A estrada deserta do coração

Clayton Alexandre Zocarato e uma narrativa sensível sobre o tempo, a memória e tudo o que a pressa da vida moderna tenta silenciar

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Naquela cidade pequena, onde as ruas ainda pareciam conhecer pelo nome aqueles que passavam por elas, havia uma estrada que começava depois da última casa e desaparecia lentamente entre os cafezais, as árvores antigas e algumas propriedades esquecidas pelo tempo. Não possuía placa, não aparecia nos mapas mais recentes e quase ninguém se lembrava de onde terminava. Os mais velhos diziam apenas que aquela estrada sempre existira, como se tivesse nascido junto com a própria cidade.

            Chamavam-na de Estrada Deserta.

            Não porque fosse completamente abandonada, pois de vez em quando alguém ainda passava por ali com uma carroça, uma bicicleta velha ou uma caminhonete carregada de ferramentas.

             Era deserta porque, segundo os antigos, quem caminhava por ela começava a ouvir coisas que a cidade moderna havia aprendido a silenciar.

            O vento.

            Os pássaros.

            O próprio pensamento.

            E, sobretudo, o coração.

            A cidade havia mudado muito.

            Durante muitos anos, as pessoas deixavam as portas abertas durante o dia. As crianças brincavam nas calçadas até que alguma mãe aparecesse na esquina chamando pelo nome.

            Os homens se reuniam diante da venda depois do trabalho, enquanto as mulheres conversavam nas cadeiras colocadas nas calçadas, comentando a vida dos vizinhos, o preço do café, o casamento de alguém ou simplesmente o tempo.

            Havia pouca riqueza, mas existia uma espécie de abundância que não aparecia nos livros de economia.

            As pessoas tinham tempo.

            Tempo para conversar.

            Tempo para esperar.

            Tempo para visitar um doente.

            Tempo para sentar diante de uma praça e observar a tarde morrer lentamente.

            Com os anos, chegaram as,  máquinas, os telefones inteligentes, os aplicativos, os carros silenciosos, as entregas rápidas e a promessa de que tudo poderia ser feito sem que ninguém precisasse sair de casa.

            A cidade ganhou velocidade.

            Mas perdeu demora.

            E talvez tenha sido justamente a demora que um dia havia permitido que as pessoas se encontrassem.

            Seu Anselmo percebeu isso antes de quase todos.

            Tinha setenta e oito anos e ainda conservava uma pequena oficina de consertos de relógios numa rua próxima à praça central. A oficina era estreita, cheirava a madeira velha, óleo e café passado. Havia relógios pendurados pelas paredes, alguns funcionando, outros parados em horários diferentes, como se cada um guardasse uma pequena morte.

            Seu Anselmo dizia que relógio parado não era relógio quebrado.

            Era memória.

            — O relógio não deixa de existir porque deixou de marcar as horas — costumava dizer.

            Poucos compreendiam.

            Ele também já não fazia questão de explicar.

            Tinha aprendido que certas coisas somente são entendidas quando a vida nos coloca diante delas.

            Todas as manhãs, abria a porta da oficina às oito. Colocava uma cadeira na calçada e esperava os primeiros movimentos da cidade.

            Antigamente, conhecia quase todos.

            Agora conhecia apenas os passos.

            As pessoas passavam olhando para baixo, os olhos presos às pequenas telas luminosas de seus telefones.

            Às vezes, duas pessoas caminhavam lado a lado sem trocar uma palavra.

            Seu Anselmo observava aquilo com tristeza, mas não com raiva.

            Sabia que a modernidade não havia chegado para destruir ninguém.

            Ela simplesmente havia chegado prometendo facilitar a vida.

            E, sem perceber, havia começado a ocupá-la.

            Certa manhã, uma mulher chamada Helena entrou na oficina.

            Tinha pouco mais de quarenta anos e carregava uma expressão de cansaço que não parecia vir do trabalho. Pediu que Seu Anselmo consertasse um relógio de pulso que pertencera ao pai.

— Ele morreu há três anos — disse.

            Seu Anselmo pegou o relógio cuidadosamente.

            — E ele funcionava?

            — Funcionava.

            — Então por que parou?

            Helena ficou alguns segundos em silêncio.

            — Acho que parou quando meu pai morreu.

            Seu Anselmo olhou para ela.

            Não corrigiu.

            Não disse que relógios não possuem sentimentos.

            Apenas abriu a tampa traseira.

            — Às vezes, o mecanismo continua funcionando por algum tempo — falou. —   Mas chega uma hora em que a gente percebe que estava dando corda para uma lembrança.

            Helena sorriu tristemente.

            Era a primeira vez, em muito tempo, que alguém falava com ela sem tentar resolver sua vida.

            Naquela tarde, ela voltou para buscar o relógio.

            Seu Anselmo havia feito o conserto.

            Quando colocou o objeto no pulso, Helena ouviu o pequeno tic-tac.

            Por alguns segundos, pareceu escutar a voz do pai.

            Não uma voz verdadeira, mas aquela voz que a memória inventa quando sente falta de alguém.

            — Quanto devo?

            — Nada.

            — Como assim?

            — O senhor seu pai já pagou.

            Helena franziu a testa.

            — Pagou?

            — Pagou quando ainda estava vivo. Consertou meu telhado numa época em que eu não tinha dinheiro.

            Ela não se lembrava.

            Talvez porque a memória também seja uma casa cheia de quartos que esquecemos de visitar.

            Helena saiu da oficina olhando para o relógio.

            Na praça, os bancos estavam quase vazios.

            Um homem velho alimentava alguns pombos.

            Uma criança passava de bicicleta.

            Uma senhora atravessava lentamente a rua com uma sacola de pão.

            E por um instante a cidade pareceu voltar a ser aquela que existia antes dos telefones, antes das notificações, antes da pressa.

            Foi apenas um instante.

            Mas alguns instantes são maiores que muitos anos.

            Naquela mesma cidade morava Joaquim, antigo ferroviário.

            A estação havia sido desativada décadas antes. Restava apenas o prédio envelhecido, com suas paredes manchadas e a plataforma tomada por mato.

            Joaquim ainda ia até lá todas as tardes.

            Sentava-se num banco de madeira e ficava olhando os trilhos que já não levavam ninguém.

            Os jovens riam quando passavam.

            — Seu Joaquim espera o trem até hoje?

            Ele respondia:

            — Não espero o trem.

            — Então espera o quê?

            — O que o trem levou.

            Ninguém entendia.

            Talvez nem ele.

            Mas sabia que os trilhos tinham levado mais do que passageiros.

            Tinham levado uma época.

            Antes, quando o trem chegava, a cidade inteira parecia acordar. Havia vendedores, famílias, trabalhadores, estudantes, crianças correndo, malas, despedidas e reencontros.

            O trem era mais do que transporte.

            Era acontecimento.

            Hoje, tudo chegava rapidamente pelos caminhões, pelos aplicativos, pelas estradas asfaltadas.

            Mas nada parecia chegar de verdade.

            Joaquim dizia que uma cidade começa a envelhecer quando suas pessoas deixam de esperar umas pelas outras.

            E talvez tivesse razão.

            Na padaria de Dona Nair, o tempo ainda caminhava devagar.

            Ela acordava antes do sol e preparava o pão como aprendera com a mãe. Não utilizava grandes máquinas. Fazia quase tudo com as próprias mãos.

            A massa era sovada lentamente.

            O café era passado no coador.

            As portas eram abertas cedo.

            E havia sempre alguém sentado à mesa do canto.

            Dona Nair conhecia as histórias de quase todos.

            Sabia quem tinha filho estudando longe.

            Quem estava procurando emprego.

            Quem havia se separado.

            Quem estava doente.

            Quem fingia estar bem.

            Ela dizia que cidade pequena era como família.

            — Todo mundo sabe da vida de todo mundo.

            Depois acrescentava:

            — O problema é que hoje ninguém mais quer saber de verdade.

            O comentário parecia simples, mas carregava uma tristeza profunda.

            Porque saber não é o mesmo que conhecer.

            Hoje as pessoas sabiam onde as outras estavam.

            Sabiam o que comiam.

            Sabiam onde viajavam.

            Sabiam o que compravam.

            Sabiam o que fotografavam.

            Mas não sabiam quando alguém estava triste.

            Talvez a modernidade tivesse criado uma nova forma de solidão: aquela em que ninguém está sozinho, mas quase ninguém está verdadeiramente acompanhado.

            Naquela cidade, havia também Miguel, rapaz de vinte e seis anos, nascido ali, mas com os olhos sempre voltados para longe.

            Trabalhava remotamente para uma empresa de uma grande cidade.

            Passava o dia diante do computador.

            Recebia mensagens de pessoas que nunca havia visto.

            Participava de reuniões em que todos falavam, mas ninguém realmente conversava.

            Morava sozinho num apartamento pequeno.

            Tinha internet rápida, televisão enorme, celular moderno e uma geladeira cheia.

            Mesmo assim, algumas noites jantava sentado no chão porque não havia ninguém para conversar.

            Sua mãe morava duas ruas acima.

            Ele poderia visitá-la em cinco minutos.

            Mas quase sempre dizia:

            — Amanhã eu vou.

            O amanhã tornou-se um lugar onde muitas pessoas enterram seus afetos.

            Um sábado, Miguel decidiu caminhar pela antiga estrada.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez tivesse cansado de olhar para uma tela.

            Talvez estivesse cansado de si mesmo.

            Caminhou pela cidade, passou pela praça, pela antiga estação, pela padaria de Dona Nair e seguiu até o começo da estrada.

            O céu estava avermelhado.

            O campo tinha aquele cheiro úmido das tardes depois da chuva.

            Ao longe, ouviam-se algumas vacas.

            Era estranho perceber que ainda existiam sons que não pediam atenção.

            A estrada seguia silenciosa.

            Miguel caminhou.

            Depois de alguns minutos, encontrou Joaquim sentado à sombra de uma árvore.

            — O senhor vem sempre aqui?

            Joaquim sorriu.

            — Eu poderia perguntar o mesmo.

            Miguel sentou-se ao lado dele.

            Ficaram alguns minutos sem falar.

            Na cidade, o silêncio parecia constrangedor.

            Ali, não.

            Ali o silêncio parecia uma conversa.

            — O senhor não sente falta do trem? — perguntou Miguel.

            — Sinto.

            — Então por que continua vindo?

            Joaquim olhou para a estrada.

            — Porque sentir falta também é uma maneira de continuar amando.

            Miguel ficou quieto.

            A frase permaneceu dentro dele como uma pedra jogada num poço.

            Naquele momento percebeu que passara anos tentando fugir daquilo que sentia.

            Fazia compras para preencher espaços.

            Assistia a filmes para não pensar.

            Trabalhava para não lembrar.

            Conversava virtualmente para não precisar olhar alguém nos olhos.

            Acreditava que estar conectado era estar acompanhado.

            Mas talvez conexão fosse apenas uma palavra bonita para esconder a distância.

            Quando voltou para casa, encontrou sua mãe sentada na varanda.

            Ela segurava uma xícara de café.

            — Você sumiu.

            — Fui caminhar.

            — Sozinho?

            Miguel hesitou.

            — Nem tanto.

            Ela sorriu.

            — Então entrou em alguma estrada?

            — Entrei.

            A mãe levantou-se e foi buscar outra xícara.

            Não perguntou mais nada.

            Algumas mães sabem que certas perguntas precisam esperar.

            Sentaram-se juntos.

            Conversaram por quase duas horas.

            Falaram do pai.

            Da infância.

            Da antiga casa.

