Expansão de consciência
SAÚDE INTEGRAL
Joelson Mora
Expansão de consciência, ancestralidade
e os limites entre cura e risco


às 12:00 PM
A busca humana por sentido, cura e transcendência não é algo moderno. Desde os primórdios, o ser humano recorre à natureza, aos rituais e à espiritualidade para compreender sua existência, aliviar dores e responder perguntas que o corpo sozinho não explica. Dentro desse contexto ancestral surge a Ayahuasca, uma bebida sagrada utilizada há séculos por povos indígenas da Amazônia.
Mas o que, de fato, é a Ayahuasca? Ela cura? Expande a consciência? Apresenta riscos? Onde termina a espiritualidade?
Neste artigo proponho uma reflexão sem romantização e sem demonização, unindo cultura, ciência e saúde integral.
O termo Ayahuasca tem origem no quíchua, onde ‘aya’ significa espírito ou ancestral, e ‘waska’ significa cipó ou corda. A tradução mais conhecida é ‘cipó dos espíritos’ ou ‘corda que liga o mundo físico ao espiritual’.
Tradicionalmente, a bebida é utilizada em rituais de:
- Cura espiritual e emocional;
- Autoconhecimento;
- Iniciação e orientação da comunidade;
- Reconexão com a natureza
Para os povos originários, não se trata de uma substância recreativa, mas de um sacramento, conduzido com respeito, preparo e propósito.
A Ayahuasca é preparada a partir da combinação de duas plantas principais:
- Banisteriopsis caapi (cipó-mariri), rica em beta-carbolinas, que inibem a enzima MAO;
- Psychotria viridis (chacrona), que contém DMT (dimetiltriptamina), uma substância psicoativa potente.
Essa combinação permite que o DMT atue no cérebro, provocando alterações profundas na percepção, nas emoções e na consciência.
Do ponto de vista fisiológico, o corpo entra em um estado de estresse controlado, com possíveis efeitos como:
- Náuseas e vômitos (tradicionalmente chamados de ‘purga’);
- Alterações na pressão arterial;
- Aumento da frequência cardíaca;
- Dilatação das pupilas.
No cérebro, ocorre uma modulação intensa do sistema serotoninérgico e uma redução temporária da chamada default mode network (rede de modo padrão), área relacionada ao ego e à identidade pessoal.
Os relatos mais comuns incluem:
- Revisitação de memórias profundas e traumas;
- Emoções intensas, como choro, medo ou euforia;
- Sensação de dissolução do ego;
- Experiências simbólicas de morte e renascimento.
É fundamental compreender que a Ayahuasca não entrega apenas experiências agradáveis. Muitas vezes, ela confronta o indivíduo com aquilo que ele evita: culpas, feridas emocionais e incoerências de vida.
Estudos científicos vêm investigando o potencial da Ayahuasca em casos de:
- Depressão resistente;
- Ansiedade;
- Dependência química;
- Transtorno de estresse pós-traumático.
Embora os resultados iniciais sejam promissores, é importante ressaltar: a Ayahuasca não é um tratamento médico reconhecido. Ela não substitui terapia, acompanhamento psicológico, atividade física regular, alimentação equilibrada ou espiritualidade vivida no cotidiano.
A Ayahuasca não é segura para todos.
Ela é contraindicada para pessoas que:
- Utilizam antidepressivos ou medicamentos psiquiátricos;
- Possuem transtornos psicóticos, como esquizofrenia ou bipolaridade;
- Apresentam doenças cardiovasculares graves;
- Têm histórico de surtos psicológicos.
O uso irresponsável pode desencadear crises severas, tanto físicas quanto emocionais.
No Brasil, o uso da Ayahuasca é permitido exclusivamente em contextos religiosos, conforme regulamentação do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD).
Seu uso comercial, recreativo ou turístico não é permitido.
Dentro da visão de saúde integral, é essencial afirmar:
nenhuma substância, ritual ou experiência isolada transforma um ser humano por completo.
O verdadeiro processo de cura envolve:
- Movimento do corpo;
- Disciplina emocional;
- Consciência espiritual;
- Responsabilidade com escolhas diárias
A Ayahuasca, quando usada, pode até abrir portas internas, mas quem caminha é o indivíduo, todos os dias, em suas atitudes.
A Ayahuasca não é milagre, não é moda e não é atalho.
Ela é parte de uma herança cultural ancestral que exige respeito, preparo e discernimento.
Expansão de consciência sem responsabilidade não é iluminação — é risco disfarçado de espiritualidade.
O corpo continua sendo templo.
A mente, um campo sagrado.
E a saúde, um compromisso diário.





