A qualidade do encontro

Marli Freitas: ‘A qualidade do encontro’

Marli Freitas
Marli Freitas
Imagem criada pela IA do Gemini

Entardeceu mais uma vez. Estou sentindo aquela vontade boa de sair por aí fazendo trocadilhos no meio do caminho. Quero sorrir sem nenhum motivo, sentir o frescor do vento, ouvir o canto dos pássaros e ver a delicadeza do riacho. Subitamente me lembro que estou aguardando a visita do meu filho caçula que, neste momento, está atrasado. Então penso que não virá e tudo perdeu a graça instantaneamente. O filme romântico que parecia engraçado perdeu o tempero. Aperto o ‘pause’ e vou saciar a minha ansiedade na cozinha. Preparo uma massa recheada de queijo mineiro e um coquetel de cereais. Nada parece fazer sentido.

Então entendo que não é a proximidade física que une as pessoas e me lembro do meu primogênito. Desde o início a nossa relação foi marcada por obstáculos físicos. Durante a gestação eu trabalhava em uma escola na zona rural que ficava depois da torre de televisão, no ponto mais alto da cidade de Dom Cavati aqui no leste das ‘Terras das Alterosas’. Eu saía de casa às 5:15 da manhã, portanto antes do raiar do dia. Tinha que enfrentar o medo do escuro, a subida íngreme, o gado no meio do caminho e o mal-estar que sempre vinha pela manhã devido à gravidez. Quando chegava na torre, depois de ter caminhado mais de 5 km, ainda descia mais uns 2 km. Essa rotina durou até o sétimo mês de gestação, pois ele nasceu em 2 de março do ano seguinte.

Vivemos momentos intensos no seu primeiro ano de vida. Como mãe de primeira viagem mantinha sentinela por 24 horas no dia. De volta ao trabalho, depois da licença-maternidade, notei ao chegar em casa a sua solidão e logo encomendei um irmãozinho para fazer-lhe companhia. A fragilidade do meu corpo ficou visível. Estava grávida e, desta vez, doente. Mal conseguia dar uns passos dentro de casa. A recomendação médica era repouso total ou perderia o feto ainda com 3 meses de gestação. Tirei licença do trabalho e o meu primogênito, tão pequenino, não podia ficar comigo, pois era uma criança hiperativa e colocaria em risco a vida do irmãozinho. Vivemos esse dilema por longos meses. O pai o levava para ficar com os avós enquanto ele trabalhava. Eu só podia ficar com ele à noite sob vigilância.

Bem, deu tudo certo! O irmãozinho nasceu e ele se sentiu responsável por nós desde o primeiro instante. Pode parecer bizarro, mas em um minuto de distração ele, com um aninho, tirou o irmão do berço que estava no quarto e me entregou na copa, onde conversava com as visitas. Assim tivemos dias de glória enquanto a família crescia.

Mais uma vez estava grávida e logo eu teria ‘três mosqueteiros’. Eu os chamava assim para fazer valer o lema, “um por todos e todos por um”. O primogênito levou muito a sério o papel responsável que tinha na família. Era o comandante da casa, mas logo aos 17 anos saiu de casa para estudar e trabalhar numa cidade vizinha. Teve que enfrentar a vida de frente e lutar pelo pão, enquanto eu me desdobrava para pagar o Curso de Direito. Entre as muitas dificuldades que enfrentou, o único alento era o orgulho que tinha de ‘sua mãe’. Passava o intervalo, entre as aulas, no orelhão da escola falando comigo, quando na verdade queria mostrar para aquelas pessoas o quanto ele me amava.

Por muitos anos vivemos assim. A conta telefônica alta, na época, era o único luxo que tínhamos. Se apaixonou pela moça mais inteligente e mais bonita da sua turma. Desafiou a realidade e ganhou com elegância o seu coração.

Tão logo concluíram o curso, passaram no Exame da Ordem e se casaram. Ainda teriam que passar por muitas dificuldades, mas ergueram a cabeça e ganharam o mundo. Foram morar no Japão.

O que posso dizer é que sofri a dor do parto por longos anos, mas hoje, se parar para fazer as contas, a ausência física já ultrapassou a presença, mas ainda sinto como se ele estivesse aqui dentro de mim. Todos os momentos que estou com ele, mesmo à distância, estamos verdadeiramente presentes. Sinto como se não houvesse nenhum limite nessa comunhão. Desde muito pequeno ele já me olhava e via algo que, naquele instante, parecia incompreensível para mim. Muitas vezes pensei, ‘o que esse menino vê em mim? ‘.