            Do quintal.

            Dos vizinhos.

            Da primeira bicicleta.

            Do tempo em que Miguel brincava na rua até anoitecer.

            Ele descobriu que sua mãe ainda guardava uma caixa com seus desenhos de criança.

            Achou engraçado.

            Depois chorou.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez porque percebesse que havia passado anos procurando novidades quando suas maiores riquezas estavam guardadas em caixas antigas.

            A cidade continuava mudando.

            Novos prédios surgiam.

            Casas antigas eram demolidas.

            A praça recebia novas luminárias.

            A antiga padaria ganhava uma máquina moderna de café.

            A estação permanecia fechada.

            A estrada continuava lá.

            E as pessoas continuavam envelhecendo.

            Seu Anselmo morreu numa manhã de inverno.

            A oficina permaneceu fechada por algumas semanas.

            Na porta, alguém colocou uma pequena fotografia dele sentado na cadeira da calçada.

            Abaixo, uma frase escrita à mão:

            “Consertava relógios, mas entendia de tempo.”

            Helena levou flores.

            Joaquim ficou em silêncio.

            Dona Nair preparou café para todos.

            Miguel apareceu com sua mãe.

            Foi uma despedida simples.

            Sem discursos.

            Sem música.

            Apenas algumas pessoas lembrando de um homem que havia passado grande parte da vida tentando impedir que as coisas desaparecessem completamente.

            Depois da morte de Seu Anselmo, Helena começou a visitar a praça todos os domingos.

            Joaquim passou a conversar mais com Miguel.

            Dona Nair colocou uma mesa maior na padaria.

            Aos poucos, outras pessoas começaram a aparecer.

            Não era um movimento organizado.

            Não havia projeto.

            Não havia aplicativo.

            Era apenas gente sentando perto de gente.

            Uma tarde, alguém levou um rádio antigo.

            Outro trouxe um álbum de fotografias.

            Uma senhora apareceu com uma receita de bolo que aprendera com a avó.

            Um antigo trabalhador da ferrovia levou fotografias da estação.

            As crianças começaram a perguntar sobre os trens.

            Os velhos começaram a contar histórias.

            E a cidade descobriu que memória não é apenas aquilo que ficou para trás.

            Memória também é aquilo que impede o presente de ficar vazio.

            Certa noite, Miguel caminhou novamente pela estrada.

            O céu estava cheio de estrelas.

            Pensou em todas as pessoas que haviam passado por aquela cidade.

            Algumas haviam partido.

            Outras haviam morrido.

            Outras continuavam vivas, mas distantes.

            Talvez a vida fosse uma longa estrada feita de encontros e ausências.

            Ninguém permanece.

            Nenhuma casa permanece exatamente igual.

            Nenhum amor permanece da mesma maneira.

            Nenhuma cidade consegue impedir o tempo.

            Mas isso não significa que tudo seja perdido.

            Há coisas que desaparecem dos olhos e permanecem no coração.

            Miguel entendeu então que a solidão não era simplesmente estar sozinho.

            Era perder a capacidade de reconhecer os outros.

            Era atravessar uma praça cheia de pessoas sem encontrar ninguém.

            Era possuir milhares de contatos e não saber para quem telefonar quando a noite ficava difícil.

            Era ter tudo imediatamente e não possuir ninguém com quem esperar.

            A estrada parecia interminável.

            Miguel continuou caminhando.

            Lembrou-se de Seu Anselmo.

            Do pai de Helena.

            Dos trilhos.

            De sua mãe.

            Da padaria.

            Das fotografias.

            De tudo aquilo que parecia pequeno demais para o mundo moderno, mas grande demais para desaparecer.

            Pensou que talvez o progresso não fosse o inimigo.

            O problema era acreditar que progresso significava abandonar tudo aquilo que nos tornava humanos.

            A tecnologia poderia aproximar distâncias.

            Mas não poderia abraçar ninguém.

            Uma mensagem poderia atravessar continentes em segundos.

            Mas não poderia substituir uma pessoa sentada ao nosso lado.

            Uma fotografia poderia guardar um rosto.

            Mas não poderia devolver uma voz.

            Um relógio poderia marcar as horas.

            Mas não poderia dizer o que fazer com elas.

            Miguel parou.

            Olhou para trás.

            A cidade estava iluminada ao longe.

            As casas pareciam pequenas estrelas espalhadas sobre a terra.

            Havia carros passando.

            Algumas janelas estavam acesas.

            Talvez alguém estivesse trabalhando.

            Talvez alguém estivesse chorando.

            Talvez alguém estivesse esperando.

            Ele percebeu que, apesar de toda a modernidade, ainda existiam pessoas desejando aquilo que sempre desejaram.

            Ser lembradas.

            Ser escutadas.

            Ser amadas.

            Ser necessárias.

            A estrada deserta não era realmente deserta.

            Estava cheia de ausências.

            Cada árvore guardava uma história.

            Cada curva escondia uma lembrança.

            Cada pedra parecia ter sido pisada por alguém.

            A solidão, pensou Miguel, não nasce apenas quando alguém vai embora.

            Às vezes ela nasce quando deixamos de olhar para aquilo que ficou.

            Na manhã seguinte, ele acordou cedo.

            Não abriu o computador.

            Não pegou imediatamente o telefone.

            Foi até a casa da mãe.

            Bateram café juntos.

            Depois caminharam até a praça.

            Encontraram Helena.

            Dona Nair apareceu com pão quente.

            Joaquim chegou mais tarde.

            Ninguém havia combinado.

            Era assim que antigamente as coisas aconteciam.

            As pessoas simplesmente apareciam.

            E talvez fosse essa a maior diferença entre aquele tempo e o presente.

            Hoje tudo precisava ser marcado.

            Agendado.

            Confirmado.

            Compartilhado.

            Antigamente, algumas coisas simplesmente aconteciam.

            E, quando aconteciam, ninguém precisava fotografar.

            Bastava viver.

            Ao meio-dia, Miguel voltou para casa pela mesma rua de sempre.

            Mas alguma coisa havia mudado.

            Não na cidade.

            Nele.

            A estrada continuava deserta.

            A estação continuava abandonada.

            Os relógios continuavam marcando horas diferentes.

            As casas continuavam envelhecendo.

            As pessoas continuavam partindo.

            Nada havia sido consertado.

            E talvez essa fosse a verdade mais difícil de aceitar.

            A vida não conserta tudo.

            Algumas coisas permanecem quebradas.

            Algumas ausências nunca deixam de doer.

            Algumas estradas não conduzem a lugar algum.

            Mas mesmo uma estrada sem destino pode ensinar alguém a caminhar.

            E talvez o sentido da vida não esteja em chegar.

            Talvez esteja em não atravessar o caminho completamente sozinho.

            Naquela noite, Miguel desligou o telefone.

            Abriu a janela.

            Ouviu o vento.

            Por alguns minutos, não fez nada.

            Apenas escutou.

            A cidade estava silenciosa.

            Muito longe, um cachorro latiu.

            Uma motocicleta passou.

            Uma porta se fechou.

            Depois, novamente, o silêncio.

            Miguel sorriu.

            Não porque tivesse encontrado uma resposta.

            Mas porque finalmente compreendera que talvez não precisasse de uma.

            O coração também possui suas estradas.

            Algumas são iluminadas.

            Outras desaparecem na escuridão.

            Há caminhos que seguimos por amor.

            Outros por medo.

            Alguns por necessidade.

            E existem aqueles que percorremos simplesmente porque não sabemos para onde ir.

            A estrada deserta continuaria ali.

            Esperando os passos daqueles que ainda tivessem coragem de caminhar sem pressa.

            Talvez um dia alguém encontrasse uma velha placa caída no mato.

            Nela estaria escrito apenas:

ESTRADA DESERTA DO CORAÇÃO.

            E talvez essa pessoa sorrisse.

            Porque descobriria que toda cidade possui uma estrada assim.

            Um lugar onde o passado não morreu completamente.

            Onde as vozes dos antigos ainda atravessam o vento.

            Onde a infância continua escondida atrás de uma árvore.

            Onde um trem inexistente ainda parece chegar nas tardes de domingo.

            Onde o cheiro de café lembra uma casa que já não existe.

            Onde uma fotografia antiga consegue fazer alguém chorar.

            E onde a solidão, por alguns instantes, deixa de ser ausência e transforma-se em memória.

            Porque talvez seja isso que nos resta quando o mundo corre depressa demais: Parar.

Olhar.

Lembrar.            

E reconhecer que, apesar de todos os caminhos modernos, ainda precisamos uns dos outros para atravessar a estrada deserta do coração

Clayton Alexandre Zocarato

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Elvis não morreu

Entre espelhos, nomes trocados e uma abdução extraterrestre, até Elvis Presley pode ter uma crise de identidade — aos 48 anos!

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Homem jovem de terno escuro com topete e costeletas, semelhante a Elvis Presley, em pé de frente para um espelho em um ambiente escuro e mal iluminado. No reflexo do espelho, aparece sua imagem encarando-o. Ao fundo, sentado no chão encostado na parede, um homem calvo de camisa verde-oliva olha para cima com expressão apreensiva. Cena em orientação retrato com clima tenso e cinematográfico.
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Acordou completamente grogue de sono naquele sábado, 16 de agosto de 2025. Levantou-se e se arrastou até o banheiro a fim de desaguar na privada, cuja tampa permanecia levantada desde que a esposa o abandonara por um praticante de artes marciais do Lago Sul. 

                Olhou-se no espelho e não conseguiu enxergar seus olhos azuis, já que eram castanhos, nem mesmo o topete, haja vista a calvície avançada. Os parcos cabelos, que ainda cismavam em se fazer presentes, que um dia teriam sido completamente pretos, agora dividiam o espaço com fios brancos. Tentou dizer algo e, talvez pelo bocejo que lhe tomou, a voz tenha saído fina como de costume, bem distinta daquela rouquidão aveludada que nunca teve. 

               — Pois é, seu Elvis Presley, o senhor chegou aos 48 anos. Aposto que você nunca se imaginou tão velho assim.

               Apesar do autodesprezo, o sujeito, mesmo desgastado pelo tempo, não poderia ser considerado um idoso. Tivera uma infância boa, mas a adolescência foi terrível, pois carregava o peso de ser xará do mais famoso cantor de toda uma geração, sem contar que o gajo parecia cada vez mais vivo a cada dia. E, tentando se afastar daquela sina, chegou a se apresentar com outro nome.

                — João, mas pode me chamar de Johnny.

                — Johnny?

                — Sim, Johnny.

                E o nome pegou tanto, que começou a causar problemas, a ponto do nosso Elvis, não daquele outro mais famoso, precisar ser enfático e dar um basta:

                — Meu nome não é Johnny!

               Por falar em nome, recebeu o seu por mera fatalidade. Quer dizer, mera é modo de dizer, já que o inesquecível dia 16 de agosto de 1977 foi marcado por um cataclismo, quando um certo rapaz de costeletas, que já não era tão rapaz assim, resolveu aceitar o convite de extraterrestres e, então, deu o pinote da Terra. Há outras teorias, bem sabemos, todavia, nenhuma tão plausível como essa. 

               Mas voltemos ao exato momento em que o nosso Elvis estava diante do espelho. Ele deu mais uma olhada em seu reflexo, abaixou a cabeça e lavou o rosto com uma boa quantidade de água gelada. E, assim que retornou os olhos para o espelho, viu algo quase inacreditável, caso não tivesse acontecido exatamente como aconteceu. Pois é, lá estava ele com o famoso topete, aqueles olhos azuis penetrantes, alto, esbelto, belo que nem, que nem, que nem… Ah, sim, belo que nem o outro Elvis, aquele mesmo que fora abduzido por alienígenas há exatos 48 anos. 

