Rio de minha vida

Evani rocha: Poema ‘Rio de minha vida

Evani Rocha
Evani Rocha
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Tenho medo do rio, porque o vejo violento,
Caudaloso, cheio de cachoeiras e correntezas velozes…
Mas eu o admiro… pois é lindo, atraente,
E transborda vida.
Vida, em suas águas profundas e em suas margens arenosas.
Eu sei que há uma ponte…sei que posso atravessá-la, ou talvez,
Tentar atravessar a nado.
Porém, eu não sei nadar! E talvez não teria fôlego para tanto…
Porquanto, sei que se tentar atravessá-lo a nado,
Posso me afogar e, morrer.
Mas, se eu passar pela ponte, terei que bastar-me apenas à contemplá-lo de longe!

Eu vejo o rio, com suas águas borbulhantes e cristalinas,
Suas quedas d’água, suas pedras…
O rio é vida, portanto pode ser morte, quando excedemos nossos limites…
Quando extravasamos nossos ímpetos inconsequentes,
Quando somos insanos e deixamos nos guiar pelo ego!
O rio nos envolve e nos enlaça com suas águas em profusão,
Suas garras de águia, suas asas de falcão…

Eu sinto o rio, não o temo mais, porque venci a correnteza, pisei sobre as pedras e transpassei as profundezas…
Profundezas de mim, enquanto rio, enquanto águas turbulentas, por vezes, mansas e serenas.
Rio de minha vida, meus caminhos secos e poeirentos,
Enxurradas na tempestade…
Rio de minha estrada larga e transponível, jardim de margaridas e girassóis!
Rio dos meus últimos dias, águas banhadas de sol…
Águas turquesas, abissais, altivezas…
Eu, meu rio, minha ponte…
Eu, feita de pedras, quedas d’água
Borbulhas…
Margens…
Eu, grão de areia
Na vastidão do meu próprio rio!

Evani Rocha

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Tarde azul de primavera

Evani Rocha: Poema ‘Tarde azul de primavera’

Evani Rocha
Evani Rocha
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Conto os dias e as horas para te ver.
Já reguei o meu jardim,
Em breve as primeiras flores vão aparecer
E chamar as borboletas.
É primavera outra vez…
Eu sei que vais chegar em uma destas tardes
De brisa mansa e sombra na varanda,
Enlaçar meu corpo feito gavinhas…
Conto também as pedras do caminho,
E as centelhas que desprendem de meus olhos
Ao encontro dos teus…
São as luzes que te guiam até mim!
Conto mentalmente as curvas de teu corpo,
E o palpitar ligeiro dentro do meu peito.
Há pouco para entardecer,
O sol já se deita sobre as calçadas de pedra,
Os terreiros de terra, sobre os verdes prados…
Conto as horas enlouquecidas, que escorrem entre meus dedos,
Leves, sedentos… sobre a pele encrespada.
E assim, o sol vai escondendo-se no horizonte alaranjado.
Mais uma vez, rego o meu jardim,
E a mesma água que verte de meus olhos ansiosos,
Encharca a terra, renova as folhas das hortênsias
E abre uma rosa carmim…
Apenas uma rosa, de pétalas sedosas e perfumadas,
No fim desta tarde azul…
Conto o tempo em minutos e segundos,
Tropeço nos números,
Colho os últimos raios de sol,
Que logo se esvaem de minhas mãos,
Para repousar atrás dos montes!
Eu ainda te espero,
Mesmo que seja para os únicos sussurros deste final de tarde,
Ou para a infinitude de teus braços, numa noite enluarada!

Evani Rocha

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A greve dos bichos

Evani Rocha: ‘A greve dos bichos’

Evani Rocha
Evani Rocha

Não costumo escrever com frequência, mas hoje, isso é inevitável, pois aconteceu algo muito estranho comigo. 

Cheguei ao meu consultório, cumprimentei minha secretária e entrei. Percebi que havia dois pacientes aguardando, sentados nas poltronas da saleta de espera. Olhei o relógio, eram 06h45. Vi que não estava atrasada. Então sentei-me, liguei o computador, abri meu bloco de anotações, e conectei à lista de pacientes do dia. A primeira paciente era uma jovem senhora, por nome Esmeralda Borlok, 48 anos. Suspirei aliviada, olhei em volta, como estava tudo em ordem, apertei o botão de chamada. Após alguns segundos, ouvi uma batida e o movimento leve na maçaneta da porta. Levantei o rosto e deparei-me com uma senhora obesa, de pele clara, porém com manchas semelhantes a melasma, no rosto. Os olhos fundos mostravam também uma margem de olheiras considerável. Pediu licença, com uma voz rouca e cansada. Parece que havia corrido alguns quilômetros. Disse-me:

— Com sua licença, doutora! Bom dia! — respondi de pronto.