De uma coisa eu sei, ninguém nunca me olhou e enxergou com tanto zelo e precisão. Ele foi o meu primeiro incentivo real na vida. Os nossos instantes virtuais têm qualidade, o nosso vínculo cresce substancialmente a cada encontro. A minha neta Alice, que nasceu do outro lado do planeta já sente responsabilidade em me ver. Já aprendeu a dar carinho espontâneo e verdadeiro. Tem sempre um bom motivo para vir ao meu encontro. O que me faz acreditar que não é a proximidade física que une as pessoas e sim a qualidade do encontro.

Marli Freitas

Voltar

Facebook




Planta baixa do infinito

Clayton Alexandre Zocarato ‘Planta baixa do infinito’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69f2d26d-0288-83e9-9bf2-c7a405c80271
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69f2d26d-0288-83e9-9bf2-c7a405c80271

O infinito não começa.

            Ele infiltra.

             Escorre pelas frestas daquilo que se tenta chamar de limite e, quando percebido, já contaminou a ideia inteira de contorno.

            Não há borda que o contenha, apenas a ilusão de uma parede recém-pintada, ainda úmida, onde alguém escreveu com o dedo: “Aqui termina”.

             Mas o dedo atravessa a tinta, atravessa o reboco, atravessa o tijolo e não encontra o fim — apenas mais matéria, mais silêncio, mais uma repetição do mesmo gesto em escalas que se recusam a caber na palavra ‘escala’.

            O vazio não é o oposto disso. O vazio é o método.

            Há quem construa edifícios para se proteger do infinito. Linhas retas, ângulos previsíveis, metragem quadrada registrada em cartório. Cada centímetro delimitado por contrato, cada janela com sua função: olhar para fora sem se misturar.

            A filosofia do imobiliário nasce dessa tentativa desesperada de domesticar o indomesticável: transformar o abismo em planta baixa, o tempo em prestação mensal, a angústia em cláusula.

            Um apartamento de 47 metros quadrados não é um espaço. É uma narrativa comprimida.

            Uma promessa de controle. Um pacto silencioso de que ali dentro o infinito não entra — ou, se entrar, entra educado, em forma de espelho, duplicando o que já existe, jamais criando algo novo.

             A repetição é a grande aliada da propriedade privada: corredores que levam a portas que levam a quartos que levam a janelas que mostram outras janelas. Um eco visual que se vende como segurança.

            Mas o infinito infiltra.

            Ele se manifesta no intervalo entre o elevador e o andar desejado, quando o número digital pisca e por um segundo não é número, é vertigem.

            Ele aparece no corredor vazio às três da manhã, quando o sensor de presença falha e a luz não acende — não por defeito técnico, mas por recusa ontológica.

            Ele sussurra na rachadura da parede recém-reformada, insistindo que nenhuma reforma é suficiente, que todo acabamento é apenas uma pausa superficial.

            E então surge a ideia de redenção.

            Não uma redenção grandiosa, transcendental, mas uma redenção macabra, pequena, quase burocrática.

            Redimir-se de quê? De ter acreditado que o espaço podia ser possuído.

            De ter aceitado que o vazio podia ser ignorado. De ter assinado, com caneta azul, um contrato com o nada.

            Essa redenção não salva. Ela expõe.

            Há um momento — sempre há — em que a planta do imóvel deixa de ser representação e se torna labirinto.

            As linhas, antes claras, começam a se curvar discretamente, como se obedecessem a uma lógica paralela. O quarto invade a sala sem aviso. A cozinha repete a si mesma em ângulos impossíveis.

             O banheiro se prolonga em um corredor que não existia na versão anterior do mapa. Não é um erro de leitura. É uma correção do próprio espaço.

            E nesse instante, o proprietário — palavra curiosa — percebe que não possui nada.

            Que nunca possuiu.

            Que foi, no máximo, tolerado.

            A filosofia do imobiliário ensina que valor é localização. Mas localização de quê? Onde exatamente está um lugar que se altera quando não é observado?

             Que se reorganiza na ausência de testemunha? Que multiplica suas dimensões no escuro?

            O valor, então, torna-se uma ficção compartilhada, uma convenção útil para manter o terror sob controle.

             Paga-se caro por isso. Muito caro.

            A narrativa insiste em ser linear, mas o espaço não colabora.

            Há uma porta que sempre esteve ali, mas que agora parece deslocada alguns centímetros para a esquerda.             Uma diferença mínima, quase imperceptível, mas suficiente para gerar dúvida.