              Elvis de frente para o próprio Elvis. Como seria possível, ninguém sabia. Entretanto, antes que ele pudesse refletir sobre aquela alucinação, o coração parou e, finalmente, Elvis estava morto. 

Eduardo Cesario-Martínez

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Meu Remédio

SESI-SP apresenta Meu Remédio, comédia afetiva de Mouhamed Harfouch, em Itapetininga, nos dias 24, 25, 26 e 27 de setembro. A turnê inclui Sorocaba, Campinas e Ribeirão Preto

Cena do espetáculo 'Meu Remédio'  - Foto por Gustavo de Freitas Lara
Cena do espetáculo ‘Meu Remédio’ – Foto por Gustavo de Freitas Lara

O ator, cantor e compositor Mouhamed Harfouch leva o solo inspirado na própria história, Meu Remédio, aos palcos do SESI no Interior de São Paulo, em uma turnê de 24 sessões por cinco cidades. A estreia foi em Rio Claro no dia 3 de setembro e agora chega ao Teatro do SESI Itapetininga, Av. Padre Antônio Brunetti, 1360 – Vila Rio Branco, nos dias 24, 25, 26 e 27 de setembro. A circulação segue por Sorocaba, Campinas e Ribeirão Preto, com apresentações programadas até 1º de novembro. De graça.

A turnê de Meu Remédio pelo interior paulista faz parte da programação teatral do SESI-SP, que leva a seus teatros produções do circuito profissional escolhidas pela excelência artística, sem abrir mão da pesquisa de linguagem e da diversidade cultural na programação.

Cena do espetáculo 'Meu Remédio'  - Foto por Gustavo de Freitas Lara
Cena do espetáculo ‘Meu Remédio’ – Foto por Gustavo de Freitas Lara

Escrito, produzido e interpretado pelo próprio ator, com direção de João Fonseca (dos musicais Djavan – uma história pra contar, Tim Maia: Vale Tudo, Cazuza: pro dia nascer feliz e Cássia Eller, entre outros espetáculos), o solo autobiográfico chega premiado (Melhor Solo pelo Prêmio Arcanjo 2025 e Melhor Dramaturgia na FITA – Festa Internacional de Teatro de Angra dos Reis)  depois de reunir mais de 10 mil espectadores em três temporadas seguidas de casa cheia no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Com mais de 30 anos de carreira, Harfouch é filho de pai muçulmano sírio e mãe católica brasileira, criado no Rio de Janeiro nos anos 1980 entre duas heranças que levou tempo para conciliar. Meu Remédio nasceu, segundo o próprio autor, com vocação de estrada: “Eu quis criar esse espetáculo pra ser meu espetáculo de bolso, pra eu poder ter sempre debaixo do meu braço e levar pra onde pudesse”, conta. “Ele foi pensado pra ser simples, pra funcionar em qualquer lugar e poder ser adaptável.”

SESI Viagem Teatral

A programação teatral do SESI-SP leva ao palco uma seleção de espetáculos do circuito profissional escolhidos por excelência artística, pesquisa de linguagem e capacidade de adaptação a diferentes espaços de encenação. Por meio dela, plateias infantis, infanto juvenis e adultas do interior paulista têm acesso a criações de companhias premiadas no cenário nacional contemporâneo, o que amplia a diversidade e a qualidade da oferta cultural na região.

O projeto SESI Viagem Teatral, principal braço desse programa, leva produções de artes cênicas a unidades da instituição em todo o estado de São Paulo com três objetivos centrais: democratizar o acesso a espetáculos de qualidade, com entrada gratuita ou a preços populares; formar plateias, cultivando o hábito e o gosto pelas artes cênicas em públicos de todas as idades; e difundir a produção artística brasileira contemporânea, com ações formativas complementares, como oficinas e palestras, que ampliam o impacto da passagem por cada cidade.

Comédia afetiva

Cena do espetáculo 'Meu Remédio'
Foto por Claudia Ribeiro
Cena do espetáculo ‘Meu Remédio’
Foto por Claudia Ribeiro

Em 2020, ainda na pandemia, Harfouch e Fonseca haviam estreado on-line um primeiro monólogo do ator, Homem de Lata, sobre paternidade. Passada a pandemia, era desejo do diretor remontá-lo nos palcos, mas o ator sentiu que o texto tinha ficado datado e decidiu escrever uma história nova. Foi o início de Meu Remédio, que levou dois anos para ficar pronto. “Eu escrevia uma parte e deixava, tipo vinho, encostado”, relembra. “Achei que realmente eu não ia montar essa peça.”

Coube a Fonseca não o deixar desistir. “Se não fosse o João, eu não sei se eu teria elaborado tudo, porque ele ficava no meu pé”, reconhece Harfouch, que assumiu sozinho quase todas as frentes do projeto. “Nesse espetáculo eu fui meio polvo: escrevi, produzi, fiz a trilha, atuo”, brinca, e preferiu não também dirigir. “Eu tinha curiosidade, pensei em dirigir. Aí eu falei: não tenho condição, já faço muita coisa. E o João foi um parceiro fundamental, porque ele tem um olhar muito doce, muito assertivo.”

O processo de escrita funcionou também como elaboração pessoal, ainda que Harfouch nunca tenha feito análise. Muitos psicólogos, terapeutas e psicanalistas que assistiram ao espetáculo acharam que só podia ser fruto de anos de terapia e chegavam a chamá-lo de “paciente em remissão”. “Eu sempre dizia que nunca tinha feito análise”, conta. “Na verdade, o teatro foi meu grande terapeuta.” A definição que prefere para o gênero da peça nasceu da mesma lógica, quando descartou o rótulo “comédia terapêutica”, sugerido por parte da crítica: “É uma comédia afetiva”, corrige. Terapêutica, explica, soa clínico demais. Ele já perdeu a conta de psicólogos que o procuraram depois de assistir ao espetáculo.

Há ainda uma coincidência que o próprio autor gosta de destacar: Meu Remédio estreou, em janeiro de 2025, no mesmo teatro carioca onde Harfouch debutara como ator, 30 anos antes. “Tudo ligado. Muito simbólico”, resume. O resultado é, segundo ele, deliberadamente despretensioso. Chegou a resistir a incluir música e violão em cena, por temer parecer “aquele ator que quer mostrar que é polivalente”, até que as canções se encaixaram sozinhas na narrativa, como Carimbador Maluco, de Jorge Ben Jor, que dialoga com uma fala do próprio texto: “Meu nome era um carimbo, um rótulo, um crachá.”

Mais de 10 mil espectadores e duas temporadas esgotadas

A trajetória de Meu Remédio já rendeu números que poucos solos autorais alcançam. Depois da estreia carioca, em janeiro de 2025, e de passagens pela FITA (Festa Internacional de Teatro de Angra) e por Juiz de Fora, o espetáculo ficou em cartaz no Rio até agosto: praticamente um ano seguido de fins de semana em cena, segundo o próprio ator.

Em São Paulo, foram duas temporadas consecutivas: primeiro no Teatro Santos Augusta, entre fevereiro e abril, onde, nas palavras de Harfouch, “a gente bombou, lotou, esgotou”; depois no Teatro Multiplan, no Morumbi Shopping, onde soma quase cem apresentações. No total, mais de dez mil pessoas já viram a peça.

A crítica também endossou: em resenha de quatro estrelas, o jornalista Miguel Arcanjo Prado descreveu Meu Remédio como uma “sofisticada ode à ancestralidade” e “um antídoto contra o preconceito”.

Já Tânia Brandão, do blog Folias Teatrais, brincou com as farmácias vizinhas ao teatro para recomendar a peça: “esqueça a farmácia e escolha ir ao luminoso teatro, para tratar de si com mais carinho”.

Direção de João Fonseca é focada no ator

Cena do espetáculo 'Meu Remédio' - Foto: Cláudia Ribeito
Cena do espetáculo ‘Meu Remédio’ – Foto: Cláudia Ribeito

A direção de João Fonseca, ele explica, “é focada na atuação do Mouhamed e na sua capacidade em interpretar diversos personagens diferentes apenas através do seu trabalho corporal e vocal”. Fonseca diz que “o cenário e o figurino vão se transformando junto com o personagem, e a luz preenche o palco vazio ajudando a criar todos os lugares da jornada dele”.

João conheceu Mouhamed na Cia Limite 151 onde o ator fez uma substituição num espetáculo que havia dirigido. “Desde então queríamos trabalhar juntos. Antes da pandemia começamos a elaborar um projeto que teve que ser interrompido e se transformou no Homem de Lata, espetáculo on-line de sucesso. Assim que acabou a pandemia, retomamos a ideia de um espetáculo presencial e daí nasceu Meu Remédio.”

Diversidade e pertencimento

Cena do espetáculo 'Meu Remédio' - Foto: Cláudia Ribeito
Cena do espetáculo ‘Meu Remédio’ – Foto: Cláudia Ribeito

Se o ponto de partida é a própria biografia do ator (um pai que fala outra língua, uma família paterna que ele nunca conheceu pessoalmente porque ficou na Síria, um nome que soava estranho no Rio de Janeiro dos anos 1980), o alcance da peça extrapola a origem árabe.

“Esse espetáculo, na verdade, comunica com todo mundo que é imigrante. Não é sobre uma cultura, mas é sobre diversas culturas”, afirma Harfouch. Ele guarda um episódio recente como símbolo desse alcance: um jovem ator judeu assistiu ao espetáculo e voltou no fim de semana seguinte acompanhado do próprio pai, também judeu, que “adorou o espetáculo”.

Para o autor, o cerne da peça não é a xenofobia em si, mas o que ela provoca em quem cresce tentando pertencer a um lugar que não é totalmente seu. “A partir do momento que uma criança tenta repelir o seu nome e a sua origem só porque quer ser aceita, a gente está falando de camadas profundas, de um preconceito que o imigrante, ou o filho de imigrante, acaba importando: querer pertencer a uma coletividade que não é sua e negar a sua própria para poder existir”, explica.

Cena do espetáculo 'Meu Remédio' - Foto: Cláudia Ribeito
Cena do espetáculo ‘Meu Remédio’ – Foto: Cláudia Ribeito

Não é incomum, segundo ele, encontrar espectadores que já assistiram ao espetáculo cinco vezes e que, a cada nova sessão, levam um parente diferente. Crianças também aderem: “As crianças piram no espetáculo, porque é muito lúdico”, conta, lembrando que a turma inteira do filho, de nove anos, foi assistir. Não por acaso, a sinopse oficial resume o mote do texto numa frase que também funciona como sua segunda linha de assinatura: todo nome guarda uma história para contar.

Há também uma camada mais silenciosa por trás da peça. Harfouch estreou o espetáculo em janeiro de 2025 e, um mês depois, perdeu a própria mãe, a mesma que interpreta em cena, ao lado do pai e de outros personagens da família. “Minha mãe nem viu a peça. Não teve tempo”, diz. “São coisas que a gente não sabe o porquê, mas eu intuo que o teatro me fez escrever isso para ser meu processo de luto e de passagem.”

“Quando você fala da sua verdade, ela comunica, ela ecoa”, resume o ator, citando Liev Tolstói e Ariano Suassuna como referências para a ideia de que o regional, quando é verdadeiro, se torna universal. Há quem já sugira a Harfouch outros desdobramentos para a história (um livro, uma série, um filme), mas por ora ele prefere esgotar a temporada em palco: “Ainda tenho o Brasil inteiro para viajar com essa peça,” projeta.