— Bom dia! Dona Esmeralda?

— Sim, sou eu mesma, doutora! — respondeu-me, meio encabulada.

— Sente-se, fique à vontade! — Eu disse, apontando para um estofado à minha frente. Foi quando a mulher deu dois passos para se sentar que percebi que mancava de uma perna. Enquanto ela se ajeitava na poltrona, vi que suas pernas e pés estavam inchados. Vestia uma saia jeans desbotada, uma camiseta branca e sandálias de dedo.

Assim que ela se acomodou, olhei em seu rosto e forcei um sorriso simpático, afinal, eu precisava lhe passar confiança. Ela retribuiu o sorriso, deixando à mostra as falhas que possuía em sua arcada dentária. Confesso que tive compaixão da mulher… afinal, a medicina não nos tira a sensibilidade.

Levantei-me com o tablet nas mãos, e parei à sua frente. Puxei uma poltrona e sentei-me a um metro, mais ou menos, da mulher. Comecei a conversar com ela, conferindo alguns dados, como: idade, endereço, se tinha filhos e quantos, se fazia uso de algum medicamento…. Na verdade, eu queria ganhar um tempinho, para que aquela senhora respirasse melhor, pois julguei que estivesse muito ansiosa, pela respiração ofegante que apresentara, quando entrou. Assim que ela se mostrou mais serena, levantei-me e puxei outra poltrona que ficava ao seu lado, próximo a sua cabeça; mas de uma forma que eu não via diretamente o seu rosto. Via-o somente pelo reflexo no espelho do lado oposto da parede.

Planejei um ambiente aconchegante em meu consultório, pensando exclusivamente no bem-estar dos meus pacientes. A poltrona é reclinável e favorece a vista para um jardim de inverno, com muitas folhagens e flores, as quais podem ser apreciadas através da parede de vidro que o separa da sala do consultório. Penso que esse ambiente transmite serenidade e paz. Deixando os pacientes mais relaxados.

Comecei a consulta, propriamente dita:

— Então, dona Esmeralda, o que a trouxe aqui? — perguntei com a intenção de fazer as anotações necessárias no bloco de notas, de uma forma que ela não percebesse, para não se sentir coagida ou incomodada. — A mulher pigarreou, engoliu, tirou os óculos e segurou-o sobre a perna esquerda. Esfregou os olhos, como se quisesse enxergar melhor as situações vividas na história. Logo começou a me explicar:

— Olha, doutora, eu vim aqui porque preciso saber da senhora sobre esses problemas de cabeça, viu? Meu marido anda falando que estou ficando louca… embora eu não acredite, ele insistiu para que eu viesse me consultar. Então, eu não quero fazer a senhora perder muito tempo comigo, não. Eu vou lhe contar o motivo dessa contenda e daí a senhora só me responde, e pronto, eu vou-me embora!

— Sim, claro, pois me conte… — disse calmamente.

— A senhora veja, eu sempre pensei que tratava as minhas aves muitíssimo bem, dou lhes ração de melhor qualidade, milho somente colhido no ano… troco a água dos galinheiros duas vezes por dia! E mais! Os ninhos são feitos de caixote de madeira boa e forrados com capim seco, macio… Mas a senhora não há de ver que, há poucos dias, peguei a galinha carijó, cochichando ao pé da orelha da galinha preta, Efigênia, atrás do pé de capim cidreira?! Elas não me notaram, pois escondi-me atrás do tronco da jaqueira, que é bem grosso… Logo a carijó, Magá, em quem eu tanto confiava… — Perguntei-a: 

— Hummmmm, o que diziam? Deu para ouvir…?

—Sim, sim! Deu para ouvir, porque fiquei bem pertinho. Elas reclamavam da quantidade e qualidade da ração e do milho, o mais estranho é que mostravam insatisfação, também, dizendo que a cama era dura, forrada com produto de última qualidade… cogitavam mobilizar todo o galinheiro, instigando a solicitação de melhorias. Efigênia confirmava tudo, balançando a cabeça positivamente. 

Saí de fininho, porque não saberia como argumentar com elas, tamanha era a cara feia das duas… logo imaginei as mesmas, fazendo motim no galinheiro e greve. Com certeza seria greve ‘ovo zero’! Desesperei-me, pois como iríamos nos manter sem o dinheiro da venda dos ovos? Meu marido, mal faz a capinagem do pomar, e olhe lá!

