecia…

Há pouco ele se arrasta pelos becos da cidade morta.

Ainda tenta beber o último gole,

Mas suas mãos trêmulas não suportam o peso do cálice.

No horizonte, o sol quase desponta 

Em meio a um barrado cor de sangue…

É o anúncio de um novo dia!

Permaneceu ali:

Cabisbaixo e embriagado,

Não só pelo álcool, 

Mas pela angústia que lhe açolava o peito.

Nada a lamentar, nem forças para gritar…

O mundo emudeceu!

Sem jeito de ignorar a resignação…

Então, debruçou-se sobre os joelhos,

Vencido pela solidão,

E deixou o tempo dele se encarregar!

Evani Rocha

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