Ficha Técnica

Idealização e texto: Mouhamed Harfouch. Elenco: Mouhamed Harfouch. Direção: João Fonseca. Figurinos: Ney Madeira e Dani Vidal. Cenário: Nello Maresse. Iluminação: Dani Sanches. Produção executiva: Edmundo Lippi. Coordenação geral: Gustavo Merighi. Operação de som e luz: Ícaro. Contrarregra: Marcelo. Programação visual: Lucas Sancho

Mídia e tráfego: GuiiuG Comunicação. Fotografia: Gustavo de Freitas. Assessoria de imprensa: Arte Plural — M. Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira. Realização: Gustavo Merighi Produções Artísticas.

Serviço

Meu Remédio — Turnê Sesi Interior de São Paulo

Comédia dramática de e com Mouhamed Harfouch. Direção de João Fonseca. Duração aproximada de 70 minutos. Classificação livre. Gratuito.

Itapetininga:

24, 25, 26 de setembro, às 19h.

27 de setembro, às 18h.

Teatro do SESI Itapetininga. Av. Padre Antônio Brunetti, 1360 – Vila Rio Branco. Tel.: (15) 3275-7960

Link para reservas:

https://www.sesisp.org.br/evento/ce23657c-7fb6-4bd7-ae57-29f0e99368cc/meu-remedio

Circulação pelo Interior

·   Sorocaba

Teatro do SESI Sorocaba. R. Gustavo Teixeira, 369. Tel.: (15) 3388-0444.

8, 9, 10, 11, 15, 16, 17 e 18 de outubro de 2026.

·   Campinas

Teatro do SESI Campinas Amoreiras. Av. das Amoreiras, 450 – Pq. Itália. Tel.:  (19) 3772-4100.

21, 22, 23 e 24 de outubro de 2026.

·   Ribeirão Preto

Teatro do SESI Ribeirão Preto. R. João Ignacchitti, 20-364 – Jardim Castelo Branco. Tel.:  (16) 3603-7300.

29, 30 e 31 de outubro e 1º de novembro de 2026.

Link com teaser em vídeo:
https://drive.google.com/file/d/191rT48ehRk84rx804ye7_6dflsmr-XyF/view?usp=sharing

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Comenda Tríplice Coroa do Renascimento

Alexandre Rurikovich Carvalho

Fundamentação Histórica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
Capa promocional com o título “Fundamentação Histórica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento“. À esquerda, foto do Prof. Dr.h.c. mult Alexandre Rurikovich Carvalho sorrindo e assinando um documento. Ao centro, a medalha dourada da comenda FEBACLA acompanhada pelas ilustrações dos mestres renascentistas Leonardo da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Rafael Sanzio, com a logo do Jornal Cultural ROL na parte inferior.

RESUMO

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento , instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), constitui uma distinção honorífica de natureza cultural destinada a reconhecer personalidades que tenham contribuído significativamente para as ciências, as letras, as artes, a educação, a pesquisa, a cultura e a valorização do conhecimento humano. Sua fundamentação simbólica inspira -se no legado de três dos mais importantes mestres do Renascimento italiano: Leonardo da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Rafael Sanzio, representantes de diferentes dimensões da extraordinária transformação artística e intelectual ocorrida entre os séculos XV e XVI.

O presente artigo analisa a fundamentação histórica, cultural e iconográfica da Comenda, demonstrando como seus elementos visuais, as três coroas, as figuras dos três mestres, o sol nascente, os raios luminosos, os ramos de louro, o círculo e a identificação institucional da FEBACLA, constituem uma narrativa simbólica sobre conhecimento, criação, harmonia, excelência e renovação cultural. Busca -se compreender o conceito de “renascimento” não apenas como referência histórica a um período da civilização europeia, mas como um princípio permanente de renovação do pensamento, da arte, da cultura e dos valores humanísticos.

A Comenda apresenta -se, assim, como uma homenagem contemporânea àqueles que, à semelhança dos grandes mestres renascentistas, dedicam suas trajetórias à produção, preservação, transmissão e transformação do conhecimento.

Palavras-chave: Renascimento. Leonardo da Vinci. Michelangelo. Rafael. História da Arte. Humanismo. Honrarias. Cultura. FEBACLA.

1 INTRODUÇÃO

Ao longo da história, as sociedades desenvolveram diferentes formas de reconhecer aqueles que contribuíram de maneira relevante para a construção do conhecimento, o desenvolvimento das artes, a educação, a ciência e a preservação da memória coletiva. Medalhas, comendas, títulos e distinções honoríficas constituem, nesse contexto, instrumentos simbólicos por meio dos quais uma comunidade manifesta publicamente sua gratidão e reconhece trajetórias consideradas relevantes para a sociedade.

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento, instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), insere -se nessa tradição de reconhecimento. Entretanto, sua proposta apresenta uma característica particular: sua simbologia está diretamente vinculada a um dos períodos de maior transformação cultural da história ocidental, o Renascimento, e especialmente ao legado de três artistas cuja produção alcançou dimensão universal: Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael Sanzio. O Renascimento não pode ser reduzido a uma simples mudança no estilo artístico. Constituiu um amplo processo cultural no qual diferentes formas de conhecimento passaram a estabelecer relações mais estreitas.

A recuperação da Antiguidade clássica, o desenvolvimento do humanismo, a valorização da observação da natureza, o aperfeiçoamento da perspectiva, os estudos anatômicos, a arquitetura, a escultura, a pintura, a filosofia e a literatura participaram de uma transformação intelectual que marcou profundamente a cultura europeia (Burckhardt, 2009; Gombrich, 2012).

Nesse cenário, surgiu uma concepção particularmente significativa do artista como um indivíduo dotado de capacidade intelectual, investigativa e criadora. Leonardo da Vinci tornou -se uma das expressões máximas dessa concepção, enquanto Michelangelo levou a escultura, a pintura e a arquitetura a uma dimensão monumental, e Rafael desenvolveu uma linguagem marcada pelo equilíbrio, pela harmonia e pela síntese. É justamente dessa complementaridade que nasce a concepção da Tríplice Coroa do Renascimento.

A Comenda não pretende estabelecer uma hierarquia entre os três mestres, tampouco afirmar que o Renascimento se resume às suas trajetórias. Ao contrário, Leonardo, Michelangelo e Rafael são utilizados como referências simbólicas de três dimensões fundamentais da cultura: o conhecimento, a criação e a harmonia. A insígnia da Grande Comenda traduz visualmente essa concepção. Três coroas aparecem na parte superior; abaixo delas, três figuras representam os grandes mestres; um sol nascente ilumina a composição; raios de luz irradiam -se pelo medalhão; ramos de louro envolvem a parte inferior; e, no centro da base, encontra – se a identificação da FEBACLA. Cada um desses elementos possui significado próprio e, simultaneamente, integra uma narrativa única.

O objetivo deste artigo é apresentar a fundamentação histórica, cultural e simbólica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento, demonstrando de que maneira sua iconografia estabelece um diálogo entre a tradição renascentista e o reconhecimento contemporâneo daqueles que dedicam suas vidas à cultura, à ciência, às letras, às artes, à educação e à construção do conhecimento.

2 O RENASCIMENTO E A TRANSFORMAÇÃO DA CULTURA OCIDENTAL

O termo Renascimento está associado a um amplo processo de renovação cultural que se desenvolveu inicialmente em diferentes centros da Península Itálica e, posteriormente, expandiu -se por outras regiões da Europa. Embora sua cronologia não possa ser delimitada de maneira absolutamente rígida, os séculos XV e XVI constituem o período fundamental para compreender o desenvolvimento de suas principais manifestações.

A ideia de “renascimento” esteve relacionada à recuperação e à valorização da cultura da Antiguidade clássica, especialmente dos modelos greco -romanos, mas não significou simplesmente uma reprodução do passado. Os humanistas renascentistas reinterpretaram a Antiguidade a partir das necessidades e dos questionamentos de seu próprio tempo.

Burckhardt (2009) destacou a importância do período para o desenvolvimento de uma nova consciência do indivíduo e da cultura. Gombrich (2012), por sua vez, demonstra como a história da arte renascentista está profundamente relacionada ao desenvolvimento de novas formas de representar o espaço, o corpo humano, a natureza e a experiência visual. A perspectiva matemática, os estudos anatômicos e a observação sistemática da natureza modificaram profundamente a produção artística.

O artista passou progressivamente a ser reconhecido como alguém que não apenas executava uma obra, mas que pensava, investigava e elaborava intelectualmente aquilo que produzia. Essa transformação explica por que o Renascimento permanece como uma das principais referências quando se pretende discutir a relação entre arte e conhecimento: a pintura deixou de ser apenas representação e tornou -se também investigação; a escultura deixou de ser apenas ornamentação e tornou -se expressão da condição humana; a arquitetura passou a combinar estética, matemática, funcionalidade e simbolismo. A arte, portanto, aproximou -se da ciência, da filosofia e da literatura. É nesse contexto que se encontra a origem conceitual da Grande Comenda.

3 LEONARDO DA VINCI: O CONHECIMENTO COMO CAMINHO PARA A CRIAÇÃO

Leonardo da Vinci ocupa posição singular na história da cultura ocidental. Pintor, desenhista, inventor, estudioso da anatomia, observador da natureza, engenheiro e pesquisador, Leonardo tornou -se o símbolo do chamado “homem universal” ( homo universalis) renascentista. Sua trajetória demonstra que a curiosidade intelectual pode ultrapassar fronteiras disciplinares.

Para Leonardo, compreender a natureza constituía parte essencial do processo criativo. Seus estudos anatômicos, por exemplo, estavam relacionados não apenas à curiosidade científica, mas também à necessidade de compreender a estrutura do corpo humano para representá -lo artisticamente. Obras como Mona Lisa, A Última Ceia  e A Virgem das Rochas  demonstram seu extraordinário domínio pictórico, mas seus cadernos e desenhos revelam igualmente uma mente dedicada à investigação de fenômenos naturais, máquinas, anatomia, água, voo e movimento (Gombrich, 2012).

A importância de Leonardo para a Grande Comenda encontra -se justamente nessa capacidade de unir arte e conhecimento. Por essa razão, sua representação na insígnia é compreendida como o símbolo da Coroa do Conhecimento . O conhecimento é a primeira condição do renascimento; não existe verdadeira renovação cultural quando a sociedade deixa de investigar, questionar e aprender. Leonardo representa, portanto, o pesquisador, o estudioso e o intelectual que jamais considera o conhecimento concluído. Sua figura na Comenda transmite uma mensagem especialmente significativa: renascer é também aprender novamente, investigar novamente e olhar para o mundo com curiosidade renovada.

4 MICHELANGELO: A GRANDEZA DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA

Michelangelo Buonarroti representa outra dimensão fundamental do Renascimento. Escultor, pintor, arquiteto e poeta, Michelangelo construiu uma trajetória marcada pela monumentalidade e pela intensa expressividade de suas obras. Sua produção escultórica, especialmente o Davi e a Pietà, tornou -se referência universal. Na pintura, a decoração da abóbada da Capela Sistina representa um dos maiores empreendimentos artísticos da história.

Entre 1508 e 1512, Michelangelo executou o afresco do teto da Capela Sistina, incluindo cenas do Gênesis, profetas, sibilas e numerosas figuras. Décadas depois, entre 1536 e 1541, realizou o monumental Juízo Final na parede do altar (Musei Vaticani, 2026). Sua obra demonstra que a criação artística pode alcançar dimensões que ultrapassam o simples domínio técnico. O corpo humano, em Michelangelo, torna -se instrumento para representar força, espiritualidade, movimento e dramaticidade. Na simbologia da Grande Comenda, Michelangelo representa a Coroa da Criação.