 Fui correndo contar ao marido, que me ouvia, mas tinha os olhos arregalados, parecia incrédulo. Na hora, eu não sabia se ele duvidava da história ou estava desesperado pela falta dos ovos e, consequentemente, do dinheiro. Mas depois, me disse de forma arrogante:

“Oxente, mulher! Desde quando galinha fala? Você está delirando? Deixa eu ver se tem febre…” — Eu já estava azucrinada, respondi-lhe:

“Ara homem, tu acha que sou mulher de faltar com a verdade! Vá lá fora, estão lá atrás das cidreiras! Já tem uma aglomeração de mais de 15 indivíduos! Logo vai ver a greve estourar! Vai vendo… depois não diga que não avisei!”

Fui pisando duro para o quarto e fiquei observando a movimentação deles por quase duas horas, até adentrarem para o galinheiro. É isso, doutora, digo, essa movimentação das aves, sempre reclamando dos cuidados e do alimento, tem sido diariamente… eu falo para o meu marido todos os dias, mas ele repete a mesma coisa… dizendo que estou enlouquecendo. E foi por isso que ele marcou essa conversa. Mas eu juro para a senhora, por tudo que é sagrado, isso é a mais pura verdade!

É certo taxar alguém de louco quando se está falando a verdade? É certo…?

 Eu também estava em choque, não sei se era pela possibilidade de crer na história da mulher ou se realmente eu achava, também, que ela era louca.

Respondi, com a voz trêmula, forçando para não mostrar insegurança.

 — Claro, claro! A senhora tem razão!

Vamos fazer um combinado? Eu vou lhe passar um remedinho, mas veja bem, ele é um ‘placebo’ ou seja, não tem nenhum princípio ativo. A senhora vai levar e tomar na frente do seu marido, daí ele vai pensar que está tudo certo, que a senhora está medicada! — Ela arregalou aqueles olhos pretos e fundos, interpelando-me:

— E quanto às galinhas, a iminência de uma greve… o que eu faço?

— Respondi apressadamente:

— Essa situação eu vou resolver pessoalmente para a senhora. Eu vou comunicar a secretaria de agricultura para fazer-lhe uma visita, então marque uma reunião com as aves, para resolver tudo da melhor forma possível! Pode ficar tranquila!

A mulher recebeu a receita com um largo sorriso, até o andar mancado, parece ter desaparecido. Agradeceu-me e fechou a porta atrás de si.

Rapidamente chamei a secretária e lhe comuniquei que não estava passando bem, que ela deveria remarcar a consulta do próximo paciente. Pedi desculpas e saí apressada do consultório. Precisava chegar em casa e tomar um banho da cabeça aos pés. Aquela história havia deixado-me zonza e enjoada.

Quando abri a porta do meu apartamento, levei o maior susto da minha vida! Meu cão, Caramillo, estava sobre uma cadeira, à frente da pia, com a esponja nas patas dianteiras, lavando a louça. Eu dei um grito e joguei a bolsa para cima, a qual bateu no vidro da cristaleira, estilhaçando-o, ao chão.

Caramillo me olhou de um jeito zombeteiro e disse:

– Ai, ai, ai! Agora, além da louça, vou ter que juntar os cacos desse vidro!? Esse mês terei que pedir um aumentinho no salário! Senão, pensar na possibilidade de uma greve… Ou a senhora pensa que só essa ração seca que me dá e essa cama dura, paga toda essa trabalheira?!

Evani Rocha

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Somos a ponte e a multidão

Evani Rocha: Poema ‘Somos a ponte e a multidão’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada pelo ChatGPT em 25 de maio de 2026, às 9h25

Somos a ponte sobre o rio
E a multidão a passar
A estibordo do navio
E o porão a naufragar

Somos calor de verão
Folhas secas no outono
Somos cada estação
Na insanidade dos sonhos

Somos o pó da estrada
E a ventania a soprar
As pegadas na areia
A maré a marejar

Somos feito andarilhos
Pelos caminhos da vida
Ora largo, ora estreito
Nos vales e na subida

Somos as pedras e as flores
A depender das emoções
As páginas escritas do livro
As vírgulas e os travessões

Somos sol ou somos chuva
A semente a germinar
Às vezes a erva daninha
A outras ervas, sufocar

Lua minguante ou cheia
Nós também podemos ser
Cada um tem o seu jeito
De brilhar ou de esconder-se

