O que não conseguimos ver em Rothko
Bianca Agnelli
‘O que não conseguimos ver em Rothko’

O que faz de uma obra de arte uma obra de arte?
Sua técnica? O que ela me faz sentir? O preço que alcança em um leilão? A quantidade de pessoas que fingem tê-la entendido?
Ao traduzir para o italiano o livro de Péricles Gasparini, Cornici Alternative, Arte o Ribellione?, fui obrigada a me fazer exatamente esse tipo de pergunta. Na introdução, Gasparini não se questionava apenas sobre o valor de suas próprias criações, mas também sobre o que transforma um objeto em uma obra e uma obra em algo digno de ser preservado e transmitido ao longo do tempo. Quanto desse valor pertence ao artista e quanto, por outro lado, ao olhar que o reconhece?
O artista nasce para ser incompreendido, e sobre isso não há discussão. A melhor arte é aquela que te faz duvidar de si mesmo, não é?
Acredito que a arte mais ‘apreciável’ seja aquela que me provoca um turbilhão no estômago. Uma sensação que se parece com um atordoamento.
De qualquer forma, quando cheguei ao Palazzo Strozzi, em Florença, eu estava mentalmente pronta para ser atordoada: qualquer coisa, desde que não permanecesse indiferente.
Spoiler: diante das majestosas pinceladas amarelas, vermelhas e escuras, talvez eu tivesse esperado sentir algo a mais.
Mas talvez, como dizem algumas mulheres com a autoestima comprometida, “o problema sou eu”.
E ainda assim, Rothko provavelmente teria apreciado essa reação. E, na verdade, talvez desconfiasse da reação oposta.
Porque Mark Rothko não queria que suas pinturas fossem simplesmente admiradas. Não lhe interessava que alguém pensasse “que belas cores” e seguisse para a próxima sala. Ele queria provocar algo muito mais incômodo, uma espécie de confronto.
Observando as obras reunidas no Palazzo Strozzi — na exposição visitável até 23 de agosto de 2026, com mais de setenta peças provenientes de alguns dos mais importantes museus do mundo, do MoMA ao Metropolitan de Nova York, da Tate de Londres ao Centre Pompidou de Paris, que percorre praticamente toda a trajetória artística de Rothko, desde os primeiros trabalhos figurativos até os grandes campos de cor que o tornaram célebre — tive a mais vívida percepção de que o verdadeiro focus de suas pinturas não eram as cores, mas o espectador.
Rothko nasceu na Letônia com o nome de Marcus Rothkowitz e emigrou para os Estados Unidos ainda criança. Ao longo da vida, atravessou guerras, migrações, crises econômicas e mudanças culturais imensas. Ainda assim, em vez de pintar o mundo exterior, acabou retirando de suas telas quase tudo: pessoas, paisagens, objetos, histórias. No fim, restaram apenas cor, luz e silêncio.
Uma escolha um tanto insana, se pensarmos bem. Como se um escritor eliminasse a trama para ver se o leitor ainda permanece.
Em 1950, Rothko visitou Florença com sua esposa Mell e ficou profundamente impactado pelos afrescos de Beato Angelico no Museu de San Marco e pelo Vestíbulo da Biblioteca Medicea Laurenziana, projetado por Michelangelo. O Palazzo Strozzi construiu parte do percurso justamente em torno desse diálogo inesperado, estendendo a mostra também a esses lugares da cidade que o marcaram tão profundamente.
A parte que mais me tocou, porém, não é a dimensão mística que todos associam a Rothko.
Foi a provocação, o tapa de Rothko. Especialmente o imagino direcionado à elite do Four Seasons de Nova York. Não tanto porque suas obras não foram aceitas, mas porque ele próprio as retirou antes que se tornassem apenas o pano de fundo de algum jantar de mil dólares… Um gesto que considero elegantemente vingativo, infinitamente mais punk do que muitas provocações contemporâneas.
Senti isso em suas telas: a transgressão descarada de uma superfície pintada com um cuidado quase religioso. Como se dissesse, veja você o que enxerga em tudo esse escuro.
Como se dissesse: se você não vê nada, talvez o vazio seja você.
Talvez seja também por isso que Rothko continue dividindo as pessoas. Sua arte não oferece apoios, não conta uma história, não sugere realmente o que você deveria sentir.
Ela te deixa sozinha em uma sala com você mesma e com um retângulo amarelo do tamanho de uma parede.
E, ao que parece, para muitos de nós, essa já é uma experiência suficientemente extrema.