A criação constitui a capacidade humana de transformar uma ideia em realidade: o artista imagina aquilo que ainda não existe e, por meio de seu talento, transforma pensamento em obra. Esse princípio aplica -se também ao cientista, ao escritor, ao professor, ao pesquisador, ao compositor, ao arquiteto, ao historiador e a todos aqueles que produzem conhecimento. A criação é, portanto, uma das principais vias pelas quais o ser humano participa do processo de transformação da sociedade.

5 RAFAEL SANZIO: HARMONIA, BELEZA E HUMANISMO

Rafael Sanzio representa uma terceira dimensão essencial da cultura renascentista. Sua produção artística é frequentemente associada ao equilíbrio, à proporção, à clareza e à harmonia. Sua obra A Escola de Atenas, realizada nos Palácios Vaticanos, tornou -se uma das representações mais célebres do pensamento humanista renascentista.

Na composição, Rafael reúne importantes pensadores da Antiguidade em um espaço arquitetônico monumental. No centro encontram -se Platão e Aristóteles, representando diferentes correntes e filosofias. A pintura estabelece uma síntese entre filosofia, arquitetura, matemática, arte e conhecimento (Musei Vaticani, 2026), demonstrando que a pintura pode ser também uma representação visual da história das ideias. Rafael, portanto, simboliza a capacidade de harmonizar diferentes saberes. Na Grande Comenda, sua figura representa a Coroa da Harmonia . A harmonia não significa ausência de divergências, mas sim a capacidade de integrar diferentes elementos em uma construção maior e equilibrada. Ciência e arte, história e filosofia, literatura e educação, patrimônio e memória podem e devem dialogar. A cultura é precisamente esse espaço de encontro.

6 A TRÍPLICE COROA: CONHECIMENTO, CRIAÇÃO E HARMONIA

A expressão Tríplice Coroa do Renascimento nasce da união simbólica das três dimensões representadas pelos grandes mestres. Cada um deles encarna um princípio central para a construção da cultura e do saber: Leonardo da Vinci associa – se ao Conhecimento, simbolizando a investigação, a ciência, a curiosidade intelectual e a busca constante pelo saber; Michelangelo Buonarroti representa a Criação, expressando a força da arte, a transformação da matéria, a expressividade e a genialidade humana; e Rafael Sanzio encarna a Harmonia, traduzida no equilíbrio, na busca pela beleza, na síntese do pensamento e nos ideais do humanismo.

Essas três dimensões não funcionam de maneira independente: o conhecimento alimenta a criação; a criação transforma o conhecimento em expressão; e a harmonia integra conhecimento e criação em benefício da cultura. A Tríplice Coroa simboliza, assim, uma concepção integral da excelência humana. Não basta conhecer, é necessário criar; não basta criar, é necessário integrar; não basta produzir, é necessário transmitir; e não basta transmitir, é preciso contribuir para que as novas gerações continuem o processo de construção cultural.

7 A ICONOGRAFIA DA GRANDE COMENDA

A insígnia da Grande Comenda foi concebida como uma composição iconográfica na qual cada elemento possui uma função simbólica específica. A medalha não deve ser compreendida apenas como um objeto ornamental, pois sua estrutura constitui uma verdadeira narrativa visual sobre o Renascimento e sobre o ideal de excelência cultural.

7.1 As três coroas

No alto da medalha estão representadas três coroas, elemento que dá nome à honraria. A coroa, tradicionalmente associada à dignidade, à excelência e à distinção, assume aqui um caráter cultural e intelectual. As três coroas remetem aos três grandes mestres que inspiram a Comenda e representam os pilares simbólicos: Conhecimento, Criação e Harmonia. Não existe hierarquia entre elas; a disposição conjunta demonstra que a verdadeira excelência nasce da integração equilibrada dessas três dimensões.

7.2 As três figuras centrais

No centro da medalha encontram -se três figuras humanas que representam Leonardo, Michelangelo e Rafael . A representação é de natureza alegórica, destinada a evocar o legado dos mestres e não necessariamente a reproduzir retratos históricos rigorosos. Sua posição central reflete como os três artistas constituem a referência intelectual e estética fundamental da honraria.

Ao colocar os três lado a lado, a Comenda estabelece um diálogo permanente entre diferentes formas de expressão artística: Leonardo olha para a natureza e procura compreendê-la; Michelangelo transforma a matéria em expressão; e Rafael organiza beleza e pensamento em equilíbrio. Juntos, eles representam o ideal de uma cultura que recusa a separação absoluta entre arte e conhecimento.

8 O SOL NASCENTE COMO SÍMBOLO DO RENASCIMENTO

Um dos elementos mais expressivos da insígnia é o sol nascente, localizado na parte inferior da composição central. O nascer do sol constitui uma metáfora universal para renovação, esperança, conhecimento e recomeço, estabelecendo uma relação direta com o conceito de Renascimento. O sol que surge no horizonte representa a passagem da escuridão para a luz , no contexto da Comenda, essa transição expressa a passagem da ignorância para o conhecimento, do esquecimento para a memória, da estagnação para a criatividade, da ausência de perspectivas para a esperança e do silêncio cultural para a expressão artística. O sol representa, portanto, o conhecimento que nasce e se espalha, transmitindo uma mensagem essencial para o mundo contemporâneo: cada geração possui a responsabilidade de preservar o saber recebido e, simultaneamente, produzir novas formas de conhecimento.

9 OS RAIOS DE LUZ E A DIFUSÃO DO CONHECIMENTO

Os raios que partem do sol em direção às figuras centrais reforçam o simbolismo da iluminação. A luz representa o conhecimento compartilhado. Uma descoberta que permanece oculta não cumpre plenamente sua função social; da mesma forma, uma obra que não encontra leitores, espectadores ou estudiosos tem limitada sua capacidade de dialogar com o futuro. Os raios representam, assim, a expansão do saber através das gerações, estabelecendo uma ponte entre passado, presente e futuro. Os grandes mestres do Renascimento pertencem ao passado, mas sua luz continua a alcançar o presente. De modo análogo, aqueles que recebem a Grande Comenda são reconhecidos porque suas próprias realizações contribuem para iluminar o caminho das gerações futuras.

10 OS RAMOS DE LOURO E A HONRA

Na parte inferior da medalha encontram -se os ramos de louro, elemento tradicionalmente associado à vitória, à glória, à honra e ao reconhecimento, o que reforça o caráter honorífico da Comenda. Entretanto, nessa composição, a vitória não deve ser entendida como o triunfo de uma pessoa sobre outra, mas sim como: • a vitória da cultura sobre o esquecimento; • a vitória do conhecimento sobre a ignorância; • a vitória da memória sobre o apagamento da história; • a vitória da criação sobre a estagnação; e • a vitória da educação sobre a ausência de conhecimento. O louro simboliza a dignidade daquele que dedicou parte significativa de sua existência a uma causa cultural, artística, científica, intelectual ou humanitária.

11 O CÍRCULO E A CONTINUIDADE DA CULTURA

A estrutura circular da medalha também apresenta um significado importante. Por não possuir princípio nem fim delimitados, o círculo simboliza continuidade, permanência e eternidade. A cultura funciona de maneira semelhante: uma geração recebe conhecimentos de seus antecessores, acrescenta suas próprias contribuições e transmite esse patrimônio às gerações seguintes.

O Renascimento foi resultado desse processo de recuperação, interpretação e transformação do saber acumulado. A cultura nunca nasce do nada; é construída sobre o que foi produzido anteriormente. Por essa razão, o círculo exterior da medalha representa a continuidade da civilização e a transmissão incessante do patrimônio intelectual e cultural.

12 A FEBACLA COMO INSTITUIÇÃO DE RECONHECIMENTO CULTURAL

A identificação “FEBACLA”, presente na parte inferior da insígnia, estabelece a ligação entre essa rica simbologia e a instituição responsável pela concessão da honraria. A Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes assume a responsabilidade de valorizar trajetórias dedicadas ao saber e à cultura.

A Grande Comenda é coerente com essa perspectiva devido ao seu caráter interdisciplinar. A honraria destina -se a reconhecer personalidades com contribuições relevantes em diversas áreas, tais como: ciências, letras, artes, história, filosofia, educação, literatura, pesquisa, patrimônio cultural, comunicação, produção intelectual, humanismo e preservação da memória. Essa abrangência resgata o próprio espírito renascentista, no qual as fronteiras entre os saberes eram mais fluidas e integradas do que na estrutura acadêmica contemporânea.

13 O RENASCIMENTO COMO CONCEITO CONTEMPORÂNEO

Embora historicamente delimitado à Europa dos séculos XIV a XVI, o conceito de Renascimento assume um significado atemporal: Renascimento é renovação. Uma sociedade renasce quando valoriza sua história; uma cultura renasce quando preserva seu patrimônio; a ciência renasce quando novas perguntas são formuladas; a arte renasce quando novos artistas encontram novas linguagens; a educação renasce quando desperta a curiosidade; e a memória renasce quando o esquecido volta a ser estudado.

Por essa razão, a Grande Comenda não pretende apenas rememorar um período histórico, mas reconhecer pessoas que realizam processos de renovação cultural em seu próprio tempo. Aqueles que pesquisam, ensinam, escrevem, pintam, esculpem, preservam, restauram, educam e produzem ciência tornam -se agentes de novos renascimentos.

14 A GRANDE COMENDA COMO INSTRUMENTO DE MEMÓRIA

As honrarias cumprem igualmente uma importante função memorialística. Ao receber uma comenda, o homenageado recebe um símbolo que registra publicamente a relevância de sua trajetória. A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento cumpre essa função ao associar o homenageado ao legado de Leonardo, Michelangelo e Rafael. A mensagem implícita carrega elevada responsabilidade: quem recebe uma honraria inspirada nesses mestres é convidado a compreender o valor de sua própria contribuição cultural. Essa distinção não busca estabelecer uma comparação de genialidade, mas afirmar, simbolicamente, que o homenageado participa do processo de construção da cultura. A Comenda reforça que os valores de conhecimento, criação e harmonia permanecem indispensáveis à sociedade contemporânea.

15 A TRÍPLICE COROA E A EXCELÊNCIA HUMANA

A concepção da Grande Comenda também pode ser compreendida como uma reflexão sobre a própria ideia de excelência. A excelência, contudo, não significa perfeição absoluta, mas dedicação, competência, perseverança e contribuição. Leonardo ensina a importância da curiosidade; Michelangelo ensina a força do trabalho e da criação; Rafael ensina o valor do equilíbrio e da harmonia. A reunião desses ensinamentos produz uma concepção de excelência fundamentada em três perguntas centrais: • O que sabemos? • O que somos capazes de criar a partir desse conhecimento? • Como podemos utilizar aquilo que sabemos e criamos para contribuir com a sociedade? Essas três indagações sintetizam o verdadeiro espírito da Tríplice Coroa.

16 A GRANDE COMENDA E O HUMANISMO

O humanismo constitui outro aspecto fundamental para compreender a simbologia da honraria. O Renascimento recolocou o ser humano no centro de numerosas reflexões culturais, sem que isso significasse a negação da dimensão religiosa predominante na sociedade europeia da época. O interesse pela dignidade, pela capacidade intelectual, pela educação e pelas potencialidades humanas tornou -se uma das características marcantes da cultura humanista.