Somos os homens que lutam
Sob o reinado insolente
A mesa posta e a fartura
A fome do inocente

Somos pais e somos filhos
O abraço e a ausência
Um sorriso escancarado
Ou o pranto incontido

Somos parede e telhado
Por vezes, somos o piso
Somos trem descarrilhado
A estação e os trilhos

Somos aves, somos bichos
A terra e a serrapilheira
O lugar de cada nicho
A serpente e a sereia

Somos águia a voar
Por sobre montes e vales
A procura de um tudo
Ou tão somente, um nada

Somos presa e predador
O caos e a sobriedade
O ataque e a defesa
A fome e a saciedade

Somos céu e arco-íris
Das cores, a aquarela
O pincel e a pintura
O ramalhete na janela

Somos o mar e a maresia
A areia branca e o véu
As ondas na maré cheia
O mel da boca e o fel

Somos água turbulenta
Por vezes, somos serenas
Somos fossas abissais
Morando dentro da gente

Somos a mala e o conteúdo
A poltrona e a passagem
O túnel no viaduto
E as sombras da viagem

Somos chegada e partida
Quem vai embora ou quem fica
As medalhas da vitória
E as flores da despedida

Somos nossa própria história
O epitáfio na lápide fria
A desculpa na retórica
E a pálida fotografia

Somos a ponte sobre o rio
E a multidão a passar
Os olhos no infinito
E as mãos em prece a rogar!

Evani Rocha

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Ei! Menino!

Evani Rocha: Poema ‘Ei! Menino!

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada pelo ChatGPT – 18 de maio de 2026,
às 8h50

Ei! Menino!

O que tem no fundo dos teus olhos?

Será o teu destino, ou será o sol?

Menino…

Consegue contar as pedras do caminho,

Ou as folhas secas caídas nas veredas?

Menino, trazes nas costas a mochila do colegial,

E assovia feito passarinho…

Cadê as bolas de gude, menino?

Cadê o carrinho de madeira?

Por certo, está esquecido no terreiro

Ou jogado fora, tão somente!

Ei! Menino!

O que trazes entre as mãos?

Será o teu futuro desenhado à grafite,

Ou a aquarela do arco-íris?

Menino, de pés no chão,

De cabelos ao vento…

Abra teus braços, rasgue o véu,

Deguste o mel de tua boca…

Quebre esse silêncio,

Grite aos quatro cantos do mundo, menino!

Saiba que és capaz de contar as estrelas,

E se quiseres, és capaz de abraçar o céu!

Evani Rocha

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Ah, quem me dera!

Evani Rocha: Poema ‘Ah, quem me dera!’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada pelo ChatGPT, em 14 de maio de 2026, às 8h55
Imagem criada pelo ChatGPT, em 14 de maio de 2026, às 8h55

Ah, quem me dera ser um passarinho

Para voar no céu de tua boca!

Ou borboletas esvoaçantes

Sobre as flores do teu jardim…

Quem me dera ser a dama do teu palco

Ou a tua arte preferida…

Podia até ser uma folha caída,

Nas sendas do teu caminho…

Ah, quem me dera ser o abraço na despedida

E as lágrimas de alegria no reencontro!

Ou, quem sabe, a aurora dos teus dias…

Quem me dera ser a lua cheia

Na tua janela,

Ou a porta aberta na tua chegada…

Se eu pudesse, certamente, seria a luz das estrelas

Flamejando na vastidão dos teus olhos!

Evani Rocha

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Parece que foi ontem

Evani Rocha: Poema ‘Parece que foi ontem’

Evani Rocha
Evani Rocha
magem gerada pela IA do Bing - 05 de maio de 2026, às 07;41
Imagem gerada pela IA do Bing – 05 de maio de 2026, às 07;41

Parece que foi ontem
Debruçada na janela
Olhando os pingos da chuva
Caindo sobre a poeira

Formando uma aquarela
Nos meandros do caminho
Nos sulcos rasos do rosto
Desenhados pelo tempo

Parece que foi ontem
Eu me lembro
Trouxeste-me uma flor
Na tarde azul de setembro

Talvez tenha sido um sonho
A mente a devanear…
Ainda sinto o perfume
Das águas calmas do mar

Dos seus olhos cor de céu
Da maciez da areia
Da brancura da espuma
Ou do canto da sereia?

Acho que foi ontem
Salvo engano
Ou estou a delirar?
O sal do mar sobre a pele
E o mel na boca a jorrar!

Evani Rocha

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