            E a dúvida, uma vez instalada, cresce com uma velocidade incompatível com a metragem do ambiente.

                        Talvez o infinito não seja expansão, mas repetição.

            Talvez ele não precise de espaço adicional, apenas de variação microscópica.

            Um desvio de milímetros que, acumulado, produz um abismo.

             Não se cai de uma vez. Cai-se em parcelas. Um centímetro por dia, financiado em décadas de distração.

            A redenção macabra se oferece como solução: reconhecer o erro, abandonar a pretensão de controle, aceitar o vazio como estrutura fundamental. Mas há um preço. Sempre há.

            Aceitar o vazio implica abrir mão da distinção entre dentro e fora. Significa admitir que as paredes são simbólicas, que o teto é uma sugestão, que o chão pode, a qualquer momento, inverter sua função.

             Não há mais abrigo. Apenas continuidade.

            E, paradoxalmente, é nesse abandono que surge uma forma distorcida de liberdade.

            Sem a necessidade de manter a coerência do espaço, a mente começa a explorar possibilidades antes impensáveis.

            Um corredor pode ser atravessado sem ser percorrido

            . Uma porta pode ser aberta sem ser tocada. Um quarto pode conter todos os outros quartos simultaneamente, dependendo do ângulo de observação — ou da ausência dele.

            A narrativa se fragmenta.

            Não há mais começo, meio e fim. Apenas pontos de intensidade conectados por lacunas.

            O texto se escreve nos intervalos, nos espaços em branco, nas pausas que antes eram ignoradas.

            A linguagem tenta acompanhar, mas tropeça. Palavras se repetem com pequenas variações, como se buscassem uma precisão impossível. Frases começam e não terminam. Ou terminam antes de começar.

            Há um ruído constante, quase imperceptível, como o som de um prédio respirando.

            E talvez respire.

            Talvez cada estrutura construída seja um organismo lento, absorvendo as intenções de seus ocupantes, digerindo suas rotinas, excretando pequenas distorções que, acumuladas, alteram a própria realidade.

            Não por maldade. Por necessidade.

            O infinito precisa de veículos, e o concreto é um excelente condutor.

            A redenção, então, deixa de ser um objetivo e se torna um processo contínuo de desintegração da certeza.

            Cada vez que se reconhece a falha na percepção, algo se dissolve. Não apenas uma crença, mas uma camada inteira de interpretação.

             O mundo se torna mais instável, mais fluido, mais próximo do que talvez sempre tenha sido.

            E o vazio?

            O vazio não ameaça. Ele aguarda.

            Não há urgência no nada. Não há pressão. Apenas uma disponibilidade infinita para acolher aquilo que deixa de se sustentar.

            Cada ideia que colapsa, cada estrutura que se revela ilusória, cada parede que se desloca alguns centímetros — tudo encontra no vazio um destino inevitável e, estranhamente, adequado.

            A perturbação não está no vazio em si, mas na resistência a ele.

            Na insistência em manter formas fixas em um contexto que favorece o fluxo. Na tentativa de congelar o instante em um contrato de longo prazo.

            Na crença de que é possível habitar um ponto sem ser afetado pela totalidade.

            Mas o infinito infiltra.

            Sempre.

            E talvez — apenas talvez — a única redenção possível seja parar de construir paredes e começar a observar as rachaduras.

             Não como defeitos, mas como aberturas. Não como sinais de falha, mas como convites.

            O texto não termina aqui.

            Ele apenas interrompe sua própria continuidade para sugerir que há algo além desta linha, algo que não pode ser contido na sequência de palavras, algo que escapa à sintaxe e se instala diretamente na percepção.

             Um desvio sutil, uma alteração mínima, um deslocamento de sentido que, se seguido, leva a um lugar onde o conceito de lugar já não se aplica.

            E nesse ponto — que não é um ponto — a filosofia do imobiliário se dissolve completamente, revelando-se como o que sempre foi: uma tentativa elegante de negociar com o indizível.

            Sem sucesso.

            Mas com estilo.

Clayton Alexandre Zocarato

Voltar

Facebook




Startling revelation

Surendra Nagaraju: ‘Startling revelation’

Surendra Nagaraju - Elanaaga
Surendra Nagaraju – Elanaaga
Imagem gerada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69edf2cf-1d58-83e9-9d5c-b7a62aaf8af3
Imagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69edf2cf-1d58-83e9-9d5c-b7a62aaf8af3

Once a birdless tree, a garden sans spring, a sea bereft of waves, or a reptile befriending a desert devoid of marquee creeps into your heart, it is the end.