A obra de Rafael, particularmente A Escola de Atenas, é um exemplo eloquente dessa valorização do pensamento humano. A Grande Comenda recupera esse princípio ao compreender a cultura como instrumento de valorização da pessoa e da sociedade. Afinal, o conhecimento sem humanidade pode tornar -se mero acúmulo de informações; a arte sem humanidade pode perder sua capacidade de dialogar com a experiência humana; e a educação sem humanidade pode transformar -se em mera transmissão mecânica. O verdadeiro renascimento cultural exige, portanto, conhecimento acompanhado de responsabilidade social.

17 A COMENDA COMO PONTE ENTRE PASSADO E FUTURO

A principal força simbólica da Grande Comenda encontra -se na construção de uma ponte entre diferentes tempos históricos. De um lado, está o Renascimento italiano e seus grandes mestres; do outro, encontra -se o mundo contemporâneo e suas novas formas de produzir conhecimento. Entre ambos, situa-se a cultura. Leonardo, Michelangelo e Rafael pertencem ao passado, mas continuam presentes nos museus, nos livros, nas universidades, nas escolas, nas pesquisas, nas reproduções artísticas e no imaginário coletivo. Isso demonstra que uma obra cultural verdadeiramente significativa não se encerra com a morte de seu autor: ela continua viva enquanto houver quem a contemple, estude, interprete e transmita.

A Grande Comenda assume exatamente essa perspectiva. Ao homenagear uma personalidade contemporânea sob a inspiração dos mestres renascentistas, a FEBACLA estabelece uma continuidade simbólica entre aqueles que construíram a cultura no passado e aqueles que continuam a construí-la no presente.

18 O SIMBOLISMO DA GRANDE COMENDA TRÍPLICE COROA DO RENASCIMENTO

A análise conjunta de sua história e iconografia permite compreender a Grande Comenda como uma síntese articulada de valores: • As três coroas:  representam a excelência, a dignidade e a homenagem aos três grandes mestres. • Leonardo da Vinci: simboliza o conhecimento e a investigação científica. • Michelangelo: representa a criação e a força expressiva das artes. • Rafael Sanzio: encarna a harmonia, a beleza e o ideal humanista. • O sol nascente: simboliza o renascimento e a esperança. • Os raios luminosos: representam a difusão e a transmissão do conhecimento. • Os ramos de louro: expressam a honra, o mérito e o reconhecimento público. • O círculo exterior: representa a continuidade e a permanência da cultura. • A inscrição FEBACLA:  identifica a instituição que chancela esses valores na forma de uma distinção honorífica contemporânea.

O resultado é uma insígnia que conta uma história por meio de uma linguagem essencialmente simbólica. Ela comunica que o verdadeiro renascimento não pertence exclusivamente ao passado, mas acontece continuamente, sempre que alguém decide estudar, pesquisar, criar, preservar, ensinar e compartilhar.

19 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento apresenta -se como uma distinção honorífica cuja fundamentação ultrapassa a dimensão meramente protocolar de uma honraria visual. Sua concepção estabelece um diálogo fértil entre a história da arte, o humanismo renascentista e a necessidade contemporânea de valorizar aqueles que dedicam suas trajetórias à construção e à preservação do conhecimento.

A escolha de Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael Sanzio como referências simbólicas confere à Comenda uma identidade fundamentada em três dimensões essenciais do espírito renascentista: conhecimento, criação e harmonia. Leonardo representa a curiosidade intelectual e a investigação da natureza; Michelangelo simboliza a força criadora capaz de transformar matéria e pensamento em arte; Rafael representa o equilíbrio, a proporção e a capacidade de harmonizar diferentes formas de saber. As três coroas sintetizam esses valores, elevando -os à condição de princípios permanentes de excelência. O sol nascente acrescenta à composição a ideia fundamental de renovação, demonstrando que o conceito de Renascimento não deve ser interpretado apenas como uma referência cronológica.

Na perspectiva da Comenda, renascer significa renovar o conhecimento, preservar a memória, estimular a criatividade, valorizar a cultura e construir novas possibilidades para o futuro. A iconografia completa -se com os raios luminosos, que simbolizam a transmissão do saber; os ramos de louro, que representam a honra e o mérito; e a estrutura circular, que expressa a continuidade da civilização através das gerações.

Dessa forma, a Grande Comenda constitui uma homenagem ao passado, mas também um compromisso com o presente e o futuro. Sua mensagem essencial pode ser sintetizada em uma ideia: toda sociedade necessita de novos renascimentos. Quando um pesquisador descobre, um professor ensina, um escritor escreve, um artista cria, um historiador preserva, um cientista investiga ou um agente cultural mantém viva a memória de uma comunidade, ocorre um renovado ato de renascimento. Inspirada nos três grandes mestres do Renascimento, a Comenda estabelece uma concepção de reconhecimento baseada na certeza de que o conhecimento deve iluminar, a criação deve transformar e a cultura deve permanecer viva. Assim, as três coroas passam a constituir uma declaração de princípios: • Conhecer para compreender. • Criar para transformar. • Harmonizar para construir. • Preservar para transmitir. • Renovar para fazer renascer.

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento consagra, portanto, aqueles que fazem da inteligência, da criatividade, da cultura e do compromisso com a sociedade instrumentos de construção de um futuro no qual o legado das grandes civilizações continue a ser permanentemente reavaliado, reinterpretado e renovado.

REFERÊNCIAS

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte italiana: do Giotto a Leonardo. São Paulo: Cosac Naify, 2003. v. 2.

BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália: um ensaio. Tradução: Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 34. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.

GARIN, Eugenio. O homem do Renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1991.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. Tradução: Álvaro Cabral. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2012.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. Tradução: Maria Clara F. Kneese e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2007. (Coleção Debates).

MUSEI VATICANI. Cappella Sistina: storia della Cappella Sistina. Città del Vaticano: Musei Vaticani, 2026. Disponível em: https://www.museivaticani.va. Acesso em: 13 set. 2026.

MUSEI VATICANI. La Scuola di Atene. Città del Vaticano: Musei Vaticani, 2026. Disponível em: https://www.museivaticani.va. Acesso em: 13 set. 2026.

VASARI, Giorgio. Vidas dos artistas. Tradução: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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O inusitado dentro do coletivo

O coração tem razões que a própria razão desconhece… e o transporte público também

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma foto tirada dentro de um ônibus urbano em movimento. No lado esquerdo, um jovem casal está se beijando apaixonadamente no assento, com o homem segurando a mulher no colo. No lado direito, uma mulher sentada ao lado da janela ri, cobrindo a boca com a mão, enquanto olha para o casal. Outros passageiros são visíveis ao fundo, e uma rua da cidade pode ser vista pelas janelas.
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Entediada de ficar em casa, Salete decidiu, logo após tomar café, ir fazer uma visita à Paula, uma amiga que acabara de se separar. Não se sabe se houve traição ou, então, seriam meras incompatibilidades de convivência. O problema é que, já devidamente acomodada no banco do seu velho Chevette, girou a chave e nada do carango dar sinal de vida. 

          Salete girou duas, três, quinze vezes. E não era falta de gasolina, pois fazia apenas dois dias que ela enchera o tanque. Sem tempo de chamar um mecânico, resolveu se aventurar a andar de ônibus desde que trocara a minissaia por um emprego no Banco do Brasil. 

          Telefonou para Paula e disse que iria se atrasar. Aproveitou para saber qual o ônibus que passava mais perto. A colega lhe disse para pegar um táxi, que era mais rápido, mas Salete, talvez por economia, talvez por desejar um pouco de aventura, declinou.

          — Creio que será até bom relembrar os tempos de pobretona.

          — E por acaso ficou milionária e está escondendo o jogo?

          — Sou bancária e não banqueira, Paula.

          Já no ponto, Salete ficou atenta aos ônibus que chegavam e partiam, até que, finalmente, surgiu o seu. Um pequeno frio na barriga ao subir os degraus, pura falta de costume. Cumprimentou o motorista, um sujeito de bigode grosso e aparente educação. Em seguida, nova saudação, agora para o cobrador. Pagou-lhe, passou a roleta e, ainda perdida, escolheu um lugar no fundo do coletivo. Sentou-se.

          Salete buscou alguma distração olhando através da janela, mas duas vozes aflitas chamaram sua atenção. Era um casal, ao menos foi a impressão que teve, pois a conversa era carregada de sentimentos.

        — Você promete?

        — Vou ver se consigo, meu amor.

        — Ah, mas ontem você disse que iria.

        — Vou tentar. Te ligo antes do almoço. Pode ser?

         — Mas você promete?

         — Tá. Preciso descer no próximo ponto.

          O homem, antes de se levantar, deu um breve beijo nos lábios da mulher ansiosa por saber se a tal promessa se cumpriria ou não. Salete sorriu, como se desejando o mesmo para a conhecida de última hora, apesar de nem saber do que se tratava, muito menos quais eram os nomes dos pombinhos. 

        Voltou os olhos para fora do ônibus, quando viu o homem, passos apertados, indo em direção a uma padaria. Trabalharia ali ou, não era impossível, teria entrado apenas para comer algo ou comprar cigarros antes de ir para o emprego? 

           Quando ainda tentava desvendar aquele mistério, eis que um rapaz, 10 ou 15 anos mais jovem, entrou no ônibus e foi se sentar justamente ao lado da bonitona que queria porque queria que o marido (?) lhe prometesse algo que permanecia uma incógnita para Salete. E foi aí que algo inesperado aconteceu, como se quisesse provar que Blaise Pascal, filósofo e matemático francês do século XVII, não estava enganado: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

            — Você é louco!

            — Louco por você, meu amor!

            — Por que não esperou na outra parada? Você sabe que o Ademir sempre desce aqui.

            — Um pouquinho de perigo é bom pra apimentar a paixão.

            Beijaram-se, beijaram-se, beijaram-se, que Salete imaginou que talvez aqueles dois, certamente amantes, pensassem que estavam em uma boate ou num quarto de motel. 

            — Para! Não dá pra esperar?

            — Desculpe, Cíntia. É que estava com saudade. 

            — Também, tolinho. Ah, vem cá, Júlio!

            Salete, boquiaberta, tentou buscar algo fora do ônibus para disfarçar seu espanto. Óbvio que não iria falar nem sequer meia vírgula, mas não queria provocar constrangimento aos enamorados. Constrangimento? Será que aqueles dois sabiam o que era isso? Ela levou a mão à boca e sorriu sem provocar barulho. 

           Três pontos adiante, desceu quase em frente ao prédio da Paula. Conversaram por quase duas horas. Enquanto a agora separada falava mal do ex-marido, Salete não conseguia deixar de se lembrar do ocorrido dentro do coletivo. Tanto é que, durante quase um mês, visitou a amiga, não somente com o intuito de consolá-la, mas principalmente de reencontrar aquele trio inusitado.

            Nunca mais viu qualquer um dos envolvidos. Teria Ademir descoberto a traição? Ou Cíntia teria fugido com Júlio? Se ao menos ela tivesse a oportunidade de encontrá-los… Que fossem felizes. Era o que Salete desejou do fundo do coração. 

Eduardo Cesario-Martínez

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FEBACLA e Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente

Alexandre Rurikovich Carvalho

‘FEBACLA e Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente: distinção institucional, tradição e preservação da memória histórico-cultural’

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
Banner digital do Jornal Cultural ROL destacando o artigo do Prof. Dr.h.c. mult Alexandre Rurikovich Carvalho. À esquerda, o autor aparece sorrindo, de terno e gravata vermelha, sentado em uma escrivaninha de madeira com livros antigos empilhados e um globo terrestre dourado. No centro, o título principal diz: 'FEBACLA E CASA REAL E IMPERIAL DOS GODOS DE ORIENTE: DISTINÇÃO INSTITUCIONAL, TRADIÇÃO E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA HISTÓRICO-CULTURAL', seguido pela frase 'Duas Instituições. Duas Finalidades. O mesmo respeito pela história'. No topo, figuram os brasões oficiais da FEBACLA (com a inscrição Patrono D. Pedro II) e da Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente, ladeados pelas bandeiras do Brasil e de uma pintura clássica de Dom Pedro II. O plano de fundo mostra uma transição sutil para uma imagem do Museu Nacional no Rio de Janeiro. No rodapé azul-escuro, constam os créditos ao autor como Jornalista, Filósofo, Historiador e Pesquisador, ao lado do logotipo do Jornal Cultural ROL.
Banner digital do Jornal Cultural ROL destacando o artigo do Prof. Dr.h.c. mult Alexandre Rurikovich Carvalho. À esquerda, o autor aparece sorrindo, de terno e gravata vermelha, sentado em uma escrivaninha de madeira com livros antigos empilhados e um globo terrestre dourado. No centro, o título principal diz: ‘FEBACLA E CASA REAL E IMPERIAL DOS GODOS DE ORIENTE: DISTINÇÃO INSTITUCIONAL, TRADIÇÃO E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA HISTÓRICO-CULTURAL’, seguido pela frase ‘Duas Instituições. Duas Finalidades. O mesmo respeito pela história’. No topo, figuram os brasões oficiais da FEBACLA (com a inscrição Patrono D. Pedro II) e da Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente, ladeados pelas bandeiras do Brasil e de uma pintura clássica de Dom Pedro II. O plano de fundo mostra uma transição sutil para uma imagem do Museu Nacional no Rio de Janeiro. No rodapé azul-escuro, constam os créditos ao autor como Jornalista, Filósofo, Historiador e Pesquisador, ao lado do logotipo do Jornal Cultural ROL.

RESUMO 

O presente artigo aborda as diferenças de natureza, finalidade e atuação entre a  Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) e  a Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente. Embora  ambas possam manter diálogo e convergir na valorização da história, da cultura e da  memória, constituem estruturas institucionais distintas, com objetivos próprios.

O  estudo procura esclarecer especialmente a diferença entre honrarias acadêmicas e  culturais, de um lado, e referências, dignidades e tradições de natureza dinástica e  nobiliárquica, de outro. Analisa-se ainda o significado do patronato de Dom Pedro  II na FEBACLA, destacando seu reconhecido vínculo histórico com as ciências,  as letras, as artes e a preservação da memória.

Por fim, são apresentados os  princípios institucionais que orientam a Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente,  incluindo seu caráter apartidário, sua independência em relação a organizações  religiosas e a inexistência de pretensão territorial. Conclui-se que o respeito à  identidade e à autonomia de cada instituição constitui elemento fundamental para a  preservação da memória, da cultura e da responsabilidade institucional. 

Palavras-chave: FEBACLA; Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente; honrarias  acadêmicas; tradição dinástica; memória histórico-cultural.

ABSTRACT 

This article discusses the differences in nature, purpose, and institutional scope  between the Brazilian Federation of Academicians of Sciences, Letters and Arts  (FEBACLA) and the August and Sovereign Royal and Imperial House of the  Goths of the East. Although both may engage in dialogue and share an appreciation  for history, culture, and collective memory, they constitute distinct institutional  structures with their own purposes. The study seeks to clarify, in particular, the  distinction between academic and cultural honors, on the one hand, and references,  dignities, and traditions of dynastic and nobiliary nature, on the other. It also examines  the significance of Emperor Pedro II’s patronage of FEBACLA, emphasizing his  historical connection with science, literature, the arts, and the preservation of memory.  Finally, the institutional principles guiding the Royal and Imperial House of the Goths  of the East are presented, including its non-partisan character, independence from  religious organizations, and absence of territorial claims. It concludes that respect for  the identity and autonomy of each institution is fundamental to preserving memory,  culture, and institutional responsibility. 

Keywords: FEBACLA; Royal and Imperial House of the Goths of the East;  academic honors; dynastic tradition; historical-cultural memory. 

1 INTRODUÇÃO 

A sociedade contemporânea vive uma profunda transformação na forma de produzir,  compartilhar e consumir informações. As redes sociais ampliaram extraordinariamente  a circulação do conhecimento, mas também favoreceram a disseminação de  informações descontextualizadas, interpretações simplificadas e confusões  terminológicas. 

No campo da História, da cultura e das tradições honoríficas, essa realidade merece  atenção especial. Expressões como “título”, “comenda”, “medalha”, “patronato”,  “honraria”, “nobreza” e “dignidade” podem possuir significados distintos conforme o  contexto institucional em que são utilizadas. 

É nesse cenário que se apresenta a necessidade de distinguir a atuação da  FEBACLA – Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes da atuação da Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de  Oriente

A aproximação entre as duas instituições pode ocorrer no âmbito da cultura, da  história, da memória e da valorização das tradições. Entretanto, tal aproximação não  elimina suas diferenças fundamentais. 

A FEBACLA possui natureza e finalidade voltadas ao campo acadêmico, cultural,  científico, literário e artístico, enquanto a Casa Real e Imperial possui identidade  relacionada à tradição histórica, genealógica, dinástica, simbólica e  nobiliárquica

O objetivo deste artigo, portanto, não é estabelecer qualquer hierarquia entre as duas  instituições, mas esclarecer suas respectivas identidades e evitar interpretações  equivocadas.

2 A FEBACLA E O RECONHECIMENTO ACADÊMICO E CULTURAL 

A Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA desenvolve suas atividades no campo da cultura, das ciências, das letras,  das artes e do reconhecimento institucional daqueles que contribuem para essas  áreas. 

Dentro de sua finalidade, podem existir diferentes modalidades de reconhecimento,  tais como academias, cadeiras, títulos honoríficos, medalhas, comendas, diplomas e  outras distinções institucionais. 

Essas formas de reconhecimento possuem natureza própria e devem ser  compreendidas dentro do contexto da instituição que as concede. 

Uma questão, contudo, merece destaque: 

honraria acadêmica ou cultural não se confunde automaticamente com título  nobiliárquico. 

Ser acadêmico, membro, comendador, titular de medalha ou agraciado com uma  distinção da FEBACLA não significa, por esse simples fato, ingresso na nobreza. 

A distinção reconhece, dentro do âmbito institucional da Federação, determinados  méritos, contribuições ou trajetórias. 

Assim, a concessão de uma comenda ou medalha institucional deve ser  compreendida como manifestação de reconhecimento, e não como mecanismo  automático de transformação do agraciado em membro de uma ordem nobiliárquica  ou de uma estrutura dinástica. 

Essa diferenciação é fundamental para preservar a seriedade das próprias honrarias.

3 HONRARIA, TÍTULO E NOBREZA: UMA DISTINÇÃO NECESSÁRIA

A palavra “título” pode apresentar diferentes significados. 

No universo acadêmico, cultural e honorífico, pode representar uma distinção concedida em reconhecimento a determinado mérito. 

No universo nobiliárquico e dinástico, pode estar relacionada a uma tradição histórica específica. 

Da mesma forma, o termo “comenda” pode aparecer em diferentes contextos  institucionais e históricos. 

Por isso, não é adequado analisar uma honraria apenas pela sua denominação. 

É necessário considerar quem a concede, qual é a natureza da instituição  concedente, qual é a finalidade da distinção e dentro de qual tradição  institucional ela se insere.

A Constituição da República Federativa do Brasil protege a liberdade de expressão  intelectual, artística e científica e assegura a liberdade de associação para fins lícitos. 

Nesse contexto, instituições civis podem estabelecer mecanismos próprios de  reconhecimento e premiação dentro de suas finalidades, sem que isso signifique que  suas distinções possuam automaticamente natureza estatal ou nobiliárquica. 

Essa diferença conceitual é indispensável. 

4 DOM PEDRO II E O PATRONATO DA FEBACLA 

A escolha de Dom Pedro II como Patrono da FEBACLA possui profundo significado  histórico e cultural. 

O segundo e último imperador do Brasil é amplamente reconhecido por seu interesse  pelas ciências, pelas letras, pelas artes, pela educação e pelas novas tecnologias de  seu tempo. 

O Museu Imperial registra seu interesse por áreas tão diversas quanto História,  Filosofia, Música, Literatura, Biologia, Medicina, Química, Arqueologia, Matemática e  Astronomia, além de destacar seu incentivo às artes e a artistas de seu período. 

A Biblioteca Nacional também preserva importante testemunho desse interesse  intelectual. A coleção de D. Pedro II, especialmente a Coleção Thereza Christina  Maria, reúne aproximadamente 23 mil fotografias e foi incorporada ao Registro  Internacional da Memória do Mundo da UNESCO. 

Sua relação com a fotografia foi particularmente significativa. A Biblioteca Nacional  registra que D. Pedro II foi entusiasta e colecionador de fotografia e contribuiu para o  desenvolvimento dessa atividade no Brasil. 

Esses elementos ajudam a compreender por que sua figura histórica se mostra  adequada ao patronato de uma instituição dedicada às Ciências, Letras e Artes. 

O patronato, contudo, possui caráter histórico, simbólico e cultural. Ele não transforma a FEBACLA em instituição nobiliárquica. 

Também não representa, por si só, mecanismo de transmissão de títulos dinásticos  ou de nobreza. 

O nome de D. Pedro II é evocado em razão de seu legado e de sua importância para  a cultura e o conhecimento brasileiros. 

5 A CASA REAL E IMPERIAL DOS GODOS DE ORIENTE 

Em campo institucional distinto encontra-se a Augustíssima e Soberana Casa Real  e Imperial dos Godos de Oriente

Sua identidade está relacionada à preservação de uma tradição histórica,  genealógica, dinástica, simbólica e nobiliárquica.

Dentro desse universo, temas como precedência, dignidades, referências dinásticas,  genealogia, heráldica e eventual investidura nobiliárquica pertencem ao âmbito  próprio da Casa. 

Esses elementos não fazem parte das atribuições acadêmicas e culturais da  FEBACLA. 

É justamente essa separação de competências que permite compreender a  coexistência das duas instituições sem que uma seja confundida com a outra. 

6 O CONCEITO DE FONS HONORUM NA TRADIÇÃO DINÁSTICA 

A expressão latina fons honorum, tradicionalmente traduzida como “fonte de honra”,  aparece no vocabulário relacionado às tradições nobiliárquicas e dinásticas. 

No contexto histórico dessas tradições, o conceito está associado à autoridade ou  prerrogativa honorífica atribuída a determinadas casas soberanas, ex-soberanas ou  chefias dinásticas, conforme a tradição específica considerada. 

Entretanto, é importante estabelecer uma distinção metodológica. 

A utilização do conceito de fons honorum no âmbito de uma tradição dinástica não  deve ser automaticamente confundida com o reconhecimento, pelo Estado brasileiro,  de efeitos jurídicos de soberania ou de títulos de nobreza. 

Assim, no presente artigo, o conceito é utilizado no sentido histórico e dinástico, e  não como afirmação de exercício de soberania estatal. 

Essa ressalva é importante para preservar o caráter histórico-cultural da discussão. 

7 UMA CASA APARTIDÁRIA, ACONFESSIONAL E SEM PRETENSÃO  TERRITORIAL 

A Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente afirma  sua natureza apartidária

Isso significa que sua identidade institucional não está vinculada a partidos políticos,  campanhas eleitorais ou correntes político-partidárias. 