The outcome that threatens the very existence of an essential inner ingredient generates an untold peril. True it is that one should resist it but the effort may stop just at the stage of proclamation.

Foreseeable happenings can be smelt but not those that suddenly surface with no inkling.

Non-stop, unabated circumspection, with open vigilant eyes on all sides, becomes imperative.

By the time you realise that a dried-up well is equal to a honeyless comb, it is too late.

Surendra Nagaraju – Elanaaga

Voltar

Facebook




Um par de meias pretas

Marli Freitas: ‘Um par de meias pretas’

Marli Freitas
Marli Freitas
imagem criada por IA do Gemini
Imagem criada por IA do Gemini

Hoje acordei sentindo um desassossego. Preciso deixar que as palavras fluam como torrentes que desaguam, lavando um mundo particular. Porém, o que se faz represado em mim clamando atenção, são águas dormentes que já fizeram sangrar o meu coração frágil e o meu corpo indefeso. Consequência de uma mente inquieta que desafiou a lógica, fazendo perguntas intrigantes onde não podia obter nenhuma resposta.

Diante dos conflitos que envolviam a minha infância, sobravam perguntas e uma reação febril causada pelo desespero de não compreender um mundo sombrio, onde ou se era isto ou aquilo. Sem alternativas, amei o mundo da imaginação, que, na minha santa inocência, era um caminho de fuga. Ainda não conhecia Machado de Assis, mas já desenvolvia a sua máxima de tirar o maior bem do pior mal. Por mais que tentasse desviar o olhar, sabia muito bem separar o joio do trigo e posso dizer que extrair o bem, muitas vezes, é como tentar extrair leite de pedra.

Na observação da natureza, encontrei ‘Aquele’ que me criou e ‘O’ amei. ‘Ele’ foi crescendo dentro de mim e quanto mais crescia, mais resiliente me tornava. Sempre fui um misto de docilidade e teimosia, e usei estas características a meu favor. Contestei o mal e amei o bem. Nasci dor, cresci resiliência e extrapolei todas as expectativas.

Vi e vivi entre a guerra e a paz. Em um mundo de verdades nuas me vi à deriva. Nos momentos de paz, viajei nas histórias encenadas pelo meu paizinho querido. Nos momentos de guerra, via o mundo de ponta cabeça diante da embriaguez daquele que tanto amava. Ele era alguém especial e, como tal, o mundo girava em torno da sua sobriedade ou embriaguez, que norteava a abundância e a escassez, o amor e o ódio, a alegria e a dor. Diante dessas polaridades, inconscientemente, trabalhava o caminho do meio.

Com o tempo comecei a viajar nos livros da Biblioteca Pública Municipal. Encontrei um refúgio nos mundos encantados, pois as responsabilidades impostas, prematuramente, sempre pesavam sobre mim. Cada dia ficava um pouco mais sabida e comecei a sonhar. Parecia algo natural. Só dependia de mim e isto era, simplesmente, fantástico! Amei o saber e não pretendia me separar do desejo de buscar respostas às minhas perguntas.

Quão inocente fui! Eu precisava de tantas coisas para ingressar no Ginasial (Anos Finais do Ensino Fundamental)! Ia precisar de dois uniformes completos (um para frequentar as aulas normais e outro para as atividades de Educação Física), cadernos, lápis, borracha, caneta, livros (que eram comprados para cada matéria) e outros materiais escolares. Eu só consegui comprar (com o agrado de uma madrinha) um mísero par de meias pretas.

Foi com aquelas meias pretas nas mãos que o meu mundo acabou e, neste instante em que deixo estas palavras doídas escorrerem da minha alma, ainda debulho em lágrimas como naquele dia, em que, com as meias pretas nas mãos, ouvi as palavras mais duras da minha vida “você já sabe demais, não precisa e não vai estudar”. Era espantoso demais e aquele instante não cabia no meu pior pesadelo.

Durante alguns dias o dilúvio desceu sobre mim. Não havia nada e nenhum lugar que pudesse conter as minhas lágrimas. Quando falo de invisibilidade, é sobre os piores dias da minha vida, onde fui lançada ao trabalho infantil doméstico, aos onze anos de idade, e obrigada a me virar sozinha no mundo. E, por dois longos anos, ninguém percebeu que eu estava fora da escola.

Marli Freitas

Voltar

Facebook