Sua tradição dinástica não deve ser utilizada como instrumento de disputa política. A Casa também se apresenta como sem vínculo religioso ou confessional

Não constitui igreja, denominação religiosa ou organização subordinada a  determinada confissão. 

Essa característica está em consonância com o princípio constitucional da liberdade  de consciência e de crença e com a separação entre Estado e organizações  religiosas. 

Outro ponto fundamental diz respeito ao território. 

A Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente não pleiteia, reivindica ou pretende  exercer soberania sobre territórios, Estados ou nações.

Seus títulos, símbolos e referências dinásticas devem ser compreendidos no campo  da tradição histórica e do patrimônio imaterial, e não como instrumentos de  reivindicação territorial. 

Tal posicionamento também deve ser compreendido em respeito à soberania dos  Estados e aos princípios de independência nacional, autodeterminação dos povos,  não intervenção e solução pacífica das controvérsias presentes no artigo 4º da  Constituição Federal. 

8 TRADIÇÃO NÃO SIGNIFICA DISPUTA 

A preservação de uma tradição dinástica não implica necessariamente uma  reivindicação de poder político. 

A História demonstra que símbolos, genealogias, brasões, títulos e tradições podem  sobreviver como elementos de identidade cultural e de memória. 

Preservar uma tradição não significa necessariamente pretender restaurar uma  determinada ordem política. 

Essa distinção é particularmente importante no mundo contemporâneo. 

A Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente compreende sua tradição como  patrimônio histórico e simbólico, devendo sua atuação ser interpretada dentro de seus  próprios princípios institucionais e em respeito às instituições constituídas. 

Tradição, nesse sentido, não deve ser confundida com disputa. 

9 AUTONOMIA INSTITUCIONAL 

A FEBACLA e a Casa Real e Imperial possuem autonomia em relação aos seus  respectivos campos de atuação. 

O ingresso de uma pessoa em uma instituição não gera automaticamente vínculo com  a outra. 

Uma pessoa pode integrar a FEBACLA sem pertencer à Casa Real e Imperial. Pode integrar a Casa Real e Imperial sem ocupar cadeira ou função na FEBACLA. 

Também pode manter vínculos com ambas, desde que sejam observados, de  maneira independente, os requisitos e procedimentos próprios de cada instituição. 

Essa possibilidade de coexistência demonstra que não existe incompatibilidade  necessária entre participação acadêmico-cultural e vínculo com uma tradição  dinástica. 

O ponto fundamental é não confundir as respectivas naturezas.

10 UMA MATRIZ COMPARATIVA 

Aspecto FEBACLA Casa Real e Imperial dos  Godos de Oriente 

Natureza predominante Acadêmica, cultural, científica,  literária e artística 

Histórica, genealógica,  dinástica e simbólica 

Fundamento do  reconhecimento 

Patronato/referência  

Mérito e contribuição cultural,  acadêmica, científica e artística 

Tradição e critérios próprios  da Casa 

Tradição histórica e  

histórica Dom Pedro II 

Honrarias Medalhas, comendas, títulos e  distinções institucionais 

Valorização das Ciências,  

dinástica dos Godos de  Oriente 

Dignidades e distinções  vinculadas à tradição própria  da Casa 

Preservação da tradição,  

Finalidade 

Letras, Artes, cultura e  conhecimento 

memória e identidade  dinástica 

Natureza política Cultural e apartidária Apartidária 

Natureza religiosa Institucionalmente cultural e  acadêmica 

Sem vínculo religioso ou  confessional 

Território Não possui finalidade territorial Não reivindica ou pleiteia  territórios 

Relação entre as  

instituições Independente Independente

11 CULTURA, MEMÓRIA E RESPONSABILIDADE INSTITUCIONAL 

A cultura brasileira é formada por múltiplas instituições, tradições, movimentos e  formas de organização. 

Academias, associações culturais, institutos históricos, museus, arquivos,  universidades, famílias tradicionais e casas dinásticas podem, cada qual dentro de  sua natureza, participar do processo de preservação da memória. 

O mais importante é que cada instituição tenha sua identidade claramente  estabelecida. 

Nesse sentido, reconhecer um escritor, pesquisador, artista ou cientista é uma forma  de valorizar a produção cultural contemporânea. 

Preservar uma tradição histórica e dinástica também pode representar uma forma de  conservação da memória. 

São manifestações diferentes, mas não necessariamente incompatíveis. 

O verdadeiro problema surge quando se confundem conceitos que possuem  naturezas distintas.

12 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A análise apresentada demonstra que FEBACLA e Casa Real e Imperial dos Godos  de Oriente são instituições distintas, independentes e dotadas de finalidades  próprias

A FEBACLA está voltada à valorização das Ciências, Letras, Artes, cultura,  conhecimento e produção intelectual, reconhecendo aqueles que contribuem para  esses campos. 

A Casa Real e Imperial, por sua vez, preserva uma tradição histórica, genealógica,  dinástica e simbólica própria. 

Consequentemente, uma honraria acadêmica não deve ser automaticamente  interpretada como título nobiliárquico. 

Uma comenda cultural não representa, por si só, ingresso na nobreza. O patronato de Dom Pedro II não transforma a FEBACLA em instituição dinástica. 

Da mesma forma, o pertencimento à FEBACLA não significa ingresso automático na  Casa Real e Imperial. 

A clareza desses conceitos contribui para a preservação da dignidade das próprias  instituições e das pessoas por elas reconhecidas. 

Mais do que estabelecer diferenças, este esclarecimento busca afirmar um princípio  essencial: 

cada instituição deve ser compreendida a partir de sua própria história,  natureza, finalidade e identidade. 

Em uma época marcada pela velocidade da informação, esclarecer é também  preservar. 

Preservar conceitos. 

Preservar a memória. 

Preservar a história. 

E, sobretudo, preservar a dignidade institucional. 

FEBACLA – Cultura, Ciência, Letras e Artes. 

Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente – Tradição, História e Herança Dinástica. 

Duas instituições. Duas finalidades. Respeito às suas respectivas identidades. Esclarecer é também preservar a verdade, a história e a dignidade institucional.

REFERÊNCIAS 

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF:  Presidência da República, 1988. Disponível em:  

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 10 set. 2026.

BRASIL. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Thereza Christina Maria. Rio de Janeiro:  Fundação Biblioteca Nacional, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/bn/. Acesso em: 10  set. 2026. 

BRASIL. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Coleção Thereza Christina Maria: álbuns  fotográficos. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional Digital. Disponível em:  https://bndigital.bn.gov.br/dossies/colecao-d-thereza-christina-maria-albuns-fotograficos/.  Acesso em: 10 set. 2026. 

BRASIL. MUSEU IMPERIAL. Almanaque do Museu Imperial. Petrópolis, RJ: Museu  Imperial. Disponível em: https://museuimperial.museus.gov.br/. Acesso em: 10 set. 2026. 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6022: informação e  documentação: artigo em publicação periódica técnica e/ou científica: apresentação. 2.  ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2018. 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: informação e  documentação: referências: elaboração. 2. ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2018. 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10520: informação e  documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2023. 

CARVALHO, Alexandre Rurikovich. Títulos de Nobreza Concedidos por Dinastias  Históricas. Jornal Cultural Rol, 3 jun. 2026. Disponível em: https://jornalrol.com.br/?p=81531.  Acesso em: 27 ago. 2026. 

SANTOS, Otávio Duarte. Certidão Genealógica, Heráldica e Parecer Histórico-Nobiliárquico.  Recife, 2012. 

UNESCO. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Paris, 2003.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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O princípio da reciprocidade voluntária

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo: uma reflexão sobre confiança, amizade e reciprocidade

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
Duas pessoas em gesto de confiança e reciprocidade, simbolizando amizade, lealdade e solidariedade nas relações humanas.
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Neste ponto da reflexão, a questão central que se nos coloca é saber em quem podemos confiar? Pode-se confiar em alguém, ao ponto de se divulgar a nossa vida, os nossos princípios, valores, sentimentos, emoções, desejos, projetos, problemas, até os mais íntimos, com a certeza de que as informações, os desabafos, ficam com esse alguém que, inteiramente, até consideramos, por exemplo, o nosso único, especial e maior amigo?

Existem, de facto, amigos íntimos, verdadeiros, incondicionais em quem possamos confiar? Em situações-limite, em que há interesses idênticos, em beneficiar de uma determinada oportunidade, pode-se contar com o apoio claro desse amigo, que consideramos verdadeiro? Ou, pelo contrário, haverá situações muito complexas, que nem ao nosso “amigo especial” se pode dar a conhecer?

Bom, das duas, uma: ou se tem um amigo verdadeiro, puro, incondicional, especial, e nele se pode confiar totalmente; ou apenas temos um amigo que o é enquanto lhe convier e que, em certas circunstâncias, abandona o amigo para se relacionar com outros alegados amigos, para obter determinados proveitos, ficando, praticamente, contra o primeiro!

Nesta última hipótese, este é o “amigo” em quem não se pode confiar, porque nos troca, sempre que a situação lhe convém. O amigo autêntico, solidário, leal, que está permanentemente do nosso lado, aquele que por nós tem um genuíno “Amor-de-Amigo”, é o mesmo que sabe colocar todas as situações no seu devido lugar e que, até espera do amigo todo o apoio, quando precisa de resolver algum problema mais complicado, incluindo aspetos do foro íntimo.

Rejeitar um amigo verdadeiro, puro e incondicional, trocando-o ou substituindo-o por outros interesses, situações e pessoas, não é próprio de quem se diz amigo e pode conduzir, inclusivamente, a grande mágoa, intensa dor, imenso sofrimento, desgosto profundo e morte, de quem é vítima da deslealdade de uma pessoa em quem se confiou tudo, em quem se acreditou, de quem se gostou sinceramente, sempre com respeito, com carinho e com meiguice.

A vida em sociedade, cada vez mais, pressiona as pessoas para terem de conviver com todas as outras, para, alegadamente, terem algum sucesso, numa qualquer atividade, quantas vezes, até para manter um relacionamento que convém, para se atingir determinados objetivos. Infelizmente, o “Saber-conviver-com-os-outros” pode transformar-se numa perigosa hipocrisia, em complicadas deslealdades, em faltas de solidariedade e numa pseudoamizade, de inaceitável conveniência. Então e uma vez mais, em quem podemos confiar? 

Devemos acreditar que temos capacidade, e vontade, para sermos verdadeiros amigos de outras pessoas, e que estas, de igual forma, podem retribuir, com a mesma sinceridade, amabilidade e consideração, incondicionalmente, a nossa amizade, assumindo atitudes de clara, inequívoca e permanente solidariedade, amizade, lealdade, confiança e disponibilidade constante para estar ao nosso lado, com valores, sentimentos, atitudes, objetivos e métodos idênticos, tal como nós nos revelamos e procedemos para e com essa pessoa. Funciona o princípio da reciprocidade voluntária. 

BIBLIOGRAFIA

BÁRTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2013). Rotas: Amigo Especial: Onde Estás? Págs. 06 e 60-a-69. Coedição. Organização de Clarisse Maia-Guedes. Rio de Janeiro/Brasil: Guemanisse

BERGOGLIO, Jorge, Papa Francisco, (2013). O Verdadeiro Poder é Servir. Por uma Igreja mais humilde. Um novo compromisso de fé e de renovação social. Tradução de Maria João Vieira /Coord.), Ângelo Santana, Margarida Mata Pereira. Braga: Publito.

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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